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dezembro 17, 2008

Sim, eu estive lá!








Há coisas que marcam a nossa vida para sempre. De umas, revivendo-as, só nos apercebemos muito tempo depois de acontecerem. Outras mostram-nos logo que estamos a viver um momento especial, assim como se dobrássemos uma esquina. Ambas determinam circunstâncias de fronteira, nódulos onde os nossos destinos se fazem caminho.

Um destes momentos aconteceu no Domingo, 14 de Dezembro, na Cidade Universitária. Sim, eu estive lá! Percorri os vários seminários, detendo-me, sobretudo, nos de Educação e Trabalho. Valeu a pena! Percebi, ouvindo os diversos locutores, que há gente de qualidade a pensar esta Democracia, aparentemente anémica, na realidade, plena de valores esperando apenas que a hora chegue, que o momento se perfaça.

O momento parece chegado!

Quase finda a grande bebedeira neoliberal, exangue a sua economia, falhados os seus pressupostos, oferecendo um futuro trágico e sem propostas onde só espreitam ameaças sombrias para a maior parte dos povos, concitam-se as vozes que se hão-de opor, firme e claramente, ao pré-anunciado cataclismo destruidor de todas as esperanças. Nesse dia, a Faculdade de Letras, primeiro, e a Aula Magna, depois, foram a casa das Esquerdas. Desunidas, quase sempre, rezingonas muitas vezes - diz-se que por natureza - encontraram-se em pleno processo de fraternidade, luminosas na descoberta da força das suas razões e das suas gentes.

Apesar de empolgante o encerramento do Fórum das Esquerdas, na Aula Magna, foi somente o corolário de uma circulação de pessoas e ideias que, todo o dia, fervilhou, em troca intensa, entre os muitos participantes. Percebe-se, por isso, o incómodo generalizado que atacou tantas pessoas e instituições. Umas porque sentem que este movimento ameaça o “status quo” onde se instalaram com algum conforto, outras porque, desviadas da acção que lhe caberia cumprem mandatos que não convêm aos ideários que dizem professar. Por isso se falou em Educação, Economia, Trabalho, Cidades e Saúde numa perspectiva integradora dos direitos e bem-estar das populações, criticando-se soluções estreitamente viradas para o interesse de minorias que, com a crise, foram claramente desmascaradas na sua acção de, enriquecendo, empobrecer o país e as nações.
Da fertilidade das intervenções havidas sobrou, para o exterior, a excessiva simplificação de se pressupor o nascimento de um novo partido político. Não sendo de excluir esta hipótese, aqueles que tanto a acentuam, não perceberam ainda que a força que se congrega procura mais que a ocupação de lugares nos órgão de governo. Que se prepara para se assumir como poder é verdade e é direito que lhe cabe. Mas como foi dito, por todos os participantes, o importante é seguir o processo de estudo, aprofundamentos de ideias e de organização que provoque o advento de teses capazes de inverter o rumo das sociedades, aqui e agora, visando um mundo socialmente mais equitativo e com maiores liberdades individuais. Só enquanto meio para atingir este desiderato o mando é importante. Não nos interessa o poder pelo poder, nem pelas negociatas que nele se fazem e depois dele continuam. A promiscuidade entre governos e grupos económico-financeiros, com especial força destes últimos, provocou danos profundos no tecido moral e económico da Nação. A continuidade de tal estado de coisas só tenderá a aprofundar as crises e a conduzir-nos para o abismo. Veja-se como o Capital Financeiro subverteu, de imediato, a função dos apoios que os governos lhe concederam para ajudar a economia real. Fizeram chegar às empresas os fundos libertados? Não senhor! Capitalizaram-nos de imediato, congelando a circulação financeira e aprofundando a crise.

Dizem quase todos os analistas que estamos a mudar de paradigma. Também acho e, como eles, não sei para onde as coisas se dirigem. O que sei é que não quero ficar como espectador impotente a ver tudo a derruir sem modo de sobre elas actuar. Pretendo ter um papel activo na condução da minha vida e do meu tempo. E, sei, não estou sozinho. O dia 14 veio reafirmar isto plenamente.
Vamos portanto agarrar nas nossas mãos os destinos que são nossos e sabendo de fonte certa que temos razão e força, conseguir a implementação de políticas sociais justas. Deixemos de, em nome do Socialismo, transportar o pesado pendão das direitas. Eles que o defendam e carreguem. É o seu papel. O nosso é que é bem diferente.

Para tal se alcançar basta que o espírito do Fórum das Esquerdas permaneça e se alargue. O resto, seja lá ele o que for, virá por si.

Publicado in “Rostos on line” – http://rostos.pt

dezembro 13, 2008

As revoltas do Sr. Presidente








Se em alguma coisa este povo está de acordo é na opinião generalizada de que temos, na pessoa do Presidente da República, um cidadão íntegro e acima de qualquer suspeita. A partir daqui quebra-se a unanimidade e é cada um por si.

Apesar disto, por mim, nunca me escuso a mostrar o meu desafecto pelo Dr. Cavaco Silva, em quem nunca votei e, jamais se devendo dizer desta água não beberei, penso nunca votar. É que apesar de a sua honestidade não estar em causa, não consigo esquecer-me de que foi “por acaso” que foi fazer a rodagem do seu carro até à Figueira da Foz, onde “por acaso” decorria o Congresso do PSD e logo, “por acaso” foi eleito para a chefia do partido. Para mim, que creio pouco em acasos e questões de sorte e azar, foram acasos demais e puseram-me de sobreaviso em relação ao modo político de ser do personagem.

Vivi depois a sua maioria, o desenfreado fontismo viário e os tiques autoritários. O homem foi como uma vacina. Se eu já torcia o nariz a maiorias absolutas, ganhei a certeza de que elas são muito perigosas para uma vivência democrática. A essência da democracia – além da liberdade e responsabilidade – assenta na negociação como forma de atingir metas, sem esmagar as várias minorias que não se revêem no projecto maioritário. Para o então primeiro-ministro as minorias eram o verdadeiro entrave à sua visão grandiosa da forma de boa governança. Foram-no efectivamente no buzinão da Ponte 25 de Abril, se bem que já um pouco para o tarde.

 Ao olhar para o Presidente, na genérica rigidez corporal que o domina, na escusa constante a comentar os mais graves factos que assolam o país, na visão conservadora que envolve o secretismo dos seus contactos com o governo e outros poderes da República, percorre-me um arrepio e, mesmo sem querer, não posso deixar de recordar o perigo de, sem uma constante vigilância, decairmos em direcção ao “lago do breu” que um certo “dinossauro excelentíssimo” legou, por demasiado tempo, a Portugal. Também ele dizia querer o bem do povo, era honestíssimo e vivia numa frugalidade exemplar.

No entanto, este homem, que parece pairar acima do correr dos dias da gente vulgar que somos, é, embora por poucas vezes, arrebatado por revoltas intensíssimas. Recordo o caso dos Açores e, ultimamente a sua intempestiva declaração sobre o problema do BNP- Dias Loureiro. Estas duas situações contrastam, de forma notória, com o fugaz comprometimento público quanto a factos e situações cruciais para a boa saúde da sociedade e com a doçura e submissão com que aceitou a destituição da sua dignidade, enquanto Presidente de todos os portugueses, quando, na Madeira, foi o Sr. Silva, do Alberto João, e aceitou não ser recebido na Assembleia Regional. Enfim, critérios!

No entanto, mais uma vez, a sua revolta pareceu-me extemporânea e algo exagerada, mais parecendo defesa antecipada que efectiva resposta a alguma putativa acusação que, quanto sei, ninguém fizera. Volto a frisar: pode não se gostar do homem, mas não se desconfia da sua honestidade material. Então para quê o alarido?

Simples! Ele sabe muito bem que, no decorrer dos seus mandatos foram catapultados para enriquecimento rápido alguns serventuários de estado. Como o fizeram não o sabemos de todo. Há névoas que cobrem muitas utilizações de verbas entradas no país. Ouvimos falar de alguns escândalos. Um por outro deu entrada na Justiça, cedo se perdendo o rasto dos casos e quase nunca se sabendo de conclusões ou sancionamento de culpados. Sabe também do excessivo conluio entre o poder político e o económico-financeiro, permissivo a alternâncias suspicazes e, muito humanamente, não se quer ver metido nesses negócios em que não entra e, creio bem, não aceita, embora não lhe tenha conseguido meter travão. Talvez isso o incomode e lhe faça “saltar a tampa”. Só que não tira as necessárias consequências e em vez de mover céus e terra para se livrar de tão ruins companhias – e nos livrar a nós – enceta a fuga para a frente, toma o seu banho lustral, mostra o enfado que tais personagens lhe causam, mas não age com a força suficiente para se libertar de tais incómodos. Por tanto eles persistem ,multiplicam-se, alastrando como cancro, condenado esta sociedade à incessante menoridade a que nos querem obrigar. É isto que o presidente sabe, é isto que se recusa a ver.

Na verdade, por mais tabus que se estabeleçam, a realidade cai sempre, sem misericórdia, sobre as nossas cabeças.



Publicado em “Setúbal na Rede” http://www.setubalnarede.pt/

dezembro 10, 2008

Memória 12 - desafio







o sonhador
tinha três mãos apontando as oliveiras
raminho de alcatrão flor de pedra
poema do amor

uma das mãos era fumo
as outras eram mulheres
que amo todas em ti

da testa caiam lagos e nadavam patos
alguma coisa para além do aborrecido
dos dias e contas de somar

pernas e braços e peitos supraciliares
dentes nas mãos na boca pregos
martelos e ceifeiras a voar

estrada nos dedos dos pés do alentejo
das formigas e dos olhos
anatomia do acento circunflexo
quase pensamento

perceba o poeta quem quiser



Évora - 1969

dezembro 04, 2008

A caneta de oiro








Há frases e actos os quais, pelo seu peso simbólico, marcam nas nossas memórias um terreno de constante rememoração. Para mim, no referente à primeira situação, está a sentença proferida pelo Dr. Mário Soares do “sou republicano, socialista e laico”. Não me revendo em muitas das públicas atitudes e ideias do Ex- Presidente da Republica, não posso deixar de reconhecer que utilizo bastantes vezes esta frase como forma de identificação.

Quanto ao segundo tema, os actos, recordo-me que um amigo que nada tem a ver com ideologias de esquerda, como facilmente se perceberá, querendo mostrar-me algo concreto que explicasse o seu devotamento a essa desaparecida figura contava-me que, em certo momento do consulado do ditador, numa qualquer efeméride que não fixei, foi-lhe oferecida uma caneta de oiro.

Devia ser bela porque, contrastando com o distanciamento de Salazar perante o objecto, um outro membro do governo, ficou encantado. De tal maneira foi que, ultrapassando o natural recato que seria de bom-tom preservar, atreveu-se a pedi-la ao Chefe do Governo.

Este tê-lo-á olhado com o seu ar de pássaro bisnau retorquindo-lhe:
-Esteja Vossa Excelência descansado que ela ficará guardada até terminar o seu mandato. Quando isso acontecer será sua.
Assim ficaram as coisas. Até que um dia, chegado ao seu gabinete viu, o nosso ministro, a sua secretária deserta de papéis, luzindo de limpa e, no centro, sobre a pasta mata-borrão, refulgia a demandada caneta de oiro.

Foi assim que o ministro soube que chegara ao fim de linha.

Isto, que causava a admiração do meu amigo, para mim, nada mais era que a mostra de desrespeito e cinismo com que o ditador tratava e julgava todos, mesmo aqueles que de mais perto o seguiam. Não via aqui qualquer mostra de elevação de espírito ou a excelsa subtileza reclamada pelo seu admirador. Não via mas…

Com as coisas que se passam no Governo Socialista, mormente no caso da educação, com o escândalo dos falíveis bancos e com as falhas detectadas na sua fiscalização, começo a pensar se não seria bom que o Eng. Sócrates e o Dr. Cavaco Silva começassem a oferecer algumas canetas de oiro a uns quantos personagens notáveis da nossa praça.

Se o fizessem e acertassem nas escolhas, até eu me comprometia a esportular, das minhas frágeis economias, o bastante para comprar duas canetas de oiro que teria imenso prazer em lhes oferecer.

Eu, reconheço, sou mesmo assim. Absolutamente agradecido e generoso!


Publicado in “Rostos on line” – http://rostos.pt

dezembro 02, 2008

Os degraus de Clarisse







O despertador zuniu. O braço lento silenciou-o. Seguiu-se o zumbido do telemóvel. São horas.!
Clarisse procurou acordar o corpo, na aparência, há muito desperto, obsessivamente entretido em listagens de tarefas. Habituado a tal exercício, o cérebro teimava em não se desligar. Foi necessário mobilizar toda a energia anímica para arrastar a perna para fora do colchão, soerguer-se lentamente.
Tem de ser - pensou - e concluiu o gigantesco empreendimento. Levantar-se, após 3 a 4 horas de sono. Já lá iam uns meses nisto … pois, ocupada em longas noites de correcção de exercícios, elaboração de fichas, relatórios, critérios de avaliação, .. a panóplia habitual da docência nos tempos que correm. Nada que pudesse evitar, tudo obrigatório … (esta a firme resposta dada ao marido que lhe pedia pausa, pausa…)
Luz acesa. Olhou-se. A imagem devolvida não merecia parança. O rosto empalidecido, sem fulgor no olhar contornado a negro, não lhe parecia o seu. E se o era, não queria vê-lo. Deter-se nele exigia uma reflexão sobre o estado real da sua saúde, da sua qualidade de vida. Não, não, filosofias a esta hora não! Lá se ia passando o tempo e os relógios não se compadecem com metafísicas. Vamos lá ao plano de emergência: banho quente, escaldando a rigidez dos membros, água gelada afastando a neblina mental, corrida ao roupeiro - bendita moda das calças de ganga. É só trocar a camisola. O casaco pode ser o mesmo. É certo que ando embrulhada nele há uma semana… e depois? Tenho frio… preciso de comprar umas camisolas, um casaco … amanhã. Hoje não tenho tempo. O dia está ocupado com reuniões. . -, iogurte engolido, hesitação sobre o que tragar de seguida – sim, claro, o multi-vitamínico antistresse; o café adiado para o intervalo das 10h, ou, com sorte, para daqui a pouco, se chegar à distância de uma bica na pastelaria.
Decisão tomada, pasta numa mão, chaves do carro no bolso, as de casa na mão já resvalam para o bolso do casaco … (claro que não as posso perder pela segunda vez), bolsa a tiracolo, pasta do portátil ao ombro é tempo de se atirar para o dia fresco. Um espasmo atravessou célere o corpo.
Ai as costas! A fisiatra mata-me. Ou mato-me eu neste ar composto de vendedor ambulante. Anima-te! É só não esquecer o projector, ir buscá-lo e pendurar ao ombro mais esse objecto. Não posso defraudar os miúdos, empenharam-se tanto!

A figura masculina emergiu do corredor, interrompendo a fuga para a rua. Susteve o passo, parada. Todo o seu corpo sugeria movimento, impaciência…
– Olá estás bom, até logo - Um beijo aflorado, só pensado, que a mente estava noutro espaço e tempo.
- Não dormiste outra vez, retrucou a voz masculina.
- Pois que queres, há trabalho para fazer. Se não me despacho… agora não tenho tempo. Adeus.
E lançou-se para o patamar, ouvindo o ríspido «Adeus.» e o que se seguiu: Pensa que um dia não terás de todo tempo. Para ti, para nós, para os miúdos. Ah, esqueceste-te de levar o teu pai ao médico… levei-o eu, telefonou-me aflito
Clarisse autómato, Clarisse de biorritmo alterado, Clarisse em ansiedade permanente nada ouve. Vai pensando na lista de tarefas do dia de trabalho, da semana de trabalho. Alheia a tudo, já está finalmente no carro… e em movimento! UF. Chego a horas de ir buscar o projector e talvez de respirar um pouco.
Olhar distraído pára no retrovisor. Quem és tu que acumulas papéis, funções, despachas obrigações e já te tornaste mãe administrativa, burocrata que delega?
O rodar ( «ó rodas, ó engrenagens r-r-r-r-r-r-r eterno! », ó meu A. Campos!) despertou-a em sobressalto:
os miúdos… não combinaram quem vai buscar o Diogo. O Miguelito fica com a minha mãe depois da escola. Bolas e agora? No intervalo telefono. Como ontem dormiram em casa dos meus pais, nem me lembrei deles… Deus! Não me lembrei dos meus filhos!
Por instantes aflorou furtiva a lágrima. Mágoa acumulada, sobrepondo-se à tralha carregada, Clarisse ainda consegue ligar o telemóvel. Ninguém atende – os meus filhos…, o meu pai … O Tó Miguel tem razão, em nome do quê, de quem pareço uma barata tonta?
8.15 da manhã, passagem pelo portão da escola. Alguns adolescentes caminham sonolentamente. Olhares e sorrisos cruzados. A professora Clarisse gosta de lhes dar uma palavra matinal prazenteira. Já não tem dores, nem pesos na consciência, nem filhos esquecidos, nem pais a suplicar atenção, nem marido relegado.
Stôra requisitou o projector? Hoje mostramos os trabalhos não é? E tem colunas boas? Fizemos um vídeo.
Claro que sim. Vou buscá-lo. Até já.

As vozes luminosas e sorridentes, os passos ensonados em busca do acordar afastam-se, enquanto Clarisse sobe os degraus da escola. Acelerada, acrescenta ao seu “visual” mais um adorno – o projector. E lá vai:

… sobe que sobe
Sobe as escadas
Clarisse é nova
Rosto bonito
Empalidecido

Clarisse pára!
Ai, o livro de ponto! – mais um fardo
E lá vai Clarisse

Anda que anda
Até ao bloco.

Recebe a chave da sala. Hesita sobre o modo de ordenar tantos objectos. Mas começa a escalar:

Sobe que sobe
Arrastando-se…

E nesse instante uma ou duas vozes solidárias, dizem:
- Stôra, nós ajudamos.
- Obrigada meninos.

É deles o tempo até ao final do dia. O sorriso de Clarisse floresce de novo, a atenção dada a cada turma, a cada grupo de alunos não pode diminuir. Clarisse esquece o Miguelito, o pai, a mãe, o marido.
O júbilo da aula, as vozes acesas, implicadas em debate de ideias sabem bem a Clarisse. Como fazer de modo diferente?

13.15 . Passou tão depressa. Tenho de almoçar qualquer coisa rápida … E arruma o portátil, o projector, os cabos, os seus cadernos, as folhas de registo sobre os trabalhos apresentados…
Inicia a descida, após o fecho da sala ( há muito que a revoada de adolescentes se foi… agora menos solidários pois há o almoço e as aulas da tarde), transportando a parafernália indispensável àquela aula. Seria simples se o choque tecnológico fosse real e as salas todas tivessem equipamento pronto a usar. Consola-se, todavia, Por cá até temos bastante material, o pior é que não chega…
O riso, as vozes juvenis fizeram-na pensar nos seus meninos – não os alunos, os seus filhos.
Correu a entregar, projector, depositar livro de ponto, desembaraçar-se do seu portátil. Sentou-se. Ligou o Tmóvel.
- sim sou eu. Não consegui. Trabalhei outra vez até às três…. Pois sai muito tarde …. Como tinhas os meninos…. O Miguelito?.... O quê ? tem febre? Foi para a creche? Sim? Com benhuron… pois… pediatra … sim… sim vou marcar. Beijinhos até logo.Consultou a agenda antes de telefonar para o infantário. Duas reuniões: uma de conselho de turma e outra de Departamento. Lá para as 19 horas estou despachada. Rápida pensou nos sogros. Não, a mãe do Tó Miguel está doente… O meu pai vai buscar o Diogo, eu vou buscar o Miguelito e levo-o ao pediatra.

14.30 – tosta mista e iogurte. Uma peça de fruta. Café para arrebitar.

De novo, planeou o dia. Ligou para o infantário Sim era melhor levar o menino ao médico. Cheio de febre e vómitos! Bolas, Bolas! O Tó Miguel hoje tem reuniões até tarde. Sim vou buscá-lo.

15.00
Não te esqueças que temos reunião de subnível para planificar e afinar as actividades do PAA . Não te esqueceste? Olha e trouxeste o PEE? Tem de bater certo com as metas. É para fazer antes da reunião de Departamento.Agradeceu vivamente à colega ( …. há almas caridosas que recordam.. não fora esta cadeia…, com tanta reunião esquecíamo-nos de metade)

- Claro que não. Tenho o Miguelito doente mas resolvo isso ( por dentro renascia a zelosa profissional e desmoronava-se a mãe… Gizava um plano. Sim ia buscar o Miguelito, mas seria a sua mãe a levá-lo ao médico)

A colega afastou-se, comentando o chato que aquilo era. Chato? Já é assim que nós falamos do que nos é mais querido ( afastou o pensamento… ia conduzi-la ao incumprimento)

Mãe, sou eu,sim já marquei o pediatra . Tenho reuniões não posso faltar. Levas o Miguelito ao médico. Depois vou buscar-vos. A consulta é às 17.30. Como o médico demora sempre….
Pois é…. Vou buscá-lo agora. Até já.

Corre Clarisse, corre que corre.

Leva o menino triste, escaldando. Mima-o, cumula-o de beijos. Miguel não reage. Clarisse explica-lhe o planeamento do dia, acrescentando, manipuladoramente, tu sabes que a mãe tem de trabalhar para termos dinheiro, e a avó gosta muito de ti. Avó é mãe duas vezes.

Miguel deixa-se levar. Calado roda nas mãos um papel que abandona no banco, ao lado do saco da mãe quando Clarisse o deposita em casa da avó.
A rapidez dos beijos, as palavras de carinho fugitivas, as combinações céleres, tão despojadas de afecto, preenchem o coração de Clarisse enquanto se dirige ao carro.
Que fazer??

16.15. Abriu a porta traseira do carro e atirou para lá o saco. Rumou para a escola. Estacionou.
Abriu a porta traseira do carro, novamente. Colado ao saco o papel que Miguelito abandonara. Era um desenho: no centro, diante do computador, rodeada de livros a mãe. Ele, na gigantesca atitude acusatória, colocara-se muito pequenino à entrada do escritório. Entre ele a mãe, ocultada pelos papéis, nada. Um vazio. De costas, a mãe. De frente o pequenito de três anos, representando-se insignificante. Pelo meio nada. O espaço de desolação bem visível!

Clarisse tremeu.


Fernanda Afonso

Publicado in “Rostos on line” – http://rostos.pt

novembro 24, 2008

canção adormentada







I
calados pela noite
os amorosos corpos
esperam a nascente
o momento de água
o ventre

tudo chegará na sua vez
tal o real dos dias
na galáxia dos lençóis

centímetro a centímetro
habito de imaginação
a nave da tua pele

com estas mãos construo-te agora
imagem marginal ao pensamento
na duração do tempo

II

no percurso dos lumes dos sentidos
ao dealbar incerto da insónia
caminho por ti escalo-te pico de ternura

tento o futuro debito o sono
nas laudas das histórias

se a noite morreu então que viva
inteirinha nos arcanos da memória

novembro 19, 2008

A autista e o "déjà vu"







Para que não haja mal-entendidos informo, desde já, embora tente racionalizar o mais possível o meu pensamento e indignação, este artigo será, claramente, anti-ministra da educação e respectiva corte.

Não é aliás o primeiro, porquanto, aqui no Rostos “on-line”, dediquei, à inefável senhora, em 1 de Novembro de 2007 a crónica intitulada “É a estatística estúpido”; em 13 de Dezembro do mesmo ano saiu “ O dado e o enunciado” e, finalmente, no rescaldo da primeira grande manifestação de professores foi publicado, em 13 de Março de 2008, “A mão que lhe dá o voto”.

É, como podem ver, um amor que se vai estendendo no tempo e com o tempo se vai confirmando. Aquilo que pensei e escrevi tem, infelizmente, ganhado corpo tornando-se cada vez, se não mais real, pelo menos mais visível.
O problema dos professores – não me refiro apenas ao episódio avaliação – começou muito antes dela e do estatuto da carreira docente. Começou com a posse de uma ministra eivada de neoliberalismo, de terceira via, que tomou, os professores em bloco, como inimigos a abater.

Corria, no início da legislatura, o discurso impressionista de ataque às corporações com alguns proveitos para o Governo que pretendia apresentar uma imagem de força e competência. Percebemos hoje que essa actuação, mais que modificar algo servia, sobretudo, para criar uma identidade reformista. Como é habitual, uma identidade forma-se, geralmente, por oposição a outra pré-existente. No caso do Ministério da Educação, estava-se mesmo a ver que os professores encontravam-se bem a jeito. Assim começou a intoxicação da opinião pública, aparecendo a ministra como a paladina dos bons cidadãos, contrapondo-se aos vilões que tinham o desplante de ensinar - mal - nas escolas e trabalhar pouco. Não procurou encontrar o mau e apoiar o são. Antes pelo contrário. Aproveitando alguns ruins exemplos, minoritários embora, pretendeu que a excepção fosse a regra. Porque a má-fé é como um vírus, altamente contagioso, esta táctica colheu frutos. A ministra embriagou-se de poder, cortou os seus laços com o mundo dos seres vulgares. Subiu ao Olimpo!

Nos antiquíssimos tempos em que a palavra apareceu ministro designava um servidor, em acepção abrangente e servidor de deus, em significado restrito. Com o tempo a significação da palavra foi-se alterando e de servidor o termo passou, para algumas pessoas, a valer o contrário: aquele que, por ter o poder do deus, é servido. Ora adivinhem lá qual foi o sentido adoptado pela nossa ministra?

Pois é, inebriada de poder, esquecida que a fonte da sua legitimidade é o voto e o poder popular, crendo o seu poder derivado directamente de algum confuso deus, tomou a sua palavra como a ordem natural das coisas e o seu querer como único e inquestionável desígnio dos seus serventes. Daí ao autismo foi um passo.

Por isso ela não viu a manifestação dos cem mil e por mais que lhe contem não acredita na dos centos e vinte mil. Se não, certamente perceberia que se oitenta por cento dos profissionais de ensino dizem que algo está mal, não será pura arrogância ou profundo autismo, continuar a afirmar – sem se quer se interrogar um pouco – que o seu método é o único e por isso insubstituível e inegociável? Só poderá ser uma certeza divina, soprada por qualquer poderoso espírito, porque, a qualquer pessoa normal, o volume da contestação levaria, no mínimo, a perguntar se não estaria algo equivocada.

Com estas jigajogas o que poderia ter sido uma forte contestação profissional, transformou-se em confronto político. Tentando aliciar os pais mais distraídos, a ministra do rigoroso discurso anti-facilitista e do reconhecimento do mérito, iniciou um ciclo de facilidades para obter na secretaria o que não era conseguido no campo. Os erros desta política só seriam percebidos no futuro, quando da ministra já nem memória houvesse. Com isto contaria e mais, com um brilharete conseguido na diminuição de despesas do seu ministério. Um pouco como a história daquele cavalo que quando já tinha aprendido a viver de forma económica, sem comer, acabou, inexplicavelmente, por morrer e logo de fome.

Para além do malquerer evidente da ministra em relação aos professores – vá se lá saber porquê – o seu erro básico é olhar para a escola como se fosse uma empresa e tentar geri-la de modo semelhante. Como não é possível tratar por igual o que é, em si, distinto, meteu água. As empresas fabricam ou comercializam “coisas”, a escola prepara cidadãos conhecedores e socialmente actuantes. A escala da empresa é a produção no curto prazo. A escala da escola é a do longo prazo, da vida das pessoas e do enriquecimento geracional. É isto muito difícil de perceber?

Pois a ministra não percebe. Não vê, não ouve, apenas fala. Como um oráculo! Sem possibilidade de contestação. Porque ela quer, porque ela sabe, porque ela manda. O resto que se dane. A sua via é estreita e de sentido único – apesar de frequentemente ter de dissimular preclaras emendas de erros – portanto nós devemos baixar as orelhas e seguir no trilho que nos aponta. Lembro-me que a Bíblia fala do tempo dos falsos profetas e aconselha-nos a distinguir o trigo do joio. Por isso, havendo um problema com dois lados, os professores e a ministra, ameaçando-se instalar entre eles a imparável espiral do ódio, recomenda-se, a quem de direito, que ouse resolver o problema pela via possível:

Exonere-se os professores ou a ministra.



Publicado in “Rostos on line” – http://rostos.pt

novembro 15, 2008

Professores em Luta - Suspensão da Avaliação

Agrupamento de Escolas de Santo António

MOÇÃO

Considerando que:

- O modelo de avaliação de desempenho, em vigor, devido à sua excessiva carga burocrática e aos pressupostos filosóficos que o suportam, está a prejudicar a qualidade de serviço publico prestado e a criar um clima destruidor da harmonia nas escolas, promovendo uma competição doentia entre colegas e inviabilizando o trabalho cooperativo que sempre nos caracterizou.

- A escolha dos avaliadores foi puramente aleatória, baseada em critérios unicamente economicistas que não tiveram em conta as necessárias competências científica, técnica e pedagógica para a função.

- Não reconhecemos seriedade e justiça a um modelo de avaliação baseado na subjectividade, na falta de transparência e falta de equidade.

- Não aceitamos que o insucesso e o abandono escolares sejam considerados como critérios de avaliação docente.

- Os critérios de avaliação não se devem desviar das práticas pedagógicas dos docentes, no interior da escola.

- As implicações trazidas por este processo de avaliação só prejudicam a carreira dos professores e educadores e em nada abonam em prol do verdadeiro sucesso dos alunos e da melhoria da qualidade da escola pública.

- Acreditamos numa avaliação docente com carácter formativo e precisamos de tempo para dinamizar e concretizar as nossas tarefas.

- Não existe no Agrupamento um calendário de avaliação devidamente aprovado e inscrito em Regulamento Interno, conforme previsto na lei.

Os professores e educadores do Agrupamento de Escolas de Santo António – Barreiro, reunidos em Assembleia Geral, no dia 14 de Novembro, recusam legitimar um modelo de avaliação docente assente na fraude e na iniquidade e participar na institucionalização da destruição do sistema de ensino público. Neste sentido reafirmam a posição, aqui expressa, e decidem:

1. Não entregar quaisquer objectivos individuais no âmbito do Processo de Avaliação do Desempenho para o ano lectivo 2008/2009, não exercendo, deste modo, essa prerrogativa procedimental;

3. Não marcar qualquer aula para observação;

2. Marcar para o dia 19 de Novembro, entre as 12 horas e as 14 horas a entrega simbólica do documento de formulação de objectivos individuais em branco nos serviços administrativos do agrupamento.

Santo António, 14 de Novembro de 2008

A presente moção foi aprovada por 79,1% dos presentes na assembleia, representando 110 votos, num total de 139 presenças, e será enviada para:

Comissão Executiva Instaladora
Conselho Geral Transitório do Agrupamento
Conselho Pedagógico do Agrupamento
Assembleia da República
Presidente da República
Ministério da Educação
Conselho Científico da Avaliação de Professores
Sindicatos de Professores
Órgãos de Comunicação Social

novembro 12, 2008

Manifesto




A Jorgete enviou-me este texto por e-mail. Não resisti e pedi-lhe que me autorizasse a publicá-lo. Autorização concedida e texto na "berra".

Que se medite...





Dizem alguns que nada podemos fazer contra um sistema de mil tentáculos, manipulador da justiça e das opiniões ;
Dizem outros que nada se consegue contra dirigentes empedrenidos que apenas enxergam os cifrões que vão conseguir amealhar com a morte do ensino público e muito mais com os milhares que hão-de conseguir com a fomentação do ensino privado;
Dizem os nossos chefes que a lei é para cumprir, que não temos poder para ir contra as regras instituídas;
Ameaçam-nos outros mais ou menos veladamente, com processos, com despromoções, com o congelamento das carreiras;
Outros ainda se mostram compungidos, martirizados e solidários, mas...nos atulham de papeis, de fichas, de planos, de prazos a cumprir;
Os senhores do momento enchem os jornais com mentiras ditas como se fossem verdades e ninguém os desmente.
Pairam sobre nós fantasmas do passado. O medo instala-se e a habitual acomodação lusitana nos aconselha a cruzar os braços.
Mas 120.000 encheram as ruas e o minuto de silêncio total, durante a Marcha, foi mais ensurdecedor que mil gritos e deu a resposta de uma classe que não está morta.
Uma classe que ensina às suas crianças e jovens, como um valor de cidadania, que devemos ser íntegros e lutar por aquilo que achamos justo.
Uma classe que é formadora de novas gerações e por isso deve ter a coragem de dizer : Basta!
E os milhares que encheram a Baixa de Lisboa honrarão o seu compromisso e dirão não a esta avaliação. E os milhares que ergueram as suas bandeiras honrarão os gestos e as palavras e dirão: Somos professores! Nós temos a força da razão e mais do que qualquer outra classe, podemos mudar o mundo.
Sim, nós podemos.



Maria Jorgete Teixeira

novembro 03, 2008

O mundo de Obama






Dois dias depois da ressurreição de Vasco Gonçalves, dois dias antes da muito provável eleição de Barak Obama, para Presidente do Império Americano, sinto, fisicamente, que estamos na viragem de uma esquina da história.

Ao nível do nosso pequeno rincão, trinta e três anos passados sobre o 11 de Março de 1975, o Governo, que até ontem afirmava a pés-juntos a excepcionalidade dos nossos bancos em relação à crise, veio apressadamente reconhecer o risco iminente de falência do BPN, optando pela nacionalização desse banco, preparando o terreno para, noutros, actuar em futuras intervenções nacionalizantes .

É caso para dizer: Eu bem avisei!

Claramente, desde que o neo-liberalismo conservador entrou como furacão no mundo, soprado pelos inefáveis Thatcher e Reagan, qualquer pessoa com um mínimo de entendimento das coisas perceberia que a Donas Brancas, independentemente das suas dimensões e estatutos, derrocam sempre que alguém, por necessidade, desconfiança ou aviso, decide resgatar, em bens reais, a moeda escritural que possui. Aí, o mundo desaba!

Que é o que no momento acontece!

Um pouco por toda a parte os Governos intervêm na economia, renegando o sempre presente discurso do menos Estado, optando pelo pecado capital de, utilizando as designações defensivas que quiserem, nacionalizar, nacionalizar, numa patente demonstração de falência da auto-regulação dos mercados em geral e do financeiro em particular.

Deste modo, quando Obama entrar na Casa Branca, herdará de um império a desfazer-se, a necessidade de encontrar caminhos para a salvação do país e do mundo. As expectativas são grandes, as dificuldades enormes e as desilusões engordarão a ritmo acelerado. É que o império já não é o império. Bush estilhaçou os capitais económicos, éticos e de confiança que lhe foram parar às mãos. As suas equipas de neo-conservadores produziram pobreza, mal-esta, guerras, um pouco por todo o mundo e, não fora a velha Europa, a teoria da guerra preventiva teria levado o mundo à insanidade total. Portanto é uma América desprezada, a empobrecer aceleradamente, que o espera, exigindo-lhe rápidas decisões e soluções adequadas, habituados que estão a meios de que já não dispõem.

No entanto o mundo não pára. Ele há o Irão a caminho de se tornar uma potência nuclear. Temos a Índia que, utilizada como tecnologia de custo baixo, mandou um recado ao mundo ao colocar o seu satélite em órbita lunar. Não se esqueçam que a Índia é possuidora de armas atómicas, de uma população enorme, de conflitos político-sociais sem nome e, disse-nos claramente, tem agora um transportador capaz de colocar ogivas em qualquer ponto do Globo. Que dizer da China com os seus milhões de habitantes, com o crescimento contínuo, à décadas, a dois dígitos e a avassaladora possibilidade de continuação de “dumping” social levando a deslocalizações, de empresas, empobrecedoras do mundo ocidental?

E o Brasil emergente, a pouco transparente Angola, a intranquila Venezuela? E o resto de África a ferro e fogo, com levas de deslocados e emigrantes a escreverem uma nova odisseia de miséria, buscando a felicidade no mundo rico que, também, o é cada vez menos?

Com tudo isto e mais a crise se defrontará Obama se for eleito. E mais, com a absoluta necessidade de se manter vivo, o que, creio, não será tarefa fácil.

Assim, o mundo de Obama será, já é, um imenso “puzzle” onde sobram os problemas e mingam soluções. Mas o pior, é que este mundo tão precário, é o mundo que fomos capazes de legar aos nossos filhos! Não vamos fazer nada contra isto?

Publicado in “Rostos on line” – http://rostos.pt/

outubro 23, 2008

Maria Vitória








Todas as semanas vou ao peixe. É um gosto que tenho desde pequeno. Já criança adorava ver em cima das bancas os pequenos e grandes seres do mar. Cada um representava uma aventura e um mistério trazidos do grande oceano à seca planície. Nessa viagem a minha imaginação galopava frenética ao encontro de caravelas e atlântidas perdidas. Por isso, desde sempre, gostei de ir ao peixe.

Só ontem não!

Quando cheguei à banca já ela lá estava. Pequenina, velha, metida num casaquinho de malha que já fora azul escuro, sendo agora só borbotos e que na sua pobreza parecia ser um ténue escudo contra o mundo. Falava com um dos vendedores. Troquei duas brejeirices com quem me veio atender e comecei a namorar o pescado. Perguntei preços, vi qualidades, fazendo a minha escolha.

Ao lado, o vendedor instava a cliente: Então D. Vitória, o que é que decide.
Olhei para o lado e vi-lhe o olhar doce dançar indeciso entre o carapau e a garoupa. Como éramos os dois únicos clientes o vendedor não pressionava muito mas, começa a sentir-se que já estava a ficar um tanto ou quanto impaciente. Já eu tinha comprado salmonetes, um belo pregado e ia a entrar no imperador quando, uma leve voz ciciou a meu lado:

É que o meu Joaquim está doente. Há duas semanas que só come carapaus! Já começa a estar enjoado. Pese lá duas postas de garoupa.

A garoupa tinha um ar lindo. Seria a minha próxima compra. Já antecipava as postas grelhadas, a quebrarem-se em lascas plenas de sabor e o vendedor a dizer:

Pois, é, D. Vitória. São onze euros!

Ai, meu deus, disse aflita a senhora. Só tenho dez euros e isto é para comermos toda a semana. Desculpe-me, desculpe-me! Onde é que eu tinha a cabeça? Olhando para mim pedia protecção e que a compreendesse. Não me leve a mal, mas não posso levar essas postas. Faça-me o favor, embrulhe-me apenas uma.

Era tão visível o sofrimento e a humilhação da senhora que o primeiro gesto de irritação do vendedor morreu à nascença. Ainda quis fazer uma gracinha dizendo que com aquele dinheiro podia comprar carapau para duas semanas, mas ficou a meio da frase, siderado pela fugaz compreensão daquele mesquinho drama.

Agarrou na posta de garoupa com que iria fazer brilhar o menu do seu doente, pensando possivelmente o que fazer com os cinco euros restantes para os dias que faltavam da semana arrastando-se devagar, só, frágil e humilhada para a porta da praça.

Todos ficámos uns instantes calados! Depois:

Então o que é que vai mais hoje?

Não ia mais nada. Não poderia ir mais nada. A posta de garoupa solitária sobre a banca era uma espinha cravada no meu dia.

Paguei com notas que queimavam os dedos e saí, atordoado, a pensar que a Maria Vitória, de seu nome, somara mais uma derrota, às quantas mais caladas ao longo da parca vida.




Publicado in “Rostos on line”http://rostos.pt/

outubro 22, 2008

Memória 11 - nós limite de dentro









um estômago americano à
conquista do espaço
o lançamento de uma decepção
a pressão atmosférica da desvalorização da libra

os ingleses lamentam a melhor solução
depois da pesca em águas turvas
reunião em lisboa

atenção implacável no
voleibol das crónicas administrativas
correspondentes em todo o país

ganhei o totobola

a lista dos donativos vai ser publicada
na vala das vítimas com fotografias a dizer

sorria



Guiné, Bafatá, 6 de Junho de 1968

outubro 13, 2008

Sou heterossexual! O que é que eu tenho a ver com isso?




No passado dia 10 lá foi a votação, na Assembleia da República, a lei sobre o casamento entre homossexuais, apresentada pelo Bloco de Esquerda e pelos Verdes, e, como se sabia, foi chumbada por obra e graça do Partido Socialista.

As coisas têm o valor que têm ou, muitas vezes, aquele que, quem pode, lhe quer dar. Neste caso o PS considerou que o facto era de somenos importância, coisa que consubstanciou liminarmente quando o Primeiro Ministro, cerce e lacónico, sentenciou: “Não faz parte do programa”.

E disse!

Admirável é que uma questão fundamental de liberdade das pessoas tenha de esperar por uma folga programática para poder ser votado por um partido, dito de esquerda, auto-proclamado defensor das liberdades individuais. São coisas estranhas que acontecem no meu mirífico país.

Sei que vivemos na esquina de uma mudança de paradigma económico-financeiro e que as preocupações vão todas para as formas de ajudar os bancos que, em nome do beneficio próprio, nos prejudicaram . São lógicas estranhas as quais, por minha incapacidade, tenho alguma dificuldade em perceber. Nos meus tempos premiava-se o que era de feitura correcta e castigava-se a incapacidade culposa ou causadora de prejuízos. Pelos visto alguma coisa de essencial mudou enquanto eu estava distraído a tentar perceber porque é que os homossexuais deveriam poder aceder ao estatuto de casamento.

A sociedade ocidental tem vindo num caminho de valorização dos direitos individuais. Fazendo o casamento parte inalienável de tais direitos, o mesmo vocábulo tem recoberto diversos conceitos. Assim, o casamento entre nobres era negócio de estado, nas sociedade agrícolas pretendia o emparcelamento de propriedades fundiárias e nas sociedades burguesas o aumento dos cabedais. Nos tempos modernos apontou-se para a união entre pessoas, de sexos diferente, ligadas por laços sentimentais. É claro que, correndo nas profundidades, vai um rio de estratégias nupciais que não se confessa e nem mesmo se aceita. Mas isto são macaquices de cientistas sociais que teimam em não querer considerar, como realidade, aquilo que alguém quer que assim seja considerado, não sendo embora mais que o seu contrário ou a sua diferença.

Confuso, não é?

Não o será tanto se considerarmos que o que muitas vezes é consignado como facto costumeiro ou mesmo natural mais não será que o fruto de um hábito cultural, isto é, de uma escolha feita em determinada conjuntura que pareceu ser, no momento, mais benéfica para o todo que outras escolhas existentes e possíveis. Seria portanto uma situação de alternativa podendo, a qualquer momento, ser trocada por outra objectivamente de maior valor ou pertinência. Só que, quando um hábito se encastra é o diabo para o remover, mesmo que o beneficio dessa mudança esteja mesmo a espreitar à porta.

Assim somos e assim nos vamos entendendo.

No entanto a este fatalismo opõem-se outras forças de sinal contrário. É, como diria Hegel ou Marx, a questão da dialéctica, que intranquiliza o estatuído e remete para o a fazer. Nestes terrenos situam-se as duas formas extrema de entendimento da sociedade: a conservadora e a progressista. Nós, escolhemos o caminho que mais nos apraz sabendo que nunca estaremos inteiramente num ou noutro campo e que iremos, isso sim, situando-nos, predominantemente, mais num que noutro.
Daí as dúvidas e as controvérsias.

Dúvidas tive bastantes sobre a questão do casamento entre homossexuais. Perguntando-me das razões de ser das mesmas, fui descobrindo o quanto de preconceito se escondia sobre aparentes boas razões para negar essa possibilidade. É ou não verdade que aceitamos e defendemos que as ligações tem a sua base no afecto existente entre pessoas? Se assim é, em que difere a afeição ou amor se o objecto de tais sentimentos é do mesmo sexo ou de género diferente? Modifica isso a essência do sentido? O prazer ou a dor causados por uma relação terão intensidade diferente se os actores forem do mesmo sexo? Certamente que não. Então que direito temos nós, ou a sociedade, de determinar que só podem constituir-se, legalmente, em díade, indivíduos de sexo diferente? Não acham que é de um autoritarismo moral a rondar o fascismo sentimental?

Porque assim penso defendo que é da mais liminar justiça que aos casais homossexuais sejam reconhecidos os mesmo direitos que aos heterossexuais. Quando se começa a justificar a retirada de direitos a uma minoria, só por ser diferente, nunca se sabe onde , e como, tal caminho vai acabar. É por defesa dos meus direitos, porque os não quero ver perigar, que defendo os direitos dos outros. Além disso, que mal virá ao mundo se reconhecermos o casamento gay? E quanta infelicidade instituiremos e manteremos se não tivermos coragem para reconhecer a sua dignidade?

Ah! O argumento da procriação, não é? Então que se cuidem os anaspermáticos e as menopáusicas. Segundo este critério, a hipótese de se casarem, mais não será que uma injustificável aberração.

setembro 30, 2008

setembros II




I

aguardo agora a passagem da paz sobre o colibri do tempo
tumultuosos de imensidão doem-me os espaços

aqui te espero e me perfaço

alguém me disse
a hora de partir é um inverso sorriso
dolorido no momento
em que prantos morrem por dentro das vozes
tal um substantivo estala lentamente no real dos dentes
e adormece recalcando a luz e o olhar

aguardo calmo o tempo
de parar

II

estudas vagamente o lento traçar das pernas
espontâneas as coxas sobrenadam
recolhidas nas memórias

resides nessa messe subtil e recortas o recôndito do sexo
pleno exercício de perfeccionismo
quanto te dás e és meiga generosa e pensativa

encontro-te por vezes no todo onde resisto
lugar de movimentos e recusas
procura imediata de tudo quanto é novo
inocente e pleno e montado na loucura das palavras
setembro avança e as notícias vagamente vão chegando


III

há quanto tempo espero o teu sinal
égua de vento carrocel de chuva
e preparo as imagens que se perdem nos amados setembros
entre as muitas águas da realidade

dizes-me
em setembro meu amor iremos aos campos
onde as borboletas se amaram com doçura e se extinguiram
pequeno fogo que ilude as madrugadas e o céu é pasto
de mansas estrelas iniciais
pedes-me mudamente que te espere
contas histórias incompletas e heróicas
produzindo os alicerces da minha catedral

porque me falas de setembro
se todas as sombras estão paradas
e desmoronadas pelas frinchas da tristeza
as paredes escurecem em prematuros invernos
vesperais

que nada tivesses dito por setembro
e me fosses interdita meu amor
nem teimasses em parecer possível
ó irrealizável alvorada de azul transparente e completa
tonta gazela que te esvais nos moinhos das palavras
quando desapaixonada comentas

em setembro lembro-me da morte

e fechas os olhos contra a almofada
e calas o medo das tardes
por enquanto doces e doiradas
e do vento fresco nos ocasos
pesados em abismo sobre os olhos
melancólicos e trágicos de nuvens
plantados à porta dos sorrisos

IV

em setembro longe das promessas por fazer
ou dos sonhos por cortar
construí esta história nas asas dos ventos minerais

em setembro não vieste o sonho desfazia
em setembro entre raivas e esperanças
o tempo por demais se consumia

setembro 25, 2008

Orgulho de ser companheiro






Escrever no rosto é, para mim, uma fonte de prazer. A minha relação com a escrita não é nunca fácil. Escrever é escrevermo-nos, logo ficarmos expostos perante um público que nos interpretará conforme lhe aprouver e nem sempre de acordo com as nossas primordiais intenções. Daí a dificuldade. Mas escrever é também participar, ainda que apenas como roçar de asa, na construção da comunidade. Não chegarei à arrogância de considerar que nos propomos a “opinion maker”, mas que não será de todo indiferente que sobre algo se escreva qualquer coisa, aí está o dia-a-dia , e nele a experiência do Rostos, como incontornável manifestação dessa eficácia.
Desse sentido de alguma utilidade resulta o prazer de escrever para o Rostos.
Mas há mais!
Na sua versão on-line é uma janela continuamente aberta sobre a vida da cidade e os variados posicionamentos que a interpretam. Soube construir-se democraticamente variado, permitindo, sem rebuços, que todas as opiniões regular e livremente se expressem. No mundo que se quer impor de unanimismo e mediocracia esta é, por si só, uma posição de desafio, coragem e cidadania. Utilizando as facilidades que a Internet proporciona abriu ao diálogo com a população o espaço do seu jornal. Exercício inelutavelmente democrático arrostando com as dificuldades de segurar as intervenções dentro dos limites do respeito pelas opiniões diversas e diversificadas, sem deixar cair na demasia da vulgaridade que, por vezes, tentam as gentes nos acalorados diálogos ciberespaciais.
Por este projecto aberto, luminoso e inscrito na modernidade vão os meus parabéns, pelo seu 6º aniversário, para o Rostos, o seu Director, Sousa Pereira e todos os colaboradores que lhe dão vida.
Repito, é para mim um orgulho poder chamar-vos companheiros.

setembro 11, 2008

memórias 10 - oração




senhor

não acredito em ti mas
obrigado por me teres dado
a poesia

posso acreditar nela
porque me fala
das vidas que se perdem
dos homens em geral

tu sabes como nos fizeste

perdoo-te porque ao ser poeta
também quero criar
e condeno
as minhas obras a viver

desculpa-me tu a imodéstia
mas entre camaradas
vê como te estou a incluir numa
esfera social
mas entre camaradas
não deve haver ressentimentos

também sabes somo loucos
tu porque me fizeste
eu porque te faço em cada momento
te erijo igrejas
me esqueço de ti quando me pedes
te obrigo a existir quando te peço

no outro dia fiz-te um concílio
para discutir as tuas razões
isto faz-me lembrar uma formiga
que chama gigantes aos anões
e olha a coisa não deu nada

parece-me não tenho lido os jornais
ultimamente que os homens continuam a matar-se
eu também os mato mas nessa altura não sou eu
abdico de mim e mando a minha carga
para as tuas costas

nós estávamos tão bem no paraíso
lembras-te das suecadas que batíamos durante a noite

é isso o raio desse teu espírito irrequieto
tenho a certeza de que no-lo deixaste porque
te era incómodo

se um dia te deres ao trabalho de olhar
cá para baixo
não te esqueças de por uma roda dentada
em lugar do coração

se o não fizeres vão enganar-te
e subjugar até que te tornes uma máquina
como eu

os homens são já tão evoluídos
que nem discutem
contabilizam

por isso te estou a dizer que sejas
esperto e não te deixes embarrilar
por aqueles que dizem que acreditam em ti

se não te importas vou deixar de te escrever
é que não te acredito nem posso compreender
a tua tão estranha maneira de ser
por todos os séculos dos séculos

aleluia
Bissau, Setembro de 1968

setembro 04, 2008

O tempora! O mores!


O latinismo que encabeça esta crónica não significa, como pensaria o Belegário, uma saudosa evocação ao "tempo das amoras". É, como reza o Dicionário da Língua Portuguesa, da Porto Editora, uma exclamação, feita por Cícero, significando: O tempo! Ó costumes! e que, em livre tradução camoniana, quererá dizer "mudam-se os tempos, mudam-se as vontades."
Porque venho eu a lume com estas tíbias erudições? Perguntam V. Excelências; e perguntam muito bem!
É que, estando de ripanço vilegiatural telefona-me o Belegário, aflitinho da vida, dizendo apressado:
- Eh! Pá! Sabes da bronca?
Eu não sabia da bronca nem estava muito interessado em sabê-la. Só que o Belegário, lapa como é, não desligava do assunto. Por isso, após muitos "tens que saber", lá lhe dei espaço para baldear a boca.
Confesso que fiquei lorpa!
Não era então que, por um atraso de entrega de candidatura, a Câmara Municipal do Barreiro tinha visto recusar a possibilidade de obter um subsídio de mais de três milhões e meio de euros?!
Pensei cá para comigo: Bem, no melhor pano cai a nódoa. O Presidente Carlos Humberto não vai seguramente deixar passar em claro um facto de tanta gravidade. Vai, certamente, submeter os serviços a um inquérito profundo e aproveitará esta situação para melhorar os serviços camarários. Quanto a mim um erro pode ser um facto positivo se servir para aperfeiçoar os sistemas, os quais, por si próprios, são sempre incompletos, carecendo de medidas correctivas cada vez que a sua imperfeição seja denunciada. Encaremos o facto como uma possibilidade de aperfeiçoamento.
Isto mesmo transmiti ao Belegário.
Tá, tá, tasquinhou ele, desdenhoso. Nem penses nisso. O homem parece não dar muita importância ao caso. O facto é que, em Assembleia Municipal, tentou matar o assunto afirmando assumir a responsabilidade política. E diz-me tu, contra-atacou, o que é isso de responsabilidade política sem consequências? São apenas palavras, não é verdade? O resultado disto é que o PS veio a terreno a exigir a demissão do Presidente.
Patenteio a minha perturbação!

Lembrei-me do orgulho que senti quando na televisão vi o Carlos Humberto, defrontando adversários poderosos, sobressair emocionado e sereno (não é contraditório, não senhor!) a defender a localização do aeroporto, da ponte, na ideia magnifica que fez sua, do arco ribeirinho e da conquista, para o Barreiro, de uma centralidade que lhe é devida e lhe vem sendo continuamente negada. Recordei-me da anterior Câmara e apercebi-me que, não sendo correligionário do Presidente, não concordando politicamente com muitas coisas que fez, seria ele, porventura, um dos melhores autarcas que ao Barreiro foi dado ter. E fiquei com pena!
Considero que o Presidente foi infeliz na posição que sobre o caso tomou. Espero que venha a reconsiderar e, Presidente de todos nós, putativas questões partidárias possam ser ultrapassadas em nome de um bem mais geral que é o da inteira comunidade Barreirense. Mas isto exige a coragem de reconhecer que o erro existiu e, será ou não total ou parcialmente desculpável, consoante um necessário e inultrapassável direito de esclarecimento completo das circunstâncias e das pessoas que conduziram a este desastre, bem como das medidas correctivas tomadas para obviar futuras ocorrências.
A Assembleia Municipal é o local onde tais esclarecimentos deverão ser prestados. Gostaria que tal acontecesse com muita brevidade. Continuando as posições camarárias fechadas ao esclarecimento, desgostado embora, não creio que pedir a demissão do Presidente sirva de qualquer remédio. Será apenas oportunismo partidário sem garantias de que qualquer coisa melhor. O Presidente deve continuar mesmo que não consiga superar os constrangimentos que eventualmente possam tolher a sua actuação. Os mandatos populares são para cumprir e sem estar provada uma implicação directa do Presidente no caso, ninguém tem o direito de ultrapassar a vontade popular livremente expressa.
O resto é com a consciência do homem e com a valoração que, em próximas eleições, o Povo venha a fazer, em jeito de balanço, da governação deste executivo camarário.


Publicado in “Rostos on line” – http://rostos.pt/

setembro 03, 2008

setembros I






I

recordo a melancolia dos beijos
suspensos entre o hálito de setembro
e um insuspeito golpe de outono

traduzo o lume brando dessas tardes
os ocasos fortuitos de langorosos sóis
no ruge-ruge de olhos marginais

no incómodo da pele traça a tua mão
arabescos de fogo sobre as malvas
estáticas em tórridos areais

II

soltam-se as primeiras nuvens e os céus
ainda claramente juvenis caem na modorra
dos apressados hábitos

cinzento é acampamento de esperanças
no solitário corte dos umbrais

III

eu sei
não mais cantos de cigarras não mais
somente as ternas sensações pretéritas
remordem em remorsos outonais

eu sei
e por saber estou de qualquer modo
por demais afastado da acção

recordo os lumes velhos
e esmagando rumos ou trovejando camas
procuro no casulo a paz desta estação

dobo a luz afago a natureza
preparo o advento na minha fortaleza
de outros dias grandes e ferozes
onde termine a minha hibernação

IV

o vento largo e fresco amarinha
arrasta as coisas velhas pelo ar
setembro é chegado
a luz caminha
devagar

agosto 31, 2008

falenas VI





I


é sobre as horas em que trabalho o tempo
que me debruço terna companheira
na falua da noite canção serena
além da viração que o labor norteia
a embeber os rios abrindo-te a voz
ó clara enseada de prestígios
prestidigitadora solene dos indícios
que a lua deixa no canto
de cada um de nós

embalas a corrente do rio no pensamento
e no olhar antigo trazes dramas
ó movimento que da praia fazes cama
e te sabes única ainda que encoberta
nesses balcões amargos da verdade

II

reconheço-te na essência que percorre
o lânguido transporte da ave que se cerca
e no voo de cada uma permaneces
abrindo o vau do vento ao agro ao cereal

mas que dizer do vento do cálido langor
que em certas noites abate como tiro
os corpos que se dão

as asas coloridas tu trouxeste
e mais que as palavras que disseste
de ti em mim cresceu perturbação

agosto 02, 2008

agosto 01, 2008

Ploff!!









Quando era miúdo contava-se a anedota de um espertalhaço que no meio de uns parvos presunçosos decidiu viver uns tempos “à grande” sem fazer nada de nada. Para tal, dirigiu-se a uma alta individualidade, afagando-lhe o ego, dizendo que só ele era suficientemente inteligente para perceber o contributo que, se apoiasse o nosso herói, poderia dar para o engrandecimento da Nação. Claro que o nome do esclarecido benfeitor seria lembrado pela eternidade e abençoado por milhões de agradecidos beneficiados.

Aliciado por tal perspectiva quis a entidade saber qual a proposta do espertalhão.

- Sou o único que no munido inteiro sabe fazer Ploff!!
- Ploff?
Pareceu surpreendida a personalidade
- Com certeza que V.Ex.ª não pertence ao número dos ignaros que desconhecem o que é fazer Ploff!!
- Evidentemente que sei, disse ufano e aflito na sua ignorância o importante senhor. Então faça lá!
-Como o Senhor sabe é necessário bastante tempo de preparação para que um tão difícil trabalho seja levado a cabo. Gostaria que me fossem concedidas as condições pessoais, financeiras e temporais para preparar a acção…

Levado no embalo concedeu-lhe o dignitário tudo o pretendido.

A história é longa, com muitos episódios de esperteza, por parte do proponente, de nata burrice por parte de quantos pretendiam saber o que era fazer Ploff!! Levados no canto da sereia, eram enrolados pelo espertíssimo oportunista. Após longos períodos de viver à conta o nosso herói lá foi forçado a demonstrar a excelência do seu Ploff!!. Reuniram-se para tanto as entidades pagantes e (in)competentes perante uma plataforma onde um pano cobria a cena. A expectativa era enorme porque o custo e a espera da experiência também o fora. Eis senão quando, chegado o espertalhão, a cortina é aberta: sobre o palco está um balde com água, uma haste acima do balde, pendendo desta uma corda com uma pedra atada. O nosso actor pega numa tesoura, corta a corda, cai a pedra na água e faz:
- Ploff!!.

Ploff!! foi o que fez, ontem, o nosso estimado Presidente.

Conhecidos os seus tabus, o nunca se pronunciar sobre nada porque ao Presidente não cabe falar destas coisas neste momento, o anúncio de que em tempo de férias, na actual conjuntura, o Presidente, saído da sua proverbial reserva, iria fazer uma comunicação ao país, caiu como trovão, forte e súbito, em dia de Verão. Toda a gente ficou expectante sobre o que teria o nosso Presidente de tão importante para comunicar que se obrigava a sair do seu plano habitual e esbatido para se alcandorar a tão descomedida ribalta.

Como eu não gosto da pessoa nem do estilo e estou sempre de pé atrás, disse cá para mim : a montanha vai parir um rato. Mas não deixei de estar às 20 horas pespegado frente ao televisor para saber qual a magna questão que afectaria as preocupações desta sisuda pessoa de forma a levá-lo a um comportamento tão inabitual. Poderia ser forte coisa! Apesar da minha descrença cheguei a temer que o homem, sempre de triste catadura, viesse comunicar a sua resignação ao cargo por qualquer incógnita doença… longe vá o agouro, mas que o pensei, pensei…

De facto, quando as primeira imagens apareceram lá estava ele, austero, com ar de muito poucos amigos, uma visível tensão em todo o corpo. Cheguei a matutar: vão chover raios e coriscos.

Começado o discurso, com a emoção a secar-lhe a boca e a criar um rasto de saliva seca nas comissuras dos lábios, lá dedilhou o seu rosário de desventuras. Pasmo dos pasmos, apenas queria justificar o seu posicionamento quanto à legislação sobre o estatuto autonómico dos Açores, apontando alguma possível perda de domínios ou, mais correctamente, a necessidade de ter de contactar mais umas quantas entidades para nomeações de postos de poder.

Quando o vi ali especado, defendendo afincadamente pequenos poderes pessoais, lembrei-me como tudo fora diferente na Madeira onde, mero Sr. Silva, tudo aturou ao inefável Alberto e, como, em todo o seu mandato, pouco dissera ou fizera sobre a difícil condição de vida actual dos portugueses. Perdoem-me, não só achei mesquinha tal preocupação, como também me pareceu estar o Presidente a mandar público recado de quebra de namoro ao nosso Primeiro, utilizando os meios de Estado.

Fosse lá o que fosse senti-me na situação da individualidade que suportou o custo de esperteza do herói da história acima contada. Quando o Presidente acabou e se retirou, nos meus ouvidos apenas ressoava um imenso, intranquilo e majestoso:

Ploff!!




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julho 25, 2008

Memórias 9 - o amor da minha amada




o amor da minha amada

não é só os lábios mas o modo de beijar


mais que os olhos de olhar

é a saudade distância

o amor da minha amada


nos tempos desse amor (ela uma rosa)

tacteei-lhe a medo o corpo

e mais afoitamente conheci-lhe os desejos


em cada pétala do seu corpo

eu fui o estame o pólen

e até me abri em asas de abelha


o lume que ela era todo ternura

queimou-me carne a carne


cada vez que a mim cedia

conquistava-se um pouco mais


de cada tentativa de pecado

saíamos mais puros e transigentes


às vezes vivíamos na calma das noites estivais

e outras não

fomos mistério e conquista

nunca duas vezes o mesmo


foi nestas lutas que o amor da minha amada

me conquistou


nunca as palavras nos custaram

nem nos envergonharam os sentimentos


construímos teorias destruímos preconceitos

um dia descobrimos que não éramos perfeitos
Évora, Fevereiro de 1968

julho 20, 2008

falenas V






I


meu sal das manhãs início de intuição

a tua voz descreve-se violoncelo

adágio nostálgico estreia de percurso


és um rio uma ave um telhado

um carbúnculo de estrelas nas caves de casas marginais

um jornal gritado sobre o chão o rastro de um cometa

jornada em pauta musical nuvem de oboés

ou rútilos rasgos nas peles dos tambores


rompe-se o eco volatiliza-se a voz

no de lírio trémulo das velozes ocarinas

naufragadas entre tubas


a orquestra é um mar no som de baile dos teus pés


II


regressas e tudo é instantâneo e demasiado


então sobressaltas os meus dias em sons estranhos

perpassas entre música

branda visitante das pachorrentas horas

na digestão do tempo


ó voz de carne viva ó espírito das tranças de luz

abre um pouco as mãos dos violinos trágicos

com que despenhas rotas e dá-me

dessa água onde transmutas

o rictus em rito o nunca em ritual e o sempre

não assusta e é meta alcançável

num golpe das imaginativas cadências

percurssões ritmadas perfurando

em alternâncias lúbricas o perfume dos trópicos da música


III


tu continuas a dançar no imponderável do espaço

esvoaças e tudo cai mais mansamente ou se eleva

nas inabituais dimensões onde navegar

é o mais certo termo e viagem não é já

caminho para a decepção


tudo me é tão leve de ti


por isso mesmo o grito se me chega

e a inércia esvai-se nesta música


meu amor te digo e tenho nas palavras

o sabor de ervas bravas

julho 16, 2008

Estava mesmo a adivinhar









Treinadores de bancada e prognosticadores de após-jogo são elementos constantes no bestiário nacional. Fujo deles quanto posso mas, de quando em vez, sou arrastado, pelos acontecimentos, para esse preclaro grupo.

É o caso actual.

Quando vi o preço do petróleo a saltitar gráfico acima pensei com os meus botões: - alguém o vai alvitrar. Isto tem de vir à baila! É impossível que não venha! E zumba! Não é que acertei em cheio? Acusem-me agora de só vir falar depois de ELE o dizer. Porque foi ELE a primeiro a aventar a hipótese. E aventou bem pois, quando em casa de alguém que tem fome se diz que além há pão, o indígena acredita.

Para tal aproveitou um momento forte e solene. A divulgação do Relatório de seu Banco, com as previsões, desastrosas, para o segundo semestre de 2008 e para o ano de 2009. Não veio dizer nada que não soubéssemos já, mas o facto de ser ELE, Victor Constâncio, Presidente do Banco de Portugal, a dizê-lo e no local, forma e tempo como e em que o disse, dão a essa fala uma força estratégica dos diabos.

E que proferiu ele afinal, que eu já adivinhava que se viria a exprimir, só não sabia quando, porquê e por quem?

Simples e expectavelmente que, encarecendo o petróleo cada vez mais, não sabendo onde irá parar o seu custo, teríamos de encarar a possibilidade de recurso à energia nuclear.

Cáspite, senhor!

Então, Portugal, com oitocentos quilómetros de costa ventosa e de forte movimentação de ondas, com um interior quase deserto e com os níveis de insolação mais altos da Europa, com rios que ainda poderão fornecer muita energia, deve esquecer-se de tudo isto e passar, num ápice, para a energia da fissão nuclear? Nem um momentinho de paragem para pensar nos riscos da exploração, no armazenamento dos perigosíssimos e quase eternos resíduos, dessa instável, radiante e maçadora matéria sobrante? Não sei quem foi que afirmou o, com certeza, disparate de que só com as virtuais energias renováveis do nosso país, poderíamos suprir as nossas necessidade e ainda sermos fortes exportadores. Foi, certamente, alguém ou mal intencionado ou que não percebe nada destas coisas das energias e de negócios.

Por isso me lembrei logo da Central nuclear de Almaraz. Está ali, na região de Cáceres, junto ao Tejo, ameaçando-nos, sem proveito que se veja, com o seu potencial poluidor e explosivo. E sabem a quem pertence essa Central? Claro, à Iberdrola! E sabem quem é o Presidente da Iberdrola Portuguesa? Evidentemente o nosso Pina Moura, por mero acaso, Adjunto do Presidente da Iberdrola que é, como referimos, a dona da dita Almaraz.

Assim, se a Central vier a ser construída em Portugal digo já (para não voltar a ser apodado de prognosticador de depois do acontecimento) que o será, a Iberdrola terá i…mensas possibilidades de ganhar o concurso de construção e exploração. Olá, que tem!

É que, como diz o Belegário, recorrendo à sua sociologia de café:

-“Isto anda tudo ligado”.

Só espero, para poupar, e porque amor com amor se paga, a nova Central seja construída, junto ao Tejo, frente a Almaraz.

É que assim, no meio da desgraça, haveria ao menos a consolação do olho por olho…





Publicado in “Rostos on line” – http://rostos.pt/

julho 11, 2008

Lamento angustiado de Belegário descrendo da justiça dos pequenos casos








Ele, o Belegário, está amargurado e descrente. Decorre-lhe a angústia de ver a sua cruzada pela cidadania destruída pelo comportamento da Justiça, descrente porque se sente injustiçado em pedido feito, pelos meios próprios, às instâncias julgadoras da nossa sociedade.

Eis, na sua simplicidade, a causa próxima do lamento do meu amigo:

Corriam os idos do glorioso ano de 2004, o país usufruía o prazer milionário dos seus novos estádio, as bandeiras nacionais acompanhavam o ritmo alucinante dos progressos da nossa Selecção e Scolari, a ser português, poderia, caso o quisesse, ganhar eleições para a presidência da República.

Numa noite quente desse verão, cinco jovens saíram de um café onde assistiram a mais uma fulgurante vitória da Selecção. Entusiasmado pelas jogadas dos seus ídolos, um deles, demonstra, numa lata de refrigerante, o pontapé fulminante de um dos nossos rematadores.

Na emoção do momento a lata rola pelo alcatrão e, impudica, atravessa a rua enquanto o grupo quedava o passo e a emoção na paragem onde ficaram aguardando o autocarro que os transportaria para o centro da cidade.

É nesse instante que, de uma casa em frente, sai um homem, de calções e em tronco nu, olhando inquisitoriamente para um jipe parado junto à morada, agarrando na lata chutada, resmoneando ameaças para o grupo sentado, no murete de fronte, esperando o autocarro.

Pouco depois junta-se-lhe a mulher e, avançando para os jovens, de forma ameaçadora, invectiva-os agressivamente acusando-os de terem lançado “uma bomba” para a sua casa. O comportamento dele e da mulher visava nitidamente conseguir uma reacção violenta de algum dos jovens.

É aqui importante informar que, na perna dos calções, sustentado pelo elástico da cinta, emergia, bem visível, a coronha de uma pistola.

Resistiram com serenidade, os jovens, às ameaças e provocações ficando a aguardar pela polícia, entretanto chamada.

Chegada a patrulha, inicialmente pouco simpática para com o grupo, ouviu, como lhe competia, as partes. Pesquisaram, cheiraram a lata e na evidência de não haver odores de pólvora nem vestígios de qualquer rebentamento, alteraram o seu relacionamento para com os mancebos e informaram-nos de que tinham um prazo de seis meses para apresentarem queixa contra o provocador.

Neste momento é curial ouvir o Belegário.

- O meu sobrinho Filipe fazia parte do grupo e eu sei que ele é rapaz educado e cordato, bom estudante e excelente desportista, respeitador de pessoas e coisas. Enfim, um jovem com valores.

Conhecia vagamente os restantes rapazes mas, tanto quanto podia afirmar, não seriam de muito distinto comportamento do reconhecido no Filipe. Por isso, ele, Belegário, ardente defensor dos direitos cívicos pensava que o comportamento do homem era altamente atentatório do direito à liberdade e segurança dos cidadãos deste país e que tal atitude deveria ser sancionada.

- Com gente desta – rematava – vá lá alguém estar tranquilo quando os moços saem para um encontro com os amigos…

Assim, matutou seria esta uma boa ocasião para dar uma lição de civilidade de dois sentidos. Ao Filipe ensinaria a lutar pelos seus direitos, ao exaltado recomendaria uma abordagem mais consentânea dos seus concidadãos e ensinaria a não transportar uma arma letal para um confronto, com o risco sério de um descambar de situações potencialmente possibilitadoras de tragédia.

Por isso insistiu com o Filipe para que apresentasse queixa. Inicialmente reticente, após contactar com o advogado que o Belegário lhe indicou, decidiu avançar para a Justiça como forma de demonstrar o seu apego às normas de sã vivência democrática.

Com estranheza do advogado o processo arrastou-se no tempo e, o Filipe, constituído assistente, foi, pelo menos uma vez em cada ano de duração, chamado a prestar o mesmo depoimento. Dizia o advogado, espantado, que mais parecia ser o Filipe o acusado e que lhe parecia igualmente estar a estabelecer-se uma qualquer forma de protecção em relação ao arguido. Não é normal, exclamava!

Tanto que não era que, ao fim de quatro anos, o Ministério Público decidiu que não havia matéria para prosseguir pelo que mandava arquivar o caso.

Nem o Filipe, nem o Belegário, nem o advogado queriam acreditar em semelhante desconchavo. Então um cidadão é retido na sua deslocação, é ofendido, acusado de bombista, desafiado por atitudes, por um homem armado, para uma confrontação e não há matéria para acusação? Será necessário que o energúmeno abata um dia um passante para então ser considerado como perigoso o seu comportamento? Alguma coisa não cheirava bem neste caso.

Consequentemente o advogado não aceitou a decisão e sugeriu que se avançasse para um processo instrutório. Forte na sua indignada razão o Filipe anuiu à sugestão. Cria ainda na capacidade das instituições para dirimir com equilíbrio as dissensões criadas no tecido social. Mas qual quê! Passados meses o Tribunal, na sequência da decisão do Ministério Público, vem anunciar que nada existe na situação que possa ser considerado – pasme-se - matéria para deduzir uma acusação.

Para o Belegário isto foi o princípio de uma angústia profunda. É que, ao contrário do que ele pretendia, o caso, em vez de servir como exemplo para reforçar o sentimento de cidadania do Filipe, teve, precisamente, o efeito contrário. Hoje o Filipe, cansado das incómodas deslocações, repetidas até à náusea, para prestar declarações, não pretendendo do arguido nada mais que um pedido formal de desculpas, aborrecido pelo incómoda que causou às testemunhas, incomodado pelo pagamento que terá de fazer ao tribunal e advogado, chegou à conclusão que nunca mais, a uma agressão, responderá com a calma e o recurso às instituições. Forte nos seus vinte anos e na sua compleição física começa a convencer-se que a melhor defesa será o domínio físico e imediato do adversário. Ele fará, e no momento, a sua própria justiça.

Esta é, na verdade, a causa profunda da angústia do Belegário. De qualquer modo, procurando uma leve centelha de esperança, ainda pergunta:

- Esta decisão não terá alguma coisa a ver com o facto de sabermos agora que o arguido faz parte das forças de segurança…?



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julho 09, 2008

falenas - IV





desenho-te em nome no tonus das palavras

peregrina indução desvelo transparente

entre o silêncio dos regatos e as árvores

pejadas de mágicos enleios


resguardo o teu olhar no percurso da memória

ó força inesgotável que sustenta

a fadiga da viagem


à tua volta o ar ainda é frémito e luz

ou delicados contornos ou cores onde habitas

amadurecendo cerejas ou rubras papoilas

meigamente enloquecidas pela agonia leve das pétalas

asas em sala hipóstila onde os sobreiros

gigantes plantados de espanto

calam o pó da planície


como os sobreiros

de braços abertos navego no meu sol

e me arranco naco de cortiça

que o ocaso faz escurecer


nos meus ócios lassos de injustiça

a longada da luta faz doer


julho 03, 2008

Hermenêuticas, propedêuticas e outras “cabalêuticas”.








Jorge Paulo de Carvalho, em texto publicado no Rostos, sob o título “O Bloco de Esquerda e a Hermenêutica” mostrava ao ignaro, ou, no mínimo, ao distraído público que uma distribuição de militantes, publicada em 2006 no Expresso, era, em todos os distritos, um número múltiplo de 61.

O texto, sarcástico quanto baste, era o que o Belegário chamaria de “bem apanhado”. Depois de uma gargalhada ou de um amarelado sorriso, falecia-se no efeito pretendido. Ficado por aí, cumprira o seu papel e com os cumprimentos e devidas vénias, estava o autor felicitado pela argúcia da descoberta e pelo humor do escrito.

As coisas são o que são e valem o que valem, excepto quando são o que não são e se pretende que valham mais que o merecido.

É o caso!

Em resposta, Humberto Candeias, igualmente no Rostos, fez inserir um outro texto “O Jorge Paulo Carvalho e a Propedêutica” no qual sugeria que os números insertos no Expresso, não seriam de pura fonte mas sim um constructo emanado de uma qualquer central de intoxicação.

Se por aqui ficássemos teríamos ficado em boa companhia.

No entanto, mudando o tom ao discurso, vem JPC em “O Bloco de Esquerda e a Factualidade” de novo à carga.

Desta vez, abandonado o tom jocoso que a brincadeira permitia, fazendo tábua rasa da sugestão avançada sobre a autoria da lista em questão, entra por uma diatribe em que acusa diversas pessoas, conotadas com o Bloco de Esquerda, de entrarem por “insultos e tergiversações”.

Tanto quanto me apercebi e foi possível ler, apenas um comentário publicado e em parte, era um tanto ou quanto despropositado. No entanto, sabe JPC, por lho ter sido comunicado por outros aderentes do Bloco de Esquerda, que essa não era a opinião geral, nem generalizada entre os aderentes. Dela, no entanto, não faz JPC notícia. Preferiu salientar a nuvem esquecendo Juno.

Escolhas!

Como cúpula do edifício e depois de considerações sobre o messianismo a que se pretenderia o Bloco, surge a terrível ameaça de, caso não seja produzida prova cabal de autoria estranha e malévola, o 61 (é a inflação, dantes era o 31) vai voltar em força por altura das eleições. Tremei, pois, vilanagem. O Justiceiro está atento e vigia-te.

O que é mais estranho nesta coisa dos números – e talvez seja prova evidente de alguma intenção pouco louvável na fonte da informação – é que o Jorge descobriu a existência oculta da constante 61, para o qual foi preciso, com certeza, perder algum tempo em análises que a mim, inteligente que sou, nunca me ocorreria fazer, passando, no entanto, em claro um outro sinal bem mais visível e que, segundo me parece, seria o destinado a produzir o efeito pretendido de descredibilização de um partido que procura uma ética social e política e que não vira a cara aos desafios socioeconómicos, incomodando assim, de forma constante, as centrais de poder.

É ele o caso da distribuição, pouco imaginativa, da quantidade de militantes por distrito. Temos assim uma estranha repetição de números. Em 8 distritos aparecem 122 aderentes, em 4 surgem 244, em 3 temos 305, só em 5 distritos aparecem números diferenciados. Estranho, não é? Seriam necessárias impossíveis coincidências, ou muita palermice, para produzir semelhante rol tão falho de imaginação e credibilidade. A quem serviria tal dislate? Está-se mesmo a ver: gato escondido com rabo de fora!

No entanto, como estamos em terreno cabalístico, há que entender o exótico hábito da divindade costumar escrever a direito por linhas tortas. De facto o que, possivelmente sem querer, JPC descobriu nestes pobres números foi uma mensagem oculta do sagrado. É que, feita a prova dos nove, 61 dá 7, cardinal que como todos sabem é o indicativo da Criação e o número da Perfeição. Olaré, que é!

Nunca nos pensámos tão bons, mas agradecemos empenhadamente o esforço e a intenção.



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junho 24, 2008

Memórias 8





Depois fiz prosa

em colunas

paralelas


troquei

a cor verde

pela amarela

e proferi palavras

só palavras...


Fiquei à espera

que elas caíssem

e se partissem


as palavras caíram

ao mar

e não revelaram

o segredo que tinham


então eu chamei cruel ao mar


Como se ele pudesse

ser mais

alguma coisa

do que mar




Évora, 1965

junho 17, 2008

Ai a raça do petróleo






A semana passada foi para todos os gostos. Das gafes dos nossos maiores aos apocalipses paroquiais foi mesmo um “vê se ta avias”. Parecia haver uma competição de acontecimentos e alarvidades. Era um fartar vilanagem a perturbar o consabido sossego desta terra abençoada.

O artigo 605º do Código do trabalho tem duas alíneas. A primeira é absolutamente clara e inequívoca. Diz simplesmente:

- É proibido o Lock-out.

Nada mais acrescenta que possa levar advogados ou hermeneutas a considerarem interpretações variadas. O Lock-out é universal e determinantemente proibido.

A segunda alínea define o que é considerado Lock-out. Tipifica-o como qualquer decisão do empregador que leve à “paralisação total ou parcial da empresa” à “interdição do acesso aos locais de trabalho a alguns ou à totalidade dos trabalhadores” e ainda qualquer actuação que “vise atingir finalidades alheias à normal actividade de empresa”.

Com isto em mente fica claríssimo que a Greve dos camionistas não foi uma Greve mas um Lock-out. Quem a convocou e manteve foram os proprietários das empresas de camionagem, levando no embrulho os seus trabalhadores.

Deste modo, nos termos da lei, o Governo estava perante uma ilegalidade que não poderia tolerar. Mas esta gente governativa, a quem cem mil professores ou duzentos e cinquenta mil trabalhadores na rua não impressiona, ficou varada e incapaz de reagir perante um número bem menor de donos de empresa que acharam poder fazer o país refém, de molde a exercer uma chantagem intolerável sobre a fraca governança deste reino.

Assistimos, em diferido e directo, à mais completa insanidade e prepotência daqueles que, partindo de anseios porventura legítimos, utilizaram meios inadmissíveis no seio de uma impunidade absoluta. Vimos e ouvimos os discursos hipócritas de quantos alegando a sua justiça “alertavam” os não aderentes para “a possibilidade de sofrerem ataques às viaturas” se não aderissem à paralisação. A polícia estava perto e ouvia. Os carros eram apedrejados e incendiados. Estranhamente a polícia não agia.

Não sei porquê, esta situação aberrante levou-me a recordar o Chile de 1973.

No decorrer deste confronto o nosso Governo entrou de férias e, muito eleiçoeiramente, demandou as comunidades da diáspora na cata ligeiramente antecipada de uns votitos, abandonando o país às ameaças de cortes alimentares e de combustíveis. Com êxito para os donos dos camiões. Na verdade, nem outra coisa era de esperar num país que abandonou qualquer outra forma de transporte de bens essenciais. Desmantelou-se a rede ferroviária, destruiu-se a cabotagem e agora, sempre que quiserem, os camionistas podem encostar uma faca ao pescoço do Governo, porque não há alternativas civis. Tal como não há pescas, nem lavoura.

Com muita galhardia descobrimos o caminho rodoviário para a dependência total!

Entretanto o nosso Presidente, hábil crítico da incultura política da juventude, num lapso piramidal, mostrava a sua cultura reintroduzindo nas festividades o “dia da raça”, momentos após um discurso onde glorificava a multiculturalidade do nosso povo. Vivam a cultura e a coerência.

De caminho, como não quer a coisa, o nosso primeiro confessava que no meio deste granel todo, aquilo que verdadeiramente o preocupava era a sua carreira política ameaçada pela espada de Dâmocles do plebiscito irlandês. Como vimos tinha razão para temer e, coitado, neste momento a sua continuidade na grande política é apenas um vislumbre porque os malandros dos irlandeses recusaram aceitar um tratado que ninguém sabe bem o que é, porque assim o pretendem aqueles que dele se vão servir em seu próprio proveito.

É claro que como o voto popular não serviu os interesses das elites estas, no lídimo papel de educadores e dirigentes, levarão o seu respeito pelo voto popular até à mudança a seu favor ou, caso extremo, ao castigo dos que ousaram exprimir uma opinião que não serve os senhores.

Vão iniciar-se brevemente as reivindicações de outras classes profissionais directamente afectadas pelo aumento dos combustíveis. Desde já lhes digo que, pelo andar da carruagem, estão tramados. Como os seus efeitos na economia do país são menos espectaculares e mais diferidos no tempo vão pagar pelo que os camionistas fizeram. Ou se precatam ou serão o exemplo que irá restaurar a honra perdida deste Governo. Que eu me perdoe a mim próprio por citar Santana Lopes, mas há que reconhecer que desta vez tem razão: “Este Governo é forte com os fracos e fraco com os fortes”.

Voltaremos a ver, com alguma brevidade, os camionistas na rua. È que, ao contrário daquilo que o Governo afirma, a situação não ficou resolvida. Está apenas em espera atendendo à evolução do preço do petróleo. E esse, meus senhores, não vai para de crescer. O paradigma em que a nossa sociedade assenta de combustíveis menos caros e fáceis, já era. Estamos perante uma mudança civilizacional de que apenas entrevemos a orla, mas que será profunda e assentará em princípios diferentes daqueles que estamos habituados. Esta civilização morre lentamente nos seus pressupostos ultrapassados por (in)coerências económicas que ela própria gerou, como contradições, no seu seio. Está desorientada e não sabe como agir porque a realidade se desviou do modelo que traçara. Isto é inevitável e preocupante. A civilização do petróleo, atentem no que digo, acabará, como todas as outras, num arfar apocalíptico e sangrento que será o banho lustral da sociedade a vir.

Por isso, a semana passada foi demais, por tão claramente servir de aviso ao que aí vem. Precatemo-nos pois e tentemos ultrapassar, da melhor forma possível, a fronteira dolorosa que se avizinha.

Fernando Pessoa, no entanto, nasceu há cento e vinte anos.


Publicado in “Rostos on line” – http://rostos.pt/