Creative Commons License
This work is licensed under a Creative Commons Attribution-Noncommercial-No Derivative Works 2.5 Portugal License.

agosto 31, 2008

falenas VI





I


é sobre as horas em que trabalho o tempo
que me debruço terna companheira
na falua da noite canção serena
além da viração que o labor norteia
a embeber os rios abrindo-te a voz
ó clara enseada de prestígios
prestidigitadora solene dos indícios
que a lua deixa no canto
de cada um de nós

embalas a corrente do rio no pensamento
e no olhar antigo trazes dramas
ó movimento que da praia fazes cama
e te sabes única ainda que encoberta
nesses balcões amargos da verdade

II

reconheço-te na essência que percorre
o lânguido transporte da ave que se cerca
e no voo de cada uma permaneces
abrindo o vau do vento ao agro ao cereal

mas que dizer do vento do cálido langor
que em certas noites abate como tiro
os corpos que se dão

as asas coloridas tu trouxeste
e mais que as palavras que disseste
de ti em mim cresceu perturbação

agosto 02, 2008

agosto 01, 2008

Ploff!!









Quando era miúdo contava-se a anedota de um espertalhaço que no meio de uns parvos presunçosos decidiu viver uns tempos “à grande” sem fazer nada de nada. Para tal, dirigiu-se a uma alta individualidade, afagando-lhe o ego, dizendo que só ele era suficientemente inteligente para perceber o contributo que, se apoiasse o nosso herói, poderia dar para o engrandecimento da Nação. Claro que o nome do esclarecido benfeitor seria lembrado pela eternidade e abençoado por milhões de agradecidos beneficiados.

Aliciado por tal perspectiva quis a entidade saber qual a proposta do espertalhão.

- Sou o único que no munido inteiro sabe fazer Ploff!!
- Ploff?
Pareceu surpreendida a personalidade
- Com certeza que V.Ex.ª não pertence ao número dos ignaros que desconhecem o que é fazer Ploff!!
- Evidentemente que sei, disse ufano e aflito na sua ignorância o importante senhor. Então faça lá!
-Como o Senhor sabe é necessário bastante tempo de preparação para que um tão difícil trabalho seja levado a cabo. Gostaria que me fossem concedidas as condições pessoais, financeiras e temporais para preparar a acção…

Levado no embalo concedeu-lhe o dignitário tudo o pretendido.

A história é longa, com muitos episódios de esperteza, por parte do proponente, de nata burrice por parte de quantos pretendiam saber o que era fazer Ploff!! Levados no canto da sereia, eram enrolados pelo espertíssimo oportunista. Após longos períodos de viver à conta o nosso herói lá foi forçado a demonstrar a excelência do seu Ploff!!. Reuniram-se para tanto as entidades pagantes e (in)competentes perante uma plataforma onde um pano cobria a cena. A expectativa era enorme porque o custo e a espera da experiência também o fora. Eis senão quando, chegado o espertalhão, a cortina é aberta: sobre o palco está um balde com água, uma haste acima do balde, pendendo desta uma corda com uma pedra atada. O nosso actor pega numa tesoura, corta a corda, cai a pedra na água e faz:
- Ploff!!.

Ploff!! foi o que fez, ontem, o nosso estimado Presidente.

Conhecidos os seus tabus, o nunca se pronunciar sobre nada porque ao Presidente não cabe falar destas coisas neste momento, o anúncio de que em tempo de férias, na actual conjuntura, o Presidente, saído da sua proverbial reserva, iria fazer uma comunicação ao país, caiu como trovão, forte e súbito, em dia de Verão. Toda a gente ficou expectante sobre o que teria o nosso Presidente de tão importante para comunicar que se obrigava a sair do seu plano habitual e esbatido para se alcandorar a tão descomedida ribalta.

Como eu não gosto da pessoa nem do estilo e estou sempre de pé atrás, disse cá para mim : a montanha vai parir um rato. Mas não deixei de estar às 20 horas pespegado frente ao televisor para saber qual a magna questão que afectaria as preocupações desta sisuda pessoa de forma a levá-lo a um comportamento tão inabitual. Poderia ser forte coisa! Apesar da minha descrença cheguei a temer que o homem, sempre de triste catadura, viesse comunicar a sua resignação ao cargo por qualquer incógnita doença… longe vá o agouro, mas que o pensei, pensei…

De facto, quando as primeira imagens apareceram lá estava ele, austero, com ar de muito poucos amigos, uma visível tensão em todo o corpo. Cheguei a matutar: vão chover raios e coriscos.

Começado o discurso, com a emoção a secar-lhe a boca e a criar um rasto de saliva seca nas comissuras dos lábios, lá dedilhou o seu rosário de desventuras. Pasmo dos pasmos, apenas queria justificar o seu posicionamento quanto à legislação sobre o estatuto autonómico dos Açores, apontando alguma possível perda de domínios ou, mais correctamente, a necessidade de ter de contactar mais umas quantas entidades para nomeações de postos de poder.

Quando o vi ali especado, defendendo afincadamente pequenos poderes pessoais, lembrei-me como tudo fora diferente na Madeira onde, mero Sr. Silva, tudo aturou ao inefável Alberto e, como, em todo o seu mandato, pouco dissera ou fizera sobre a difícil condição de vida actual dos portugueses. Perdoem-me, não só achei mesquinha tal preocupação, como também me pareceu estar o Presidente a mandar público recado de quebra de namoro ao nosso Primeiro, utilizando os meios de Estado.

Fosse lá o que fosse senti-me na situação da individualidade que suportou o custo de esperteza do herói da história acima contada. Quando o Presidente acabou e se retirou, nos meus ouvidos apenas ressoava um imenso, intranquilo e majestoso:

Ploff!!




Publicado in “Rostos on line” – http://rostos.pt