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junho 26, 2009

O que é isso da governabilidade?





Desde que Paulo Rangel venceu Sócrates nas Europeias, a Direita acordou! Mas despertou receosa de que, no próximo confronto, tal espavento não se repita e os partidos de esquerda voltem a somar a maioria absoluta dos votos expressos. Para que tal não aconteça é necessário agitar alguns papões ameaçadores .O bloco de direita – PSD, CDS a que , pelas suas recentes posições, é licito juntar o Presidente da República – está unido em torno de três ideias básicas as quais, sendo puros mitos, pretendem simular verdades absolutas: a da governabilidade, a da simultaneidade das eleições legislativas e autárquicas e a da economia por corte das grandes obras públicas.

A primeira questão é apresentada como se qualquer unidade pós-eleitoral só fosse possível à direita. Espera-se que o PSD ganhe as legislativas e componha a maioria com o CDS ou, cereja em cima do bolo, que o bloco central de interesses económicos venha a traduzir-se num bloco central da política unindo PSD e o PS. Por outro lado, na esquerda apenas pressentem impossibilidades. O PS nunca uniria esforços com o PCP e, muito menos ainda com, dizem eles, o imaturo Bloco de Esquerda. A pergunta a fazer-se é porquê? Que fatalidade genética dará aos partidos de direita maior capacidade ou apetência para a governação e as retira às esquerdas? Em que tratado de Política, ou de Biologia, tal se demonstra? Já se esqueceram de Durão Barroso, do seu pântano e do precipitado abandono do governo para rumar à sinecura europeia, deixando pendurados os portugueses, entre eles, oh! Ironia, a ministra Ferreira Leite mais o seu doloroso programa de emagrecimento da população? Já estamos esquecidos que as acções governativas da direita são aquelas que conduziram o mundo às guerras e a esta crise? Mais liberalismo sem freio? Mais mercado a dirigir os destinos do mundo sob a lenda da auto regulação, quando sabemos que o seu objectivo é sempre explorar, até ao limite e sem ética, todas as possibilidades? Esquecendo que o seu único objectivo é a máxima acumulação de riqueza, num exíguo número de empresas ou pessoas, e quando os limites são atingidos abandonando as populações empobrecidas aos problemas por eles criados na ânsia louca de um desmedido enriquecimento?

Temos de tornar claro que a acção comum das esquerda é uma possibilidade. Perante propostas e políticas concretas, que defendam as populações trabalhadoras, qualquer dos partidos de esquerda pode, e muitas vezes já foi feito, juntar as suas vozes e votos para tornar possível o melhoramento da vida da nossa gente.

A segunda ideia-força é a da simultaneidade das eleições. O grande argumento é a poupança feita se as eleições decorrerem no mesmo dia. Se os argumentos forem somente os de índole económica, na fronteira, chegaremos à denegação da democracia porque, aparentemente é mais cara que qualquer regime de quero, posso e mando. Na realidade apenas o PSD defende eleições simultâneas. Fá-lo, sejamos claros,porque lhes parecem ser mais favoráveis aos seus desígnios, porque pensa optimizar assim os seus resultados eleitorais. Todos os outros partidos preferem eleições desligadas. Será porque são mais perdulários que o PSD? Claro que não! Também aqui se joga o interesse próprio de cada partido. No entanto há algo mais a juntar a esta posição. Cada eleição tem a sua dignidade e o seu espaço próprio. Misturá-las, não sendo crime de lesa democracia, é sem dúvida subalternizar uma em relação à outra. Ora isto seria um mau serviço, a longo prazo, à democracia. Seria como cortar na comida e ficar admirado por se ter fome. Não me parece, à primeira vista, que devamos submeter-nos à ilusão económica prestando, nesse passo, um péssimo serviço à democracia.

Finalmente a grande preocupação com a dívida, resolúvel no corte dos investimentos com as obras públicas, faze-me lembrar lágrimas de crocodilo. Que é preocupante a subida do endividamento, claro que é! Todos o sabemos. Mas serão todas as dívidas iguais? O endividamento ao jogo é semelhante ao investimento numa máquina para produção? O que se deve discutir não é se vamos gastar muito dinheiro, mas sim o que poderemos ganhar com esse gasto. Desta discussão foge a direita preferindo a facilidade de um economicismo parvo. No entanto, sabemos que, caso ganhasse as eleições, algumas destas agora contestadas obras teriam que ser feitas. O aeroporto de Lisboa é um enorme risco. Tem-nos valido Nossa Senhora de Fátima ou dos aviões senão já uma aeronave se teria esmagado sobre o casario lisboeta. O aeroporto está cercado pela cidade e terá, inevitavelmente de ser mudado. Como está decidido ser em Alcochete, teriam de construir-se acessos e, lamentando ter de dar o braço a torcer, lá viria a direita dizer que afinal a ponte era necessária. Só que num outro local onde servisse melhor a sua clientela e não nestas zonas demasiado vermelhas para o seu requintado gosto. E o TGV? Claro, com o impulso que a direita, em boa hora eleita, daria ao mercado, seria necessário um meio de transporte expedito para que os homens de negócio pudessem, sem perdas de tempo, encontrar-se em qualquer ponto da Ibéria. Lá viria o comboio rápido solucionar parte do problema. Pareço demasiado cínico na minha exposição? Olhem que não! Na verdade esta súbita moderação da direita não é real. É meramente estratégica. Visa assustar para dominar. Afinal quem é que, em primeiro lugar, beneficia dos grandes empreendimentos senão as grandes empresas? E de quem são eles apoiantes? Do Bloco, não! Do PCP, tão pouco! Do PS, às vezes quando faz o jogo liberal. Do bloco de direita? Certamente e sem qualquer dúvida.

Então, sabendo isto, não nos deixemos embalar em cantos de sereia a vamos, frontalmente, recusar os receios que a direita tenta injectar na vontade dos portugueses e dizer claramente que a maioria é o povo e que o povo espera uma esquerda que não se traia nem o traia. Desta forma poderemos fazer frente à crise e ultrapassá-la em benefício dos que diariamente labutam com um mínimo de réditos.

Não podemos esperar que resolvam a crise aqueles que a criaram.


Publicado in “Rostos on line” – http://rostos.pt

junho 17, 2009

Memórias XV – Momento




Eu hoje vi o mar, não estava azul
era branco como o sol da manhãzinha
falavam-me as ondas por enigmas
e as vagas estendiam-se, estendiam-se…

Que faz andar as ondas, perguntei…
uma gaivota que voava contra o vento fechou as asas
e veio cair flecha ao pé de mim.

Eu vi que quem fez cair a gaivota, fazia mover o mar

Porém, não acredito num deus que tudo faz.
Se ele existisse a gaivota não morria
e porque havia ele de mexer o mar

o mar quando parado é um espelho
é assim que o sol gosta dele e no verão o quer queimar

Então o que faz mover as ondas? Outras ondas.
Que fez cair a gaivota? As asas.
Não há causa primeira. Só efeitos
das nossas causas.

É por isso que a saudade que tenho não é mística
é por isso que a dor que sentimos é só nossa
é por isso que o amor, para terceiros, é sempre estúpido
é por isso que as flores nascem de flores
é por isso que eu estou aqui e tu ali
é por isso, é por isso, é por isso
que não descubro o princípio nem o fim.



Algarve, Fevereiro, 1966

junho 08, 2009

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Há, na história, momentos cruciais que prenunciam mudanças até aí pouco discerníveis. Há também desenvolvimentos irónicos só entendíveis na invenção de um deus perverso entretido a baralhar os juízos dos homens ou, mais na teoria do Caos, se compreendermos que efeitos inesperados eram perfeitamente previsíveis e fatais, só não sendo apercebidos como tais por não conseguirmos apreender todas as diversas e subtis causalidades as quais, somadas, os tornaram inevitáveis.

Estas eleições europeias serão, possivelmente e a meu ver, um desses inopinados fenómenos.

Os partidos socialistas no poder, todos enfeudados, contranatura, à defesa e execução de modelos de governação neoliberal, foram castigados pelo seu desvio direitista. Os eleitores socialistas não votaram neles porque não se reconhecem nestas políticas, os liberais, sentindo-os estranhos e de pouca confiança, agradecendo o serviço prestado, preferiram voltar aos partidos que melhor e mais abertamente defendem o seu ideário. Deste modo, apesar das sucessivas mentiras e traições os socialistas neoliberais, no primeiro momento de tira-teimas, encontraram-se em terra de ninguém e com as hostes, que consideravam conquistadas, a dizerem-lhes claramente que ninguém confia em vira-casacas ideológicos.

Foi o que se viu por essa Europa fora acrescentado do quanto de desprezo, na recusa de comparência às urna, de parte significativa da população. Temos portanto os governos socialistas a pagar o preço da crise alimentada pelos neoliberais e estes, alterando agora o discurso, prometem uma regulação que não pensam implementar, aparecendo como a esperança de mudança de paradigma. Ironia das ironias espera-se que os responsáveis pela crise nos venham salvar dessa mesma crise. Ou dito de outra maneira, como se o ingénuo cordeiro fosse à toca do leão pedir-lhe protecção para os ataques desse mesmo leão.

Postos estes prolegómenos olhemos para Portugal.

De parabéns está Paulo Rangel porque, abandonado pelo baronato do partido, se bateu sozinho e com coragem, conseguindo um resultado que é, só por si, um sério aviso a Sócrates e à sua governação. O PSD, no geral, recebeu um brinde que se calhar não mereceria e que penso, será de mais difícil repetição nas Legislativas. Não duvidando que boa parte das deslocações de votos foram acções de protesto contra o Governo, é incerto que, num mano-a-mano entre Ferreira Leite e Sócrates, aquela possa levar a melhor. É que, para além do seu parco envolvimento emotivo com os eleitores também ela tem, desde o seu ministério das finanças, telhados de vidro. O resultado obtido por Rangel não será facilmente transferível para o partido no terreno das legislativas.

Por outro lado, e lá vão contas de merceeiro, a esquerda sociológica é ainda claramente maioritária. Somando canhestramente os votos do PS, Bloco e PCP, andaremos pelos 49% dos votos expressos. Seria confortável maioria se a palavra esquerda tivesse validade intrínseca e não escondesse rivalidades assassinas. Serve aqui, como reflexão, o processo exemplar que decorre, desde há dez anos, no Bloco de Esquerda. Ultrapassando as desinteligências graves que dividiam vários grupos, ditos de esquerda radical, foi possível construir uma plataforma de entendimento, através de programas e acções comuns, privilegiando o que une e ultrapassando o que separa. A pergunta que me faço é a de saber se o mesmo será possível fazer com esta agregação meramente sociológica que são os partidos do povo de esquerda?

Os tempos que aí vêm não vão ser fáceis. O brilho destas vitórias eleitorais cedo se embaciará frente às dificuldades a que iremos ser sujeitos. O tempo das facilidades – para nós recentes e breves – acabou. A globalização, que num primeiro momento acrescentou riquezas às sociedades desenvolvidas, está agora a reclamar o pagamento das facturas. Uma cada vez maior parte da população mundial, até há pouco afastada das benesses e malefícios do consumo exige, agora e com veemência, a sua quota-parte do bolo. Só que o bolo, ao ser dividido por mais gente, será não só escasso, como as suas fatias terão de ser, necessariamente, bem menores. As sociedades ocidentais não sabem conviver com isto. Inventaram a social-democracia quando era fácil transferir a exploração proletária da sua população para as colónias e ex-colónias. Acabada a mama os malefícios do desemprego, pobreza e doença espreitam novamente à porta daqueles que já se desabituaram de tais coisas e as vêm aparecer de novo como ameaça constante e inultrapassável. Para estes males não há soluções no “mercado livre” que os alimenta. Este procura apenas a maximização dos lucros e não tem preocupações humanitárias. Para ele o homem é mero factor económico e não a razão de ser da economia. Trocaram os factores da equação e a resposta só pode estar errada. Cabe às esquerdas a correcção deste estado anómalo de coisas. Mas para isso terá que encontrar-se no terreno da união, com a generosidade de tentar perceber o projecto do outro e a inteligência de ser capaz de se adaptar a uma causa comum para benefício de todos. É necessário perceber que a razão não está toda no mesmo sítio e que é essencial conseguir ceder para, em conjunto, se poder avançar. Olhando para o estado das coisas não creio que tal possa ser já uma conquista ou uma consequência destas eleições ou do que elas prenunciam. Tenho pena que ainda se vão queimar inutilmente muitas ilusões e energias antes de podermos congregar esforços para a prossecução de um mundo onde a pobreza seja erradicada e a condição humana atinja a dignidade que lhe cabe. Sei, no entanto, que esse é o caminho e para ele laborarei. Um dia, os homens de boa vontade, deixarão as divisões inconsequentes e unir-se-ão para o que é primordial e importante. Assim o espero, assim o quero e para tal trabalharei sabendo que não estou isolado nos meus esforços. Se alcançarmos estes desígnios os nossos filhos poderão crescer em paz. Caso contrário talvez eles não possam conhecer os seus netos.




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junho 02, 2009

Borradas judiciais





1 - Declaração de interesses

Como foi noticiado na imprensa local integro as listas do Bloco de Esquerda para as eleições autárquicas. Este facto coloca-me um problema de princípios sobre a circunstância de, sendo candidato, dever, ou não, suspender a minha colaboração temporariamente neste Jornal. Consultado o travesseiro, como é costume dizer-se, cheguei à conclusão que, alertados os leitores para o facto, conscientes da declaração de interesses, nada obstaria à continuidade da minha colaboração neste órgão informativo. Na verdade a crónica nada mais é que o exercício opinativo abordado através dos factos quotidianos ou da defesa de valores e crenças. Assim ela é por natureza e sempre um acto político por excelência.

Pesados estes critérios, não havendo nada em contrário por parte da direcção do Rostos, manterei a minha presença, acrescentando na assinatura as condições de militante e candidato pelo Bloco de Esquerda. Ficarão assim ressalvados, em meu critério, os pressupostos éticos que devem presidir à relação entre escritor e leitores.

2 – As borradas

Esmeralda, Alexandra e tantos mais casos e pessoas que não chegaram às luzes da ribalta desesperam-nos em relação ao aparelho judicativo do País. Somos um país legislativo, dificilmente um estado de direito. A justiça cara e tardia, decisões socialmente chocantes, o poder possivelmente excessivo do corpo judicial, fazem parte do descontentamento das nossas vidas.

Qualquer forma de poder, em democracia, exige de quem o receba imenso cuidado na sua utilização. Responsabilidade e humildade na execução legitimam o seu possuidor e conferem dignidade a quem, parcimoniosamente, o exerce. A arrogância e a prepotência são a outra, negativa, face do poder.

Por questões históricas e sociais há muita arrogância a impregnar o tecido judicial. Daí à decisão injusta ou desfasada da realidade é um pequeno passo que é, por demais, dado sem maior reflexão sobre os efeitos latentes da mesma.

Para ilustrar estas afirmações não resisto a contar um caso antigo, para o qual me foi pedida fundamentação antropológica, de atribuição de poder paternal.

Um casal com um bebé de cerca de um ano divorciou-se. Na divisão de bens, como era costume, concordaram na atribuição da casa à mãe factor correlato com a responsabilidade parental directa que lhe fora consignada. Só que a mãe não correspondeu às exigências inerentes. Começou por deixar o filho sozinho durante a noite e, conhecido o facto, chamada a atenção, passou a largar o filho em casa da avó paterna. Inicialmente apenas nas noites em que decidia ir divertir-se, posteriormente acrescentou os fins-de-semana e, finalmente, passando semanas inteiras em que nem sequer ia saber como estava o bebé. Entretanto, o pai que era militar, vivia nos quartéis onde prestava serviço, não podendo ter consigo um filho de tão tenra idade. Mas, para a mãe, não havia qualquer problema. Tudo corria sobre rodas.

Ia o bebé pelos seus dois anos e meio quando o pai, casando em segundas núpcias, achou-se com capacidades para dar de novo um lar ao seu filho. Muito embora o pequeno continuasse a viver, habitualmente, em casa da avó paterna, sendo respeitador da lei, pediu a revisão, em sede própria, da atribuição do poder paternal. O caso, que parecia de fácil resolução, dado o abandono a que a mãe sempre votara a criança, arrastou-se uns quatro anos pelo tribunal. Continuando ela, como se provou, a ser negligente em relação à criança, possivelmente como vingança pelo facto de o pai se ter casado novamente, retirou o seu filho de casa da avó, começando a sonegar as visitas da criança à nova família. Como consequência, ainda, da existência um tanto ou quanto desregrada perdeu a mãe o emprego e da pensão reforçada, dada pelo pai, para manutenção do filho saía parte substancial para sustento da sua vida social com prejuízo das condições de manutenção do bebé. Aviltando ainda mais a situação desta mulher acresceu a remessa para tribunal de casos de cheques sem cobertura – na altura considerados crime – bem como uma pendência qualquer, com a então Policia de Viação e Trânsito, por ilegalidade cometida. Apurou-se também que estava em vias de emigração.

Esta possibilidade levou a que o pai aumentasse a pressão sobre o tribunal. Um dia lá chegou o julgamento e tudo quanto foi dito sobre o comportamento negligente e culposo da mãe foi provado. Assim como a possível deslocação para o estrangeiro. O libelo produzido pela Juíza do caso era terrível para a mãe. Reconhecia tudo. Havia indignidade no seu comportamento, não merecia credibilidade, não obedecia às ordens emanadas pelo tribunal, por isso – quando todos pensávamos que iria ter a devida sanção - o poder parental continuaria a ser-lhe garantido!

Pasmei e aquele pai nunca mais viu o seu filho!

Este caso foi aqui trazido por me parecer bem paradigmático de uma certa forma de fazer justiça. Poderia chamar-lhe a decisão “by the book”. Isto é, a simples colagem à letra da lei, sem que haja capacidade de perceber que em casos de consequências sociais como estes, a decisão sábia será mais baseada na sociologia que no estrito cumprimento do enunciado legal. Não são simples as questões da parentalidade nem o laço biológico será sempre o mais importante critério a avaliar. A consanguinidade não é tudo. Os laços socioafectivos são, muitas vezes, bem mais importantes que os genéticos. As questões de progenitura foram importantes para as sucessões dinásticas e outras. Fazem parte de uma mitologia do sangue que a ciência hoje já não pode assumir de forma tão primária. A parentalidade é uma criação derivada do social e que só nas interligações criadas se consubstancia. Mas para efectivar esta atitude na Justiça é necessário uma outra forma de preparação, um outro entendimento da vida e das consequências de determinadas deliberações, para as quais, que me perdoem aqueles que não cabem nesta descrição, a maior parte dos nossos juízes não está preparada.

Precisamos de outra justiça. Fazem falta novos juízes! Não é possível continuar, tantas vezes, a borrar-se, desta maneira, a escrita.



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maio 26, 2009

ela de coração parado




à memória de elis regina


é sempre assim que chegam as notícias
repentinas absurdas e brutais
tudo fica parado como cartaz
em muro de silêncio
gentes isolando mágoas
em fundo de ruídos de atabaques

todos iremos um dia a esse encontro
como tu foste inesperada e breve
apartando olhos em colares nocturnos
tecidos da morte de cada um de nós

preciso agora da dureza das palavras
para enfrentar o momento aguçar a pedra
e profanar a alma desse deus de impudica grandeza
firmada sobre o inútil de sentirmos
como se morre na lentidão dos dias
sempre mais incompletos e sós

acredite-se embora que na morte
continue a vida de outro modo
não se percebe porque se cala a voz
e o esquecimento e instala
amarelecendo imagens vivas e reais

borboletas de sombras em mar esmaecido
ou comprido nevoeiro que se adensa
a minha mágoa é mão que arrefece
na janela do comboio perante a noite

canto na ribalta a decepção
da hora em que se cai sobre a notícia
de um corpo abandonado

que desse desejar animador da voz resta ela
de coração parado

maio 06, 2009

Bem prega Frei Tomás…




Não se pode queixar o cronista de falta de material imprevisto e saboroso. Ele há-o para todos os gostos e em tanta abundância que o desesperante é a escolha de sobre qual nos debruçarmos. Assim, do caudal dos últimos dias, escolhi dois casos que, por facilidade de discurso, tratarei na ordem inversa da sua cronologia.

Começarei pelo incidente acontecido, na manifestação do 1º de Maio, a Vital Moreira. Resumindo: o candidato do PS às Europeias, juntamente com a comitiva socialista, apresentou-se na manifestação convocada pela CGTP para, além da comemoração do evento, protestar contras as políticas sociais do Governo, amplamente defendidas, na comunicação social, pelo candidato.

Se é incontestável o direito de qualquer cidadão participar em algum acto de cariz público já se percebe menos bem, porque carga de água, haveria Vital Moreira de, contrariando todo o seu historial, aparecer, inesperadamente, numa festa a que, por norma, nunca comparecia. A explicação que de imediato surge era a de, sendo ano de eleições e estando ele interessado em captar votos, encontraria alguma utilidade em mostrar-se num movimento de massas. É porém lícito perguntarmo-nos se seria aquele local o ideal para conseguir captar alguns votantes para a sua causa. Só com muita ingenuidade esta pergunta poderia ter uma resposta positiva.

Então o que o faria correr para um acto onde seguramente saberia não ser bem-vindo?

Seria tão-somente a firme vontade de exigir o cumprimento de um direito democrático? Poderia bem tratar-se disso não se desse o caso insólito de a vontade lutadora só lhe ter chegado neste ano e de, confrontado com a indesculpável hostilidade de uns poucos, lançar, como se disso estivesse já à espera, ser aquela a sua Marinha Grande. Sabendo nós todos como o incidente da Marinha Grande foi importante para a viragem nos maus resultados até ali obtidos por Mário Soares, sabendo também como a campanha não vai alegre para Vital Moreira, instala-se por demais a desconfiança que o escarcéu seria o verdadeiro motivo da presença do apagado candidato às Europeias. Sem entrar em teorias da conspiração, nem fazendo gala de tentativas de cabalas negras, a verdade é que se seria de esperar uma reacção enérgica à situação criada. Só que a reacção foi muito maior e alargada, passando o incidente com manifestantes a ser móbil para exigir um pedido formal de desculpas por parte do PCP.

Aqui me espanto eu!

Mas porquê do PCP? A organização do evento não era da responsabilidade da CGTP? E mesmo que os desordeiros fossem militantes do PCP teria ele de arcar com a responsabilidade do gesto de alguns energúmenos, por acaso putativos militantes desse partido? Então, quando em Felgueiras militantes do Partido Socialista agrediram dirigentes do mesmo partido ter-se-ia de meter no mesmo saco – porque eram militantes – agredidos e agressores? E porque alguns militantes do PS possam vir a ser acusados de corrupção entende-se que todo o partido é corrupto? Um pouco de seriedade e comedimentos é o que se pede meus senhores. É sempre a extensão abusiva do acto individual ao colectivo que fundamenta o aparecimento de teorias racistas e autoritárias.

Por outro lado o facto de possuirmos um direito exime-nos de ponderar quando, onde e em que casos o deveremos exercer? Sabendo embora que é a sua utilização que funda o direito possuído, não será que qualquer pessoa com um mínimo de racionalidade procurará, se tal for possível, não tornar o seu exercício num acto agressivo?

Exemplifico:

Durante muitos anos fui simultaneamente associado de um sindicato e membro de conselhos de administração de empresas onde trabalhei. Como sempre entendi que a minha profissão era a que me levara a entrar nas empresas e que a eleição para a administração era uma mera comissão de serviços, mantive-me sempre como sócio do sindicato. Esta situação permitia-me, de direito próprio, estar presente nos plenários de trabalhadores convocados pelo sindicato. No entanto, nunca pretendi exercer esse direito, por achar que era abusivo em relação aos direitos dos restantes trabalhadores, e só fui a reuniões, quando directamente convidado e apenas permanecia nelas enquanto o assunto que ali me levara era tratado. Geri, durante muito tempo esta situação esquizofrénica e, por mais difícil e delicada que fosse, sempre cumpri todas as minhas obrigações e nunca fui desrespeitado em nenhum plenário e por nenhum trabalhador.

Quanto a mim, se não houve premeditação táctica no assunto, foi aqui que Vital falhou. Fez prevalecer o seu direito de presença acima de uma ausência ética. Foi a uma festa para a qual não tinha sido convidado e, por estar de relações tensas com os anfitriões seria fácil prever que a sua presença não seria bem aceite. Não sendo diminuído mental e consciente da situação deixa antever que procurou o que encontrou e que se serviu disso para poder marcar algum relevo político no plaino da sua campanha. Pecou por excesso de utilização de direito e míngua de bom senso e respeito por si próprio.

Ainda por ética e mudando de roteiro, vejo-me forçado a escrever sobre um outro assunto que me dói na alma.

Estou estupefacto e não consigo compreender como o meu partido, o Bloco de Esquerda, aceitou votar favoravelmente a nova lei de financiamento dos partidos. Se a lei anterior era iníqua – estruturada para garrotar economicamente o PCP, não permitindo alocar os lucros da festa do Avante – não é apadrinhando uma outra que permite multiplicar por cinquenta e cinco vezes o valor possível de receber, nos partidos, em dinheiro corrente, que se corrige um erro particular. Choca-me aliás a hipocrisia declarada de partidos de direita justificarem a sua aprovação com a resolução do problema financeiro do PCP. Que amigos eles são!

Então, que é feito da exigência de transparência? Da honestidade e declaração de interesses? Do evitamento de prestações monetárias com posteriores exigências, nunca declaradas, de favores políticos? Podemos exigir isto para os outros sem primeiro darmos o exemplo? Temos a trave no olho e preocupamo-nos com o argueiro no olho do vizinho? Não será que o nível de exigência que eu posso ter com os outros só se justificará na medida em que seja, no mínimo, equiparável àquele a que me obrigo?

Em nome da coerência e da possibilidade de continuarmos a defender a via da transparência e da moral expliquem-me e ajudem-me a encarar aqueles que hoje me olham sardónicos e atiram à queima-roupa “ bem prega Frei Tomás”.


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abril 23, 2009

desdémona alabastrina







para otelo saraiva de carvalho


I

desdémona jaz
nos teus braços meu
capitão de mais quentes
marés
ou praias de outros tempos

rodeiam-te enclavinhadas piranhas

em excessivo gesto de amor
as mãos torneiam a ingénua humidade da vida
pérolas de dedos enegrecidos
no jeito de calar

tudo se fazia à escala espontânea de outros rios
cheirava o novo verde até às margens
incómodos cavalos no viço dos tempos
em que tudo era redondo e levado no alcantil dos dias
e o corpo
ruído transitório no vento magoado
era sombra de domingo no frágil dos ombros

olha de novo

II

desdémona jaz

esquecida a invenção do protesto
deixa que o olhar só por si se sobrenade
até ao limiar das mãos

agora

sob a soleira do tempo repousa no prumo do leito
descreve o estático espaço entre grades de olhar

que portos tocas
que estonteantes claridades acusas
na procura lancinante dos inícios

quem as mãos te conduziu é que te acusa

aí estás desdémona de ti todo
onde te colocaram com a memória dos sentimentos
por estrear

braveza de tempestade nos trânsitos do espaço
como falar-te de gaivotas quando um corpo jaz
e tu olhas o espelho das mãos distanciadas e breves
onde te perguntas
há coisa mais terrível que olhar por sobre um rio

III

uma imagem percorre o clarão do raio
a cidade adormecida espera a quietude dos grandes temporais

olha a asa que voa
vê essa asa parada
avé ave asa ave

e que nos salve
e que nos salve

abril 17, 2009

UMA QUESTÃO MUITO SIMPLES




Indubitavelmente uma das teses que levaram Obama à vitória foi a sua firme oposição à política belicista da administração Bush. Se não tivermos a memória curta lembraremos ainda as ferozes intenções dos neo-cons que levaram a um cozinhado de falsidades tendentes a proporcionar não só a invasão do Iraque, como pretendendo ainda obter uma monstruosa autorização para declarar “guerras preventivas”, em qualquer ponto do mundo, bastando para tanto que o Império sonhasse haver nesses países armas de destruição massiva ou ideias que não agradassem aos ditadores, em potência, do mundo dito democrático. Recordemos, também, que um dos principais actos da invenção da guerra se passou nos Açores, com o apoio basbaque e oportunista de Durão Barroso, ali catapultado para a Presidência da Comissão Europeia, com o concomitante abandono do governo da República nos braços, linfáticos e tragicómicos, do menino-guerreiro.

O repúdio dos povos do mundo obstou, de certo modo, ao avanço rápido que se pretendia de tais idiotices e, a ganância levada à solta dos próceres desta sociedade agónica, precipitou a anunciada queda deste iníquo sistema. Obama veio a tempo, com o discurso certo, com a dose de esperança suficiente para iluminar um novo caminho. No entanto, como muitos analistas já salientaram, os neoconservadores liberais não entregaram ainda os pontos. É que, apesar da catástrofe em que precipitaram o mundo, ainda têm muitos e largos interesses a defender e bastantes aliados ocultos em florestas de boas intenções. O seu descaramento é crónico e total, apenas comparável à ambição e desprezo, sem limites, pelos outros. Veja-se de passagem o desplante com que gestores de grandes empresas em risco de falência foram pedir, a Obama e ao Congresso, fundos para salvar as empresas, deslocando-se em jactos particulares; como muitos dos milhões investidos foram, prontamente, desviados para pagamentos pessoais e interesses individuais, contrários ao desenvolvimento harmónico dessas mesmas empresas em regime de forte descapitalização.

Aguardava-se que o percurso de Obama não fosse simples e esperávamos que muitos alçapões se abrissem no seu caminho. Em nome da esperança do mundo confiamos que ele os distinga e os ultrapassasse. De facto, na maioria dos casos, não nos tem desiludido. No entanto, sabíamos que a questão da guerra seria o mais difícil teste por que teria de passar. As suas declarações foram no sentido de terminar a Guerra do Iraque, tornada incomportável em termos económicos e sociais, e investir mais força no Afeganistão, guerra que, dada a sua origem e forma de declaração, assume um carácter menos pernicioso para a maior parte das opiniões públicas. Assim, anunciou a retirada gradual do Iraque – numa pequena e primeira cedência ao programa enunciado – e declarou o reforço às tropas do Afeganistão. De facto, fez retirar doze mil soldados do Iraque, e mandou já dezassete mil para o Afeganistão. Feitas as contas, em vez de diminuir o esforço de guerra está, nitidamente, a aumentá-lo. Este caminho poderá mete-lo num beco sem saída, sobretudo se continuar com a intenção de “vencer a guerra no Afeganistão”. Esta é uma miragem perigosa, remanescente do pensamento bélico neo-com, assente numa ideologia de justiça vingativa sobre os acontecimentos do onze de Setembro. Se ninguém com um ínfimo de sentimentos pode deixar de recusar a condenação para quem delineou e executou tão míseros atentados, penso ter chegado o momento de proceder a uma reflexão mais profunda sobre as razões da guerra e da sua manutenção.

Com o ataque às torres gémeas saltou para o mundo o nome de Ben Laden. Até aí seria um perfeito desconhecido para a maior parte dos viventes. A partir dessa acção o seu nome passou a ser sinónimo de arqui-inimigo da humanidade. Entende-se a comoção e, até se percebe que estando ele no Afeganistão, sob a protecção declarada do regime talibã, fossem os mesmos, ao recusar a sua entrega, atacados pela potência ofendida. O mundo percebeu estas razões - ao contrário do que viria a acontecer no Iraque - apoiou e acompanhou activamente o esforço de guerra, quer na economia, quer no próprio teatro de operações. Os anos passaram! Não se capturou Ben Laden. A vitória militar conseguida então está, muito rapidamente, a transformar-se não só numa derrota local, como a assombrar o mundo com o risco de que o Paquistão, potência nuclear, entre em rota de dilaceração social, deixando nas mãos de párias e aventureiros uma verdadeira força nuclear. É um risco demasiado grande para ser corrido.

No entanto, ninguém ainda explicou a Obama uma questão muito simples: não se ganha militarmente uma luta de guerrilhas, muito menos num terreno como o do Afeganistão. Pela simples razão de que eles estão lá, são a população ou pelo menos uma boa parte dela. Os outros deslocam-se para lá com todos os custos sociais, pessoais, emocionais e económicos que tal comporta. Além disso, os americanos aprenderam-no certamente no Iraque, nenhum ocupante é percebido como libertador. Será sempre, por melhor que sejam as suas intenções, unicamente um opressor. A América deveria recordar-se do Vietname, do Afeganistão da ainda União Soviética, das guerras coloniais portuguesas. As armas apenas podem conceder um tempo para se prepararem soluções políticas. Nada mais! Se Obama insistir em ganhar uma guerra que nunca poderá ganhar perderá, não só a guerra, como as esperanças depositadas nele e no seu mandato. Terá que perceber que o seu interesse e o das nações não é compatível com o do lóbi industrial-militar dominante no seu país e que não é lícito impor formas de vida e valores sociais ou religiosos - porque os consideramos superiores, melhores ou mais evoluídos - a ninguém. Cada nação deverá viver com os seus valores e com os valores que, induzidos embora, venha a aceitar como bons para, voluntariamente, incorporar na sua vivência. A democracia servida na ponta das armas é pura ditadura cultural. Nunca levará a mais nada do que à revolta daqueles que, presumivelmente, pretenderia libertar.

É finalmente uma questão muito simples, mas essencial, a que se põe de imediato a Obama sendo definidora de todo o seu mandato. Ou pretende vencer militarmente a guerra e está, de antemão e a prazo, condenado ao fracasso interno e externo, ou entende que os povos devem viver e evoluir dentro das suas culturas próprias e em livre intercâmbio e integração com as outras culturas, podendo marcar o início de uma nova era, ideológica e económica, para todo o mundo, evitando os armagedões que se acumulam no horizonte. É uma tarefa hercúlea mas absolutamente necessária para não nos tornarmos, também, uma espécie em vias de extinção.



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abril 10, 2009

O erro (de) Vital




O PS de Sócrates tem pela frente, a nível nacional, um problema muito complexo. Mal comparadas as coisas é como o mistério da Santíssima Trindade. O três que é um! Só que aqui o Pai, o Filho e o Espírito Santo que encarnam um só Deus, é substituído pelas eleições europeias, legislativas e autárquicas, que sendo três, só uma transparecem. Isto porque por mais que a direcção do PS queira, por motivos de crise e feição de governar, elas se tornam todas em uma única e continuada forma de avaliação do governo. Não é má ironia para quem tanto defende as avaliações a qualquer preço. Como diz o outro, pela boca morre o peixe e, desta forma, um problema político pode transforma-se numa peroração teológica.

Apertado, agora, pela sua colagem ante-crise ao neoliberalismo, vê-se Sócrates na obrigação de contrapor, à efectiva prática de direita, um discurso de esquerda. Choca –se, no entanto, com a constatação diária das malfeitorias perpretadas contra as classes médias nacionais, com os apoios desmedidos ao capital e com a tremenda alergia a legislar contra a corrupção e o enriquecimento ilícito. Sabe Deus porquê!

Para tornar mais credível a vã retórica esquerdizante, também para tentar separar as eleições europeias das legislativas, procurou um cabeça de lista, parecido independente, que apresentasse algumas credenciais de esquerda. Na limitada visão do mundo em que circula ninguém lhe pareceu mais adequado que o constitucionalista Vital Moreira. E sê-lo-ia não fora o caso deste insigne Doutor ter, de há muito, iniciado um desvio de direita por colagem excessiva ao Governo Sócrates, em tudo quanto é texto publicado e posição assumida. Que o senhor tem todo o direito de escolher as companhias que prefere é coisa que não se discute. Já a sua representação do real cabe inteiramente na nossa crítica e avaliação. O que vem ressaltando dos seus posicionamentos é um comportamento de barata entontecida na tentativa de se colar na órbita de um governo absolutamente desorbitado. Do Vital Moreira atentamente escutado por tudo quanto de esquerda se assumia, já nada resta e por tal, esta escolha revela-se um erro Vital para o PS.

Mas também é um erro Vital de Moreira.

De tal forma isto é assim que, na esteira de uma intervenção de Mário Soares, criticando o apoio do PS a Durão Barroso para a reeleição ao parlamento Europeu, logo Vital Moreira, vem a terreiro defender que os Partidos Socialista Europeus deveriam apoiar um candidato próprio. Elementar meu caro Watson, dirá qualquer pessoa. Pensou-o e disse-o Moreira. Só que não compreendeu que o PS de Sócrates circula nas mesmas linhas de pensamento político do trânsfuga Durão “malgré lui”. Como muito bem tem sido apontado ele é o único que resta da fotografia dos Açores. Todos os outros foram já corridos da área do poder marcados que estão pela guerra e pela crise. O erro deste PS é não perceber que quem patrocinou tão fortemente a política Bush, por mais golpes de rins que dê, não poderá oferecer confiança a quem apoia o seu inverso, isto é, a visão Obama do mundo.

Entalado entre as suas contradições Sócrates tem de vir reafirmar o apoio “patriótico” a Barroso acelerando os movimentos paroxísticos da barata que já não sabe se há-de fingir de morta, levantar voo e partir, acabando, no entanto, para maior descrédito, por dar o dito por não dito. Mais um erro de Vital Moreira, obrigado a “explicar” que o que disse sobre apoio a um candidato próprio queria dizer o contrário daquilo que disse. Estão a ver a embrulhada? O descrédito e a gargalhada? Pois é assim mesmo que vai a candidatura independente às europeias com a imagem inquieta de um candidato tão dependente que terá sempre, antes de falar, que ir ouvir o que há-de dizer ou, caso tal as pressas não permitam, trazer no bolso o seu discurso e o contrário.

Enfim, servidões de quem serve o poder.

Se olharmos para as autárquicas, mesmo não havendo nelas, um erro Vital, também, para mal dos resultados PS, a maldição do Governo vai estar patente e com efeitos perceptíveis. Se em condições normais o PS tem nestas eleições uma forte pressão PSD, este ano ela será mais forte e acrescentada pela erosão, na sua franja esquerda, causada pelo efeitos desastrosos da política governamental nas condições de vida das populações. A perda de poder de compra, de condições de saúde, habitação e reformas e os ataques destemperados aos professores, entre muitas outras coisas, criaram um sedimento de má vontade eleitoral, mesmo dentro do partido. Não sei como poderá Sócrates ultrapassar o inferno que criou, mas creio bem, para melhoria de todos nós, que ele irá sair muito chamuscado nestas eleições.
Assim o creio e assim, firmemente, o espero.


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abril 01, 2009

O voo do milhafre





No verão, quando o calor tórrido do Alentejo amodorra corpos e almas, no cimo do céu, pairando com olhar penetrante, o milhafre observa a terra em baixo. Perscruta qualquer movimento. Quando o detecta, fecha as asas e, como bólide, cai sobre o alvo. É assim que a proliferação de roedores é mantida em níveis aceitáveis. Sem a vigilância destas aves, os cereais seriam destruídos e a fome espalhar-se-ia pela terra. Também, na sociedade, hoje é necessário que os milhafres voem e destruam os roazes minadores do campo do poder, ameaçadores de destruição de tudo quanto são valores e ética, substituídos pelo xico-espertimo mais soez.

Cá vai este voo do meu milhafre!


1 – O nosso primeiro-ministro bem podia empandeirar alguns dos seus amigos, ou sequazes, ou seguidores. A sua companhia não lhe faz lá muito bem e potenciam os mais negativos traços da sua personalidade. Mal tapados ainda, num limbo de não esclarecimento, casos como os do diploma, das casas e do relatório sobre educação, surgem agora notícias alarmantes de pressões sobre o Ministério Público para proceder ao arquivamento do processo Freeport. Se alguma coisa pudesse prejudicar ainda mais o perfil de José Sócrates, seria juntar mais um “arquivanço” - e em caso de tamanha importância – às conspícuas ocultações já acontecidas nos casos acima lembrados. Amigo que queira favorecer o seu senhor de tal maneira, presta-lhe um muito mau serviço, contribuindo apenas para aumentar o lamaçal das coisas por esclarecer. Vale a pena relembrar o rifão “com amigos destes não precisa de inimigos”.

Se alguma coisa pode sair de são neste negócio malcheiroso é o apuramento objectivo da verdade dos acontecimentos. Sócrates só poderá livrar-se de mais este labéu de desconfiança, vindo a terreiro desautorizar tais amigos, exigindo o aprofundamento e esclarecimento pleno da ocorrência e do papel de cada autor no desenvolvimento desta tragicomédia. Caso contrário a imagem do primeiro-ministro ficará indelevelmente manchada pela desconfiança, com resultados possivelmente calamitosos na sua carreira política e, para o PS, no desfecho das próximas eleições.

2 – O Bispo de Viseu está em rota de colisão com a sua hierarquia, desde o colégio de bispos até à Santa Sé. Primeiro foi a correcção pertinente que ousou fazer às tristes palavras de Bento XVI quando, nos Camarões, teve a infeliz ideia de perorar sobre o preservativo e a Sida. Sempre me espantou como é que um grupo de assumidos celibatários constantemente se achou com conhecimentos e direito de opinar, de cátedra, em relação a coisas que, presumivelmente, não têm qualquer experiência: sexo e família. Fico sempre com a sensação de que ou são fala-barato ou nos andam a enganar há muito tempo. De qualquer modo, tendo em conta declarações do sibilante cardeal da congregação dos santos, Saraiva Martins, a rolha já foi imposta, a toda a igreja, com um autoritário “chega de pareceres”. Lá me vem à memória, não sei porquê, com um cheirinho a fogueiras, Giordano Bruno e Galileo.
É melhor deixar que os africanos morram com sida que controverter os dizeres papais. Pois que representa a morte de alguns milhares de desconhecidos contra a defesa intransigente da doutrina do papa que, como sabemos, em matéria de fé faz lei e nunca se engana.

Nem com Darwin!

No entanto o Bispo que se precate. A juntar à heresia da camisinha arriscou-se a defender o divórcio em caso de violência doméstica. Tem a minha admiração mas penso que não lhe vai servir de nada face ao ostracismo a que está a sujeitar-se. Nestas coisas a igreja é mais madrasta do que mãe e exige o cego princípio da obediência em qualquer situação e contra qualquer racionalidade.

3 – O que poderia ser surpreendente, mas infelizmente já não é tal, é a nomeação para uma empresa intermunicipal, de um senhor Domingos Névoa, conhecido gestor da Bragaparques, condenado por tentativa de corrupção do Vereador Sá Fernandes. É o regime de fartar vilanagem. Tudo é permitido desde que traga enriquecimento, mesmo que sem fímbria de honestidade. Fala-nos da sua aceitação a pequena multa a que foi sujeito e a falta de moral que é esta escolha. Não há nos negócios gente decente? É evidente que há, mas são preteridos e trocados por pessoas sem ética, sabe-se lá porquê. Por mais voltas que dê ao bestunto não consigo vislumbrar a razão de tais coisas e escolhas. E da lembradura saltam-me outros interessantes personagens, tais Ferreira Torres, agraciado com uma absolvição por falta de provas, Fátima Felgueiras, festejando uma condenação menor face às prevaricações e Isaltino Morais a tripudiar com o tribunal, do alto da sua suficiência, considerando que as acções ilegais praticadas não têm importância nenhuma porque a maioria as comete. Boa moral, senhor de Morais. Nem sequer é capaz de pensar que a ilegalidade é ainda mais censurável em quem ocupa lugares públicos. Mas não faz mal, o povo gosta e, para o sabermos basta verificar que se estes abencerragens concorrerem a eleições serão sem dúvida – e já foram – premiados com vitória certa. Se estivéssemos no Reino da Dinamarca diria que, entre nós, alguma coisa vai podre.


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março 22, 2009

memórias 14 - dialéctica





deus à semelhança
do pensamento em impérios inconcretos

diálogo posto em causa
náusea parabólica e estelar

o mundo eternamente em pé
ao tempo em que está a desabar

Lisboa, 1971

março 13, 2009

QUEM MANDA NA MINHA MORTE?





Há poucas semanas, no Brasil, um bispo católico excomungou uma menina de 9 anos, que estava em risco de vida, por gravidez de gémeos, resultante de abusos sexuais do padrasto. Na mesma vezada, para não perder tempo, excomungou também a mãe e, salvo erro, todo o pessoal de saúde que efectuou a interrupção da gravidez. O abusador ficou indemne a esta sanha sancionatória. É caso para dizer: Deus é mesmo macho!

Ultrapassemos este primeiro estágio da indignação, contra as medidas deste parente de Torquemada, e, fazendo das tripas coração, reconheçamos que o bispo nem sequer está errado, em termos de direito canónico.

Efectivamente a Igreja - mal-grado os avanços humanitários do Concílio Vaticano II contrariados pelo actual movimento de contra reforma fundamentalista de Bento XVI - nunca pôs em causa que o principal papel da mulher fosse o de reprodutora da espécie. Nesse sentido pode perceber-se que o risco de morte da mãe fosse considerado como uma contingência natural e que, perante uma vida que se cumpria e outra que prometia vir a cumprir-se, os cânones tivessem a preocupação de assegurar a vida à segunda. Mesmo tentando perceber a situação por este ângulo, não se consegue compreender a lógica do emérito bispo, uma vez que nem a menina era uma vida cumprida, nem estava na idade de ser uma mera máquina de procriação. Também não se entende o silêncio do Vaticano sobre este caso, quando, ainda recentemente, retirou as penas de excomunhão ao bispo alemão que negou o holocausto e ao tristemente célebre fundamentalista católico Monsenhor Lefèbrve.

Portanto, no fundamental arcaísmo onde se instala, Sua Reverência, com todo o poder da Santa Madre Igreja, condenou a pobre criança criança ao anátema.

Risível, dirão, tendo em vista a sensível perda de poder temporal da Igreja. No entanto, aprofundando as intenções emergentes, não podemos esquecer que os factos passam-se na sociedade brasileira, onde as questões de fé têm um peso muito maior que, actualmente, na Europa. Também não me parece ser a família em referência de classe social abastada. Assim, o efeito da excomunhão, visando proibir a qualquer instituição ou membro da igreja o contacto ou apoio ao excomungado, obrigará qualquer cristão, em qualquer momento ou situação, a negar consolo ou apoio ao exorcizado, logo a esta criança e a sua mãe. A miséria e o ostracismo são a face horrível do decreto a que o bispo condenou a vítima. Uma obra plena de misericórdia e caridade, como se vê!

A segunda questão que se me coloca é a do Testamento Vital. Este caso tem andando em discussão. Muito recentemente foi à Assembleia da República e espero que em breve faça parte plena dos nossos direitos. O que é então este testamento? Nada mais nada menos que uma declaração, em vida, sobre os direitos de se dispor do corpo pós-morte ou de consignar que, no decorrer de uma doença ou estado mórbido limite, seja o paciente libertado do encarniçamento terapêutico. Dito por outras palavras, não consignando o direito à Eutanásia, consagra o direito de não se manter uma vida para além dos limites expressos pelo vivente. É um primeiro e importante passo para manter a dignidade do ser humano até ao fim e dentro dos seus próprios critérios.

Une estas duas causas o confessado medo da igreja pela evolução do pensamento - sobre a vida e sobre os direitos inerentes à mesma - que o indivíduo possa ter para determinar o âmbito da sua existência.

O que no entanto mais me revolta é a presunção que esta igreja, cruel, beata e hipócrita, tem ao considerar-se com o direito de intervenção em todas as questões sociais, independentemente do facto de que essas intervenções venham a ter eficácia sobre gente estranha às suas crenças. Os adultos, que de livre vontade entrem para uma confissão, terão de obedecer às suas regras, por mais abstrusas que sejam. Mas, que essa igreja queira submeter aos seus princípios, por melhores que pareçam, quem nada tem a ver com ela, parece-me ser o grave pecado do Orgulho, que a igreja tanto diz que despreza. Contradições!

O próprio Estado, a quem legalmente cabe a preservação da vida humana, terá um comportamento inaceitável e intrusivo se pretender fixar o tempo e o modo da morte de alguma pessoa. Por isso somos contra a pena de morte e, sendo-o, estranho seria que lhe déssemos o poder de contradizer alguém que, no seu perfeito juízo - por razões que só a essa pessoa dizem respeito – decidisse que a sua vida deveria terminar segundo a sua vontade.
A morte é um acto onde estamos sempre e essencialmente sós. É uma sujeição individual e intransmissível. Ninguém pode viver por nós a nossa própria morte. Por isso não reconheço a ninguém, poder ou instituição o direito de decidir, por mim, a forma da minha morte. Morrerei naturalmente quando as circunstâncias da vida a isso me levarem ou quando, essas mesmas circunstâncias, forem de tal modo ignominiosas que me levem a escolher o fim definitivo.

E nunca permitirei que Igreja, instituição, pessoas ou estado, nisso venham a interferir, retirando-me o direito de decidir quando e como será o meu fim. Serei eu, na medida do possível, a mandar no último acto da minha vida. A isto chama-se Eutanásia e é um direito humano que urge estabelecer.


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março 08, 2009

quietura




chove nos rostos
no quarto na memória
no interior do tempo
recolhem-se cantigas

a bruma
coluna de nada
sobre o esquecimento
no céu desabitado

cidade invernia
contra-claridade
névoa de emoção
ao comprimento do vento

a sudoeste da mágoa
remanesce a afeição

fevereiro 26, 2009

Olhós amantes do gajo





Se fosse apenas uma questão de cultura o caso, sendo grave, não seria desesperado. Mais uns tempos de escolaridade ou formação e a solução estaria, provavelmente, encontrada. Se fosse tão só a polícia de Braga – invejosa do sucesso universal das “mães de Bragança”- a investir, gloriosamente, contra o valor cultural existente no quadro de Gustave Coubert,”As origens do mundo” seria lamentável, mas não passaria de uma mera excrescência demencial que poderia, com alguma persistência, ser clinicamente expurgada. Só que, meus amigos, os casos sucedem-se e começam a marcar, de modo relevante, o nosso quotidiano. É necessário, portanto, estarmos atentos e, não descurando o lado anedótico dos acontecimentos, não deixarmos, por descuido ou laxismo, que os inimigos das liberdades e dos direitos humanos, serventuários ferozes de um autoritarismo antigo e redutor, venham de novo impor, com prepotências e censuras prévias, o esmagamento dos direitos à livre expressão e às liberdades cívicas.

Se não tivesse já havido sinais inquietantes de intervenção policial, de forma absolutamente ilegal, em várias associações com vista a controlar previamente o conteúdo de comunicados, greves ou manifestações, poderíamos, ligeiramente, abanar a cabeça, com comiseração, deixando de lado a inquietude e murmurando, entre dentes, um comentário mordaz sobre a estupidez policial. Se não viessem sempre as justificações dessas acções como de simples obediência a ordens superiores – tal como nos campos de extermínio nazis – sem que nunca cheguemos a saber de que “superioridade” foram emitidas, talvez pudéssemos minimizar acontecimentos como estes e, despreocupadamente, seguir o ritmo na nossa vida normal.

Se a polícia não estivesse sempre pronta e eficaz para a repressão violenta de acções populares justas mas desagradáveis aos poderes constituídos; se a mesma polícia está ausente quando, nos bairros sociais, por causas profunda, ligadas a questões de sobrevivência não resolvidas, rebentam confrontos que põem a segurança dos moradores em causa e criam climas de terror; se os relatórios anuais de várias instituições de observação mundial de direitos humanos, não apontassem, continuadamente, o deficits democrático, por sucessivas violações dos direitos individuais, desta polícia, poderia rir-me desbragadamente dos actos anedóticos que cometem.

Se a magistratura judicial, tão lenta a julgar qualquer caso de bric-à-brac, não fosse tão célere a censurar um écran de computador com algumas mulheres semidespidas - se não soubéssemos que esse computador era o Magalhães - talvez gargalhássemos com a manifesta caricatura que este procurador deu da “sua justiça”. Se não víssemos como o caso Casa-Pia se arrasta e esvazia perante a influência dos poderosos; se não soubéssemos que as vítimas são crianças desvalidas; se não nos entrasse, todos os dias, pela casa dentro o aumento oportunístico do desemprego; se não soubéssemos que quase metade dos desempregados não recebem qualquer subsídio de desemprego e que os bancos mal geridos são premiados com lautos subsídios a galardoar a sua cupidez e inoperância, talvez achássemos que é carnaval, logo, nada se devendo levar a mal!

Se não soubéssemos que a DREN tem sido obreira, através de acções e posições da sua directora, de algumas perseguições e prepotências exemplares, poderíamos ficar estupefactos com o autoritarismo com que desmandou uma posição legal e oficial do Conselho Pedagógico de uma escola sobre a sua tutela. Poderíamos, então, pensar tratar-se de mera falta de inteligência ou perspicácia pessoal o ter obrigado os professores dessa escola a desfilar num corso carnavalesco - o que eles fizeram, vestidos de negro e de fita-cola na boca - contra sua vontade, obrigados por uma nota oficial de estilo e obediência tão duvidosos que, mal cumprida a ameaça, logo foi explicada de modo atabalhoado – tal como todas as situações anteriormente citadas o foram – revelando a incomensurável arbitrariedade desses actores, tão ofensiva de direitos, liberdades e garantias.

E nunca, nada, nem ninguém, foi, por tais actos, alguma vez, responsabilizado.

Estas coisas começam sempre assim. Levemente. De mansinho. É um acontecimento aqui, uma pequena repressão ali, um “gag” que pela sua imbecilidade até dá vontade de rir e, pouco a pouco, quase sem darmos por isso, vemos o nosso campo de acção a restringir-se e as capacidades de resistência geral a diminuir por aceitação de habitualidades que, maldosamente, se instilam e instalam.

É ver, senhores, o concomitante exercício de reabilitação do pai de todas as iniquidades de que forças obscurantistas tentam forçar a memória. Ora é sério e o maior português, ora, como actualmente é um desenfreado Casanova a tripudiar sobre a moral que, férrea, era imposta, por sua vontade, ao povo português. Ele há-o para todos os gostos. Forma imprecisa mas persistente do inconsciente nacional, ei-lo que vai florescendo, aqui a ali, nas instituições mais retrógradas. Como o carnaval já passou, tirem-se as máscaras e chamem-se os nomes correctos ao bois. Não deixemos que a coberto da Crise os fascistas ocultos e inscritos nos corpos das instituições tomem de novo o comando. Os amantes do gajo são de aproximação doce e subtil, mas escondem o chicote e os instrumentos de tortura por baixo do roupão caseiro.


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fevereiro 22, 2009

Memórias 13 - sw2





não sei se cheguei depois
mas as minhas mãos vieram antes
acariciar-te o sorriso

no teu rosto
rosto de marés
o encantamento das palavras murmuradas

tal como uma distância
vives dentro de mim
talvez de ressonância em ressonância
seja o teu nome
um monumento barroco

é no suave fascínio de mulher
que te cumpres ao longe
que eu te espero e não queres vir

esta foi a canção que ouvi em ondas curtas
em sw2 para ser mais exacto


Guiné, Teixeira Pinto, 21 de Novembro de 1967

fevereiro 13, 2009

O Tejo em todas as suas dimensões






A proximidade de Lisboa tem feito mal ao Barreiro. Tornou-o provinciano e parente pobre dos luzeiros da grande urbe. Olhando para dentro e miopemente foi deixando que a grande vizinha lhe levasse tudo e todos quantos da mediania pretendiam sair. E foi-se sociologicamente empobrecendo num deixa andar mole e entorpecente. É certo que motivos políticos e outros foram-se, para mal dos nossos pecados, muitas vezes conjugando. Mas se isso é verdade, não desculpa a torpe aceitação da menoridade a que alguns quiseram condenar-nos. Faltou, em muitas ocasiões, foi a vontade de partir a loiça e de dizer a mandadores de mandadores, que já bastava o que bastava, e que quem geria os nossos destinos era a nossa vontade. Seria difícil, porventura, mas era necessário.

Por isso fomos andando, perdendo peso e população, vendo a juventude procurar o futuro do outro lado do rio.

No entanto, nos longes do tempo, quando quis e olhou para além do seu umbigo, o Barreiro soube ser grande e deixar a sua marca na História. Bastou-lhe olhar para fora, não deixar que Lisboa se interpusesse no seu caminho e gritar as suas competências e possibilidades. Fê-lo na Idade Clássica por entre os rios, na Renascença com os descobrimentos, no Iluminismo com os vidros, na época do vapor com as fábricas de cortiça e caminhos-de-ferro e, já mais perto, com o marco químico da CUF.

Em todos os momentos de grandeza existiu sempre uma constante: a premente presença do Tejo e a suave insinuação do Coina!

Um rio pode ser um obstáculo ou um traço de união entre as duas margens. Depende apenas das pontes que se lancem. Neste momento, parece ser a segunda hipótese a prevalecer com a previsível construção da Terceira Travessia. É uma oportunidade que não poderemos perder e que terá de concitar todas as boas vontades no mesmo sentido. Que, como é triste hábito, querelas antigas tantas vezes sem sentido, não venham a atravessar-se, por duvidosas contabilidades sectárias, na possibilidade de realização desta obra. Podemos estar num momento fulcral para abater a apagada e vil tristeza do nosso viver. A construção do Aeroporto, a plataforma logística do Poceirão, agregada à já referida ponte, pode ser o impulso que faltava para acordar o velho urso da sua hibernação.

De qualquer modo isto só será uma parte do a fazer. Por muita utensilagem material de que disponha, nenhum homem, nenhuma sociedade, se afirmará e tornará credível sem o substrato cultural que confira significado a esses meios. Caso o não possuam poderão parecer tão risíveis como as ridículas ostentações de novos-ricos destituídos das medidas das proporções, logo excessivos nas demonstrações públicas de riqueza.

Por isso, tendo em conta as modificações estruturantes que estão a caminho, e que irão deixar livre todo o espaço da antiga estação de comboios e da actual estação fluvial, mais as ferrovias adjacentes, espera-se, com profunda esperança, que para as mesmas não esteja reservado o triste destino de serem alienada a interesses de construtoras e similares semeadoras, a esmo, de toscos betões e possam ser reservados para instituições que melhor projecção confiram ao Barreiro.

Sem querer fazer deste objectivo monopólio da qualquer força política – até porque a sua consecução dependerá de todas e de mais boas vontades da sociedade civil - não posso deixar de referir que, no momento, na Concelhia do Bloco de Esquerda do Barreiro, se trava, com especialistas de várias disciplinas, um debate sobre o aproveitamento desses espaços para estabelecimento de um Centro Cultural e Científico do Tejo, com ambições de instituto nacional.

Fundamenta esta ideia o facto, já anotado, de ter sido o Barreiro, em várias épocas histórica, o fulcro do desenvolvimento senão do país, pelo menos do sul, sempre centrado na auto-estrada para o mundo que o Tejo é. A notável percepção do arco ribeirinho, como pólo de desenvolvimento, acrescenta estas possibilidades e fá-las mesmo sentirem-se como inadiáveis para a consecução de um projecto de vertentes materiais, sociais e culturais que a cidade merece.

O conceito que estudamos engloba toda a região banhada pelo Tejo bem como a concentração temática de zonas de visionamento, estudo, pesquisa e acção dos períodos em que toda esta região influenciou positivamente os destinos pátrios. Núcleos museológicas sobre os descobrimentos, as cortiças, as ferrovias, o sal, os moinhos, o bacalhau, o vidro, etc. coexistiriam com bases de dados, para investigações, ligadas a estas matérias. As artes performativas e plásticas deveriam ter ali, também, poiso adequado. Assim seria possível que as necessidades de estudos, ao mais alto nível, e os olhares interessados de quantos fazem do conhecimento o seu mister, descobrissem o Barreiro como ilha de saberes do passado e do futuro sobre este Tejo de inenarráveis possibilidades e dimensões.

E as questões económicas??!!

Façam-me o favor de perguntar a Madrid, Barcelona, Paris, ou a cidades mais ao nosso nível como Verona ou Bolonha, qual é a rentabilidade das suas instituições científico-culturais.

São capazes de vir a ter uma surpresa!



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fevereiro 03, 2009

as rotas




I

eis o ano da demora e do encontro
as tardes vegetais
o rigor absoluto
de esperas outonais

de apagadas vozes corre o vento
e o mar nas mãos pequenas
é um barco trabalhando
o tempo

II

nas longas alvoradas das partidas
trama plena de encontros adiados
cantavas a distância

a vaga reduzia oblíquo olhar
teu deserto leito
e recolhias no coração
dos nascimentos os rios
de regressar

janeiro 30, 2009

Sobre a dádiva





Apresento o meu pedido de desculpa ao Antropólogo Marcel Mauss (por me ter apoderado de parte do título da sua obra para nomear esta crónica) autor do clássico “Ensaio sobre a dádiva”, onde, ao analisar vários sistemas de troca verifica a existência de uma força no objecto doado que obriga sempre o recebedor à sua retribuição. Ilustra esta afirmação com a análise de vários sistemas de permuta, entre eles o “potlatch” do povo “Kwaikiutl”, residente na Colômbia Britânica (Canadá).

Ao examinar as maciças destruições de bens perpetradas por esta gente, os nossos amigos britânicos entraram em pânico. Viam eles as pessoas comuns, mas com maior evidência os chefes, realizarem grandes encontros onde, mutuamente, traziam para os locais de reunião bens valiosos e os destruíam de seguida. Tal comportamento só poderia surgir como irracional aos olhos dos colonizadores ocidentais. Estudos antropológicos vieram mostrar os objectivos de tais acções os quais, outros não eram, que os da obtenção de poder e prestígio, tão comum ao hábito ocidental, só que, em vez de entesourar, destruíam. A lógica de tais acções estava mesmo na capacidade de se ser tão desinteressado e possuir tanta riqueza que destruir coisas de muito valor, em frente dos seus rivais, era facto que os não afectavam por demais. Estes, para responderem à parada, ver-se-iam socialmente obrigados a sacrificar bens de valor superior, como forma de retribuição, ficando, não o fazendo, desprestigiados e sujeitos ao domínio de quem mais tinha alimentado o acto destrutivo. Na essência, porém, estavam as obrigações recíprocas de dar, receber e retribuir.

Ora é aqui que retorno à actualidade e, como não poderia deixar de ser, ao caso Freeport.

Os netos daqueles britânicos que se horrorizavam com o desperdício Kwaikiutl, que nunca responderam a anteriores pedidos portugueses para investigações em off-shores relacionadas com actos menos claros e relevantes para a implantação do Outlet, vieram agora pedir para investigar as contas do nosso primeiro-ministro, sob alegação de que o mesmo seria suspeito de ter “solicitado, facilitado ou recebido pagamentos”. Nem mais! Parece, por outro lado, não terem suportado, esta solicitação, com provas inequívocas sobre a suspeição.

É no mínimo grave! Não só porque se trata do primeiro-ministro de um país independente e sem qualquer subordinação às ilhotas, como porque, por tortas linhas, poderão estar a tornar possível um forte desejo do nosso primeiro:

Antecipar as eleições legislativas!

Não concordando minimamente com a antecipação fiquei fortemente exaltado com mais esta arrogância britânica. Não bastava o ajoelhamento no caso Maddie e já outra pesporrência nos enviam. É caso para dizer, por favor, não nos batam, com tanta insistência, à porta. Para vocês não estamos.

Voltando às minhas preocupações, elas começaram quando, (já lá vai algum tempo e com a pouca credibilidade que o autor merece pouca gente se lembrará) o Dr. Santana Lopes, lançou um aviso à navegação, alertando para o desejo, não confessado ainda, do primeiro-ministro pretender submeter-se a votos, antes do fim da legislatura. Como era o Santana Lopes, pouca gente o tomou a sério. No entanto, uma ligeira análise do percurso do governo levar-nos-ia a considerar não ser despropositado tal juízo. É que as coisas não iam de feição para que a linha Sócrates viesse a obter nova maioria absoluta. Por um lado, a contestação ,no interior do partido, crescia a olhos vistos; por outro, os professores na rua, a crise cavalgante e a fraca consistência do maior oponente eleitoral, ditariam, como boa, uma eleição o mais breve possível. Passado algum tempo, como se nada houvesse sido dito, o primeiro-ministro, ele próprio, levantou, leve levezinho, a possibilidade de alteração de datas eleitorais. O Presidente da República, que não é do PS e que anda um pouco rabiado com o Governo, veio dizer : Tá-te, não caias. De mim não levas nada! E foi, para Sócrates, quarta-feira de cinzas.

No entanto, o nosso primeiro, que não sofre de falta de “determinação”, não se iria deixar ficar por tão pouco. Penso que de imediato terá começado a pensar como forçar a situação. Pelo menos foi o que me pareceu ao observar mais uns ataques políticos feitos à presidência. Pensei comigo: Sócrates diz sempre o contrário daquilo que vai fazer, assim, ao afirmar que nada se irá alterar nas relações do Governo com a Presidência é porque irá acontecer exactamente o contrário. Vai daí, pus-me a pensar o que iria ele arranjar para levar o Presidente a fazer cair a Assembleia.

Pensam que estou a exagerar? Vejam só o panorama. Feitor de actos de propaganda que, por falta de qualidade dos mesmos e dos seus executores, revelam cedo a inanidade da proposta; incapaz, na arrogância, de negociar, pouco futuro haveria para ele num governo de maioria relativa. A grande crise, que veio fazer esquecer a outra em que já estávamos, embora sempre negada, de aliada inicial viria, com o aprofundamento e a incapacidade de resposta, a tornar-se inimiga fatal. Seria necessário criar um facto político onde o governante, no papel de vítima que tão bem representa, pudesse sair contristado para regressar triunfante.
Estão a ver?
A dificuldade estava em conseguir o pretexto para tal. Manuela Ferreira Leite não daria motivo. Má, quando calada, piorou com a fala. O Presidente, por esquivo, parecia ser por demais desgastante e por tal, não seria seguro o resultado da estratégia. Até que, o Freeport oportunamente voltou a bater à porta. Servia às mil maravilhas. Uma alta ofensa à dignidade própria, a impossibilidade de fazer prova sobre a existência de concessão de facilidades, a grande capacidade do povo português para admirar “chicos-espertos” e estava feito o caldinho. Era só pôr a máquina a trabalhar e a simpatia do bom povo pela vítima faria o milagre da nova maioria.

Há, no entanto, risco na estratégia. Tudo pode descambar. Se os investigadores nacionais seguirem a rota do dinheiro ( dois milhões de contos ou euros) muitas nuvens podem desaparecer e fazer nascer uma transparência solar e encandeante. Aí, os resultados serão imprevisíveis. Entretanto estamos em crise e o Governo não oferece credibilidade nenhuma. O episódio do “Relatório da OCDE para a Educação” é o mais recente momento desta farsa monumental montada pela propaganda do Governo. O desemprego cresce e o receio do tempo por vir trará incontáveis mudanças e desgraças. E nós continuaremos sem saber se a mudança dos limites da Zona Ecológica de Alcochete, estranhamente coincidentes em data de espaços e despachos, foi ou não uma utilização de informações e pressões privilegiadas, de molde a proporcionar lucros ilícitos para várias partes.

Volto ao tema inicial da minha crónica. Que força existe no objecto doado que faz com se crie a obrigação de receber e retribuir?

Deixando a resposta para quem quiser dedicar o seu tempo a meditar sobre os acontecimentos, ficaria muito mais descansado se soubesse que, perante as dúvidas, o nosso primeiro decidisse fazer a trouxa, entrar em governo de gestão e preparar as eleições antecipadas, que tanto deseja, mas sem a sua desacreditada pessoa a concorrer.


P.S. – Acabei de ouvir a comunicação que o primeiro-ministro fez ao País. Ponderei alterar, ou mesmo retirar, este artigo no caso de alguma nova informação demonstrar menos sustentabilidade nas minhas posições. Infelizmente ouvi mais do mesmo. Pelo que a crónica seguirá o seu caminho.


Publicado in “Rostos on line” – http://rostos.pt

janeiro 25, 2009

Brasil 2 - Pantanal





De Campo Grande, capital de Mato Grosso do Sul, onde estávamos sediados, partimos, neste pequeno autocarro, a caminho do Refúgio da Ilha ( http://www.refugiodailha.com.br) situado no delta do Rio Salobra, em pleno Pantanal. Mal sabíamos a aventura em que nos iríamos meter.








Eis aqui uma pequena parte da aventura, passada a estreita ponte sobre o Salobra que delimita a ilha onde nos fomos alojar. Podem ver um jipe, dos proprietários da pousada, que veio em nosso auxilio cortando uma pernada da árvore, porque o autocarro era demasiado alto para um caminho, de muitos quilómetros e toscas, estreitas e frágeis pontes de madeira, pensadas para veículos ligeiros de todo o terreno e não para um autocarro, ainda que não dos maiores. Ganhámos a honra de ter sido o primeiro autocarro a chegar ao refúgio. Mas com que emoções, senhores…!!!



Mal o autocarro ficou libertado e pudemos desembarcar caiu uma chuvada tropical daquelas de parecer que o mundo vai acabar. Fugimos dela para um abrigo de onde tirei esta foto de umas aves pequenas e tomar, no galho, o seu duche diário. Percebemos depois que todos os dias, sensivelmente pela hora do crepúsculo, a chuva caía, sempre como se quisesse alagar o mundo. A tal não chegaria mas o pantanal crescia, quotidianamente, a olhos vistos.



Passada a chuva de alguns minutos, ficou-nos assim o céu crepuscular. Com arcos íris e tudo!




Mesmo ali, paredes meias com a casa, vindo muitas vezes até à porta da habitação, moravam uns simpáticos jacarés. Este estava a descansar, mostrando um olímpico desprezo por esta malta que não se cansava de lhe tirar fotografias, excitados pela proximidade de tal criatura.



Aqui vai o Carlinhos, de cavalo em riste, pântano fora, atravessando savanas e florestas, no reino das anacondas. Como o guia informou, “não tenham medo que se aparecer anaconda ou onça-pintada os cavalos negam-se a avançar”. Perante tanta confiança nos cavalos quem é que iria recusar-se a quatro horas de percurso por terras para nós só conhecidas através dos documentários (muitos ali realizados) da BBC ou da National Geografic?



Começava aqui a exploração do Rio Salobra. Todo compostinho, colete de salvação e tudo, bem à portuguesa, depressa abandalhámos a excursão e foi, esquecendo-nos de que éramos turistas, que reportando-nos ao antigo espírito de bandeirantes, penetrámos pelos meandros do rio, convivendo, em gostoso banho, nas águas disputadas por jacarés e piranhas. Como somos valentes!!! O que ficou por dizer foi que os jacarés, na abundância de peixe não se interessam nada por nós e as piranhas só atacam, como todos sabem, na presença de sangue vivo ou, nos seus habitats que são em águas profundas e paradas. Na sequência nenhuma piranha me comeu mas o inverso não é verdadeiro. Nós comemo-las, pelo menos, em caldo, prato típico do Pantanal.



Esta é a ponte onde ficámos parados por causa da árvore. Por baixo passei depois no início da nossa aventura fluvial. O renque de plantas aquáticas que vemos junto ao pilar da ponte, é local de acoito para jacarés e, é são tão abundantes estas ilhas verdes que muitas vezes impedem os percursos no rio, sendo necessário procurar alternativas. A lontra gigante também brica e se acolhe nestas ilhas vegetais.



Uma “figueira” típica da floresta húmida. A fotografia trai, por baixo, a sua imponência. Mas é o que se conseguiu arranjar.



Cá estou eu na banhoca. Nos jacintos ao fundo estavam, pelo menos, dois jacarés que dormitavam no local onde estava o barco. Refugiaram-se quando nós chegámos no meio das plantas.



Demos mais umas voltas e ao anoitecer voltámos ao local do banho, conseguindo apanhar para a fotografia, mesmo ali à mãozinha, um dos donos do charco.
R pronto, com muitas chuvadas sobre o pelo e picadas dos mosquitos que não se incomodavam nada que nós tivéssemos tomado banho em repelente, aqui ficam algumas memórias do que foi a nossa vida, em alguns poucos dias, neste sacrário da natureza chamado Pantanal.

janeiro 14, 2009

Egoísmos






Ao contrário daquilo que o liberalismo económico anuncia, nunca por nunca ser, a soma de muitos egoísmos individuais se transformou num bem geral. A tese, embora absurda, ganhou foros civis e universitários. Na prática nunca foi verificada e, como a experiência permite ver, apenas se verificou o seu contrário. A soma dos egoísmos individuais traduziu-se sempre num mal social maior, com o seu apogeu na crise em que nos encontramos.

Também o facto de existir uma maioria não permite, em todas as situações, afirmar que a sua escolha é correcta. Muitas vezes, levada pelo senso comum, persiste em afirmações e opções que a ciência demonstrará erróneas. No entanto, até que tal demonstração seja aceite, muita água correrá por baixo das pontes e muita gente sofrerá humilhações e penas. Trago, como exemplo, a demonstração da teoria geocêntrica, hoje aceite sem qualquer problema e que levou à morte de Giordano Bruno e ao encarceramento de Galileu Galilei. Tudo pelos melhores motivos! Pela conservação da fé e tranquilidade dos governantes e para poupar a cabecinha dos povos, que só têm de trabalhar deixando esta questão para quem, para elas, está superiormente preparado ou mandatado.

Nada de mais certo e aceitável. Pois não é!?

Na verdade, se calhar, as coisas não serão bem assim. Vejamo-lo com o exemplo concreto do nosso Governo e da sua maioria absoluta.

Após disputar umas eleições baseadas num programa de cariz socialista e ter, por isso mesmo, ganhado a maioria absoluta, rapidamente o Governo fez meia-volta e se agarrou a um discurso e concomitante prática neoliberal. Estava aliás na moda e privatizar é que era. Quanto mais melhor, fossem elas as privatizações da saúde, da educação ou da segurança social. Parecia não haver limites para a bondade das alternativas privatizantes. Apostar nos fundos de pensões é que era bom. Aproveitar os rasgos especulativos do mercado e aliviar os Estado de preocupações económicas. Esse era o caminho. A par com a América e Grã-Bretanha. Quem tal não aprovasse seria conservador ou comunista, mas sempre de vistas curtas.

Tais epítetos chamaram o Governo e os seus epígonos a quantos tentaram avisá-los dos precipícios que ladeavam o caminho sinuoso e estreito por onde se metiam. Mas qual quê! Quem sabia das coisas era o nosso primeiro que, assertivo e voluntarioso, mandava a esmo a coberto da sua absoluta maioria. Para quê dar ouvidos a vozes contraditórias se a votações, na Assembleia, permitiria sempre demonstrar a boa razão do Governo? Ainda que a não tivesse, que vozes outras poderiam fazer-se ouvir no bruaá da maioria? Nenhuma, nem preciso era. Galileu poderia outra vez dizer desalentado “e puor si muove”, Giordano arderia de novo na fogueira da razão da maioria, porque não era necessário ouvi-los, porque a suas vozes eram minoritárias e incómodas. Porque, em ditadura da maioria, a razão não conta por demais. Só a matemática dos votos é coisa válida perante tais abencerragens. Alegremente marcham para o abismo e, pior que tudo, arrastam o outros com eles convencidos, porque só se ouvem a si mesmos, que a sua vontade é a medida da realidade. Como se enganam! A realidade é o conjunto das vontades e circunstâncias de todos. Por maiores que sejam as maiorias serão sempre parte do todo. Representarão apenas essa parte e não a totalidade. Se não ouvirem e tiverem em conta os pareceres dos restantes acertarão sempre ao lado. Deixarão de fora elementos importantes para perceber a totalidade. Ficarão com o seu pedaço julgando possuir a realidade completa. E falharão, com estão a falhar, os objectivos que interessam à maior parte das populações.

Chegamos pois à conclusão que este governo, de maioria absoluta, é uma administração sistematicamente egoísta. Não aproveitou a maioria que lhe foi dada para melhorar as condições de vida do povo. Apadrinhou conluios embaraçosos entre o poder político e económico. Confundiu o interesse próprio das cliques governativas com o interesse geral, estrangulou a saúde e tentou estripar a educação. Fez de tudo um pouco para agradar aos seus senhores. O dinheiro que não havia para melhorar as pensões e o nível de vida dos dois milhões de pobres nacionais apareceu, como por magia, para salvar banqueiros da miséria acontecida. Claro! Foi para salvar os depósitos da população. Mas então os bancos não tinham reservas para cobrir esses depósitos? Então como desapareceram eles? Ah! Foram investimentos desastrosos? Que pena! Não deveriam nesses casos fazer recurso das suas fortunas pessoais para colmatar os erros que livremente cometeram?

Parece que não! Se eu perder as minhas economias, porque as utilizei de modo errado, que me aguente! A não ser que seja banqueiro. Aí sim, o Governo acorrerá pronto para que a economia – de quem? – não vacile. Assim como se eu dever mil contos ao banco tenho um problema com o mesmo mas, se lhe dever um milhão, já é o banco que tem um problema comigo. Estão a perceber, não estão? Além disso, perdoem-me a má-língua, para onde irão os senhores ministros ganhar a bucha quando se lhe acabar o mando? Não dou resposta. Deixo a pergunta no ar recomendando apenas que se observe o que tem vindo a acontecer com essas pessoas nos últimos tempos.

Para além das maiorias absolutas tenderem a transformar-se em ditaduras democráticas – Mário Soares dixit – dão uma perfeita demonstração de egoísmo governativo. É tal como assumir-se que a competência dos governantes é fundada na falta de oposição. É, sem dúvida, o recurso à facilidade tão do agrado dos falsos fortes. Fazem tudo bem porque não permitem que ninguém discuta a bondade dos seus actos. Aquilo que pretendem é calar as vozes que apresentam alternativas. São simpatizantes do discurso único e se tal não dizem é porque a democracia os obriga a ir a votos, de quatro em quatro anos, e é bom que as gentes continuem a pensar que delas é a soberania. A ideia de que democracia é tentar representar o maior consenso de vontades não lhes passa pela tola. Negociar, de molde a cobrir o mais largo espectro das visões político-sociais componente da sociedade, é coisa que não lhes cabe no bestunto. É cobardia e egoísmo. Por isso, quando Sócrates tem o desplante de vir novamente solicitar uma nova maioria absoluta, devemos perguntar-lhe porquê e para que a quer. Como a resposta será sempre a mentira institucional, deveremos dizer-lhe à bom Zé Povinho:

Toma! E vai-te tratar.



Publicado in “Rostos on line” – http://rostos.pt