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fevereiro 26, 2009

Olhós amantes do gajo





Se fosse apenas uma questão de cultura o caso, sendo grave, não seria desesperado. Mais uns tempos de escolaridade ou formação e a solução estaria, provavelmente, encontrada. Se fosse tão só a polícia de Braga – invejosa do sucesso universal das “mães de Bragança”- a investir, gloriosamente, contra o valor cultural existente no quadro de Gustave Coubert,”As origens do mundo” seria lamentável, mas não passaria de uma mera excrescência demencial que poderia, com alguma persistência, ser clinicamente expurgada. Só que, meus amigos, os casos sucedem-se e começam a marcar, de modo relevante, o nosso quotidiano. É necessário, portanto, estarmos atentos e, não descurando o lado anedótico dos acontecimentos, não deixarmos, por descuido ou laxismo, que os inimigos das liberdades e dos direitos humanos, serventuários ferozes de um autoritarismo antigo e redutor, venham de novo impor, com prepotências e censuras prévias, o esmagamento dos direitos à livre expressão e às liberdades cívicas.

Se não tivesse já havido sinais inquietantes de intervenção policial, de forma absolutamente ilegal, em várias associações com vista a controlar previamente o conteúdo de comunicados, greves ou manifestações, poderíamos, ligeiramente, abanar a cabeça, com comiseração, deixando de lado a inquietude e murmurando, entre dentes, um comentário mordaz sobre a estupidez policial. Se não viessem sempre as justificações dessas acções como de simples obediência a ordens superiores – tal como nos campos de extermínio nazis – sem que nunca cheguemos a saber de que “superioridade” foram emitidas, talvez pudéssemos minimizar acontecimentos como estes e, despreocupadamente, seguir o ritmo na nossa vida normal.

Se a polícia não estivesse sempre pronta e eficaz para a repressão violenta de acções populares justas mas desagradáveis aos poderes constituídos; se a mesma polícia está ausente quando, nos bairros sociais, por causas profunda, ligadas a questões de sobrevivência não resolvidas, rebentam confrontos que põem a segurança dos moradores em causa e criam climas de terror; se os relatórios anuais de várias instituições de observação mundial de direitos humanos, não apontassem, continuadamente, o deficits democrático, por sucessivas violações dos direitos individuais, desta polícia, poderia rir-me desbragadamente dos actos anedóticos que cometem.

Se a magistratura judicial, tão lenta a julgar qualquer caso de bric-à-brac, não fosse tão célere a censurar um écran de computador com algumas mulheres semidespidas - se não soubéssemos que esse computador era o Magalhães - talvez gargalhássemos com a manifesta caricatura que este procurador deu da “sua justiça”. Se não víssemos como o caso Casa-Pia se arrasta e esvazia perante a influência dos poderosos; se não soubéssemos que as vítimas são crianças desvalidas; se não nos entrasse, todos os dias, pela casa dentro o aumento oportunístico do desemprego; se não soubéssemos que quase metade dos desempregados não recebem qualquer subsídio de desemprego e que os bancos mal geridos são premiados com lautos subsídios a galardoar a sua cupidez e inoperância, talvez achássemos que é carnaval, logo, nada se devendo levar a mal!

Se não soubéssemos que a DREN tem sido obreira, através de acções e posições da sua directora, de algumas perseguições e prepotências exemplares, poderíamos ficar estupefactos com o autoritarismo com que desmandou uma posição legal e oficial do Conselho Pedagógico de uma escola sobre a sua tutela. Poderíamos, então, pensar tratar-se de mera falta de inteligência ou perspicácia pessoal o ter obrigado os professores dessa escola a desfilar num corso carnavalesco - o que eles fizeram, vestidos de negro e de fita-cola na boca - contra sua vontade, obrigados por uma nota oficial de estilo e obediência tão duvidosos que, mal cumprida a ameaça, logo foi explicada de modo atabalhoado – tal como todas as situações anteriormente citadas o foram – revelando a incomensurável arbitrariedade desses actores, tão ofensiva de direitos, liberdades e garantias.

E nunca, nada, nem ninguém, foi, por tais actos, alguma vez, responsabilizado.

Estas coisas começam sempre assim. Levemente. De mansinho. É um acontecimento aqui, uma pequena repressão ali, um “gag” que pela sua imbecilidade até dá vontade de rir e, pouco a pouco, quase sem darmos por isso, vemos o nosso campo de acção a restringir-se e as capacidades de resistência geral a diminuir por aceitação de habitualidades que, maldosamente, se instilam e instalam.

É ver, senhores, o concomitante exercício de reabilitação do pai de todas as iniquidades de que forças obscurantistas tentam forçar a memória. Ora é sério e o maior português, ora, como actualmente é um desenfreado Casanova a tripudiar sobre a moral que, férrea, era imposta, por sua vontade, ao povo português. Ele há-o para todos os gostos. Forma imprecisa mas persistente do inconsciente nacional, ei-lo que vai florescendo, aqui a ali, nas instituições mais retrógradas. Como o carnaval já passou, tirem-se as máscaras e chamem-se os nomes correctos ao bois. Não deixemos que a coberto da Crise os fascistas ocultos e inscritos nos corpos das instituições tomem de novo o comando. Os amantes do gajo são de aproximação doce e subtil, mas escondem o chicote e os instrumentos de tortura por baixo do roupão caseiro.


Publicado in “Rostos on line” – http://rostos.pt

fevereiro 22, 2009

Memórias 13 - sw2





não sei se cheguei depois
mas as minhas mãos vieram antes
acariciar-te o sorriso

no teu rosto
rosto de marés
o encantamento das palavras murmuradas

tal como uma distância
vives dentro de mim
talvez de ressonância em ressonância
seja o teu nome
um monumento barroco

é no suave fascínio de mulher
que te cumpres ao longe
que eu te espero e não queres vir

esta foi a canção que ouvi em ondas curtas
em sw2 para ser mais exacto


Guiné, Teixeira Pinto, 21 de Novembro de 1967

fevereiro 13, 2009

O Tejo em todas as suas dimensões






A proximidade de Lisboa tem feito mal ao Barreiro. Tornou-o provinciano e parente pobre dos luzeiros da grande urbe. Olhando para dentro e miopemente foi deixando que a grande vizinha lhe levasse tudo e todos quantos da mediania pretendiam sair. E foi-se sociologicamente empobrecendo num deixa andar mole e entorpecente. É certo que motivos políticos e outros foram-se, para mal dos nossos pecados, muitas vezes conjugando. Mas se isso é verdade, não desculpa a torpe aceitação da menoridade a que alguns quiseram condenar-nos. Faltou, em muitas ocasiões, foi a vontade de partir a loiça e de dizer a mandadores de mandadores, que já bastava o que bastava, e que quem geria os nossos destinos era a nossa vontade. Seria difícil, porventura, mas era necessário.

Por isso fomos andando, perdendo peso e população, vendo a juventude procurar o futuro do outro lado do rio.

No entanto, nos longes do tempo, quando quis e olhou para além do seu umbigo, o Barreiro soube ser grande e deixar a sua marca na História. Bastou-lhe olhar para fora, não deixar que Lisboa se interpusesse no seu caminho e gritar as suas competências e possibilidades. Fê-lo na Idade Clássica por entre os rios, na Renascença com os descobrimentos, no Iluminismo com os vidros, na época do vapor com as fábricas de cortiça e caminhos-de-ferro e, já mais perto, com o marco químico da CUF.

Em todos os momentos de grandeza existiu sempre uma constante: a premente presença do Tejo e a suave insinuação do Coina!

Um rio pode ser um obstáculo ou um traço de união entre as duas margens. Depende apenas das pontes que se lancem. Neste momento, parece ser a segunda hipótese a prevalecer com a previsível construção da Terceira Travessia. É uma oportunidade que não poderemos perder e que terá de concitar todas as boas vontades no mesmo sentido. Que, como é triste hábito, querelas antigas tantas vezes sem sentido, não venham a atravessar-se, por duvidosas contabilidades sectárias, na possibilidade de realização desta obra. Podemos estar num momento fulcral para abater a apagada e vil tristeza do nosso viver. A construção do Aeroporto, a plataforma logística do Poceirão, agregada à já referida ponte, pode ser o impulso que faltava para acordar o velho urso da sua hibernação.

De qualquer modo isto só será uma parte do a fazer. Por muita utensilagem material de que disponha, nenhum homem, nenhuma sociedade, se afirmará e tornará credível sem o substrato cultural que confira significado a esses meios. Caso o não possuam poderão parecer tão risíveis como as ridículas ostentações de novos-ricos destituídos das medidas das proporções, logo excessivos nas demonstrações públicas de riqueza.

Por isso, tendo em conta as modificações estruturantes que estão a caminho, e que irão deixar livre todo o espaço da antiga estação de comboios e da actual estação fluvial, mais as ferrovias adjacentes, espera-se, com profunda esperança, que para as mesmas não esteja reservado o triste destino de serem alienada a interesses de construtoras e similares semeadoras, a esmo, de toscos betões e possam ser reservados para instituições que melhor projecção confiram ao Barreiro.

Sem querer fazer deste objectivo monopólio da qualquer força política – até porque a sua consecução dependerá de todas e de mais boas vontades da sociedade civil - não posso deixar de referir que, no momento, na Concelhia do Bloco de Esquerda do Barreiro, se trava, com especialistas de várias disciplinas, um debate sobre o aproveitamento desses espaços para estabelecimento de um Centro Cultural e Científico do Tejo, com ambições de instituto nacional.

Fundamenta esta ideia o facto, já anotado, de ter sido o Barreiro, em várias épocas histórica, o fulcro do desenvolvimento senão do país, pelo menos do sul, sempre centrado na auto-estrada para o mundo que o Tejo é. A notável percepção do arco ribeirinho, como pólo de desenvolvimento, acrescenta estas possibilidades e fá-las mesmo sentirem-se como inadiáveis para a consecução de um projecto de vertentes materiais, sociais e culturais que a cidade merece.

O conceito que estudamos engloba toda a região banhada pelo Tejo bem como a concentração temática de zonas de visionamento, estudo, pesquisa e acção dos períodos em que toda esta região influenciou positivamente os destinos pátrios. Núcleos museológicas sobre os descobrimentos, as cortiças, as ferrovias, o sal, os moinhos, o bacalhau, o vidro, etc. coexistiriam com bases de dados, para investigações, ligadas a estas matérias. As artes performativas e plásticas deveriam ter ali, também, poiso adequado. Assim seria possível que as necessidades de estudos, ao mais alto nível, e os olhares interessados de quantos fazem do conhecimento o seu mister, descobrissem o Barreiro como ilha de saberes do passado e do futuro sobre este Tejo de inenarráveis possibilidades e dimensões.

E as questões económicas??!!

Façam-me o favor de perguntar a Madrid, Barcelona, Paris, ou a cidades mais ao nosso nível como Verona ou Bolonha, qual é a rentabilidade das suas instituições científico-culturais.

São capazes de vir a ter uma surpresa!



Publicado in "Rostos on line" - http://rostos.pt

fevereiro 03, 2009

as rotas




I

eis o ano da demora e do encontro
as tardes vegetais
o rigor absoluto
de esperas outonais

de apagadas vozes corre o vento
e o mar nas mãos pequenas
é um barco trabalhando
o tempo

II

nas longas alvoradas das partidas
trama plena de encontros adiados
cantavas a distância

a vaga reduzia oblíquo olhar
teu deserto leito
e recolhias no coração
dos nascimentos os rios
de regressar

janeiro 30, 2009

Sobre a dádiva





Apresento o meu pedido de desculpa ao Antropólogo Marcel Mauss (por me ter apoderado de parte do título da sua obra para nomear esta crónica) autor do clássico “Ensaio sobre a dádiva”, onde, ao analisar vários sistemas de troca verifica a existência de uma força no objecto doado que obriga sempre o recebedor à sua retribuição. Ilustra esta afirmação com a análise de vários sistemas de permuta, entre eles o “potlatch” do povo “Kwaikiutl”, residente na Colômbia Britânica (Canadá).

Ao examinar as maciças destruições de bens perpetradas por esta gente, os nossos amigos britânicos entraram em pânico. Viam eles as pessoas comuns, mas com maior evidência os chefes, realizarem grandes encontros onde, mutuamente, traziam para os locais de reunião bens valiosos e os destruíam de seguida. Tal comportamento só poderia surgir como irracional aos olhos dos colonizadores ocidentais. Estudos antropológicos vieram mostrar os objectivos de tais acções os quais, outros não eram, que os da obtenção de poder e prestígio, tão comum ao hábito ocidental, só que, em vez de entesourar, destruíam. A lógica de tais acções estava mesmo na capacidade de se ser tão desinteressado e possuir tanta riqueza que destruir coisas de muito valor, em frente dos seus rivais, era facto que os não afectavam por demais. Estes, para responderem à parada, ver-se-iam socialmente obrigados a sacrificar bens de valor superior, como forma de retribuição, ficando, não o fazendo, desprestigiados e sujeitos ao domínio de quem mais tinha alimentado o acto destrutivo. Na essência, porém, estavam as obrigações recíprocas de dar, receber e retribuir.

Ora é aqui que retorno à actualidade e, como não poderia deixar de ser, ao caso Freeport.

Os netos daqueles britânicos que se horrorizavam com o desperdício Kwaikiutl, que nunca responderam a anteriores pedidos portugueses para investigações em off-shores relacionadas com actos menos claros e relevantes para a implantação do Outlet, vieram agora pedir para investigar as contas do nosso primeiro-ministro, sob alegação de que o mesmo seria suspeito de ter “solicitado, facilitado ou recebido pagamentos”. Nem mais! Parece, por outro lado, não terem suportado, esta solicitação, com provas inequívocas sobre a suspeição.

É no mínimo grave! Não só porque se trata do primeiro-ministro de um país independente e sem qualquer subordinação às ilhotas, como porque, por tortas linhas, poderão estar a tornar possível um forte desejo do nosso primeiro:

Antecipar as eleições legislativas!

Não concordando minimamente com a antecipação fiquei fortemente exaltado com mais esta arrogância britânica. Não bastava o ajoelhamento no caso Maddie e já outra pesporrência nos enviam. É caso para dizer, por favor, não nos batam, com tanta insistência, à porta. Para vocês não estamos.

Voltando às minhas preocupações, elas começaram quando, (já lá vai algum tempo e com a pouca credibilidade que o autor merece pouca gente se lembrará) o Dr. Santana Lopes, lançou um aviso à navegação, alertando para o desejo, não confessado ainda, do primeiro-ministro pretender submeter-se a votos, antes do fim da legislatura. Como era o Santana Lopes, pouca gente o tomou a sério. No entanto, uma ligeira análise do percurso do governo levar-nos-ia a considerar não ser despropositado tal juízo. É que as coisas não iam de feição para que a linha Sócrates viesse a obter nova maioria absoluta. Por um lado, a contestação ,no interior do partido, crescia a olhos vistos; por outro, os professores na rua, a crise cavalgante e a fraca consistência do maior oponente eleitoral, ditariam, como boa, uma eleição o mais breve possível. Passado algum tempo, como se nada houvesse sido dito, o primeiro-ministro, ele próprio, levantou, leve levezinho, a possibilidade de alteração de datas eleitorais. O Presidente da República, que não é do PS e que anda um pouco rabiado com o Governo, veio dizer : Tá-te, não caias. De mim não levas nada! E foi, para Sócrates, quarta-feira de cinzas.

No entanto, o nosso primeiro, que não sofre de falta de “determinação”, não se iria deixar ficar por tão pouco. Penso que de imediato terá começado a pensar como forçar a situação. Pelo menos foi o que me pareceu ao observar mais uns ataques políticos feitos à presidência. Pensei comigo: Sócrates diz sempre o contrário daquilo que vai fazer, assim, ao afirmar que nada se irá alterar nas relações do Governo com a Presidência é porque irá acontecer exactamente o contrário. Vai daí, pus-me a pensar o que iria ele arranjar para levar o Presidente a fazer cair a Assembleia.

Pensam que estou a exagerar? Vejam só o panorama. Feitor de actos de propaganda que, por falta de qualidade dos mesmos e dos seus executores, revelam cedo a inanidade da proposta; incapaz, na arrogância, de negociar, pouco futuro haveria para ele num governo de maioria relativa. A grande crise, que veio fazer esquecer a outra em que já estávamos, embora sempre negada, de aliada inicial viria, com o aprofundamento e a incapacidade de resposta, a tornar-se inimiga fatal. Seria necessário criar um facto político onde o governante, no papel de vítima que tão bem representa, pudesse sair contristado para regressar triunfante.
Estão a ver?
A dificuldade estava em conseguir o pretexto para tal. Manuela Ferreira Leite não daria motivo. Má, quando calada, piorou com a fala. O Presidente, por esquivo, parecia ser por demais desgastante e por tal, não seria seguro o resultado da estratégia. Até que, o Freeport oportunamente voltou a bater à porta. Servia às mil maravilhas. Uma alta ofensa à dignidade própria, a impossibilidade de fazer prova sobre a existência de concessão de facilidades, a grande capacidade do povo português para admirar “chicos-espertos” e estava feito o caldinho. Era só pôr a máquina a trabalhar e a simpatia do bom povo pela vítima faria o milagre da nova maioria.

Há, no entanto, risco na estratégia. Tudo pode descambar. Se os investigadores nacionais seguirem a rota do dinheiro ( dois milhões de contos ou euros) muitas nuvens podem desaparecer e fazer nascer uma transparência solar e encandeante. Aí, os resultados serão imprevisíveis. Entretanto estamos em crise e o Governo não oferece credibilidade nenhuma. O episódio do “Relatório da OCDE para a Educação” é o mais recente momento desta farsa monumental montada pela propaganda do Governo. O desemprego cresce e o receio do tempo por vir trará incontáveis mudanças e desgraças. E nós continuaremos sem saber se a mudança dos limites da Zona Ecológica de Alcochete, estranhamente coincidentes em data de espaços e despachos, foi ou não uma utilização de informações e pressões privilegiadas, de molde a proporcionar lucros ilícitos para várias partes.

Volto ao tema inicial da minha crónica. Que força existe no objecto doado que faz com se crie a obrigação de receber e retribuir?

Deixando a resposta para quem quiser dedicar o seu tempo a meditar sobre os acontecimentos, ficaria muito mais descansado se soubesse que, perante as dúvidas, o nosso primeiro decidisse fazer a trouxa, entrar em governo de gestão e preparar as eleições antecipadas, que tanto deseja, mas sem a sua desacreditada pessoa a concorrer.


P.S. – Acabei de ouvir a comunicação que o primeiro-ministro fez ao País. Ponderei alterar, ou mesmo retirar, este artigo no caso de alguma nova informação demonstrar menos sustentabilidade nas minhas posições. Infelizmente ouvi mais do mesmo. Pelo que a crónica seguirá o seu caminho.


Publicado in “Rostos on line” – http://rostos.pt

janeiro 25, 2009

Brasil 2 - Pantanal





De Campo Grande, capital de Mato Grosso do Sul, onde estávamos sediados, partimos, neste pequeno autocarro, a caminho do Refúgio da Ilha ( http://www.refugiodailha.com.br) situado no delta do Rio Salobra, em pleno Pantanal. Mal sabíamos a aventura em que nos iríamos meter.








Eis aqui uma pequena parte da aventura, passada a estreita ponte sobre o Salobra que delimita a ilha onde nos fomos alojar. Podem ver um jipe, dos proprietários da pousada, que veio em nosso auxilio cortando uma pernada da árvore, porque o autocarro era demasiado alto para um caminho, de muitos quilómetros e toscas, estreitas e frágeis pontes de madeira, pensadas para veículos ligeiros de todo o terreno e não para um autocarro, ainda que não dos maiores. Ganhámos a honra de ter sido o primeiro autocarro a chegar ao refúgio. Mas com que emoções, senhores…!!!



Mal o autocarro ficou libertado e pudemos desembarcar caiu uma chuvada tropical daquelas de parecer que o mundo vai acabar. Fugimos dela para um abrigo de onde tirei esta foto de umas aves pequenas e tomar, no galho, o seu duche diário. Percebemos depois que todos os dias, sensivelmente pela hora do crepúsculo, a chuva caía, sempre como se quisesse alagar o mundo. A tal não chegaria mas o pantanal crescia, quotidianamente, a olhos vistos.



Passada a chuva de alguns minutos, ficou-nos assim o céu crepuscular. Com arcos íris e tudo!




Mesmo ali, paredes meias com a casa, vindo muitas vezes até à porta da habitação, moravam uns simpáticos jacarés. Este estava a descansar, mostrando um olímpico desprezo por esta malta que não se cansava de lhe tirar fotografias, excitados pela proximidade de tal criatura.



Aqui vai o Carlinhos, de cavalo em riste, pântano fora, atravessando savanas e florestas, no reino das anacondas. Como o guia informou, “não tenham medo que se aparecer anaconda ou onça-pintada os cavalos negam-se a avançar”. Perante tanta confiança nos cavalos quem é que iria recusar-se a quatro horas de percurso por terras para nós só conhecidas através dos documentários (muitos ali realizados) da BBC ou da National Geografic?



Começava aqui a exploração do Rio Salobra. Todo compostinho, colete de salvação e tudo, bem à portuguesa, depressa abandalhámos a excursão e foi, esquecendo-nos de que éramos turistas, que reportando-nos ao antigo espírito de bandeirantes, penetrámos pelos meandros do rio, convivendo, em gostoso banho, nas águas disputadas por jacarés e piranhas. Como somos valentes!!! O que ficou por dizer foi que os jacarés, na abundância de peixe não se interessam nada por nós e as piranhas só atacam, como todos sabem, na presença de sangue vivo ou, nos seus habitats que são em águas profundas e paradas. Na sequência nenhuma piranha me comeu mas o inverso não é verdadeiro. Nós comemo-las, pelo menos, em caldo, prato típico do Pantanal.



Esta é a ponte onde ficámos parados por causa da árvore. Por baixo passei depois no início da nossa aventura fluvial. O renque de plantas aquáticas que vemos junto ao pilar da ponte, é local de acoito para jacarés e, é são tão abundantes estas ilhas verdes que muitas vezes impedem os percursos no rio, sendo necessário procurar alternativas. A lontra gigante também brica e se acolhe nestas ilhas vegetais.



Uma “figueira” típica da floresta húmida. A fotografia trai, por baixo, a sua imponência. Mas é o que se conseguiu arranjar.



Cá estou eu na banhoca. Nos jacintos ao fundo estavam, pelo menos, dois jacarés que dormitavam no local onde estava o barco. Refugiaram-se quando nós chegámos no meio das plantas.



Demos mais umas voltas e ao anoitecer voltámos ao local do banho, conseguindo apanhar para a fotografia, mesmo ali à mãozinha, um dos donos do charco.
R pronto, com muitas chuvadas sobre o pelo e picadas dos mosquitos que não se incomodavam nada que nós tivéssemos tomado banho em repelente, aqui ficam algumas memórias do que foi a nossa vida, em alguns poucos dias, neste sacrário da natureza chamado Pantanal.

janeiro 14, 2009

Egoísmos






Ao contrário daquilo que o liberalismo económico anuncia, nunca por nunca ser, a soma de muitos egoísmos individuais se transformou num bem geral. A tese, embora absurda, ganhou foros civis e universitários. Na prática nunca foi verificada e, como a experiência permite ver, apenas se verificou o seu contrário. A soma dos egoísmos individuais traduziu-se sempre num mal social maior, com o seu apogeu na crise em que nos encontramos.

Também o facto de existir uma maioria não permite, em todas as situações, afirmar que a sua escolha é correcta. Muitas vezes, levada pelo senso comum, persiste em afirmações e opções que a ciência demonstrará erróneas. No entanto, até que tal demonstração seja aceite, muita água correrá por baixo das pontes e muita gente sofrerá humilhações e penas. Trago, como exemplo, a demonstração da teoria geocêntrica, hoje aceite sem qualquer problema e que levou à morte de Giordano Bruno e ao encarceramento de Galileu Galilei. Tudo pelos melhores motivos! Pela conservação da fé e tranquilidade dos governantes e para poupar a cabecinha dos povos, que só têm de trabalhar deixando esta questão para quem, para elas, está superiormente preparado ou mandatado.

Nada de mais certo e aceitável. Pois não é!?

Na verdade, se calhar, as coisas não serão bem assim. Vejamo-lo com o exemplo concreto do nosso Governo e da sua maioria absoluta.

Após disputar umas eleições baseadas num programa de cariz socialista e ter, por isso mesmo, ganhado a maioria absoluta, rapidamente o Governo fez meia-volta e se agarrou a um discurso e concomitante prática neoliberal. Estava aliás na moda e privatizar é que era. Quanto mais melhor, fossem elas as privatizações da saúde, da educação ou da segurança social. Parecia não haver limites para a bondade das alternativas privatizantes. Apostar nos fundos de pensões é que era bom. Aproveitar os rasgos especulativos do mercado e aliviar os Estado de preocupações económicas. Esse era o caminho. A par com a América e Grã-Bretanha. Quem tal não aprovasse seria conservador ou comunista, mas sempre de vistas curtas.

Tais epítetos chamaram o Governo e os seus epígonos a quantos tentaram avisá-los dos precipícios que ladeavam o caminho sinuoso e estreito por onde se metiam. Mas qual quê! Quem sabia das coisas era o nosso primeiro que, assertivo e voluntarioso, mandava a esmo a coberto da sua absoluta maioria. Para quê dar ouvidos a vozes contraditórias se a votações, na Assembleia, permitiria sempre demonstrar a boa razão do Governo? Ainda que a não tivesse, que vozes outras poderiam fazer-se ouvir no bruaá da maioria? Nenhuma, nem preciso era. Galileu poderia outra vez dizer desalentado “e puor si muove”, Giordano arderia de novo na fogueira da razão da maioria, porque não era necessário ouvi-los, porque a suas vozes eram minoritárias e incómodas. Porque, em ditadura da maioria, a razão não conta por demais. Só a matemática dos votos é coisa válida perante tais abencerragens. Alegremente marcham para o abismo e, pior que tudo, arrastam o outros com eles convencidos, porque só se ouvem a si mesmos, que a sua vontade é a medida da realidade. Como se enganam! A realidade é o conjunto das vontades e circunstâncias de todos. Por maiores que sejam as maiorias serão sempre parte do todo. Representarão apenas essa parte e não a totalidade. Se não ouvirem e tiverem em conta os pareceres dos restantes acertarão sempre ao lado. Deixarão de fora elementos importantes para perceber a totalidade. Ficarão com o seu pedaço julgando possuir a realidade completa. E falharão, com estão a falhar, os objectivos que interessam à maior parte das populações.

Chegamos pois à conclusão que este governo, de maioria absoluta, é uma administração sistematicamente egoísta. Não aproveitou a maioria que lhe foi dada para melhorar as condições de vida do povo. Apadrinhou conluios embaraçosos entre o poder político e económico. Confundiu o interesse próprio das cliques governativas com o interesse geral, estrangulou a saúde e tentou estripar a educação. Fez de tudo um pouco para agradar aos seus senhores. O dinheiro que não havia para melhorar as pensões e o nível de vida dos dois milhões de pobres nacionais apareceu, como por magia, para salvar banqueiros da miséria acontecida. Claro! Foi para salvar os depósitos da população. Mas então os bancos não tinham reservas para cobrir esses depósitos? Então como desapareceram eles? Ah! Foram investimentos desastrosos? Que pena! Não deveriam nesses casos fazer recurso das suas fortunas pessoais para colmatar os erros que livremente cometeram?

Parece que não! Se eu perder as minhas economias, porque as utilizei de modo errado, que me aguente! A não ser que seja banqueiro. Aí sim, o Governo acorrerá pronto para que a economia – de quem? – não vacile. Assim como se eu dever mil contos ao banco tenho um problema com o mesmo mas, se lhe dever um milhão, já é o banco que tem um problema comigo. Estão a perceber, não estão? Além disso, perdoem-me a má-língua, para onde irão os senhores ministros ganhar a bucha quando se lhe acabar o mando? Não dou resposta. Deixo a pergunta no ar recomendando apenas que se observe o que tem vindo a acontecer com essas pessoas nos últimos tempos.

Para além das maiorias absolutas tenderem a transformar-se em ditaduras democráticas – Mário Soares dixit – dão uma perfeita demonstração de egoísmo governativo. É tal como assumir-se que a competência dos governantes é fundada na falta de oposição. É, sem dúvida, o recurso à facilidade tão do agrado dos falsos fortes. Fazem tudo bem porque não permitem que ninguém discuta a bondade dos seus actos. Aquilo que pretendem é calar as vozes que apresentam alternativas. São simpatizantes do discurso único e se tal não dizem é porque a democracia os obriga a ir a votos, de quatro em quatro anos, e é bom que as gentes continuem a pensar que delas é a soberania. A ideia de que democracia é tentar representar o maior consenso de vontades não lhes passa pela tola. Negociar, de molde a cobrir o mais largo espectro das visões político-sociais componente da sociedade, é coisa que não lhes cabe no bestunto. É cobardia e egoísmo. Por isso, quando Sócrates tem o desplante de vir novamente solicitar uma nova maioria absoluta, devemos perguntar-lhe porquê e para que a quer. Como a resposta será sempre a mentira institucional, deveremos dizer-lhe à bom Zé Povinho:

Toma! E vai-te tratar.



Publicado in “Rostos on line” – http://rostos.pt

janeiro 08, 2009

Brasil 1 - Brasília






Estes são a Dianara e o Rui. Ela é brasileira, gaúcha de Campo Grande (Mato Grosso do Sul) e ele é o Rui Caferra, médico em Setúbal. Casaram no dia 31 de Dezembro de 2008, no Brasil, na cidade de Campo Grande, na casa de Dianara.





Nós fomos lá e desfrutámos dos benefícios do clima e outros. Tais como este tira-gosto, em casa de Dianara, a anteceder um churrasco de botar abaixo o melhor garfo do sítio.



Cá estou eu, na noite do casamento e da passagem de ano, aguardando as vitualhas e sem saber ainda que uma chuvada tropicalíssima viria a açoitar as tendas em que nós e o conjunto musical, sabedores das traições do tempo das chuvas,por precaução, nos acolhíamos.




Mas antes, nos dias 26 e 27, ficámos em Brasília. Visitámos os locais consagrados e, de entre eles, resolvi distinguir a Capela de D. Bosco. Na base da minha escolha estavam os factos de ter um ambiente interno assombroso e de o “euzinho” ter sido aluno dos salesianos de Évora. Homenagem ao patrono!



E aqui está o fantástico interior da Capela. Digam lá se não é espantoso?
Reparem no grande candelabro na parte superior da fotografia.




Vejam-no agora em todo o seu esplendor.




E esta ponte de três arcos assimétricos, denominada Juscelino Kubitschek, não é magnífica?




Não quero deixar de referir a Pirâmide do Templo Ecuménico da Paz. No seu interior, as aberturas envidraçadas coam a luz. O cimo da pirâmide, de sete lados, é coberto por um dos maiores cristais já encontrados ( 14 cm de altura e 21 Kg. de peso).




Eis o interior da Pirâmide. Aqui se celebra a doutrina dos quatro elementos – ar, água, fogo e terra – num sincretismo com filosifias espíritas, católicas, egípcias etc…






Este é o caminho da purificação e da espiritualidade. No chão estão traçadas duas espirais. O caminho inicia-se, do exterior para o interior, na espiral negra e termina, do interior para o exterior, na espiral branca após, chegados ao centro, ser bebido por cada caminhante um copo de água. A ideia presente é a da purificação e recepção de energias provenientes do cristal colocado no vértice da pirâmide.

dezembro 17, 2008

Sim, eu estive lá!








Há coisas que marcam a nossa vida para sempre. De umas, revivendo-as, só nos apercebemos muito tempo depois de acontecerem. Outras mostram-nos logo que estamos a viver um momento especial, assim como se dobrássemos uma esquina. Ambas determinam circunstâncias de fronteira, nódulos onde os nossos destinos se fazem caminho.

Um destes momentos aconteceu no Domingo, 14 de Dezembro, na Cidade Universitária. Sim, eu estive lá! Percorri os vários seminários, detendo-me, sobretudo, nos de Educação e Trabalho. Valeu a pena! Percebi, ouvindo os diversos locutores, que há gente de qualidade a pensar esta Democracia, aparentemente anémica, na realidade, plena de valores esperando apenas que a hora chegue, que o momento se perfaça.

O momento parece chegado!

Quase finda a grande bebedeira neoliberal, exangue a sua economia, falhados os seus pressupostos, oferecendo um futuro trágico e sem propostas onde só espreitam ameaças sombrias para a maior parte dos povos, concitam-se as vozes que se hão-de opor, firme e claramente, ao pré-anunciado cataclismo destruidor de todas as esperanças. Nesse dia, a Faculdade de Letras, primeiro, e a Aula Magna, depois, foram a casa das Esquerdas. Desunidas, quase sempre, rezingonas muitas vezes - diz-se que por natureza - encontraram-se em pleno processo de fraternidade, luminosas na descoberta da força das suas razões e das suas gentes.

Apesar de empolgante o encerramento do Fórum das Esquerdas, na Aula Magna, foi somente o corolário de uma circulação de pessoas e ideias que, todo o dia, fervilhou, em troca intensa, entre os muitos participantes. Percebe-se, por isso, o incómodo generalizado que atacou tantas pessoas e instituições. Umas porque sentem que este movimento ameaça o “status quo” onde se instalaram com algum conforto, outras porque, desviadas da acção que lhe caberia cumprem mandatos que não convêm aos ideários que dizem professar. Por isso se falou em Educação, Economia, Trabalho, Cidades e Saúde numa perspectiva integradora dos direitos e bem-estar das populações, criticando-se soluções estreitamente viradas para o interesse de minorias que, com a crise, foram claramente desmascaradas na sua acção de, enriquecendo, empobrecer o país e as nações.
Da fertilidade das intervenções havidas sobrou, para o exterior, a excessiva simplificação de se pressupor o nascimento de um novo partido político. Não sendo de excluir esta hipótese, aqueles que tanto a acentuam, não perceberam ainda que a força que se congrega procura mais que a ocupação de lugares nos órgão de governo. Que se prepara para se assumir como poder é verdade e é direito que lhe cabe. Mas como foi dito, por todos os participantes, o importante é seguir o processo de estudo, aprofundamentos de ideias e de organização que provoque o advento de teses capazes de inverter o rumo das sociedades, aqui e agora, visando um mundo socialmente mais equitativo e com maiores liberdades individuais. Só enquanto meio para atingir este desiderato o mando é importante. Não nos interessa o poder pelo poder, nem pelas negociatas que nele se fazem e depois dele continuam. A promiscuidade entre governos e grupos económico-financeiros, com especial força destes últimos, provocou danos profundos no tecido moral e económico da Nação. A continuidade de tal estado de coisas só tenderá a aprofundar as crises e a conduzir-nos para o abismo. Veja-se como o Capital Financeiro subverteu, de imediato, a função dos apoios que os governos lhe concederam para ajudar a economia real. Fizeram chegar às empresas os fundos libertados? Não senhor! Capitalizaram-nos de imediato, congelando a circulação financeira e aprofundando a crise.

Dizem quase todos os analistas que estamos a mudar de paradigma. Também acho e, como eles, não sei para onde as coisas se dirigem. O que sei é que não quero ficar como espectador impotente a ver tudo a derruir sem modo de sobre elas actuar. Pretendo ter um papel activo na condução da minha vida e do meu tempo. E, sei, não estou sozinho. O dia 14 veio reafirmar isto plenamente.
Vamos portanto agarrar nas nossas mãos os destinos que são nossos e sabendo de fonte certa que temos razão e força, conseguir a implementação de políticas sociais justas. Deixemos de, em nome do Socialismo, transportar o pesado pendão das direitas. Eles que o defendam e carreguem. É o seu papel. O nosso é que é bem diferente.

Para tal se alcançar basta que o espírito do Fórum das Esquerdas permaneça e se alargue. O resto, seja lá ele o que for, virá por si.

Publicado in “Rostos on line” – http://rostos.pt

dezembro 13, 2008

As revoltas do Sr. Presidente








Se em alguma coisa este povo está de acordo é na opinião generalizada de que temos, na pessoa do Presidente da República, um cidadão íntegro e acima de qualquer suspeita. A partir daqui quebra-se a unanimidade e é cada um por si.

Apesar disto, por mim, nunca me escuso a mostrar o meu desafecto pelo Dr. Cavaco Silva, em quem nunca votei e, jamais se devendo dizer desta água não beberei, penso nunca votar. É que apesar de a sua honestidade não estar em causa, não consigo esquecer-me de que foi “por acaso” que foi fazer a rodagem do seu carro até à Figueira da Foz, onde “por acaso” decorria o Congresso do PSD e logo, “por acaso” foi eleito para a chefia do partido. Para mim, que creio pouco em acasos e questões de sorte e azar, foram acasos demais e puseram-me de sobreaviso em relação ao modo político de ser do personagem.

Vivi depois a sua maioria, o desenfreado fontismo viário e os tiques autoritários. O homem foi como uma vacina. Se eu já torcia o nariz a maiorias absolutas, ganhei a certeza de que elas são muito perigosas para uma vivência democrática. A essência da democracia – além da liberdade e responsabilidade – assenta na negociação como forma de atingir metas, sem esmagar as várias minorias que não se revêem no projecto maioritário. Para o então primeiro-ministro as minorias eram o verdadeiro entrave à sua visão grandiosa da forma de boa governança. Foram-no efectivamente no buzinão da Ponte 25 de Abril, se bem que já um pouco para o tarde.

 Ao olhar para o Presidente, na genérica rigidez corporal que o domina, na escusa constante a comentar os mais graves factos que assolam o país, na visão conservadora que envolve o secretismo dos seus contactos com o governo e outros poderes da República, percorre-me um arrepio e, mesmo sem querer, não posso deixar de recordar o perigo de, sem uma constante vigilância, decairmos em direcção ao “lago do breu” que um certo “dinossauro excelentíssimo” legou, por demasiado tempo, a Portugal. Também ele dizia querer o bem do povo, era honestíssimo e vivia numa frugalidade exemplar.

No entanto, este homem, que parece pairar acima do correr dos dias da gente vulgar que somos, é, embora por poucas vezes, arrebatado por revoltas intensíssimas. Recordo o caso dos Açores e, ultimamente a sua intempestiva declaração sobre o problema do BNP- Dias Loureiro. Estas duas situações contrastam, de forma notória, com o fugaz comprometimento público quanto a factos e situações cruciais para a boa saúde da sociedade e com a doçura e submissão com que aceitou a destituição da sua dignidade, enquanto Presidente de todos os portugueses, quando, na Madeira, foi o Sr. Silva, do Alberto João, e aceitou não ser recebido na Assembleia Regional. Enfim, critérios!

No entanto, mais uma vez, a sua revolta pareceu-me extemporânea e algo exagerada, mais parecendo defesa antecipada que efectiva resposta a alguma putativa acusação que, quanto sei, ninguém fizera. Volto a frisar: pode não se gostar do homem, mas não se desconfia da sua honestidade material. Então para quê o alarido?

Simples! Ele sabe muito bem que, no decorrer dos seus mandatos foram catapultados para enriquecimento rápido alguns serventuários de estado. Como o fizeram não o sabemos de todo. Há névoas que cobrem muitas utilizações de verbas entradas no país. Ouvimos falar de alguns escândalos. Um por outro deu entrada na Justiça, cedo se perdendo o rasto dos casos e quase nunca se sabendo de conclusões ou sancionamento de culpados. Sabe também do excessivo conluio entre o poder político e o económico-financeiro, permissivo a alternâncias suspicazes e, muito humanamente, não se quer ver metido nesses negócios em que não entra e, creio bem, não aceita, embora não lhe tenha conseguido meter travão. Talvez isso o incomode e lhe faça “saltar a tampa”. Só que não tira as necessárias consequências e em vez de mover céus e terra para se livrar de tão ruins companhias – e nos livrar a nós – enceta a fuga para a frente, toma o seu banho lustral, mostra o enfado que tais personagens lhe causam, mas não age com a força suficiente para se libertar de tais incómodos. Por tanto eles persistem ,multiplicam-se, alastrando como cancro, condenado esta sociedade à incessante menoridade a que nos querem obrigar. É isto que o presidente sabe, é isto que se recusa a ver.

Na verdade, por mais tabus que se estabeleçam, a realidade cai sempre, sem misericórdia, sobre as nossas cabeças.



Publicado em “Setúbal na Rede” http://www.setubalnarede.pt/

dezembro 10, 2008

Memória 12 - desafio







o sonhador
tinha três mãos apontando as oliveiras
raminho de alcatrão flor de pedra
poema do amor

uma das mãos era fumo
as outras eram mulheres
que amo todas em ti

da testa caiam lagos e nadavam patos
alguma coisa para além do aborrecido
dos dias e contas de somar

pernas e braços e peitos supraciliares
dentes nas mãos na boca pregos
martelos e ceifeiras a voar

estrada nos dedos dos pés do alentejo
das formigas e dos olhos
anatomia do acento circunflexo
quase pensamento

perceba o poeta quem quiser



Évora - 1969

dezembro 04, 2008

A caneta de oiro








Há frases e actos os quais, pelo seu peso simbólico, marcam nas nossas memórias um terreno de constante rememoração. Para mim, no referente à primeira situação, está a sentença proferida pelo Dr. Mário Soares do “sou republicano, socialista e laico”. Não me revendo em muitas das públicas atitudes e ideias do Ex- Presidente da Republica, não posso deixar de reconhecer que utilizo bastantes vezes esta frase como forma de identificação.

Quanto ao segundo tema, os actos, recordo-me que um amigo que nada tem a ver com ideologias de esquerda, como facilmente se perceberá, querendo mostrar-me algo concreto que explicasse o seu devotamento a essa desaparecida figura contava-me que, em certo momento do consulado do ditador, numa qualquer efeméride que não fixei, foi-lhe oferecida uma caneta de oiro.

Devia ser bela porque, contrastando com o distanciamento de Salazar perante o objecto, um outro membro do governo, ficou encantado. De tal maneira foi que, ultrapassando o natural recato que seria de bom-tom preservar, atreveu-se a pedi-la ao Chefe do Governo.

Este tê-lo-á olhado com o seu ar de pássaro bisnau retorquindo-lhe:
-Esteja Vossa Excelência descansado que ela ficará guardada até terminar o seu mandato. Quando isso acontecer será sua.
Assim ficaram as coisas. Até que um dia, chegado ao seu gabinete viu, o nosso ministro, a sua secretária deserta de papéis, luzindo de limpa e, no centro, sobre a pasta mata-borrão, refulgia a demandada caneta de oiro.

Foi assim que o ministro soube que chegara ao fim de linha.

Isto, que causava a admiração do meu amigo, para mim, nada mais era que a mostra de desrespeito e cinismo com que o ditador tratava e julgava todos, mesmo aqueles que de mais perto o seguiam. Não via aqui qualquer mostra de elevação de espírito ou a excelsa subtileza reclamada pelo seu admirador. Não via mas…

Com as coisas que se passam no Governo Socialista, mormente no caso da educação, com o escândalo dos falíveis bancos e com as falhas detectadas na sua fiscalização, começo a pensar se não seria bom que o Eng. Sócrates e o Dr. Cavaco Silva começassem a oferecer algumas canetas de oiro a uns quantos personagens notáveis da nossa praça.

Se o fizessem e acertassem nas escolhas, até eu me comprometia a esportular, das minhas frágeis economias, o bastante para comprar duas canetas de oiro que teria imenso prazer em lhes oferecer.

Eu, reconheço, sou mesmo assim. Absolutamente agradecido e generoso!


Publicado in “Rostos on line” – http://rostos.pt

dezembro 02, 2008

Os degraus de Clarisse







O despertador zuniu. O braço lento silenciou-o. Seguiu-se o zumbido do telemóvel. São horas.!
Clarisse procurou acordar o corpo, na aparência, há muito desperto, obsessivamente entretido em listagens de tarefas. Habituado a tal exercício, o cérebro teimava em não se desligar. Foi necessário mobilizar toda a energia anímica para arrastar a perna para fora do colchão, soerguer-se lentamente.
Tem de ser - pensou - e concluiu o gigantesco empreendimento. Levantar-se, após 3 a 4 horas de sono. Já lá iam uns meses nisto … pois, ocupada em longas noites de correcção de exercícios, elaboração de fichas, relatórios, critérios de avaliação, .. a panóplia habitual da docência nos tempos que correm. Nada que pudesse evitar, tudo obrigatório … (esta a firme resposta dada ao marido que lhe pedia pausa, pausa…)
Luz acesa. Olhou-se. A imagem devolvida não merecia parança. O rosto empalidecido, sem fulgor no olhar contornado a negro, não lhe parecia o seu. E se o era, não queria vê-lo. Deter-se nele exigia uma reflexão sobre o estado real da sua saúde, da sua qualidade de vida. Não, não, filosofias a esta hora não! Lá se ia passando o tempo e os relógios não se compadecem com metafísicas. Vamos lá ao plano de emergência: banho quente, escaldando a rigidez dos membros, água gelada afastando a neblina mental, corrida ao roupeiro - bendita moda das calças de ganga. É só trocar a camisola. O casaco pode ser o mesmo. É certo que ando embrulhada nele há uma semana… e depois? Tenho frio… preciso de comprar umas camisolas, um casaco … amanhã. Hoje não tenho tempo. O dia está ocupado com reuniões. . -, iogurte engolido, hesitação sobre o que tragar de seguida – sim, claro, o multi-vitamínico antistresse; o café adiado para o intervalo das 10h, ou, com sorte, para daqui a pouco, se chegar à distância de uma bica na pastelaria.
Decisão tomada, pasta numa mão, chaves do carro no bolso, as de casa na mão já resvalam para o bolso do casaco … (claro que não as posso perder pela segunda vez), bolsa a tiracolo, pasta do portátil ao ombro é tempo de se atirar para o dia fresco. Um espasmo atravessou célere o corpo.
Ai as costas! A fisiatra mata-me. Ou mato-me eu neste ar composto de vendedor ambulante. Anima-te! É só não esquecer o projector, ir buscá-lo e pendurar ao ombro mais esse objecto. Não posso defraudar os miúdos, empenharam-se tanto!

A figura masculina emergiu do corredor, interrompendo a fuga para a rua. Susteve o passo, parada. Todo o seu corpo sugeria movimento, impaciência…
– Olá estás bom, até logo - Um beijo aflorado, só pensado, que a mente estava noutro espaço e tempo.
- Não dormiste outra vez, retrucou a voz masculina.
- Pois que queres, há trabalho para fazer. Se não me despacho… agora não tenho tempo. Adeus.
E lançou-se para o patamar, ouvindo o ríspido «Adeus.» e o que se seguiu: Pensa que um dia não terás de todo tempo. Para ti, para nós, para os miúdos. Ah, esqueceste-te de levar o teu pai ao médico… levei-o eu, telefonou-me aflito
Clarisse autómato, Clarisse de biorritmo alterado, Clarisse em ansiedade permanente nada ouve. Vai pensando na lista de tarefas do dia de trabalho, da semana de trabalho. Alheia a tudo, já está finalmente no carro… e em movimento! UF. Chego a horas de ir buscar o projector e talvez de respirar um pouco.
Olhar distraído pára no retrovisor. Quem és tu que acumulas papéis, funções, despachas obrigações e já te tornaste mãe administrativa, burocrata que delega?
O rodar ( «ó rodas, ó engrenagens r-r-r-r-r-r-r eterno! », ó meu A. Campos!) despertou-a em sobressalto:
os miúdos… não combinaram quem vai buscar o Diogo. O Miguelito fica com a minha mãe depois da escola. Bolas e agora? No intervalo telefono. Como ontem dormiram em casa dos meus pais, nem me lembrei deles… Deus! Não me lembrei dos meus filhos!
Por instantes aflorou furtiva a lágrima. Mágoa acumulada, sobrepondo-se à tralha carregada, Clarisse ainda consegue ligar o telemóvel. Ninguém atende – os meus filhos…, o meu pai … O Tó Miguel tem razão, em nome do quê, de quem pareço uma barata tonta?
8.15 da manhã, passagem pelo portão da escola. Alguns adolescentes caminham sonolentamente. Olhares e sorrisos cruzados. A professora Clarisse gosta de lhes dar uma palavra matinal prazenteira. Já não tem dores, nem pesos na consciência, nem filhos esquecidos, nem pais a suplicar atenção, nem marido relegado.
Stôra requisitou o projector? Hoje mostramos os trabalhos não é? E tem colunas boas? Fizemos um vídeo.
Claro que sim. Vou buscá-lo. Até já.

As vozes luminosas e sorridentes, os passos ensonados em busca do acordar afastam-se, enquanto Clarisse sobe os degraus da escola. Acelerada, acrescenta ao seu “visual” mais um adorno – o projector. E lá vai:

… sobe que sobe
Sobe as escadas
Clarisse é nova
Rosto bonito
Empalidecido

Clarisse pára!
Ai, o livro de ponto! – mais um fardo
E lá vai Clarisse

Anda que anda
Até ao bloco.

Recebe a chave da sala. Hesita sobre o modo de ordenar tantos objectos. Mas começa a escalar:

Sobe que sobe
Arrastando-se…

E nesse instante uma ou duas vozes solidárias, dizem:
- Stôra, nós ajudamos.
- Obrigada meninos.

É deles o tempo até ao final do dia. O sorriso de Clarisse floresce de novo, a atenção dada a cada turma, a cada grupo de alunos não pode diminuir. Clarisse esquece o Miguelito, o pai, a mãe, o marido.
O júbilo da aula, as vozes acesas, implicadas em debate de ideias sabem bem a Clarisse. Como fazer de modo diferente?

13.15 . Passou tão depressa. Tenho de almoçar qualquer coisa rápida … E arruma o portátil, o projector, os cabos, os seus cadernos, as folhas de registo sobre os trabalhos apresentados…
Inicia a descida, após o fecho da sala ( há muito que a revoada de adolescentes se foi… agora menos solidários pois há o almoço e as aulas da tarde), transportando a parafernália indispensável àquela aula. Seria simples se o choque tecnológico fosse real e as salas todas tivessem equipamento pronto a usar. Consola-se, todavia, Por cá até temos bastante material, o pior é que não chega…
O riso, as vozes juvenis fizeram-na pensar nos seus meninos – não os alunos, os seus filhos.
Correu a entregar, projector, depositar livro de ponto, desembaraçar-se do seu portátil. Sentou-se. Ligou o Tmóvel.
- sim sou eu. Não consegui. Trabalhei outra vez até às três…. Pois sai muito tarde …. Como tinhas os meninos…. O Miguelito?.... O quê ? tem febre? Foi para a creche? Sim? Com benhuron… pois… pediatra … sim… sim vou marcar. Beijinhos até logo.Consultou a agenda antes de telefonar para o infantário. Duas reuniões: uma de conselho de turma e outra de Departamento. Lá para as 19 horas estou despachada. Rápida pensou nos sogros. Não, a mãe do Tó Miguel está doente… O meu pai vai buscar o Diogo, eu vou buscar o Miguelito e levo-o ao pediatra.

14.30 – tosta mista e iogurte. Uma peça de fruta. Café para arrebitar.

De novo, planeou o dia. Ligou para o infantário Sim era melhor levar o menino ao médico. Cheio de febre e vómitos! Bolas, Bolas! O Tó Miguel hoje tem reuniões até tarde. Sim vou buscá-lo.

15.00
Não te esqueças que temos reunião de subnível para planificar e afinar as actividades do PAA . Não te esqueceste? Olha e trouxeste o PEE? Tem de bater certo com as metas. É para fazer antes da reunião de Departamento.Agradeceu vivamente à colega ( …. há almas caridosas que recordam.. não fora esta cadeia…, com tanta reunião esquecíamo-nos de metade)

- Claro que não. Tenho o Miguelito doente mas resolvo isso ( por dentro renascia a zelosa profissional e desmoronava-se a mãe… Gizava um plano. Sim ia buscar o Miguelito, mas seria a sua mãe a levá-lo ao médico)

A colega afastou-se, comentando o chato que aquilo era. Chato? Já é assim que nós falamos do que nos é mais querido ( afastou o pensamento… ia conduzi-la ao incumprimento)

Mãe, sou eu,sim já marquei o pediatra . Tenho reuniões não posso faltar. Levas o Miguelito ao médico. Depois vou buscar-vos. A consulta é às 17.30. Como o médico demora sempre….
Pois é…. Vou buscá-lo agora. Até já.

Corre Clarisse, corre que corre.

Leva o menino triste, escaldando. Mima-o, cumula-o de beijos. Miguel não reage. Clarisse explica-lhe o planeamento do dia, acrescentando, manipuladoramente, tu sabes que a mãe tem de trabalhar para termos dinheiro, e a avó gosta muito de ti. Avó é mãe duas vezes.

Miguel deixa-se levar. Calado roda nas mãos um papel que abandona no banco, ao lado do saco da mãe quando Clarisse o deposita em casa da avó.
A rapidez dos beijos, as palavras de carinho fugitivas, as combinações céleres, tão despojadas de afecto, preenchem o coração de Clarisse enquanto se dirige ao carro.
Que fazer??

16.15. Abriu a porta traseira do carro e atirou para lá o saco. Rumou para a escola. Estacionou.
Abriu a porta traseira do carro, novamente. Colado ao saco o papel que Miguelito abandonara. Era um desenho: no centro, diante do computador, rodeada de livros a mãe. Ele, na gigantesca atitude acusatória, colocara-se muito pequenino à entrada do escritório. Entre ele a mãe, ocultada pelos papéis, nada. Um vazio. De costas, a mãe. De frente o pequenito de três anos, representando-se insignificante. Pelo meio nada. O espaço de desolação bem visível!

Clarisse tremeu.


Fernanda Afonso

Publicado in “Rostos on line” – http://rostos.pt

novembro 24, 2008

canção adormentada







I
calados pela noite
os amorosos corpos
esperam a nascente
o momento de água
o ventre

tudo chegará na sua vez
tal o real dos dias
na galáxia dos lençóis

centímetro a centímetro
habito de imaginação
a nave da tua pele

com estas mãos construo-te agora
imagem marginal ao pensamento
na duração do tempo

II

no percurso dos lumes dos sentidos
ao dealbar incerto da insónia
caminho por ti escalo-te pico de ternura

tento o futuro debito o sono
nas laudas das histórias

se a noite morreu então que viva
inteirinha nos arcanos da memória

novembro 19, 2008

A autista e o "déjà vu"







Para que não haja mal-entendidos informo, desde já, embora tente racionalizar o mais possível o meu pensamento e indignação, este artigo será, claramente, anti-ministra da educação e respectiva corte.

Não é aliás o primeiro, porquanto, aqui no Rostos “on-line”, dediquei, à inefável senhora, em 1 de Novembro de 2007 a crónica intitulada “É a estatística estúpido”; em 13 de Dezembro do mesmo ano saiu “ O dado e o enunciado” e, finalmente, no rescaldo da primeira grande manifestação de professores foi publicado, em 13 de Março de 2008, “A mão que lhe dá o voto”.

É, como podem ver, um amor que se vai estendendo no tempo e com o tempo se vai confirmando. Aquilo que pensei e escrevi tem, infelizmente, ganhado corpo tornando-se cada vez, se não mais real, pelo menos mais visível.
O problema dos professores – não me refiro apenas ao episódio avaliação – começou muito antes dela e do estatuto da carreira docente. Começou com a posse de uma ministra eivada de neoliberalismo, de terceira via, que tomou, os professores em bloco, como inimigos a abater.

Corria, no início da legislatura, o discurso impressionista de ataque às corporações com alguns proveitos para o Governo que pretendia apresentar uma imagem de força e competência. Percebemos hoje que essa actuação, mais que modificar algo servia, sobretudo, para criar uma identidade reformista. Como é habitual, uma identidade forma-se, geralmente, por oposição a outra pré-existente. No caso do Ministério da Educação, estava-se mesmo a ver que os professores encontravam-se bem a jeito. Assim começou a intoxicação da opinião pública, aparecendo a ministra como a paladina dos bons cidadãos, contrapondo-se aos vilões que tinham o desplante de ensinar - mal - nas escolas e trabalhar pouco. Não procurou encontrar o mau e apoiar o são. Antes pelo contrário. Aproveitando alguns ruins exemplos, minoritários embora, pretendeu que a excepção fosse a regra. Porque a má-fé é como um vírus, altamente contagioso, esta táctica colheu frutos. A ministra embriagou-se de poder, cortou os seus laços com o mundo dos seres vulgares. Subiu ao Olimpo!

Nos antiquíssimos tempos em que a palavra apareceu ministro designava um servidor, em acepção abrangente e servidor de deus, em significado restrito. Com o tempo a significação da palavra foi-se alterando e de servidor o termo passou, para algumas pessoas, a valer o contrário: aquele que, por ter o poder do deus, é servido. Ora adivinhem lá qual foi o sentido adoptado pela nossa ministra?

Pois é, inebriada de poder, esquecida que a fonte da sua legitimidade é o voto e o poder popular, crendo o seu poder derivado directamente de algum confuso deus, tomou a sua palavra como a ordem natural das coisas e o seu querer como único e inquestionável desígnio dos seus serventes. Daí ao autismo foi um passo.

Por isso ela não viu a manifestação dos cem mil e por mais que lhe contem não acredita na dos centos e vinte mil. Se não, certamente perceberia que se oitenta por cento dos profissionais de ensino dizem que algo está mal, não será pura arrogância ou profundo autismo, continuar a afirmar – sem se quer se interrogar um pouco – que o seu método é o único e por isso insubstituível e inegociável? Só poderá ser uma certeza divina, soprada por qualquer poderoso espírito, porque, a qualquer pessoa normal, o volume da contestação levaria, no mínimo, a perguntar se não estaria algo equivocada.

Com estas jigajogas o que poderia ter sido uma forte contestação profissional, transformou-se em confronto político. Tentando aliciar os pais mais distraídos, a ministra do rigoroso discurso anti-facilitista e do reconhecimento do mérito, iniciou um ciclo de facilidades para obter na secretaria o que não era conseguido no campo. Os erros desta política só seriam percebidos no futuro, quando da ministra já nem memória houvesse. Com isto contaria e mais, com um brilharete conseguido na diminuição de despesas do seu ministério. Um pouco como a história daquele cavalo que quando já tinha aprendido a viver de forma económica, sem comer, acabou, inexplicavelmente, por morrer e logo de fome.

Para além do malquerer evidente da ministra em relação aos professores – vá se lá saber porquê – o seu erro básico é olhar para a escola como se fosse uma empresa e tentar geri-la de modo semelhante. Como não é possível tratar por igual o que é, em si, distinto, meteu água. As empresas fabricam ou comercializam “coisas”, a escola prepara cidadãos conhecedores e socialmente actuantes. A escala da empresa é a produção no curto prazo. A escala da escola é a do longo prazo, da vida das pessoas e do enriquecimento geracional. É isto muito difícil de perceber?

Pois a ministra não percebe. Não vê, não ouve, apenas fala. Como um oráculo! Sem possibilidade de contestação. Porque ela quer, porque ela sabe, porque ela manda. O resto que se dane. A sua via é estreita e de sentido único – apesar de frequentemente ter de dissimular preclaras emendas de erros – portanto nós devemos baixar as orelhas e seguir no trilho que nos aponta. Lembro-me que a Bíblia fala do tempo dos falsos profetas e aconselha-nos a distinguir o trigo do joio. Por isso, havendo um problema com dois lados, os professores e a ministra, ameaçando-se instalar entre eles a imparável espiral do ódio, recomenda-se, a quem de direito, que ouse resolver o problema pela via possível:

Exonere-se os professores ou a ministra.



Publicado in “Rostos on line” – http://rostos.pt

novembro 15, 2008

Professores em Luta - Suspensão da Avaliação

Agrupamento de Escolas de Santo António

MOÇÃO

Considerando que:

- O modelo de avaliação de desempenho, em vigor, devido à sua excessiva carga burocrática e aos pressupostos filosóficos que o suportam, está a prejudicar a qualidade de serviço publico prestado e a criar um clima destruidor da harmonia nas escolas, promovendo uma competição doentia entre colegas e inviabilizando o trabalho cooperativo que sempre nos caracterizou.

- A escolha dos avaliadores foi puramente aleatória, baseada em critérios unicamente economicistas que não tiveram em conta as necessárias competências científica, técnica e pedagógica para a função.

- Não reconhecemos seriedade e justiça a um modelo de avaliação baseado na subjectividade, na falta de transparência e falta de equidade.

- Não aceitamos que o insucesso e o abandono escolares sejam considerados como critérios de avaliação docente.

- Os critérios de avaliação não se devem desviar das práticas pedagógicas dos docentes, no interior da escola.

- As implicações trazidas por este processo de avaliação só prejudicam a carreira dos professores e educadores e em nada abonam em prol do verdadeiro sucesso dos alunos e da melhoria da qualidade da escola pública.

- Acreditamos numa avaliação docente com carácter formativo e precisamos de tempo para dinamizar e concretizar as nossas tarefas.

- Não existe no Agrupamento um calendário de avaliação devidamente aprovado e inscrito em Regulamento Interno, conforme previsto na lei.

Os professores e educadores do Agrupamento de Escolas de Santo António – Barreiro, reunidos em Assembleia Geral, no dia 14 de Novembro, recusam legitimar um modelo de avaliação docente assente na fraude e na iniquidade e participar na institucionalização da destruição do sistema de ensino público. Neste sentido reafirmam a posição, aqui expressa, e decidem:

1. Não entregar quaisquer objectivos individuais no âmbito do Processo de Avaliação do Desempenho para o ano lectivo 2008/2009, não exercendo, deste modo, essa prerrogativa procedimental;

3. Não marcar qualquer aula para observação;

2. Marcar para o dia 19 de Novembro, entre as 12 horas e as 14 horas a entrega simbólica do documento de formulação de objectivos individuais em branco nos serviços administrativos do agrupamento.

Santo António, 14 de Novembro de 2008

A presente moção foi aprovada por 79,1% dos presentes na assembleia, representando 110 votos, num total de 139 presenças, e será enviada para:

Comissão Executiva Instaladora
Conselho Geral Transitório do Agrupamento
Conselho Pedagógico do Agrupamento
Assembleia da República
Presidente da República
Ministério da Educação
Conselho Científico da Avaliação de Professores
Sindicatos de Professores
Órgãos de Comunicação Social

novembro 12, 2008

Manifesto




A Jorgete enviou-me este texto por e-mail. Não resisti e pedi-lhe que me autorizasse a publicá-lo. Autorização concedida e texto na "berra".

Que se medite...





Dizem alguns que nada podemos fazer contra um sistema de mil tentáculos, manipulador da justiça e das opiniões ;
Dizem outros que nada se consegue contra dirigentes empedrenidos que apenas enxergam os cifrões que vão conseguir amealhar com a morte do ensino público e muito mais com os milhares que hão-de conseguir com a fomentação do ensino privado;
Dizem os nossos chefes que a lei é para cumprir, que não temos poder para ir contra as regras instituídas;
Ameaçam-nos outros mais ou menos veladamente, com processos, com despromoções, com o congelamento das carreiras;
Outros ainda se mostram compungidos, martirizados e solidários, mas...nos atulham de papeis, de fichas, de planos, de prazos a cumprir;
Os senhores do momento enchem os jornais com mentiras ditas como se fossem verdades e ninguém os desmente.
Pairam sobre nós fantasmas do passado. O medo instala-se e a habitual acomodação lusitana nos aconselha a cruzar os braços.
Mas 120.000 encheram as ruas e o minuto de silêncio total, durante a Marcha, foi mais ensurdecedor que mil gritos e deu a resposta de uma classe que não está morta.
Uma classe que ensina às suas crianças e jovens, como um valor de cidadania, que devemos ser íntegros e lutar por aquilo que achamos justo.
Uma classe que é formadora de novas gerações e por isso deve ter a coragem de dizer : Basta!
E os milhares que encheram a Baixa de Lisboa honrarão o seu compromisso e dirão não a esta avaliação. E os milhares que ergueram as suas bandeiras honrarão os gestos e as palavras e dirão: Somos professores! Nós temos a força da razão e mais do que qualquer outra classe, podemos mudar o mundo.
Sim, nós podemos.



Maria Jorgete Teixeira

novembro 03, 2008

O mundo de Obama






Dois dias depois da ressurreição de Vasco Gonçalves, dois dias antes da muito provável eleição de Barak Obama, para Presidente do Império Americano, sinto, fisicamente, que estamos na viragem de uma esquina da história.

Ao nível do nosso pequeno rincão, trinta e três anos passados sobre o 11 de Março de 1975, o Governo, que até ontem afirmava a pés-juntos a excepcionalidade dos nossos bancos em relação à crise, veio apressadamente reconhecer o risco iminente de falência do BPN, optando pela nacionalização desse banco, preparando o terreno para, noutros, actuar em futuras intervenções nacionalizantes .

É caso para dizer: Eu bem avisei!

Claramente, desde que o neo-liberalismo conservador entrou como furacão no mundo, soprado pelos inefáveis Thatcher e Reagan, qualquer pessoa com um mínimo de entendimento das coisas perceberia que a Donas Brancas, independentemente das suas dimensões e estatutos, derrocam sempre que alguém, por necessidade, desconfiança ou aviso, decide resgatar, em bens reais, a moeda escritural que possui. Aí, o mundo desaba!

Que é o que no momento acontece!

Um pouco por toda a parte os Governos intervêm na economia, renegando o sempre presente discurso do menos Estado, optando pelo pecado capital de, utilizando as designações defensivas que quiserem, nacionalizar, nacionalizar, numa patente demonstração de falência da auto-regulação dos mercados em geral e do financeiro em particular.

Deste modo, quando Obama entrar na Casa Branca, herdará de um império a desfazer-se, a necessidade de encontrar caminhos para a salvação do país e do mundo. As expectativas são grandes, as dificuldades enormes e as desilusões engordarão a ritmo acelerado. É que o império já não é o império. Bush estilhaçou os capitais económicos, éticos e de confiança que lhe foram parar às mãos. As suas equipas de neo-conservadores produziram pobreza, mal-esta, guerras, um pouco por todo o mundo e, não fora a velha Europa, a teoria da guerra preventiva teria levado o mundo à insanidade total. Portanto é uma América desprezada, a empobrecer aceleradamente, que o espera, exigindo-lhe rápidas decisões e soluções adequadas, habituados que estão a meios de que já não dispõem.

No entanto o mundo não pára. Ele há o Irão a caminho de se tornar uma potência nuclear. Temos a Índia que, utilizada como tecnologia de custo baixo, mandou um recado ao mundo ao colocar o seu satélite em órbita lunar. Não se esqueçam que a Índia é possuidora de armas atómicas, de uma população enorme, de conflitos político-sociais sem nome e, disse-nos claramente, tem agora um transportador capaz de colocar ogivas em qualquer ponto do Globo. Que dizer da China com os seus milhões de habitantes, com o crescimento contínuo, à décadas, a dois dígitos e a avassaladora possibilidade de continuação de “dumping” social levando a deslocalizações, de empresas, empobrecedoras do mundo ocidental?

E o Brasil emergente, a pouco transparente Angola, a intranquila Venezuela? E o resto de África a ferro e fogo, com levas de deslocados e emigrantes a escreverem uma nova odisseia de miséria, buscando a felicidade no mundo rico que, também, o é cada vez menos?

Com tudo isto e mais a crise se defrontará Obama se for eleito. E mais, com a absoluta necessidade de se manter vivo, o que, creio, não será tarefa fácil.

Assim, o mundo de Obama será, já é, um imenso “puzzle” onde sobram os problemas e mingam soluções. Mas o pior, é que este mundo tão precário, é o mundo que fomos capazes de legar aos nossos filhos! Não vamos fazer nada contra isto?

Publicado in “Rostos on line” – http://rostos.pt/

outubro 23, 2008

Maria Vitória








Todas as semanas vou ao peixe. É um gosto que tenho desde pequeno. Já criança adorava ver em cima das bancas os pequenos e grandes seres do mar. Cada um representava uma aventura e um mistério trazidos do grande oceano à seca planície. Nessa viagem a minha imaginação galopava frenética ao encontro de caravelas e atlântidas perdidas. Por isso, desde sempre, gostei de ir ao peixe.

Só ontem não!

Quando cheguei à banca já ela lá estava. Pequenina, velha, metida num casaquinho de malha que já fora azul escuro, sendo agora só borbotos e que na sua pobreza parecia ser um ténue escudo contra o mundo. Falava com um dos vendedores. Troquei duas brejeirices com quem me veio atender e comecei a namorar o pescado. Perguntei preços, vi qualidades, fazendo a minha escolha.

Ao lado, o vendedor instava a cliente: Então D. Vitória, o que é que decide.
Olhei para o lado e vi-lhe o olhar doce dançar indeciso entre o carapau e a garoupa. Como éramos os dois únicos clientes o vendedor não pressionava muito mas, começa a sentir-se que já estava a ficar um tanto ou quanto impaciente. Já eu tinha comprado salmonetes, um belo pregado e ia a entrar no imperador quando, uma leve voz ciciou a meu lado:

É que o meu Joaquim está doente. Há duas semanas que só come carapaus! Já começa a estar enjoado. Pese lá duas postas de garoupa.

A garoupa tinha um ar lindo. Seria a minha próxima compra. Já antecipava as postas grelhadas, a quebrarem-se em lascas plenas de sabor e o vendedor a dizer:

Pois, é, D. Vitória. São onze euros!

Ai, meu deus, disse aflita a senhora. Só tenho dez euros e isto é para comermos toda a semana. Desculpe-me, desculpe-me! Onde é que eu tinha a cabeça? Olhando para mim pedia protecção e que a compreendesse. Não me leve a mal, mas não posso levar essas postas. Faça-me o favor, embrulhe-me apenas uma.

Era tão visível o sofrimento e a humilhação da senhora que o primeiro gesto de irritação do vendedor morreu à nascença. Ainda quis fazer uma gracinha dizendo que com aquele dinheiro podia comprar carapau para duas semanas, mas ficou a meio da frase, siderado pela fugaz compreensão daquele mesquinho drama.

Agarrou na posta de garoupa com que iria fazer brilhar o menu do seu doente, pensando possivelmente o que fazer com os cinco euros restantes para os dias que faltavam da semana arrastando-se devagar, só, frágil e humilhada para a porta da praça.

Todos ficámos uns instantes calados! Depois:

Então o que é que vai mais hoje?

Não ia mais nada. Não poderia ir mais nada. A posta de garoupa solitária sobre a banca era uma espinha cravada no meu dia.

Paguei com notas que queimavam os dedos e saí, atordoado, a pensar que a Maria Vitória, de seu nome, somara mais uma derrota, às quantas mais caladas ao longo da parca vida.




Publicado in “Rostos on line”http://rostos.pt/

outubro 22, 2008

Memória 11 - nós limite de dentro









um estômago americano à
conquista do espaço
o lançamento de uma decepção
a pressão atmosférica da desvalorização da libra

os ingleses lamentam a melhor solução
depois da pesca em águas turvas
reunião em lisboa

atenção implacável no
voleibol das crónicas administrativas
correspondentes em todo o país

ganhei o totobola

a lista dos donativos vai ser publicada
na vala das vítimas com fotografias a dizer

sorria



Guiné, Bafatá, 6 de Junho de 1968