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julho 06, 2010

memórias XXIII - mensagem




I
constrói um pouco da coluna
que nos dias ergue o sol

abraça as cordilheiras do tédio
o prado esmaecido pela brisa do lago
as espantosas chuvas que se oferecem
ao chamamento das aves

sobre o fio da música repousarás
asa que destapa o sonho e enfrenta
o vórtice do vácuo

as palavras irisdecem nos céus de estrelas em febre

II
só o imaginário é virgem de magníficos sem fins
significâncias com que a voz agradece o dia
substância correspondendo ao sentimento das águias

tudo é aquilo que é sendo outra coisa
o caminho tende à compreensão do infinito
à inqualificável magia de viver
como se viver
não fosse mais que estar vivo e recomeçar

III
por onde ainda iremos na frescura das manhãs
como o vento como o barco como o barro
donde consta o homem foi moldado
em perfumes de inconsutil finitude

tudo está em nós e se prolonga
diferentemente em outras consciências
tal mãos sonhando a casa por nascer

a controvérsia fio de afirmação
traça à luz dos discursos a vela de iluminar rotas
exacto momento de equinócio
diáfanas relações de vento e água
excluindo as evidentes chuvas de inverno
emersas da zanga natural dos tempos

numa precária espera de espaço
a minha balança de eixo desviado
equilibra a pequenez azul e brancamente franjada
do repouso em todas as direcções

não há outra escolha que o movimento
abracemos então a dança dos fantasmas e transportemos
o longe para o perto que por não o ser
sempre será

amanhã

junho 18, 2010

Como se fora uma carta ao Director




Quiseste, Director, dar-me um valor, ou uma preponderância, que não possuo e, na Carreira 7, Horário 14,06, presenteaste-me com o imerecido prémio de uma local noticiando a minha renúncia à Concelhia do Barreiro do Bloco de Esquerda, por discordar do apoio à candidatura de Manuel Alegre e informando que o meu casto voto seria entregue ao Dr. Fernando Nobre.

Agradeço a importância que consignaste a este gesto, confirmo a tua notícia, sendo no entanto imperioso que esclareça que a minha posição, para as presidenciais, não é tão definitiva como pode transparecer da notícia.

Em 22 de Fevereiro publicaste a minha crónica “Baralhar e dar de novo” onde tentava analisar as três possíveis candidaturas à Presidência da República. Nela, em resumo, apresentava a possibilidade de Cavaco Silva voltar a ser reeleito, a desilusão causada pelo actual posicionamento de Manuel Alegre e o sopro de esperança que, presumia, viesse a ser a candidatura independente de Fernando Nobre. Salientava também que no xadrez político a situação de Alegre se alterara e era, agora, semelhante à de Mário Soares nas eleições anteriores. Presumia, ainda, que o capital de esperança poderia vir do Presidente da AMI. Os tempos deram-me, em parte, razão.

Posteriormente em 12 de Maio, em “Crise, Papa e Fernando Nobre”, igualmente publicada no Rostos, mostrava a minha angústia e desilusão por alguns posicionamentos de Fernando Nobre, pondo, se bem te lembras, o meu voto no mercado, em jeito de leilão, para ser entregue a quem por ele fizesse licitação maior. Até agora ninguém ofereceu nada, o que demonstra bem o valor da minha vontade.

Postas esta questões de principio voltemos à razão desta crónica. O meu desacordo com o Bloco de Esquerda é apenas conjuntural e em duas questões: candidato presidencial e Terceira Travessia. No resto, continuo indefectível apoiante e pronto para dar do meu esforço na parte possível e necessária. Esclareço também que, pelo facto de não apoiar a linha oficial nada de extraordinário me aconteceu no partido. Não só temos o direito de tendência, o exercemos e não somos perseguidos por isso, como sermos aderentes deste partido não exige de nós qualquer acefalia seguidista. Ao entregar a minha militância não entrego, conjuntamente, a inteligência e a capacidade crítica. Antes pelo contrário a minha crítica torna-se mais efectiva ao ser discutida e amplificada nas estruturas partidárias. Por isso, dentro da coerência exigida a quem quer ser sujeito das suas posições e destino, considerei, embora nada a isso me obrigasse, que seria correcto deixar o lugar que ocupava na estrutura partidária. Assim, renunciei, livremente, ao cargo, de tal não ficando com arrependimento pessoal nem com distanciação ao Partido e Camaradas.

Já no que a Fernando Nobre respeita, a local não levou em atenção a matéria desta última crónica.

Ao longo do tempo fui detectando, em discursos e posições do candidato, algumas debilidades, uma ou outra ingenuidade, certa inconsistência e o chegar de companhias pouco recomendáveis. Não acreditando que, por toda a sua história de vida, seja o Dr. Fernando Nobre alguém que se deixe instrumentalizar facilmente, a verdade é que à sua volta, procurando influenciar as suas flexões, adejam aves nocturnas com o ínvio propósito de apenas coarctarem as possibilidades de eleição de Manuel Alegre. Ora, não votando em Alegre, não me agrada fazer parte de vinganças pessoais de gente rancorosa, para quem a amizade deixa de fazer sentido sempre que qualquer divergência se opõe à vontade sacrossanta do patriarca.

Entretanto os tempos exigem-nos maior reflexão e grande cautela nas escolhas a fazer. Os posicionamentos de Passos Coelho – enquanto previsível futuro primeiro-ministro - se potenciados por um Presidente de similar ideologia, podem fazer perder, em pouco tempo, o que levou décadas a construir. Não tenham dúvidas de que um poder assim constituído se sentirá livre para atacar todos os direitos dos trabalhadores. Tudo o que até aqui era discursos de valorização da pessoa no trabalho, volver-se-á em prelecção sobre os custos de mão-de-obra e a necessidade de liberalizar despedimentos. Será exigido o livre arbítrio do capital sobre o trabalho, conduzindo à moderna escravatura das massas populares. Vejam bem que ainda lá não chegaram e já, com a cobertura da crise, procuram ganhar mais terreno, retirando-o às conquistas dos trabalhadores, demonstrando claramente que a luta de classes nunca terminou. Apenas, em democracia e em alta económica, se mascara e, dissimulada, esconde-se até à próxima crise que a especulação capitalista venha a provocar e queira que as vítimas, mais uma vez, paguem.

Estando tudo isto em jogo no nosso País, vejo-me numa angustiante dúvida sobre o que fazer. Neste momento apenas sei o que não quero. Não descortinei ainda aquilo que devo fazer.

Quem me ajuda a esclarecer estas dúvidas?


Publicado in “Rostos on line” – http://rostos.pt


junho 16, 2010

junho 08, 2010

memórias XXII - às vezes




I
era uma vez um barco
uma memória de fumo
uma criança no tempo
do vidro das tuas portas

navegando no teu rosto
volto ao local da esperança
onde o cais não foi marcado

aí dissimulo a luz
entre os lábios alinhados

II
quando o corpo nasce dia
sempre inocente o domingo
vem bater à minha porta
a gargalhar profecias

junto o fumo da memória
volto ao local da esperança
com um silêncio de voz
um barco livre de Outono
que dissimulo no cais

III
na linguagem a que se acolhe
só se cria o que não há
não é escritor quem se escolhe
nem o que dita a razão

mas se houver uma canção

conta-se às vezes no tempo
a memória do teu fumo
no corpo da minha porta
nos meus lábios alinhados

só ao domingo

cansado

junho 02, 2010

RIM e Coração




Estejam os meus amigos descansados que só por angustiado humor o título remete para a possibilidade de um fastidioso escrito sobre a anatomia do indígena. Na verdade RIM não é mais que o acrónimo de Recessão, Insensibilidade e Miséria, (fotograma impressionante do estado a que este desgoverno conduziu o País) e coração metaforiza o meu desconforto pelo recente ataque de Israel a barcos civis, em águas internacionais.


1 - RIM

Todos sabemos como os nossos governantes, de há muito, criaram um país virtual apenas existente nos seus privilegiados bestuntos. Nenhum de nós, com excepção dos apaniguados que sempre vêm apenas aquilo que lhes mandam ou convém ver, conseguiu, alguma vez, descortinar as excelências de um poder centrado no desvirtuamento da verdade, no desprezo pela palavra dada ou programa estabelecido, nos volte-faces, tão rápidos, e constantes que metade do país se constipou por causa da deslocação de ar causada por essas ventoinhas.

Depois de em maioria absoluta utilizar a crise geral para camuflar uma outra anterior e estrutural da nossa economia, servindo tais ardis para nada fazer, eis-nos lançados no mais desesperado PEC, com vista a resolver os grandes problemas da dívida externa, do crescimento económico e da percentagem do PIB. As medidas adoptadas, resultantes da visão de uma Europa ainda refém de decisores neoliberais e exigidas por estes com um forte puxão de orelhas a este transviado governo - com algumas veleidades Keynesianas - veio “felizmente” por as coisas no eixo. Esmaga-se mais aqueles que pouco têm, faz-se vista grossa a quem muito possui e pouco paga para o esforço geral da Nação e ala que se faz tarde. Num país em que o desemprego continua a galgar dígitos retiram-se os apoios considerados “indispensáveis” quando o número de desempregados era menor. Atira-se às cegas com o aumento do IVA quando propalam, aos setes ventos, querer aumentar as exportações; taxam-se os salários e reformas, em sede de IRS, e ficam de fora as mais-valias bolsistas, o lucro dos bancos, criando-se a ficção de que as empresas com proventos acima de um certo nível, sofrerão uma sobretaxa. É para rir ou é areia para os olhos? Não se está mesmo a ver que mesmo a maior parte da dúzia e meia de empresas que acedem a tais ganhos vão, subitamente, fazer obras, pagar dívidas no estrangeiro, etc… etc…, que não lhe permitirão manter essa margem de lucros? E se essas empresas fossem taxadas sobre o volume de negócios? Bem, isto sou eu a sugerir sabendo-se que de finanças sou como Jesus Cristo. É apenas uma ingenuidade…
Na verdade, o que as medidas tomadas recortam – quem o diz são economistas com provas dadas - é a continuidade de um ciclo imparável de cortes para diminuir o débito, os quais provocarão mais desemprego, o que, por sua vez diminuirá o poder de compra, razão pela qual mais empresas fecharão e mais gente irá para o desemprego, acrescentando mais miséria e menos compras. Estão a ver o diabo do esquema? Pois foi aqui que o nosso governo nos meteu e nos quer à viva força, com insensibilidade política e social, conservar.

Tenho ouvido argumentar que não era possível prever esta crise, que chegou até nós por causa dos disparates de “subprime”, que somos inocentes vítimas das circunstâncias, que o futuro é incerto! Pois é! Mas quando a Europa nos destinou para criados de mesa da comunidade não aceitámos a ideia? Não recebemos o dinheiro para desmontar a frota de pesca e deixar de cultivar os campos? Não aprenderam que um dos custos da periferia é o preço dos transportes? Que o custo do transporte de mercadorias e matérias-primas está na razão inversa da distância? Que os países do Leste estão geograficamente mais bem posicionados, que dispõem de mão-de-obra mais qualificada e mais barata? Nem mesmo quando a deslocalização se iniciou foram capazes de prever onde tudo isto iria parar? Se eu não fosse tão desconfiado diria que havia apenas burrice no caso…

No entanto Portugal não é um país arrumado. Se os sacrifícios necessários forem proporcionalmente repartidos e começarmos a pensar um poucochinho mais na colectividade e menos nas contas bancárias individuais, tudo é possível. Sem me querer armar em mais esperto que os outros, atrevo-me a produzir uns pensamentozinhos sobre as possibilidades da pátria.

Reconhecendo sermos um país periférico na Europa, e não querendo aceitar tal coisa como um inexorável destino de habitantes do dormitório europeu, como poderíamos dar uma volta a tudo isto? Em primeiro lugar compenetremo-nos de que periferia é, na época da informação global um conceito obsoleto. Podemos ligar-nos a qualquer lado material ou imaterialmente. O importante não é a distância mas sim o modo como se transpõe. Aqui estou totalmente – parece impossível – do lado do governo em relação ao TGV, Terceira Travessia, Aeroporto e plataforma logística do Poceirão. É que sabem, nos areópagos internacionais estão em preparação novas regras sobre as zonas de dominação marítima que nos irão ser francamente favoráveis. Poderemos reformatar a nossa política de pescas e com isso conseguirmos colmatar o pescado que importamos e, coisa admirável, criar excedentes para exportação em espécie ou transformados, revitalizando pescas e indústrias. E o regadio do Alentejo prometido com o Alqueva? Também poderia, com outra política agrícola, contribuir para a alimentação e exportações. Ou não? Querem ver que estou a ser parvinho de todo? E se o TGV transportasse, rapidamente, com menores custos económicos e ambientais, os nossos bens produzidos para o centro da comunidade? Vêem o jeitão que dava a alta velocidade e a plataforma logística? Então e os produtos pesados e de longa duração, produzidos no centro, não poderiam passar por Portugal e serem remetidos para a África e Américas através dos nossos portos de Lisboa, Setúbal, Sines e Leixões? E não poderemos ser nós, em relação a estes continentes, o Centro da Europa? Então porque é que não somos? Que negligências e interesses se jogam por detrás dos panos? Eu não tenho certezas mas não me faltam desconfianças!


2 – Coração

Nós, portugueses, temos um dilema muito sério. A maioria de nós terá, lá para os idos do tempo, parentes árabes e judeus. Querem apostar? Esta singularidade é perturbadora e incentiva a uma séria guerra nos genes. Por este motivo sempre estive bastante interessado na resolução do problema israelo-palestino. Não me apetece nada ter uma guerra civil no corpo. Por tal se me arrepanhou, mais uma vez, o coração ao saber da investida dos militares israelitas contra barcos civis. Há muito tempo que Israel se comporta como um marginal. O capital de simpatia que recolheu com o holocausto está esgotado e cada vez mais surge a imagem de algo que não se distingue muito bem do antigo opressor. É facto de que ainda não chegaram aos campos de extermínio em massa, mas estão a tentar. Bloqueiam, matam, usam meios brutalmente desproporcionados, não cumprem nenhumas das resoluções das Nações Unidas e parecem claramente dispostos a comprometer e alienar os seus poucos aliados. Utilizam para tal uma retórica tão falível como esta de atacar em águas internacionais navios de outros países – isto é como atacar o país a que o navio pertence – matam e gritam que foram agredidos! Começa a ser demais! Que Israel se lembre, a continuar a sua política agressiva e totalitária, que pode ganhar todas as guerras que puder e quiser mas, para desaparecer, basta-lhe perder uma. A continuar assim pode não demorar muito e lá ficará, no meu coração, o meu gene judio a baloiçar-se tristemente junto ao aurículo das lamentações.


Publicado in “Rostos on line” – http://rostos.pt

maio 19, 2010

memórias XXI - poema de leiria da tarde e de maria




I

a porta fechou
as praias são só areias
e os países naufragam nos jornais

correr correr e nem sequer é domingo
em que embrulho se meteu a vida
na tarde das naus

já leiria perdeu os seus pinhais e o pintor
em parte incerta desconhece que

a tarde só é tarde quando dói

a maria
olha a vida da confeitaria
em frente ao hospital

e ademais
lembrem-se dos que sofrem
aqui
é proibido buzinar

já leiria perdeu os seus pinhais

os poentes de outono
são das poucas coisas na minha terra
que não têm dono

II

por sua vez o tejo
encheu-me as unhas com parte de um poema

quando os lustres se acenderem
vou agarrar-te na alma e correr pelo rossio
depois da meia-noite
quando as orações são bruxarias
a instaurar a raiva dos centauros

desliga o telefone desligando a vida
porque hoje os faquires vão ao cinema

amanhã irei à florista saber a cor
onde os goivos habitam e
se o poema é a difícil revelação da verdade
não haverá janelas que me falem sobre o que faz
um homem sozinho na cidade

evidentemente

à tarde

maio 13, 2010

Crise, Papa e Fernando Nobre




Pronto, pronto, concedo! Vocês têm razão! Com os problemas da crise a baterem-nos à porta, deixando-nos meios gregos no meio desta confusão, com as ameaças às várias formas que se antevêem de diminuição real do rendimento disponível das famílias, com os desempregados a verem o subsídio a escapulir-se, o reemprego a ser coisa mirífica e a reforma cada vez mais distante e diminuta, porque carga de águas hei-de eu vir repisar teclas já tão batidas como a omnipresença e continuidade da crise, a visita do Papa ou a candidatura de Fernando Nobre à ainda distante nova presidência da república?

Que querem, são madurezas de espírito de quem, dirão os menos afectos a mim e aos meus escritos, não tem maiores preocupações. Tempo de sobra sem ocupação que se veja, pretensão inaudita de Catão provinciano, pequeno moralista protegido das agruras da realidade, pronto a sonhar utopias esquecendo-se que ter jantar na mesa, todos os dias, começa a ser uma preocupação para cada vez mais portugueses. Outros ainda, navegando por diferentes águas dirão que cada um tem o que semeia, que as desigualdades são naturais e que o bem ou o mal-estar de cada um apenas dos seus esforços depende e, nestes tempos de fausto religioso, poderão mesmo acrescentar, que deus dá a cada qual aquilo que merece. Sábias palavras e refinados conceitos. Apenas falham por serem requintadas mentiras utilizadas ao longo dos tempos por todos quanto têm alguma coisa a ganhar com a miséria e submissão dos outros. São realidades recorrentes que se aliviam em tempos de fartura e se carregam nas alturas das crises.

As sibilas do centrão arengam preocupadas sobre o excesso da dívida, sobre o exagero dos créditos às famílias, sobre o custo dos empréstimos e, consequentemente com a absoluta necessidade de cortar despesas e aumentar produções. Andam desesperadas a tentar a quadratura do círculo sem perceberem que se movem num rectângulo que condiciona não só percepção da realidade como, a sua colocação nesse espaço, os aprisiona à consabida e limitada visão permitida por tal perspectiva. Preocupam-se com aqueles que vivem miseravelmente de parcos subsídios permitindo, por isso, aos impantes governantes arrotar as magnificências do modelo social europeu e nada dizem, ou fazem, sobres as fortunas colocadas em “offshore”, os diminutos impostos pagos pela banca, a farsa das tributações das mais-valias em bolsa que, finalmente aprovadas, se “esqueceu” de incluir entre os taxados os grandes investidores, lançando, como cortina de fumo, o imposto sobre os pequenos e muito pequenos negociantes. Enfim, isto sou eu a falar e como sabem, não me podem levar a sério porque, dizem os livros que este senhores neo-liberais consultam, tudo isto não passa de mesquinhez de espírito conduzida por uma imensa inveja social. Vá lá, não sejam egoístas, pensem como estes abencerragens têm razão e predisponham-se, mais uma vez, a pagar com a vossa fome e as vossas necessidades o bem-estar, a ganância e o desperdício de tão ilustres personagens. É que eles detêm o pleno direito a terem o que têm e a ser como são. E mesmo que oficialmente se proclamem desafectos de igrejas e religiões, eles, lá no fundo sabem e agradecem ao deus das distribuições económicas, o direito sagrado que lhes atribuiu de viverem opiparamente sobre a desgraça dos outros. É a lei natural dirão e nisto esquecerão que a lei humana é a da cultura. De que as regras culturais, fundadoras das sociedades, deveriam ser o ultrapassar do tão jacente direito natural representado no domínio do mais forte sobre o mais fraco. No fundo, em nome da civilização e dos actos urbanos querem ver repostas, a seu favor, as desigualdades que dizem não aceitar mas que são o sal da sua vida, do seu estar repimpado nas espreguiçadeiras de uma injusta distribuição de riquezas.

Por tal, mais que risível, é extremamente ofensivo este constante atribuir de culpas, por aqueles que dirigem e dirigiram, aos pobres coitados que sempre sofreram as agruras dos descalabros por eles causados e nunca receberam benefícios nos “bons tempos” que os enriqueceram. Tal estado de coisas leva-me a remorder em solilóquio constante um “isto ainda acaba mal”. E é que vai mesmo acabar da pior maneira possível. Quando se corta no investimento, que poderia criar empregos, gastam-se milhões na recepção do senhor Ratzinger, o tal garante da pureza da fé de alguns padres pedófilos e o tenaz perseguidor e algoz dos padres que, no terceiro mundo, pregavam que sem a libertação e dignificação dos corpos não há almas que possam salvar-se. Por isso ele usa sapatos de conhecida marca e preço astronómico e trás vestido no corpo valores que dariam para alimentar, durante muito tempo, famílias inteiras. Não faz mal, é a humildade de Cristo que ele transporta nesta ostentação. Cá por mim penso que se o patrão dele for o que sobre ele consta este bom Papa já está tramado de todo. Como era mesmo aquela história dos vendilhões do templo?

E o que dizer dos nossos governantes “absolutamente laicos”, cumpridores eméritos da constituição que separa a religião do Estado e manda tratar todas as religiões de igual modo? Pois é! Como em tudo na vida, há religiões que são mais iguais que outras. Se calhar estou a ser demasiado ríspido nas minhas apreciações. É bem possível que por milagre, ou por mais terrena influência do Papa sobre os donos do mundo, as agências de “rating” decidam minorar os seus olhares de abutres sobre o nosso país. Pode ser que os donos do capital, que deslocalizam as empresas para onde não existe protecção para os trabalhadores, conduzindo nesse passo as suas sociedades de origem à degenerescência e miséria, se comovam com a demonstração de fé do bom povo e, por obra e graça da Senhora de Fátima ou do seu filho, seja a nossa dívida resgatada, os juros baixem, a bolsa suba, a produção aumente e leve a um bom acréscimo das exportações – e pormenor sem importância, quais e para onde? – crescendo assim o emprego e, pela justa repartição do rendimento, igualdade de oportunidades e qualificações, este país consiga acertar o passo pela Europa. Mas, tremendo pensamento que me ocorre, não é Jesus Cristo, no dizer do poeta aquele que não tinha biblioteca e nada sabia de finanças? Oh! Diabo! Lembrei-me agora que no seguimento do poema também se dizia que o melhor do mundo eram as crianças.

É maravilhoso como tudo acaba por se ligar e fazer sentido!

Vamos então ficar sem o aeroporto, a ponte e com um esquisito comboio de alta velocidade que irá do Poceirão ao Caia! Coisa admirável e nunca vista! Oh! pedregulhos com dois olhinhos como conseguem tão preclaras visões! Que Keynes vos perdoe e Marx não rebente de ira enquanto Adam Smith e Freedman se riem a bandeiras despregadas de tão incoerentes personagens. Nem sequer conseguem ser inteiramente o que são, ou, talvez mais convenientemente, pretendam ser e apenas consigam, na pequenidade que os habita, as caricaturas que na verdade são e serão.

Ah! É verdade, o Fernando Nobre! Lá o vi, no meio da selecta multidão de convidados a prestar a sua homenagem a sua santidade. Fiquei tramado. Se ele também alinha com a pandilha em quem é que agora vou votar? A qualquer um que tenha conseguido ler até aqui este meu desabafo pergunto se conhecerá alguém, seja de que candidato for, que queira comprar, mesmo que a preço módico, o meu voto?

É que já estou naquela de: se os não podes vencer…


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maio 05, 2010

memórias XX - canto para a morte de bobby sands





I

disseram-me mesmo agora
aqui no café
que hoje cinco de maio
numa prisão da irlanda
tu morreste

em portugal o sol brilha intensamente
na espuma da bica
numa galáxia desenhada
dobram sinos
pela morte de um homem
que não conheci

no repente da memória
relembro outras dores
com nomes luminosos e aquáticos
e vejo-te cálido e tranquilo perto
de che guevara jesus cristo
pablo neruda garcia lorca
ou outros que morreram
com as dores de todos os homens

II

hoje aqui e a ti
ofereço à tua morte
a minha alma de irmão

na sombra que te cobriu
clamo a minha vingança
desejo que não descanses em paz
nem eu nem qualquer outro amante das coisas livres
enquanto não cair
o último dos tiranos

pouco importa que o vampiro feminino
que a burocracia marcará com o nome
maldito de margareth tombe
ou continue por tempo indefinido no
pressuposto do poder

na realidade que importância tem
que no dia da tua morte o exército inglês
avance sobre as pedras da tua pátria
que importará na verdade
que em cada hora numa qualquer
esquina incógnito
um outro patriota caia
no sangue da liberdade

pouco importa mesmo o passo apressado
com que a humanidade procura
o holocausto tu sabes bobby
o que tiver de acontecer acontecerá
e ninguém mesmo ninguém
por mais exércitos ou prisões
ou polícias que domine
poderá impedir para sempre
o caminho daqueles que não aceitam donos
e procuram nas coisas
a alma das canções

III

a tua morte entoa em nós
um hino de esperança
sabemos de novo que continua a haver homens
para quem a liberdade ressoa
como o brilho das estrelas
ou beijos em bocas
de amantes retornados

que fazer bobby da tua memória
que me aquece e incomoda
como liquidar a dívida para com
a tua morte contraída

só o poderei fazer semeando o sol
que hoje te foi negado
amando em todas as mulheres a amada
que no amanhã que não terás
te faria pegar numa guitarra
e imerso na sombra do luar
fazer fluir um tão imenso canto
que o oceano inquieto pensaria
ter já chegado o dia
da grande redenção

a ti o morto
neste momento levantamos obeliscos
na emoção de cada memória
mais não podemos fazer
que ofertar-tos acrescidos da miséria
das palavras que te digo

mas pensa um pouco

uma palavra não é só um som
uma grafia inscritos no papel
uma palavra
se animada por dentro
por um morto que não morre
é o aço e a água
a pedra e a cal
onde o alimento se encontra
e o momento acontece
em bodas de alegria

uma palavra
inventada na saudade
de um corpo início de viagem
é um solene contrato
entre o sangue e as veias o cérebro e o coração


uma palavra é um tributo
onde o oiro prevalece
sem o horripilante jogo
das fronteiras e uma
sentença de morte
para quem procura
a morte das palavras

uma palavra
é o que resta da vida
para todo o sempre

IV
por isso perdoa
por fracas as palavras
com as quais luto contra o esquecimento
e pretendem levantar o monumento
em que o teu nome perdure
e tu continues homem junto aos outros homens
um pouco mais distante é certo
porque prevaleces no âmago de cada um
acendendo o facho da revolta
para aquecer esse pedaço de vida
sonegado
V
foi há pouco que me disseram
que hoje cinco de maio
numa prisão da irlanda
à uma hora da manhã
quando a esperança se começa
a delinear nos lábios da alvorada
numa noite em que a lua
de vergonha não apareceu no céu
subitamente bobby me foste mais irmão

por isso eu estou nesta margem
entre a raiva e o choro
e a minha mão nervosa
traça o papel em signos restritos
na inominável relação que existe
entre o que deste e a relativa
comodidade desta revolta
em que me encontro instalado

por isto insisto nestas frases
e tento o poema
processo a chama onde possa arder
o meu pálido reflexo
do teu poema escrito
com o sangue generoso que te doaram
outros que passaram e como
cristo neruda ché ou garcia
sabem que neste instante
o caminho passou
por uma prisão na irlanda
onde pelo início do dia
ainda noite recolhida
em busca da liberdade um homem livre renascia





Barreiro, 5 de Maio de 1981

maio 01, 2010

O Hospício - (ou quem há-de gabar a noiva)




Abstraído na leitura do jornal só acordei para o mundo quando um amigável porradão nas costas me fez ejectar meia bica direitinha para a página, de quotidiana desgraça, onde a minha atenção se concentrava.

Então, agora deste em actor? Perguntou-me de chofre antes que o pudesse cumprimentar e limpasse o nariz, por onde parte do café, desagradavelmente, encontrara espaço de saída. Era, como não podia deixar de ser o impagável Belegário. O homem parece, por vezes, que é bruxo. Passo tempos sem o ver mas, sempre que algo diferente acontece na minha vida, lá me aparece ele, supimpa, sorridente, sem remorsos ou pudor, inopinado a interceptar os meus percursos.

Olá, Belegário, pelo menos diz bom dia. Resmungou um sumido “bdiapá” e voltou de imediato ao que lhe interessava. Estava para te telefonar mas achei melhor ter um bate papo pessoal contigo por causa da peça. Foste ver? Ná! Só gosto de comédias. Para mim o teatro é para depois de um bom jantar e uns copitos no bucho ir dar umas gargalhadas com as maluquices e as piadas dos actores. O que me traz atarantado é como te foste meter nessa alhada. Já tinhas idade para ter juízo. Então juntas-te a um grupo de comediantes assim sem mais nem menos? Olha lá, disse, o que é que isso de comediantes e o que é que tens contra eles? Pareces um velho do século dezanove eivado de preconceitos de classe. É pá, mas o que é que vão pensar os teus antigos colegas das direcções das empresas ao ver-te nessas andanças. Não sei, repliquei, nem tal me preocupa, uns acharão mal, outros divertir-se-ão com a ideia e outros ainda, mais amigos ou conhecedores do meu feitio iconoclasta encolherão os ombros com um sorriso e, compreensivelmente, dirão ele foi sempre assim.

Pois, pois, mas estou curioso por saber como te foste meter nisso, Conta lá, pá!

Foi simples, um dia o Luciano Barata telefonou-me para me convidar para fazer um papel na peça que, no Grupo Projéctor, o Abílio Apolinário estava a encenar. A peça era O Hospício, também conhecida como Marat/Sade, ou no título original - e prepara o fôlego para poderes repeti-lo - “Perseguição e assassinato de Jean-Paul Marat representada pelo Grupo Teatral do Hospício de Charenton sob a Direcção do Marquês de Sade”. Claro que fiquei um pouco baralhado. Já não fazia teatro desde o Secundário e esta peça, eu conhecia-a, tinha-a visto há umas dezenas de anos na Comuna, com actores do gabarito de Carlos Paulo (Marat) e Carlos Wallenstein (Sade) e conhecia bem a complexidade do texto e as dificuldades de encenação e interpretação de figuras e época. Não tremi com o convite porque pensei que apenas necessitavam de mim para fazer número no conjunto dos doidos do hospício e lá fui, ao Bar do Franceses, falar com o meu amigo Luciano e com o desconhecido, e agora também amigo, Abílio. Ao saber que ele tinha estado na Comuna e que tinha participado no Marat/Sade, percebi que iríamos falar de um teatro de ideias, de encenações radicais e de uma experiência arrojada, tendo em conta as dificuldades da peça e a exigência cénica, histriónica e de interpretação exigidas por este texto de reconhecidos méritos mundiais, bem como o espaço e maquinaria teatral existentes. Entusiasmou-me o arrojo da ideia e fiquei logo conquistado para o projecto. Só fui acometido pelo terror quando, impudicamente, me propuseram o papel de Marat. Não me parecia estar ao meu alcance encarnar aquela tremenda figura de revolucionário jacobino, bem como ter ainda capacidades de memorização para as profundas e imensas falas da personagem. Após longo conciliábulo lá me decidi, a título meramente experimental, testar as minhas capacidades. Abro aqui um breve parêntesis para te dizer, Belegário, que outro tanto se passou com o Mário Durval, o qual, de igual modo, acrescentando com generosidade mais este aos seus muitos afazeres, decidiu entrar no barco.

Sobre o trabalho insano que foi para todo o grupo pôr em cena esta peça não vou falar-te senão para sublinhar que neste conjunto, onde não há actores principais e figurantes – cada um fazendo à vez, em cada peça, o papel que lhe é distribuído - se encontra uma vasta plêiade de talentos, espírito de sacrifício e boas vontades, todos empenhando-se, de igual modo, no conseguimento da percepção e ritmo da obra, entregando-se profundamente ao seu conseguimento, conscientes de que um menor empenhamento pessoal poderia fazer soçobrar o esforço colectivo.

É pá, interrompeu-me o Belegário, mas não achas que é uma grande estopada passar duas horas a ver malucos e ouvir discursos inflamados sobre a Revolução Francesa? Eu sempre detestei esse período da história. Para mim foi sempre uma confusão de acontecimentos, nomes e cortes de cabeças. É bem verdade, respondi-lhe, mas não te esqueças que ainda hoje, os direitos humanos por que sempre te andas a bater, e que por vezes te põem de mal com deus e com o diabo, são o resultado dessas lutas. A América que diga onde foi beber os seus ideais de liberdade e onde baseou a sua Constituição. E as nossa também! Mas passemos adiante e falemos mais na peça e no autor. O Peter Weiss, nascido na Alemanha, refugiado em consequência das perseguições nazi, escreveu esta peça em 1964. Caso raro com as grandes obras, foi logo um êxito. Com certeza que o período de intensa mudança social em que apareceu contribuiu para a sua afirmação. O tema, a linguagem, a intencionalidade assentavam como uma luva nas mudanças que se preparavam em todo o mundo e que vieram a ter os seus corolários nos movimentos de 1969 e posteriormente, nos anos 70, inclusive em Portugal. O texto desta peça foi perfeitamente compreendido como actual naquelas décadas e, facto notável, volta a estar novamente em dia nos tempos que correm e no nosso País. Mais uma vez Jacobinos e Girondinos – com outros nomes e outros discursos – se confrontam num mundo em crise de transição e, talvez não muito distante no tempo, revolta. Para te aperceberes, vou socorrer-me de análises de várias pessoas e fontes (entre elas a entrada Peter Weiss da Wikipédia), sobre os três níveis diferentes mas simultâneos em que a acção se situa:

O Primeiro nível é situado em 1808. Sade está preso, pelas suas ideias e práticas, no Hospício de Charenton. Escreve aí algumas das suas obras mais conhecidas e, como forma de tratamento de doentes mentais encena peças, no Hospício, a que assistem as classes superiores da sociedade revolucionária francesa. São personagens deste nível Sade, o Director Coulmier e os doentes.

O segundo passa-se em 1793 quando a Girondina Charlotte Corday assassina o líder Jacobino Jean-Paul Marat, plumitivo, deputado do povo e absolutamente radical. Aqui pontuam Marat, Charlotte Corday, Duperret – deputado girondino e amante de Charlotte – e Jacques Roux, padre e radical apoiante de Marat.

“A terceira esfera temporal (ou nível) é a do leitor que lê ou assiste à peça, podendo ser tanto público da peça de Weiss como da peça de Sade”, cabendo-lhe a ele as identificações do discurso e a sua adesão às realidades presentes.

Por isto o Grupo Projéctor fez um esforço imenso para que a peça fosse apresentada no dia 25 de Abril. Como ainda a não foste ver, terás possivelmente algumas dificuldades em apreender o sentido profundo desta última “esfera temporal”. Por isso te recomendo vivamente que não a percas – desculpa-me este descarado gabar da noiva pelo noivo – porque não darás por mal-empregado o teu tempo e, muito possivelmente sentirás como és tu também personagem e actor de um drama semelhante e actual passado nos conturbados tempos que o mundo em geral, e o nosso país em particular, atravessam.

Vai, em qualquer dos fins-de-semana de Maio, aos Franceses ver a peça. Leva a família e os amigos. Vão ver que não se vão arrepender.


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O Hospício - Fotos




Marat (Carlos Alberto Correia) e Simone (Elsa Barata). Ao fundo, em segundo plano, Jacques Roux (Mário Durval). Em primeiro plano o Guarda (João Martinho)


Doentes, Coro, Apresentador Marat e Simone



















Em primeiro plano, Marquês de Sade (Manuel Gonçalves) e Apresentador (João Cruz)

























Em segundo plano Doente (Luciano Barata). Em primeiro plano Duperret (Emanuel Saramago)





















Em cima Coulmier (Luís Gonçalves). Em baixo, ao fundo, da esquerda para a direita, Doentes (Luciano Barata, André Pereira, Maria João). Em primeiro plano Marquês de Sade (Manuel Gonçalves)















Ao cimo, Coulmier (Luís Gonçalves), em baixo, da esquerda para a direita, Doente (Maria João), Enfermeira (Fátima Pires) e Charlotte Corday (Tânia Pacheco)











Doentes , da esquerda para a direita, (Manuel Graça e Rogério Rosa









Doente (Risete Dias)


Ao fundo os músicos, em segundo plano um
doente (Rogério Rosa), em primeiro plano Simone (Elsa Barata) e Marat (Carlos Correia)




As quatro cantoras, da esquerda para a direita, Tourlourou (Lara Nair), Sansonnet (Daniela Pedroso), Cocorico (Vanessa Rodrigues) e La Fauvette (Romy Mendonça)
















abril 09, 2010

Em louvor dos corruptos, hipócritas e mentirosos




(esta crónica deverá ser acompanhada com o trautear de fundo do Requiem de Mozart)
Era ainda menino quando recebi uma lição que, para mal dos meus pecados, nunca levei muito a sério. Foram precisos muitos anos, muitas escorregadelas e estampanços na dura realidade, para que desse, a esse ensinamento, o devido valor. Tratava-se de uma frase amiúde repetida por um homem inteligente, ou observador, que do alto do seu saber e posição, fazia dos seus ditos regras. Dizia ele, da cátedra de Governador Civil, que no Alentejo, para se ser respeitado, não se podia ter mais que a quarta classe nem menos de quatrocentos porcos. Assim, lapidarmente, completava alguns rifões que têm sido apanágio da cultura popular. Para não ficarem em excessiva curiosidade e poder sobrevir-vos algum stress traumático, aqui vão eles. O primeiro, corroborando inteiramente o dito do senhor Governador é: Este gajo sabe muito, numas versões; ou mais forte ainda: este gajo sabe de mais. E aqui temos o início de uma catilinária de analfabetos funcionais, contra quem se esforça por compreender profundamente as coisas, sendo por isso considerado como uma ameaça para aqueles apenas interessados em aperceber-se do superficial e desde que tal não lhes custe muito esforço. O segundo, dito sempre numa admiração basbaque e dirigido a quantos, sem quaisquer rebuços morais, vivem e prosperam à sombra de chicanas e aldrabices, é o exclamativo: aquele gajo é cá um espertalhaço ou, noutra versão, aquele é que sabe viver.


Aqui temos senhores a explícita dicotomia da nossa agónica civilização. Mas, pergunta-se: numa sociedade possuidora de tantos meios e conhecimentos, como é possível chegar a este ponto de decepção a caminho do desespero? Vêm-me então à ideia o ocaso dos impérios. Sempre na sua agonia existiu a perversa esperança de que os bárbaros viessem e na sua destruidora chegada regenerassem as patologias civilizacionais. O momento antecedente a este desejo insano foi sempre pontuado pela desilusão dos povos perante o desprestígio galopante das suas instituições.

O caminho para tal estado de coisas é lento. Imperceptível no início, desliza depois velozmente, em plano inclinado, até um tão profundo apodrecimento que mesmo a destruição de tudo parece ser mais fácil de suportar, ou transportar mais esperanças, que manter os velhos e desacreditados figurinos. Tudo começa, imperceptivelmente, com a perda de valores solidários. O egoísmo, o enriquecimento próprio, contra tudo e contra todos, institui-se como valor axial e tudo subordina. Que importa que fulano seja um coerente defensor das suas ideias, se isso o não faz enriquecer mais um euro? É pôr de lado, que não interessa a ninguém. Porque os valores são trocados por uma contabilidade a corrupção aparece como forma de consagrar uma nova ordem, novas potências, outras dependências. O poder, até aí utilizado no pressuposto de servir a comunidade, passa a ser unicamente veículo de promoção pessoal. Na estrénua procura de sustentar a sua indefensável posição, o corrupto torna-se hipócrita e, mesmo que profundamente errado e prejudicial, apenas apoia e louva aquilo ou aqueles que podem ser úteis aos seus mesquinhos desígnios. Pretende apresentar a falsidade e traição como verdadeiras virtudes.

A hipocrisia é uma hidra de várias cabeças com um corpo de mentiras. É essencial ao hipócrita dominar a fala de língua bífida. Como um mentiroso se apanha mais facilmente que um coxo, dizem, é preciso, para defender possíveis percalços, preparar um conjunto de seguidores e altifalantes, pagos a bom preço, os quais, pelo ruído e repetição, apoiem descaradamente a sua mentira tornando-a numa verdade. Partem sempre do princípio que o resto do mundo é estúpido e nunca conseguirá aperceber-se do logro em que o querem lançar. Dependendo do poder e do lugar de emissão, o êxito estará, na maior parte dos casos, assegurado.

É claro que as inúmeras contradições surgidas, nunca passíveis de prova concreta e evidente - por mor das cascalhantes companhias interessadas na continuidade dos ardis - vão criando uma atmosfera pesada e incómoda onde toda a gente começa a sentir que qualquer coisa não vai bem, que um mal-estar difuso mas persistente se insinua, cobrindo tudo de cinzas, criando uma ameaça, mais pressentida que manifesta, de permanente inverno. E a gangrena seguirá triunfante o seu caminho.

Devemos ainda referenciar o indispensável apoio dos medíocres. Daqueles que sempre reclamam mais e mais direitos e nada fazem para cumprir os seus deveres. Aqueles que esperam que tudo lhes chegue sem esforço são os apoios necessários e fatais do reino dos corruptos. Sem eles, que publicamente falam contra a corrupção, a hipocrisia e a mentira, mas que nada fazem de útil para a erradicar das suas práticas, a consentem e, na sua pequenez, a apoiam (esperando a migalha caída da mesa dos patronos) a vérmina não poderia subsistir. Mas isso exigiria esforço, claridade e, muitas vezes sacrifícios. Volta-se então ao senso comum do deixe-se estar o presidente da Câmara que, embora roubando faz qualquer coisa, porque ao mudar, não só se arranjam chatices, como podemos lá pôr um que não faça nada. Brilhante conclusão. Justifica tudo. A cobardia, o oportunismo, a menoridade cívica e mental. Por estas estradas vamos desconfiando dos políticos, da justiça, das mais instituições. Fatalistas encolhemos os ombros em trágicas desistências, murmurando, por entre dentes, o que se há-de fazer! Isto foi sempre assim. Já não tem remédio!

Na verdade as análises desta gente de vistas curtas, apenas cotejadoras de conjunturas precárias, parecem dar razão a quem assim pensa. Mas veja-se mais longe. Quantas vezes imensas potestades de sólida implantação, parecendo indestrutíveis, pereceram de supetão. É olhar a história. Não é preciso ir muitos longe para testarmos a razão. Mas atenção, depois de acontecida a queda, os mesmos que impunemente declararam nada haver a fazer, chegam-se-nos aos ouvidos com os impantes “estava-se mesmo a ver”, “eu já tinha dito”, “a mim nunca me enganaram”, “aquilo eram elefantes com pés de barro”! Acordam tarde mas já vêm preparados para arranjar um lugarzinho na nova ordem das coisas onde possam acoitar-se. Se não houver cuidado consegui-lo-ão de novo, porque sempre estarão acocorados aos pés de quem lhes poderá dar alguma coisa, sempre calcarão quem se atrever a denunciar as suas práticas, bajularão os poderes sem reservas, serão mais zelosos que quaisquer outros e levarão, sempre além do requerido, a vontade dos seus novos amos, até ao dia em que os possam transformar naquilo que eles sempre foram: corruptos, hipócritas e mentirosos. É preciso ter muito cuidado com os medíocres. Eles são muitos, não têm medidas nem as regras os coíbem. Correm, por isso, o risco de vencer muitas vezes.

É pois da maior urgência que se louvem os corruptos, os hipócritas e os mentirosos. No fundo, ao semearem a podridão, são eles que, sem de tal se aperceberem, aprofundando a dialéctica dos contrários, fornecem o húmus para a construção da nova história.


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março 24, 2010

Bullying à alentejana




(Excerto do capítulo Boa-Nova do romance em construção Concerto para Sanca João)

Saíamos compostos, por filas de carteiras, da sala de aulas. Passada a porta acabava a compostura e com gritos de selvagem liberdade corríamos direito às bicas dos bebedouros, alimentados, a partir da nora, pelo rodar incessante de um burro de olhos vendados, condenado, como Sísifo, àquele eterno deambular sem progresso que se visse. Quando cheguei às bicas já uma pequena multidão chegara à minha frente. Aguardei, na fila, a minha vez. Preparava-me para, dobrando o corpo, torcendo o pescoço, pôr a boca abaixo da bica escorrente quando, imperiosa uma voz eclodiu no recreio:

- Chegar e “boer”!

Desconhecia, por novato, as regras do recreio. Faziam gala, os alunos da quarta classe, em chegar ao recreio depois de todos os outros. Deixavam formar as bichas de pirilau para a dessedentação e então, fazendo valer o direito da sua senioridade e maior força física, afastavam os pobres gaiatos do bebedouro. Como estava na minha vez de beber, continuei sem me importar com a ordem do brutamontes o qual, colocando-se atrás de mim repetiu “chegar e boer”. Aos meus ouvidos moucos sucedeu um chapadão. Bati com o lábio na bica, rachando-o e abrindo um entorneiro de sangue que fez acudir o vigilante. Que se passa aqui? Nada, disse a brutidade. O puto escorregou e feriu o lábio. Ninguém tugiu nem mugiu. Olhei bem para a cara do mânfio enquanto era levado para a enfermaria para ser tratado.

Quando a minha mãe me viu com o lábio num trambolho ficou aflita e irritada. Que não, dizia o vigilante, não fora briga nenhuma. Escorregara no chão molhado do bebedouro e magoara-me. Calei-me e só a caminho de casa contei à minha mãe o acontecido. Amanhã levas um barril com água. Isso não volta a acontecer, decidiu. Escolhi o barril. O maior! Feito de um barro forte e vermelho. É muito grande! Não, mãe. É este que eu quero. É bom. Mas vais muito carregado para a escola. Não vou. Ponho um cordel dobrado entre as asas e assim não custa nada. Raio de rapaz, teimoso como tudo. Levei a minha avante e, no dia seguinte, sozinho, derreado pelo peso da sacola de serapilheira levada a tiracolo e pelo incómodo do barril, lá fui para o meu segundo dia de aulas. Embora gostasse de aprender e o início do ano fosse mais passado em jogos que em qualquer coisa parecida com aprender – inquieta a minha mãe perguntava-me se já escrevera letras, lera ou cantara a tabuada ficando muito desiludida quando lhe dizia só cantámos, jogámos e o professor é que leu e falou connosco sobre o que tinha lido – nesse dia o tempo, até ao recreio da manhã, parecia não passar. Mal se ouviu o toque da campainha saltei como mola retesada levando o professor a mandar-me sentar advertindo: mesmo que o sino toque só se levantam quando eu disser. Permaneceu pétreo, olhando-me fundo, debaixo do crucifixo, enquadrado pelas fotografias, sempre presentes, do Marechal Carmona, feito presidente da República e do verdadeiro mandante Oliveira Salazar. Ao podem sair corri para o bebedouro encostando, com desvelo ao peito, o pesado barril cheiinho de água. Não fiquei na fila. Coloquei-me estrategicamente nas imediações das torneiras e aguardei que chegasse o crápula que me tinha rachado o lábio. Quando o espertalhão se inclinou para beber só deve ter notado o barril a atingir-lhe as têmporas quando o rasgão na pele se abriu e o sangue dele se derramou no exacto lugar onde o meu correra no dia anterior. À estupefacção de caloiros e veteranos seguiu-se um burburinho da malta da quarta a avançar contra mim. O voltear do barril na minha frente, fazendo um zunido de vento a ser cortado, dissuadiu a turba das intenções vindicativas que contra mim laboravam. Quando o vigilante, sempre tardio, apareceu eu, adiantando-me a todos os outros, olhei-o bem fundo nos olhos, informando-o: escorregou na lama ao vir beber. Ninguém me desdisse e nunca mais, estando a beber, alguém com insolência me disse: “chegar e boer”

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março 18, 2010

Pedofilia




(Excerto do capítulo “Boa Nova” do romance em construção “Concerto para Sanca João”)


…Que os santos me perdoem esta dúvida mas foi o seminário o primeiro plantador de suspeitas. Aconteceu no meu segundo ano. Era prefeito da camarata o Padre Lucas. Fosse embora seu mester submeter a apertada vigilância os jovens a seu cuidado, vendo se tomavam duche de calções e camisola interiores vestidos, se dormiam com as mãos fora das cobertas, cumpria a sua tarefa de forma doce como se de brincadeira se tratasse. Obrigava-o a sua função a adormecer muito depois de nós e a acordar antes. Tudo fazia por bem o santo homem e sendo o último a abandonar a camarata, era o primeiro, aos alvores da manhã, a acordar-nos com palavras bem-dispostas, tal ave madrugadora em solarengos madrigais. Todos gostávamos dele até que um dia o Zé Maria, em assustada confidência, nos disse o padre é maricas. Não pode ser! Cala-te Zé Maria. O que estás a dizer? Não cabia em nenhum de nós semelhante pensamento. Era aterrorizador. O nosso prefeito! Sim, confirmava Zé Maria. Ontem, já vocês dormiam todos senti que alguém me levantava as roupas da cama. Fiquei borradinho de medo, sobretudo quando vi que era o padre Lucas que estava a tentar desapertar-me o laço das calças do pijama. Quando abri os olhos ia gritar. Tapou-me a boca e disse chiu! Estou a ver se não te estavas a masturbar. Se gritares ou disseres alguma coisa vou informar o reitor de que te apanhei em masturbação. E tu? Calei-me e ele bateu-me uma punheta.

Se não fosse o Zé Maria a contar não íamos acreditar. Mas ele era nosso amigo já na Cidade e, filho de sacristão, não iria mentir e inventar uma coisa daquelas sobre o padre Lucas. Que vais fazer? Vou-me embora do seminário. Não estou para isto e se ele sabe que falo com vocês ainda me arranja um sarilho. Vê lá se ele conta ao meu pai. Não vais nada embora, disse o Bento, já reconciliado comigo e decidido a ser amigo porque ambos éramos estrelas, a gente resolve isso. Resolve como, perguntei. Fácil! Logo à noite fingimos que adormecemos. Quando o padre Lucas for ter com o Zé Maria ele começa a gritar ladrão, ladrão e nós pomos os cobertores por cima do padre, arriamos-lhe uma carga de porrada e vais ver que ele não é capaz de fazer nada que te lixe! Combinação feita, espera, depois do apagar da luz, que o padre viesse ao local do pecado. Veio e tudo aconteceu como o previsto. Foi tanta a algazarra que o Reitor, cujas instalações eram próximas desta camarata foi quem abriu a luz. O quadro era por demais explícito para que merecesse dúvidas. Em cima da cama, berrando com um desalmado o Zé Maria, de calças de pijama caídas, continuava a gritar ladrão, ladrão, enquanto saltava que nem um cabrito, como se histérico estivesse. Debaixo dos cobertores lançados por sete putos, em pijamas ou ceroulas, debatia-se o padre Lucas. Severo, o reitor, mandou que Zé Maria se compusesse e ordenou ao padre Lucas, já para o meu gabinete. No dia seguinte já ninguém viu o padre Lucas e, na hora de estudos, um novo prefeito transmitiu que o padre Lucas se ausentara por ter sido acometido de perturbações mentais.


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março 08, 2010

Memórias XIX - fragor de rosto




I

um mosquito doido pousa na vidraça
o cais alonga-se ao correr do risco
rumo de olhares contemplando chuvas

a água da nascente aperta-me a garganta

II

trazes hoje um semblante de palavras
imensa descoberta que se espalha triste
sobre a sombra da tarde

a paisagem habita-se de encostas
de outros impossíveis campos rompe a floresta
e escala oculta a imperfeita génese dos contornos
mágicos das cinzas das estrelas coalhadas de espanto

por agora nas manhãs enregeladas suponho o ritual
estandarte onde se agarra o vento
dos corpos nos traços das ofertas

canto o nome dos lugares de todo o procurar
a harmonia inteira o que se pode sorrir
entre os cortados de montes e paisagens
sem rios e sem diferenças

ao revés da cera em que a tarde se esbate
em passo apontado ao outro lado
o silêncio aquece o rubor estridente dos campos

III

na vidraça doido dança o doido do mosquito



Lisboa, Fevereiro de 1984

março 03, 2010

A Justiça do Segredo




O Artigo 2º da Constituição define-nos como um Estado de Direito Democrático, onde, pelo menos em tese, a soberania reside no Povo. Quer isto dizer que todos os poderes legítimos derivam da vontade popular livremente expressa e do princípio da separação dos mesmos. O legislativo e o executivo são eleitos. O judicial não! Os seus hierarcas são votados, cooptados ou nomeados corporativamente ou pelos outros poderes dos quais são teoricamente independentes. Possuem, portanto, uma legitimidade delegada por quem também já tem um poder igualmente delegado. No entanto não seria por aqui que o gato iria às filhoses. O problema é que a estes mandatos que, pelas suas circunstâncias, ousarei chamar de limitados, juntam-se as questões de inamovibilidade e da irresponsabilidade, isto é, a nenhum juiz poderá ser retirado um caso por conveniências quaisquer, nem lhe poderá ser imputada responsabilidades sobre as decisões tomadas. Princípio justo que pretenderia salvaguardar a independência dos juízes mas que exigiria, continuadamente, que a existência dessa mesma independência, não fosse, de qualquer modo, comprometida pelo modo de designação, por compromissos partidários ou pela defesa do corpo fechado de agentes em que estas instituições se podem transformar. Por uma perversão de carácter o que era um meio poderá constituir-se como fim e, por vezes mesmo no único objectivo dessas instituições, numa lógica própria de sobrevivência e reprodução dos estatutos dos seus membros.

As semanas anteriores têm vindo a ser incendiadas por um vívido debate sobre o segredo de justiça e a legitimidade de o mesmo ser ultrapassado quando o interesse colectivo se opõe ao individual. Levanta-se uma primeira perplexidade quando, estando a soberania no povo, algo ou alguém, com um poder dele derivado, se permite decidir unilateralmente o que lhe deve ser dito ou ocultado. Por mais uma das abundantes subversões das nossas relações sociais perde o mandatário essa qualidade, passando a entidade subordinada a mandante, reduzindo tudo ao critério dos seus interesses institucionais. No limite chegaremos ao velho conceito salazarento do povo-criança, impreparado para entender os subtis caminhos das governações, a quem deve ser evitado o esforço desumano de conhecer e opinar sobre acontecimentos determinantes para a sua vivência.

Por tais artes parece estar assente o sacrossanto dever de preservar a todo o custo o dito segredo de justiça. Interroguemo-nos qual será o fim deste recato quando o que ele preserva são crimes contra pessoas ou bens, que deverão, por definição, ser públicos quer no julgamento quer no resultado a que se chegue em sede de juízo. Dizem-nos os mestres do Direito que tal secretismo poderá ser útil, durante algum tempo, para preservar e possibilitar a investigação. Muito bem! Estamos visivelmente na presença de um meio de duração limitada e com a única finalidade de facilitar a obtenção de provas, não alertando para tais intentos os indivíduos suspeitos. É compreensível e aceitável. Evita-se assim a destruição de provas e a obnubilação de factos ou circunstâncias. Só que, passado este momento crítico, o segredo de justiça será retirado e o processo ficará em domínio público. No entanto não é isto que verificamos no quotidiano judicial. Os inquéritos são intermináveis e o segredo de justiça nunca mais acaba. Resultado? Insatisfação, revolta e constantes fugas de informação no intuito de ilibar ou castigar, em público, o que a justiça não fez, em tempo, nos seus palácios. É a homeostase da sociedade civil a equilibrar os poderes mal entendidos que pretendem dominar o conhecimento e o direito de cada cidadão.

O caso mais flagrante e contemporâneo é, como toda a gente sabe, o das escutas telefónicas orientadas para negócios de sucatas que aparentemente apanhou na rede peixe muito mais graúdo e negócios de muito maior monta. Os representantes da justiça, em Aveiro, viram crime onde o Presidente do Supremo Tribunal e o Procurador de Justiça nada viram que tal se parecesse. Provavelmente andaram em faculdades diferentes e estudaram outro direito, porque tudo é gente de bem e ninguém cede a pressões de chefes ou governantes. O que neste caso me impressiona é o poder desmedido concedido ao Presidente do Supremo e ao PGR. Então se um primeiro-ministro for apanhado numa escuta a perpetrar um crime e se tiver poder para pressionar a seu favor qualquer uma destas entidades o crime nunca virá a público nem será julgado? Não é de bradar aos céus que para coisas bem menores seja necessário um colectivo de juízes e para situação de tal monta um apenas seja suficiente? Ou eu estou enganado ou isto não é mera distracção.

Um outro debate que destes casos decorre, mas ficará para melhor oportunidade, é o de saber da legitimidade das escutas, do seu emprego, da sua divulgação e, esclarecer muito melhor o que é do âmbito privado ou não. É que no limite mesmo combinar-se entre duas pessoas um golpe de estado ou a morte de alguém, desde que seja feito por meios próprios e entre duas pessoas poderá sempre ser uma conversa privada e, a contrário, se duas personalidades públicas falam aos telefones de suas casas, dos filhos, da mulher ou da amante corre-se o risco do exagero de se considerar conversa de interesse público. Como se vê o tema é vasto, perigoso e merece certamente melhor tratamento que aquele que a baixa política anda a dispensar-lhe.

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fevereiro 24, 2010

Baralhar e dar de novo




Ele há coisas assim. De repente tudo o que parece firme e claro, como por artes mágicas, rebenta noutras perspectivas até aí de todo desconhecidas. O que parecia tão firme e claro era a anunciada disputa do lugar presidencial entre o verbo inspirado do poeta e a deficiente comunicação do professor de economia. A direita temia o resultado do recontro, a esquerda embandeirou em arco e precipitou-se em apoios e gritos de arraial! Arraial! Até pareciam monárquicos!

Foi o factor Nobre, de Fernando, entenda-se, que veio desestabilizar esta contenda anunciada. Entrou de rompante pelo simples facto de anunciar que iria reclamar um direito. O de, sendo português maior de 35 anos de idade, poder disputar o lugar de Presidente da República. É claro que toda a gente nos partidos sabe isso, concorda inteiramente, desde que o candidato “independente” seja um político por eles reconhecido.

Ao anúncio devastador de contas feitas correspondeu um murmurar incomodado – da direita à esquerda – de que o homem seria um cidadão notável, nada havendo, senão elogios, a apontar na sua vida, que dera provas nas mais difíceis situações de capacidades notórias de liderança e organização mas que, facto imperdoável, não tinha experiência política relevante. Quer isto dizer, em partidês, que Fernando Nobre não sabia, não quereria ou não estaria disponível para entrar nos jogos dos interesses de poder e aparecia com um perturbante e muito dispensável discurso sobre valores e ética.

Como se sabe, ao olhar o panorama nacional, nenhum dos nossos políticos de capa de jornal precisa de noções de ética. Toda a população reconhece neles os seres impolutos que são, magros de preocupação com o bem-estar geral, descuidando escabrosamente os seus interesses pessoais em prol do bem comum; inquietando-se plenamente com o conseguimento da justiça civil e da equidade social, sofrendo atrozmente nas raras vezes que tal não acontece neste país onde até o primeiro-ministro – ao contrário do que acontece pelo mundo fora - fala sempre verdade.

O Presidente Cavaco tem andado debilitado na saúde política. O Verão foi-lhe nefasto e não fora a Face Oculta ter desnudado, um tanto por acaso, uma profunda vérmina a grassar entre política, informação e finanças, poderia ser o primeiro Presidente a não bisar o acto. Graças a Sócrates e “sus muchachos” o homem arribou e viu melhorar bastante as suas perspectivas. Também temos de ser humanos. Ainda há poucos se mudou para Belém, começava agora a afeiçoar-se à casa e zumba! Uma acção de despejo. Isso não se faz! É falta de humanidade. Nenhum rancor justifica uma família sem tecto. Dizem-me vocês não ser bem assim, que ele até tem o apartamento em Lisboa e a moradia no Algarve, que está bem de vida, tomara a maioria dos portugueses ter o que ele tem, etc. etc. etc.. Pura inveja, meus caros. Alarguem as vossas vistas, não olhem para o que ele tem, mas para o que ele faz. Não se esqueçam de quem, tão acertadamente, traduziu a Lei de Gresham – aquela da má moeda expulsar de circulação a boa moeda – em termos políticos referindo-se aos notáveis desempenhos do nosso primeiro Santana. Vocês eram pessoas para chegar a tão brilhante raciocínio? Vá lá ponham a mão na consciência e reconheçam onde o saber e a grandeza estão. Se posteriormente se contradisse e o veio a apoiar não foi coisa diferente do que entre ele e o insubstituível Alberto João se passou. Portanto, amigos, existe aqui uma coerência na contradição e arrepio que nós só não compreendemos pelas nossas muito evidentes incapacidades. Felizmente lá estão os iluminados para pensar por nós e nos conduzirem ao correcto caminho. Deus os leve breve para a sua companhia porque nós, que aborrecimento, não estamos sequer perto do seu nível e somos um insuportável tédio nas suas vidas.

O candidato Manuel Alegre sonhava já com a vitória que pôde almejar nas últimas presidenciais. Não deve ter levado em linha de conta que, mau grado os anúncios da sua bem colocada voz, se foi aproximando, talvez sem se aperceber, do lamaçal existente ao redor do seu Secretário-geral. Não comunga dos benefícios que à matilha couberam? Creio bem que não! Mas não deixou de se encantar com a possibilidade (a última que lhe resta de chegar à Presidência) de, encostando-se a Sócrates – sobretudo na recta final – apoiando-o para uma vitória eleitoral que ratificaria a política que vinha invectivando, perder a força da verdade que o mantinha. Hoje, por ironia, ocupa o lugar que pertenceu a Mário Soares. Será o candidato oficial de um partido pouco interessado neste casamento e que nada fará de essencial para que a noiva seja feliz ou possa cumprir a sua missão. Apesar da sua proclamada independência terá sempre que ajustar-se à exagerada factura que o partido lhe apresentará.

O lugar da esperança, que já lhe pertenceu, passa hoje por Fernando Nobre. Estranho é ouvir, vindo de apoiantes actuais, as mesmas diatribes que contra ele foram lançadas anteriormente. Não tem aparelho de suporte, não tem dinheiro, quem é que o subsidia? A candidatura de Manuel Alegre que olhe para trás e verifique o que com ela aconteceu. Fomos nós o seu aparelho, as suas finanças, o seu poder. Hoje muitos de nós já não se reconhecem na sua atitude. Temos esse direito tal como ele tem o de seguir o caminho para si mais conveniente. Terá de conceder-nos que tal via poderá não ser a nossa. Tudo na vida tem um preço e há que pagá-lo!

Em acerto de contas de previsibilidade política é certo que as duas candidaturas poderão enfraquecer a esquerda e possibilitar a vitória da direita. Só que nem isto é absolutamente certo, nem os destinos de um povo são uma mera contabilidade de deves e haveres. Há uma esperança em dias melhores que não passa, tantas vezes, pelo que parece evidencia inelutável. Como dizia um outro poeta: “pelo sonho é que vamos” e precisamos urgentemente de um pouco de sonho neste tão viciado ar do quotidiano português. Precisamos de respirar sem que o metano do pântano nos envenene e a pressão dos interesses nos esmague.

Para já, o meu voto que seria nulo, passa a ter, de novo, expressão e eficácia!





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fevereiro 09, 2010

A deriva autoritária




Farto de que o meu amigo Belegário me saturasse os ouvidos martelando ininterruptamente na tecla: “ eh, Pá, tu não gramas o homem”, arrumei, por uns tempitos a necessidade de reacção escrita aos acontecimentos e deixei-me pastorear vagares sem qualquer sentimento de responsabilidade social. Fui fazendo a vida naquela do deixa lá ver se o Belegário tem razão; se o homem não é nada daquilo que eu penso, digo e escrevo e se não será a minha má vontade, ou um arreigado preconceito, que me obriga a ver constantes intenções malévolas em quase tudo quanto a criatura faz.

Os dias foram passando e veio a Face Oculta, o drama do orçamento, o caso Crespo, a tragédia da Lei de Financiamento das Regiões Autónomas, o Conselho de Estado, as pressões das agências de “rating”, as veladas ameaças de demissões e a publicação, no Semanário Sol, de parte das escutas feitas às personagens requentadas que rodeiam o nosso primeiro-ministro.

Pensei: “vai-te lixar Belegário, o erro não está em mim, mas sim no sujeito verdadeiramente (ir)responsável por toda esta confusão”. O meu engano, se tal tropeção cometi, é não ter sido suficientemente cáustico, nem deter a eficácia necessária para, tal Zeus irado, fulminar com verbo mais penetrante a couraça de desvergonha daquele pequeno Berlusconi.

Sempre lhe reconhecemos um inveterado pendor para confundir a democracia com a sua vontade própria. Parecia-nos estar mal apetrechado para uma sã vivência democrática, mas lá íamos aguentando naquela de reconhecer como defeitos, em certo grau toleráveis, de alguns espíritos com ânsias de poder, uma necessidade grande de empolamento pessoal, de disposição predatória, de vontade de conquista de estatuto perene. Ora, com é sabido, estas, quando intensas, são mais disposições de regimes monárquicos absolutos, de governos autoritários auto-eleitos, que de gente predisposta ao jogo democrático de obtenção e perda de poder - conforme a vontade expressa dos cidadãos - constantemente limitado por fiscalizações e regras, nunca transmissível e sempre, sempre, precário.

Dá-se mal com estas questões o nosso governante. Direi mais! Pensa-as obstáculos à efectivação da sua grandeza, da qual não duvida por sempre reafirmada pela pouco interessante trupe, daquelas coisas rasteiras, que o rodeia.


Já tínhamos estranhado as posições equívocas no agendamento, discussão e reprovação de leis claras contra a corrupção. Aos nossos olhos ingénuos não se tornava perceptível a razão de a um discurso oficial moralizante não sucederem acções conducentes à eliminação dessas práticas lesivas do bem público. Sentíamos a injustiça de experimentar quanto a crise pesava em números de desempregados, de desesperos, de aperto económico da maioria da população; de como os direitos sociais iam sendo diminuídos por falta de dinheiro e como patifarias feitas em bancos particulares se tornavam em prioridades económicas e em sorvedouros de fundos sempre disponíveis. Não percebíamos também como se congelavam salários e pensões ridículas e não se agia sobre as pensões sumptuárias, os “offshores” e não se taxavam as mais-valias da especulação bolsista.

Mas um dia, ao ler um livro de que não recordo o nome, fiquei esclarecido. Dizia o autor, reportando-se a tempos idos, que a diferença entre os governantes aristocratas e os republicanos era muito simples. Enquanto os primeiros já tinham fortunas consolidadas e só procuravam mais poder e aumento de estatuto, os outros, além de querer o mesmo que os aristocratas, tinham ainda de conquistar as suas fortunas. O pouco tempo que tinham para o fazer não dava aso a grandes sofisticações de métodos. Sendo simplista não deixa esta explicação de nos pôr a pensar sobre a verdadeira razão das coisas.

Pois, é! O mal da governança é de que não durando todo o tempo, cria maus hábitos. Como passar, de repente, das alturas do poder para a rasteira vida civil? Se a grande parte destes zelosos servidores do Estado não têm, ou não se lhes conhece, outras quaisquer competências? Ou se as têm diminuídas como suportar a ignomínia de andar de cavalo para burro? Nós compreendemos que têm de tratar da vidinha. No fundo são simples mortais com os comezinhos problemas de pagar a casa, a saúde, a alimentação, os estudos etc.. etc.. etc.. Só não compreendemos nem aceitamos que para conseguir tais desideratos tenha a democracia que ser ultrajada, o Estado que ser degradado e as misérias económicas e morais sejam a regra e não a excepção.

Com a centenária República neste estado quem se admira que o vulgo se refugie numa saudade doentia de pessoas, que só por esquecimento e por comparação com a mesquinha actualidade sobrevivem e que deveriam, para sempre, estar sepultada no mais fundo inferno da lembrança das gentes.


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dezembro 08, 2009

Igreja do Lavradio – uma falhada sistina?




Na passada sexta-feira, no almoço da Tertúlia do Pato Bravo, comentava com o Nuno Banza e o Sousa Pereira, o quadro sobre a Paixão de Cristo, encomendado pela Igreja do Lavradio ao Pintor Kira. Dizia eu que aquela tela haveria de fazer história. Para tal baseava-me na concepção da obra, a qual, apesar de algumas servidões ao gosto litúrgico, impostas pelos encomendadores do quadro, arrojava-se, nas figuras que acompanhavam a morte de Cristo, a representações pouco ortodoxas e, por isso mesmo, fortes e demonstrativas da compunção e tristeza gerais acarretadas pela morte do Filho do Homem.

Era baseado na iconoclastia destas figura, que o meu comentário, no citado almoço, apontava para um atribulado caminho para esta obra. Só não pensava que, naquele mesmo momento, essa história já tinha começado. Soube-o pelo Blogues Pintor Kira e Poleiro Pá. Afinal, a inauguração do quadro, que deveria ocorrer no próximo dia 8 de Dezembro, inscrita num cerimonial mais vastos, com ordenação de padre e presença de Bispo, já não iria acontecer. Porquê? Porque os bons padres se negaram a pagar o trabalho e pretendiam que o mesmo fosse oferecido à Igreja. Achei esta atitude abusiva e pretendi saber a verdade dos factos. Para tal nada melhor que perguntar ao Pintor como este desencontro tinha sido possível.

Segue-se, resumidamente, a história.

De há uns cinco anos a esta parte o Kira vinha a ser solicitado para fazer um quadro para a Igreja do Lavradio. Dada a sua orientação artística não ser a da arte sacra foi adiando a questão até que, este ano, por maior insistência decidiu anuir ao pedido. Foi-lhe então encomendada a execução de dois quadros, uma crucifixão com as dimensões de 3 metros X 2 metros, para a Igreja e um outro de 2 metrosX2 metros para o baptistério. Perante a monumentalidade da obra o pintor comunicou aos padres não ter dinheiro suficiente para comprar as telas. Do então argumentado ficou patente que a Igreja adiantaria o dinheiro para os materiais e que o pintor faria depois um “preço para amigos”. Acertadas as coisas recebeu o custo da tela maior e começou o trabalho pagando, do próprio bolso, algumas centenas de euros para os restantes materiais. Durante os seis meses que durou a concepção e concretização da obra não foi possível ao pintor pegar em qualquer outro trabalho. Os padres sabiam disso pois não só foram acompanhando a feitura da obra como requereram algumas modificações. Mais, sugeriram ainda que fosse pensando numa Via Sacra para a Igreja. Ora a Via Sacra é composta por 15 estações, o que significava a elaboração de quinze pinturas alusivas, todas de grande porte. Quase dava, com ironia e pelo tempo necessário a tal consecução, para que se assinasse um contrato de trabalho a muito longo termo. Estas questões foram ganhando, pelo que agora se entende, uma estranha ambiguidade. Assim, para o Kira o trabalho seria remunerado com um preço a combinar, para além dos custos dos materiais. Para os bons padres o trabalho seria suficientemente remunerado com o pagamento da tela (esquecendo as tintas, o tempo, o trabalho e a concepção) e o sublime privilégio de tornarem o Kira numa espécie de Miguel Ângelo, mal pago, do Barreiro. Não ficou claro se o artista deveria ainda fazer um agradecimento à Igreja pelo favor de se ver espoliado do valor do seu ganha-pão

Partindo do princípio que na sua produção o pintor fará uma média de 1.500 euros por mês, só o custo do tempo de trabalho investido neste quadro seria de 9.000 euros. Com os materiais gastar-se-iam, no mínimo mais 1.500 euros, ficando (sem ter em conta a remuneração artística) o quadro em 10.500 euros. Este preço seria, em termos de mercado de arte, muito baixo para a obra apresentada. No entanto o que o Kira pediu como remuneração era tão-somente cerca de 10% deste valor. Na verdade um preço mais que de amigo. A que responderam a isto os santos homens? Que esperavam que ele fizesse a oferta das obras à Igreja, fazendo com que o ofendido e pré-espoliado artista perguntasse se iria alimentar a família com hóstias.

Com os acontecimentos nesta posição, o quadro que já estava na Igreja, foi retirado e está agora no atelier do pintor à espera do seu destino depois de o Kira, num acto de grande honestidade, ter devolvido à Igreja o dinheiro adiantado para a tela. É uma pintura de venda problemática, mais pela sua envergadura que pelo tema. Somente poderá figurar num grande salão sob risco de, em qualquer outro lugar, esmagar qualquer envolvência. Fica-me pela mente a pergunta se estamos, pela parte da Igreja, perante uma grande ingenuidade, desconhecimento do real da vida, má-fé ou ainda outros pressupostos de que é melhor não falar. Para melhor compreensão do quadro e de possíveis motivações não ditas, cito uma apreciação do mesmo feita, num comentário no Blogue Kira Pintor, pela Dr.ª Fernanda Afonso:

“Gostaria de acrescentar algo ao que tem sido dito. Parece-me que a situação o merece. Vejamos o quadro. Este representa, no plano central, o acto sacrificial de Cristo. Na base, a lateralidade das figuras mostra a unanimidade solidária com o acontecimento.
Porém, as personagens não elevam, todas, os olhos para o Senhor ou para a pomba - os padres olham-na directamente, tal como a criança (perplexa) e os homens da "urbe", e por este mesmo facto, indiciam no seu recolhimento a consciência da tragédia no Presente. E o pintor?. De frente, interpela-nos com o olhar, sendo ele o agente da denúncia: Cristo sacrificado está vivo nos dias de hoje. Não é isto uma soberba forma de olhar o sagrado?
A igreja deveria estar grata por uma compreensão tão profunda da crucificação. Não a teve. Caso contrário, honraria o pagamento devido pelas telas, pelas tintas, já que o quadro é a dádiva do pintor à Igreja de Cristo - a da tolerância. Como se acha no direito de só pagar a tela? (parece que nem todo o custo é coberto). E o restante? Não é oferta suficiente a obra de arte?
Cristo não gostaria desta atitude que mais parece de vendilhões do templo... A César o que é de César, a Cristo o que dele é, ao pintor o que se lhe deve!”


Quanto a mim, modesto e inconformado figurante na obra, limito-me a pensar que esta Igreja – parece que em crise ética - perdeu a única possibilidade de alguma vez me ter, nem que fosse deste modo, dentro, ou sobre, as paredes dos seus templos.


Publicano in "Rostos on line"

outubro 28, 2009

As escolhas da CDU




Vêm alguns dos meus amigos e companheiros de partido mostrando alguma irritação pela preferência demonstrada pela CDU, na composição de juntas de freguesia, em relação ao PSD. Os comentários feitos por putativos apoiantes dessa força política são, regra geral, de uma acrimónia que junta gasolina à fogueira. Pelo lado dos meus crê-se que se está perante uma ligação contra-natura – seja lá isso o que for – pelo facto de não ser concebível a coligação de políticas de esquerda com as vontades sociais dos eleitos pela direita. Apertados por esta lógica de difícil refutação os apoiantes da coligação vencedora partem para agressões verbais desnecessárias.

Sumariado o evento tentemos uma abordagem mais serena da questão.

Já foi mil vezes repetidos e se-lo-á até à exaustão terem as eleições autárquicas um cariz diferente de quaisquer outras. E bem que eu pense que todas as eleições são distintas umas das outras, dependendo quer do órgão a ser eleito, quer da especial conjuntura em que ocorrem ou ocorrerão, aceitemos pelo seu valor facial, para facilidade de exposição, este enunciado. A principal característica diferenciadora destas eleições seria a da extrema personalização dos candidatos. Efectivamente, a prática tem demonstrado que existe forte mutabilidade na vontade dos eleitores, os quais, tantas vezes, nestas circunstâncias, trocam o voto ideológico pelo voto afectivo.

Aceite este princípio salta aos olhos que a inelutável vencedora destas autárquicas, no Concelho do Barreiro, foi a CDU. Não só a população lhe outorgou claramente a vitória, como lhe concedeu a maioria absoluta na Câmara, e lhe proporcionou maiorias confortáveis ou absolutas em muitos outros órgãos autárquicos. Ninguém, de boa-fé, poderá pôr em causa o claro sentido do voto da população. O corolário desta situação é que, descendo genericamente a votação em todos os restantes partidos e, consolidando-se ou subindo na CDU, esta está armada de uma legitimidade intransponível.

Ultrapassando a posição pessoal de esperar que um dia a maioria sociológica de esquerda se transforme em política, bem como de considerar como perigosa qualquer maioria absoluta, de qualquer partido, em qualquer órgão de soberania, resta-me aceitar, a contra gosto que seja, que os eleitores deste concelho, declararam sem rebuços, o apoio às políticas seguidas e propostas pela autarquia.

Dessa política fazia parte a repartição de Pelouros com o Vereador, Bruno Vitorino, eleito pelo PSD e com o Vereador João Soares, PS, que aceitou o cargo à revelia da posição assumida pelo seu partido. Pelo discurso do Presidente Carlos Humberto, na tomada de posse, presume-se que nesta Câmara se irão manter os pressupostos anteriores. Ressalte-se que tendo obtido a maioria absoluta poderia a CDU fechar a vereação nos eleitos pela sua coligação e, não o fazendo, deve salientar-se a abertura democrática desta acção do Presidente Carlos Humberto.

Não havendo novidades nesta área, até porque ao BE não foi possível eleger um vereador, fica a situação das “perigosas ligações” nas freguesias.

Este ponto de vista parece-me enfermar de uma falta de lógica de continuidade. Se a Câmara disponibilizou um lugar, é certo que exigindo solidariedade institucional, ao eleito do PSD, porque é que não o poderia fazer nas Juntas de Freguesia? Parece-me óbvio que nenhum impedimento sério se pode colocar quanto à justeza desta posição. Os eleitos de qualquer partidos são, quanto a mim, pessoas estimáveis, com as quais convivemos no dia-a-dia e que, tal como nós procuram, dentro da sua perspectiva, o bem destas populações. Poderão objectar que, a nível da Assembleia da República o panorama será bem distinto. É bem verdade que aí, iremos ver, por coincidência de propostas, muitas vezes o Bloco a votar com a CDU e contra o PSD. Só que, tendo isto em vista, não é lícito aos meus camaradas derivarem estes comportamentos a nível nacional, como espelhamento de escolhas ao nível local. O Barreiro, por razões certamente históricas, tem a peculiaridade, várias vezes demonstrada, de as estruturas locais mostrarem uma independência notória em relação às directivas nacionais dos partidos. Veja-se, como exemplo, as posições sobre a Terceira Travessia do Tejo. É bastante ilustrativa e penso não ser necessário trazer mais factos à colação.

Assim sendo, dada a personalização do voto e a desiologização do mesmo, quem é escolhido para o órgão autárquico será, eventualmente, mais a pessoa que o membro do partido. São estes dois elementos que podem explicar as escolhas da CDU. Dever-se-á acrescentar mais um elemento, este sim partidário, que é o do PSD, pelas suas características, não ameaçar o terreno político da CDU e do Bloco, pelo mesmo motivo, pescar nas mesmas águas o que introduz um elemento agonístico na equação. É portanto aceitável que as escolhas havidas só possam ter sido as que foram.

Como não se faz um casamento sem a livre vontade dos nubentes, não deverão os meus camaradas de partido ficar enfadados por terem sido preteridos nas escolhas. É compreensível, pelos factos aduzidos que o tenham sido. Até me parece que tal exclusão é laudatória e deverá motivar a continuidade dos nossos esforços apresentando à população a bondade das nossas acções e programas. Se o soubermos fazer, e relembro que uma eleição se começa a ganhar no primeiro dia do novo mandato e não na campanha eleitoral, os resultados virão naturalmente. Os nossos pontos de vista são, necessariamente, diferentes dos da CDU. Não deveremos pois esperar benesses e facilidades por parte desta coligação, independentemente da qualidade das relações pessoais, devendo sim, demonstrar com clareza as nossas propostas e, como oposição legítima, apresentar, caso a caso, em que se diferenciam e se tornam mais positivas para a população, as propostas e acções que empreenderemos em todos os órgãos em que estamos representados.

O poder autárquico foi estruturado, nos inícios de Abril, com os partidos então colocados nos órgãos de poder. Não será fácil agilizar esta estrutura muito solidificada mas é possível e é esse o trabalho que nos espera. Menos agastamento com escolhas que não nos pertencem e mãos à obra, Camaradas.


Publicado in “Rostos on line” – http://rostos.pt