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agosto 06, 2009

Memória XVI - Ai de quem



Sentado na varanda do seu desejo o poeta trabalha no poema. O mar em frente penetra-o pelo olhar. Ausente, vai modelando no seu íntimo a mais sublime peça poética que o mundo poderá saborear. As palavras saem do arquivo da memória, passam no coador do gosto, juntam-se na epiderme da sensibilidade, prontas quase à recusa ou ao conceito do conhecimento.

Já a este poeta foram tecidos nas praças das letras hagiografias intocáveis. É um homem de cultura e nome feitos. Fala-se dele nos jornais e outros meios de comunicação titulando-o de enorme, monstro das letras, talentoso, inspirado, um que sei mais de qualificativos em extremo. Quase se pode ficar esmagado debaixo do peso de tal fama.

Mas o nosso poeta gosta. E mais, pensa que é de menos. Considera como insuficiente a glória tida. Tal como o oceano, que o contempla, ele aspira à sem razão de medida. Um infinito será talvez suficiente, mas o grande que ele tem é ainda pequeno. Quer muito de mais. Por isto, ele se pende sobre o mar. Ele busca, ele constrói. Por isso, lentamente o seu poema toma forma, vai crescendo. E no mirar-se, fazendo-se poema, não pode ouvir, queixando-se solitária a mulher que quis ser a companheira e está sozinha, atrás do poeta, atrás do mar, muito aquém da varanda do desejo, onde se busca, onde se perde, onde a memória recusa qualquer coisa que não seja o poema em escrita.

O mundo rola. Na cidade perto do mar a vida das pessoas flui. É comummente atroz e agradável. Nas marítimas ruas dessa cidade perpassam gaivotas e aromas salinos entremeados de vozes. Um mundo de gente, de barcos, de irmãos e inimigos. Nesta cidade edifica-se a glória do poeta. São aquelas mãos dadas que o lêem , o fazem grande e o mitificam. Dele sabem apenas os seus versos. O poeta é uma forma de leitura. Do homem nada sabem. Por isso o idealizam puro como uma intenção, por isso ele se pensa plano e sereno tal uma grande planície levemente soprada pela brisa, onde toda a calma permanece estável há séculos sem conto.

De mansinho, como que estando numa igreja sem ninguém, os medrosos dedos tacteiam os ombros do poeta. Ele volta-se de rompão, desabrido. Malcriado grita à mulher a estupidez do momento em que lhe perturbou os sentidos quando a rede da sua imaginação, quase-quase, aprisionara a fúlgida borboleta da inspiração.



Perante o pavor expresso nos olhos da companheira ao aceitar, passiva, o sacrilégio cometido, cresce-lhe no peito o gozo do poder. Desencarnando um largo gesto, olímpico na fala, teatral no todo, berra desaustinado o manso poeta dos versos, tocantes e oficiais, para namorados de acordo com a ordem social vigente, aceite e recomendável. À companheira diz da grandeza de que está investido. Aumenta-se diminuindo-a. Ela, transida e crédula, sente a desgraça no olhar irado do deus.

Amachuca-se, pede perdão. O poeta-deus, terrível aponta no acusador índex, a saída do paraíso.

A mulher, derrotada, em vão implora a graça de um olhar, de uma palavra amiga, de um pouco da compreensão que ele esbanja por páginas e páginas de romances e poemas elevados à celebridade dos compêndios escolares. Nada demove a granítica vontade .A mulher desaparece da sua vida deixando o cenário do conto um pouco mais vazio.

Intemporal o poeta continua a criação do grande poema, do último, do definitivo. Com ele encerrará a sua obra e todas as outras obras ainda por escrever. Ele será o último e o único. Ele poema. Ele poeta.

Ao que parece, na cidade junto ao mar passou a fome, a guerra, a doença. Nada tocou o poeta. De nada se apercebeu. A sua obra enche-o por completo. É o trabalho mais importante do mundo. É a esperança de toda a gente. Ele dirá tudo, ele resolverá todos os problemas.

No princípio, tal como no fim, será o verbo...

Na varanda do seu desejo o poeta , contemplando o mar, envelheceu e morreu. O seu último poema, unanimemente considerado uma obra de génio, um programa de vida e o retrato daquele homem amável e humano, começava assim:

Ai de quem vive a vida instalado
na varanda do desejo virado ao mar ...

Ai de quem egoísta e santificado
não deu de si aos outros mais que simulação

Ai de quem Ai de quem Ai de quem
estragou a sua vida na contemplação ...




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julho 14, 2009

Adeus Amigo



(uma pequena lágrima por Palma Inácio)

A penúltima vez que estivemos juntos foi em 13 de Maio de 2000, quando um enorme grupo de amigos se juntou para te ver receber, das mãos de Manuel Alegre, a Grã Cruz da Ordem da Liberdade, que o Presidente Sampaio merecidamente te outorgou mas da qual não quis fazer-te entrega pessoal. Sei bem que a justificação dada era que se não encontrava disponível por afazeres fora de Lisboa. No entanto, ironia das coisas, quando com os meus amigos Roque Laia, Santos e Pimenta (que aqui, sem o seu consentimento, trago por testemunhas) saímos, por uns momentos, da estufa-fria para irmos a um café, ironia das ironias, fomos afavelmente cumprimentados pelo ilustre Presidente da República o qual, calmamente, se passeava na rua, a escassos metros do acontecimento, com o seu filho. Não é caso para admirar. Foste sempre necessário mas incómodo. Os teus métodos não seguiam a linha da hipocrisia dominante. Para ti a luta não ficava apenas pelas discussões de putativos direitos em intermináveis debates. Tal como Hoederer, nas Mãos Sujas, de Sartre, também tu sabias que a revolução não era uma festa de salão e estavas disposto a dar tudo, inclusive a vida, pela sua realização.

Foste sempre o herói trágico e incompreendido. Muitos se utilizaram dos teus feitos mas poucos te reconheceram oficialmente os méritos. Já depois do 25 de Abril, quando tantos serventuários do fascismo se passavam de campo e continuavam a ter, ou ganhavam novas sinecuras, tu, o herói apontado às massas e aos estrangeiros como exemplo romântico do revolucionário, passavas fome e vivias mais que modestamente, nada pedindo para ti, tentando sempre fazer avançar a revolução, o socialismo, a liberdade e a igualdade.

Sempre te reconheci amigo do teu amigo e agradecido pelo pouco de bem que te fizessem. Por isso continuamente honraste Mário Soares que sabias companheiro seguro dos dias maus. Muitos te recriminaram, por tal posição, dizendo que fazias concessões de direita. Eram pequenos moralistas de circunstância incapazes de reconhecer o teu valor humano e de compreenderem que, para ti, revolução sem sentimentos e dignidade não era revolução.

Sinto saudades de ti, hoje, 14 de Julho de 2009 porque amigos me telefonaram, comovidos, dizendo “morreu o Velho”. Para te designar não usávamos nem era preciso outras palavras. Nem chefe, nem presidente, caudilho ou secretário-geral. Era apenas, simples e totalmente, o Velho! E estava tudo dito!

Outros te farão panegíricos e darão da tua vida a conta mais ou menos correcta. Não é minha intenção - nesta hora em que medito sobre a morte de um amigo que nos deixou ainda mais pobre do que era quando nasceu e que bem poderia ser um dos poderosos deste país (e não só) - desfilar os êxitos e os sofrimentos do teu percurso vital. Quero apenas recordar-me da nossa convivência, dos acordos e desacordos, sempre fortes mas frontais, que tivemos e da idêntica vontade de construir um mundo onde a humanidade prevalecesse sobre todas as doutrinas e a vida de cada pessoa decorresse sem vénias necessárias a qualquer tipo de senhor.
Sei que todos os teus amigos hoje se vão sentir um pouco mais sós. Faz parte do luto! No entanto o que nos vais deixar é a tua crença e a perseverança que sempre mantiveste, ao longo da vida, mesmo nos momentos mais dolorosos e deprimentes. Espero que sejamos dignos de ti e que, quando soar a nossa hora, alguém possa de nós dizer o que aqui sobre ti afirmo ao mundo inteiro: Que os sinos dobrem sem rebuço. Hoje, morreu um Homem!

julho 01, 2009

nestas ruas o sentido




meu amor o desalento nestas ruas
é viagem perfeita de chegadas

toda a cidade nos envolve de sonhos
e promessas e angústias
portas ensombradas à espreita
das tuas pernas animais libertos
ao exterior das gentes

interiorizo enormemente esses momentos
plenos do sentido da passagem
e nos esquecimentos a mulher
é verdes penas sobre águas
nos dias invernais intranquilos
vaga consciência que adivinha
no rosto o passo solicitando o ventre

minha amada
são percursos do amor
o não chegar
quando a estrada
nos repudia os traços

tendo em conta a breve eternidade
que vamos obter
para nada caminho meu amor

alças a voz
arrebanhas o vento
e danças na música das algas
a tristeza semeada pelos muros

e no tempo de dizer-te meu amor
a voz vibra passado
sem timbre de futuro

junho 26, 2009

O que é isso da governabilidade?





Desde que Paulo Rangel venceu Sócrates nas Europeias, a Direita acordou! Mas despertou receosa de que, no próximo confronto, tal espavento não se repita e os partidos de esquerda voltem a somar a maioria absoluta dos votos expressos. Para que tal não aconteça é necessário agitar alguns papões ameaçadores .O bloco de direita – PSD, CDS a que , pelas suas recentes posições, é licito juntar o Presidente da República – está unido em torno de três ideias básicas as quais, sendo puros mitos, pretendem simular verdades absolutas: a da governabilidade, a da simultaneidade das eleições legislativas e autárquicas e a da economia por corte das grandes obras públicas.

A primeira questão é apresentada como se qualquer unidade pós-eleitoral só fosse possível à direita. Espera-se que o PSD ganhe as legislativas e componha a maioria com o CDS ou, cereja em cima do bolo, que o bloco central de interesses económicos venha a traduzir-se num bloco central da política unindo PSD e o PS. Por outro lado, na esquerda apenas pressentem impossibilidades. O PS nunca uniria esforços com o PCP e, muito menos ainda com, dizem eles, o imaturo Bloco de Esquerda. A pergunta a fazer-se é porquê? Que fatalidade genética dará aos partidos de direita maior capacidade ou apetência para a governação e as retira às esquerdas? Em que tratado de Política, ou de Biologia, tal se demonstra? Já se esqueceram de Durão Barroso, do seu pântano e do precipitado abandono do governo para rumar à sinecura europeia, deixando pendurados os portugueses, entre eles, oh! Ironia, a ministra Ferreira Leite mais o seu doloroso programa de emagrecimento da população? Já estamos esquecidos que as acções governativas da direita são aquelas que conduziram o mundo às guerras e a esta crise? Mais liberalismo sem freio? Mais mercado a dirigir os destinos do mundo sob a lenda da auto regulação, quando sabemos que o seu objectivo é sempre explorar, até ao limite e sem ética, todas as possibilidades? Esquecendo que o seu único objectivo é a máxima acumulação de riqueza, num exíguo número de empresas ou pessoas, e quando os limites são atingidos abandonando as populações empobrecidas aos problemas por eles criados na ânsia louca de um desmedido enriquecimento?

Temos de tornar claro que a acção comum das esquerda é uma possibilidade. Perante propostas e políticas concretas, que defendam as populações trabalhadoras, qualquer dos partidos de esquerda pode, e muitas vezes já foi feito, juntar as suas vozes e votos para tornar possível o melhoramento da vida da nossa gente.

A segunda ideia-força é a da simultaneidade das eleições. O grande argumento é a poupança feita se as eleições decorrerem no mesmo dia. Se os argumentos forem somente os de índole económica, na fronteira, chegaremos à denegação da democracia porque, aparentemente é mais cara que qualquer regime de quero, posso e mando. Na realidade apenas o PSD defende eleições simultâneas. Fá-lo, sejamos claros,porque lhes parecem ser mais favoráveis aos seus desígnios, porque pensa optimizar assim os seus resultados eleitorais. Todos os outros partidos preferem eleições desligadas. Será porque são mais perdulários que o PSD? Claro que não! Também aqui se joga o interesse próprio de cada partido. No entanto há algo mais a juntar a esta posição. Cada eleição tem a sua dignidade e o seu espaço próprio. Misturá-las, não sendo crime de lesa democracia, é sem dúvida subalternizar uma em relação à outra. Ora isto seria um mau serviço, a longo prazo, à democracia. Seria como cortar na comida e ficar admirado por se ter fome. Não me parece, à primeira vista, que devamos submeter-nos à ilusão económica prestando, nesse passo, um péssimo serviço à democracia.

Finalmente a grande preocupação com a dívida, resolúvel no corte dos investimentos com as obras públicas, faze-me lembrar lágrimas de crocodilo. Que é preocupante a subida do endividamento, claro que é! Todos o sabemos. Mas serão todas as dívidas iguais? O endividamento ao jogo é semelhante ao investimento numa máquina para produção? O que se deve discutir não é se vamos gastar muito dinheiro, mas sim o que poderemos ganhar com esse gasto. Desta discussão foge a direita preferindo a facilidade de um economicismo parvo. No entanto, sabemos que, caso ganhasse as eleições, algumas destas agora contestadas obras teriam que ser feitas. O aeroporto de Lisboa é um enorme risco. Tem-nos valido Nossa Senhora de Fátima ou dos aviões senão já uma aeronave se teria esmagado sobre o casario lisboeta. O aeroporto está cercado pela cidade e terá, inevitavelmente de ser mudado. Como está decidido ser em Alcochete, teriam de construir-se acessos e, lamentando ter de dar o braço a torcer, lá viria a direita dizer que afinal a ponte era necessária. Só que num outro local onde servisse melhor a sua clientela e não nestas zonas demasiado vermelhas para o seu requintado gosto. E o TGV? Claro, com o impulso que a direita, em boa hora eleita, daria ao mercado, seria necessário um meio de transporte expedito para que os homens de negócio pudessem, sem perdas de tempo, encontrar-se em qualquer ponto da Ibéria. Lá viria o comboio rápido solucionar parte do problema. Pareço demasiado cínico na minha exposição? Olhem que não! Na verdade esta súbita moderação da direita não é real. É meramente estratégica. Visa assustar para dominar. Afinal quem é que, em primeiro lugar, beneficia dos grandes empreendimentos senão as grandes empresas? E de quem são eles apoiantes? Do Bloco, não! Do PCP, tão pouco! Do PS, às vezes quando faz o jogo liberal. Do bloco de direita? Certamente e sem qualquer dúvida.

Então, sabendo isto, não nos deixemos embalar em cantos de sereia a vamos, frontalmente, recusar os receios que a direita tenta injectar na vontade dos portugueses e dizer claramente que a maioria é o povo e que o povo espera uma esquerda que não se traia nem o traia. Desta forma poderemos fazer frente à crise e ultrapassá-la em benefício dos que diariamente labutam com um mínimo de réditos.

Não podemos esperar que resolvam a crise aqueles que a criaram.


Publicado in “Rostos on line” – http://rostos.pt

junho 17, 2009

Memórias XV – Momento




Eu hoje vi o mar, não estava azul
era branco como o sol da manhãzinha
falavam-me as ondas por enigmas
e as vagas estendiam-se, estendiam-se…

Que faz andar as ondas, perguntei…
uma gaivota que voava contra o vento fechou as asas
e veio cair flecha ao pé de mim.

Eu vi que quem fez cair a gaivota, fazia mover o mar

Porém, não acredito num deus que tudo faz.
Se ele existisse a gaivota não morria
e porque havia ele de mexer o mar

o mar quando parado é um espelho
é assim que o sol gosta dele e no verão o quer queimar

Então o que faz mover as ondas? Outras ondas.
Que fez cair a gaivota? As asas.
Não há causa primeira. Só efeitos
das nossas causas.

É por isso que a saudade que tenho não é mística
é por isso que a dor que sentimos é só nossa
é por isso que o amor, para terceiros, é sempre estúpido
é por isso que as flores nascem de flores
é por isso que eu estou aqui e tu ali
é por isso, é por isso, é por isso
que não descubro o princípio nem o fim.



Algarve, Fevereiro, 1966

junho 08, 2009

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Há, na história, momentos cruciais que prenunciam mudanças até aí pouco discerníveis. Há também desenvolvimentos irónicos só entendíveis na invenção de um deus perverso entretido a baralhar os juízos dos homens ou, mais na teoria do Caos, se compreendermos que efeitos inesperados eram perfeitamente previsíveis e fatais, só não sendo apercebidos como tais por não conseguirmos apreender todas as diversas e subtis causalidades as quais, somadas, os tornaram inevitáveis.

Estas eleições europeias serão, possivelmente e a meu ver, um desses inopinados fenómenos.

Os partidos socialistas no poder, todos enfeudados, contranatura, à defesa e execução de modelos de governação neoliberal, foram castigados pelo seu desvio direitista. Os eleitores socialistas não votaram neles porque não se reconhecem nestas políticas, os liberais, sentindo-os estranhos e de pouca confiança, agradecendo o serviço prestado, preferiram voltar aos partidos que melhor e mais abertamente defendem o seu ideário. Deste modo, apesar das sucessivas mentiras e traições os socialistas neoliberais, no primeiro momento de tira-teimas, encontraram-se em terra de ninguém e com as hostes, que consideravam conquistadas, a dizerem-lhes claramente que ninguém confia em vira-casacas ideológicos.

Foi o que se viu por essa Europa fora acrescentado do quanto de desprezo, na recusa de comparência às urna, de parte significativa da população. Temos portanto os governos socialistas a pagar o preço da crise alimentada pelos neoliberais e estes, alterando agora o discurso, prometem uma regulação que não pensam implementar, aparecendo como a esperança de mudança de paradigma. Ironia das ironias espera-se que os responsáveis pela crise nos venham salvar dessa mesma crise. Ou dito de outra maneira, como se o ingénuo cordeiro fosse à toca do leão pedir-lhe protecção para os ataques desse mesmo leão.

Postos estes prolegómenos olhemos para Portugal.

De parabéns está Paulo Rangel porque, abandonado pelo baronato do partido, se bateu sozinho e com coragem, conseguindo um resultado que é, só por si, um sério aviso a Sócrates e à sua governação. O PSD, no geral, recebeu um brinde que se calhar não mereceria e que penso, será de mais difícil repetição nas Legislativas. Não duvidando que boa parte das deslocações de votos foram acções de protesto contra o Governo, é incerto que, num mano-a-mano entre Ferreira Leite e Sócrates, aquela possa levar a melhor. É que, para além do seu parco envolvimento emotivo com os eleitores também ela tem, desde o seu ministério das finanças, telhados de vidro. O resultado obtido por Rangel não será facilmente transferível para o partido no terreno das legislativas.

Por outro lado, e lá vão contas de merceeiro, a esquerda sociológica é ainda claramente maioritária. Somando canhestramente os votos do PS, Bloco e PCP, andaremos pelos 49% dos votos expressos. Seria confortável maioria se a palavra esquerda tivesse validade intrínseca e não escondesse rivalidades assassinas. Serve aqui, como reflexão, o processo exemplar que decorre, desde há dez anos, no Bloco de Esquerda. Ultrapassando as desinteligências graves que dividiam vários grupos, ditos de esquerda radical, foi possível construir uma plataforma de entendimento, através de programas e acções comuns, privilegiando o que une e ultrapassando o que separa. A pergunta que me faço é a de saber se o mesmo será possível fazer com esta agregação meramente sociológica que são os partidos do povo de esquerda?

Os tempos que aí vêm não vão ser fáceis. O brilho destas vitórias eleitorais cedo se embaciará frente às dificuldades a que iremos ser sujeitos. O tempo das facilidades – para nós recentes e breves – acabou. A globalização, que num primeiro momento acrescentou riquezas às sociedades desenvolvidas, está agora a reclamar o pagamento das facturas. Uma cada vez maior parte da população mundial, até há pouco afastada das benesses e malefícios do consumo exige, agora e com veemência, a sua quota-parte do bolo. Só que o bolo, ao ser dividido por mais gente, será não só escasso, como as suas fatias terão de ser, necessariamente, bem menores. As sociedades ocidentais não sabem conviver com isto. Inventaram a social-democracia quando era fácil transferir a exploração proletária da sua população para as colónias e ex-colónias. Acabada a mama os malefícios do desemprego, pobreza e doença espreitam novamente à porta daqueles que já se desabituaram de tais coisas e as vêm aparecer de novo como ameaça constante e inultrapassável. Para estes males não há soluções no “mercado livre” que os alimenta. Este procura apenas a maximização dos lucros e não tem preocupações humanitárias. Para ele o homem é mero factor económico e não a razão de ser da economia. Trocaram os factores da equação e a resposta só pode estar errada. Cabe às esquerdas a correcção deste estado anómalo de coisas. Mas para isso terá que encontrar-se no terreno da união, com a generosidade de tentar perceber o projecto do outro e a inteligência de ser capaz de se adaptar a uma causa comum para benefício de todos. É necessário perceber que a razão não está toda no mesmo sítio e que é essencial conseguir ceder para, em conjunto, se poder avançar. Olhando para o estado das coisas não creio que tal possa ser já uma conquista ou uma consequência destas eleições ou do que elas prenunciam. Tenho pena que ainda se vão queimar inutilmente muitas ilusões e energias antes de podermos congregar esforços para a prossecução de um mundo onde a pobreza seja erradicada e a condição humana atinja a dignidade que lhe cabe. Sei, no entanto, que esse é o caminho e para ele laborarei. Um dia, os homens de boa vontade, deixarão as divisões inconsequentes e unir-se-ão para o que é primordial e importante. Assim o espero, assim o quero e para tal trabalharei sabendo que não estou isolado nos meus esforços. Se alcançarmos estes desígnios os nossos filhos poderão crescer em paz. Caso contrário talvez eles não possam conhecer os seus netos.




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junho 02, 2009

Borradas judiciais





1 - Declaração de interesses

Como foi noticiado na imprensa local integro as listas do Bloco de Esquerda para as eleições autárquicas. Este facto coloca-me um problema de princípios sobre a circunstância de, sendo candidato, dever, ou não, suspender a minha colaboração temporariamente neste Jornal. Consultado o travesseiro, como é costume dizer-se, cheguei à conclusão que, alertados os leitores para o facto, conscientes da declaração de interesses, nada obstaria à continuidade da minha colaboração neste órgão informativo. Na verdade a crónica nada mais é que o exercício opinativo abordado através dos factos quotidianos ou da defesa de valores e crenças. Assim ela é por natureza e sempre um acto político por excelência.

Pesados estes critérios, não havendo nada em contrário por parte da direcção do Rostos, manterei a minha presença, acrescentando na assinatura as condições de militante e candidato pelo Bloco de Esquerda. Ficarão assim ressalvados, em meu critério, os pressupostos éticos que devem presidir à relação entre escritor e leitores.

2 – As borradas

Esmeralda, Alexandra e tantos mais casos e pessoas que não chegaram às luzes da ribalta desesperam-nos em relação ao aparelho judicativo do País. Somos um país legislativo, dificilmente um estado de direito. A justiça cara e tardia, decisões socialmente chocantes, o poder possivelmente excessivo do corpo judicial, fazem parte do descontentamento das nossas vidas.

Qualquer forma de poder, em democracia, exige de quem o receba imenso cuidado na sua utilização. Responsabilidade e humildade na execução legitimam o seu possuidor e conferem dignidade a quem, parcimoniosamente, o exerce. A arrogância e a prepotência são a outra, negativa, face do poder.

Por questões históricas e sociais há muita arrogância a impregnar o tecido judicial. Daí à decisão injusta ou desfasada da realidade é um pequeno passo que é, por demais, dado sem maior reflexão sobre os efeitos latentes da mesma.

Para ilustrar estas afirmações não resisto a contar um caso antigo, para o qual me foi pedida fundamentação antropológica, de atribuição de poder paternal.

Um casal com um bebé de cerca de um ano divorciou-se. Na divisão de bens, como era costume, concordaram na atribuição da casa à mãe factor correlato com a responsabilidade parental directa que lhe fora consignada. Só que a mãe não correspondeu às exigências inerentes. Começou por deixar o filho sozinho durante a noite e, conhecido o facto, chamada a atenção, passou a largar o filho em casa da avó paterna. Inicialmente apenas nas noites em que decidia ir divertir-se, posteriormente acrescentou os fins-de-semana e, finalmente, passando semanas inteiras em que nem sequer ia saber como estava o bebé. Entretanto, o pai que era militar, vivia nos quartéis onde prestava serviço, não podendo ter consigo um filho de tão tenra idade. Mas, para a mãe, não havia qualquer problema. Tudo corria sobre rodas.

Ia o bebé pelos seus dois anos e meio quando o pai, casando em segundas núpcias, achou-se com capacidades para dar de novo um lar ao seu filho. Muito embora o pequeno continuasse a viver, habitualmente, em casa da avó paterna, sendo respeitador da lei, pediu a revisão, em sede própria, da atribuição do poder paternal. O caso, que parecia de fácil resolução, dado o abandono a que a mãe sempre votara a criança, arrastou-se uns quatro anos pelo tribunal. Continuando ela, como se provou, a ser negligente em relação à criança, possivelmente como vingança pelo facto de o pai se ter casado novamente, retirou o seu filho de casa da avó, começando a sonegar as visitas da criança à nova família. Como consequência, ainda, da existência um tanto ou quanto desregrada perdeu a mãe o emprego e da pensão reforçada, dada pelo pai, para manutenção do filho saía parte substancial para sustento da sua vida social com prejuízo das condições de manutenção do bebé. Aviltando ainda mais a situação desta mulher acresceu a remessa para tribunal de casos de cheques sem cobertura – na altura considerados crime – bem como uma pendência qualquer, com a então Policia de Viação e Trânsito, por ilegalidade cometida. Apurou-se também que estava em vias de emigração.

Esta possibilidade levou a que o pai aumentasse a pressão sobre o tribunal. Um dia lá chegou o julgamento e tudo quanto foi dito sobre o comportamento negligente e culposo da mãe foi provado. Assim como a possível deslocação para o estrangeiro. O libelo produzido pela Juíza do caso era terrível para a mãe. Reconhecia tudo. Havia indignidade no seu comportamento, não merecia credibilidade, não obedecia às ordens emanadas pelo tribunal, por isso – quando todos pensávamos que iria ter a devida sanção - o poder parental continuaria a ser-lhe garantido!

Pasmei e aquele pai nunca mais viu o seu filho!

Este caso foi aqui trazido por me parecer bem paradigmático de uma certa forma de fazer justiça. Poderia chamar-lhe a decisão “by the book”. Isto é, a simples colagem à letra da lei, sem que haja capacidade de perceber que em casos de consequências sociais como estes, a decisão sábia será mais baseada na sociologia que no estrito cumprimento do enunciado legal. Não são simples as questões da parentalidade nem o laço biológico será sempre o mais importante critério a avaliar. A consanguinidade não é tudo. Os laços socioafectivos são, muitas vezes, bem mais importantes que os genéticos. As questões de progenitura foram importantes para as sucessões dinásticas e outras. Fazem parte de uma mitologia do sangue que a ciência hoje já não pode assumir de forma tão primária. A parentalidade é uma criação derivada do social e que só nas interligações criadas se consubstancia. Mas para efectivar esta atitude na Justiça é necessário uma outra forma de preparação, um outro entendimento da vida e das consequências de determinadas deliberações, para as quais, que me perdoem aqueles que não cabem nesta descrição, a maior parte dos nossos juízes não está preparada.

Precisamos de outra justiça. Fazem falta novos juízes! Não é possível continuar, tantas vezes, a borrar-se, desta maneira, a escrita.



Publicado in “Rostos on line” – http://rostos.pt

maio 26, 2009

ela de coração parado




à memória de elis regina


é sempre assim que chegam as notícias
repentinas absurdas e brutais
tudo fica parado como cartaz
em muro de silêncio
gentes isolando mágoas
em fundo de ruídos de atabaques

todos iremos um dia a esse encontro
como tu foste inesperada e breve
apartando olhos em colares nocturnos
tecidos da morte de cada um de nós

preciso agora da dureza das palavras
para enfrentar o momento aguçar a pedra
e profanar a alma desse deus de impudica grandeza
firmada sobre o inútil de sentirmos
como se morre na lentidão dos dias
sempre mais incompletos e sós

acredite-se embora que na morte
continue a vida de outro modo
não se percebe porque se cala a voz
e o esquecimento e instala
amarelecendo imagens vivas e reais

borboletas de sombras em mar esmaecido
ou comprido nevoeiro que se adensa
a minha mágoa é mão que arrefece
na janela do comboio perante a noite

canto na ribalta a decepção
da hora em que se cai sobre a notícia
de um corpo abandonado

que desse desejar animador da voz resta ela
de coração parado

maio 06, 2009

Bem prega Frei Tomás…




Não se pode queixar o cronista de falta de material imprevisto e saboroso. Ele há-o para todos os gostos e em tanta abundância que o desesperante é a escolha de sobre qual nos debruçarmos. Assim, do caudal dos últimos dias, escolhi dois casos que, por facilidade de discurso, tratarei na ordem inversa da sua cronologia.

Começarei pelo incidente acontecido, na manifestação do 1º de Maio, a Vital Moreira. Resumindo: o candidato do PS às Europeias, juntamente com a comitiva socialista, apresentou-se na manifestação convocada pela CGTP para, além da comemoração do evento, protestar contras as políticas sociais do Governo, amplamente defendidas, na comunicação social, pelo candidato.

Se é incontestável o direito de qualquer cidadão participar em algum acto de cariz público já se percebe menos bem, porque carga de água, haveria Vital Moreira de, contrariando todo o seu historial, aparecer, inesperadamente, numa festa a que, por norma, nunca comparecia. A explicação que de imediato surge era a de, sendo ano de eleições e estando ele interessado em captar votos, encontraria alguma utilidade em mostrar-se num movimento de massas. É porém lícito perguntarmo-nos se seria aquele local o ideal para conseguir captar alguns votantes para a sua causa. Só com muita ingenuidade esta pergunta poderia ter uma resposta positiva.

Então o que o faria correr para um acto onde seguramente saberia não ser bem-vindo?

Seria tão-somente a firme vontade de exigir o cumprimento de um direito democrático? Poderia bem tratar-se disso não se desse o caso insólito de a vontade lutadora só lhe ter chegado neste ano e de, confrontado com a indesculpável hostilidade de uns poucos, lançar, como se disso estivesse já à espera, ser aquela a sua Marinha Grande. Sabendo nós todos como o incidente da Marinha Grande foi importante para a viragem nos maus resultados até ali obtidos por Mário Soares, sabendo também como a campanha não vai alegre para Vital Moreira, instala-se por demais a desconfiança que o escarcéu seria o verdadeiro motivo da presença do apagado candidato às Europeias. Sem entrar em teorias da conspiração, nem fazendo gala de tentativas de cabalas negras, a verdade é que se seria de esperar uma reacção enérgica à situação criada. Só que a reacção foi muito maior e alargada, passando o incidente com manifestantes a ser móbil para exigir um pedido formal de desculpas por parte do PCP.

Aqui me espanto eu!

Mas porquê do PCP? A organização do evento não era da responsabilidade da CGTP? E mesmo que os desordeiros fossem militantes do PCP teria ele de arcar com a responsabilidade do gesto de alguns energúmenos, por acaso putativos militantes desse partido? Então, quando em Felgueiras militantes do Partido Socialista agrediram dirigentes do mesmo partido ter-se-ia de meter no mesmo saco – porque eram militantes – agredidos e agressores? E porque alguns militantes do PS possam vir a ser acusados de corrupção entende-se que todo o partido é corrupto? Um pouco de seriedade e comedimentos é o que se pede meus senhores. É sempre a extensão abusiva do acto individual ao colectivo que fundamenta o aparecimento de teorias racistas e autoritárias.

Por outro lado o facto de possuirmos um direito exime-nos de ponderar quando, onde e em que casos o deveremos exercer? Sabendo embora que é a sua utilização que funda o direito possuído, não será que qualquer pessoa com um mínimo de racionalidade procurará, se tal for possível, não tornar o seu exercício num acto agressivo?

Exemplifico:

Durante muitos anos fui simultaneamente associado de um sindicato e membro de conselhos de administração de empresas onde trabalhei. Como sempre entendi que a minha profissão era a que me levara a entrar nas empresas e que a eleição para a administração era uma mera comissão de serviços, mantive-me sempre como sócio do sindicato. Esta situação permitia-me, de direito próprio, estar presente nos plenários de trabalhadores convocados pelo sindicato. No entanto, nunca pretendi exercer esse direito, por achar que era abusivo em relação aos direitos dos restantes trabalhadores, e só fui a reuniões, quando directamente convidado e apenas permanecia nelas enquanto o assunto que ali me levara era tratado. Geri, durante muito tempo esta situação esquizofrénica e, por mais difícil e delicada que fosse, sempre cumpri todas as minhas obrigações e nunca fui desrespeitado em nenhum plenário e por nenhum trabalhador.

Quanto a mim, se não houve premeditação táctica no assunto, foi aqui que Vital falhou. Fez prevalecer o seu direito de presença acima de uma ausência ética. Foi a uma festa para a qual não tinha sido convidado e, por estar de relações tensas com os anfitriões seria fácil prever que a sua presença não seria bem aceite. Não sendo diminuído mental e consciente da situação deixa antever que procurou o que encontrou e que se serviu disso para poder marcar algum relevo político no plaino da sua campanha. Pecou por excesso de utilização de direito e míngua de bom senso e respeito por si próprio.

Ainda por ética e mudando de roteiro, vejo-me forçado a escrever sobre um outro assunto que me dói na alma.

Estou estupefacto e não consigo compreender como o meu partido, o Bloco de Esquerda, aceitou votar favoravelmente a nova lei de financiamento dos partidos. Se a lei anterior era iníqua – estruturada para garrotar economicamente o PCP, não permitindo alocar os lucros da festa do Avante – não é apadrinhando uma outra que permite multiplicar por cinquenta e cinco vezes o valor possível de receber, nos partidos, em dinheiro corrente, que se corrige um erro particular. Choca-me aliás a hipocrisia declarada de partidos de direita justificarem a sua aprovação com a resolução do problema financeiro do PCP. Que amigos eles são!

Então, que é feito da exigência de transparência? Da honestidade e declaração de interesses? Do evitamento de prestações monetárias com posteriores exigências, nunca declaradas, de favores políticos? Podemos exigir isto para os outros sem primeiro darmos o exemplo? Temos a trave no olho e preocupamo-nos com o argueiro no olho do vizinho? Não será que o nível de exigência que eu posso ter com os outros só se justificará na medida em que seja, no mínimo, equiparável àquele a que me obrigo?

Em nome da coerência e da possibilidade de continuarmos a defender a via da transparência e da moral expliquem-me e ajudem-me a encarar aqueles que hoje me olham sardónicos e atiram à queima-roupa “ bem prega Frei Tomás”.


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abril 23, 2009

desdémona alabastrina







para otelo saraiva de carvalho


I

desdémona jaz
nos teus braços meu
capitão de mais quentes
marés
ou praias de outros tempos

rodeiam-te enclavinhadas piranhas

em excessivo gesto de amor
as mãos torneiam a ingénua humidade da vida
pérolas de dedos enegrecidos
no jeito de calar

tudo se fazia à escala espontânea de outros rios
cheirava o novo verde até às margens
incómodos cavalos no viço dos tempos
em que tudo era redondo e levado no alcantil dos dias
e o corpo
ruído transitório no vento magoado
era sombra de domingo no frágil dos ombros

olha de novo

II

desdémona jaz

esquecida a invenção do protesto
deixa que o olhar só por si se sobrenade
até ao limiar das mãos

agora

sob a soleira do tempo repousa no prumo do leito
descreve o estático espaço entre grades de olhar

que portos tocas
que estonteantes claridades acusas
na procura lancinante dos inícios

quem as mãos te conduziu é que te acusa

aí estás desdémona de ti todo
onde te colocaram com a memória dos sentimentos
por estrear

braveza de tempestade nos trânsitos do espaço
como falar-te de gaivotas quando um corpo jaz
e tu olhas o espelho das mãos distanciadas e breves
onde te perguntas
há coisa mais terrível que olhar por sobre um rio

III

uma imagem percorre o clarão do raio
a cidade adormecida espera a quietude dos grandes temporais

olha a asa que voa
vê essa asa parada
avé ave asa ave

e que nos salve
e que nos salve

abril 17, 2009

UMA QUESTÃO MUITO SIMPLES




Indubitavelmente uma das teses que levaram Obama à vitória foi a sua firme oposição à política belicista da administração Bush. Se não tivermos a memória curta lembraremos ainda as ferozes intenções dos neo-cons que levaram a um cozinhado de falsidades tendentes a proporcionar não só a invasão do Iraque, como pretendendo ainda obter uma monstruosa autorização para declarar “guerras preventivas”, em qualquer ponto do mundo, bastando para tanto que o Império sonhasse haver nesses países armas de destruição massiva ou ideias que não agradassem aos ditadores, em potência, do mundo dito democrático. Recordemos, também, que um dos principais actos da invenção da guerra se passou nos Açores, com o apoio basbaque e oportunista de Durão Barroso, ali catapultado para a Presidência da Comissão Europeia, com o concomitante abandono do governo da República nos braços, linfáticos e tragicómicos, do menino-guerreiro.

O repúdio dos povos do mundo obstou, de certo modo, ao avanço rápido que se pretendia de tais idiotices e, a ganância levada à solta dos próceres desta sociedade agónica, precipitou a anunciada queda deste iníquo sistema. Obama veio a tempo, com o discurso certo, com a dose de esperança suficiente para iluminar um novo caminho. No entanto, como muitos analistas já salientaram, os neoconservadores liberais não entregaram ainda os pontos. É que, apesar da catástrofe em que precipitaram o mundo, ainda têm muitos e largos interesses a defender e bastantes aliados ocultos em florestas de boas intenções. O seu descaramento é crónico e total, apenas comparável à ambição e desprezo, sem limites, pelos outros. Veja-se de passagem o desplante com que gestores de grandes empresas em risco de falência foram pedir, a Obama e ao Congresso, fundos para salvar as empresas, deslocando-se em jactos particulares; como muitos dos milhões investidos foram, prontamente, desviados para pagamentos pessoais e interesses individuais, contrários ao desenvolvimento harmónico dessas mesmas empresas em regime de forte descapitalização.

Aguardava-se que o percurso de Obama não fosse simples e esperávamos que muitos alçapões se abrissem no seu caminho. Em nome da esperança do mundo confiamos que ele os distinga e os ultrapassasse. De facto, na maioria dos casos, não nos tem desiludido. No entanto, sabíamos que a questão da guerra seria o mais difícil teste por que teria de passar. As suas declarações foram no sentido de terminar a Guerra do Iraque, tornada incomportável em termos económicos e sociais, e investir mais força no Afeganistão, guerra que, dada a sua origem e forma de declaração, assume um carácter menos pernicioso para a maior parte das opiniões públicas. Assim, anunciou a retirada gradual do Iraque – numa pequena e primeira cedência ao programa enunciado – e declarou o reforço às tropas do Afeganistão. De facto, fez retirar doze mil soldados do Iraque, e mandou já dezassete mil para o Afeganistão. Feitas as contas, em vez de diminuir o esforço de guerra está, nitidamente, a aumentá-lo. Este caminho poderá mete-lo num beco sem saída, sobretudo se continuar com a intenção de “vencer a guerra no Afeganistão”. Esta é uma miragem perigosa, remanescente do pensamento bélico neo-com, assente numa ideologia de justiça vingativa sobre os acontecimentos do onze de Setembro. Se ninguém com um ínfimo de sentimentos pode deixar de recusar a condenação para quem delineou e executou tão míseros atentados, penso ter chegado o momento de proceder a uma reflexão mais profunda sobre as razões da guerra e da sua manutenção.

Com o ataque às torres gémeas saltou para o mundo o nome de Ben Laden. Até aí seria um perfeito desconhecido para a maior parte dos viventes. A partir dessa acção o seu nome passou a ser sinónimo de arqui-inimigo da humanidade. Entende-se a comoção e, até se percebe que estando ele no Afeganistão, sob a protecção declarada do regime talibã, fossem os mesmos, ao recusar a sua entrega, atacados pela potência ofendida. O mundo percebeu estas razões - ao contrário do que viria a acontecer no Iraque - apoiou e acompanhou activamente o esforço de guerra, quer na economia, quer no próprio teatro de operações. Os anos passaram! Não se capturou Ben Laden. A vitória militar conseguida então está, muito rapidamente, a transformar-se não só numa derrota local, como a assombrar o mundo com o risco de que o Paquistão, potência nuclear, entre em rota de dilaceração social, deixando nas mãos de párias e aventureiros uma verdadeira força nuclear. É um risco demasiado grande para ser corrido.

No entanto, ninguém ainda explicou a Obama uma questão muito simples: não se ganha militarmente uma luta de guerrilhas, muito menos num terreno como o do Afeganistão. Pela simples razão de que eles estão lá, são a população ou pelo menos uma boa parte dela. Os outros deslocam-se para lá com todos os custos sociais, pessoais, emocionais e económicos que tal comporta. Além disso, os americanos aprenderam-no certamente no Iraque, nenhum ocupante é percebido como libertador. Será sempre, por melhor que sejam as suas intenções, unicamente um opressor. A América deveria recordar-se do Vietname, do Afeganistão da ainda União Soviética, das guerras coloniais portuguesas. As armas apenas podem conceder um tempo para se prepararem soluções políticas. Nada mais! Se Obama insistir em ganhar uma guerra que nunca poderá ganhar perderá, não só a guerra, como as esperanças depositadas nele e no seu mandato. Terá que perceber que o seu interesse e o das nações não é compatível com o do lóbi industrial-militar dominante no seu país e que não é lícito impor formas de vida e valores sociais ou religiosos - porque os consideramos superiores, melhores ou mais evoluídos - a ninguém. Cada nação deverá viver com os seus valores e com os valores que, induzidos embora, venha a aceitar como bons para, voluntariamente, incorporar na sua vivência. A democracia servida na ponta das armas é pura ditadura cultural. Nunca levará a mais nada do que à revolta daqueles que, presumivelmente, pretenderia libertar.

É finalmente uma questão muito simples, mas essencial, a que se põe de imediato a Obama sendo definidora de todo o seu mandato. Ou pretende vencer militarmente a guerra e está, de antemão e a prazo, condenado ao fracasso interno e externo, ou entende que os povos devem viver e evoluir dentro das suas culturas próprias e em livre intercâmbio e integração com as outras culturas, podendo marcar o início de uma nova era, ideológica e económica, para todo o mundo, evitando os armagedões que se acumulam no horizonte. É uma tarefa hercúlea mas absolutamente necessária para não nos tornarmos, também, uma espécie em vias de extinção.



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abril 10, 2009

O erro (de) Vital




O PS de Sócrates tem pela frente, a nível nacional, um problema muito complexo. Mal comparadas as coisas é como o mistério da Santíssima Trindade. O três que é um! Só que aqui o Pai, o Filho e o Espírito Santo que encarnam um só Deus, é substituído pelas eleições europeias, legislativas e autárquicas, que sendo três, só uma transparecem. Isto porque por mais que a direcção do PS queira, por motivos de crise e feição de governar, elas se tornam todas em uma única e continuada forma de avaliação do governo. Não é má ironia para quem tanto defende as avaliações a qualquer preço. Como diz o outro, pela boca morre o peixe e, desta forma, um problema político pode transforma-se numa peroração teológica.

Apertado, agora, pela sua colagem ante-crise ao neoliberalismo, vê-se Sócrates na obrigação de contrapor, à efectiva prática de direita, um discurso de esquerda. Choca –se, no entanto, com a constatação diária das malfeitorias perpretadas contra as classes médias nacionais, com os apoios desmedidos ao capital e com a tremenda alergia a legislar contra a corrupção e o enriquecimento ilícito. Sabe Deus porquê!

Para tornar mais credível a vã retórica esquerdizante, também para tentar separar as eleições europeias das legislativas, procurou um cabeça de lista, parecido independente, que apresentasse algumas credenciais de esquerda. Na limitada visão do mundo em que circula ninguém lhe pareceu mais adequado que o constitucionalista Vital Moreira. E sê-lo-ia não fora o caso deste insigne Doutor ter, de há muito, iniciado um desvio de direita por colagem excessiva ao Governo Sócrates, em tudo quanto é texto publicado e posição assumida. Que o senhor tem todo o direito de escolher as companhias que prefere é coisa que não se discute. Já a sua representação do real cabe inteiramente na nossa crítica e avaliação. O que vem ressaltando dos seus posicionamentos é um comportamento de barata entontecida na tentativa de se colar na órbita de um governo absolutamente desorbitado. Do Vital Moreira atentamente escutado por tudo quanto de esquerda se assumia, já nada resta e por tal, esta escolha revela-se um erro Vital para o PS.

Mas também é um erro Vital de Moreira.

De tal forma isto é assim que, na esteira de uma intervenção de Mário Soares, criticando o apoio do PS a Durão Barroso para a reeleição ao parlamento Europeu, logo Vital Moreira, vem a terreiro defender que os Partidos Socialista Europeus deveriam apoiar um candidato próprio. Elementar meu caro Watson, dirá qualquer pessoa. Pensou-o e disse-o Moreira. Só que não compreendeu que o PS de Sócrates circula nas mesmas linhas de pensamento político do trânsfuga Durão “malgré lui”. Como muito bem tem sido apontado ele é o único que resta da fotografia dos Açores. Todos os outros foram já corridos da área do poder marcados que estão pela guerra e pela crise. O erro deste PS é não perceber que quem patrocinou tão fortemente a política Bush, por mais golpes de rins que dê, não poderá oferecer confiança a quem apoia o seu inverso, isto é, a visão Obama do mundo.

Entalado entre as suas contradições Sócrates tem de vir reafirmar o apoio “patriótico” a Barroso acelerando os movimentos paroxísticos da barata que já não sabe se há-de fingir de morta, levantar voo e partir, acabando, no entanto, para maior descrédito, por dar o dito por não dito. Mais um erro de Vital Moreira, obrigado a “explicar” que o que disse sobre apoio a um candidato próprio queria dizer o contrário daquilo que disse. Estão a ver a embrulhada? O descrédito e a gargalhada? Pois é assim mesmo que vai a candidatura independente às europeias com a imagem inquieta de um candidato tão dependente que terá sempre, antes de falar, que ir ouvir o que há-de dizer ou, caso tal as pressas não permitam, trazer no bolso o seu discurso e o contrário.

Enfim, servidões de quem serve o poder.

Se olharmos para as autárquicas, mesmo não havendo nelas, um erro Vital, também, para mal dos resultados PS, a maldição do Governo vai estar patente e com efeitos perceptíveis. Se em condições normais o PS tem nestas eleições uma forte pressão PSD, este ano ela será mais forte e acrescentada pela erosão, na sua franja esquerda, causada pelo efeitos desastrosos da política governamental nas condições de vida das populações. A perda de poder de compra, de condições de saúde, habitação e reformas e os ataques destemperados aos professores, entre muitas outras coisas, criaram um sedimento de má vontade eleitoral, mesmo dentro do partido. Não sei como poderá Sócrates ultrapassar o inferno que criou, mas creio bem, para melhoria de todos nós, que ele irá sair muito chamuscado nestas eleições.
Assim o creio e assim, firmemente, o espero.


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abril 01, 2009

O voo do milhafre





No verão, quando o calor tórrido do Alentejo amodorra corpos e almas, no cimo do céu, pairando com olhar penetrante, o milhafre observa a terra em baixo. Perscruta qualquer movimento. Quando o detecta, fecha as asas e, como bólide, cai sobre o alvo. É assim que a proliferação de roedores é mantida em níveis aceitáveis. Sem a vigilância destas aves, os cereais seriam destruídos e a fome espalhar-se-ia pela terra. Também, na sociedade, hoje é necessário que os milhafres voem e destruam os roazes minadores do campo do poder, ameaçadores de destruição de tudo quanto são valores e ética, substituídos pelo xico-espertimo mais soez.

Cá vai este voo do meu milhafre!


1 – O nosso primeiro-ministro bem podia empandeirar alguns dos seus amigos, ou sequazes, ou seguidores. A sua companhia não lhe faz lá muito bem e potenciam os mais negativos traços da sua personalidade. Mal tapados ainda, num limbo de não esclarecimento, casos como os do diploma, das casas e do relatório sobre educação, surgem agora notícias alarmantes de pressões sobre o Ministério Público para proceder ao arquivamento do processo Freeport. Se alguma coisa pudesse prejudicar ainda mais o perfil de José Sócrates, seria juntar mais um “arquivanço” - e em caso de tamanha importância – às conspícuas ocultações já acontecidas nos casos acima lembrados. Amigo que queira favorecer o seu senhor de tal maneira, presta-lhe um muito mau serviço, contribuindo apenas para aumentar o lamaçal das coisas por esclarecer. Vale a pena relembrar o rifão “com amigos destes não precisa de inimigos”.

Se alguma coisa pode sair de são neste negócio malcheiroso é o apuramento objectivo da verdade dos acontecimentos. Sócrates só poderá livrar-se de mais este labéu de desconfiança, vindo a terreiro desautorizar tais amigos, exigindo o aprofundamento e esclarecimento pleno da ocorrência e do papel de cada autor no desenvolvimento desta tragicomédia. Caso contrário a imagem do primeiro-ministro ficará indelevelmente manchada pela desconfiança, com resultados possivelmente calamitosos na sua carreira política e, para o PS, no desfecho das próximas eleições.

2 – O Bispo de Viseu está em rota de colisão com a sua hierarquia, desde o colégio de bispos até à Santa Sé. Primeiro foi a correcção pertinente que ousou fazer às tristes palavras de Bento XVI quando, nos Camarões, teve a infeliz ideia de perorar sobre o preservativo e a Sida. Sempre me espantou como é que um grupo de assumidos celibatários constantemente se achou com conhecimentos e direito de opinar, de cátedra, em relação a coisas que, presumivelmente, não têm qualquer experiência: sexo e família. Fico sempre com a sensação de que ou são fala-barato ou nos andam a enganar há muito tempo. De qualquer modo, tendo em conta declarações do sibilante cardeal da congregação dos santos, Saraiva Martins, a rolha já foi imposta, a toda a igreja, com um autoritário “chega de pareceres”. Lá me vem à memória, não sei porquê, com um cheirinho a fogueiras, Giordano Bruno e Galileo.
É melhor deixar que os africanos morram com sida que controverter os dizeres papais. Pois que representa a morte de alguns milhares de desconhecidos contra a defesa intransigente da doutrina do papa que, como sabemos, em matéria de fé faz lei e nunca se engana.

Nem com Darwin!

No entanto o Bispo que se precate. A juntar à heresia da camisinha arriscou-se a defender o divórcio em caso de violência doméstica. Tem a minha admiração mas penso que não lhe vai servir de nada face ao ostracismo a que está a sujeitar-se. Nestas coisas a igreja é mais madrasta do que mãe e exige o cego princípio da obediência em qualquer situação e contra qualquer racionalidade.

3 – O que poderia ser surpreendente, mas infelizmente já não é tal, é a nomeação para uma empresa intermunicipal, de um senhor Domingos Névoa, conhecido gestor da Bragaparques, condenado por tentativa de corrupção do Vereador Sá Fernandes. É o regime de fartar vilanagem. Tudo é permitido desde que traga enriquecimento, mesmo que sem fímbria de honestidade. Fala-nos da sua aceitação a pequena multa a que foi sujeito e a falta de moral que é esta escolha. Não há nos negócios gente decente? É evidente que há, mas são preteridos e trocados por pessoas sem ética, sabe-se lá porquê. Por mais voltas que dê ao bestunto não consigo vislumbrar a razão de tais coisas e escolhas. E da lembradura saltam-me outros interessantes personagens, tais Ferreira Torres, agraciado com uma absolvição por falta de provas, Fátima Felgueiras, festejando uma condenação menor face às prevaricações e Isaltino Morais a tripudiar com o tribunal, do alto da sua suficiência, considerando que as acções ilegais praticadas não têm importância nenhuma porque a maioria as comete. Boa moral, senhor de Morais. Nem sequer é capaz de pensar que a ilegalidade é ainda mais censurável em quem ocupa lugares públicos. Mas não faz mal, o povo gosta e, para o sabermos basta verificar que se estes abencerragens concorrerem a eleições serão sem dúvida – e já foram – premiados com vitória certa. Se estivéssemos no Reino da Dinamarca diria que, entre nós, alguma coisa vai podre.


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março 22, 2009

memórias 14 - dialéctica





deus à semelhança
do pensamento em impérios inconcretos

diálogo posto em causa
náusea parabólica e estelar

o mundo eternamente em pé
ao tempo em que está a desabar

Lisboa, 1971

março 13, 2009

QUEM MANDA NA MINHA MORTE?





Há poucas semanas, no Brasil, um bispo católico excomungou uma menina de 9 anos, que estava em risco de vida, por gravidez de gémeos, resultante de abusos sexuais do padrasto. Na mesma vezada, para não perder tempo, excomungou também a mãe e, salvo erro, todo o pessoal de saúde que efectuou a interrupção da gravidez. O abusador ficou indemne a esta sanha sancionatória. É caso para dizer: Deus é mesmo macho!

Ultrapassemos este primeiro estágio da indignação, contra as medidas deste parente de Torquemada, e, fazendo das tripas coração, reconheçamos que o bispo nem sequer está errado, em termos de direito canónico.

Efectivamente a Igreja - mal-grado os avanços humanitários do Concílio Vaticano II contrariados pelo actual movimento de contra reforma fundamentalista de Bento XVI - nunca pôs em causa que o principal papel da mulher fosse o de reprodutora da espécie. Nesse sentido pode perceber-se que o risco de morte da mãe fosse considerado como uma contingência natural e que, perante uma vida que se cumpria e outra que prometia vir a cumprir-se, os cânones tivessem a preocupação de assegurar a vida à segunda. Mesmo tentando perceber a situação por este ângulo, não se consegue compreender a lógica do emérito bispo, uma vez que nem a menina era uma vida cumprida, nem estava na idade de ser uma mera máquina de procriação. Também não se entende o silêncio do Vaticano sobre este caso, quando, ainda recentemente, retirou as penas de excomunhão ao bispo alemão que negou o holocausto e ao tristemente célebre fundamentalista católico Monsenhor Lefèbrve.

Portanto, no fundamental arcaísmo onde se instala, Sua Reverência, com todo o poder da Santa Madre Igreja, condenou a pobre criança criança ao anátema.

Risível, dirão, tendo em vista a sensível perda de poder temporal da Igreja. No entanto, aprofundando as intenções emergentes, não podemos esquecer que os factos passam-se na sociedade brasileira, onde as questões de fé têm um peso muito maior que, actualmente, na Europa. Também não me parece ser a família em referência de classe social abastada. Assim, o efeito da excomunhão, visando proibir a qualquer instituição ou membro da igreja o contacto ou apoio ao excomungado, obrigará qualquer cristão, em qualquer momento ou situação, a negar consolo ou apoio ao exorcizado, logo a esta criança e a sua mãe. A miséria e o ostracismo são a face horrível do decreto a que o bispo condenou a vítima. Uma obra plena de misericórdia e caridade, como se vê!

A segunda questão que se me coloca é a do Testamento Vital. Este caso tem andando em discussão. Muito recentemente foi à Assembleia da República e espero que em breve faça parte plena dos nossos direitos. O que é então este testamento? Nada mais nada menos que uma declaração, em vida, sobre os direitos de se dispor do corpo pós-morte ou de consignar que, no decorrer de uma doença ou estado mórbido limite, seja o paciente libertado do encarniçamento terapêutico. Dito por outras palavras, não consignando o direito à Eutanásia, consagra o direito de não se manter uma vida para além dos limites expressos pelo vivente. É um primeiro e importante passo para manter a dignidade do ser humano até ao fim e dentro dos seus próprios critérios.

Une estas duas causas o confessado medo da igreja pela evolução do pensamento - sobre a vida e sobre os direitos inerentes à mesma - que o indivíduo possa ter para determinar o âmbito da sua existência.

O que no entanto mais me revolta é a presunção que esta igreja, cruel, beata e hipócrita, tem ao considerar-se com o direito de intervenção em todas as questões sociais, independentemente do facto de que essas intervenções venham a ter eficácia sobre gente estranha às suas crenças. Os adultos, que de livre vontade entrem para uma confissão, terão de obedecer às suas regras, por mais abstrusas que sejam. Mas, que essa igreja queira submeter aos seus princípios, por melhores que pareçam, quem nada tem a ver com ela, parece-me ser o grave pecado do Orgulho, que a igreja tanto diz que despreza. Contradições!

O próprio Estado, a quem legalmente cabe a preservação da vida humana, terá um comportamento inaceitável e intrusivo se pretender fixar o tempo e o modo da morte de alguma pessoa. Por isso somos contra a pena de morte e, sendo-o, estranho seria que lhe déssemos o poder de contradizer alguém que, no seu perfeito juízo - por razões que só a essa pessoa dizem respeito – decidisse que a sua vida deveria terminar segundo a sua vontade.
A morte é um acto onde estamos sempre e essencialmente sós. É uma sujeição individual e intransmissível. Ninguém pode viver por nós a nossa própria morte. Por isso não reconheço a ninguém, poder ou instituição o direito de decidir, por mim, a forma da minha morte. Morrerei naturalmente quando as circunstâncias da vida a isso me levarem ou quando, essas mesmas circunstâncias, forem de tal modo ignominiosas que me levem a escolher o fim definitivo.

E nunca permitirei que Igreja, instituição, pessoas ou estado, nisso venham a interferir, retirando-me o direito de decidir quando e como será o meu fim. Serei eu, na medida do possível, a mandar no último acto da minha vida. A isto chama-se Eutanásia e é um direito humano que urge estabelecer.


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março 08, 2009

quietura




chove nos rostos
no quarto na memória
no interior do tempo
recolhem-se cantigas

a bruma
coluna de nada
sobre o esquecimento
no céu desabitado

cidade invernia
contra-claridade
névoa de emoção
ao comprimento do vento

a sudoeste da mágoa
remanesce a afeição

fevereiro 26, 2009

Olhós amantes do gajo





Se fosse apenas uma questão de cultura o caso, sendo grave, não seria desesperado. Mais uns tempos de escolaridade ou formação e a solução estaria, provavelmente, encontrada. Se fosse tão só a polícia de Braga – invejosa do sucesso universal das “mães de Bragança”- a investir, gloriosamente, contra o valor cultural existente no quadro de Gustave Coubert,”As origens do mundo” seria lamentável, mas não passaria de uma mera excrescência demencial que poderia, com alguma persistência, ser clinicamente expurgada. Só que, meus amigos, os casos sucedem-se e começam a marcar, de modo relevante, o nosso quotidiano. É necessário, portanto, estarmos atentos e, não descurando o lado anedótico dos acontecimentos, não deixarmos, por descuido ou laxismo, que os inimigos das liberdades e dos direitos humanos, serventuários ferozes de um autoritarismo antigo e redutor, venham de novo impor, com prepotências e censuras prévias, o esmagamento dos direitos à livre expressão e às liberdades cívicas.

Se não tivesse já havido sinais inquietantes de intervenção policial, de forma absolutamente ilegal, em várias associações com vista a controlar previamente o conteúdo de comunicados, greves ou manifestações, poderíamos, ligeiramente, abanar a cabeça, com comiseração, deixando de lado a inquietude e murmurando, entre dentes, um comentário mordaz sobre a estupidez policial. Se não viessem sempre as justificações dessas acções como de simples obediência a ordens superiores – tal como nos campos de extermínio nazis – sem que nunca cheguemos a saber de que “superioridade” foram emitidas, talvez pudéssemos minimizar acontecimentos como estes e, despreocupadamente, seguir o ritmo na nossa vida normal.

Se a polícia não estivesse sempre pronta e eficaz para a repressão violenta de acções populares justas mas desagradáveis aos poderes constituídos; se a mesma polícia está ausente quando, nos bairros sociais, por causas profunda, ligadas a questões de sobrevivência não resolvidas, rebentam confrontos que põem a segurança dos moradores em causa e criam climas de terror; se os relatórios anuais de várias instituições de observação mundial de direitos humanos, não apontassem, continuadamente, o deficits democrático, por sucessivas violações dos direitos individuais, desta polícia, poderia rir-me desbragadamente dos actos anedóticos que cometem.

Se a magistratura judicial, tão lenta a julgar qualquer caso de bric-à-brac, não fosse tão célere a censurar um écran de computador com algumas mulheres semidespidas - se não soubéssemos que esse computador era o Magalhães - talvez gargalhássemos com a manifesta caricatura que este procurador deu da “sua justiça”. Se não víssemos como o caso Casa-Pia se arrasta e esvazia perante a influência dos poderosos; se não soubéssemos que as vítimas são crianças desvalidas; se não nos entrasse, todos os dias, pela casa dentro o aumento oportunístico do desemprego; se não soubéssemos que quase metade dos desempregados não recebem qualquer subsídio de desemprego e que os bancos mal geridos são premiados com lautos subsídios a galardoar a sua cupidez e inoperância, talvez achássemos que é carnaval, logo, nada se devendo levar a mal!

Se não soubéssemos que a DREN tem sido obreira, através de acções e posições da sua directora, de algumas perseguições e prepotências exemplares, poderíamos ficar estupefactos com o autoritarismo com que desmandou uma posição legal e oficial do Conselho Pedagógico de uma escola sobre a sua tutela. Poderíamos, então, pensar tratar-se de mera falta de inteligência ou perspicácia pessoal o ter obrigado os professores dessa escola a desfilar num corso carnavalesco - o que eles fizeram, vestidos de negro e de fita-cola na boca - contra sua vontade, obrigados por uma nota oficial de estilo e obediência tão duvidosos que, mal cumprida a ameaça, logo foi explicada de modo atabalhoado – tal como todas as situações anteriormente citadas o foram – revelando a incomensurável arbitrariedade desses actores, tão ofensiva de direitos, liberdades e garantias.

E nunca, nada, nem ninguém, foi, por tais actos, alguma vez, responsabilizado.

Estas coisas começam sempre assim. Levemente. De mansinho. É um acontecimento aqui, uma pequena repressão ali, um “gag” que pela sua imbecilidade até dá vontade de rir e, pouco a pouco, quase sem darmos por isso, vemos o nosso campo de acção a restringir-se e as capacidades de resistência geral a diminuir por aceitação de habitualidades que, maldosamente, se instilam e instalam.

É ver, senhores, o concomitante exercício de reabilitação do pai de todas as iniquidades de que forças obscurantistas tentam forçar a memória. Ora é sério e o maior português, ora, como actualmente é um desenfreado Casanova a tripudiar sobre a moral que, férrea, era imposta, por sua vontade, ao povo português. Ele há-o para todos os gostos. Forma imprecisa mas persistente do inconsciente nacional, ei-lo que vai florescendo, aqui a ali, nas instituições mais retrógradas. Como o carnaval já passou, tirem-se as máscaras e chamem-se os nomes correctos ao bois. Não deixemos que a coberto da Crise os fascistas ocultos e inscritos nos corpos das instituições tomem de novo o comando. Os amantes do gajo são de aproximação doce e subtil, mas escondem o chicote e os instrumentos de tortura por baixo do roupão caseiro.


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fevereiro 22, 2009

Memórias 13 - sw2





não sei se cheguei depois
mas as minhas mãos vieram antes
acariciar-te o sorriso

no teu rosto
rosto de marés
o encantamento das palavras murmuradas

tal como uma distância
vives dentro de mim
talvez de ressonância em ressonância
seja o teu nome
um monumento barroco

é no suave fascínio de mulher
que te cumpres ao longe
que eu te espero e não queres vir

esta foi a canção que ouvi em ondas curtas
em sw2 para ser mais exacto


Guiné, Teixeira Pinto, 21 de Novembro de 1967

fevereiro 13, 2009

O Tejo em todas as suas dimensões






A proximidade de Lisboa tem feito mal ao Barreiro. Tornou-o provinciano e parente pobre dos luzeiros da grande urbe. Olhando para dentro e miopemente foi deixando que a grande vizinha lhe levasse tudo e todos quantos da mediania pretendiam sair. E foi-se sociologicamente empobrecendo num deixa andar mole e entorpecente. É certo que motivos políticos e outros foram-se, para mal dos nossos pecados, muitas vezes conjugando. Mas se isso é verdade, não desculpa a torpe aceitação da menoridade a que alguns quiseram condenar-nos. Faltou, em muitas ocasiões, foi a vontade de partir a loiça e de dizer a mandadores de mandadores, que já bastava o que bastava, e que quem geria os nossos destinos era a nossa vontade. Seria difícil, porventura, mas era necessário.

Por isso fomos andando, perdendo peso e população, vendo a juventude procurar o futuro do outro lado do rio.

No entanto, nos longes do tempo, quando quis e olhou para além do seu umbigo, o Barreiro soube ser grande e deixar a sua marca na História. Bastou-lhe olhar para fora, não deixar que Lisboa se interpusesse no seu caminho e gritar as suas competências e possibilidades. Fê-lo na Idade Clássica por entre os rios, na Renascença com os descobrimentos, no Iluminismo com os vidros, na época do vapor com as fábricas de cortiça e caminhos-de-ferro e, já mais perto, com o marco químico da CUF.

Em todos os momentos de grandeza existiu sempre uma constante: a premente presença do Tejo e a suave insinuação do Coina!

Um rio pode ser um obstáculo ou um traço de união entre as duas margens. Depende apenas das pontes que se lancem. Neste momento, parece ser a segunda hipótese a prevalecer com a previsível construção da Terceira Travessia. É uma oportunidade que não poderemos perder e que terá de concitar todas as boas vontades no mesmo sentido. Que, como é triste hábito, querelas antigas tantas vezes sem sentido, não venham a atravessar-se, por duvidosas contabilidades sectárias, na possibilidade de realização desta obra. Podemos estar num momento fulcral para abater a apagada e vil tristeza do nosso viver. A construção do Aeroporto, a plataforma logística do Poceirão, agregada à já referida ponte, pode ser o impulso que faltava para acordar o velho urso da sua hibernação.

De qualquer modo isto só será uma parte do a fazer. Por muita utensilagem material de que disponha, nenhum homem, nenhuma sociedade, se afirmará e tornará credível sem o substrato cultural que confira significado a esses meios. Caso o não possuam poderão parecer tão risíveis como as ridículas ostentações de novos-ricos destituídos das medidas das proporções, logo excessivos nas demonstrações públicas de riqueza.

Por isso, tendo em conta as modificações estruturantes que estão a caminho, e que irão deixar livre todo o espaço da antiga estação de comboios e da actual estação fluvial, mais as ferrovias adjacentes, espera-se, com profunda esperança, que para as mesmas não esteja reservado o triste destino de serem alienada a interesses de construtoras e similares semeadoras, a esmo, de toscos betões e possam ser reservados para instituições que melhor projecção confiram ao Barreiro.

Sem querer fazer deste objectivo monopólio da qualquer força política – até porque a sua consecução dependerá de todas e de mais boas vontades da sociedade civil - não posso deixar de referir que, no momento, na Concelhia do Bloco de Esquerda do Barreiro, se trava, com especialistas de várias disciplinas, um debate sobre o aproveitamento desses espaços para estabelecimento de um Centro Cultural e Científico do Tejo, com ambições de instituto nacional.

Fundamenta esta ideia o facto, já anotado, de ter sido o Barreiro, em várias épocas histórica, o fulcro do desenvolvimento senão do país, pelo menos do sul, sempre centrado na auto-estrada para o mundo que o Tejo é. A notável percepção do arco ribeirinho, como pólo de desenvolvimento, acrescenta estas possibilidades e fá-las mesmo sentirem-se como inadiáveis para a consecução de um projecto de vertentes materiais, sociais e culturais que a cidade merece.

O conceito que estudamos engloba toda a região banhada pelo Tejo bem como a concentração temática de zonas de visionamento, estudo, pesquisa e acção dos períodos em que toda esta região influenciou positivamente os destinos pátrios. Núcleos museológicas sobre os descobrimentos, as cortiças, as ferrovias, o sal, os moinhos, o bacalhau, o vidro, etc. coexistiriam com bases de dados, para investigações, ligadas a estas matérias. As artes performativas e plásticas deveriam ter ali, também, poiso adequado. Assim seria possível que as necessidades de estudos, ao mais alto nível, e os olhares interessados de quantos fazem do conhecimento o seu mister, descobrissem o Barreiro como ilha de saberes do passado e do futuro sobre este Tejo de inenarráveis possibilidades e dimensões.

E as questões económicas??!!

Façam-me o favor de perguntar a Madrid, Barcelona, Paris, ou a cidades mais ao nosso nível como Verona ou Bolonha, qual é a rentabilidade das suas instituições científico-culturais.

São capazes de vir a ter uma surpresa!



Publicado in "Rostos on line" - http://rostos.pt

fevereiro 03, 2009

as rotas




I

eis o ano da demora e do encontro
as tardes vegetais
o rigor absoluto
de esperas outonais

de apagadas vozes corre o vento
e o mar nas mãos pequenas
é um barco trabalhando
o tempo

II

nas longas alvoradas das partidas
trama plena de encontros adiados
cantavas a distância

a vaga reduzia oblíquo olhar
teu deserto leito
e recolhias no coração
dos nascimentos os rios
de regressar