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junho 17, 2008

Ai a raça do petróleo






A semana passada foi para todos os gostos. Das gafes dos nossos maiores aos apocalipses paroquiais foi mesmo um “vê se ta avias”. Parecia haver uma competição de acontecimentos e alarvidades. Era um fartar vilanagem a perturbar o consabido sossego desta terra abençoada.

O artigo 605º do Código do trabalho tem duas alíneas. A primeira é absolutamente clara e inequívoca. Diz simplesmente:

- É proibido o Lock-out.

Nada mais acrescenta que possa levar advogados ou hermeneutas a considerarem interpretações variadas. O Lock-out é universal e determinantemente proibido.

A segunda alínea define o que é considerado Lock-out. Tipifica-o como qualquer decisão do empregador que leve à “paralisação total ou parcial da empresa” à “interdição do acesso aos locais de trabalho a alguns ou à totalidade dos trabalhadores” e ainda qualquer actuação que “vise atingir finalidades alheias à normal actividade de empresa”.

Com isto em mente fica claríssimo que a Greve dos camionistas não foi uma Greve mas um Lock-out. Quem a convocou e manteve foram os proprietários das empresas de camionagem, levando no embrulho os seus trabalhadores.

Deste modo, nos termos da lei, o Governo estava perante uma ilegalidade que não poderia tolerar. Mas esta gente governativa, a quem cem mil professores ou duzentos e cinquenta mil trabalhadores na rua não impressiona, ficou varada e incapaz de reagir perante um número bem menor de donos de empresa que acharam poder fazer o país refém, de molde a exercer uma chantagem intolerável sobre a fraca governança deste reino.

Assistimos, em diferido e directo, à mais completa insanidade e prepotência daqueles que, partindo de anseios porventura legítimos, utilizaram meios inadmissíveis no seio de uma impunidade absoluta. Vimos e ouvimos os discursos hipócritas de quantos alegando a sua justiça “alertavam” os não aderentes para “a possibilidade de sofrerem ataques às viaturas” se não aderissem à paralisação. A polícia estava perto e ouvia. Os carros eram apedrejados e incendiados. Estranhamente a polícia não agia.

Não sei porquê, esta situação aberrante levou-me a recordar o Chile de 1973.

No decorrer deste confronto o nosso Governo entrou de férias e, muito eleiçoeiramente, demandou as comunidades da diáspora na cata ligeiramente antecipada de uns votitos, abandonando o país às ameaças de cortes alimentares e de combustíveis. Com êxito para os donos dos camiões. Na verdade, nem outra coisa era de esperar num país que abandonou qualquer outra forma de transporte de bens essenciais. Desmantelou-se a rede ferroviária, destruiu-se a cabotagem e agora, sempre que quiserem, os camionistas podem encostar uma faca ao pescoço do Governo, porque não há alternativas civis. Tal como não há pescas, nem lavoura.

Com muita galhardia descobrimos o caminho rodoviário para a dependência total!

Entretanto o nosso Presidente, hábil crítico da incultura política da juventude, num lapso piramidal, mostrava a sua cultura reintroduzindo nas festividades o “dia da raça”, momentos após um discurso onde glorificava a multiculturalidade do nosso povo. Vivam a cultura e a coerência.

De caminho, como não quer a coisa, o nosso primeiro confessava que no meio deste granel todo, aquilo que verdadeiramente o preocupava era a sua carreira política ameaçada pela espada de Dâmocles do plebiscito irlandês. Como vimos tinha razão para temer e, coitado, neste momento a sua continuidade na grande política é apenas um vislumbre porque os malandros dos irlandeses recusaram aceitar um tratado que ninguém sabe bem o que é, porque assim o pretendem aqueles que dele se vão servir em seu próprio proveito.

É claro que como o voto popular não serviu os interesses das elites estas, no lídimo papel de educadores e dirigentes, levarão o seu respeito pelo voto popular até à mudança a seu favor ou, caso extremo, ao castigo dos que ousaram exprimir uma opinião que não serve os senhores.

Vão iniciar-se brevemente as reivindicações de outras classes profissionais directamente afectadas pelo aumento dos combustíveis. Desde já lhes digo que, pelo andar da carruagem, estão tramados. Como os seus efeitos na economia do país são menos espectaculares e mais diferidos no tempo vão pagar pelo que os camionistas fizeram. Ou se precatam ou serão o exemplo que irá restaurar a honra perdida deste Governo. Que eu me perdoe a mim próprio por citar Santana Lopes, mas há que reconhecer que desta vez tem razão: “Este Governo é forte com os fracos e fraco com os fortes”.

Voltaremos a ver, com alguma brevidade, os camionistas na rua. È que, ao contrário daquilo que o Governo afirma, a situação não ficou resolvida. Está apenas em espera atendendo à evolução do preço do petróleo. E esse, meus senhores, não vai para de crescer. O paradigma em que a nossa sociedade assenta de combustíveis menos caros e fáceis, já era. Estamos perante uma mudança civilizacional de que apenas entrevemos a orla, mas que será profunda e assentará em princípios diferentes daqueles que estamos habituados. Esta civilização morre lentamente nos seus pressupostos ultrapassados por (in)coerências económicas que ela própria gerou, como contradições, no seu seio. Está desorientada e não sabe como agir porque a realidade se desviou do modelo que traçara. Isto é inevitável e preocupante. A civilização do petróleo, atentem no que digo, acabará, como todas as outras, num arfar apocalíptico e sangrento que será o banho lustral da sociedade a vir.

Por isso, a semana passada foi demais, por tão claramente servir de aviso ao que aí vem. Precatemo-nos pois e tentemos ultrapassar, da melhor forma possível, a fronteira dolorosa que se avizinha.

Fernando Pessoa, no entanto, nasceu há cento e vinte anos.


Publicado in “Rostos on line” – http://rostos.pt/


junho 09, 2008

falenas III





no cursivo do corpo movimento alar

minha barca viste

drapejar


as tuas asas de encontro

ao trombo do tempo

revivem em memória


diurnamente

estilhaço o teu ser envidraçado

afago tua história


no rebentar azul da cidade

descubro o meu cansaço


com rigor e claridade

da sombra me desfaço

junho 04, 2008

Cultivar, pescar, alimentar

Posted by Picasa



O mundo está com fome e a fome vai aumentar!

O Belegário espuma de raiva ao ler, em jornal nenhum, este título de arrasar. Pergunta-se como é possível, num mundo tecnologicamente evoluído, onde a produção pode ser elevada ao nível quase que se quiser, haver algum ser humano com fome.

No entanto, são milhões. Há fome na África, há fome na Ásia, há fome na América Latina e na outra também e, admiração geral, descobriu-se que também havia fome em Portugal.

A pergunta que se impõe é: Então porquê?

A simplicidade da resposta arrepia.

Porque o interesse particular de alguns homens e corporações ganha imenso com isso. Porque o pensamento liberal só o é para uns quantos seres economicamente dominantes e é, simultaneamente, escravizador para amplas massas humanas, assim o querendo ser e assim se impondo. Porque a globalização arrecada, em poucos bolsos, os benefícios e exporta, para todos os restantes, os prejuízos. Porque são precisos muitos pobres para fazer um rico.

Na verdade, a mãozinha invisível, do Sr. Adam Smith, anda um tanto ou quanto anquilosada. Sempre atarefada no difícil trabalho de assegurar a muito propalada bondade do mercado, através da lei da oferta e da procura, desorienta-se sempre que é mais necessária e vá de correr – a seu favor - ao hospital da intervenção de Estado, o tal que, quando as coisas correm bem, não pára de invectivar para que desapareça do nosso dia-a-dia, deixando-os comer o que querem e como lhes apetece. Foi assim em 1929 com os frutos que se viu e parece que, globalizantemente, caminha para um novo surto de perigosíssima, se não mesmo mortal, artrite diferencial.

O liberalismo dá-se mal com a realidade e com a equidade. A concorrência real não é perfeita, o mercado tem desvios consideráveis, nunca considerados, e os prometidos bons resultados dessa enorme liberdade de compra e venda, nunca chegam e, pelo contrário, a miséria, a doença e a guerra estão sempre ao fim da rua onde mora a artrítica mãozinha, invisível nos benefícios para a comunidade, muito apercebida nas desgraças que lhe causa.

- Isto pode lá ser – regouga o Belegário - só porque os chineses e os indianos começaram a beber leite e a comer carne entra o mundo todo em polvorosa. Quando se abriram as fronteiras do comércio isto não era já previsível? E não se tomaram medidas?

Claro que se tomaram, respondo eu. Então as grandes corporações não fizeram armazenamentos de bens essenciais para os retirar do mercado e conseguirem assim, artificialmente, a subida dos preços? Não se pagou rios de dinheiro para que os campos ficassem incultos, as pescas paradas, para manter num valor excessivamente elevado os bens alimentares?

- Valor alto? Isso dizes tu. Os agricultores e os pescadores queixam-se de que vendem extremamente barato o fruto do seu trabalho...

-...e que nós pagamos caro como o diabo.

Por isso o Belegário rói as unhas no desespero de não perceber a lógica destas coisas. Dá um murro na mesa e desesperado diz:

- Isto só lá vai à porrada!

Perdoem ao Belegário este tom agreste. Não é ele a falar, é o desespero de sentir-se tolhido, de querer tocar a vida para diante com dignidade e ver todo o construído com tanta esperança e esforço, a esboroar-se velozmente à sua volta, sentindo que não tem mãos para agarrar a desgraça que se aproxima. Vê os preços dos combustíveis a trepar incessantemente e apercebe-se que esta civilização, assente em movimentações fáceis, pode ruir de um momento para o outro, arrastando na voragem todas as coisas e as gentes, sem que se possa fazer mais que soltar um longo gemido ou um arrepiante estertor final.

- Raios! Mas não se pode fazer nada?


Claro que pode. A esperança é a última coisa a morrer. Podemos unir-nos contra o pensamento único dominante. Podemos pará-lo, obrigando os governos a racionalizar a distribuição. Porque os bens não são, ao contrário do que dizem, tão escassos assim. Estão é muito mal repartidos. Neste momento a crise não é de falta de produção. É de míngua de distribuição. É de açambarcamento e ganância. Se nada for feito para contrariar esta conjuntura, deixemos de lado o complexo de Cassandra, caminhamos alegremente para o descalabro social e económico. Ai isso é que caminhamos.

- Então e o Povo de Esquerda, que é dominante neste país, está quieto? Não faz nada para inverter este estado de coisas?

Ai Belegário, Belegário! O povo de esquerda és tu e eu e todos os outros. Se nós nos mexermos todo o povo de mobilizará. Começa por ti. Faz o teu trabalho correctamente e exige a recompensa do esforço cometido e do produto conseguido. Deixa de lado distribuições de trabalho que não visem o bem-estar das pessoas. Diz à Economia que não é ela que dirige as sociedades, mas que existe para a servir. Liberta a política do domínio dos grupos de interesse e, como sempre fizeste, como sempre fizemos, cultiva, pesca, estuda e distribui equitativamente o produto alcançado. Não precisarás de maiores estratégias...

- Tudo bem, tudo bem! Mas como é que fazemos isso se toda a gente anda dividida e todos contra todos?

Observa os sinais. As sociedades nunca se põem problemas que não possam resolver. Tu és parte da solução. Deixa que as partes se juntem e a solução aparecerá clarinha e por inteiro. Está atento ao que nos une, ultrapassa as divisões e vais ver que resulta.

Estás pronto para isto, Belegário?

Publicado in “Rostos on line” – http://rostos.pt/









junho 02, 2008

Memórias 7 - Eu




tive a guerra no sangue

o sangue nas mãos

o corpo na terra


tive o sono leve

pesado era o sonho

que não me deixava


tive o corpo breve

cansado no ar

cansado no chão


eu comi a terra

eu comi o sol

a pele morena

fez-se toda dor


e para esquecer

que a terra vadia

me comia a mim


eu comi a terra

eu comi a lua


ou pensei assim



Guiné- Bissau 1968

maio 19, 2008

falenas II




naquele tempo

usavas espigas nos cabelos

e nos beijos dois sorrisos

e nos sorrisos anelos

e nos anelos juízos


foi o tempo

de pastorear os sóis

nas tardes das lentidões

nos ocasos dos faróis

nas profundas uniões


nesse tempo tu chegavas e era sempre verão

trazias nos lábios os crepúsculos matutinos

em lembranças florescidos


era certo

que adornavas o caminho com flores

os delicados suspiros

no primeiro fruto maduro

do local onde habitavas


tanto tempo

que o tempo pôs os olhos

no carbono do queixume

no efémero do ciúme

falena que abandonei


tempo outro

quando as árvores num doce suicídio

apodreceram galantes no olvido

da janela onde te expunhas


taparam-te a janela


as quedas testemunhas já sussuram

os silêncios dos amantes

que acabaram

maio 12, 2008

Porque mentem os Políticos?





Pronto! Já sei que neste momento qualquer político que me leia está a ficar de muito mau humor e a jurar por todos os santinhos que mentiras não é com ele, sempre foi um homem impoluto e um cidadão exemplar e, na sua terra, a palavra dada vale como assinatura reconhecida no notário. Provavelmente, por ofendido, até pensaria levantar-me um processo por difamação, não fora o facto de eu não referenciar ninguém em particular e não ser possível unir toda a classe política numa acção concertada, porquanto todos, considerando-se honestos e acima de qualquer suspeita, aceitam que os adversários, esses sim, mentem e enganam o povinho despudoradamente.


Honra, pois, a uma classe que não sofre de corporativismo militante.


Mas, apesar disso, se perguntarmos a alguém na rua qual a sua opinião sobre os políticos em geral, desencadeamos de certeza um rol de invectivas pouco abonatórias para tais personalidades onde a mentira não é menor pecado nem dos menos citados.


0 senhor político, que acaso me esteja a ler e a discordar de mim, que se arroje a um rápido inquérito de opinião e terá que processar a Vox populis, coisa que, por enquanto, é extraordinariamente difícil de conseguir. Por isso as muitas e ocultas tendências censórias à livre expressão por parte dos corpos políticos democráticos. Que linda seria a democracia sem o direito de opinião do povoléu. Como seria idílico o quadro de uma sociedade em que só os tribunos arregimentados pudessem apresentar as suas opiniões. Não seria um paraíso porque a divergência é natural e desejável, só que seria uma divergência entre pares, com os mesmo grandes interesses em comum e com as situações partidárias e pessoais a permitirem uma discussão motivadora e plural, mas centrada nos objectivos mais nobres que à política competem. Estão a perceber o alcance da coisa, não estão?


Se aceitarmos de bom grado que na política há pessoas de bem porque será que é tão arreigada a opinião de que político é mesmo mentiroso?


Demos então ouvidos à milenária sabedoria do mítico oriente.


Naquilo que definiríamos como um possível céu budista estava Buda, entretido, observando a díspar humanidade nos seus entreténs diários, segurando na mão direita uma lindíssima bola de cristal - era a Verdade - que iluminava, de modo feérico, o céu em referência. Distraído deixou que a bola escapasse para a terra e se desfizesse em mil pedaços. Surpreendidos com tão intensa luz os homens acorreram ao local do impacto e cada um apanhou a parte da esfera que logrou alcançar. No entanto, na sua ignorância e orgulho, convenceram-se de que tinham recolhido a verdade total. Desde esse dia, como todos pensaram de maneira semelhante, instalou-se na terra a discórdia porque, tendo cada um sido contemplado com uma parte da verdade, todos ficaram convencidos de ter alcançado a verdade total. Deste modo, pela verdade, se espalhou a mais acentuada discórdia.


Ora, os nossos políticos são assim a modos como estes ancestrais que viram a luz. Também eles foram contemplados com uma parte da verdade e se comportam como se fossem possuidores da verdade integral. Mas, se há muitas verdades e a Verdade é só uma, algumas terão de ser forçosamente mentiras. É muito confusa esta situação?


Vou tentar esclarecer.


Dizia-me um professor ,de há muito, que a ideologia era os óculos com que se via a vida. Deste modo a realidade - coisa que não será exactamente o mesmo que a verdade - observada por duas pessoas com quadros de referências diferenciados, mereceria, de cada um, interpretações distintas. Assim, não sendo necessariamente mentira, cada um deles, dirá do mesmo objectos coisas opostas e, para nós, dependendo igualmente dos nossos óculos, umas serão verdade e outras mentiras, sendo, no entanto, o mesmo o objecto apresentado.


Lembro-me de uma passagem do Miguel Strogoff de Júlio Verne. Dois jornalistas avançavam, no Transiberiano, através da vasta estepe, la cada um do seu lado do comboio e olhavam, pela janela, para a paisagem, descrevendo-a, em seguida, para
os seus leitores. 0 que ia de um lado via os campos queimados pelo que transmitia a ideia de uma Rússia descampada e desolada. 0 outro, de cujo lado corria um ribeiro que fazia verdejar toda a paisagem, descrevia uma Rússia verdejante e fresca. Como nenhum deles olhou para o lado contrário, ambos ficaram convencidos que tinham sido os fieis relatadores da realidade paisagística e que o outro era um terrível mentiroso, apenas interessado em construir uma realidade fictícia.


Assim são os nossos políticos. Cada um tendo uma parte da verdade arroga-se ao direito de ser testemunha da Verdade total. Cada um, sentado no seu lado do comboio, descreve a paisagem que vê e não admite que, do outro lado, a paisagem possa ser diversa.


Aqui temos uma explicação possível para o facto dos políticos serem considerados mentirosos.


Se, no entanto, fosse só isto poderíamos filosoficamente aceitar a diferença de posições e opiniões. Mas outros factos há "de mor espanto".


Um político é um ser que se arroga o direito de ter opiniões por nós. A partir de um acto fundador, chamado eleições, considera-se mandatado para todos os actos, dessa legislatura, de forma total. Quer-se dizer que não mais precisa de nos consultar e que as suas posições são mais representativas da vontade da população que a própria vontade da população.


Estranho, não é?


Mas é assim que pensam e pouco há a fazer quanto a isto. É como se ao dar-lhe o nosso voto eles recebessem a capacidade de definir, sem erros, a nossa vontade. Usando discricionariamente deste direito afastam-se, cada vez mais, do comum dos mortais. Ascendem a um plano de iluminação superior, ganham um olhar mais penetrante e analítico, recebem uma capacidade acrescida de fabricação do real. Falam-nos de coisas que não vemos, produzem realidades que não sabemos nem conseguimos, por mais que nos obriguem, percepcionar. Para nós, está aí outra mentira e esta nem sequer filosófica. É apenas cenográfica.


Mas há mais. Quando em campanha prometem conseguir tudo quanto os outros disseram que fariam e não fizeram. Assim que eleitos dizem que não podem fazer o que prometeram, e já os outros não fizeram ,porque as circunstância mudaram. Na verdade o que mudou foi o facto de quererem o poder e de, ao tê-lo conseguido, verificarem que as promessas eram apenas isso ou que não seria possível, no mundo real, fazer o que prometeram. Isto para não falar em interesses submersos, cálculos de vida e benesses superiores para a espécie.


Assim se mentem e nos mentem levando ao descrédito das virtualidades da Democracia. Nós percebemos que os políticos são pessoas como as outras, que têm famílias para cuidar, prestações para pagar e carreira a manter. Só que, por estranhas crendices, somos sempre levados a confiar que agora é que sim, com este é que vai ser e a resposta é sempre: - ainda não é desta e com este não vai ser. Por isso se desacreditam e nos vingamos , com ingenuidade, falando das moscas serem outras mas não mudar a substância. Alguns de nós, menos precatados ou mais desesperados, até sonham com regressos salazarentos e coisas semelhantes. 0 melhor nestes casos, é fazer como Fernando Pessoa, que aconselhava a não se comer dobrada fria.


Pensemos entretanto se será possível a quem quer conquistar ou manter o poder evitar a mentira. Por muito que custe, a única resposta que eu tenho é um rotundo Não. A sociedade é o que é e pobre do político que quisesse manter uma relação de verdade com o povo. Não só nunca chegaria ao poder como esse mesmo povo, ao ouvir as duras verdades da existência colectiva, tudo faria para que tal governante, de imediato apodado de mentiroso e incapaz, fosse apeado e cedesse lugar a outro com falas mais convenientes.


Apesar de procurar uma solução eficaz para este dilema, para ser verdadeiro, não a encontro e tenho que terminar, em disforia, pensando que os políticos que mentem não têm outra possibilidade senão continuar a mentir se querem perdurar como políticos. Pelo nosso lado voltaremos a votar em quem, mesmo falando mentira, nos prometer mais cinco alqueires de milho ou um impossível paraíso à mão de semear.


Ai isso é que vamos e esse é que queremos!



Publicado in “Rostos on line” – http://rostos.pt/

maio 07, 2008

Memórias 6 - Noite Menor






- Boa noite Lita, venho dizer-te adeus…

Olhou-me e fechou o livro.

- Estudava a Lógica…não te podes sentar?

Pronto! Lá estava a sua descontracção, a mania irritantemente calma de ver os problemas. Para chegar a este ponto tivera eu de vencer todos os meus românticos e ultrapassados sentimentos. Suponho até que devia ter um ar muito ridículo – ainda hoje me dá raiva pensar nisso – em pé, solene na minha decisão.

- É que vinha dizer-te adeus…
- Sim!? E isso impede que te sentes?
- De maneira nenhuma…somente me parecia… (parecia o quê? Iria dizer-lhe que era solenidade?)
- … te parecia?
-Nada! Nada de importância.
- Afinal porque partes? Tão de repente…

Sempre hão-de existir estas perguntas, estes porquês. Ninguém será capaz de aceitar o movimento dos outros sem perguntar porque se move ele. Que poderia dizer-lhe? Que me ia porque não suportava a luz dos olhos dela, a sua calma doce, a maneira como respirava, o modo como olhava, a sombra que os cabelos lhe faziam na testa? Entenderia ela se lho dissesse? Entenderia eu se me quisesse explicar?

- Porque mais nada é possível entre nós – acabei por dizer.

O coração bum-catrapum a bater, a bater e eu a fixar os olhos dela, aquela luz que abominava e que não queria perder e por isso abandonava.
Nem uma lágrima ou uma crispação. Apenas um borrifo de incredulidade e ela a dizer-me:

- Tão convencional assim?

Como, convencional! Não percebo francamente o valor das palavras. Que queria ela dizer nestas? Pergunto-lhe? Não, isso seria demonstrar-lhe que me interessava.

- Como querias que fosse?
- Não sei, esperava outra coisa de ti.
- Esperavas? Sabias?
- Nós sempre sabemos umas quantas coisas que não queremos saber e as esquecemos voluntariamente.
- Gostaria de dizer-te qualquer coisa de forte, de desolado mas não posso.
- Amanhã tenho ponto de filosofia. Penso tirar uma boa nota.

Uma viravolta brusca na conversa, eu a morder os dedos e ela a morder o lápis.

-É!! (Não sei se disse eu)…

Queria voltar à conversa, mas ela fugia-me. Não podia ser assim tão simples. Como é que acabava tão facilmente algo que não podia acabar? E ela nas banalidades, como se o assunto não merecesse interesse, a falar nas suas dores de dentes.
Pensava que ela iria sofrer, por isso preparei o meu discurso cheio de vantagens no acabar.

- Visto que já não estudo mais queres acompanhar-me um pouco por aí?
- Com certeza Lita.
( Ia acrescentar “dar-me-á muito prazer” e não sei porque não o fiz).

Lá fora, onde eu ia, onde ela ia, onde nós íamos, era Primavera. As minhas mãos iam escrevendo um poema quase solitário, um nocturno sem Chopin, alguma coisa que estava comigo, mas que não era, nem podia ser, porque nunca existiria. Era como se eu pudesse cavalgar estrelas ou oferecer uma rosa ao oceano. A Primavera, ou ela, iam-me dando uma força para criar (alguém diria destruir) o mundo. O meu sorriso era uma negação.

- Tão silencioso vais…
- Não me apetece falar…


De novo não era capaz de sair da mediocridade das palavras. Comunica, gritavam-me as vozes. E eu silencioso…

- Entendi – disse-me ela – E pela primeira vez falou.

Também não encontrei solenidade nas suas palavras .Só vazio.
Deixei de ter para ti o mistério e a novidade. Quando te conheci compreendi-te e sabia o que arriscava. Joguei conscientemente. Nem sei se perdi...
Como retornando de um sonho... Mas tu vais-te mesmo?
Tinha pensado olha-la nos olhos, mas no chão havia uma premência magnética.

- Nós sempre nos vamos...respondi...em algum dia e para alguma parte. Não somos estáticos. A nossa doçura é semeada de lanças e bicos de flechas. Por muito que nos desviemos, algumas nos tocarão.
- Sei que não devo sondar os teus motivos.

Uma pergunta camuflada, a maestria das seduções menores.
Um cheiro mais volátil no ar e a vontade de acariciar-lhe os cabelos. Desejo!

- Que são motivos, Lita? Alguém os sabe? Que me levou a ti, sabes?
- Não. Não sei.
- Foi o mesmo que nos separa.
- Só eu me revelei. Tu és o mesmo enigma. Não, não é uma queixa, é uma verdade.

Tens uma maneira reservada de te dares totalmente. Sei que não me enganarei se disser que foste meu sem reservas. No entanto não te conheço. Será que alguma vez te conheci?

Somente eu não seria capaz de explicar sentimentos com palavras.

- Não será tarde para andarmos na rua?
- Não, não é. É sempre demasiado cedo para deixarmos de resolver os nossos problemas.
- Porque és tu tão friamente analisadora. Às vezes não sei se és uma mulher se um cérebro positivo perscrutando o porque de todos os meus actos.
- Desculpa! Se o fazia, nunca tentei desvendar intencionalmente aquilo que me fechavas.
- Não é isso que me parece...
- Muitas vezes nos enganamos. Pensaste bem na tua decisão?
- Pensei...

Aí estava a tentar dominar novamente. Sentia-me bem a falar com ela, com o meu mundo nos modos dela ser, até que isto sucedia e então...

- Sabes Lita, acontece-nos quando estamos longe, pensarmos muito em tudo o que deixámos. Os dias e as noites sucedem-se e nós não chegamos a acordar. Sempre no sonho mais lindo embarcados.
- ...
- Não, não é poesia o que te digo. A não ser que em mim tudo seja poesia. Isto é a verdade que me habita... quando um dia voltamos, tudo é diferente. Não sei se o tempo fez as coisas mudar, se fomos nós que, sonhando, nos afastamos da realidade. O facto é que, quando voltamos, não encontramos o que esperávamos. Sempre voltamos à procura de algo que não existe.

- Acontece somente que ainda não partiste. Segundo dizes e porque dizes acredito, vais partir. Isso é futuro e falas-me como se já tivesse acontecido. Não entendo a tua segurança.
- Que sabes tu, que sabemos nós, sobre partida? Há muitos dias que parto de ti, que me afasto de uma maneira lenta e segura. Dói-me mas sabe-me bem.

Finalmente falava. As palavras saiam-me saboreadas. Uma sonoridade aberta. Eram livres e cada sílaba vivia. Uma independência que formava um mundo. Vinha de mim esse mundo. Surgia da descoberta de um caminho. Sabia agora que nada era eterno. Todos os amores, todas as lutas eram luzes na demarcação de uma pista.

- Queres então dizer que entre nós não há nada, não houve nada? E o amor, afinal?

Era mais mulher na sua ansiedade descomposta. Não, não chegues a chorar. Serei forte enquanto não souberes isso. Não descubras agora neste momento, não! Por favor! Tenho de chegar ao fim, tenho que me cumprir.

- O amor existe. Vendo bem as coisas eu amo-te…
-…!!
- … mas amar-te não é ficar preso a ti. é viver. Um pássaro numa gaiola, por muito bem que cante, não cumpre as suas asas. Eu sou filho de uma inquietação. Só seguindo o caminho que a cada momento faço e descubro, te poderei amar. Dantes era muito novo para o saber. Tinha os egoísmos duma sociedade implantados no coração. Deixei de ser convencional e abri o espírito. Por isso me vou.
- Não seria mais lógico, se me amas, que ficasses comigo? Repara que não te peço nada. Apresento a defesa da minha causa. Não sou tão segura como pretendo. Por dentro sou toda incerteza e pequenos nadas de complicações. Tu és-me necessário para que também me cumpra. No fim, ambos somos egoístas. Um de nós irá perder.


Quase podia acrescentar que ela pensava não perder. Para não responder, mandei os olhos vaguear na placa iluminada. Um nome de rua, um nome de mulher e uma voz, incorpórea, vinda de todos os sítios, batendo na luz, ficando no escuro, triste canção que me vivia nos versos de uma praia que o Outono tomava nos braços, feitos de marés e brumas.

Lita disse-me:

- Ouves?...

Nada disse, porque dizer seria não sentir. Encostou a cabeça no meu ombro e os cabelos tocaram-me os lábios.

- Para quê?
- Será necessário que todos os actos tenham obrigatoriamente um sentido racional? Não poderemos agir por impulsos? Entende-o assim.
- Desculpa…


e a vontade de dizer-lhe amor, de a estreitar a mim, dizer-lhe que éramos loucos, que só tínhamos uma vida…
… era aí que estava tudo. Só uma vida, uma vida para a qual não tinha uma explicação, uma coerência. Tentara encontrá-la nela, naquele amor que me surgira, julguei-me quase certo e de orgulho cheio. Um dia, igual a tantos outros de ansiedade, quando nos braços de ambos vogávamos, pensei que tudo estava terminado. Ela era aquele corpo que vibrava junto de mim. Nada mais tinha. Sempre, pelos tempos do tempo, seríamos uns desconhecidos na ideia fácil de nos conhecermos. Teríamos filhos, dúvidas, discussões e talvez felicidade. Porém a partir daquele momento sabia que a pergunta andaria de novo dentro de mim – “Foi para isto que vim? É pouco, quero mais”. Deixei cair os braços e quando ela estranhou disse que estava doente. Notei a preocupação nascer-lhe nos olhos e fixar-se-lhe nos rostos. Quando disse:

- Encosta a tua cabeça a mim – senti uma agonia surda e disse-lhe ríspido:
- Preciso de me ir, quero ar. Sinto-me sujo por dentro.

Nesse dia ela sofreu e não sei se compreendeu que me começara a perder, porque, no dia seguinte, mais cedo ainda que o habitual, a fui buscar. Era pouco depois do nascer do Sol. Do arrependimento da brusquidão viera-me uma capacidade de compreensão da felicidade tão grande que não me lembro de outro dia como aquele. Parecia que a manhã fora talhada num canteiro de flores. Nunca mais houve outro dia assim.

Depois dele a noite já não era um tempo físico. Havia-a em mim àquela hora. Uma noite completa, sem tréguas, uma noite que eu reduziria pouco a pouco. A noite de chegar a casa de Lita, vê-la parada no umbral, ainda não acreditando e eu a afastar-me, a afastar-me…

… Carlos…! O grito veio-lhe da alma.

Julgo que deve ter subido as escadas a chorar.






Guiné, Bafatá, Novembro/67

abril 23, 2008

o que sei de abril em nós






I

não há razões perfeitas nem este é um mundo completo
desconheço amor onde o afecto igualmente se mantenha
nem sei de horários sempre desejáveis

o que sei é um saber de coisas por saber lançadas na minha
descoberta

por isso hoje em abril na escola alfredo da silva
com a arma das palavras e o sentido da cantiga
recordo o tempo em que esperava ver surgir esta nação

II

viemos expor-nos nas palavras e traçar o quadro do percurso
meteoritos descendo sobre a terra e produzindo rápida claridade
viemos de passagem falámos da viagem

nem todas as fontes iniciam rios mas todos os rios nascem de uma
fonte
importante é que deixem no seu rasto de águas renovadas
o caminho vegetal da alegria

assim em abril as coisas acontecem além das intenções e
pensar que é possível parar o movimento é como
tapar com panos pretos as janelas
para cortar o dia

que a revolução é sentimento de mudança
há muito arquitectada no coração das gentes
mais que um corpo é paixão
mais descoberta que sempre

quero dizer
fazer a revolução é diferente de criar uma liturgia

que em abril semente de actos novos em campos de imprevisto
não se admitem tréguas nem hipóteses
mas um corpo de mulher por sobre as ondas
para o qual as nossas vidas tendem



III

suponhamos que num acaso que nada deve ao acaso
se abriam nas janelas rasgos de verdades e deslumbrados
nos olhos surgia uma cidade que sendo a mesma outra transparecia

pensemos um dia em que por cima do sorriso
os homens prolongassem em festa a primavera que andava recolhida
e súbita rebentasse em seiva de flores
por sobre os aços

imaginemos o momento de tudo ser possível
mesmo a bandeira do vento no rubro da paixão
então

era uma vez um povo com um rio carregado de tristeza
era uma vez uma pátria de marinheiros e sem navios
que plantara uma praia inteirinha de viúvas com olhos de gaivotas
e coração de rocha

era uma vez um povo com a noite sobre a nuca
era uma vez um frio

IV

não há razões perfeitas nem este é um mundo completo
e estamos de passagem
só o povo flui constantemente se conserva e é diferente
nós somos uma parte da viagem
um porto a encontrar

juntos aqui em abril tentemos
o novo passo a dar

abril 18, 2008

“Pré(k)ários” a verde






Hesitei bastante sobre o tema desta crónica. Dois assuntos ressaltavam da massa de acontecimentos deste período. Um era a visita do Presidente da República à Madeira tendo, como pano de fundo, as subtis declarações do inefável Alberto João, o outro seria a angustiante situação de tanta gente que não só ganha pouco, como não dispõe de qualquer protecção social porque trabalha a recibos verdes.

Ponderações feitas ponho de lado a viagem à Madeira. As razões não são difíceis de explicar embora sejam difíceis de perceber. Não votei, nem votarei em Cavaco Silva. Para além disso ele legitimou-se como Presidente da República Portuguesa e, desde aí, não passando eu a gostar mais dele, aceito-o, democraticamente, na sua função e no respeito que, pela mesma, lhe é devido. No entanto, o Sr. Alberto João veio demonstrar cabalmente que, quem se deslocou à Madeira não foi o Presidente mas sim o Sr. Silva. Portanto para mim o assunto ficou arrumado. O Sr. Silva, que aceitou este estatuto conferido pelo Sr. Alberto, não é o meu Presidente porque não soube assumir o seu lugar menorizando-se - mais um - perante o incomensurável e misterioso poder do Sr. Alberto.

Passemos, por isso, a assuntos mais sérios.

Na legislação de trabalho – inscrita na sua maior parte no Código de Trabalho – consagram-se os seguinte tipos de contrato:
- Contrato sem termo, isto é, os efectivos permanentes da empresa;
- Contrato a termo incerto, determinado para realizar trabalhos bem definidos e temporários mas de que não se conhece a data de término;
- Contrato a termo certo, utilizado até três anos (em casos especiais podendo alargar-se até seis anos), estabelecidos para postos de trabalhos não permanentes e com indicação expressa de tipo de trabalho e do início e fim do contrato, que deverá ter a duração do trabalho a executar. É claro na lei que não poderá ser contratado a prazo um trabalhador que vá ocupar posto de trabalho de características permanentes.

Assim, se uma determinada função é para ser executada continuadamente para a prover não poderá ser contratado ninguém a prazo. Para um lugar permanente terá de ser concedido ao trabalhador um contrato sem prazo.

Olhando para as definições e permissões destes tipos de contratos parece-nos que não existe qualquer iniquidade na letra da lei, sobretudo se for tido em conta que o trabalho a prazo deve ser encarado como a excepção e não a regra de contratação. É de fácil entendimento que se uma empresa precisa de um aumento temporário da força de trabalho para uma situação de aumento temporário de trabalho, ou para uma obra ou tarefa perfeitamente delimitada, não se veja obrigada a estatuir contratos de cariz permanente. Seria pouco racional e criaria bolsas internas de subemprego. Mas o contrário também é verdade e racional. Se a tarefa ou função forem de necessidade permanente não fará sentido contratar a prazo alguém que irá permanecer longo tempo a desempenhar essas funções.

No entanto é isto que acontece.

Aproveitando a fraca, ou quase inexistente, fiscalização fazem-se contratos a prazo para situações onde liminarmente a lei tal não permite. As justificações dadas pelas entidades patronais vão desde a inflexibilidade das leis laborais – entenda-se a dificuldade em despedir – às questões da produtividade.

Isto é puro blá-blá.

Efectivamente a lei proíbe o despedimento “sem justa causa”, não impedindo porém que o mesmo se faça quando essa causa existe, e é provada em processo disciplinar. Por outro lado, o argumento de que a empresa tem que alargar ou contrair os seus quadros de pessoal, conforme as solicitações do mercado, sendo de considerar, não passa muitas vezes de mera desculpa. Primeiro porque a gestão da empresa, para ser competente, terá que ter uma previsão do desenvolvimento do mercado e criar estratégias para isso e, segundo, porque a lei lhe permite nesses casos – se tudo o mais falhar – o recurso ao despedimento colectivo.

Só que o despedimento colectivo, além de uma carga razoável de burocracia e necessidade de prova das situações invocadas, tem, normalmente, um impacto desagradável na comunidade e fortalece a solidariedade entre trabalhadores e o papel dos sindicatos. Por estes factos as empresas evitam tal medida e, na falta da requerida flexibilidade para despedir, recorrem aos contratos a prazo excessivos e aos recibos verdes.

Se o exagerado número de contratos a prazo indevidos cria já precariedade, tem, no entanto, sobre os recibos verdes uma vantagem para o trabalhador e uma “desvantagem” para o empregador. Exigem os pagamentos para a Segurança Social. O remédio? Recibos verdes.

No entanto, esta forma de pagamento, que não consubstancia por si um contrato, foi idealizada como prova de prestação e recebimento de serviço liberal. Pretendia-se com ela fazer fé, perante o fisco, que um determinado acto fora pago e deduzidos os respectivos impostos. Assim, estariam neste caso os actos médicos livres, o apoio jurídico e qualquer prestação de serviço que não implicasse subordinação jurídica à entidade pagadora. O simples facto de a pessoa neste caso ter um gabinete fixo no local de trabalho, poderá implicar não ser reconhecido como trabalhador liberal, logo ser considerado um falso prestador de serviços livres.

Hoje, muitas empresas recorrem a este tipo de relação para evitarem os encargos sociais e aumentarem a mobilidade dos seus trabalhadores. As vítimas mais frequentes são os jovens, licenciados ou não, e os trabalhadores acima dos quarenta anos que tiveram o azar de perder os seus empregos.

A facilidade em, deste modo, torpedear a lei está a causar graves distúrbios na sociedade. A organização de vida e independência da juventude tornam-se impossíveis, a instabilidade acentua-se em todas as dimensões desde as económicas às afectivas, as perturbações psicológicas e sociais sucedem-se e mesmo a propalada necessidade de aumento de produtividade fica, pela instabilidade, inexperiência e desmotivação, completamente comprometida.

E no entanto era tão fácil resolver o problema. As leis existem e são claríssimas. Bastava vigiar o seu cumprimento e, como elas determinam, todos os contratos a prazo e recibos verdes que não obedecessem ao legalmente estatuído passarem a contratos sem termo. É apenas por em campo a fiscalização e usar as bases de dados da Segurança Social e das Finanças. É difícil? Deixem-me sorrir levemente e permitam-me que desconfie que alguém, que não devia, quer deixar as coisas assim, talvez porque de si parta o mau exemplo.

Quem for Estado e quiser enfie a carapuça.



Publicado in “Rostos on line” – http://rostos.pt/

abril 08, 2008

falenas I





por dentro do rumor

habitual do silêncio

é que existe o rumo

a chamada o calor

do corpo onde desfolho

minhas falenas de amor


com lentidão sigo a rota

clara de uma borboleta

subtil reminiscência

do branco onde me assumo

como rouxinol de fumo

no canto da tua ausência


falenas

onde se doem os prantos

deste corpo quase etéreo

nomes das breves passagens

percursos de uma viagem

ou abrir de outra janela


falenas

no meu corpo se distendem

na memória apreendem

as brevidades da vida

asas de sombras esguias

tapetes de fantasia

na zona do inconcreto


falenas

imersas na claridade

meus sonhos de uma cidade

povoada de paixão

meus amores minhas idades

hipnoses de saudades

perto da sua extinção

abril 04, 2008

Casamentos, divórcios e bispos







De um ponto de vista antropológico não há casamento, há casamentos. De facto cada grupo social institui, conforme as suas vivências e conveniências, a forma de ligação homem/mulher que melhor serve os intuitos do agregado. Uma das poucas regras sociais com aceitação quase universal é a da proibição do incesto. A cedência de uma mulher de um grupo a outro estabelece uma relação de aliança fortalecedora de ambos os conjuntos.

Desta forma o casamento é, sem sombra de dúvida, um acto contratual.

Por isso o casamento dos nobres era uma questão de estado. Igualmente, quando a Revolução Industrial se implantou, o casamento dos filhos da indústria seguia estratégias nupciais de aprofundamento do poder económico-financeiro. Bom casamento era aquele que acrescentava património às famílias.

E o amor? Onde entra nesta história?

Bem, o amor-paixão é uma invenção romântica da civilização ocidental. Não sendo, muitas vezes, possível satisfazer necessidades afectivas com os casamentos contratuais, e não deixando os seres humanos de perseguir afectos, começa a enaltecer-se, na literatura, a transgressão, como acto de superação do simples registo de interesses económicos ou nobiliárquicos, através da exacerbação de uma sentimentalidade arrebatadora, a raiar o irracional e, quase sempre, com desfecho trágico. (Vide, Tristão e Isolda; Romeu e Julieta).

Não deixando de, nas sociedades modernas, existirem estratégias nupciais mais ou menos subterrâneas, o valor declarado e fundador nas nossas ligações é o afectivo. Um casamento faz-se por amor, isto é, por escolha mútua de onde, presume-se, estará afastada qualquer noção de ganho económico ou social.

O meu amigo Belegário não acredita muito nisto. De tal maneira descrê que, ainda não há muitos dias dizia-me, referindo-se à experiência pessoal observada no microcosmo da empresa onde trabalha:

- Olha, Carlos, eu não tenho dúvida nenhuma que as pessoas se casam por amor. Aliás, tenho visto isso, com alguma frequência na minha empresa. As pessoas contactam-se, conhecem-se, namoram-se e casam-se. Nada disto seria excepcional se não fosse o caso das raparigas da empresa se apaixonarem sempre por doutores ou engenheiros. Não conheço um único caso em que se tenham apaixonado por contínuos ou motoristas.

Mistérios que o Belegário encontra os quais, no essencial, não mudam as observações até agora expendidas.

Temos portanto o casamento como um contrato, uma vez que institui direitos e deveres, mas como um contrato especial fundado no afecto entre os cônjuges. Hoje nem o mais empedernido conservador ousa dizer que o casamento segue linhas de interesse contrárias à livre escolha sentimental dos nubentes. Nem mesmo quando isso é claramente visível.

Aceitamos portanto ser no casamento a livre escolha das pessoas que o institui e o torna aceitável em termos sociais. Não percebo, assim, haver tanta dificuldade em, seguindo a lógica da opção, aceitar que quando um dos componentes da díade considera já não ser possível ou desejável a continuidade da ligação seja obrigado a continuar numa convivência que se tornou penosa ou, no mínimo, desagradável. Sou pois, indefectivelmente, pela manutenção da escolha livre tanto para a celebração como para a dissolução de qualquer relação conjugal. Quanto a mim, basta um elemento do casal querer por termo ao vínculo e ele deverá poder dissolver-se sem complicações de maior. Aliás, de facto, é isto que acontece. Quando o amor acaba termina a relação real mantendo-se, embora, a mesma por arrastamento do cadáver contratual.

Em Portugal, nos tempos da outra dama, o domínio da Igreja Católica obrigava toda a gente a manter os casamentos até à morte de um dos cônjuges. A infelicidade e os prejuízos causados às pessoas e ao tecido social, por tal imposição, são por demais conhecidos para que valha a pena estar a tratá-los em pormenor. Ressalta apenas a sempre conhecida propensão da Igreja para dominar a vida social, não apenas dos seus seguidores – com todo o direito – mas mesmo daqueles que lhe são desafectos e sobre os quais nenhum direito lhe assiste, a não ser o direito de abuso, sempre reivindicado.

Apesar de ser altamente privilegiada no nosso país a Igreja Católica, pela voz autorizada dos seus bispos, vem de vez em quando carpir mágoas à boca de cena. Se tivermos em conta o que reza a constituição em termos de igualdade de tratamento das religiões verificaremos estarmos em falta grave para com todos os outros cultos. A existência do pretenso estado do Vaticano permite-lhe reivindicar o tratamento preferencial de estado a estado, ultrapassando o múnus cultual, intrinsecamente da ordem da consciência, passando de relações de culto a relações políticas. Se já isto é mau, esquecem-se com frequência os mesmo bispos que, além de deterem uma rádio, de nível nacional, com várias antenas emissoras, já possuíram um estação de TV a qual, de moto próprio e com interesses comerciais, alienaram no mercado e, escandalosamente, ainda emitem, duas horas todos os domingos, na nossa rádio principal, benesse que nenhum dos outros cultos possui.

Não estão no entanto satisfeitos porque a sociedade civil lhes diz diariamente que se mantenham nos limites traçados para a sua instituição. Mas eles querem mais. Querem manter o monopólio de serviço religioso nos hospitais, no exército, nas escolas. E querem que o Estado lho reconheça e lhes pague por isso. Como não vão obtendo o desejado fazem pressão sobre o Primeiro-ministro para que coarcte a liberdade legislativa da Assembleia da Republica e para restrição da actuação libertadora daquilo a que ousam chamar “ Estado ateu”. É, senhores bispos, a completa perda de vergonha. O vosso papel é aquele que a Constituição reserva para os credos religiosos e mais nenhum. Como nenhum outro direito vos deve ser reconhecido e, deixem-me lembrar que Jesus Cristo, que dizem seguir e evocam como fundador da vossa religião, disse acerca de dois mil anos: “Dai a César o que é de César e a Deus o que é de Deus” e, aprofundando: “ o meu reino não é deste mundo”.

Só respeitando este ditames podereis olhar para quem ainda em vós acredita e, como na Bíblia, proclamar com legitimidade e a plena voz: “Quem tem olhos que veja, quem tem ouvidos que ouça”. Caso contrário, como pessoalmente penso que acontece há muitos anos, não estareis a dar a Deus o que lhe pertence por demasiado interessados em fruir completamente tudo o que vem ou é de César.


Publicado in “Rostos on line” – http://rostos.pt/

abril 01, 2008

Memória 5





descobri

numa estante

da velha biblioteca

um livro raro


não era um livro

de capas bordadas a oiro

nem tinha folhas

de pergaminho


era um livro velho

e amarelo

abandonado há muitos anos

que ficou p'ra'li sozinho


na lombada tinha o título

"em busca da perfeição"

em nota do autor

tinha "solidão"


eu senti carinho

pelo livro que ninguém lia


...se era o meu retrato

que antevia



Évora, 1956

março 27, 2008

O Bife - um conto reeditado






Quis-me o autor católico e tímido. Por esses factos, aqui estou, hoje como sempre, sentado na terceira mesa da Segunda fila desta esplanada, olhando o pipilar da fonte e os miúdos desnudados, em banhos mais de sol que na contida água.

Serei, também, no decorrer do conto, o quanto baste de ingénuo e sonhador. Adequa-se-me a ingenuidade porque, com ela, poderei correr certos riscos e aceitar alguns jogos que de outro modo poderiam passar por estultícia. Calha-me o sonhador por comple­mento desse atributo. Quem se navega pelos fumos da lógica dos sonhos e os antepõe ao que a maioria denomina de real, terá toda a conveniência na estruturação de um universo à medida do romântico, que se pretende herói e não consegue, no seu ser, força bastante.

Volto à água. Tomba, por enquanto, entre salpicos de relva. Logo mais, quando a noite quase de surpresa chegar, as luzes do lago acender-se-ão e tornarão mais distantes e imprecisas as árvores do outro lado. Equidistantes do meu ponto de observação ficam as duas esquinas, estas sem nenhumas árvores. Só casas, em esses breves prenúncios de floresta que resistem no largo, do outro lado. Aquele onde nunca estou.

Nas casas das esquinas habitam pessoas e sei de histórias de outras que gostariam de habitar em casas e não o podem fazer. Mas isso são outros contos e, neste, o autor não me deixa entrar por esses caminhos. Aliás, como se sabe, é de boa norma delimitar os assuntos e esta é uma narrativa mais ou menos romântica pelo que não deverá perder-se em desinteressantes críticas sociais.

Retomemos o rumo certo. A poucos metros, do meu lado direito, fica a Primeira Esquina. Ao centro, comigo dentro, está a esplanada. Alguns metros para além do meu braço esquerdo, queda-se a Segunda Esquina.

Para além das esquinas nada conheço. Todos quantos as ultrapassam saem do meu ângulo de visão e deixam de ter história. Inexistem. Quem vem da Primeira Esquina aparece sem aviso. A sua presença é impensável até que dobre a esquina e se corporize no súbito de um bico de pé, num passo inacabado obrigando a presumir o anterior, numa sequência posterior de outros que se dirigem ao presente do café, ou na inexistência, por dobragem da outra esquina. Tudo isto resumindo-se num nada de corpo, numa existência precária, mais movimento ou fulguração que realidade.

Eu, estou aqui à espera. No meu estar existe certamente um objectivo, uma necessidade. Aguardo que ela dobre a Primeira Esquina, surja a emoção e se cumpra o determinado.

Por isso aqui me encontro, instalado no Verão, sentado na terceira mesa da segunda fila da esplanada.

Pelo ardor do corpo e pelo amarfanhado da pele suponho ter voltado da praia. Saboreio um imperial que poderia ter sido mais bem tirada se estivesse colocado na cervejaria. Mas a cervejaria fica lá mais em cima, a meio da avenida, enorme e plana, estendida sem surpresas e sem possibilidade de duas esquinas suficientemente distanciadas para permitir o espaço do cenário e suficientemente próximas para a passagem dela poder ser o campo entre a esperança e aquilo que não sendo desespero nem frustração, fica no magoado da alma como música melancólica.

Não me desagrada, na verdade, ter vindo da praia. Se me fosse possível passaria a maior parte do meu tempo nessa fusão de sal e luz. Que tardes! Quando o saboroso cansaço nos leva a rumar para casa na busca do duche, deixar a salmoura e, antes que o sol se ponha, correr para a esplanada, procurar a mesa conveniente, sentar-me e, beberricando a cerveja, esperar, sem falta, a partir da Primeira Esquina, pedaço a pedaço, o cumprimento da promessa da sua presença.

Aparecerá, primeiro, uma das suas pernas, seguida de um braço. Depois a saia leve tendida pelo passo e pela brisa. Num repente solar surgirá de corpo inteiro. As mãos, os cabelos, o peito num balanço cálido de ondas dentro de ondas.

Muitas vezes pergunto-me o que será ela para além da esquina. Que fará na vida fora deste caminho onde cruza o meu olhar? Como nada sei espero o seu avanço até à esplanada e tento adivinhar. Por momentos parece-me saber tudo e desejo que venha sentar-se à minha mesa. Reparo depois que nem sequer sei o seu nome, embora lhe adivinhe os passos e saiba que nunca, por si só, virá sentar-se aqui. Talvez nem sequer pare no café para tomar uma bebida ou fazer um telefonema. Seguir sempre em frente, até à Segunda Esquina, parece ser, imperiosamente, o seu destino.

Enquanto os seus passos a afastam tento confortar as esperanças caídas. Pergunto-me quantas vezes esperaste por ela e a viste passar, sem um desvio, por pequeno que fosse, entre uma esquina e outra? Esperavas, insensato, que ela viesse ter contigo e sem mais começasse a falar dizendo-te todas as palavras que tu calas? Grande besta sou! Porque raio deveria tal coisa acontecer? Sou católico, mas não espero milagres. Olho para mim e desconforta-me o que vejo. Como esperar então que ela possa ter alguma vez sequer reparado em mim. Ela nem me conhece e não sou tão irresistível que possa tornar-me notado aos olhos de qualquer mulher, apenas por me ter entreolhado. Sou uma boa anedota. Isso é que sou!

Além disto, basta olhá-la para sentir a diferença. É perfeita! Nela nada há de destoante. É, verdadeira e meteoricamente, perfeita. O caminho que percorre, só porque o trilha, é mais altar que percurso. Como pensar compartilhar o meu espaço com ela? Tão anódino que sou! Insensatez, meu caro, insensatez. Querias, se calhar, a estrela polar fora da sua rota, mortinha por se instalar ao teu lado!? Não é a mesma coisa? Ai não, não é!! Estás tolinho se não percebes. Então a estrela polar não passa também‚ todos os dias, entre dois limites? Sensivelmente à mesma hora e no mesmo local? E não é bela? E não é presente e inacessível? Os olhos não a seguem, porventura desejando-a? A outra é uma mulher!? Isso que tem? Não são ambas criaturas e igualmente perfeitas?

Peço o impossível? Não é esse, porventura, o meu direito? O que está à mão? Qual o merecimento?...

Voos.. Voos inconsequentes é o que fazes. Estás para aí com toda essa filosofia e nem sequer consegues convidá-la para a tua mesa. Aproveita agora. Daqui a pouco ultrapassará a tua mesa e atingirá a Segunda Esquina. Força. Um pouco mais e perderás a tua oportunidade. Mais acção. Menos filosofia.

Isso queria eu. Ter força para que ela fique. Para que o meu desejo fosse o dela. Pois é! Mas eu sou tímido. Nem me serão permitidas certas actuações. Por exemplo, neste momento, apesar da minha vontade e turbação, devo verificar se algum dos circundantes se apercebeu das minhas intenções; se os meus pensamentos se tornaram visíveis, se tomaram voz e gritaram, subitamente, o meu amor, na praça.

Olho em volta. Tudo continua como se não tivesse havido tempo. O meu vizinho mais próximo que, quando ela apareceu, começara a levar o copo aos lábios, nem sequer terminou o movimento. Toma agora o primeiro trago. Ela dá outro passo. Na praça o meu olhar é uma súplica. Eu, um desassossego.

Antes que outro passo se inicie e o bebedor desça, leve e lento, o copo sobre a mesa, procuro em mim aqueles olhos interiores de tudo sentir e perceber. Os mais completos e clarividentes olhos que ninguém reconhece fora de si e em si ninguém contesta. Iluminado por eles volto-me na direcção da Primeira Esquina. Preocupo-me. Se os fechar continuará a haver esquina? Se os fechar continuará a existir o que não sei se existe, do outro lado da esquina? Se os fechar é possível que a esquina desapareça ou não mas quem garante que essa anulação a não arrastará a ela também?

De olhos bem abertos sei que nada sabendo dela terei de continuar, até tudo acontecer, aqui sentado, entre duas esquinas, à espera, no, concedo, aprazível local onde situaram a esplanada, desconcertado por me sentir pedaço de coisa nenhuma, títere de um ciclo de existência onde, um dia, acredito, ela terá que vir sentar-se na minha mesa.

Se me fosse permitido resolveria este caso rapidamente. Faria com que ela, finalmente, reparasse em mim. Que me olhasse e, nesse olhar, ficasse a saber da minha longa e repetida espera, suspendendo, só por isso a progressão para a Segunda Esquina. Eu avançaria para ela de molde a tolher-lhe o passo. Contar-lhe-ia a minha espera e um sorriso de compreensão posar-lhe-ia nos lábios. Ver-lhe-ia despontar a emoção por se saber aguardada e despertar-lhe-ia a reflexão sobre o inexorável de todos os dias passar, à mesma hora, de semelhante modo, no mesmo local, entre duas esquinas, perdendo-se sempre um pouco mais de outro lado, sem a certeza de que no dia seguinte a catástrofe não acontecesse e a Primeira Esquina se toldasse pela sua ausência.

Por mim sei. Estarei aqui todos os amanhãs deste Verão esperando o seu aparecimento. Dia após dia verei morrer o sol incapaz de a chamar, incapaz de deixar de esperar. Continuarei parado tentando perceber o seu mistério. Além da esquina há possibilidades que me angustiam e a desconfiança de que tudo seja possível e tudo isto tenha um sentido, possua uma coerência. Porque eu sei. Estarei aqui, cada dia mais bronzeado, bebendo a minha cerveja, convicto que, lá mais acima, na cervejaria, seria melhor tirada, mas, compreendendo que só neste lugar cumpro o meu papel e me será possível vê-la passar indiferente e significativa.

Como antevia foi o Verão passando. O Sol declinava. Ela aparecia na Primeira Esquina. Eu esperava que os seus passos a conduzissem até mim. Ela passava ignorando-me. Eu, desesperado, ansiava o novo dia para que, declinando o Sol ela de novo aparecesse e eu continuasse a aguardar...

Um dia ela apareceu. Na Esquina. Na Primeira. Trazia qualquer coisa de novo. Seria o ângulo do avanço ou uma subtil transparência de intenções reflectidas na biqueira do sapato? Não sei. Apenas me foi perceptível, de golpe, a diferença. O dia de hoje não seria como nenhum outro. Era este o dia total, por excelência.. Sobressaltei-me. Algo vai acontecer e não estou preparado. Não sei o que é nem se o desejo. É certo. A minha mansa rebelião tem ensombrado o desempenho do papel que me foi atribuído. É certo. Por vezes sonhei-me outro e quis-me diferente. Mas, por acaso não me esforcei? Não me adaptei e tentei cumprir como quiseram que cumprisse? Não me mantive pacientemente sentado, todo o Verão, nesta esplanada, sempre ao fim da tarde? Esperando sempre a mulher que nunca abordarei e me destinaram que aguardasse?

Neste momento limite todas as questões são igualmente irrespondíveis. Não há tempo nem vontade. Porque pela última vez ela irá iluminar esta última tarde. Sei que, majestosa, inflectirá a costumada marcha no sentido do café. Inicialmente indecisa avançará depois, seguida de olhares e de mim, para o interior. Sei ainda que, agora que posso queimar-me no fogo do seu sol, a tão desejada, a eternamente aguardada, a suma, a inatingível se sentará ao balcão do bar e, ai de mim, com estes ouvidos onde ainda ressoam os roçagares do seu hálito na atmosfera, a irei ouvir, naquela voz que se adivinha de pétalas, pedir ao empregado:


- Dê-me um bife... em SANGUE, se faz favor

março 23, 2008

tema de solidão XII



nos teus olhos
nuvem esparsa no iodo
do teu nome
navego a minha barca
e a ilha floresce vegetal

no teu nome
ó construtora de trágicas heranças
não há máquinas nem sombras
só os trilhos
das mágicas andanças

por mais que magoe a solidão
e os tédios ou os vidros
nos apartem
por entre lúcidos sons
ou cores plenas
eu dou-te uma mão cheia
de falenas
efémeras belas marginais
que morrem docemente sobre o feno
ou nas pontas dos bicos
dos pardais

março 20, 2008

“Balha-bem”






Cansado do azedume provocado pelas contínuas observações sobre o estado do mundo, procurei nos arcanos da memória um tema de menor crispação. E veio-me à retentiva o “Balha-bem”. No entanto, para falar dele tenho, primeiro, de dissertar sobre o Sr. Sepúlveda, conterrâneo do nosso herói, mas que, possivelmente, nunca se apercebeu da sua humilde existência.

Ao escrever o seu nome salta-me à lembrança a imagem pequena, meio corcunda, de nariz adunco e desconformes pés, ataviado no eterno fato azul. O Sr. Sepúlveda era funcionário público no tempo em que ter um ordenado certo, casa no centro da urbe e contactos privilegiados com os poderes delegados, emprestava ao funcionário um ar de magnificência. Assumia o Sr. Sepúlveda a sua condição, para além do vestuário, num expressar-se hipercorrecto que o afastava do vulgo vingando-se dele o vulgo por desenfreada troça.

Assim, certo dia, instado por um polícia, novo na cidade, a identificar-se, foi pelo mesmo detido e acompanhado à esquadra, porque o guarda suspeitava que ele lhe faltara ao respeito quando lhe pediu a identificação. Foi o caso que, surpreso por ser abordado por autoridade menor, retorquiu à intimação:

- Saberá o Sr. Cívico que se dirige inopinada e abruptamente a um sujeito com foros de cidade em desmesurada altercância para com o seu direito de ininterrupta e continuada progressão no burgo onde reside em domus próprio?

E zumba! Assarapantado com tamanha eloquência lá foi o Sr. Sepúlveda, acompanhando o atónito, desconfiado e ofendido chui para a esquadra da cidade, onde, um espavorido chefe tratou de se desculpar e xeringou o polícia por prender tão destacado elemento da burguesia urbana, o qual, por funcionário judicial, não só tinha o direito de dar voz de prisão a qualquer pessoa como, das suas funções, muitos jeitinhos e facilidades colhiam eles, polícias, por boa vontade do ilustre citadino.

Por seu lado, o “Balha-bem”, adolescente, cigano e analfabeto era o oposto da pequena glória do Sr. Sepúlveda. Nunca soube o seu nome. “Balha-bem”, chegava. Recebera a alcunha por ser hábil com a gaita-de-beiços, onde tocava melodias ciganas que acompanhava com o seu sapateado, pretensamente andaluz, pelo qual, recebia nas tascas, uns cobres com que se ia governando. Era companhia assídua da malta estudante com quem gostava de conviver nas serenatas e nas farras que lhe sucediam. Liberalmente o grupo acolhia-o.

Tornou-se meu amigo porque, todas as manhãs, me aparecia pedindo que lhe emprestasse vinte e cinco tostões. Não era muito dinheiro mas quase dava para uma ida ao cinema. Por isso, na primeira vez, hesitei e logo ele pressuroso, com o seu palrar conspícuo entre o espanhol e o alentejano, me assegurou que à noite me pagava o numerário.

Efectivamente cumpriu. Mas, no dia seguinte, pela manhã, lá estava, de novo, a pedir o empréstimo. Sempre pagou e, durante muito tempo, todas as manhãs, pedia a mesma importância. Intrigado, perguntei-lhe um dia a razão desta conta-corrente. Tentou esquivar a resposta dizendo ser o segredo a alma do negócio, mas perante a possibilidade de não tornar a ter o abono lá me explicou que ia, todos os dias, a um armazém da cidade, comprar uma caixa de sabonetes. Retirava os invólucros e ia vende-los aos incautos como se fossem sabonetes espanhóis de contrabando. Admirado perguntei-lhe se o negócio era bom.

- Vai dando. Foi a sua resposta.

A junção destas duas personalidades tão ímpares deu-se numa tasca, agora restaurante de referência, onde a malta desembocava para beber umas imperiais e onde o Sr. Sepúlveda, Fernando Pessoa sem génio, diária, comedida e rigorosamente se embebedava com vinho tinto.

Propondo-lhe um dia o dono da cervejaria o consumo de uma santola, andando de fundos baixos e não querendo dar parte de fraco, o Sr. Sepúlveda olhou para o bicho, pegou-lhe, simulou que se tinha picado e disse, alto e bom som, para quem o queria ouvir:

- Maldita lagosta, jamais comerei deste abominável crustáceo!

O “Balha-bem”, presente no local e circunstância, não só quis ouvir como quis, igualmente, por admiração total, ficar seguidor incondicional do Sr. Sepúlveda.

Por isso, na tarde seguinte, aproximando-se do balcão, simulou ter-se picado na santola e, certo de ter audiência, gritou:

- Maldita crovina, jamais comerei deste abominável constâncio!

Foi, para ele, a glória imediata. Para nós, motivo de conversa por muitos e bons anos.

Os tempos passaram, cada um foi à sua vida e, regressado há pouco tempo da guerra das colónias, vindo a Lisboa para uma entrevista para um possível emprego vejo, em pleno Rossio, vestido com um impecável fato branco e um vistoso "borsalino" na cabeça, o meu amigo “Balha-bem”.

- Então, que tens feito? Não sabia que estavas por Lisboa.

Foi mesmo um sorriso feliz que lhe vi no rosto.

-Não morreste na guerra, provocou!
-Como se pode ver, não. Parece não estares mal na vida.
- Vem ali beber uma cerveja. Pago eu, disse vitorioso.

Recompondo a simetria no mundo, podendo pagar agora o que eu sempre lhe pagara, lá me contou que viera para Lisboa dançar num clube nocturno. Mas aquilo era pouco para ele. Começou a perceber que o seu ar cigano não era indiferente a algumas estrangeiras que passavam pelo clube. Assim encetou um outro acto na sua vida:

- Agora sou puto.
- Puto??!!
- Sim, as gajas pagam-me para eu
… e largou uma bojarda das antigas.


Engasgado só me ocorreu perguntar se o negócio era bom.

- Vai dando. Foi a resposta.

Pagou as cervejas, sorriu e com o seu fato impecavelmente branco desapareceu da minha vida.



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março 18, 2008

Memória 4 - ramal de évora



o comboio da minha terra corre
corre sem parar
latifúndios crescem fomes
latifúndios por lavrar

tanta terra tanta terra
passa o comboio a cantar

lindo comboio passeante
na campina a ondear
tanta terra tanta terra
e eu sem poder ficar

partido por ventos montes
montes quero observar
quero encher o coração
quero ter o que guardar

tanta terra tanta terra
ai os meus olhos no mar
e o pensamento em ti
ficada no soluçar
quanto mais assobiava
mais eu te via chorar
mais a terra desfilava
e mais maio para chegar

santa terra santa terra
vai o comboio a largar

este comboio só parou num dia de insurreição
houve greve no barreiro foi o povo para a estação
mas perde sempre este povo luta sem armas na mão

lá parte o comboio de novo
sempre comboio popular
leva rapazes pra guerra
outros que vão emigrar

tanta terra tanta terra
vai o comboio a chorar

verde e vermelho vestido
vem o comboio a chegar
traz o chico e o rosário
tornados do ultramar

tanta terra tanta terra
tenta o comboio recordar

já apitando na linha
pensa o comboio em partir
chegou leve do jerónimo
esse não conseguiu vir

pouca terra pouca terra
foi precisa pró cobrir

ai este comboio maluco que percorre o alentejo
dentro transporta desejos
fora ficam só saudades
meu comboio da meninice rompedor de uma cidade
onde a pacatez dormindo vê partir a mocidade
pra qualquer terra distante
onde viver e morrer será sempre como dantes

na minha terra o comboio
leva gente sem parar
é como a nau catrineta
sempre tem de que contar


março 15, 2008

A mão que lhe dá o voto





Que, por inúmeras e consensuais razões podemos dizer estar esta sociedade doente de paranóia galopante, é facto dificilmente indesmentível. Culpa das tendências neoliberais imperantes na governação, da discórdia entre pragmática e ética, da dilaceração entre o local e o global. Agora, o que é mais difícil de compreender é que este estado de coisas se tenha apoderado do nosso governo, transformando a sua indiscutível legitimidade num exercício de declarações alucinadas de quem vê monstros onde o normal ser humano observa a simples consequência de decisões, por vezes correctas nos princípios gerais, mas feridas de autoritarismo míope, nebulosas, fora de tempo, descontextualizadas e sem que se encontrem justificações para os métodos utilizados.

Refiro-me, como já se percebeu, à primeira ronda de declarações apaixonadas do nosso primeiro e do inefável ministro Silva de ver, por todo o lado, em tudo o que é contestação política de medidas políticas, a mão diabólica do partido Comunista. Na verdade pode dizer-se que é o medo que tenho do meu adversário que o faz tão grande e omnipresente a meus olhos.

E o temor antecipado da maioria poderá ser verdadeiro se o bom senso e equidade não se sobrepuserem ao presente e tão estranho espírito “socialista” desta maioria absoluta.

Não porque os comunistas, ou outra qualquer oposição, sejam, no momento, um perigo real. Aliás, a desorientação reinante, favorecida pela mais longa depressão económica dos últimos anos, reflecte-se, não só no Governo, como na ausência de outras perspectivas credíveis, venham de onde vierem. Não representa este estado de coisas apenas a incompetência de quem governa ou se opõe, mas também a deriva de uma realidade ultrapassante das possibilidades de decisões a nível nacional.

No entanto, outras decisões são do restrito domínio doméstico.

Debrucemo-nos, levemente, sobre a questão da avaliação de desempenho de professores.

Tenho a imodéstia de pensar que sei alguma coisa sobre este assunto, derivado de dezenas de anos de experiência em avaliações profissionais. É certo que as fiz sempre no âmbito de empresas privadas e que, se me fosse posto o problema de pensar um sistema de avaliação para professores ver-me-ia, sinceramente, muito atrapalhado.

A avaliação de desempenho comporta vários fins. Um deles é conseguir apreciar o comportamento profissional, em dado período de tempo, de uma determinada pessoa. Para tal é necessário a construção de critérios objectivos e mensuráveis, bem como da respectiva medida. Parâmetros que podem ser mensurados com objectividade são, por exemplo, a assiduidade e a pontualidade. Outros que se podem, mediante descritivos sintéticos e correctos, tornar mensuráveis serão a quantidade e qualidade de trabalho, as atitudes de colaboração/integração no corpo profissional e os vários procedimentos para com o meio envolvente. Outro fim é o de estabelecer uma base de discussão mútua, com vista ao aperfeiçoamento e correcção de erros ou desvios, entre o avaliado e os seus avaliadores. Finalmente, após o percurso avaliativo pode estabelecer-se parâmetros de prémios/compensações e necessidades de formação.

Quando pensamos em professores para serem avaliados confrontamo-nos de imediato com a realidade de uma importante parte das suas tarefas serem dificilmente mensuráveis. O professor transmite conhecimentos – que poderão ser de alguma forma medidos – mas também educa cidadãos. Ora esta parte tão importante do seu trabalho só se poderá verificar plenamente muitos anos depois da saída da escola dos seus alunos. Como é que se medirá isto? Deixaremos, por miopia escolarenga, desincentivar os professores de uma tão importante função que, por muito esforço que custe, não se repercutirá, minimamente, no resultado da sua avaliação?

E a equidade? Como se conseguirá que a avaliação de um professor, numa determinada escola, por determinado avaliador, seja comparável a outras avaliações na mesma escola ou em escola diferente, com avaliadores distintos e perspectivas desiguais sobre a interpretação de cada um dos parâmetros propostos? Está isto pensado e resolvido? Não me parece e assim, só se chega à confusão nunca à justiça equiparativa. O que se pede é um sistema em que seja possível afirmar que alguém classificado com Bom no Barreiro é equiparado a outro qualquer, com a mesma classificação, em qualquer outra escola do país.

È portanto a avaliação de desempenho um instrumento de trabalho muito útil para a evolução dos trabalhadores, quando efectuada com seriedade, compreendida e aceite por todas as partes. A boa-fé e a confiança são as duas pernas em que este exercício se estriba. Faltando alguma delas o resultado é catastrófico por destrutivo em termos de relacionamento entre as parte.

Estas simples normas de bom senso faltaram ao ministério da educação. A resposta foi-lhe dada na rua pela impressionante marcha da indignação que cem mil docentes protagonizaram, com toda a “irrelevância” que a ministra, em reportagens televisivas subsequentes, lhe consignou. Como era de esperar de tal personalidade, a um mau trabalho seguiu-se o autismo impenitente. A vida é assim. Há pessoas que dê lá por onde der, trazem no bandulho todas as certezas do mundo e, por mais que a realidade lhe trespasse os olhos, apenas vêem o que lhes interessa ver.

A ministra que tentou apresentar os professores à opinião pública como madraços e incapazes, num piscar de olhos malandro para os piores sentimentos da turba, viu-se, deste modo, perante uma afirmação de dignidade pessoal e profissional que ela não pode entender.

Por isso foi ainda, se possível, mais fechada e prepotente e cortou todas as pontes possíveis para a resolução do problema. Mas fez mais! Quando instada a responder sobre a possibilidade da sua demissão afirmou claramente: - “eu não me demito!”.

Como para bom entendedor meia palavra basta eu entendi, naquela declaração, muito mais que o que ela desejaria que eu entendesse. Vi, que perante a enormidade do disparate, centrando-se no seu único e exclusivo querer, desafiava o primeiro-ministro a demiti-la. Sim, que ela, mesmo contestada pela classe docente em bloco, não faria como o ministro da saúde o qual, cedendo a possíveis pressões, contrariado embora, apresentou a carta de demissão que, provavelmente, lhe fora pedida. Ela não o faria. Só sairia com decisão comunicada pelo primeiro-ministro. A bola foi-lhe passada tão lepidamente como isto. Deve ser este o comportamento designado de solidariedade partidária e governativa.

O primeiro-ministro, tendo em conta os acontecimentos anteriores e estes, estaria completamente bloqueado para tomar qualquer decisão sobre os assuntos da educação. Estava preso por ter e não ter cão. No limite apenas lhe cabia, mesmo se a contragosto, apoiar a ministra. Ela aproveitou-se, completamente, deste estado de coisas.

No entanto, vindas de um PS ligado ou habitualmente consensual com as políticas do Governo, vozes credenciadas apareceram, nas ágoras televisivas, introduzindo um discurso morigerador apontando aberturas várias. E mesmo membros da equipa ministerial vieram a terreiro, na sequência, introduzir a “luz ao fundo do túnel”.

Quando, legitimamente, pensávamos que a lição de unidade e conquista de dignidade dos docentes, tinha sido apreendida e levada em conta eis senão, que a ministra vem de novo à televisão reafirmar as posições anteriores, desmentindo as aberturas anunciadas pelo seu secretário de estado, desdizendo as conversações mantidas com os sindicatos, reafirmando, do alto do seu Olimpo, “tudo ficará na mesma”.

Como bem se pode compreender não sendo os cem mil professores cem mil comunistas, muitos seriam votos contados do partido que lhe deu lugar na governação. Assim, diga ela o que disser, ainda que por questões tácticas não convenha ao nosso primeiro apeá-la do trono, a certeza com que fico é que só temos ministra a curto prazo. Porque, em 2009, há eleições e quem quer ser eleito não pode morder a mão que lhe dá o voto.




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março 13, 2008

tema da solidão XI




só se parte inteiramente
quem foi que disse
que partir são bocados de cidade

quando se parte
é com o corpo todo que se vai
nega-se o sol
o sonho é demais

porquê então partir
senão para preparar uma chegada
na incerteza na dor de coração
por não saber se há retorno ou não

daqui só se parte inteiramente

não é possível ficar

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março 10, 2008

Memórias 3 - EPITÁFIO PARA UMA RESSURREIÇÃO DE DOMINGO

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Naqueles anos,sob a influência do existencialismo , escrevia assim:



Por acaso, hoje, foi domingo. Podia ter sido um outro dia, mas não foi. O domingo amanheceu silencioso, parece-me que até já isso e hábito. Como nada tinha para fazer, deixei-me estar na cama até me doer o corpo.

Gosto de ficar na quentura mole do regresso do sono, a sonhar quase na realidade, o mundo que me apetece, nas coisas que de antemão sei que não possuirei, porque são passado e o homem vive no presente.
Depois, quase sem dar por isso, chegara a noite. Com ela veio solidão a apertar-me dentro, nem sequer me deixando o orgulho de sentir-me só. Tive a tristeza a construir-me a noite, a intranquilizar-me, e a saturar-me de estar farto.

Olho para mim e pergunto o que faço e porque o faço. Não distingo objectivos. E tudo tão solitariamente material.

Durante os dias normais, o turbilhonar daquilo a que chamemos quotidiano faz-me divergir os pensamentos. Nestes dias, porém, o silêncio entra em mim duma maneira dolorosamente esquiva e as ausências tornam-se maiores. Tento enganar-me, dizendo que sou superior a tudo quanto possa acontecer-me. Sei que não o sou, mas terei que sê-lo.

Da soleira duma porta, iluminada pela luz pobre dum bairro de lata resmungava uma voz irada de mulher:

-Anda meu desgraçado, vai para a bebedeira. Porque terei eu casado com esta porcaria de homem? Deixa estar que, quando não tiver comer para os teus filhos, te ponho uma armadura tão grande que não entras na rua Augusta...

Cá para comigo monologuei que mais dia, menos dia, o homem estaria mesmo "empalitado", se é que não o estava já. Talvez um dia eles se tivessem amado, tivessem prometido mundos um ao outro. A vida levou-os aquilo. A miséria matou o amor e os estômagos vazios, pesam mais que uma alma cheia de ilusões.

Vi, como há pouco, aquele casal novo que se ria da chuva. As pessoas voltavam-se quando passavam, encolhiam os ombros ou sorriam. Para mim, no meio daquela multidão impessoal, eles eram uma promessa de frescura na aridez do meu deserto interior.

Este acontecimento deu-me para pensar. Do meu pessimismo veio-me, para eles, que tão confiados iam, uma pena quase eterna. Um dia acordariam do seu sonho de deuses. Ao olharem os seus andrajos humanos, iriam sentir-se bem mais pobres, infinitamente sofredores e desesperados.

Nós somos assim. A nossa natureza sociável, porque o é sem dúvida nenhuma, não nos permite viver muito tempo em contacto com alguém, sem que os mais variados choques psicológicos aconteçam. São sempre as ninharias que mais contam para criar desentendimentos irreparáveis. Um grande problema predispõe o homem para a grandeza. Abre-lhe a alma. Torna-o superior. A razão inversa acontece com os pequenos problemas. Isto leva-me a concluir, talvez precipitadamente, que o homem é um ser de extremos na luta por um terreno médio, que pessoalmente não posso conceber. Sinto essa posição como uma fuga à responsabilidade. Devemos ter o orgulho de enfrentar os nossos actos, de suportar-lhes as consequências. Somos nós quem vamos construindo o futuro. A vida não é como dizem algumas filosofias, uma linha recta, traçada quando nascemos, ou antes e acaba na morte ou mesmo depois. Essa linha do destino, a existir, tornaria estúpida qualquer tentativa de libertação qualquer tomada de posição, qualquer progresso.

Um acto torna-nos responsável, não só por ele, mas pelos que o seguem e, em consequência do anterior, aparecerão. Cada um deles dar-nos-á um número de caminhos diversos. Nos escolheremos aquele que o momento, a hereditariedade, as hormonas, o tempo, isto é, nós e sobretudo nós quisermos. Uma constante opção é o acto vida; acto principal duma carreira infindável de actos menores.

Divagando cheguei a casa. A minha casa é um quarto com uma janela pequena, que dá para uma miserável imitação de quintal. Moro ali agoniado e preso pela liberdade de um dos meus actos. Tudo o que lá vive dentro me agarra e tem um sentido tão próprio, que não sei se sou eu quem dá vida aos objectos, se eles a mim.

Na minha terra era quase feliz. A despreocupação era o meu lema e da vida ia retirando os pequenos prazeres, que nos fazem duvidar das pessoas que choram. Um dia, alguém, ou um sorriso, me fez pensar que devia ser mais no mundo. Esqueci-me de tudo e lancei-me na cidade grande, todo esperança, todo vontade, até que esse sorriso me faltou. Tenho sempre comigo o "nosso" último livro. "0 Mágico" de Somerset Maugham. A dedicatória, por irónica, faz-me sorrir. Não é que tenha sido ou seja essa a sua função, mas sim porque um acto tornou mentira as palavras que se disseram e o que entre nós se passou. Aquele livro encerra algumas delas e às vezes sorrir e uma forma diferente de chorar...

Lá fora deixara uma multidão embaraçada em impermeáveis e guarda-chuvas, a maldizer o tempo. Felizes ou infelizes? Criaturas que nada mais tinham, pelo menos aparentemente, a preocupá-las, que a presumível gripe.

Bah! Gente mesquinha - dizia-me num esforço de auto-consolação. A verdade é que me sentia bem pequeno e desamparado ao pé dessa gente vulgar.

Vulgar!!! É um termo com outro qualquer, a que nós demos um significado e que usamos para classificar o inclassificável. Acresce ainda, que nesta época em que toda a gente luta pela invulgaridade, o invulgar é mesmo ser-se beatificamente vulgar.


Como um relâmpago surgiu-me a ideia do que, em minha casa, faria numa noite destas. Por alguns momentos, ai de mim, saí da prisão conceitual da gravata domingueira a vi-me livre na terra dos meus sonhos.

Chovia! Por lá, também o tempo ia chorão - com tanta experiência atómica estragam o tempo, dizia a gente velha do meu sítio. Numa noite assim, é quase certo que ficaria em casa a ler, ouvindo a dança da chuva no tecto de telha-vã. Esmagaria o nariz nos vidros embaciados, para espreitar os vultos fugitivos, os guardas chuvas negros a brilharem sob a luz molhada das lâmpadas sonolentas. Quando já fosse tarde demais, talvez saísse sozinho, à procura nas ruas escorregadias, de um motivo para me andar a molhar-me, a uma hora tão tardia. Não faria nada de extraordinário, é certo, mas que são actos extraordinários mais que meros acasos? E a vida, que é mais que um desses acontecimentos.

Já não me sentia bem no quarto. Aliás, nunca me sinto completamente bem em algum lugar. Sinto que onde não estou, é que devia estar. Por isso, nunca estou no sítio certo.

Saí, talvez a procura de mim nas ruas escuras, nas ruas baças, à hora em que se vende nas ruas, amor de deve-haver, de tempo contado, de cheiro enjoativo a suor, momento de fêmeas e machos no esquecimento fácil das contas da vida.

O meu problema e de princípio e fim. Porque nasci? Para que nasci? É culpa minha não saber estas respostas? Nunca me deram nada a que me agarrasse para viver. Em cada momento me vejo a inventar amarras, que por fracas ou coincidência desastrosas soçobram. E fico outra vez à deriva. È certo que sempre fui capaz de inventar uma outra finalidade mais ou menos longa. A imaginação é que não dura sempre. Quantas vezes mais serei capaz de me inventar no universo? Terei eu razão nos meus problemas, ou as pessoas que sub-vivem sem preocupações de finalidade?

Passou por mim, a cantar, um bêbado. Vai aos bordos. Cada passo e um compêndio na arte do desequilíbrio. Será isso uma solução? Acho que não. A alienação, ainda que parcial, nunca o será, porque as soluções exigem coragem e vontade. As fugas não! No entanto estou convencido que nem tudo é ruim. A capacidade do ser-se feliz existe algures e em alguém. Só quem, como eu, pede tudo de tudo, se encontrara sem nada. Quem esbanja cedo, tarde lhe falta. Mas que posso eu fazer? O mundo e um campo de luta onde eu terei que impor a minha certeza, ou ser esmagado pela certeza dos outros. Sei que não passo de um indivíduo entre milhões. Ao mesmo tempo sou mais do que isso, porque sou eu e como eu, sou único. O que acontece comigo, acontece com os outros milhões. Uns duma maneira outros doutra, todos lutamos por uma meta mais longa. A luta humana acontece onde esteja um homem e uma mulher. Apesar disso, ninguém é feliz, ninguém pode ao menos dizer que se está a realizar. A felicidade só existe em escassos momentos. Mesmo assim, não passa de uma armadilha, porque após ela, vem o desengano, a dor dos espíritos e dos corpos e os homens ficam, cada vez mais, sozinhos. Quem sabe mesmo se é isto que justifica ainda o acto de viver.

A abstracção dos meus passos levou-me até um bar escuso. Sentei-me. Agarrei em papel e estas palavras começaram a surgir-me. Dentro em pouco irei parar. Já disse muito de nada e não vou perder mais tempo. Afinal nós somos uns mentirosos natos. Quanto do que eu disse não passa de uma representação teatral de mim, duma incapacidade, mais ou menos momentânea, para fazer qualquer coisa? Se calhar, amanhã, à luz do dia, as minhas opiniões serão outras. Quem é que se pode perceber?

Nas minhas mãos o colorido velho do “brandy” desfazia-se em vómitos de luz. Levantei-o aos olhos e engoli nele os restos do meu orgulho.

Foi como se um escarro me tivesse deslizado pela garganta…


Guiné, Teixeira Pinto 25/6/67