tema da solidão III
acordados nos sonhos das cascatas
trídulo cantar de uma avena
Literatura, intervenção cívica e o mais que vier.
Posted by
Carlos Correia
at
12:26
0
comments
Posted by
Carlos Correia
at
00:13
0
comments
Posted by
Carlos Correia
at
23:59
1 comments

No início da década de 70 do passado século, Bourdieu e Passeron, sociólogos franceses, publicaram um livro, que veio a fazer doutrina, chamado La reproduction.
Nestes estudos os autores partiam da hipótese de que a escola, apesar de reclamar para si a capacidade de introduzir na sociedade factores de ascensão social, unicamente baseados no mérito individual, assentava hipocritamente na reprodução social, isto é, na transmissão, de pais para filhos, de posições equivalentes na estrutura societária.
O método utilizado foi o da observação do percurso escolar de um grupo de jovens entrado em determinado ano no sistema escolar. Assim, e sumariamente, os autores verificaram que uma grande percentagem de alunos abandonava a escola no fim da instrução primária, que os restantes avançavam para o ensino secundário e que só uma muito pequena parte seguia para estudos superiores.
Até aqui nada de novo, dirão os meus possíveis leitores, desiludidos com este arrazoado e possivelmente pensarão que estou a fazê-los perder o seu rico tempo afirmando o que é facilmente descortinável a qualquer um mesmo sem a mínima preparação sociológica.
O interessante é que os autores em referência decidiram dissecar os percursos escolares e profissionais dos pais dos componentes do grupo em análise.
Surpresa das surpresas, ou talvez não, verificaram que aqueles que abandonavam o ensino no final da instrução primária eram filhos de famílias operárias e onde a instrução primária era a dominante; já os que seguiam para o secundário tinham como pais pequenos comerciantes, funcionários públicos, encarregados oficinais e por aí adiante; os poucos que chegavam ao ensino superior eram, “inesperadamente!!!”, filhos de licenciados e das classes dominantes na sociedade.
Deste modo, os nossos autores desmontaram o discurso hipócrita da democracia e do mérito e mostraram que a escola era, como tantos afirmaram antes e depois, um instrumento ideológico visando a manutenção da estratificação social existente, alterando apenas o suficiente para que tudo se mantivesse igual.
Por alturas deste estudo, ainda em Portugal, o ensino não era massificado. As divisões sociais eram demasiado marcadas e evidentes através de extenso número de analfabetos e da cisão do secundário em estudos práticos – escolas comerciais e industriais - para os filhos das classes menos classificadas, liceus para a classe dos futuros funcionários e universidades para a esmagadora minoria dos possidentes ou equiparados. A inquietação pelo ocultamento do fenómeno da reprodução social viria apenas com o 25 de Abril e as sucessivas reviravoltas dos diferentes projectos sociais.
No entanto não devemos esquecer a preocupação de Salazar, tentando igualar-nos às nações europeias em número de alfabetizados, ao “conceder no mínimo a terceira classe” à maioria dos cidadãos nacionais. Seria ideia louvável se se traduzisse no efectivo apoderamento de conhecimentos por parte dos atingidos mas, como foi patente, apesar da camuflagem, tratava-se apenas de uma operação cosmética, visando uma movimentação quantitativa e meramente estatística. Depois da campanha nem os portugueses liam e escreviam melhor, nem tinham adquiridos novos conhecimentos ou hábitos, mas as comparações numéricas em sede internacional demonstraram o grande salto em frente do nosso país na valorização das aprendizagens e na aproximação ao nível de escolaridade das populações europeias.
O actual Governo, mormente através da sua ministra da educação, apresentou-se com um discurso de valorização do ensino, fautor de modificação e aumento de competências, de incremento do mérito, do esforço e do interesse.
Discurso interessante, prática decepcionante.
Não vale a pena insistir muito mais sobre o relacionamento instaurado pelo Ministério da Educação em relação aos “seus professores”. Onde se queria valoração apareceu humilhação; onde era de esperar reforço de poderes disciplinares e tempo para a aplicação de pedagogias ajustadas e reconhecimento de métodos, estatuiu-se burocracia; em vez de apoio aos melhores profissionais orientaram-se as mentes para processos administrativos e do parece ser…
Enfim, continuamos com mais do mesmo.
Um professor tem necessidade absoluta de se dedicar, no seu tempo de trabalho, por inteiro, aos seus alunos. Seja por atenção directa em sala de aula; seja por tempo dedicado a actualização e pesquisa; seja por correcção e acompanhamento de trabalhos ou por abertura de diálogo com os encarregados de educação, de molde a que o ensino não se torne um abstracto descarregar de conceitos estranhos à vida e que a maior parte, por não se aperceber para que servem, somente atura e quase sempre rejeita.
Colocar o professor trinta e cinco horas semanalmente na escola poderia ser uma boa decisão se lá houvesse estruturas tais como gabinetes, bibliotecas actualizadas e outros meios de trabalho em quantidade e qualidade suficiente para que o professor, terminado o tempo lectivo, pudesse então preparar aulas, corrigir testes, acompanhar alunos, atender pais. No entanto, como sabemos, não é isto que acontece e os professores, de castigo por qualquer indizível culpa, permanecem nas suas escolas, ocupando o seu tempo em miríades funções, algumas desviadas do papel docente, e terão de ir para casa - roubados do merecido descanso e do apoio à sua família - passar horas e fins-de-semana, a tratar de actividades exclusivamente dedicadas aos vários actos a que bem ensinar obriga, sem remuneração por este trabalho extra e nem sequer reconhecimento dos órgãos ministeriais.
Para tornar ainda o discurso ministerial , sobre mérito, mais absurdo e distanciado do mundo real, aparece agora a peregrina ideia de retirar às escolas a possibilidade de reprovar por faltas os alunos, tão desinteressados do acto de aprender, que nem sequer o esforço mínimo requerível – estar presente na aula – estão dispostos a despender. Para eles, será, provavelmente quando lhes apetecer, feito um especial exame de recuperação!
A minha alma pasma!
Exame de recuperação de quê? Se o aluno não está interessado, se por faltar frequentemente às aulas não pode captar os conhecimentos que lá são transmitidos, o que e onde pode ele recuperar? Espera-se talvez que por um acto mágico, repentinamente, o trânsfuga tenha um sopro de iluminação e debite o que não sabe nem nunca se esforçou por aprender?
Ou será outra coisa pior?
Então se todos tiverem oportunidade de atingir o décimo segundo ano, mas se esse grau de ensino for, subtilmente, desvalorizado nuns alunos e valorizado, por efectividade de saberes ou prosseguimento de estudos noutros, não estaremos a acentuar uma distinção social que virá facilitar a continuidade de reprodução da estratificação existente?
É evidente que não. Tal enormidade não poderá deixar de ser um acto perverso do meu modo de encarar as claras e eficientes medidas da Ministra da Educação, a qual, por opção ideológica, está obrigatoriamente imersa num pensamento socialista de inclusão igualitária por mérito próprio e nunca, por nunca ser, tenderá a perpetuar diferenças pelo acaso de uma mais elevada capacidade socioeconómica mantendo, ao mesmo tempo, o favorável evoluir das estatísticas de literacia nacional.
A propósito parece-me que nos melhores colégios particulares esta disposição sobre faltas não irá ser acolhida e que os mesmos continuarão, apesar da perda de propinas, a expulsar os alunos desinteressados e faltosos.
Que estranhas razões enformarão este tão grande altruísmo?
Publicado in “Rostos on line” – http://rostos.pt
Posted by
Carlos Correia
at
23:57
1 comments
na leitura completa e transcendente
mergulhamos vazios neste café
onde ausência funciona intermitente
num tejo mansarrão que perde o pé
intromete-se o rio na minha bica
neste momento ignoto introspectivo
e nunca sou aquele que atrás fica
tão somente um presente objectivo
sobre a palma rota desta mão
fica o futuro porto a descoberto
em volutas lineares de solidão
e todos vós amigos estais tão perto
do lume que incendeia o coração
que eu entro no café de peito aberto
de repente
reparo que o poema
se recusa ao que sinto
e se tranforma inútil
no morfema
das dores em que me minto
Posted by
Carlos Correia
at
12:02
2
comments
Posted by
Carlos Correia
at
20:47
6
comments

I
aguardo agora a passagem da paz sobre o colibri do tempo
tumultuosos de imensidão doem-me os espaços
aqui te espero e me perfaço
alguém me disse
a hora de partir é um inverso sorriso
dolorido no momento
em que prantos morrem por dentro das vozes
tal um substantivo estala lentamente no real dos dentes
e adormece recalcando a luz e o olhar
aguardo calmo o tempo
de parar
II
estudas vagamente o lento traçar das pernas
espontâneas as coxas sobrenadam
recolhidas nas memórias
resides nessa messe subtil e recortas o recôndito do sexo
pleno exercício de perfeccionismo
quando te dás e és meiga generosa e pensativa
encontro-te por vezes no todo onde resisto
lugar de movimentos e recusas
procura imediata de tudo quanto é novo
inocente e pleno e montado na loucura das palavras
setembro avança e as notícias vagamente vão chegando
III
há quanto tempo espero o teu sinal
égua de vento carrossel de chuva
e preparo as imagens que se perdem nos amados Setembros
entre as muitas águas da realidade
dizes-me
em setembro meu amor iremos aos campos
onde as borboletas se amaram com doçura e se extinguiram
pequeno fogo que ilude as madrugadas e o céu é pasto
de mansas estrelas iniciais
pedes-me mudamente que te espere
contas histórias incompletas e heróicas
produzindo os alicerces da minha catedral
porque me falas de setembro
se todas as sombras estão paradas
e desmoronadas pelas frinchas da tristeza
as paredes escurecem em prematuros invernos
vesperais
que nada tivesses dito por setembro
e me fosses interdita meu amor
nem teimasses em parecer possível
ó irrealizável alvorada de azul transparente e completa
tonta gazela que te esvais nos moinhos das palavras
quando desapaixonada comentas
em setembro lembro-me da morte
e fechas os olhos contra a almofada
e calas o medo das tardes
por enquanto doces e doiradas
e do vento fresco nos ocasos
pesados em abismo sobre os olhos
melancólicos e trágicos de nuvens
plantadas à porta dos sorrisos
IV
em setembro longe das promessas por fazer
ou dos sonhos por cortar
construí esta história nas asas dos ventos minerais
em setembro não vieste o sonho desfazia
em setembro entre raivas e esperanças
o tempo por demais se consumia
Posted by
Carlos Correia
at
22:01
1 comments

I
recordo a melancolia dos beijos
suspensos entre o hálito de setembro
e um insuspeito golpe de outono
traduzo o lume brando dessas tardes
os ocasos fortuitos de langorosos sóis
no ruge-ruge de olhos marginais
no incómodo da pele traça a tua mão
arabescos de fogo sobre as malvas
estáticas em tórridos areais
II
soltam-se as primeiras nuvens e os céus
ainda claramente juvenis caem na modorra
dos apressados hábitos
cinzento é acampamento de esperanças
no solitário corte dos umbrais
III
eu sei
não mais cantos de cigarras não mais
somente as ternas sensações pretéritas
remordem em remorsos outonais
eu sei
e por saber estou de qualquer modo
por demais afastado da acção
recordo os lumes velhos
e esmagando rumos ou trovejando camas
procuro no casulo a paz desta estação
dobo a luz afago a natureza
preparo o advento na minha fortaleza
de outros dias grandes e ferozes
onde termine a minha hibernação
IV
o vento largo e fresco amarinha
arrasta as coisas velhas pelo ar
setembro é chegado
a luz caminha
devagar
Posted by
Carlos Correia
at
18:56
0
comments
Mercado de Rua "Marquês de Pombal": Mercado de Santa Maria / Verderena - Curiosidades...
Movimento de Cidadania em prol do Mercado do Marquês. Iniciativa de Cabós Gonçalves a apoiar. Visite o Blogue.
Posted by
Carlos Correia
at
23:58
1 comments

Foi uma estranheza. Um escancarar de boca. Uma autêntica espantação!!!
O meu amigo Franklin, génio maior da defesa do comércio local estava ali, mesmo na minha frente, no mais impossível dos lugares. No centro comercial.
Perguntar-me-ão qual a novidade. Qualquer pessoa vai a uma grande superfície, pelo menos, de vez em quando. Até mesmo os mais renitentes comerciantes tradicionais lá vão fazer umas compritas…
Só que o Franklin fazia gala em nunca ter entrado num centro comercial. Para ele, todos os malefícios da sociedade de consumo, todas as agruras da globalização ali se encontravam, física e simbolicamente, representadas. Se o demónio residisse em algum lugar era nesse antro que, certamente, repousaria os seus metafísicos ossos. A sua Bíblia era a Caverna, de Saramago, a sua caldeirinha de água benta, o abaixo-assinado contra a abertura das grandes superfícies ao Domingo.
Por isso lhe disse: - Oh! Homem, tu por aqui? Mas que grande sacrilégio! Então e o comércio tradicional onde fica agora?
- Nem me fales nesses gajos – explodiu. Que rebentem todos! Nunca mais me vais ver numa loja qualquer. Palavra de honra. Seja eu ceguinho se mais alguma vez caio nessa parvoíce.
Iracundo gesticulava violentamente enrubescendo quase até à apoplexia.
Pensei para comigo que só coisa muito séria levaria o meu amigo a voltar as costas aos aliados de uma vida e tornar-se assim, todo de rompante, para o inimigo.
-Conta lá, pá!
Abriu-se a barragem e o rio desaguou torrentoso pela encosta das palavras.
Era uma vergonha. Não podia ser. Então ele, que fora convidado para um casamento, ao dar a volta ao guarda-roupas não encontrara véstia digna da cerimónia. Decidiu por isso comprar uma sécia catita que estivesse à altura do acontecimento e não envergonhasse a família. A mulher bem o tentou para ir ao centro comercial: - porque lá havia muitas lojas, maior escolha e o preço até poderia ser bem melhor. Por causa da concorrência (esclareceu). Mas ele, nada. Certo da sua razão apostou em comprar o fato numa casa comercial do burgo. Centros comerciais é que não! Logo ele que os considerava um clamoroso perigo de lesa tradição.
Por isso, arrastando uma furibunda esposa, correu seca e meca e lá conseguiu encontrar o fatito que lhe ficava a matar:
- Punha-me dez anos mais novo.
Logo ali o mercadejou e marcou alturas e larguras para que a roupa se lhe ajustasse à figura.
Transacção quase efectuada e eis que surge um problema. A costureira estava sobreocupada e demoraria alguns dias a fazer os arranjos. O Franklin esclareceu a vendedora que embora o fato só fosse necessário no mês seguinte, era imprescindível que estivesse pronto antes do fim dessa semana. É que ele ia de férias e só voltaria na noite da véspera do casamento. O argumento convenceu a vendedora. Prometeu-lhe logo ali que no sábado seguinte, pela manhã, teria o fato arranjado e à sua disposição. No entanto, por precaução, o meu amigo ainda frisou:
-Olhe que não pode falhar! Era para sair no sábado de manhã mas vou adiar a viagem para a tarde para vir buscar o fato.
-Mas por quem nos toma Sr. Franklin, escandalizou-se a vendedora. Palavra dada!
Foi dada mas não foi cumprida. Na manhã de Sábado bem andou o Franklin de volta da loja. O fato não estava, a vendedora idem e o empregado que o atendia não conseguia encontrar sequer a nota de encomenda. Por isso, cheio de cólera e angustiado, partiu o Franklin para férias a pensar que teria de arranjar-se com o que tinha em casa, nada à altura daquele acontecimento social que já assombrava o gozo das suas férias.
Dada a arrelia que lhe ia no coração a sua mulher telefonou para a loja, falou com a empregada que tinha feito a venda e entre raivinhas e desculpas combinaram a antecipação do retorno em um dia para irem buscar o fato que, assegurava a vendedora, estava, mesmo ali na sua frente, arranjadinho de todo. O Franklin anuiu, suspirou e descansou. Estava salva a honra da família!
Voltaram e foram em demanda do ansiado fato. Mas qual quê! Por muitas voltas que dessem a vendedora, ela própria que afiançara a prontidão da roupa, dizia compungidamente, como havia ainda tanto tempo, não se tinha pressa, a roupa não fora logo enviada para a costureira; que ficara à espera de melhor vaga, que tinha havido engano e que por fim, o esquecimento se instalara e agora não havia nada a fazer. Sim, sim, devolveria o dinheiro. Então, era uma casa séria, de porta aberta, em que os clientes podiam ter toda a confiança…
O Franklin explodiu! Antes de partir a loja, foi arrastado para a rua pela mulher, sob o olhar indignado da vendedora, que não percebia como podia haver gente tão mesquinha, capaz de criar confusões por dá cá aquela palha, tão incapaz de perceber a tremenda complexidade da sua tão difícil função.
Esmagado pela tremenda necessidade de ter o fato novo ou de ceder nas suas convicções, o meu amigo deixou-se convencer pela mulher e cedeu. Foi ao centro comercial e teve sorte. Um fato bonito, um empregado a querer subir na vida, a necessidade do cliente a ser ordem e volte cá às nove da noite que tem o fato pronto. E teve.
Por isso agora o Franklin com a mesma força que punha na luta a favor do comércio tradicional luta agora pelo seu total desaparecimento debaixo das grandes superfícies. Quando eu lhe disse: nem tanto ao mar nem tanto à terra, olhou para mim com os seus olhinhos furibundos e rematou:
-São todos uma cambada. É esmagá-lo, Ireneu, é esmagá-los.
Publicado in “Rostos on line” – http://rostos.pt
Posted by
Carlos Correia
at
15:23
6
comments
I
não há barcos em ítaca morre-se entre o nevoeiro
e ulisses não volta
não há remos e as ilhas
afundam-se entre a barra sem a barca de ulisses
circe desmonta inútil o encantamento
eólo brame as velas afasta tróia e
em tréguas de sal penélope espera na moldura
em vão espera penélope um ulisses se âncora
ulisses desgarrado nas quilhas da inquietação
penélope espera em vão
II
o seu corpo pairava sobre as águas
concebível nas formas que lhe dava
o seu corpo quieto sonhando o movimento
não se aquietava
em plena era de bruma sobre as águas
feridas de ulisses vinham as memórias
onde ulisses já sem vida se agitava
III
volta de novo ao esconço da capa dp retorno
morre capitão torna soldado ferido e sem glória
volta momento e só sem mais história
mas ulisses já não volta
consumido por presságios morenos que trouxera
corta as amarras e a miragem de ondas que fizera
e na sua metáfora
escondido momento de amargura
penélope está à espera
sem procura
Posted by
Carlos Correia
at
15:20
1 comments
(imagem David Ligare)
penélope a que espera por paixão
já não espera não a espera
desesperada
penélope
já não espera nada
porque esperar é um cansaço de olhos
um cardo
escolho da terra desventrada
penélope
já não espera nada
e no entanto
ulisses em tardança
é uma forma perversa
de esperança
é que penélope não espera a espera
atende que a porto desejado
a clássica manhã se aventure
no espaço transformado
assim penélope
no termo da solidão
fica parada
e não espera nada
Posted by
Carlos Correia
at
18:41
0
comments
hoje ulisses embarcou
num ovni
a caminho da estranheza
apegada à terra
penélope circunda os espaços
na procura da fronteira
dos abraços
ulisses tem
uma nave um caminho
e penélope a firmeza de um carinho
só concebido em votos
mas real
se ulisses é o percurso
o por fazer
penélope é o porto da certeza
de uma imensa forma
de estar
ulisses passa mal
agoniza no tempo
penélope tece o seu momento
a sua calma forma
de aguardar
o mar é um espaço
um fosso um tormento
que há que navegar
de repente a ilha
o asteróide surge
na proa enloquecida
sabe ulisses então
que viverá ali
um tempo já vivido
de polifemo o gado pasta lá
e a fome de ulisses repentina
aguça-lhe o engenho e vá não vá
toca de dizimar a raça ovina
polifemo está só
no seu disforme corpo
no seu olho solitário e transviado
roda a saudade como dura mó
suavizada apenas pelo cuidado
que em desvelos ao seu rebanho
dá
polifemo disforme é generoso
e percebe um filho seu em cada anho
polifemo está só
que galateia por ácis o trocou
e partiram para a morte bem juntinhos
no sonho que os tocou
em vão polifemo
tenta esquecer
o amor que ele mesmo
fez morrer
ulisses o sozinho não apreende
em polifemo o companheiro
a quem a solidão mais dura ofende
e contra a sua nave
o seu ribeiro
trocaria de boa-mente o polifemo
o seu rebanho inteiro
desesperado
ulisses sem razão
mata a esmo
procura na carnagem a vingança
para o não regresso
a cruel tardança
em que lhe tarda a volta
e a esperança
aparelha a nave e quer partir
nada escuta e num olhar
tresvairado pelo soco do a vir
fixa a muda nave em rota estelar
e deixa o gigante
sem nenhum rebanho para cuidar
ai do cego ciclope
corpo disforme
sempre a recordar
onde o apagado olho
já não brilha
como farol do tempo
fogo enorme
onde a nave de ulisses
te deixa sempre só
na tua ilha
ele por si tem o seu curso
percorre a aventura
e se não encontra aqui
o que procura
pode sempre ir mais longe procurar
e tu que de galateia
o eco só tiveste
estarás sempre mais só
sempre mais triste
porque quanto tu tiveres
será roubado
no espaço cego
polifemo chora
a morte do seu gado
Posted by
Carlos Correia
at
13:21
0
comments
telémaco a quem atena conduziu
em busca de seu pai
a própria vida
do povo que assumiu
como ulisses
de navio parte em viagem
e sempre pelo tempo ultrapassado
telémaco não viaja em sua rota
é viajado
que busca telémaco
nos caminhos do mar por onde vai
nem ele sabe
os fados que pocura
só lhe contaram
que além da zona escura
o sol aparecerá
um destes dias
é por isso
que sem busca
telémaco
não havia
Posted by
Carlos Correia
at
17:25
0
comments
I
sob o olhar de circe
a desmedida
ulisses aportou à ilha
ali quis enterrar
tróia destruída
mas sobre o sangue de páris
derramado
por enquanto tróia ardia
os guerreiros em retirada
instantes descobriram
as armas embotadas
ninguém ganhara nada
só tróia no seu fogo
a vida consumia
de helena agrilhoada
no caminho de esparta
presentia
que menelau ansioso
a aguardava
e nunca saberia
que era páris o morto
que ela ainda amava
nos olhos de circe
a sem medida
inútil ulisses tentava adormecer
II
ulisses está parado
olhando a calmaria
que inquietações
lhe nascem nos sentidos
circe perturbada redobra o encantamento
e o seu vestido
semeando campos de luar
tranforma toda a ilha
num infinito rio de navegar
ulisses em movimento
parado junto à praia
faz viagens ao redor
da sua saia
III
mas se ulisses acorda
e se esvanece a ilusão de marear
nesse dia circe
a esquecida
não vai tecer cadeias
no olhar
ficará circe
convertida
na felicidade
de o saber de novo livre
nas vastidão do mar
Posted by
Carlos Correia
at
20:49
0
comments

(imagem http://www.rafaeltrelles.com/espanol/obras1977.html)
está quebrado o mastro
e as cordas deslaçadas
jaz a nave sob espuma
naufragada
quando doente de sonho adormeceu
a locura dos deuses recebeu
está quebrado o mastro
ao longe os companheiros
numa jangada
a voz de lorelei
está embargada
pela força com que ulisses se espanta
de a sereia abraçar
enquanto canta
está quebrado o mastro
mas na vela a viagem continua
na imagem do seu rastro
as vagas
ulisses no sonho inquietaram
e as algas
todo o sonho devoraram
para não retorno
ulisses as cordas deslaçou
e no palor da alva estremunhada
com lorelei dançou
mas de repente
enquanto a sereia canta
por si só ulisses se levanta
nos seus ouvidos ruge a primavera
soltam-se dos cantos as seduções
o silêncio é um hino
as multidões
reparam nas estrelas
ulisses é a força
a viagem
a aventura
o mito do regresso
é a textura
que faz de ulisses
meu irmão
os cantos das sereias
muitos são
mas por mais braços
nos cinjam a cintura
partiremos sempre
à procura
dessa penélope
que espera em vão
ulisses por si só
do abraço se levanta
a seus pés
a sereia já não canta
como um sorriso do céu
a nova lua cheia
nos encanta
Posted by
Carlos Correia
at
14:15
0
comments
foram as vagas quem lhe transmitiram
a infausta notícia
a queda da mulher
em ulisses o altar da diferença
derruiu
e pensou nela
como uma qualquer
nesse momento circe enloqueceu
ao pensar que ulisses se perdera
e nos seus olhos finalmente se espelhou
um céu onde azuis
se relectiam as esperas
as vagas
que de ítaca vinham desvairadas
cavalgavam ventos
e normas estropiadas
só ulisses navegava a aventura
porque a ilha onde a queda se plasmava
assentava arraiais noutras funduras
confirmou-lhe uma ave
que penélope
noutras águas hoje navegava
que o seu leito estava apodrecido
pela distância da saudade e que a ternura
que hoje nele de novo se gerava
não era de penélope outra coisa
que homenagem ao seu amado
que nunca mais chegava
então ulisses tristemente adormeceu
e pelo sonho
noutro corpo
penélope o recebeu
Posted by
Carlos Correia
at
15:39
0
comments

(imagem aspirinab.weblog.com.pt)
penélope à partida
tem um pretendente
penélope de esperar
está doente
já na praia cansou
o seu olhar
já na teia
a trama emeudeceu
perante o ressoar d'outras sereias
penélope pelas veias
sente o sangue arder em correrias
a penélope só ulisses serviria
só de ele ela gostaria
continuar esta espera angustiada
mas penélope olha o mar
e não vê nada
surge então uma grande
frustração
que gela o coração de toda
a gente
e penélope - não esqueçam
tem um pretendente
Posted by
Carlos Correia
at
14:48
0
comments
ouvira já falar de helena
e cada vez que a palavra pressentia
ficava mais pequena
pensava que ulisses assediando-a
não poderia escapar
ao seu assédio
penélope em ítaca
temia tróia
e morria de tédio
diziam que era a mais bela das morenas
que a mente dos homens ensandecia
e que os reis lhe dedicavam novenas
como aos deuses se fazia
helena de penélope não sabia
nem em ulisses reconhecia o viajante
pequeno rei de povo ignorado
só sabia de páris que de rompante
o rapto em amor tinha tornado
seráfica helena aguarda o seu destino
enquanto agamémnon por sobre o vento
numa magia feita desatino
procura transformar em forma o tempo
penélope
só sabia de helena
ser ela até falada
por atena
por isso estremecia
no seu leito
e se abraçava
ao corpo contrafeito
à ausência
do chamado
nas ameias
helena aguarda
o cavalo do destino
e a morte
do amado
Posted by
Carlos Correia
at
18:01
0
comments
é aos deuses que dirijo
esta imprecação
aos deuses que cruéis e desumanos
beijam na boca
o sonho dos mortais
ainda a clepsidra não rodou
e já as velas difusas
no horizonte se fundem
a sibila murmura palavras
que não me iludem
que no meu choro pressinto
muro de tróia a arder
o tempo deste absinto
feito fruto de sofrer
sou penélope
a que espera dos deuses
consolação
na trama do meu regaço
guardo o futuro
da nação
e sou mulher nesta espera
do tempo que for capaz
que o peso que em mim carrego
só nasça se for rapaz
Posted by
Carlos Correia
at
18:34
0
comments
serei breve tu sabes
a partida é só prenúncio
de chegada
como a noite anuncia
a alvorada
e o ninho nos diz
que a primavera
vem chegando renovada
em tróia uma nova lua
espera o momento
de a desvendar
é este mulher um encontro
a que não posso faltar
serei breve
porque breve é a vida
e curto o espaço do vivido
é na ausência
que começa a festa
do regresso acontecido
serei amiga breve
aquece o coração
que voltarei com as naves do inverno
roxo de frio e emoção
o teu calor abrigará o meu navio
mas agora tenho de partir
diz-me o coração
amiga... o teu corpo
é o meu timão
Posted by
Carlos Correia
at
22:48
1 comments

Pensei chamar a esta crónica o “ovo da serpente”. O título convinha-me porque, sendo bebido no filme de Ingmar Bergman, de 1977, era ponto de partida para a ideia da criação de um monstro, o qual, de forma pretendida e dissimulada, ou apenas por mera distracção ou incapacidade governativa, haveria de levar o país a uma difícil situação social ou, no caso do filme, o mundo à quase destruição pelo ideário nazi. No entanto, uma pequena pesquisa na Internet veio mostrar-me como esta minha brilhante ideia já tinha sido tida e usado, pelo menos, por cinquenta mil e dois outros autores. Assim, lá me fui à procura de título sugestivo, menos usado e que simbolicamente remetesse para o meu objectivo.
Encontrei-o no poema do Fausto, “Por este rio acima”, que em parte transcrevo:
“Por este rio acima
Deixando para trás
A côncava funda
Da casa do fumo
Cheguei perto do sonho…”
Ora o terceiro e quarto versos da canção serviam perfeitamente para representar o local inominável onde, por ocorrências várias, no cenário nacional e internacional, me vou sentindo. Porque as questões internacionais são demasiado vastas para inscrever numa simples crónica, estreitando o campo, falarei da côncava funda da casa do fumo nacional. Para estabelecer a necessária ligação, referir-me-ei, ainda que em breves traços, à circunstância onde, na Peregrinação de Fernão Mendes Pinto, aparece a alegoria.
Então, lá vamos!
Andava, por essas épocas, Fernão Mendes Pinto viajando por terras do Japão. Em Fuchéu travou conhecimento com o rei a quem tratou de uma grave enfermidade, tornando-se por isso pessoa grada naquela cidade. Caçava de vez em quando rolas, pombos e codornizes com a sua espingarda, maravilha técnica que espantava os locais. O segundo filho do rei, cativado pelas possibilidades da arma insistiu, com apoio do pai, para que Fernão o industriasse no manejo da escopeta. Tentou escapar-se da tarefa o nosso autor, dados os múltiplos perigos que a utilização de tal arma representava, mesmo para o utilizador, desde que não se tivesse aprofundados conhecimentos da tecnologia e processos envolvidos na preparação e execução do tiro. No entanto, dada a insistência, decidiu treinar o príncipe na arte do disparo. No dia aprazado, ainda o português dormia, o príncipe, acompanhado de dois outros jovens, apoderou-se da arma e, macaqueando o que vira fazer a Fernão Mendes Pinto, carregou-a e disparou-a, com o resultado de a fazer rebentar, ferindo-se gravemente.
A primeira reacção dos nipónicos foi a de matar o português. Alguma ponderação levou a que se esperasse para que fosse feito um inquérito para saber se, por detrás deste acontecimento, não haveria o interesse de alguém que tivesse pago a Fernão Mendes Pinto para que fizesse acontecer tal desgraça. No interrogatório é instado a confessar pelo Bonzo nos seguintes moldes “Eu te esconjuro como o filho do Diabo, que és, e culpado neste crime tão grave como os habitadores da casa do fumo metidos na côncava funda do centro da terra, que aqui em voz alta que todos te ouçam, me digas qual foi a causa porque quiseste que a tua espingarda com feitiçarias matasse este inocente menino que todos tínhamos por cabelos da nossa cabeça?” (Peregrinação, Capítulo 136).
Onde é que eu quero chegar, com isto tudo? Perguntarão retoricamente os meus amigos, sabendo de antemão que me vou remeter para a crítica directa e clara à situação vivida em Portugal, neste ano da Graça de 2007 e no segundo ano da governação do Celeste Sócrates.
Os portugueses confiaram e concederam-lhe uma maioria absoluta. Grave erro na minha opinião. Sendo a Democracia a melhor das sempre más formas de governação, dois limites há que se lhe impõem de forma constrangedora. O primeiro é o limite temporal. Juntando-se este com a necessidade de conquistar votos, no curto prazo, tem esta servidão o efeito de dificilmente serem tomadas medidas estruturais, as quais a serem seguidas, só no longo prazo farão sentir os seus benefícios, trazendo para o curto prazo o desagrado e a perda de votos. O Governo Sócrates, inicialmente, parecia inscrever-se no tipo do governo corajoso, capaz de perder no imediato para maior colheita no futuro. Do desengano falarei posteriormente. O segundo limite é o da tão requestada maioria absoluta. Não há partido que a não deseje, nem governo que por ela se não bata denodadamente.
No entanto a maioria absoluta é uma forma subtil de corrupção dos ideais democráticos. A Democracia não é só meter o papelinho na urna e voltar para casa confiando na previdência dos deuses e na bondade dos homens. É um exercício contínuo de cidadania, crítica, propostas e contraditório. Tudo isto fica abalado quando a tão pretendida maioria absoluta é conseguida. Salvo erro, apenas duas vezes – Cavaco Silva e Sócrates – tal foi atingido. Inicialmente saudadas porque aparentemente a ultrapassagem de oposições, pelo superior número de votos no Parlamento, permite fazer a apresentar obra de imediato, traz em si, um gérmen destrutivo, chamado soberba. Era esta a doença dos Césares e Faraós que, perante o enorme poder do Império, enlouqueciam e se faziam considerar divinos, portanto acima de qualquer possibilidade de aceitarem sugestões ou chegarem a consenso com os pobres e diminutos mortais.
Concluo, portanto, que embora possível e constitucional, a maioria absoluta é uma doença da democracia que se não a nega, a debilita profundamente.
Disto temos a prova nas inconsequências e erros deste governo. Apareceu, com entradas de leão, disposto a diminuir o défice, manter os impostos, transportar o país para os níveis de prosperidade da melhor Europa, diminuir o desemprego, actualizar os conhecimentos tecnológicos dos portugueses, resolver o problema da desertificação do interior, etc.,etc. e etc.
Que vemos nós, dois anos passados das miríficas promessas?
Houve um êxito relativo no valor do défice que não compensa a morte das restantes esperanças. Desacreditou-se o Primeiro-ministro pela inversão das promessa e por episódio pouco dignificante de pesporrência social. Na educação, chave para o progresso de qualquer nação, a ministra, assertiva e inconstitucional, abre várias guerras contra os professores, esquecendo-se que não há educação sem educadores motivados e inventa titularidades – que podendo ser discutidas e abertas por soma de méritos – acabam num pântano cargo-administrativo. O ministro Lino afunda-se, com o governo atrás, no pântano da Ota e de afirmativo e prepotente, de um dia para o outro, descobre que enfim a decisão final não é assim tão final ainda. Lobbies que nalgum esconso local se firmam!
Não fica isento de culpas o ministro dos assuntos parlamentares na questão da domesticação dos media. Não era precisos que ele se esforçasse tanto e tão contra o que já foi e já escreveu. Bastava esperar que o movimento de fusões nas empresas jornalísticas e de difusão de som ou imagem prosseguissem paulatinamente o caminho já encetado. Chegaríamos na mesma à voz do dono. Só que a imagem do governo e do ministro não se degradariam tanto. Esforço desatempado e a mais para o domínio de algo que já está a ser dominado. Ah! É verdade! Falta a blogosfera…mas a essa, com algum tempo lá chegaremos também.
E a saúde como está doente! Fecham-se urgências, maternidades, hospitais antes que alternativas válidas sejam postas em campo. Depois é o burburinho que se sabe. As certezas e os recuos. A afirmação e o voltar atrás descredibilizando estudos, soluções e intenções. É o país desertificado a ficar mais deserto. São as populações jovens a fugir para o já muito desequilibrado litoral, são os velhos a ficar, sem condições à espera que a morte os liberte do isolamento. E tudo em nome de uma boa política de desenvolvimento e saúde.
Só não fico por aqui, e já seria demais, porque sinto o país a fechar-se no medo irracional se ver alguém apontado por falar mal do chefe. Voltámos ao pequeno e ignóbil reino das delações e intrigas onde o que conta é o coeficiente de dobragem de espinha e não a inteireza, livre e responsável, de um cidadão consciente e orgulhoso de ter direitos porque cumpriu cabalmente os seus deveres.
Estas são, entre muitas outras, as razões da minha vil tristeza, por sentir como me embarco e sou arrastado, contra vontade, para a côncava funda da casa do fumo.
É por isso, por longa que vá a palinódia, que não deixarei de citar António Gedeão, em excertos do seu poema Galileo, para que “quem tiver olhos que veja, quem tiver ouvidos que ouça”:
(…)“E tu foste dizendo a tudo que sim, que sim senhor, que era tudo tal e qual
conforme suas eminências desejavam,
e dirias que o Sol era quadrado e a Lua pentagonal
e que os astros bailavam e entoavam
à meia-noite louvores à harmonia universal.
E juraste que nunca mais repetirias
nem a ti mesmo, na própria intimidade do teu pensamento, livre e calma,
aquelas abomináveis heresias
que ensinavas e escrevias
para eterna perdição da tua alma.
Ai, Galileo!
Mal sabiam os teus doutos juízes, grandes senhores deste pequeno mundo,
que assim mesmo, empertigados nos seus cadeirões de braços,
andavam a correr e a rolar pelos espaços
à razão de trinta quilómetros por segundo.(…)
(…)Por isso estoicamente, mansamente,
resististe a todas as torturas,
a todas as angústias, a todos os contratempos,
enquanto eles, do alto inacessível das suas alturas,
foram caindo,
caindo,
caindo,
caindo,
caindo sempre,
e sempre,
ininterruptamente,
na razão directa dos quadrados dos tempos.
Posted by
Carlos Correia
at
22:32
1 comments

nasci lá nos barrocais
e o mê nome é zé pires
fui pastor e fui ganhão
palmilhei o alentejo
botei filhos em mulheres
e nos alcanchais perdi
noutes fugindo da lei
era eu mui novo então
mondava os campos de trigo
pruma jorna de miséria
quando o galo do ti pedro
adregava amanhecer
já me pusera à margia
qu’era longe o mê patrão
lá pró meio do caminho
encontrava a rosa amado
-uma poldra redondinha -
que se mordia aluada
e comigo chafurdou
nos lamaçais da herdade
pus-lhes os tampos numa fona
e a melra pôs-se a bradar
qu’eu a tinha desgraçado
vai daí o velho amado
-que m’engula o inferno
s’isto que digo é mentira-
agarrou na de dois canos
e antes que lhe aprouvesse
romper-me a pele com ela
botei-lhe as tripas ao sol
e rais parta a minha sorte
mais a minha sevilhana
ele esticou o pernil
prantou-se a justiça a mim
e que remédio senhores
sem arreceber a jorna
com um pão sem conduto
fez-se o zé pires maltês
ninguém chorou qu’eu cá moça
era arranjo que nã tinha
parentes nã conhecia
em riba da porca terra
a nha mãe - que me desseram -
era uma boniteza
tratava do manual
do mê pai silvestre pires
ele qu’era môral
das vacas do unha grande
pra nã pagar o trabalho
-um dia oito mil réis
e azête prá semana-
apalavrou-se com ela
depois dos pregões botados
lá se casaram os dois
veio um padre da cedade
e um coxo sacristão
foi festa rija senhores
o povo sempre a bailar
p’la noute toda adiante
um dia - p’lo s. joão -
chegaram prá acêfa
ratinhos mal-encarados
os patrões - essa canalha -
deu-lhes o faro - a tantos passos
fedia a fome desses beirões -
e vá d’abaxar o preço
com que pagavam ganhões
os homens cá da nha terra
que os têm no lugar
botaram-se a caminho
do monte do unha grande
deitaram palavra rija
que um homem
só s’agacha pra cagar
mas ele largou-lhe os cães
e a guarda qu’é bruta
pra quem nã tem massaroca
prendeu os chefes e deu-les
porrada plo dia inteiro
depois foram pra lisboa
p’ra outra polícia que quis
ca modos fossem polítecos
e os deixou lá dois anos
o mê pai estava com eles
quando voltou p’rá vila
disse-lhe o bento - ó silvestre
um dos ratinhos - daqueles -
armou-te em chavelhudo
foi o mê pai encontrado
na nora velha do pico
é por isso que o zé pires
já nã tem ninguém no mundo
depois d’andar a monte-
prás bandas de montemor -
seis meses e cinco dias
prantei-me a dormir ao sol
debaxo dumas sobrêras
duas pegas estrangeradas
qu’eu enxerguei pela fala
sentaram-se ao pé do zé
eu cá nã nas percebia
dezia a tudo que sim
deram-me galinha e cigarros
e mais outras porcarias
a fome era tão grande
qu’eu tudo botava abaxo
calculem que depois
elas inté me despiram
eram duas e só eu
arrimei-lhe a conta delas
“ nã há nada mais prefêto
do cum homem satesfêto”
foram tempos assentei
os anos iam passando
o corpo já nã queria
passar a noute ó relento
botei o alforge no chão
perguntei ao lagariço
se precisavam dum moço
p’rá altura da debulha
empreguê-me na herdade
arranjei mulher e filhos
e nas noutes de inverno
sentado junto ao madêro
já sonhava ver os netos
em riba dos mês joelhos
mas nesta vida senhores
nã se pode sossegar
mandei prá escola o miúdo
e ele já nã quer parar
se vou dezer ao patrão
co denhero nã m’achega
ele é capaz de largar
os guardas e cães a mim
e lá começa de novo
o gaiato a maltezar
eu em lisboa a penar
a moenga nã tem fim
Posted by
Carlos Correia
at
14:44
4
comments
Posted by
Carlos Correia
at
17:47
1 comments
Posted by
Carlos Correia
at
17:17
0
comments