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junho 08, 2007

ode para um zé pires qualquer (poema)





nasci lá nos barrocais
e o mê nome é zé pires
fui pastor e fui ganhão
palmilhei o alentejo
botei filhos em mulheres
e nos alcanchais perdi
noutes fugindo da lei

era eu mui novo então

mondava os campos de trigo
pruma jorna de miséria

quando o galo do ti pedro
adregava amanhecer
já me pusera à margia
qu’era longe o mê patrão

lá pró meio do caminho
encontrava a rosa amado
-uma poldra redondinha -
que se mordia aluada
e comigo chafurdou
nos lamaçais da herdade

pus-lhes os tampos numa fona
e a melra pôs-se a bradar
qu’eu a tinha desgraçado

vai daí o velho amado
-que m’engula o inferno
s’isto que digo é mentira-
agarrou na de dois canos
e antes que lhe aprouvesse
romper-me a pele com ela
botei-lhe as tripas ao sol

e rais parta a minha sorte
mais a minha sevilhana
ele esticou o pernil

prantou-se a justiça a mim
e que remédio senhores
sem arreceber a jorna
com um pão sem conduto
fez-se o zé pires maltês

ninguém chorou qu’eu cá moça
era arranjo que nã tinha
parentes nã conhecia
em riba da porca terra

a nha mãe - que me desseram -
era uma boniteza
tratava do manual
do mê pai silvestre pires

ele qu’era môral
das vacas do unha grande
pra nã pagar o trabalho
-um dia oito mil réis
e azête prá semana-
apalavrou-se com ela

depois dos pregões botados
lá se casaram os dois

veio um padre da cedade
e um coxo sacristão

foi festa rija senhores
o povo sempre a bailar
p’la noute toda adiante

um dia - p’lo s. joão -
chegaram prá acêfa
ratinhos mal-encarados

os patrões - essa canalha -
deu-lhes o faro - a tantos passos
fedia a fome desses beirões -
e vá d’abaxar o preço
com que pagavam ganhões

os homens cá da nha terra
que os têm no lugar
botaram-se a caminho
do monte do unha grande

deitaram palavra rija
que um homem
só s’agacha pra cagar

mas ele largou-lhe os cães
e a guarda qu’é bruta
pra quem nã tem massaroca
prendeu os chefes e deu-les
porrada plo dia inteiro

depois foram pra lisboa
p’ra outra polícia que quis
ca modos fossem polítecos
e os deixou lá dois anos

o mê pai estava com eles

quando voltou p’rá vila
disse-lhe o bento - ó silvestre
um dos ratinhos - daqueles -
armou-te em chavelhudo

foi o mê pai encontrado
na nora velha do pico

é por isso que o zé pires
já nã tem ninguém no mundo

depois d’andar a monte-
prás bandas de montemor -
seis meses e cinco dias
prantei-me a dormir ao sol
debaxo dumas sobrêras

duas pegas estrangeradas
qu’eu enxerguei pela fala
sentaram-se ao pé do zé

eu cá nã nas percebia
dezia a tudo que sim

deram-me galinha e cigarros
e mais outras porcarias
a fome era tão grande
qu’eu tudo botava abaxo

calculem que depois
elas inté me despiram

eram duas e só eu
arrimei-lhe a conta delas

“ nã há nada mais prefêto
do cum homem satesfêto”

foram tempos assentei
os anos iam passando
o corpo já nã queria
passar a noute ó relento

botei o alforge no chão
perguntei ao lagariço
se precisavam dum moço
p’rá altura da debulha

empreguê-me na herdade
arranjei mulher e filhos
e nas noutes de inverno
sentado junto ao madêro
já sonhava ver os netos
em riba dos mês joelhos

mas nesta vida senhores
nã se pode sossegar
mandei prá escola o miúdo
e ele já nã quer parar

se vou dezer ao patrão
co denhero nã m’achega
ele é capaz de largar
os guardas e cães a mim

e lá começa de novo

o gaiato a maltezar
eu em lisboa a penar

a moenga nã tem fim

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junho 05, 2007

Nós e Eles






Nós entramos em casa, ligamos a luz, tomamos um banho quente e vemos o noticiário na TV.
Eles não têm casa ou quando a têm é de cartão, ramos de árvores ou materiais compósitos e pobres; iluminam-se com fogueiras ou velhos candeeiros; percorrem quilómetros para alcançar um ponto de água, quantas vezes insalubre, e são, tantas vezes as personagens e as vítimas dos noticiários que nos entretêm.

Nós temos automóveis potentes que nos transportam, com facilidade, aos locais de trabalho ou aos divertimentos que procuramos. Eles andam a pé e extraem dos seus solos o petróleo que faz andar os nossos carros e morrem em guerras feitas para os expropriar desses combustíveis.

Nós vivemos em democracias e achamos que temos esse direito natural, como se este fosse o estado normal do viver dos homens. Eles não têm quaisquer direitos senão o de penar sob o jugo de qualquer pequeno senhor local, que os utiliza de modo instrumental, para seu benefício imediato e visível e para um distanciado e obscuro interesse das longínquas democracias.

Nós sofremos terrivelmente com o mau funcionamento da nossa rede hospitalar e temos vidas prolongadas; eles morrem novos, e já velhos de míngua, minados por doenças incontáveis e vêem os filhos desaparecer com febres que nos nossos mundos uma aspirina curaria.

Nós vamos ao supermercado comprar produtos de todo o mundo, sempre excessivamente caros, e fazemos várias refeições diárias que comemos, quantas vezes, enfastiados. Eles procuram comida em matas, ribeiros e lixeiras, não sabem quando nem se poderão matar a fome nesse dia, e produzem, por quase nenhum valor, os dispendiosos e desperdiçados produtos que habitualmente consumimos.

Nós temos jardins-de-infância, escolas e programas de reabilitação de dependentes de várias facilidades. Eles vagueiam pelas ruas, roubam, brigam e morrem sob as balas “justiceiras” da polícia, ou qualquer outra força de ordem que nós, para eles, misericordiosamente treinamos e exportamos.

Nós inventámos e receamos a globalização, sentindo que ela põe em perigo a nossa prosperidade. Eles são o motor e os escravos dos nossos empreendedores globalizantes e morrem, de acidentes ou exaustão, nas fábricas deslocalizadas e nas minas sem possibilidades de deslocalização.

Nós embarcamos em cruzeiros de luxo que cruzam o mediterrâneo e demandamos os paraísos artificiais das costa de África. Eles cruzam-se connosco em velhos barcos meio desmantelados buscando, clandestinos, o el-doirado da margem donde nós partimos para férias e morrem na tentativa ou são capturados, desgraçados e famintos, pelas polícias do almejado paraíso.

Nós produzimos e vendemos as armas com que eles se matam para garantirmos o domínio económico dos bens que as suas terras possuem e eles não.

Nós somos inocente ou culpadamente assim e eles são-no, igualmente, mas em muito piores circunstâncias. Por isso, meus senhores o que esperam que venha a acontecer entre nós e eles, senão o mesmo que entre as hordas de bárbaros e o poderoso império romano aconteceu?

As decadências dos impérios têm todas um suave fascínio de queda e entropia!



Publicado in “Rostos on line” – http://rostos.pt
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junho 02, 2007

Margarida Morgado – Água Pródiga

Capa: João Moniz



Editado pela associ’arte – Associação de Comunicação e Arte (associ.arte@mail.telepac.pt), de Évora foi lançado no passado dia 28 de Maio, o novo livro da Margarida Morgado, "água pródiga", cuja capaz se reproduz acima.

Prometendo voltar ao livro, para publicar alguns dos seus poemas, ficamos, por agora, pela apresentação feita na badana do volume:

“Margarida Morgado
nasceu em 1932, em Olhão.
Com 2 anos de idade a família muda-se para Évora.
Aqui estuda nas Doroteias
e no Instituto de Economia
e Sociologia de Évora,
onde se licenciou em Sociologia.
Na Bélgica fez a pós-graduação
em Sociologia dos Sistemas
Simbólicos. Foi professora
em Angola, esteve na Alemanha
e em França. Volta a Portugal
no pós 25 de Abril, e empenha-se
de corpo e alma a um país que
sonhou diferente. Trabalhou
na Comissão de Condição Feminina,
durante 15 anos.
A escrita sempre fez parte
da sua vida. Escrita que guardou
nos diários que sempre
a acompanharam e que de vez
em quando dá aos amigos.
Na cidade alentejana que adoptou,
e por quem foi adoptada,
é fácil encontrá-la numa esplanada
de esferográfica em punho
a murmurar para as páginas
em branco o que lhe vai na alma
e no pensamento. Em 2003, reuniu
alguns dos seus poemas e deixou-nos
dar uma espreitadela aos seus
escritos. Soube a pouco e quisemos
mais. “ Água Pródiga” é esse mais
que pedimos e que ela
com o seu carinho, a sua ternura
e o seu amor por todos nós, nos dá!”

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maio 30, 2007

bruma o tempo (poema)


I

à mulher seguiu-se um ansiolítico
e o tempo ia passando ao outro lado do tempo
sem que reaparecessem as suaves mãos de grega
que tiram os colapsos dos peitos dos afogados de amar

a viagem é por vezes estender a solidão
barco clandestino por entre púrpuras galantes
punhos de espada águas da minha água
armadura grega tróia e troiana enchendo-me
o barco furando em segredo perto do meu sono
longe do meu beijo.

II

bruma avança entre o mar espesso
o silêncio cria um tempo de poema

contrária a si mesma
fresca acolhedora
espera há mais de dois mil anos
e liga-se-me sináptica e sonhadora
generosa e meiga mãe sobre todas as mães
amante prometida acima de todas as amantes

procurará o meu corpo percorrerá o meu espírito
e amalgamados entre nós dar-se-ão os dedos dos lábios
diremos os nossos secretos nomes e chamaremos poetas
para incendiar luz e abrir caminho sobre as inquietas águas

em linha tranquila bruma divide o horizonte
e paciente traça sobre a minha vida a noite e o dia
diz-me vive e os seus sorrisos são alquimia
a rolhar a solidão das fragas

III

tempo de bruma só adivinhado
vago da esperança do desejo
tempo de bruma por chegar

um dia toda a cidade acordará abraçada de bruma
todas as casas estarão no mesmo sítio
todas as pessoas estarão nos mesmos gestos
todas as águas pararão

bruma chegou de seu caminho

de repente toda a cidade parou ou será outra
entanto bruma se estende corpo inicia o gesto
suaviza as coisas que murmuram e lentas retornam iguais e diversas

e tudo é mais quieto mais quente mais produtivo

se o seu nome ressoa todo o tempo se resolve
nos espasmos de um orgasmo atlântico
ela chegou mãe primeva de todas as substâncias
entre o líquido e o orgânico corpo frutuoso
cândido e lascivo que me acalma para após
me seduzir a ainda mais me excitar

por isso acorro ao chamamento e vou
bárbaro e tranquilo voando devagar a arrulhar mansinho
sem rufos de asas para que o vento não disperse bruma


IV

diáfana bruma corpo de vestal cumprindo véus
que passas entre olhares e entardeces Penélope
tema de teia talvez no meu encalço

mas antes de mim quantos estarão
quando chegar quem me anunciará
ainda estarás à minha espera
ou o meu vento uivará através da tua sensibilidade
e nem acordarás

pode ulisses o triste pensar em penélope neste longe
pode ulisses sem barco contar os longes da viagem
pode ulisses sem arco ser o herói
que tudo vence e tudo a si domina
pode ulisses assim como o vês ser ulisses no poder
o aguardado ulisses é ainda este
que atendes no teu leito e ouve lá fora
os urros dos pretendentes-esbirros

pode ulisses deitar velas ao sonho no mar do teu consentimento

V

porque ver-te e querer-te ó pequena subtil ó perto da meia tarde
quando os cabelos se dobram nas fímbrias do vento
quando a semi-saia cortou já parte da esquina
quando tu passas e o teu amanhã me é improvável
possa eu todo desconhecido inibição inicial
ressurgir no diálogo interrompido antes das palavras mágicas
que te trazem género' igual ao meu mas de sinal diferente
prometida desde o tempo em que ainda havia deuses e se guardou
e pôs à prova apenas para que eu um dia num local
improvável no inesperado do tempo numa procura consciente
fosse tocado por um sorriso preso por um olhar
perdido por ter de ir

talvez para a próxima a bordo do barco da poesia
quando o timoneiro pintor fizer as águas
tenhamos tempo para possuir a urgência de ser pátria
de ser rio e preparar esta coisa tremenda e fatal
que é o corpo do espírito da mulher esta coisa que se sente e não
se sabe esta coisa que nos corta e que nos abre esta coisa enorme
e feminina esta coisa que nos acalma e nos atrai esta coisa
que em suma é um sonho rodopiante com o tempo e a bruma
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maio 27, 2007

Novo Mapa de Portugal



Com a devida vénia reproduzo a imagem do Novo Mapa de Portugal que me foi enviada, por pessoa amiga, através de e-mail. Ao autor original os meus agradecimentos e parabéns pela pronta imaginação e criatividade com que reagiu à palavras insensatas do Ministro Lino.
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maio 25, 2007

Uma não-crónica e o arguido Carmona



1 – Não-crónica

Peço desculpa aos meus não-leitores pela não-escrita que hoje trago aos vossos benemerentes olhos. É porque eu, tal como muitos de vocês, sou uma inexistência comprovada, pelo que só poderei produzir não-coisas e não-escritas. Não sei se filosoficamente se pode, de algum modo, ser uma inexistência ou se sendo se é completamente, não podendo por isso, não se ser de modo algum. Deixo o desembrulhar deste labirinto para o inefável Ministro da Obras Públicas, de nome Lino, que ontem declarou pública e notoriamente a nossa completa inexistência.

Perante uma tão abalizada afirmação eu confino-me à mina plena ausência de ser aos olhos de, pelo menos, parte do Estado. Resta-me a espúria esperança de que nenhum terrorista decida rebentar todas as pontes que hipoteticamente ligam a coisa nenhuma deste lado ao tudo do outro lado das margens. (Vide Dicionário da asneira de Almeida Santos)

Perante o atabalhoamento das mui preciosas declarações e actuações de algumas excelentíssimas personagens ministeriais vai enriquecendo, se não o país pelo menos o anedotário nacional, o que em si já não é pequena coisa. Sempre ouvi dizer que o riso combatia a depressão e como a nossa economia continua deprimida, como deprimidos teimam em continuar os desempregados cá do território, talvez esta seja uma infalível e secreta receita para ultrapassar o acabrunhado ambiente em que vivemos.

2 – O arguido Carmona

É costume retórico começar por confessar-se a simpatia por alguém para a seguir a arrasar com a nossa argumentação. Não sou inocente nesses artifícios e confesso que já deles me tenho servido. No entanto aqui não o farei. Não gosto mesmo do homem desde quando espetou a faca nas costas de outra personagem que também não me é simpática: Santana Lopes. E lá que o fez com todo o despudor, fê-lo. Só que eu embirro solenemente com qualquer quebra de lealdade, mesmo entre políticos.

Teimou agora - nesse seu jeito de trair quem lhe dá confiança - não acatar as indicações para se demitir vindas do partido que o colocou na Câmara. Manteve-se teimosamente agarrado ao poder num “tem-te não caia” agoniativo. Mas como é homem de palavra disse que não iria concorrer à Câmara e, a seu modo cumpriu. Cá está de novo na corrida.

Isto nem seria o pior se ele não fosse arguido num caso de possível corrupção com uma empresa, a qual me abstenho de nomear porque, mesmo sendo verdade tudo o que sobre o caso se diz, posso vir a ser sancionado por algum tribunal por atentar contra o bom nome de um provável corruptor.

Tem-se falado muito sobre o comportamento a ter por nomeados para cargos públicos quando arguidos em qualquer processo.

Consultando o dicionário da Academia de Ciências vejo que arguido quer dizer: “Pessoa indiciada ou acusada de crime, delito, falta condenável, punível com pena ou disciplinarmente.” Não me esqueço que no nosso ordenamento jurídico existe a presunção de inocência até condenação em julgado, mas também não posso esquecer que quem ocupa um cargo público (de nomeação ou por eleição), deve estar acima de qualquer suspeita. Acredito firmemente que só há arguido quando os indícios se mostrarem fortes. Não creio que os juízes andem a arguir os políticos só por intrínseca malvadez ou ciúmes de poder. Por dever ético penso que qualquer arguido deve, nesse caso e no mínimo, pôr o seu cargo à disposição de quem de direito.

Mas, pasme-se a coerência do concorrente Carmona. Perguntado pelo Público (24 de Maio) se aceitaria receber apoio monetário da empresa que levou à suspeição de corrupção nos órgãos camarários – e à correspondente queda da edilidade - respondeu prontamente que sim. É portanto um arguido contumaz e convicto.

De homens como o ministro Lino e o edil Carmona é que o país precisa…para continuar a afundar-se.
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maio 23, 2007

Lágrimas (Conto)

Retorno a este conto tendo em vista a situação da Câmara de Lisboa, à qual apenas um mágico como Mandrake parece poder valer.
Que o novo presidente - que espero seja Helena Roseta - nunca venha a parecer-se
com o bicharoco desta estória.





Pretensiosamente pretendi chamar a esta história o meu barbeiro. Meditando um pouco perante o ecrã vazio - onde vai o desespero da folha de papel branco à espera da escrita e dos furiosos riscos que inutilizavam início e papel - tive de chegar à conclusão que:

a) não tinha, nem nunca tive um barbeiro fixo, coisa que passarei a explicar mais para diante (se me apetecer ou se o decorrer do conto não me levar por outros caminhos) e,

b) era demasiada pretensão chamar de minha a qualquer pessoa, ainda que fosse um barbeiro pobre, de revolta suave e a atingir o raiar das lágrimas.

Assim, vai a estória chamar-se lágrimas, não porque as houvesse na conversa, mas porque, de forma vária, estavam subentendidas numa vida de esforço sem glória nem perspectivas. Há, no entanto, para ajuntar que a culpa desta conversa é da Câmara Municipal, que por acaso é socialista, partido onde votou o meu barbeiro e que agora, com desespero, se arrenega dizendo que nunca mais votará em ninguém.

É claro que esta prosa corre o risco de se transformar numa lamúria fora de moda, tipo fado do desgraçadinho, coisa muito em voga nas escrevinhações que por cá fazemos. Desenganadamente o portuga escrevente – e será só ele? - desforra-se na escrita da sua consciência infeliz, enforma-a de confissão e procura nela ultrapassar problemas que, por inépcia ou falta de oportunidade, não consegue resolver de outro modo.

Dizia o barbeiro, dentro de e voltado para um amplo estaleiro de obras em funcionamento pleno, que a Câmara lhe estava a rebentar com a vida. E ao seu patrão também. Estranha esta preocupação do servente com o dono do estabelecimento. Marx não havia de gostar desta aproximação de classes, embora, se passasse pela barbearia e ao cortar o desgrenhado cabelo, ou a aparar a furiosa barba, ouvindo a estória que eu ouvi, pudesse pensar em alterar qualquer coisita na sua obra monumental. Ou quem sabe, talvez não mudasse nada porque uma coisa é a mudança encarada do ponto de vista sociológico, outra bem diferente é o drama do indivíduo apanhado nas teias dos volte-faces sociais.

Pois é verdade, o patrão da barbearia ficou estarrecido quando numa Segunda-feira vai para abrir o seu estabelecimento e verifica que todo o largo tinha sido, durante o fim-de-semana, cercado por imponente paliçada, cheia de anúncios de empresas de construção pedindo desculpas pelo incómodo, clamando que iriam ser breves, que trabalhavam para o bem-estar de todos e ali, do seu esforço e engenho, iria nascer um magnífico parque subterrâneo para automóveis para, de vez, resolver todos os problemas de trânsito daquela muito importante zona da cidade. No entanto, o problema para o dono da barbearia é que não só não tinha qualquer acesso à sua loja, como nem sequer a avistava, tapada que estava com protecções e andaimes e, sobretudo como em desespero dizia:

- ... mas nunca me disseram nada...

e ao pretender entrar teve que dar uma enorme volta para descobrir uma porta, onde foi esbarrar num serventuário negro, interposto à sua frente, mal falante do português, o qual, obstrutivo e repetidor, dizia: -sinhor non. Empresa e Câmara não querer ninguém dentro...

Estupefacção transformada em raiva. O sentimento de impotência a subir pelo corpo todo, começando nas mãos, estendendo-se pelos braços, ocupando o peito e um berro a sair e a explodir dentro do coração. Tudo vermelho por fora e por dentro como a ambulância onde o transportaram para o hospital, com um ataque cardíaco, conquistado naquele preciso momento e local.

Dizia-me o barbeiro que ao tomar conhecimento deste triste evento a Câmara fora companheira e impecável. Acorreu em peso em visita ao hospital, acompanhada dos órgãos de informação, para pedir desculpas ao patrão, que por acaso não tinha morrido, apenas ficando tolhido dos braços - o que não é de somenos para um barbeiro - e prometendo-lhe passagem livre, quando quisesse, para a sua loja, desde que, evidentemente, o estaleiro estivesse aberto, porque como sabe, por causa do ruído não se pode trabalhar à noite, e as máquinas existentes, de valiosas, não poderem ficar abandonadas ao sabor das malquerenças de algum energúmeno, além do perigo acrescido que representa atravessar um local de obras para alguém que não esteja habituado a tais andanças. O senhor bem sabe como são estas coisas dos acidentes na Construção Civil…

…O que se tinha passado é que todos os Bancos e Empresas da zona tinham sido avisadas com tempo e a Câmara, que não é descuidada, tivera mesmo reuniões com representantes dessas firmas e quantos problemas -meu Deus!! - não foram resolvidos. Só a questão da garagem do Banco Enfisema fora uma dor de cabeça...mas felizmente tudo se resolvera. Agora, a questão é que no meio de tanto afã, passou despercebida a questão da barbearia. Também o senhor sabe é só você e o seu empregado, aquilo está para ali esquecido a um canto, tem pouco movimento, vocês não se actualizaram e assim, não é que sirva de desculpa, ninguém se lembrou de vos avisar desta coisa...

Mas como é que eu vou viver? tartamudeou em espanto o patrão.

Pois é, é complicado, disse o Sr. Presidente. Agora não temos solução nenhuma. As coisas estão muito em cima do acontecimento. Teremos que estudar o caso. Mas não se preocupe, dê tempo ao tempo,...alguma coisa se há-de conseguir...

E conseguiu mesmo. Logo ali o patrão teve uma recaída - também quem é que espera que um patrão tenha um tão delicado coração - o que obrigou à rápida evacuação dos meios de comunicação social, para não perturbar o doente. Uma câmara de uma televisão independente, que cirandava atrás do presidente e que se tinha dado ao desplante de filmar despudoradamente todo o incidente, teve o azar de chocar de frente com um homem da segurança que ia a correr chamar o médico - que já estava à cabeceira do doente - e ficou toda partidinha no chão. No entanto, como o segurança era homem de boa índole, parou de imediato para ajudar o operador a levantar-se e a recuperar a câmara. O que o desgraçado nunca recuperou foi a cassete que se sumiu ninguém sabe para onde. Coisas....

Assim o meu barbeiro reflectia em voz alta, dando curso à sua mansa indignação e utilizando-me para a sua psicoterapia.

Pois é - dizia ele - por causa destas obras vou agora de férias. O senhor já viu o que é ir de férias no pico do Inverno?

Tentando amenizar as coisas lá lhe fui dizendo que férias de Inverno têm os seus encantos e méritos. Por exemplo, não se perdia tempo a esperar por um lugar nos restaurantes, era-se mais bem tratado nos hotéis e, para quem gostasse de neve, umas férias na montanha era o que era.

Pois sim, ripostou-me. Para mim férias são sempre no mesmo local. Em casa! Como é que quer que eu passe férias noutro lado? Repare, ganho menos de sessenta contos líquidos, fora as gorjetas, evidentemente,

-Já te percebi meu marau.- pensei eu! Está-te a fazer ao piso...

e com isso tenho que pagar a renda do barraco, os remédios da mulher que é doente como o caraças, os transportes, a alimentação e a pouca roupa que vestimos.

A raiva desta situação infeliz fez-se sentir na minha nuca. Zás! A navalha a entrar fina e dolorosamente na minha carne.

-Cuidado homem! Ainda me tira um bife do pescoço.

- Peço-lhe desculpas...mas quando penso na minha vida dá-me cá uma raiva!

Não é que eu não percebesse a razão da sua fúria. Com sessenta anos, sem dinheiro, sem nunca ter sabido o que era um gozo real de férias, dava para rebentar com todo. No entanto eu não tinha, objectivamente culpa nenhuma desta situação e a navalha, quase tão velha como ele, já tinha com certeza cortado centenas de pescoços (à superfície, é claro) e, valha-me Deus, se algum pertencesse a alguém contaminado com sida? Estremeci e, solícito, pergunta-me o barbeiro:

- Tem frio? Eu fecho já a porta. Como isto está nem se tem ganho para comprar uma garrafa de gás para o esquentador, quanto mais para o aquecedor.

Isso já tinha notado. Levara um duche de água fria ao lavar da cabeça. Como sou pacato e não gosto de levantar questões nem disse nada. Pensei que o esquentador não tivesse ainda aquecido, no entanto disse-lhe:

-Podia ter-me avisado antes. Assim evitaria o frio que passei.

Pois é, objectou, o serviço já é tão pouco! Se eu avisar o cliente ele não lava a cabeça. E é uma quinhentola que se vai à vida. A verdade fica muito cara. Não me posso dar ao luxo de ser verdadeiro. Se agora lhe falo nisto é porque já lavou a cabeça e é o meu último cliente. Quando acabar este cabelo vou fechar as portas, entro de férias e já não volto. Não tenho dinheiro para ser patrão, o dono da barbearia nunca voltará ao ofício e eu consegui uma reforma por causa da artrite. O dinheiro não é muito. Mas com as economias em transportes e roupas, mais umas cabeças que arranje lá pelo bairro, cá me hei-de governar.

Chegado o serviço ao fim escovou-me as costas, recebeu o dinheiro e a gorjeta, fez-me um sorriso e mal eu saí, fechou, para sempre, as portas da barbearia.


Vivia-se ao tempo a euforia construtiva do Sr. Presidente. Pelo sorriso permanente, de alvos dentes em riste, pela mania de mandar azulejar de branco tudo quanto fosse de retretes a estações de metro ou comboios tinha sido Sua Excelência apodado - claro, pela oposição - de Brancolejo.

Dizia-se que as sessões na Câmara eram tumultuosas e inúteis. Discutisse-se o que quer se discutisse, tomassem-se quais decisões fossem, era certo e sabido que apenas vingariam aquelas que o Sr. Presidente já trouxesse encasquetadas no bestunto. Era um homem de grande inteireza - diziam os apoiantes - era um burro teimoso - contestavam os outros. O certo porém é que o seu mandato lá ia de vento em popa, assim, como de vento e pompa foi o dia da inauguração do parqueamento.

O que parecia não ter remédio era a desgraçada barbearia. Para além da disfunção obtida pelo patrão, da compelida reforma do empregado, erguera-se agora, comemorativamente, mesmo em frente da sua portada, um imponente monumento, que a ocultava completamente, destruindo qualquer possibilidade do patrão obter algum trespasse que merecesse a pena. Saído do hospital e confrontada a Câmara com a possibilidade de um processo em tribunal, a cair mesmo em cheio no período eleitoral, foram convocados sábios consultantes.

Que arranjassem uma solução – clamou o Sr. Presidente.

E foi assim que no dia da inauguração, entre bombeiros de retoque e desfile, meninas de flor e beijinho, fitas cortadas, discursos como o deveriam ser, todo ao jeito do antigo regime só que com mais populares na corrida, o patrão - agora tetraplégico, de cadeirinha de rodas empurrada por zeloso funcionário da Câmara -, engrossava a fila de convidados importantes e, pasmem, ele que nunca tivera carro, nem poderia agora pretender conduzir, receberia, de modo estatutário, o direito a um lugar de parqueamento vitalício e não endossável…

Mas, dir-me-ão que foi feito do empregado?

E perguntam bem porquanto, como todos somos iguais e detentores dos mesmos direitos, não poderemos cometer o feio pecado de falar de presidentes, de bancos e mesmo de barbearias e deixar, como coisa que não interessa, o destino desse anónimo fazedor das coisas reais.

Pois bem, não deixem de ter em conta que falamos de um município, de presidência consabidamente democrática e socialista, onde o povo miúdo é sempre tido na devida conta. Foi assim que no dia da inauguração, impante, garbosamente fardado, dentro de um cubículo de vidro, o meu barbeiro recebera a importante missão de cobrar os pagamentos e passar talões aos utentes do novíssimo parque.

E a estória poderia por aqui ficar, com honra, glória e proveito para todos se, no meio da felicidade do meu barbeiro, não caísse a dúvida cruel de um futuro ameaçado. É que, não nos podemos esquecer, vivemos numa época de grandes e progressivas mudanças e o nosso presidente é dinâmico, homem de larga visão do futuro e sobretudo muito viajado. Assim, dissertando sobre melhorias e desenvolvimento, por mero descuido próximo ao recém reciclado barbeiro, comentou, para a sua comitiva, que um parque assim tão moderno, dentro de todas as convenções das normas europeias, não ficaria completo sem um actualizado sistema de cobranças e controlos automáticos. Era assim que se fazia lá fora...

Vocês bem vêem, isto de ter uns velhotes caquécticos nas portagens de instalações tão modernas não dá lá muito bom aspecto...

Por isto ter ouvido é que o meu barbeiro, quando lhe fui dar os parabéns pela resolução dos seus problemas de emprego, esboçou um esforçado sorriso e disse:

Não sei bem... não sei bem...

...deixando que duas pequeninas lágrimas ensombrassem a luz daquele grande dia.

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maio 19, 2007

rostos







para o adriano correia de oliveira


I

pelos interstícios da razão
vislumbra-se a paixão do racíocinio

o horizonte fundido sobre a rota dos barcos
escapa dentro do texto que se julga
sempre a caminho do mar

a neblina colcha de torrente
comanda-me a voz
em prosas no olhar

pela altura da vaga
mede-se a esperança

à janela do tempo
acrescento qualidades
às minhas sensações

um homem
com os dias azulinos sobre o mar
traça o curso das querenas

II

eram tão poucos os rostos
franjados de presságios
para os árduos barcos
que o sonho requeria

entre enganos e dias
restolhavam vozes
cobertas de noite
onde o silêncio
começava a existir

mas eram tão poucos
a mondar nos trigos dos critérios
o gorgulho dos prantos

ausentes da revolta
agora vamos sozinhos

os deuses são abismos do futuro

III

alguns barcos encalham e apodrecem
dentro dos rios crescem as barragens
balanço de metáforas transformação de cidades

nas máscaras do grito espia-se o grito
neste país de fronteiras sem vizinhos as borboletas das noites de agosto
turbilhonam sentidos que não sabemos

perguntado ao rio qual o caminho
o bafo das neves sem repouso
remete ao local sonolento dos pricípios

a voz a pedra a tensão do futuro
contra o tempo

ícaro promete despertar

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maio 17, 2007

Uma flor para Helena

Ilustração: Pedro Correia


















O telefone ribombou por volta das duas da manhã. Caí do sono, como da cama, numa perturbação redonda. Presságios de coisa má correram ao meu encontro. Eu galguei, aflito, para o telefone.

-Olá, estás bom? O raio de uma voz de quem não precisa de dormir esvaía-se pelo auscultador leve e risonha.

-Está, quem fala?

- Então não me reconheces? Sou o “Povo”, pá!

Não, não fiquem a pensar que estou aqui a tramar alguma figura de estilo com esta coisa de ter o “Povo” do outro lado da linha num telefone que ainda por cima, por portátil, não tem linha nenhuma. Era mesmo o “Povo” e queria falar comigo. Às duas da manhã! Este “Povo” nunca teve modos. Foi sempre impetuoso e inconveniente, quase a roçar o malcriado e pelos vistos continua.

Reconheci, através de anos de distância, a voz que me falava. Vieram-me à memória o fim dos anos sessenta, as cargas da polícia na universidade, a libertação luminosa de Abril e o meu companheiro constante dessas eras e lutas.

Desenrolando a mente passo a explicar-vos os porquês do nome deste amigo. Militávamos então, furiosamente e em grupos diferentes, naquilo que, acintosamente chamavam extrema-esquerda e a que nós preferíamos chamar esquerda revolucionária. Ele estava num qualquer dos muitos partidos ML (marxistas-leninistas) que apregoavam trazer a verdade, escondida em livrinhos coloridos, pronta a ser libertada pelo toque mágico dos revolucionários (nós) contra os burgueses (por acaso os nossos pais e tios) para total e completa libertação do proletariado. Eu não vou dizer para onde se escoava a minha sanha libertária porque trabalhávamos em rede e tínhamos pacto de silêncio (que ainda mantenho). No entanto todos sabíamos, embora nunca lhe tivéssemos perguntado, o que o proletariado precisava e queria. Estão a ver a coisa?

O cognome do meu amigo, como os meus distintos leitores já se aperceberam, era o “Povo”. Resultara tal da sua forma única, pronta e arguta de resolver todas as questões ou contradições com o mote de “ o “Povo” tem sempre razão”. E pronto! Só não gostava que lhe falassem em eleições. Isso era o Diabo! Traía-se o proletário com semelhante dislate. Só a Revolução era resposta suficiente para os males sociais e a população esperava apenas que, de entre nós, o Partido e o seu Mentor se revelassem, numa palavra de ordem arrasadora e por milénios viessem instaurar a república perfeita.

- Eh! Pá! Disse eu. Pregaste-me um valente susto. Isso são horas de telefonar a alguém?

- Pois, retorquiu, pensava encontra-te acordado. Tenho de fazer-te uma confissão e não podia esperar.

O raio do homem deve estar parvo. Acordar-me assim para fazer uma confissão. Bolas, não sou padre nem polícia e o que quero mesmo é acabar o meu soninho.

-Espera…espera, resfolegou aflito. Não desligues. Acabei de ler no teu blogue que apoiavas a Helena Roseta e é sobre isso que te quero falar…

Esta é boa. Ainda vai dar-me uma desanda depois de me ter acordado a desoras. Só mesmo do “Povo” é que poderia vir uma destas. O tipo sempre tivera uma zina danada à Roseta e devia pensar que eu estava a trair todos os meus ideais ao apoiar tal pessoa.

- Sabes, ela é mesmo uma grande mulher…

Espanto meu, a boca a abrir-se-me, já não de sono, mas de estupefacção.

-…e trago um peso comigo e tenho que desabafar. Lembras-te quando a AD ganhou as eleições?

E sem me deixar confirmar:

...pois fizeram um grande desfile na avenida onde eu morava. Num dos carros abertos ia a Helena Roseta. Eu já não podia com os vivas, as buzinas e o engano que o Povo sofrera nas urnas. Quando ela passou junto ao meu prédio, deu-me uma fúria maluca, agarrei num vaso e atirei-o contra o carro onde ela ia.

Vaso ainda no ar e já eu me arrependia amargamente do impensado do meu gesto. Nesse momento até me fiz religioso e pedi: – aí meu Deus faz com a que o vaso não atinja alguém. Milagre dos milagres, entre a multidão compacta, foi estilhaçar-se com estrondo, que parou a manifestação, numa zona completamente livre de gente. Respirei aliviado e segundos depois alguém tocou à campainha da minha porta. Percebi a mensagem mas, amargurado que estava, decidi-me a enfrentar a responsabilidade. Pelo intercomunicador, perguntei quem era. Ninguém me respondeu. Desde então carrego comigo este peso…

- Certo, não sabia nada disso, mas porque é que me escolheste a mim para desabafares e a esta hora da manhã?

- Já te disse, foi o teu blogue, pá! É que agora vivo em Lisboa e quero que saibas que vou votar na Helena Roseta para a Câmara. Vou entregar-lhe a flor que faltava no vaso que lhe atirei.






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maio 15, 2007

fobos (poema)

(Ilustração de Pedro Correia)


I

vinha falar do homem
signo completo a decifrar

primeiro absorve-se o
corpo os actos os fatos
pode mesmo achar-se a dominante
no corte do cabelo
na linha da boca ou
no particularíssimo modo de
estender o passo

entretece-se depois o jogo mais
perverso e subtil
do significado
produção pretensamente espontânea
transferência de gestos e semi-sorrisos
nos jogos das falas

impossível trazer à tona
todo o conhecido

II

entenda-se o homem como uma
fita vermelha embebida de azul
longe do patriotismo médio

denotação de razões
desconhecidas
jogos malabares
com que me divirto a
enxamear o papel de

situações

escuta o abismo da palavra

as palavras respiram
têm substância estalam
obscuras e viscosas e doem
irrecusáveis e ditas

as palavras são
agonias suculentas
revolvem doeres e
perceptíveis incrustam-se
nos cegos olhos das palavras

tenho um novo carregamento
por partir

abram as portas à partirnidade




III

e esta hem
esta metafísica do dizer
esta filosofia do como se diz
o porquê mais conseguido

tudo porque um homem
é o signo do seu signo universal

explicando

um homem passa do ser
à qualidade
em pura imagem se crê
plasma-se
sem contornos
na tela

é plano como o advérbio
que tanta força dá ao que se diz

verdadeira a mente
é lugar onde
se passam muitas coisas que só passam
em absoluto
ali

IV

divirto-me com o jogo

digo
com a vida

o dramático silêncio assusta-se
nas respostas

a canção chama a canção
e esses por vezes letárgicos olhos
do meu amor

respiram nas palavras
das palavras

os barcos são ainda
as catedrais onde se reza ao mar

responde o sol sobre as casas

reconstruí o molhe e o trenó
parado sobre a neve

o jogo pode regressar

V

no papel suburbano de tornear
as fronteiras do mundo
temos o teatro
de novo o jogo

cristo andou por aqui aos caídos
sem perceber o sarilho em que nos
metia

tudo na melhor das intenções

lixou-nos pronto

a malta agora que se aguente
carregue a cruz e vote tacticamente
no partido errado de todas as eleições

eu sou um cidadão cumpridor
vou ali já venho e se puder
não regresso

pois pois o sagrado amor a esta
vidinha parva a deontologia retrospectiva e católica
apesar das esfusiantes negações

platão é que a sabia toda
e não queria poetas na républica

ouve
se me deixares embarcar na utopia
fecho num cofre de banco
a multinacional da poesia

e
vou mentir contigo
a alegria maldita de não ter
que dizer e descansar
na mediocre felicidade actual

porém escuta
o homem é um signo completo

VI

nas órbitas de marte
sócrates espera-nos
na torre da cicuta

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maio 13, 2007

MADDIE/DARFUR






Duas imagens terríveis têm-se sobreposto, durante a semana, na minha mente e causado uma forte descompensação de consciência.

Uma das imagens é a de uma menina loura – agora com quatro anos de idade – bem tratada, revelando amor e desvelos em todas as fotografias que nos foram apresentadas e, entrando fulgurantemente em drama após um rapto acontecido – quanto a nós - em estranhas circunstâncias. Outra é a de uma criança, esquelética, negra, de crânio quase maior que o corpo, expirando sobre o pano azul que cobre a mãe.

Dois destinos trágicos, duas situações paralelas no horror, mas diferentes na expressão.

Ao contrário de Hermes Trimegisto que ensinava que “o que está em cima é igual ao que está em baixo” a informação e a sociedade vieram mostrar-nos coisas bem distintas. Basta que troquemos os termos cima e baixo por longe e perto, por rico e pobre, por europeu ou africano e todos os cenários se alteram, tudo toma valores distintos e nada se assemelha ou equivale.

Correndo o risco de parecer insensível ao drama individual, parece-me ser meu dever, como ser humano, demonstrar que a escala de sofrimento, visibilidade e interesse estão profundamente deslocados nestes dois casos.

Analisemos.

Estando de férias no Algarve, os pais de uma família de nacionalidade inglesa, foram jantar, a um restaurante situado a poucos metros da residência, deixando os filhos a dormir no apartamento. De vinte em vinte minutos – segundo a comunicação social – um dos pais deslocava-se à residência para observar o bem-estar dos filhos. Numa dessas deslocações, um dos progenitores, verificou a ausência da filha mais velha Madeleine, ou como diminutivo Maddie. Foi dado o alarme e imediatamente se mobilizaram meios poderosíssimos para encetar as buscas – infelizmente até agora goradas – da criança desaparecida. Todos conhecemos o circo mediático que se montou, a habitual proficiência e arrogância inglesa que antes de tudo passou um certificado de incapacidade à nossa polícia e, com um vago sentimento de superioridade e ancestral posse, considerou-nos um país atrasado e o acontecido resultado de tal estado civilizacional. Recordar que os raptos de crianças em Inglaterra são bem mais vulgares que em Portugal, foi coisa que não lhes ocorreu. Assim como não pensaram que a sua eficiente polícia não foi capaz de evitar os rebentamentos no Metro e não consegue resolver muitos dos casos de crianças, por lá, desaparecidas ou raptadas.

Ou então para quê recordar o caso do cidadão brasileiro abatido a tiro no metro apenas por ter a pele um pouco mais escura? Ou a criação desse raro fenómeno cultural que dá pelo nome de “hooligans”?

Avançando…

Ao sofrimento indizível destes pais respondeu uma forte comoção e apoios morais e sociais tanto em Portugal, como na Inglaterra. Perdidos na dor única de não saber de um filho, nunca estiveram sozinhos e sempre resta a esperança da resolução positiva do caso.

E no Darfur, a mãe que sente o seu filho morrer que esperanças tem?

Recebi no dia 7 de Maio um e-mail remetido por pessoa amiga, emanado pelo “Collectiff Urgence Darfour”, http://photos.blogger.com/www.europetition-darfour.fr, visando recolher, até 1 de Junho, um milhão de assinaturas para obrigar a ONU a enviar uma força de interposição que evite o genocídio que ali, quase invisivelmente, decorre desde 2003. A enormidade do desastre mede-se nos 400.000 mil mortos e nos 2 milhões de refugiados contados até ao momento.

Mede-se também no desespero da UNICEF que necessitando de 89 milhões de dólares apenas conseguiu 11 milhões e que sem esse dinheiro deixará de imunizar meio milhão de crianças, ficará impossibilitada de fornecer água potável a uma população de cerca de seis milhões de habitantes e assistirá impotente à condenação à morte, pela fome, de muitos outros milhares de crianças perante o impressionante pacto de silêncio que parece ter sido estabelecido entre a imprensa, a televisão e os governos do mundo.

Eu sei que o conflito no Darfur, região situada na parte Ocidental do Sudão, é um caso complicado da geoestratégia do petróleo. Mesmo assim não deixa de ser curioso que o dinheiro que falta para salvar pessoas nunca falte para o aumento contínuo do armamento de origem chinesa e russa que alimenta há anos esta guerra.

É aqui que reside a minha dor de consciência. Não sou desumano, não sei que horrores está a sofrer a pobre Maddie, reconheço, sem qualquer esforço, o tremendo drama dos pais, mas pergunto:

É aqui que deve parar a nossa solidariedade humanitária? “E às crianças” do Darfur, “senhor? Porque lhes dais tanta dor? Porque padecem assim!”





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maio 11, 2007

paisagem com maçã rio e um carneiro adventício (poema)

I

este poema é cheio de boas intenções
por isso vai em prosa
será todavia possuidor de um corpo diáfano
essencialmente virado para a poesia

por tanto este poema é de seu bastante
poético

conta-se que um investigador aventou
a hipótese mais que arrojada de ser a fome
a causa fundamental do canto do poetas

um outro
mais arguto ou menos nefelibata contrapôs
após rigorosa observação de quinze
mil gerontes esfomeados que em nenhum
estoirou qualquer pedaço
de estro poético

de aqui concluiu tal observador
a lei que passo a transcrever

"não é a fome a origem da poesia
são os actos sucessivos e poéticos
que originam a fome"

por isso

II

há uma árvore sobre um rio
um peixe perplexo
um animal de frio

confronta-se dezembro no interior das casas
insistentemente clamo pela palavra
e o pôr-de-sol
caminha pelos invernos estabelecendo os dentes
na carne das maçãs

recordo vagamente o paraíso
e as plumas cor de rosa da celestial democracia
nos meles do pleno emprego sem tensões laboriais
apenas interdita a maçons esses neo-criadores de
bicharocos esquisitos nos bestuntos de tanta gente
com dificuldades em perceber que os pedreiros possam ser
livres ou os livres possam ser pedreiros

III

a propósito de seriedade lembrei-me
de uma história onde uma criança com fome contracena com um senhor condoído


entra o senhor e diz

tens fome criança
e num repente emocionado levando a
dextra ao bolso

toma lá pinhões

e assim se percebe o longo e amoroso olhar
que el-rei dinis lançou ao seu pinhal
futuro refeitório de crianças pobres
que o nosso esmoler henrique de pé descalço
mandou descobrir por tudo o mundo onde
pudesse chegar o cheiro que as rosas do milagre
fizeram desabar nas praias da linha de cascais

IV

como é para todos perceptível este poema
é - além de sério - tremendamente moral

relembremos

há uma paisagem com rio
uma árvore uma maçã um carneiro eventual
uma criança com fome

ou como diria um provável opositor
o que sobressai é a mania de dizer mal
de uns senhores ditos intelectuais
que só servem para perturbar os momentos em
que a inspiração se furta consciente ao raciocínio
da indignação

V

a inspiração a inspiração a inspiração
uva que não é quotidiana
parra do curto-circuito da gestação do pensável
acne da terra horizonte em sentido figurado
maçã carneiro e rio ou pluma de corista

é inspiração é aspiração é sofreguidão por aspirar
a culpa a bíblia a analogia

pois fique o eufrates lá onde ficar
o que de momento mais me apoquenta
é saber que em portugal um sargento
das américas vale muito mais que um de cá
general

portanto
abaixo a américa e o custo de vida
as armas nucleares e as outras se possível
e pensemos que fazer dos tectos
da habitação e salarial

pois é assim que deve terminar um poema bom e moral

maio 10, 2007

Helena Roseta

Apenas umas breves palavras para saudar a coragem, mais uma vez demonstrada, a visão política e a entrega total a causas, desta mulher a que ninguém consegue ficar indiferente.

Não sou de Lisboa, não voto em Lisboa - e hoje tenho pena - mas o meu apoio vai desde já para esta candidatura. Este blogue, independente por natureza e escolha, tomará, sempre que necessário, as cores da bandeira que Helena Roseta ergueu por Lisboa.

Independência, capacidade, inteligência. sensibilidade e intuição.

Com Helena Roseta é Lisboa que ganha.

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maio 06, 2007

Tertúlia Oficina da Palavra - 3



Dois belos quadros de Kira, de colecções particulares, expostos na sala da Tertúlia

Foto: Carolina André

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Tertúlia Oficina da Palavra - 2


Vista parcial da sala. Ao fundo,em pé, Sousa Pereira, Director do Jornal Rosto On-line, usando a palavra.

Foto: Carolina André

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Tertúlia Oficina da Palavra - 1



Vista Geral da Mesa - da direita para a esquerda: Camarro, Kira, Olga Mano, Fernanda Afonso, Rosa Guerreiro e Artílio Baptista.

Foto: Carolina André

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maio 05, 2007

Levanta-te Liberdade! ou a Oficina da Palavra

Fui convidado ontem para uma tertúlia, na Escola Secundária de Stº André, designada por “O Barreiro na palavra dos artistas”.

Numa sala bem composta de público e decoração leve e notavelmente requintada para os meios financeiros que sabemos as escolas disporem para tais actividades, decorreu uma memorável sessão de convívio intergeracional que, como viria a dizer Sousa Pereira, Director do Jornal On-Line Rostos, nos fazia sentir que o “Barreiro respira”.

Na mesa, moderada pela Dr.ª Fernanda R. Afonso, tomaram lugar D. Olga Costa Mano, antiga funcionária na biblioteca desta cidade; D. Rosa Guerreiro, em representação do pai José Vicente, poeta popular já falecido; o Dr. Artílio Baptista, dinamizador e professor da Universidade da Terceira Idade e os artistas plásticos Kira e Camarro. A organização da tertúlia coube a um grupo de professoras da Secundária de Stº André, formado pela moderadora e pelas doutoras Carolina André, Fátima Correia, Maria Manuel Dias e Liliete Parada Monteiro.

Este grupo é dinamizador de um fórum designado por Oficina da Palavra que nos últimos anos tem desenvolvido, com os seus alunos, actividades muito interessantes nos campos do debate, da escrita e do teatro, interessando e abrindo perspectivas aos jovens às quais, de outra forma, provavelmente, poucos teriam acesso ou para tal teriam alguma vez sido despertados. No entanto, segundo sei, na contagem para o concurso para professores titulares são actividades consideradas sem qualquer peso ou relevância.

Malhas que o Ministério tece…!


Voltemos à tertúlia onde a palavra foi redonda e circulou da mesa para a assistência e da assistência para a mesa, criando uma densidade humana fascinante, indo das memórias anedóticas às trágicas, da rememoração individual à inesperada poética, construindo um inolvidável serão que apenas pecou por não se puder estender mais no tempo. E pecará se não voltar a reorganizar-se, proporcionando a todos o vivenciar de factos e costumes, alguns ainda vivos outros só história, que refundaram a contemporaneidade desta terra onde habitamos e que no dizer do Kira “é melhor madrasta que mãe”.

Alunos da Drª Alzira Nobre recitaram poemas de alguns poetas presentes e ausentes. Dentre eles apraz-me ressaltar o poema “Querem saber? Eu conto“ do meu amigo Monginho, que, mais uma vez, viajou para outra cidade, deixando saudades da sua presença e palavras: Eis o seu poema que me autorizo a transcrever:


Antigamente eu ouvia as sirenes
Das fábricas de cortiça e os meus gestos de esperança
Despedaçavam-se contra as cortinas da minha impotência

Mais tarde deambulei por lojas
E escritórios com uma panóplia
De sonhos na algibeira

Hoje sou um funcionário que só
Funciona por fora. A rotina é
Uma excrescência de que intento
Despojar-me

Sou cada vez mais pescador de
pérolas por haver

Deixo aos outros as cinzas dos
Braseiros

Que não me fujam as rosas!




Termino esta minha já longa parlenda com uma das história que gostaria de ter contado na tertúlia e que não contei por falta de tempo; tem a ver com o nosso já falecido Mestre Cabanas.

Fazia ele, salvo erro 72 anos e, na cave de uma sociedade recreativa de que já não me recordo o nome, um alargado grupo de amigos festejava o seu aniversário. Como é normal ele tomava a cabeceira da mesa. Ao seu lado direito sentava-se, a sua afilhada, uma rapariguita com uns 10 anos de idade a que ele pusera pusera o belo nome de Liberdade.

Jantar adiantado, discursos e brindes em curso, fomos avisados de que a Guarda Nacional Republicana tinha cercado a colectividade. Num arroubo oratório como só Mestre Cabanas era capaz, improvisou um discurso brilhante sobre a opressão e o fascismo, terminando, ostentoreamente, dizendo:


Mesmo que os esbirros dos fascismos nos cerquem e tentem calar-nos, nunca nos calaremos, e, olhando para a pequena, ordena:

Levanta-te, Liberdade!

Foi o que ontem nos disse, na Tertúlia, a Oficina da Palavra.



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maio 03, 2007

K I R A - BARREIRO: UM POEMA DA "MECINHA"

K I R A - BARREIRO: UM POEMA DA "MECINHA"

Vejam o espantoso azulejo com que o Kira ilustrou este poema da "Mecinha".
Para saberem qualquer coisa sobre a "Mecinha" acompanhem os comentários no Blogue do Kira.

abril 30, 2007

elogio dos estúpidos (poema)

I

vejo-os passar no seu ar alheado
parecem-me felizes

meus olhos longos e doces de trabalhar mágoas
recordam paisagens onde habitava a tua companhia

era nesse tempo suficiente e completo
tomava por verdade o que os olhos vêem
e a razão do momento pelo momento da razão

II

como é pesada a vida quando tudo é desconhecido
e nada do que temos é suficiente
e as saudades nos assaltam até às lágrimas
ficando agarrados à possível dignidade
noção vaga inoportuna irreal indemonstrável mas
de tal forma necessária que nos desgarra em contínuas escolhas

atacados da mansa loucura da solidão
procuramos o rosto amigo o peito amante
que venha reaquecer o nosso sol

ninguém entende quanto estamos sós
ninguém entende como esta injustiça universal
cai sobre o fogo sagrado que ardendo em nós
nos faz maiores mais vulneráveis solitários e nocturnos

III

há nesta obsessão da noite neste sentimento de falta
um resto de desejo da tua presença que não quero

tudo está de rastos

terramoto interior que nada poupou
deixou-me sobrevivente de mim
violento e teimoso de pé sobre os
escombros a reconstruir

por isso escrevo para ti estas palavras que não lerás
compor-te-ei ainda versos e não serão teus
habitar-te-ei das minhas palavras fazendo-te bela e
amante como nunca conseguiste e forte da força que não possuis

no entanto tudo isto é insubstancial
a tua imagem descrita nunca
poderá ser molhada pela chuva de outono
ou beijada nas horas em que o fogo anima o coração

dentro de mim é que serás real e estrangeira
dentro de mim continuarei a procurar-te e a banir-te
por plainos longos e monótonos onde apenas
um estático ribeiro chora


IV

o que dizer mais de mim
coração magoado que espera

ó céus que coisa grande é a dor que conseguimos
que pena tenho de nós
não só de mim que sou náufrago
mas também de quem afundou o meu navio

é que tu canhoneira dos meus hábitos
és algoz e vítima deste jogo cósmico que ninguém criou
mas onde todos somos à uma caça e caçador
e nada nos é poupado e a nada somos estranhos

V

é isso sou um erro crasso
apareci na vida pela porta errada
compareci no mundo quando não era a minha vez

p'ró raio que as parta as filosofias requintadas
quero ser estúpido e viver o dia-a-dia cumprindo
a leve obrigação de estar vivo somente porque como
ou ejaculo

quem me dera que eu fosse estúpido
e conhecesse a vida através dos programas de televisão
e pudesse ser feliz por ser o melhor dançarino da "boite"
estar bem visto no emprego
cumprir ordens sem as discutir
ter uma mulher certa matronal estúpida
distantemente carinhosa e de horizontes limitados
à ancestralidade da família

quem me dera puder ser feliz assim

ser o perfeito pai de família dominador
circunspecto que ao domingo sai apascentando as filhas
que ocupa os sábados a dar lustro ao carro
e que tem encontros clandestinos com uma colega
e pensam por isso ter descoberto os limites da aventura
a fronteira onde os homens assumem a divindade
e acabam molhados e langorosos numa ressaca de remorsos
citadina e poluída dizendo foi tão bom e mentindo
por dentro como se mente por fora ímpios enganadores
da morte com máscaras de cartão

quem me dera ser tudo isto que não sou

VI

em vez disso procuro conhecer
as razões de sentir tudo íntima e analiticamente
para com este conhecimento fazer
coisa nenhuma

por isso a mim tudo me dói mais tudo tem a crueza de ser aquilo que é
e não haver razões nem desculpas para ser outra coisa

sim eu que não enjeito culpas
nem atiro às costas do destino
as causas dos meus efeitos
sei que seria mais feliz sendo estúpido

por isso é tão urgente fazer o elogio dos cretinos
daqueles a quem todas as coisas passam mais ao lado
ou reagem instintivamente com violência ou crueldade
e ficam limpos e nada lhes acerta com jeito de ficar
porque se estão nas tintas para todas as culturas
vivendo tão naturalmente como uma glândula
segrega os seu humores

VII

após este elogio aos estúpidos
descarreguei a minha bílis contra
esta ocasião de vida

sinto-me mais aliviado
um pouco mais reconciliado
quase agradecido à pequenez da memória
e à doçura das ondas contornando a praia

mas faço um esforço de vontade
quebro o adormecimento que me embala
e a realidade esmurra-me nas ventas

porque na verdade estou fundamentalmente só
porque na verdade me sinto defraudado
e a vida que eu vivo não é melhor que a dos estúpidos
e aquilo que eu sinto não justifica coisa nenhuma
e o esquecimento que procuro é igual ao de toda a gente

por isso num pôr-de-sol repleto de cansaços
acabo o poema deixo cair os braços

abril 27, 2007

lúdica e débil a flauta (poema)

I

confusos iniciais
dentro navegámos

a sombra cingia-se de marcas
repentes de barco
na fantástica pátria
das viúvas

pelos caminhos
estremunhado
um filamento
incandescia

II

e os títeres
também por dentro

mas
das fugas

não sei se sabem
dos títeres
lenta marcha
de harpas agitando
nortadas

viradas ao frio
de fora

quando tudo vinha
do fundo da orquestra
com olhos espantados
de fronteiras


III

sim mas os barcos
foram apartados
um tempo além
do permitido

apertados em ventos
em velas
grafia de mundo
no agora externo

olhem para nós

IV

das longarinas
gastámos-lhes as faces

mesmo ao canto do sorriso no comprimento do mundo
a vida dói

qual o sentido
de permanência

que nos corrói

abril 24, 2007

K I R A - BARREIRO: KEM DIRIA !

K I R A - BARREIRO: KEM DIRIA !

Para além de a minha vaidade ter ficado basto satisfeta com a transcrição do "Que Alexandre não me tape o Sol", ( obrigado Kira) vejam os comentários interessantes e cifrados a que o mesmo deu aso.

É só clicar e é remetido para o mundo esotérico e louco da CAEM -Coorporação dos Amigos de Elogio Mútuo !!!

abril 22, 2007

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Os meus quadros do Kira (2) - Silêncio Mordido



O meu segundo quadro do Kira, não é um quadro mas a capa do meu primeiro livro. Para falar dele vou recuperar um texto, publicado no ano passado e que explica racional e emocionalmente o grafismo e as cores fortes que tornam esta capa uma evocação magoada de gentes e tempos, não muito remotos, mas que começam a ser perigosamente esquecido.


NÃO TE ESQUECEREI NUNCA


Farão 33 anos, no próximo dia 25 de Abril, que no meio dos acontecimentos que revolucionaram o País, saiu, discreto, para a luz do dia um pequeno livro de poesia com o nome de Silêncio Mordido.

Foi o meu primeiro livro editado e, no dia da sua saída, ficou por completo abandonado, mesmo por mim, porque aquilo que este livro denunciava e atacava, acabara de ruir sem honra nem glória.

Com o avassalar de acontecimentos quer o lançamento, quer a distribuição do livrinho ficaram muito comprometidos e se despercebido nasceu, despercebido continuou até que um dia, passados muitos anos, um amigo me disse, meio envergonhado, que numa banca de alfarrabista, no Parque Mayer, estavam, a preços da chuva, alguns quilos do meu Silêncio Mordido.

Corri ao alfarrabista e por tuta-e-meia comprei as centenas de exemplares à venda.

E aí lhe fiz correr o destino entregando-o a leitores seleccionados, que sabiam muito sobre as suas circunstâncias.

Explico.

O livro trás a seguinte dedicatória:

“À memória de MANUEL JOÃO

Alentejano. Mineiro em S. Domingos ceifeiro em Baleizão. No dia 7 de Abril morreu. Na linha de Cascais, sob um comboio. NÃO FALOU. “

O Manuel João tinha mais de cinquenta anos nessa altura e estava quebrado pela dureza da vida e pela prisão política. Tinha os cabelos fartos e brancos e uma voz de quem pede desculpa. No entanto espantava tanto por tantas coisas que um dia, um administrador da empresa onde ambos trabalhávamos comentava comigo em jeito de admiração: Sabe que o Manuel João lê o Alves Redol??!! Um contínuo a ler…!!!

Sabia e sabia muito mais. Que dava apoio e guarida em casa a gente perseguida pela PIDE e que, na Sexta-Feira ante da sua morte, ao findar do dia, me revelou uma sua grande preocupação. Tinha sido levado uns dias antes à PIDE. Tinham-no interrogado brevemente e, coisa admirável, deixaram-no sair sem muitos problemas. Do seu saber arcano isto tinha-o feito desconfiar muito e percebeu que continuava a ser seguido. A preocupação que me confiou foi: - Estou velho, tenho medo de já não aguentar o interrogatório e de vir a dizer coisas que não devo.

Confortei-o conforme me foi possível mas com pouco êxito. O Manuel João lá se foi a caminho de casa e do fim-de-semana.

Nunca mais o vi.

Disse-me posteriormente o irmão que pela manhã desse sábado, na estação ferroviária de S. Domingos de Rana, esperava o comboio, perto da mulher, quando se apercebeu que a PIDE o ia prender.

Beijou-a e disse-lhe qualquer coisa como isto – Eu não falo. Adeus!

Atirou-se para baixo da composição, que passava no momento, mordendo, para sempre, os seus segredos.


abril 17, 2007

QUE ALEXANDRE NÃO ME TAPE O SOL

Não há ainda muitos dias, tomando consciência de quantos quadros do Kira tinha em casa e de como alguns marcavam pontos importantes da minha vida, decidi iniciar no meu blogue, uns “posts” aliados a cada um desses quadros. Quando publiquei o primeiro (e por enquanto único) informei o Kira do facto e, no seu jeito irónico e corrosivo, ligando o blogue às publicações que, o mais regularmente possível, venho a fazer no Rostos, insinuou, primeiro que estaria a publicitar-me para candidato a Presidente da Câmara, mais tarde, emendando a mão, vendo a pobreza do que me destinava, lá se dignou considerar-me como previsível candidato a Primeiro-ministro.

Já não era mau de todo!

Mesmo assim, fiquei desiludido. Sempre pensei que, por um lado ele me estimasse mais, por outro me considerasse um ser tão excepcional – como, aliás, eu me considero a mim próprio e vá lá, também a ele – e me futurasse uma Presidência da Europa ou quiçá um Secretariado-Geral da ONU.

Isso é que me vinha a calhar e a ele também porque, sem nepotismo nem favoritismo ou qualquer grau de corrupção (!?), sempre lhe arranjaria um empregosito melhor. Então, é para isso que são os amigos, pois não é?

Visto que ele não me propõe para os cargos que o meu alto desígnio aponta e, sobretudo mereceria, venho proclamar, alto e bom som, que não estou disponível para nenhuma outra posição, ainda que digna e de relevo, em qualquer quadro político local, nacional ou internacional.

Postas as vírgulas nos sítios, avancemos para uma explicação, sumaria e anedoticamente antropológica, das razões em que me fundo para negar-me a tais e tantos aliciantes cargos de poder.

Correndo o risco de vir a ser exautorado e quem sabe mesmo apedrejado na via pública, afirmo que o poder não me interessa, porque, se existindo realmente não é uma mentira, tem razões de ser incontornáveis e faz sentir muito bem o seu peso sobre os viventes, já a sua génese assenta sobre uma fraude social que se vai repercutindo e estilizando aos longo dos tempos e conforme as sociedades crescem e se sofisticam.

Perante as vossas bocas abertas de espanto e o escandalizado ar que ostentam pela enormidade que do teclado me saiu vou tentar credibilizar a minha tese.

Supúnhamos que num tempo tão remoto que não havia história nem chefias, num determinado grupo humano, onde todos eram tão iguais quanto as diferenças pessoais o permitem, um individuo se destacava do grupo por ser quem mais caça conseguia apanhar. Olhando os mais altos interesses desse grupo, uma noite, reunidos à volta da fogueira, alguém sugeriu que o exímio caçador fosse dispensado de todos os outros trabalhos socialmente importantes para se dedicar só e apenas ao acto de caçar.

Sábia decisão. Sendo a vida difícil e frágil perante os perigos dos animais e da fome, estes caçadores recolectores, assegurando o trabalho exclusivo daquele perito, evitavam riscos de ferimento ou morte nos restantes e conseguiam a RMG (refeição mínima garantida).

Espanto da inteligência e racionalidade de que o homem é capaz.

Só que, o raio da vida tem destas coisas, o nosso caçador, gostou tanto do tratamento diferenciado que este estatuto lhe concedia, que já não lhe passava pela cabeça voltar às lides normais do grupo. No entanto, por envelhecimento ou falta de sorte, algumas caçadas começaram a ser menos produtivas e a escassez – que é má conselheira – levou a que algumas vozes dissonantes e isoladas pusessem em dúvida a bondade da solução até aí adoptada. Sentido este estado de alma o nosso caçador puxou do raciocínio e dando a volta ao bestunto, magicou que se conseguisse trazer para o seu lado os dois manos mais fortes do povoado talvez ganhasse algo com isso.

Vai daí, numa lauta comezaina a três, o caçador sussurrou aos Golias que se ficassem do seu lado e o ajudassem, com umas porradinhas, a calar os maldizentes teriam sempre uma melhor parte na distribuição dos alimentos, além de serem os seus melhores amigos com tudo o que isso poderia trazer de vantagens.

Os nossos Golias não eram primos do Einstein, mas não era estúpidos de todo. Aceitaram a incumbência, passaram a usar as peles de modo um pouco diferente dos restantes, amachucaram meia dúzia de cabeças e assim se formou a primeira força pública, a bem da população, autorizada ao uso legitimado da violência.

Esta situação durante algum tempo manteve serena a comunidade. Mas como mesmo no melhor dos mundos há sempre descontentes, houve quem não gostasse de ver o irmão sem dentes ou de cabeça rachada e iniciasse nova onda de protestos. O nosso caçador, mais esperto, ou com mais tempo para pensar, matutou consigo e disse: Bem, os Golias têm-me resolvido o problema. O pior é que o pessoal recalcitrante pode arranjar outros mais fortes ou em maior número e desancarem-me os esbirros. O melhor é pensar numa outra forma de, em conjunto com esta, tirar-lhes da cabeça a ideia de me porem de novo ao nível de toda a gente.

Conhecia o nosso caçador um grande patranhas que passava a vida a tentar enganar os outros vendendo-lhes ervas e decifrando sonhos e futuros a troco de um bife ou de um punhado de cereais bravios. Chamou-o e propôs-lhe que pusesse o seu talento a render a “favor do povo” e não com até aí, egoisticamente, só para ele. O nosso aldrabilhas, que não era nada parvo, percebeu que ou alinhava ou levava uma amarrotadela significativa dos dois Golias. Assim, considerou os ganhos e perdas e tornou-se o FOG (Feiticeiro Oficial do Grupo), com assento ao lado do CHECA (Chefe Caçador) e da FUSP (Força Unida de Segurança Pública). Revelando augúrios e significações legitimou, para sempre, o poder do caçador, como descendente directo – por isso bafejado com os talentos que lhes eram reconhecidos e só ele possuía – dos mais importantes antepassados do grupo. Criou rituais, obrigou a hábitos e normas e legitimou de forma absoluta e divina os inalienáveis direitos do Caçador e da sua descendência.

Com esta brevíssima história penso ter demonstrado porque é que não gosto do exercício do poder, da sua génese e considero ter ratificado a hipótese de todo o poder assentar, algures no passado, senão numa fraude, pelo menos numa rábula de consequências, por vezes, trágicas.

Desta forma, os meus heróis não são os poderosos, nem eu consigo perceber-me em lugares de tal poder. Antes prefiro, como Diógenes, olhar para o poderoso Alexandre Magno e dizer-lhe tão-somente que dele apenas queria que não lhe tapasse o Sol.




Publicado in “Rostos on line” – http://rostos.pt

abril 07, 2007

KIRA: 1960 - GALERIA "A TRAVE" - �VORA

KIRA: 1960 - GALERIA "A TRAVE" - �VORA

Os meus quadros de Kyra

1 – O Peninha

O Kyra conheço-o desde o princípio dos tempos. Das corridas loucas pelas ruas de Évora, aos nossos primeiros amores, vividos com a força das coisas primordiais e irrepetíveis. Muito antes de se iniciar visivelmente na grande pintura que é a sua.

Acordo todos os dias a olhar para um belo quadro a que chamou “Os Noivos” e que está no meu quarto. É uma óptima maneira de enfrentar mais um dia que nunca se sabe como vai correr ou acabar. Mas não é desse quadro que vou falar no momento. Refiro-me a ele, porque hoje, ao levantar-me, olhando-o, tendo em conta outras obras suas que me acompanham em casa, vi, claramente, como cada um deles marca momentos importantes das nossas vivências. Decidi assim, ir, ao longo dos próximos tempos, com os vagares da meditação e do tempo disponível, fazendo um levantamento e dando testemunho deles e das suas circunstâncias.

Assim, o primeiro quadro, que não posso reproduzir aqui para o compartilhar convosco, como gostaria, porque nem sei se ele ainda existe, a que ele chamou “o grito” e eu, por circunstâncias que aduzirei denominei “o peninha”, nasceu em 1966.

Foi assim:

Vivia eu uma desesperada paixão correspondida pela minha musa mas contrariada pela família. Lembram-se do poema do Zeca:

Chamaram-me um dia
Cigano e maltês
Menino, não és boa rês
Abri uma cova
Na terra mais funda
Fiz dela
A minha sepultura
Entrei numa gruta
Matei um tritão
Mas tive
O diabo na mão

Havia um comboio
Já pronto a largar
E vi
O diabo a tentar
Pedi-lhe um cruzado
Fiquei logo ali
Num leito
De penas dormi
Puseram-me a ferros
Soltaram o cão
Mas tive o diabo na mão(…)

Pois ele corresponde inteiramente à forma como a família da minha enamorada me via e me queria fazer sentir. Nesse tempo as diferenças sociais eram bem mais marcadas e marcantes que nos dias de hoje e a minha pretensão mais parecia heresia que coisa de gente com juízo. Mas a juventude é única e alimenta-se dos obstáculos e por isso o nosso namoro continuava afrontando ventos e marés.

Aproximava-se a data de aniversário da minha amada e eu queria dar-lhe uma prenda que a merecesse. Dinheiro não direi que não abundava porque isso era ser demasiado optimista. Na realidade quase não havia. Foi então que eu tive uma ideia fabulosa. Fui ter com o Kyra, então ainda o Gama, com o meu projecto: Eu comprava os materiais e ele pintar-me-ia um quadro para eu oferecer como prenda de aniversário.

Com a generosidade que o caracteriza anuiu imediatamente. Alguns dias antes do aniversário veio o Kyra com a tela – que se me lembro era um contraplacado trabalhado – e eu fiquei maravilhado. O quadro, de uma beleza cromática inexcedível na linha dos laranjas avermelhados, representava um vasto espaço onde a terra e o céu se confundiam, com uma única e mínima figura a perder-se na linha de horizonte onde os tons de laranja-céu e laranja-terra se uniam. Nessa figurinha quase a desaparecer, postada na convergência das linhas verticais e horizontais desse mundo ignoto, pressentia-se um desespero, uma angústia, uma solidão que fazia ouvir dolorosamente o grito irreprimível e reprimido que ameaçava soltar-se-lhe do peito. Nada, para o caso e o momento, poderia ser simbolicamente mais perfeito que essa obra.

Como a figurinha, parecendo esmagada pela forças cósmicas, resistia estoicamente e parecia ter, como um índio, uma pena na cabeça, eu chamei-lhe “o peninha” e assim passou a ser conhecido.

Que foi feito desse quadro? Não sei! Cruzaram-se tempos e guerras, mudaram-se perspectivas e nunca mais eu e ela festejámos, juntos, um aniversário. Mas para lá de tudo o que possa ter acontecido, mesmo que “o peninha” se tenha perdido nos naufrágios da vida, ele existe e estará sempre presente pendurado nas paredes dos meus sentimentos. E é e será para sempre o meu primeiro quadro do Kyra.

abril 05, 2007

Uma questão de equilíbrio

Ele há coisas que parecem mentira.

Esta semana, fui acometido, por um surpreendente síndrome vertiginoso que me fazia parecer um ébrio a querer andar em linha recta. As coisas, estranhamente, pareciam todas fugir da sua vertical e bambolear-se ao ritmo de imaginárias ondas de mar. Assim descrito pode parecer poético mas, na verdade é apenas desesperante e patético. Ainda por cima para mim que, por ser Balança e intelectualmente estruturado pelas Ciências Sociais, procuro desesperadamente a comparação e equilíbrio dos eventos.

Dirão, os que tiverem pachorra para acompanhar este arrazoado, por que carga de água está este tipo a sobrecarregar-nos com os seus problemas pessoais? Ou se pensa muito importante ou julga que nada mais temos que fazer na vida que aturar os seus problemas. E seria muito bem dito se fosse só isto o que eu viesse ao mundo virtual comunicar.

Mas não! Outras coisas hão de “mor espanto”!

Trabalha há muitos anos, em minha casa, uma mais que empregada, amiga, que, por motivos de saúde, teve que ser hospitalizada por longo tempo. Não, não vou dizer mal do sistema de saúde nem atacar o ministro. Esta explicação tem somente a ver com o facto de ter tido que me socorrer, temporariamente, de uma outra pessoa para assegurar o asseio suficiente da casa.

E lá está ele, dirão, a continuar a maçar-nos com a sua vida particular. Grande engano! O que se passa é apenas um engodo para levar o leitor, inicialmente desconfiado e reactivo, a abrir as guardas com estas confissões pessoais, a fazer de si um amigo de trato longo e confiado, para melhor lhe vender o meu peixe, quando o momento for azado.

O motivo de trazer à baila a empregada substituta e o meu síndrome vertiginoso (o nome é um espanto, não é?) prende-se com o tempo mais largo que tive para conhecer a senhora. Numa conversa, não muito longa, contou-me que tinha estado a ler um livro que a impressionara imenso. Recordo o título de cor: ”Deus chorou no Afeganistão”. O seu espanto derivava, segundo me disse, não tanto do relato dos acontecimentos, porque gostava muito de ler livros de história e devorava tudo sobre a Segunda Guerra Mundial, mas porque o que lia nesses livros, por horrível que fosse, era passado e o que lia sobre o Afeganistão estava ainda a decorrer. Rematou na ignorância do síndrome que eu sofria:

- O que falta no mundo é equilíbrio!

Nada mais precisaria de ser acrescentado a esta sentença. No entanto lá fomos falando de como a riqueza do mundo estava mal distribuída; como se a ganância fosse moderada ninguém teria de passar fome, de ser condenado a morte por doenças que se podem curar num ápice e que matam uma grande parte da humanidade; que quantas mais riquezas existem nos países – referia-se ao dito terceiro mundo – maior é a miséria do povo, que não havia razão para as pessoas serem desapossadas da sua dignidade pela miséria e que o mundo, desta forma, não chegaria a bom porto. Rematando: - e no entanto bastava um pouco de equilíbrio!

Foi por isso que eu cometi o risco científico da analogia. Entre o meu estado vertiginoso e o mundo que nos rodeia havia algo de similar. Se eu, diagnosticado o sintoma procurara e conseguira uma terapêutica que tudo parece indicar ser de eficácia suficiente para me repor em condições normais, não poderia mandar o mundo ao médico para que ele lhe receitasse umas pílulas que, ao menos, lhe atenuasse a tentação do abismo?

Levantei-me, cheio de boas intenções, disposto a mostrar ao mundo a sua insanidade e vertigem, certo de que conseguiria despertar algumas boas consciências para este obra fundamental de equilibrar toda a gente que busca equilíbrio e zás! tropeço no noticiário da rádio que me enviou, de novo e rapidamente, para um síndrome vertiginoso, o qual nada tendo a ver com este, pessoal curável a comprimidos, mais parecia raivosa cascata de ignoto oceano a precipitar-se no espaço vazio, nas fronteiras imaginadas do mundo de Quinhentos.

Publicado in “Rostos on line” – http://rostos.pt

abril 01, 2007

Nem Ota… nem desota

Depois que Heisenberg destruiu as certezas das ciências duras com o princípio da incerteza – estranhas coisas da Física Quântica –fiquei com muito receio das grandes convicções e das pessoas que parecem nunca ter dúvidas de coisa nenhuma. Aliás, parece-me melhor ser algo indeciso que fanático exemplar. Lembremo-nos só como as verdades absolutas e inquestionáveis trouxeram enormes dores à humanidade.

De qualquer modo eu tenho duas coisas razoavelmente certas. Uma é de que o Aeroporto deverá sair da Portela; a outra é que defendo, com unhas e dentes – embora não venha neste momento explicar porquê - um comboio de alta velocidade.

Expliquemo-nos!

Sempre gostei, basbacamente, de ver descolar aviões. É caso que muito me espanta esse milagre quotidiano, milhares de vezes repetido, de algo enorme e pesado desprendendo-se da terra e como ave surpreendentemente leve demandar o mais alto do céu. É pecha minha, mas que querem, gosto mesmo de ver. No entanto, nunca consegui esquecer-me de que a Portela está no meio de Lisboa e que, longe vá o agoiro, seria coisa assaz desagradável que um Boeing, de não sei quantas toneladas, falhada a pista, se despenhasse sobre as habitações de Lisboa. Poderia acontecer e, não sei mesmo quantas vezes, não teria estado iminente esse risco.

Por isso, quanto à minha humilíssima mas determinada opinião o aeroporto tem mesmo de mudar de sítio.

O busílis da questão está, no momento, na escolha do local onde o mesmo se quedará. A discussão, como todos sabem, vem já do distante ano de 1969, quando Marcelo Caetano desenhava fragilmente os contornos de uma primavera apenas anunciada. Duas localizações eram possíveis: Ota e Rio Frio. Por razões de ordem ambiental a opção Rio Frio foi extinta e, muitos anos depois, parece que avançará a escolha da Ota.

Como cidadão preocupado com o risco do aeroporto da Portela até nem achei mal de todo. Que estava bastante distanciado de Lisboa era verdade mas, sabemos bem que muitos dos aeroportos mais importantes do mundo ficam a uma hora ou mais de distância das suas cidades. Desde que houvesse acessibilidades fáceis poderia ser uma situação um tanto desconfortável para nós que habitamos por estes locais, mas não seria nada demasiado grave e inultrapassável.

E bem-disse a decisão de mudar o aeroporto.

Só que entretanto, por motivos mais ou menos claros, vieram à tona oposições várias. Li, reli, presenciei debates, recebi “mails” e a subtil dúvida foi-se insinuando. Era então verdade que o aeroporto tinha condicionantes de expansão? Ficava numa zona de risco de ventos e corredores aéreos? O terreno era alcantilado e pantanoso fazendo crescer os custos de construção de modo assustador? No enfiamento da pista, a muitos poucos quilómetros, existia um perigosíssimo depósito de gás? Havia novas alternativas, melhores, menos dispendiosas, mais bem posicionadas e que não comprometiam os prazos de construção?

Perante as exposições apaixonadas e coerentes de muitos técnicos reputados o meu bem-dizer estilhaçou-se. Hoje sou um desesperado cidadão à espera que alguém explique as razões de escolha da Ota e por que motivo não se encaram outras localizações antes que uma escolha definitiva nos leve para outro elefante branco, como os muitos, que boa parte das obras públicas mais propaladas, vieram a demonstrar ser.

Que Nossa Senhora dos aviões nacionais venha em meu auxílio que já não sei o que pensar. Isto assim está pior que Alqueva – a tal barragem feita para introduzir a cultura de regadio no Alentejo pondo-o mais verde do que o verde Minho – onde nós gastámos o dinheiro e, segundo dizem, os espanhóis estão a colher os frutos. Se a construção do aeroporto avançar para a opção indicada que claramente nos sejam expostas razões coerentes e que afastem qualquer vestígio de falta de transparência na escolha. É que assim, quem escolhe, fica com o papel de mulher de César e pagará, necessariamente custos vultuosos num futuro, não muito distante, nos votos de qualquer de nós.

Porque isto assim, repito, não Ota nem desota!




Publicado in “Rostos on line” – http://rostos.pt