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fevereiro 28, 2007

notícia sobre o achamento destas ilhas (poema)

I

como movimentos nascidos da emoção
as palavras ecoam transitórias
venho por isso a meu rei dizer
que por cavados caminhos as ilhas
estão achadas

permitam-nos os tempos ir mais para diante

aquilo que no mar assusta
é o que atrai
descobrir é caminho
para o total dos olhos
portanto antes de aqui chegar
no minuto anterior às novas do achado
trarei as tempestades desses dias
salpicados de sal
em que nos fomos de busca
e de glória

II

o rio é o abraço que se lança ao mar

absortos esperam na amurada os homens
soltar-se a quilha do acaso no vento dos navios
de anil reflectem-se perturbadas as vozes das tensões

repartamos o saque pelo preço do sangue
cobremos na coberta os ventos passageiros

cresce o tédio quando se esfuma o sonho
o retorno esquece a rota desejada
no perigo no momento no nada
neste risco das ilhas se perderem
por ventos que rujam nas ideias

deus é somente vaga que dentro se levanta

III

trago-vos pois as esperadas notícias do achamento destas ilhas
com adoçada memória relembro sob os pés
as danças dos mares desses inícios
porque senhor achar é como ser achado
e navegar é um longo caminho para o interior de nós

sabei ainda que por mais velozes que as naves sejam
é sempre igual o tempo da viagem
tudo se expande
todas as ilhas se afastam à velocidade síncrona da nave

é certo que sempre alcançaremos a ínsula a que nos propomos
mas certo é também que o tempo se medirá
pela justeza do esforço
também vos digo tudo é mar em movimento
os rios que correm para um deus das águas
são pequenezes de espírito
que nós sabemos senhor
tudo ser mar por descobrir
ou carga por levar a um porto
sempre diferente daquele que se espera

também sabeis que as ilhas que anunciamos
primeiro que nós outros as tocaram
porém é sempre novo o achamento e daí
a urgência da notícia
equadores há de factos excessivos
obstáculos de calor
mas vós senhor mandaste o avanço
e tal dizer é tremulina no corpo do deserto

IV

vejo que em vosso rosto se expressa a incredulidade do instante
parece-me vos contaram os baixos ventos
e as derrotas impossíveis de seguir

mas senhor se duvidais do mandado
é porque em vós duvida o mandador

tendes porém um ponto de razão

todo quanto é ordenado percorrer-se
na demanda destas ilhas
traz mais desperto e longo o seu olhar

os pés que a ti me trazem
trazem senhor o pó dos descampados
onde o silêncio dos homens é total
e se atende o fundar de um só grito

mandai agora as palavras semear
tereis então o trigo requerido

fevereiro 24, 2007

Os Provedores

O dicionário da Língua Portuguesa Contemporânea da Academia de Ciências de Lisboa define o provedor como: “Entidade ou personalidade independente dos serviços onde se encontra instalada e à qual se pode recorrer em caso de dúvida ou litígio, ou para emitir um parecer.”

As palavras-chave desta definição são, portanto, independente, recurso e parecer

Assim, os vários provedores que foram nomeados – Justiça, leitores, telespectadores, etc. – introduziriam, num determinado corpo, um olhar lúcido, crítico e capaz de produzir um discurso auto-correctivo.

Desta forma as instituições permitiriam a formação de uma consciência crítica, partindo do seu âmago e decisão, que poderia ser justaposta e tenderia a antecipar posições menos controladas do exterior. Teríamos, assim, a autodefesa canalizada através de um corpo mediador o qual, detentor de um aparente poder de transformação funcionaria, pela canalização da fúria, como prudente almofada para amortizar impactos mais destrutivos, por menos controlados.

Escolhem-se para tal posição pessoas altamente competentes, prestigiadas e inatacáveis, ostentando-se aos utentes a verificação da abertura das instituições ao exterior demonstrativa de uma democraticidade a toda a prova.

Estas personalidades, de integridade incontestável, recolheriam as críticas, sugestões e opiniões dos cidadãos e transformá-las-iam em pareceres coerentes, objectivados e funcionais, utilizados para o melhoramento, ou mesmo transformação, das organizações e dos serviços prestados.

Não contestando a boa-fé e a vontade de servir dos vários provedores tenho sempre presente a sensação de que a sua utilidade se esgota nos estreitos limites entre a produção do discurso e a possibilidade de actuarem, com eficácia, em qualquer coisa que atinja os equilíbrios dos poderes que os nomearam.

Assim sendo, estaríamos perante mais uma demonstração do discurso “esquizofrénico” que vem invadindo a realidade social manifestado na diferença entre o enunciado e o verificado, entre valores e materialidade, bem-fazer e desenrascanço, ser e ter, ou realidade e aparência.

No entanto os provedores existem para além das minhas dúvidas e a melhor forma de lhes outorgar poder e deixá-los testar as fronteiras que os inibem é, quanto a mim, colaborar com eles comunicando-lhes as nossas posições e verificar posteriormente qual a sua eficácia.

Assim fiz, enviando, em 21 do corrente mês, o texto abaixo inserido, ao Prof. Paquete de Oliveira, Provedor do Telespectador, na RTP1.

O programa que me leva a entrar em contacto consigo enquanto Provedor do Telespectador é o “Grandes Portugueses”.

Uma primeira observação geral para o objectivo do próprio programa: -Eleger o maior português de sempre!?

Tarefa, penso eu, impossível sem que o campo seja segmentado por áreas ou tempos. Há grandes portugueses em muitas áreas e eras, não será possível escolher um em absoluto. Enfim, é a minha opinião, possivelmente isolado ou minoritária. Além disso, este programa não passará de um jogo…

E que importância tem ou poderá adquirir um jogo na nossa sociedade? Melhor que eu o Professor dará resposta adequada.

Por isso, passemos à crítica na especialidade.

Ontem, Terça-feira, dia 20 de Fevereiro, passou na RTP1 o programa dedicado a Fernando Pessoa. Sendo ele um dos eleitos do citado concurso pressupõe-se que haverá a intenção de chegar às “massas”, isto é, de ter a maior penetração possível nos variados grupos sociais que compõem os espectadores do canal. Por outro lado, fazendo o poeta parte do conteúdo programático do ensino secundário teria bastante interesse que esse programa fosse acessível ao maior número possível de jovens.

Parecem-me pressupostos razoáveis.

No entanto, o programa foi para o ar já passava muito da meia-noite. Não posso precisar se no horário programado (00,10) mas presumo que muitos minutos depois.

A minha questão é se há bom senso neste tipo de programação. Repare-se! Em Portugal a Quarta-feira de Cinzas não é dia de trabalho? Os portugueses não têm necessidade de um sono de cerca de oito horas por pessoa? A sua deslocação para os locais de trabalho não os obrigam a levantar-se pelas seis da manhã? E não têm direito a ver um programa – que embora concurso - pertence à área do cultural e por isso mesmo ultrapassa o efeito distractivo e soporífico do pão e circo? Só o futebol é que pode alterar a ordem normal de programação para ser transmitido em directo?

Se olharmos para a programação do dia, a partir das 21 horas, ficamos a perceber a razão da apresentação, a horas tardias, do documentário sobre Fernando Pessoa. Ele pode lá competir com o José Mourinho!!!

Agradecendo a atenção para o meu desabafo cumprimento-o, mais uma vez, desejando-lhe os maiores êxitos.”



Publicado in “Rostos on line” – http://rostos.pt

fevereiro 15, 2007

tipos (poema)

I

é necessariamente diferente o meu estar

por ser árvore banco outono certo
nesse longo vento dos sentidos
notícia de passos até à exaustão
da aventura
não cessam meus olhos de notar
as diferentes fadigas do cansaço
sabor de sede onde tudo é árvore
aço
algemas desta fala
afrontada por enganos do dizer

o meu caminho desfaz o meu cuidado

II

na força dos castelos é que vês
a luz das estrelas de outras eras
indiscretas e vagas em devoção
de palavras dementadas
na acidental opacidade do poder
híbrida e sensual máquina onde
impreterivelmente te referencias
obcecada pela árvore
língua digestora no rompimento
dos líquenes da estrada

III

ponho óculos à cor do meu luar
véspera de multidão saúdo o vértice
das cinzas das camélias

fabrico a nave do desejo
desmesurado náufrago do vitríolo
acordo em marte de morte consumido
enrolado no forte coração da máquina

calco o acelerador introduzo a raiva
na briga-brisa que me beija
expludo à tua volta equação de
fumos e riscos acrescentada à
fome do teu ser

IV

antes que a noite caia voltemos às árvores
a cada raio de sul juntemos o instante da
plaina da justiça os verdes que se despem
nos campos intermináveis do teu corpo

resplandece e habita o segundo inominável em que cada célula se perfaz e te persegue
na impossibilidade da tua combustão

no mutismo centenário essa árvore
arranca o vento à depredação

deixo ciclicamente da invernia posar
a volúpia no âmago da flor como quem
descobre o sepulcro ou a ressurreição

deposta a raiva desabitas a angústia
e num tecido breve de cidade
abres os lúpulos à fermentação

fevereiro 09, 2007

Gisela do quotidiano – uma estória de sempre

Conto esta breve estória no papel de marido da Margarida Gentil, já falecida, que se estivesse viva militaria, com certeza, num movimento de apoio ao SIM no referendo sobre a interrupção voluntária da gravidez.

A mãe de Gisela trabalhava a dias, desde há muitos anos, na nossa casa. Conhecemos a Gisela desde o nascimento e afeiçoámo-nos profundamente à menina tornando-se ela a companheira, por excelência, da nossa filha nascida dois anos depois.

Cumprindo o ritmo natural da vida a Gisela foi bebé, criança e chegou à adolescência numa fugaz passagem do tempo. A sua relação connosco foi-se mantendo e reforçando no decorrer dos anos tornando-se cada vez mais familiar.

Andava pelo 15º aniversário quando um dia, de olhos inchados e o nervosismo a rebentar por tudo o que era corpo, pediu atrapalhadamente à Margarida para falar a sós com ela.

Estava grávida do namorado, de igual idade, e também estudante. De angustiada não sabia o que fazer. Falar com a mãe, não! Nem saberia como começar. Encarar o pai? Nem pensar nisso nem na sova que levaria mal tivesse aberto a boca. O namorado ficara em pânico quando lhe contara a situação e agora evitava encontrar-se a sós com ela e mal lhe falava. Estava infeliz, desamparada e ameaçava pôr termo à vida. Toda a sua angústia expressava-se numa única interrogação:

- O que vou fazer da minha vida?

Contou-me Margarida que, tanto quanto foi possível, a tentou tranquilizar. Informou-se sobre quanto tempo pensava ter de gravidez prometendo que, no dia seguinte, voltariam a conversar sobre o assunto. Nessa noite contactou algumas pessoas e entre elas uma amiga psicóloga que se prontificou a falar com a Gisela, caso ela quisesse.

A Gisela quis.

Não conheci o teor da conversa. Sei que Margarida me pediu para, num certo dia, as acompanhar a um determinado hospital onde, sob uma qualquer denominação cirúrgica, a Gisela iria ser submetida a um aborto que oficialmente nunca o seria.

Abro um parêntesis para esclarecer que tanto eu como a Margarida sentíamos, em relação ao aborto, uma certa incomodidade. Ética e teoricamente defendíamos a sua possibilidade mas, quando em conversa transpunhamos a sua realização para um possível filho nosso, concordávamos que seria uma opção que talvez nunca fossemos capazes de tomar.

Parêntesis fechado.

Gisela ficou nessa noite, sob vigilância, em nossa casa e felizmente, como foi bem assistida, depressa de recompôs.

O tempo continuou a passar e Gisela fez uma licenciatura em Direito, casou, teve filhos, ganhou estatuto social. Esta estória só não acaba completamente bem porque, alguns dias atrás, depois de, pelas voltas da vida, passarmos muito tempo sem contactarmos, a encontrei na Baixa Lisboeta.

Eu distribuía panfletos apoiando o Sim ao referendo, ela, olhando-me um pouco comprometida, ostentava uma vistosa pancarta defendendo voluntariosamente o Não.

Sem negar à Gisela do ano 2007 o seu direito a uma opinião própria, não me foi possível deixar de reverter àquela desesperada Gisela que procurou a Margarida, no já distante ano de mil novecentos e sessenta e nove.


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fevereiro 03, 2007

compre o novo televisor (a cores) - poema

I

atenção queridos consumidores
acabou de chegar o novo gadget
atenção atenção muita atenção
corra imediatamente ao seu fornecedor
adquira-o o mais rápido possível

a partir de amanhã já será tarde
a partir de amanhã já você estará classificado
ao lado dos párias dos desintegrados dos irrelevantes sociais

e tudo por não ser razoável
e tudo por não ter querido comprar o novo gadget
e tudo por não ser proprietário desta maravilha técnica
da nova televisão a cores

II

comprometa-se hoje mesmo comprando o televisor
quem não tem um terá que ter
grandes facilidades de pagamento basta assinar de cruz
não é preciso fiador

existimos para o servir
você é o nosso prazer
o nosso fim absoluto

mas compre o televisor


III

se o não fizer vai-se arrepender
vai deixar de ser visitado pelo seu cunhado
feliz possuidor de um carro convertível
e de um seguro de vida maior que o valor da sua vida

- dizem que se vai suicidar dentro de dois anos
quando da próxima queda de valores na bolsa -

se não comprar o televisor será marginalizado no emprego
as suas opiniões serão postas em causa
e ninguém ousará recomendar
um cidadão incapaz de adquirir um objecto
tão conforme à racional utilização dos seus lazeres

IV

é melhor comprar já um televisor a cores

quem o avisa seu amigo é
escute a sabedoria popular
vá lá compre o televisor
tudo está estudado
vai ver a satisfação que ele lhe vai dar

vai ver a vida toda colorida
as locutoras mais bonitas e até
as coxas da vedeta serão mais reais
bem na sua casa tão na sua cama

durma impunemente com a sua vedeta
todas as noites
em cores naturais
no horário marcado

faça parte do grande adultério colectivo
sinta-se irmanado na grande sociedade
dos fornicadores do pequeno écran

faça tudo quanto dizemos vá
você não é mais que os outros ouviu
compre a merda do televisor ou ainda se lixa

V

olhe que tudo está cientificamente estudado
o aparelho é bastante caro para poder ser
objecto de prestígio
facilita-se imenso o pagamento
para que muitos o possam ter - ao menos
como objectivo - democratiza-se a máquina
sem a deixar cair na demasia da posse
para que tê-la seja estar um pouco acima
possui-la seja pertencer ao grupo
adquiri-la seja conseguir a admiração nocturna
dos amigos não possuidores

VI

vá depressa não seja anjinho compre o televisor
não seja palerma não deixe que o seu irmão
lhe coma as papas na cabeça
recorde-se que foi ele quem primeiro comprou
a iogurteira automática que faz iogurte sem leite

já tinha sido ele quem adquiriu
primeiro que todos
um andar na moderna zona residencial
do esgoto-à-porta

já foi ele quem primeiro teve um filho
já foi esse filho quem primeiro ganhou o concurso
do bebé mais nestlé do ano rechonchudo

e você que faz

não seja palerma
não se deixe ficar para trás

VII

então seu cabrão
compra o televisor
ou não

VIII

últimas notícias do rádio conta-dores

foi hoje fuzilado ao alvorecer
por um pelotão de bons consumidores
o senhor fulano de tal
indivíduo perigosamente associal
que se negou a comprar
um novo televisor a cores
sistema pal

janeiro 28, 2007

A excepção e a regra

A caminho de Urga, atravessando o deserto vão um viajante e o seu guia. O viajante é um homem cruel que sobrecarrega desumanamente o seu servidor, negando-lhe mesmo em determinada parte do percurso, quando a água escasseava e se tornava vital, o quinhão que lhe pertencia.

De acidente em acidente chegam, ou chega o guia à cidade demandada, sendo este remetido para a justiça por o viajante ter morrido, ou pelo mesmo, não tendo morrido, ter apresentado qualquer queixa contra o guia.

Apesar de ficar demonstrado, em juízo, que o comportamento do guia foi de exemplar humanismo e superior paciência, também se estabeleceu uma enorme desconfiança por o mesmo ser uma excepção absoluta em relação à expectável conduta de alguém submetido a tais vexames.

Assim, por ser uma excepção, foi o guia condenado em nome da regra e dos procedimentos estabelecidos.

Esta súmula imprecisa – há muitos anos que li a peça de Brecht a quem “roubei” o título desta crónica e muito detalhes já se me escapam – serve para introduzir mais um apontamento sobre o caso do Sargento Luís Gomes.

Como se sabe está condenado a seis anos de prisão por não entregar, como a regra defendida pelo tribunal manda, a criança que vive como filha, na sua família, há quase cinco anos.

Ele, tal como o guia, não se comportou da forma estabelecida. Faltou aos costumes! A excepção do seu comportamento valeu-lhe a condenação, conforme acórdão do Tribunal de Tomar por: Crime de Sequestro Agravado, Crime de subtracção de menor, Regulação do poder paternal e Recusa de entrega de menor a pai biológico.

O acórdão tem 43 páginas e representa, para um leigo como eu, o exercício absoluto da norma sem a temperança de um juízo que a enquadre e faça perceber a excepcionalidade psicossociológica do quadro.

Recordando o caso: Uma mãe em desespero socioeconómico não recebeu reconhecimento de paternidade nem auxílio para criar uma filha nascida de uma relação pontual com o alegado pai biológico. No desespero da situação procurou alguém que lhe garantisse a subsistência e vida da filha. Encontrou o porto de abrigo no casal Luís Gomes e Maria Adelina que recolheram a criança e a trataram como filha.

Em acto de registo de nascimento da menina, como a lei portuguesa não admite a situação de filhos de pais incógnitos, foi o provável pai biológico, sob intimação judicial e custódia da GNR, obrigado a sujeitar-se a testes de genética os quais viriam a provar a sua paternidade.

Ao que consta, a partir daí, o já provado pai biológico apresentou a sua pretensão à tutela da menina, que lhe foi concedida pelo tribunal, em Julho de 2004, isto é, quando a menina já, há dois anos, fazia parte integrante da família adoptante.

Ignorando a teia de afectos entretanto criada, a possibilidade de, não fora a adopção de facto exercida pelo casal, talvez a menina já não se encontrasse viva ou fosse mais uma criança abandonada, o tribunal mandou entregar, de imediato e friamente, a criança ao pai biológico. Não teve em conta, minimamente os interesses da criança, os sentimentos dos pais adoptantes, nem os efeitos de mudança de hábitos e ritmos na vida da menina.

Esta primeira decisão tardia e cega foi causa bastante para precipitar todos os acontecimentos posteriores. Está aqui, no meu parecer, a génese do mal o qual é completamente atribuível à demora e insensibilidade social da justiça.

O acórdão do Tribunal de Tomar, para além de erros e omissões já apontados em vários jornais, seguiu este precedente, tornando-o mais gravoso por ter vindo a lume já passados cinco anos sobre o início do caso e por se ter declarado inequivocamente a favor do biológico contra o social, do legal contra o afectivo, do rigor mecânico e estático das normas contra a sua interpretação à luz da dinâmica dos afectos e da vida real.

Os nossos vizinhos britânicos resolveram esta dicotomia optando pelo uso simultâneo de duas fontes de direito. O direito inscrito nos códigos e o consuetudinário. Quer-se dizer que os usos e costumes de um dado lugar ou época podem fazer alterar o sentido de uma lei escrita. Depende do juízo e conhecimento do julgador.

Não sei se os resultados desta forma de fazer justiça são melhores ou piores que aquele que é utilizado nos tribunais portugueses. Sei apenas que permitiria uma decisão diferente daquela que foi tomada e que, tão justamente, causou enorme comoção entre os nossos conterrâneos, por princípio, tão desatentos do exercício quotidiano da cidadania. Sei também que não há muitos anos as uniões de facto não só não eram reconhecidas legalmente como eram fonte de vergonha e hoje, para quase todos os efeitos, são comparáveis aos casamentos de “papel passado”. Resta-me esperar que o mesmo se venha a passar nos casos em que, como neste, exista, sem qualquer dúvida, uma adopção de facto.

PS 1 – O sargento Luís Gomes continua encarcerado e com uma pena de 6 anos a cumprir e, pasme-se, com o Ministério Público, generoso e magnânimo a pedir a redução para 4 anos!! Assusta-me que com tal liberalidade possa tão brevemente regressar ao nosso convívio um tão perigoso e cadastrado “sequestrador”.

PS 2 – No dia 11 de Fevereiro vou votar, novamente, SIM


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janeiro 26, 2007

habitualmente zeloso e cumpridor (poema)

I

estás tramado meu lírico burocrata
de empresa quase falida neste tempo de terceiro-mundo
em vésperas de europa

estás bem lixado com tudo quanto inopinado sobre ti desaba
e te afugenta as sonhadas planícies do lazer
seguidas até ao servilismo

lá se vai o teu sossegado apartamento entranhado
de pequenas cobardias apenas choradas quando
as tuas asas de anjo cumpridor se abatem
na imagem de eunuco pálido habilmente alimentado a restos
de ilusão por imagens coloridas tal
a superfície fria e inabitável por detrás da luz
efémera com absolutos sentimentos de realidade
vultejando no horizonte de uma chuva de jardim
espalhando outonos e restos de jornais

adivinhas no passado o trânsito onde foste transviado
e te transformou nessa máquina de obrigações e ordens
mineral que abdicou de si para naufragar no
estrume colorido de uma hierarquia que

passeava o brilho da sua eternidade na sombra esmoler
da tua sombra caverna degenerada de desejo
no todo circunspecto de quem sempre viu o que foi grande
o que foi belo o que foi tudo
feito pelos outros e
apenas existia porque se enquadrava no sagrado organograma
de um regime de uma empresa ou de um partido

III

meu palerma em psicatto pústula de raiva que casaste com uma
genoveva
com paixão adquirida por empréstimo no coração do fastio
que já dez dias antes do casamento te predispunhas ao sacrifício
e te quiseste heróico e aguentaste o patau pensando sobretudo
no que os outros diriam no momento em que
por te saberem tão nabo
alinhavam escárnios na tua frente e tu
no estoicismo barato do teu comportamento
tentavas a vingança dominando o espelho de tédio
nos olhos de uma prostituta quando

os americanos desciam na lua e acertavas
com um doze no totobola acreditando que
em nome da humanidade
pousavas sobre o corpo de selene sondavas um discurso
enquanto passeavas pelo vídeo a tua refeição de aparências
sorrindo com raivinhas fundas por um dia
por qualquer distracção um qualquer jardineiro nem sequer
mal-intencionado ter
podado a haste da vida que em ti crescia

na verdade enquanto a vida perpassas linear
outros requerem o incómodo das coisas transgressoras
das iniquidades num interior de força
procurada nas origens do ribeiro que está
no outro lado da infância e aparentes e loucos
colocam todos os dias um padrão de fogo
no interior das estrelas

III

num destes dias pequenos e pacatos
meu cidadão do nada envolvido subtilmente nos brancos
de um consórcio mantido à força de regulamentos
por entre rendas e preceitos vigentes

morrerás com

a) um padre à cabeceira da extrema-unção

b) o oficialmente incontrolável choro da tua viúva imersa nos
tranquilizantes
recomendados para situações congéneres

c) inquietos no seu enquadramento
os filhos e
os netos
buscadores de testamentos e legais benesses

d) as flores
os lutos
as mulheres da casa preparando
o momento do trespasse
que se quer
composto
digno
em família
mas letal

contudo latente a intriga rodeia os herdeiros

porque

cá fora a vida segue noutras máquinas
cumpridoras zelosas e pacatas
escondedoras do ódio que as consome
que já cobriram o espaço que deixaste
e arrastam o teu cadáver sem peso e sem remorsos
até ao dia em que súbito aos seus ouvidos
alguém murmurar as insofridas palavras

"estás tramado meu lírico burocrata"

janeiro 22, 2007

Três Causas

Há neste momento três causas que me prendem a atenção. Não serão de igual valor para o observador exterior, mas todas têm em comum apontar para aspectos essenciais do viver e dignidade humanos. Duas causas têm nome de homem, a outra, sendo gramaticalmente masculina, atinge, não única mas principalmente, as mulheres.

Acabe-se então o mistério e, ordenadamente, desvendemos os nossos segredos!

Primeira Causa – Aristides de Sousa Mendes

Decorre pela RTP 1 um concurso denominado “Grandes Portugueses”. O modelo foi importado, salvo erro, da Grã-Bretanha e como é por demais sabido pretende, através de explanação de curtas e variadas biografias de notáveis de todos os tempos deste país, por meio de votação popular, determinar qual é o maior de todos eles.

Bem, só por isto não viria mal ao mundo e até seria interessante e pedagógico dar a conhecer os assinalados barões do peito ilustre lusitano (passe este tortuoso empréstimo a Camões). No entanto, algumas leves perplexidades são-me levantadas por este concurso. Começo por não saber como é que é possível designar “o maior dos portugueses” sem determinar, no mínimo, em que época e em que área. Confesso que a falta destes critérios me abala na minha escolha. Não sendo tarefa fácil nomear o maior dos portugueses em áreas definidas – por exemplo na poesia com Camões e Fernando Pessoa (e a Sophia e o Ruy Belo e o Herberto Hélder etc… etc.) – descobrir qual é o maior em absoluto parece-me, no mínimo confuso, no máximo tarefa impossível.

Como, no entanto, o impossível é o meu território, decidi fazer uma escolha. Escolhi Aristides de Sousa Mendes. O Homem que em Junho de 1940, quando Cônsul em Bordéus, em apenas três dias, desobedecendo às ordens de Salazar, salvou dezenas de milhares de pessoas do extermínio às mãos dos Nazis, condenando-se a si e aos seus, a uma vida de tal privação que, para alimentar a família, necessitou do auxílio de instituições de caridade.

Morreu em 1954 pobre e sozinho (os 12 filhos tiveram de emigrar) desonrado pelo estado novo mas com a dignidade única de ser um Homem sem par.

Não desmerecendo ninguém, eu, voto nele.

Segunda Causa: Sargento Luís Gomes

Já alguém disse que o direito não é sinónimo de Justiça. Nós sabemo-lo muito bem. O formalismo normativo, quando despido da necessária dose de percepção do viver humano, assume, por vezes, um não sentido, uma absurdidade e uma arrogância sem par.

É, para este caso, paradigmática a sentença de prisão de seis anos, por rapto, atribuída, por uma com certeza douta e meritíssima juíza, ao Sargento Luís Gomes. Justíssima punição, digo eu, merecida pela defesa intransigente que Luís Gomes e a esposa vêm fazendo no sentido de manterem o equilíbrio emocional e a felicidade de uma criança de cinco anos. Dos factos que deram origem a este caso não vale a pena falar. São por demais conhecidos e, felizmente, deram início a uma corrente de simpatia e solidariedade para com este militar que arriscou liberdade e carreira para fazer o que considera correcto. Há desobediências que só honram quem as pratica. Orgulho-me de viver num país que produziu um homem capaz destas posições.

Ele é, sem dúvida, um grande português!


Terceira Causa – O Referendo sobre o Aborto

Vou votar, mais uma vez, SIM


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janeiro 14, 2007

A nebulosa da Águia

Este é o terrível desenho do meu conhecimento. Esta imagem, tirada pelo telescópio Hubble, é conhecida como Nebulosa da Águia, fica na constelação da Serpente, a 7 mil anos-luz da Terra.

No passado dia 12 vinha publicada no Público acompanhada pela informação de que, dentro de mil anos, este “viveiro de estrelas” seria totalmente destruído. Desapareceria.

E porquê?

Porque à seis mil anos atrás - como agora já sabemos - uma estrela explodiu nas proximidades galácticas e as suas ondas de choque volatizaram a bela nebulosa da Águia. Como esta formação de poeira estelar está a 7 mil anos-luz de distância o fenómeno só se tornará visível, para nós, daqui a mil anos.

No entanto eu sei, nós sabemos, que a imagem que vimos já não existe senão como luz fóssil, como transitiva inverdade do nosso olhar. Porque conhecemos os acontecimentos podemos fazer uma predição para os próximos mil anos. Seremos sábios, pareceremos, a qualquer ouvinte menos esclarecido, omniscientes. Como por esse saber nada poderemos fazer para evitar o já acontecido somos Cassandras impotentes.

Horrendo dilema entre o conhecimento e a impotência para o acto corrector. Assim se deve sentir o deus todo-poderoso criado pelos humanos. Sabe porque quisemos que soubesse e porque a relatividade o proporciona, mas não age, nem a pedido, porque o fenómeno, por acontecido, é inevitável.

Terrível e frustrante é o papel de deus!

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janeiro 03, 2007

O Ponto dos Médicos

A gente ouve, vê e pasma!

O Ministério da Saúde, no uso das suas prerrogativas legais e administrativas, decide instaurar um processo de fiscalização de pontualidade e assiduidade através de meios electrónicos em consonância, penso eu, com as regras do actualíssimo choque tecnológico.

Os médicos, e restante pessoal em serviço nos hospitais, todos os dias, à saída e à entrada do trabalho vão ter de pôr o dedinho no identificador, o qual, como frio polícia indicará à puridade a que horas o funcionário entrou e saiu do seu local de trabalho.

Esta prática, com defensores e atacantes, é, de variados modos, aplicada em inúmeras empresas. Serve como simples meio de controlo de presenças e pontualidade e nada diz sobre a quantidade e qualidade do trabalho prestado.

Que eu saiba, no caso vertente, também nada mais se pretende e poderá obter com ela, sendo simplesmente a mudança de controlo por ancestral livro de ponto, por meio mais jovem, mais sofisticado e possivelmente mais actuante.

Daí qual o motivo para esta vaga de indignação, protesto, ameaças subjacentes e demissões reais de chefes de serviço clínico no Hospital onde a prática entrou em experiência? Têm razão os médicos, está certo o Governo, é justo o bramido vingador da população?

Como escriba, no momento, distanciado dos interesses em jogo, em olímpica posição de autor omnisciente, olho do meu alto pedestal para a agitação do formigueiro e decido-me pela análise clínica dos actores sociais em causa.

Deixemos portanto os prolegómenos e vamos à substância.

Andou bem o Governo ao ordenar esta forma de controlo? Quanto à legitimidade do acto, já afirmámos acima, nada a declarar. Está nas suas competências organizar os serviços e o seu controlo. Quanto ao método, também pouco há para dizer. Adquiriu meios, procede a uma implementação experimental num local para tal escolhido e, alegadamente, procura medir os efeitos desta remodelação para posterior alargamento sustentado e corrigido. Admirável!

Os médicos espumeceram. Que não! Inominável afronta! Qual dedo nem meio dedo! Se entrarem à hora certa terão inevitavelmente que sair à hora certa podendo, ho! impensável, deixar uma cirurgia a meio, adiar a vida do paciente, deixá-lo pendurado no limbo com meio órgão restaurado, guardando para amanhã o restante, quando a nova marcação de ponto obrigar a equipa a entrar de novo ao serviço. O Bastonário da Ordem fez-se eco mediático destas posições!

Os doentes e os possíveis doentes - quer dizer, uma boa parte da população que, com a minha anunciada e majestosa exclusão, somos - obrigada a horários, a relógios de ponto, por vezes a ritmos de trabalho diários muito intensos e vigiados, a contragosto habituados a angustiantes e desesperadas esperas em Centros de Saúde e Hospitais, sentiu uma ânsia vingadora e, de alma e coração, desagravando anos de sentida humilhação pela arrogância e frieza de algum pessoal dos serviços médicos, veio apoiar com vigor a fiscalização daqueles malandros. Em nome da igualdade de direitos e deveres entre cidadãos, anote-se!

Que tem então o distante observador para acrescentar a este tão sumário como equilibrado e douto levantamento?

Nada de muito especial. Apenas algumas observações de mero senso comum.

Aconselhado pela sabedoria popular – que tantas vezes o não é – cito o velhíssimo ditado “casa onde não há pão todos ralham e nenhum tem razão”.

Senão vejamos!

É verdade que nos Serviços de Saúde, como em outros serviços e nas empresas privadas, há prevaricadores que deixam nódoas no tecido a que pertencem e que por abusivas generalizações são estendidas a toda a gente. É um erro, mas muito comum. Será no entanto a questão da marcação de ponto o maior ou mais urgente problema dos nossos serviços de saúde. Como é claro e evidente, não é! Bem mais grave são a falta de meios humanos, técnicos e financeiros que estrangulam e tornam, por vezes, desumanos e deficientes o tratamento que as pessoas conseguem nos hospitais. É bem mais fácil introduzir relógios de ponto que reformular o sistema hospitalar. É uma medida imediata, muito visível e que terá, certamente, o apoio da população que olha os médicos com a admiração de quem do seu saber precisa e a ira do seu sentimento de incapacidade perante o que, com ou sem razão, considera a prepotência e desprezo dos médicos frente aos doentes e ao seu sofrimento. Portanto, jogada política mais que tentativa de resolução séria de problemas.

Por sua vez, os médicos morderam o anzol. Percebemos! Não são políticos. São técnicos de saúde. Alguém quis demonstrar que todos os cidadãos são iguais, sem ter de fazer um profundo trabalho de estruturação de direitos. Neste momento os médicos, como em outros os juízes e os professores, vieram mesmo a calhar. O desemprego campeia? Os orçamentos das instituições são curtos? A economia não arranca? Então lá vai distracção para a populaça olvidar suas agruras. Pão e circo, entenderam? Os problemas continuam ou mesmo aumentam, pouco ou nada se resolve mas, enquanto o espectáculo dura há alguém que folga. Portanto a classe médica não se deveria prestar a esta manipulação. É instruída, tem poder real, melhor faria em se repensar nas suas práticas e relacionamentos, deixar de parte a cegueira corporativa e disciplinar quantos, por seus comportamentos, permitem a adesão entusiástica de tanta gente as estas não medidas.

E nós? Agora também me incluo.

Pagamos impostos, sofremos esperas em tudo o que é serviço público, somos desprezados pelas instituições que mantemos com o nosso dinheiro e trabalho, aguentamos tudo isto com ressentimentos mudos e em vez de reclamarmos, exigirmos os nossos direitos com energia e civilidade, contentamo-nos com a vingança possível quando, demagogicamente, são tomadas medidas, apenas paliativas, contra as corporações que, é verdade, muitas vezes nos subjugam.

Acordemos pois, para o que vale a pena e é real. Deixemos o ponto dos médicos, as férias dos juízes e as faltas dos professores e passemos a exigir dos nossos eleitos um sistema de saúde compatível com o grau de desenvolvimento das sociedades europeias, melhor e mais rápida justiça e uma educação atenta às idiossincrasias locais, ao interesse nacional e ao desenvolvimento contínuo dos conhecimentos e das pessoas.

Como é que isto pode ser conseguido? Bem, isso já é outra história. Mas comecemos por não nos deixarmos distrair com o ponto dos médicos…

Publicado in “Rostos on line” – http://rostos.pt/

dezembro 29, 2006

Fundamentalismo Cristão (criacionismo)

Andamos tão preocupados com os fundamentalismos islâmicos que mal nos apercebemos da víbora que cresce nas nossas entranhas sociais.

Começou a germinar-me esta inquietação, na semana passada, quando li na imprensa que, algures no país, iria inaugurar-se um museu criacionista!

Perguntar-me-ão se não é disparatada esta inquietude, uma vez que não só convivemos com a doutrina criacionista durante séculos, como, sem dúvida, foi ela a base e o sustentáculo da nossa civilização. Antes de avançar em mais alargadas explicações, convém ao escrevente esclarecer o que vem a ser isto do criacionismo. Atenho-me, na explicação, apenas à actualidade.

Pois então, os criacionistas defendem que as explicações dadas pelas ciências sobre origem e evolução do universo e da vida são todas falsas, excepto se estiverem avalizadas pela palavra bíblica. Aprofundando um pouco mais: a teoria do Big Bang é errónea, a terra tem apenas cerca de 4.000 anos, o mundo foi criado em seis dias (os registos fósseis devem ter sido um divertimento de Deus para enganar os homens, porque, criados nos mesmo seis dias, revelam à análise alguns milhões de anos de existência), etc., etc.

Como tais afirmações são difíceis de manter perante um público instruído, guardam estas asserções para uma população menos letrada ou já em adiantado estado de conversão. Para os mais críticos ou mais difíceis de convencer, instituíram uma linguagem pseudocientífica apoiada numa teoria designada por “Desenho Inteligente”.

Esta teoria baseia-se no princípio da “Complexidade Irredutível”, isto é, na existência de organismos biológicos complexos que não podendo, na perspectiva criacionista, ser explicados pela teoria da evolução e da selecção natural, exigem, para a sua concepção, um projecto e um ser criador. Não sendo este o espaço nem o momento para maiores explicações direi, no entanto, que os exemplos de complexidade irredutível, apontados pelos criacionistas, estão cabalmente refutados pela esmagadora maioria da comunidade científica mundial.

Onde está então o perigo que estas crenças apresentam?

Enquanto a abordagem científica assenta na investigação, racionalidade, aumento de conhecimentos, confronto de hipóteses, construção de teorias e possibilidade da sua refutação quando novas descobertas aconselham a mudança ou abandono das teorias dominantes, a abordagem criacionista funciona num discurso circular e fechado que somente pretende reafirmar as crenças a que já se aderiu. Qualquer coisa que saia do instituído pelas fontes sagradas é inaceitável heresia que deve ser exterminada. É portanto uma posição que leva aos obscurantismos, ao fechamento ao progresso e à autoridade natural de um ou mais esclarecidos, por sopro divino, sobre todos os outros. È uma atitude cientificamente fechada, obstrucionista e socialmente autoritária.

São disto exemplo vários casos acontecidos, sobretudo, em escolas dos Estados Unidos da América ( ex: Arkansas, 1968), cujos Conselhos Directivos foram sendo gradualmente dominados por criacionistas. Nessas escolas foram imediatamente proibidos os manuais de biologia que se referiam ao Evolucionismo (teoria científica) e foram adoptadas à letra as descrições metafóricas e metafísicas da Bíblia, como se de boa ciência se tratasse. Estas posições foram sendo tomadas, com grandes tensões sociais e prejuízo de conhecimentos, até que o Supremo Tribunal dos EUA se pronunciou determinando a ilegalidade de tais atitudes e a impossibilidade de considerar no mesmo nível crenças e ciências.

Daqui a minha inquietação.

Eles vêm aí de mansinho. Aqui um museu, além uma ajuda económica atempada a comunidades carenciadas e por detrás a manipulação do pensamento através do aproveitamento de fragilidade sociais ganhando insidiosamente posições que, no seu limite, conduzirão a uma nova e obscura idade média, ao fechamento da investigação e do progresso, à fusão dos poderes executivo, legislativo e judicial num único poder religioso e totalitário reagindo violentamente a qualquer tentativa de inconformidade ao modelo único.

Tenho, apesar de tudo, esperanças que ao dominarem as sociedades, mesmo não aceitando a evolução, por necessidades pragmáticas, adoptem métodos de eliminação dos inconformados mais eficientes que o das clássicas lapidações ou fogueiras.

Publicado in “Rostos on line”http://rostos.pt

dezembro 09, 2006

O Vítor

Numa tarde de sábado, acerca de dois meses, quando, no estacionamento de um supermercado, acabava de arrumar as compras na mala do carro, fui surpreendido pela manobra de um condutor que travou no lugar ao lado de forma admiravelmente rápida, hábil e sonora.

O desembaraçado chegante desceu o vidro da janela e com o sorriso luminoso e aberto de quem encontra algo desejado, Há muito perdido, disse:

- Olá! Eu sou o Vítor!

Com certeza espantou-se -me na face a admiração porque logo de imediato acrescentou:

- Não te lembras de mim?

Confesso que não reconhecia aquela cara de lado nenhum. No entanto dava tratos à memória para me recordar de algum encontro onde tivesse conhecido aquela pessoa franca e contente que começava a ensombrar-se pelo meu esquecimento.

Vá lá, recorda-te, o Vítor, lembras-te? Então, o Vítor…

Eu não me lembrava coisíssima nenhuma do Vítor e já começava a sentir-me meio culpado. Tartamudeando foi-lhe dizendo que lamentava mas não me conseguia recordar.

- Não te recordas? Mas nós trabalhávamos juntos… e deu-me alguns detalhes que me pareceram condizer com um local onde de facto trabalhara.

- Será de Empresa X? Perguntei, meio aliviado.


- Precisamente…

- De qualquer forma não me lembro.. e fui-me lentamente recordando de um Vítor que tinha trabalhado comigo e que deixara o emprego para terminar a o curso de direito. Perguntei-lhe se era esse Vítor e logo o sorriso reacendeu e aquiesceu entusiasmado.

- Sabia que te havias de lembrar… E continuou desfolhando algumas recordações, em que não me revia, mas que poderiam bem ter acontecido, atribuindo eu à minha má memória o olvido de tais factos.

Eis senão quando me diz ter trocado a licenciatura em direito por um lugar de Comissário de Bordo na TAP e, num gesto largo e generoso põe-me nas mãos um estojo de reputada marca com um relógio para senhora e outro para homem.

Fiquei atrapalhadíssimo. Que não podia aceitar os relógios. Ele, a por o ar de quem recebe grave afronta, reiterando o prazer de me encontrar ao fim de tantos anos para eu estragar tudo recusando a sua oferta.

Contra o seu semblante contrariado consegui por fim entregar-lhe os relógios e já me preparava para entrar no carro quando subitamente, puxando de uma máquina de filmar digital ele disse:

- Olha, para comemorar o nosso encontro é tua por 300 euros…

Olhei para ele e para a máquina. Era da plástico, a lente deveria ser um vidro grosso, made in China ou Taiwan, e aquele Vítor nunca seria o Vítor que eu levemente conheci.

- Não quero máquina nenhuma e você não me conhece de lado nenhum…

- 150 Euros, respondeu-me.

- Desapareça!

- 50 Euros…

Saquei do telemóvel e informei-o de que iria ligar à polícia e lhes daria a matrícula do carro.

Num ápice, com a mesma maestria com que estacionara, fez uma rapidíssima marcha atrás e saiu, em velocidade constantemente acelerada, do parque.

Entrei no carro e fui-me a pensar na lata do tipo e na habilidade com que fora sacando informações para me baralhar na conversa e chegar a fazer-me desejar recordar os factos de reconhecimento que ia inventando.

Ontem, a caminho de Sintra, parei na estação de serviço da Ponte Vasco da Gama. Tinha acabado de atravessar o caminho quando, atrás de mim, dois leves toques de buzina, me chamaram.

Um homem de quarenta anos, bigode bem aparado, um sorriso grande como um largo, descia o vidro do carro e com enorme contentamento dizia:

- Então, não te lembras de mim? Eu sou o Vítor!

Voltei-lhe as costas e fui tomar o pequeno-almoço.

abril 20, 2006

ocidente

a ocidente

é meu país um movimento
é meu país coisa ficada

no entanto
em ruas dormirei de sono feito
e acordarei

no dia em que país crescendo
for interior de homens encontrados
não país quieto no movimento

onde me quedo sentado

In Silêncio Mordido, Plexo,1974

Foto: Pedro Correia Posted by Picasa

abril 18, 2006

o desporto não se mistura com política

na praça do desporto damos as mãos
ao pepe das bancadas e o coração também
o voto não

no terreno santo da concórdia
abrimos o grito em sã competição
a voz enrouquece
mas é pela nação

sem problemas de cor credo ou raça
eliminamos os dissídios de classe
e lutamos armas iguais pela vitória
- exeptuamos berlim que aí
hitler volta as costas à história -

na praça do desporto damos as mãos
na concentração de massas unicéfalas
alpinista do peão emigrantes da glória
matamos o árbitro e nesse movimento
esmagamos quem oprime - claro em pensamento

que tudo na praça do desporto tem seu preço
- como na da canção -
se um ganha outro perde nesta confrontação
cada campo é de desporto e de concentração


In silêncio mordido, Plexo, 1974

Foto : Forte de Peniche - Pedro Correia






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abril 14, 2006

poema para charly

o poeta social o poeta do amor geral
tinha ossos na alma mão acilosadas

é preciso que se ame enquanto a recordação dura
e nada é frio nada são olhos de morte mãos no cérebro

à porta da decepção os átomos de carbono
acenavam lenços de assoar

e as casas grandes esmagavam o jardim


é o tempo
que chega o tempo de não chegar as televisões
gritam bombas conquista diária da morte

é preciso charly é preciso que se ame com raiva
e átomos fissionados até um inexistente
deus voltar a cara ao polígono dos dedos
em orações de corpos de mulheres ao nosso

baloiçam as pernas nas caudas dos cometas
seca a areia come-se espaços de sermos pouco

basta do tempo do nada que chega


In silêncio mordido, Plexo, 1974 Posted by Picasa
Foto: Pedro Correia

abril 12, 2006

cupelon



sobre a guiné havia brumas
de histórias sem regresso

na noite
em calmosas mentiras
dormiam pântanos incêndios
e dois homens mortos
em casa do grotesco

bissau quase um pouco de nada
um corpo mulato a vários níveis de crédito
convidado para o grande reveillon do fim da vida

hospital militar 241 nos braços dos helicópteros
ou a surpresa de morrer em cada manhã

um batido de política e desportos
na arquitectura de um sorriso e perfume
para depois das cinco e meia com revistas
e pin-ups e frases que colo no cérebro

máquinas de fazer milagres precisam-se
ou a cristina vai ficar se namorado

in silencio mordido, Plexo, 1974 Posted by Picasa

abril 04, 2006

Não te esquecerei nunca

Cumprir-se-ão 32 anos, no próximo dia 25 de Abril, que no meio dos acontecimentos que revolucionaram o País, saiu, discreto, para a luz do dia um pequeno livro de poesia com o nome de Silêncio Mordido.

Foi o meu primeiro livro editado e, no dia da sua saída, ficou por completo abandonado, mesmo por mim, porque aquilo que este livro denunciava e atacava, acabara de ruir sem honra nem glória.

Com o avassalar de acontecimentos quer o lançamento, quer a distribuição do livrinho ficaram muito comprometidos e se despercebido nasceu, despercebido continuou até que um dia, passados muitos anos, um amigo me disse, meio envergonhado, que numa banca de alfarrabista, no Parque Mayer, estavam, a preços da chuva, alguns quilos do meu Silêncio Mordido.

Corri ao alfarrabista e por tuta-e-meia comprei as centenas de exemplares à venda.

E aí lhe fiz correr o destino entregando-o a leitores seleccionados, que sabiam muito sobre as suas circunstâncias.

Explico.

O livro trás a seguinte dedicatória:

“À memória de MANUEL JOÃO

Alentejano. Mineiro em S. Domingos ceifeiro em Baleizão. No dia 7 de Abril morreu. Na linha de Cascais, sob um comboio. NÃO FALOU. “

O Manuel João tinha mais de cinquenta anos nessa altura e estava quebrado pela dureza da vida e pela prisão política. Tinha os cabelos fartos e brancos e uma voz de quem pede desculpa. No entanto espantava tanto por tantas coisas que um dia, um administrador da empresa onde ambos trabalhávamos comentava comigo em jeito de admiração: Sabe que o Manuel João lê o Alves Redol??!! Um contínuo a ler…!!!

Sabia e sabia muito mais. Que dava apoio e guarida em casa a gente perseguida pela PIDE e que, na Sexta-Feira ante da sua morte, ao findar do dia, me revelou uma sua grande preocupação. Tinha sido levado uns dias antes à PIDE. Tinham-no interrogado brevemente e, coisa admirável, deixaram-no sair sem muitos problemas. Do seu saber arcano isto tinha-o feito desconfiar muito e percebeu que continuava a ser seguido. A preocupação que me confiou foi: - Estou velho, tenho medo de já não aguentar o interrogatório e de vir a dizer coisas que não devo.

Confortei-o conforme me foi possível mas com pouco êxito. O Manuel João lá se foi a caminho de casa e do fim-de-semana.

Nunca mais o vi.

Disse-me posteriormente o irmão que pela manhã desse sábado, na estação ferroviária de S. Domingos de Rana, esperava o comboio, perto da mulher, quando se apercebeu que a PIDE o ia prender.

Beijou-a e disse-lhe qualquer coisa como isto – Eu não falo. Adeus!

Atirou-se para baixo da composição, que passava no momento, mordendo, para sempre, os seus segredos.

março 25, 2006

A Propósito da Fralda do Pai

Faiza Hayat escreve, na Revista Xis, de 25 de Março de 2006, uma crónica sobre o abandono da velhice. Diz em destaque, certamente da responsabilidade da Redacção “Choca-me o desprezo e o desrespeito e a ignomínia de quem assim trata os seus mais velhos”.

Á primeira vista qualquer ser humano, com um mínimo de sensibilidade, estará inteiramente de acordo com esta indignação. Então, porque é que eu, que me confesso leitor assíduo e concordante da autora, me sinto compelido a vir a pública controvérsia sobre este assunto?

É simples.

Poderemos considerar que a crónica está dividida em três partes. Na primeira versa-se o discurso oficial – e o seu eco nos média – apoiado em dados colhidos nos hospitais e em opiniões de técnicos de saúde; na segunda, em jeito crítico, apontam-se hipotéticas justificações dadas pelos familiares para não suportarem os fardos dos seus velhos e, finalmente, a autora interroga-se sobre o seu previsível comportamento em circunstâncias semelhantes.

Quanto ao discurso oficial e à sua intenção de por em andamento “um plano de assistência a idosos” só não me faz gargalhar porquanto a situação vivida pelos idosos e suas famílias é, em si, excessivamente trágica. Primeiro porque os idosos já foram jovens, já deram o seu contributo para a manutenção e evolução social e o Governo, ao estabelecer protecções para estes, ainda e sempre cidadãos, mais não fará que cumprir as obrigações que lhe cabe. Depois, olhando as variadas demagogias tecidas por outras falecidas governações e vendo a realidade do quotidiano, “entra em mim fica em mim presa” uma imensa revolta por tanta hipocrisia e menosprezo pela inteligência de cada um.

Mas disto não tem Faiza culpa nenhuma!

Onde eu penso que reside a sua culpa, embora minorada pela angustiada dúvida, é na presumível aceitação do discurso médico. Sei que é verdade que muitos idosos são abandonados nos hospitais. Sei também que é parte fácil a culpabilização das famílias e que, tantas e tantas vezes, familiares que vão até à exaustão no apoio aos seus maiores, ao tentarem obter um internamento por mais nada poder ser feito a nível familiar, deparam com o discursos culpabilizador por parte de quem muito bem sabe estar perante a solução óbvia mas que, por motivos institucionais ou económicos, não está ou não pode acolher a legítima pretensão dos familiares do idoso.

É mais fácil negar o auxílio culpabilizando o outro.

Que esta generalização me seja desculpada pelos muitos médicos e enfermeiros que lutam, todos os dias, contra a desumanização do sistema. Mas que a culpa não seja também generalizada sobre as impotentes famílias.

A mudança dos tempos alterou, como toda a gente sabe ou sente, o conceito de família, a sua organização, logo a sua capacidade de auxílio. Hoje os filhos moram, quantas vezes, em locais diferentes dos pais e distanciados por quilómetros; habitam casas reduzidas – sim isto pode ser um verdadeiro obstáculo – e têm empregos exigentes, a horas diárias de viagem da residência, que, sob pena de sérias dificuldades económicas não podem perder. Acresce ainda que na legislação nacional nada há que proteja, ou sequer permita justificar faltas de quem tenha que dar apoio a idosos. Então, porque é que os governos não legislam nesse sentido e protegem eficazmente quem quiser dedicar-se a cuidar dos seus ascendentes? Ou porque é que sendo o problema tão antigo e premente só agora, depois de terem destruído as possibilidades familiares e as instituições que as substituíam vêm, como se coisa nova fosse, falar em apoios de retaguarda a idosos?

Muita água vai correr debaixo das pontes até que tal se venha a verificar.

Entretanto todos nós vamos envelhecendo nesta sociedade de desemprego para os nossos filhos, pensando como será connosco e sabendo que eles, por mais angustiados que possam ficar, não terão qualquer possibilidade de resolver os problemas que a idade, a doença e a invalidez nos vão colocar.

Sendo as nossas famílias, cada vez mais, compostas por dois pais e um filho, que um qualquer deus nos valha já que o filho terá certamente muitas dificuldades para nos mudar as fraldas e as instituições continuarão firmemente a olhar para o lado e a produzir, apenas, abundantes e inúteis prédicas moralizantes.

março 17, 2006

A sexta-feira do Comando (Conto)

Pousado o copo sobre o rebordo da lareira olhou o seu interlocutor e sorriu.

A terra, disse, cheira a almíscar, a cio de feras. Para quem chega há um odor agoniativo a bicho, estranho, feito de pó e coisas rastejantes. Situe-se lá o meu amigo, no início dos anos cinquenta, numa aldeia plantada como chaga violenta no espesso verde da mata.

Aí, entre o calor húmido e a secura da terra, pouco entrou ainda dos hábitos vindos de longe. Vive-se de harmonia com velhos costumes. Nem sempre os melhores, reconheço, mas com a leveza que advém de cada um saber o que se espera dele e de conhecer de antemão que ninguém lhe pedirá nada que transcenda essas expectativas. A ansiedade é coisa que por lá apenas tem guarida nas emoções pessoais. Nada com o carácter colectivo que torna totalmente insuportável a vida nestas cidades paranóicas.

Vivia-se uma vida de parcas exigências. Cultivava-se o chão na medida das necessidades; possuíam-se algumas vacas, meio selvagens e que pouco medravam, mais para prestígio e troca que para abate sistemático; meia-dúzia de galinhas entremeadas com um par de cabritos e eis todo o horizonte de ambição material.

Ao contrário do que possa imaginar a vida comunitária era de enorme diversidade. As colheitas, os choros pelos funerais, as festas da puberdade... um sem número de rituais marcava a passagem dos tempos e incutia nas pessoas o compromisso entre o datado e o imprevisto que erradicava a neurastenia e permitia a cada qual ser o animal saudável capaz de, mesmo em terrenos adversos, levar a palma a todos os mamíferos produzidos por esta inventiva natureza.

Pois, por essa época, na aldeia que tão parcamente retratei, nasceu um garoto a quem foi posto o nome de Samba Badji e que virá a ser não sei se o herói, se o malandro desta história.

Espero que as minhas palavras não lhe tenham deixado ficar a impressão de que naquela aldeia se vivia em perfeito ambiente de felicidade e igualdade. Longe disso, que o homem é ser de pôr diferenças e hierarquias por tudo quanto é sítio. Da bondade desta condição falaremos noutra ocasião. Para o momento, o importante é saber que ao nascer já Samba Badji tinha endereço. Quero eu dizer, trazia um destino senão infalível, pelo menos portador de um elevado grau de probabilidades.

Da sua linhagem provinham todos quantos por função possuíam o estatuto de receber, guardar e retransmitir as memórias daquele povo. A ignorância da escrita e o desejo de preservar hábitos e tradições obrigavam, neste caso, a que Samba Badji viesse para ser a memória viva das suas gentes.

Como o meu amigo bem sabe é questão assente, quer nos homens enquanto indivíduos, quer nos povos, deixarem de si recados aos que virão. A espécie tem um vigor de que por vezes mal se suspeita. Apesar de todas as vicissitudes por que passa, sempre lhe sobra tempo e força para deixar testemunho das suas obras. Embora ingénuo, este esforço contra o apagar do tempo, não deixa de comover pelo empenho num futuro sempre incognoscível e numa transmissão que ninguém sabe como virá a ser aceite.

Pois, como já lhe disse, por uma questão de linhagem estava Samba Badji destinado a estas funções entre o seu povo. No entanto esta não era uma batalha ganha de antemão. Repare! Dada a importância de que esta condição se revestia, eram bastantes os candidatos possíveis. Ao escolhido, depois de longos anos de treino, seriam confiadas todas as narrativas profanas e sagradas da tribo. Todas as linhagens lhe seriam transmitidas; igualmente lhe pertenceriam os feitos e os feitiços. Com tudo isso seria alto o seu estatuto e grande a possibilidade de imprimir às coisas a sua marca pessoal. Poderia inclusive enriquecer narrativas e mesmo recriar factos passados.

Uma função desta importância exigia do seu detentor, além de uma memória privilegiada e bem treinada, um porte físico digno e a inexistência de qualquer aleijão. Por isso, quando na casa de brinca Samba Badji e outros designados se absorviam nas aventuras dos seus imaginários, alguém os observava com atenção, na perspectiva de descobrir os mais aptos para o exercício de tão alto ministério social.


Assim foi crescendo Samba Badji no seu mundo, no seu destino, do qual mansamente se ia apercebendo, aprendendo histórias, contando feitos, enfeitando casos, digerindo feitiços. O mundo que habitava era, na maior parte, o mundo dos avós, feito e refeito por inúmeros outros contadores de histórias.

Um dia teve, subitamente, conhecimento do branco. Já ouvira falar. Vinha de vez em quando. Aparecia vindo do interior do mato trazendo estranhos artefactos. Coisas que no seu povo não havia e de tão estranhas associava à magia. Raiava então pelo seu décimo ano de vida. Num crepúsculo, quando o povo descansava do trabalho do dia debaixo do grande mangueiro plantado no centro da
aldeia, um ruído contínuo de trovão perturbou a paz do entardecer espantando as galinhas que depenicavam entre as casas. Assustou-se de verdade quando atrás do ruído viu entrar na povoação, deitando fumo e numa tremenda barulheira, uma coisa grande, verde, só aberta à frente e com um homem, branco, dentro. Essa aparição estacou junto ao mangueiro numa loucura de pó e Samba só não fugiu por ver como os adultos sorriam e por pensar que aquela era uma das máquinas de levar gente de que o mestre lhe falara.

Da furgoneta saiu o homem. Era muito velho e pequenino. Cumprimentou à volta. O régulo saiu-lhe ao caminho e depois de se abraçarem levou-o para a grande construção de barro e colmo onde habitava.

Mais tarde, quando já a noite era completa, começou uma magia que projectava, num pano estendido entre árvores, brancos grandes que falavam, batiam e se matavam de muito longe com coisas pequeninas e de voz grossa que nem sequer pareciam armas.

Desta forma tomou Samba Badji conhecimento, de uma só vez, com o branco, o automóvel, o cinema e o western.

Ia já nas suas quinze ou dezasseis chuvas quando o seu destino foi cortado cerce pelo infortúnio. Aconteceu apenas que na virilha direita de Samba Badji se começou a formar um edema e a enrugar a pele. Para os mais velhos estes sintomas foram, desde início, esclarecedores. Para ele estiveram muito tempo no reino do inacreditável, do não possível em mim. Tão impossível de acreditar que, se não fosse o respeito devido ao homem grande que o ensinava, ousaria contestar com um sorriso de incredulidade.

O aleijão que se iniciava no corpo de Samba era porém definitivo e irreversível quer para ele, quer para o seu estatuto. O meu caro amigo já ouviu falar em elefantíase? É uma doença provocada por uma filária e infelizmente muito comum. Se bem que de fácil tratamento em qualquer país ocidental, era sem esperança para o pobre africano. Essa imparável doença iria fazer inchar-lhe enormemente o membro afectado e enrugar-lhe-ia a pele de tal forma que a sua perna pareceria a de um elefante. Assim, por defeito físico e previsão de vida curta deixou de ser confiada a Samba Badji a missão que lhe coubera e aceitara de ser a memória viva sua tribo.

No dia em que, já com a perna num trambolho, foi decidida e claramente afastado desse afazer, pela nomeação de um substituto, Samba Badji abandonou a aldeia.

Sem dizer nada a ninguém, aproveitando boleia num carro da tropa, que em trabalho de "psico" passara perto do lugarejo, partiu para Bissau, onde, ouvira dizer, os brancos podiam curar a sua doença.

Em duas ou três estiradas chegou a Bissau. Difícil seria fazer sentir-lhe a angústia desse pequeno ser desventurado, habituado à placidez da tabanca, mergulhado entre tantos rostos tão diferentes como indiferentes. Nos primeiros dias ainda tentava, numa sensação mista de espanto e absurdo, encontrar uma cara conhecida por aquelas ruas. Mas qual! Tudo quanto lhe parecia conhecimento era apenas mais um engano. Mais um desejo de não se sentir sozinho.

Bissau regorgitava de movimento e fardas. Nunca pensara que pudessem existir tantos carros e tantos soldados. Na sua aldeia, por vezes, falava-se, com voz dissimulada, de uma guerra que estava a acontecer. Por vezes mesmo, os soldados passavam pela sua aldeia e distribuíam comprimidos como se fossem guloseimas e aplicavam, nos rígidos peitos das "bajudas", fricções "Vic". Mas eram sempre grupos pequenos e divertidos que davam boleias e falavam, por meio de intérpretes de coisas engraçadas como colaboração, camaradagem e a necessidade de denunciar à tropa amiga as actividades dos bandidos armados que vinham do exterior para perturbar a paz de toda a gente.

Conseguiu uma consulta no Hospital Civil. Indicaram-lhe que o melhor era o Militar e ele tentara a sua sorte. Foi corrido com rapidez. O Hospital era mesmo só para militares e estava a abarrotar. A todo o momento chegavam helicópteros com feridos para tratamento urgente. As camas escasseavam e os médicos eram poucos para acorrer às desgraças que lamentosas ou gritantes, do céu, desabavam em contínuo sobre o Hospital.

O tratamento a que foi submetido revelou-se inconsequente. A tristeza ia aumentando ao ritmo de progresso da disformidade na perna. Acrescia a isto um outro problema. Como poderia sobreviver naquela cidade enorme e sem abrigo?

Talvez o amigo se sorria ao ouvir classificar como grande uma cidade como Bissau. Na verdade todas as coisas são aferidas através das nossas dimensões e referências. Ponha-se no lugar do Samba. Com esse novo olhar descobrirá realidades insuspeitadas nessa terra que o senhor tão bem pensa conhecer. Tente e verá. Conseguirá a visão de um outro local e de um outro modo de ser tempo e presença. Descobrirá também um outro lugar de coragem que é o ser a quem chamamos Samba. Repare... aos quinze anos, subitamente roubado de futuro, sozinho numa terra desconhecida procurando uma manhã diferente em que lhe devolvam o que lhes estão a roubar de vida. É grande carga para ainda tão frágeis ombros.


Mas o que agora interessa é saber como conseguiu sobreviver nessa terra de brancos, onde aos naturais, apenas se reserva um lugar na soleira da porta. Pois foi aí que ele fez a sua grande tentativa de sobrevivência. Recorda-se, por certo, que nas casas comerciais era costume, quando ao crepúsculo encerravam, uns nativos estenderem, na platibanda das casas, as esteiras e o cobertor. Depois, instalados, fumavam um cigarro e, passando pelas brasas, faziam desse dormir sobressaltado uma função. Pois sim senhor, eram mesmo eles, os guardas. Uma espécie de superstição do comerciante. Com essa presença sonolenta e alheada pensavam poder exorcizar o roubo e informar, ao mesmo tempo a quem estivesse interessado, que eram seres bondosos e compassivos para com os pobres nativos. Comerciante é mesmo assim. Procura, de formas várias e sobretudo, acautelar os seus haveres. Além do mais, era trabalho barato. Uns cigarros e uma refeição ficavam o trabalho pago e a fazenda assegurada.

Este foi o labor a que se propôs Samba Badji. Mas a sua pouca idade e a por demais visível deformidade afastavam o mínimo de seriedade que, de qualquer modo, convinha atribuir à função. Repare que quanto menos se acredita numa coisa, tanto mais se torna conveniente a preservação dos rituais externos. Por tal conveniência ficou, Samba Badji, impossibilitado de conseguir a sua manutenção.

A segunda tentativa não teve também maior êxito. Foi pedir para as portas dos cafés, dos restaurantes e junto do mercado. Aí a concorrência era enorme. Tinha que competir com outros mais preparados. Qualquer puto com oito anos de idade, além de mendigar, oferecia-se, para a prática de actos sexuais diversos, aos senhores da guerra. Não faça esse ar de espanto. É o mesmo que
faziam as autoridades quando alguém, por moral ou vergonha, apresentava queixa. De facto nem valia a pena. Muitas vezes eram essas mesmas autoridades que beneficiavam de tais práticas. Assim, Samba roçou a indignidade. Descobriu que as meninas eram prostituídas ao preço da chuva e que vinte e cinco tostões chegavam para uma relação com um garoto. Cinco tostões menos que o preço da bica.

Não conseguindo por essa via a sobrevivência, passou alguns dias a vasculhar caixotes de lixo. Não iria muito longe se um dia não fosse visto por uma mulher que todos conheciam por Maria e a quem acrescentavam, por causa do tom da pele, de Cabo Verde. Embora nascida e criada em Bissau, fruto do um encontro de um branco com a sua lavadeira, deixava que pensassem que era caboverdeana. Era bom para o negócio. De prostituição, como não podia deixar de ser. Filha de lavadeira, lavadeira será. No entanto, alguma coisa aprendera e nunca engravidara... Não queria filha sua nesta vida. Talvez, por isso, ao avistar Samba Badji a vasculhar no lixo se apiedou e o levou a sua casa. Matou-lhe a fome e ouviu-lhe a história.

A profissão foi também ela que nesse dia lha definiu. Um antigo cliente, morto numa rixa de vinho, deixara em sua casa uma caixa de engraxar. Tudo completo e em bom estado. Maria ofereceu-a a Samba.

- Pode vocês ficarre com ela. A mim não serve.

Por isso, agarrando a caixa que lhe assegurava o dia seguinte, todas as noites, por gratidão, Samba pegava na sua esteira e manta e, por baixo da alpendurada da casa de Maria velava as horas em que os outros dormiam e ela recebia os homens, cumprindo o seu ofício.

Naquele lugar, por entre gemidos e arfares, no decorrer das conversas que lhe chegavam através das tábuas do chão, Samba fez a sua aprendizagem e começou a amar Maria que, dizia-se, era de Cabo Verde e nunca saíra de Bissau.

Tornado habitual em seu poiso pouco demorou a arranjar amigos. Foi primeiro, entre os chegados e nos afectos António. Negro retinto, baixo e sempre descalço, ostentava com orgulho um rádio de pilhas onde, indistintamente, ouvia todos os programas em crioulo, fossem eles transmitido pela rádio oficial de Bissau ou pelas emissoras afectas ao PAIGC.

Por vezes, quando no cerrado da noite ouviam as vozes das notícias, que vinham instalar na realidade uma estranheza que não se percebia bem como chegava e criava um agradável desconforto no coração, sussurrava a voz de Gazela recomendando maior discrição:

- Vê lá minino, se o tropa ouve tu está mal.

- Está mal porquê ? - Perguntava, ainda ingénuo, Samba.

- Pois tu não vê que o tropa está em guerra com a gente.

- Com a gente não. Eu não estou em guerra com ninguém, Gazela.

- Pois é minimo, a gente não escolhe a guerra. Ela é que escolhe a gente e vem buscar a casa. Tu não ouviu falar de rusga, de operação?

- Já ouviu, sim. Todo dia quando limpa bota de militar ele fala isso. Fala de ronco e de combate. Mas isso é só com bandido da mata.

- Beh!! E gente da mata quem é? É gente com pele suma nossa.

- E tropa? Não tem gente, também, suma nós?

- Tem, sim, tem. Tem gente que ajuda o tuga a matar nossa gente. Isso que tem. E que é criado de branco mais ainda que nós.

- Mas Gazela, militar, mesmo preto, tem comida todos dias...

Então, muito em surdina, sintonizando o rádio para a emissora de Bissau, Gazela contava a Samba e António como era aquela guerra. Contava-lhe como os guerrilheiros capturados eram torturados até à morte para revelarem os locais dos acampamentos, os nomes dos chefes ou dos correios. Como, na lonjura das noites, mata fora, cosidos no negrume e ansiedade, os guerrilheiros esperavam o momento de lançarem a emboscada ou o assalto. Dizia-lhe da confusão e dos riscos dos fogos que traçavam a noite. Dos gritos dos que morriam ou eram feridos, das levas de prisioneiros que desapareciam nas matas ou na Ilha das Galinhas. Sonhava com o dia em que Bissau fosse toda ela do povo que lhe vivia a periferia e só no trabalho e na humilhação lhe franqueava o centro.

Objectava Samba que não era assim. Ele, todos os dias andava por Bissau e por todos os lados. Quando o dia lhe corria melhor e sobrava dinheiro podia passar a noite a ver cinema, no Cine Udib, a recordar não sabia se o milagre que um dia, parecido agora tão distante, vira na sua tabanca, se a sua tabanca mesmo, pensamento que lhe doía e nunca o deixava por completo.

- Pois vai no Cine Udib e fica cá em baixo na plateia, não é? Vai na cidade e no café e engraxa sapato. Vai no restaurante e faz recado...

- Pois é assim, é. Mas se tivesse manga de patacon podia fazer esses coisa todos...

- Podia se tivesse dinheiro. Mas não tem. Nem tu, nem eu, nem António. O que a gente tem é fome e trapos.

E era assim mesmo. Gazela era alto e seco, de braços encordoados. Morava no Cupelon - Pilão, no dizer dos soldados - o maior bairro nativo onde, pela noite, só os mais afoitos se aventuravam. Não tanto pelo que lá tivesse alguma vez acontecido, mas pelo receio do que supunham poder acontecer. A lógica deste posicionamento era simples. Se durante o dia e na nossa zona dominamos impiedosamente, que farão eles na noite e na sua zona se lá nos apanharem. Lógica de dominadores inseguros...

Gazela era estivador. Quando havia barco a descarregar era levado, logo pela manhã, do cais, num rebocador a transbordar de uma horda descalça e rota. Chegados ao navio despejavam-se pelos conveses e demandavam os porões. Cerca do meio-dia vinha da cozinha o bidão dos restos da comida, tudo amalgamado como lavadura para porcos, que deixavam na coberta. Quando passavam, os descarregadores, metiam a mão no recipiente e, de corrida, abocavam o que podiam entre mais uma braçada de corda e o acertar da carga nas barcaças.


Por isso Gazela trespassava com os olhos os soldados recém-chegados que assim o viam comer e que bem fundo guardavam essas imagens de sub-humanidade. Tornavam mais fácil pensar que matar um terrorista é matar apenas um inimigo e um inimigo assim será sempre menos que um homem. Era a sub-gente que vira a devorar os restos misturados da sua comida.

- O que a gente tem é medo da porrada - dizia Gazela. Samba e António ficavam calados ao pressentirem uma verdade que ainda não lhes era acessível.



Foi-se, deste modo, apercebendo Samba do mundo à sua volta. Ao chegar a Bissau apenas a sua angústia existia. Ao seu redor só havia um muro baço onde as pessoas e as coisas se confundiam. Pouco a pouco, as conversas, a experiência e a reflexão foram dando relevo às coisas, tornando mais claras as pessoas, mais próximas umas, mais distanciadas outras.


Descobriu o ódio quando, num café, engraxando os sapatos de um militar, viu passar num carro da tropa, fortemente escoltado, um grupo de homens. No meio deles, com a cara desfigurada e numa pasta de sangue, estava o seu amigo Gazela. Quis correr e gritar por ele mas, do cimo do carro, Gazela lançou-lhe um olhar que ele percebeu. Dizia-lhe que ficasse quieto e que o recordasse. Foi um aviso e um adeus.


Só pela noite conseguiu encontrar António. Na escuridão calada ele chegou-se aos baixos da platibanda e muito devagar, com uma centelha de receio a bulir-lhe nas falas, perguntou-lhe se já sabia da prisão de Gazela.

- Vi-o no carro da tropa...

E a cara ensanguentada e o olhar de Gazela faziam-no sentir, nem sabia porquê, mais pobre e mais doente. Nunca, como nessa noite o incomodaram os mosquitos e o calor, o inchaço da perna e o chão húmido onde se deitava. Pela primeira vez pensou que os brancos da sua idade não dormiam, envoltos numa manta mal-cheirosa, nos desvãos de uma casa. Nem sequer tinham de se preocupar com o que
iriam comer no dia seguinte. Nem que se encerrar, na solidão da noite, na angústia de se saber a enfraquecer cada vez mais depressa, no caminho certo da morte não muito distante. Tudo à sua volta lhe cheirou a podre. Tudo lhe pareceu nitidamente descolorido. Com cor, só mesmo o vermelho vivo na cara de Gazela.


Durante algumas noites calaram o rádio. António tinha medo.

- Podem saber que era amigo. Se vem a tropa prender...

Via-se já ele também preso, sem o rádio, despojado de si, humilhado por maus-tratos a desaparecer no verde de uma mata, no decorrer de qualquer operação fantasma, feita a propósito para abater o prisioneiro que tentara fugir. Por isso, não ouviam rádio.


Mas ouviam, através do sobrado da casa, as vozes dos soldados que esturdiavam em casa de Maria. Eles riam e bebiam. De vez em quando chegavam-se à balaustrada e escarravam para a noite. Para Samba era como se escarrassem sobre ele, como se escarrassem sobre a face de Gazela e a partir deste, como se escarrassem sobre um corpo difuso que ele ainda não percebia bem, mas que no fundo começava a entender como uma entidade vagamente afectiva, com um nome que se começava a perceber.


Por vezes António sublinhava os ditos dos soldados com remoques ácidos. Chegou mesmo a prometer que um desses dias passava para a mata. Teria uma arma e lutaria contra os cabrões dos tugas. Eles que fossem embora e deixassem cada um viver na sua terra à sua maneira.


Samba ouvia. Lamentava não lhe ser possível tal atitude. A doença impedia-lhe ter veleidades. De novo, perante uma possibilidade de dar um sentido à vida sentia-se a falhar e via a impotência insuperável trazida pela sua disformidade limitar-lhe todas as possibilidades de escolha. Teria de ser nada e apagar-se lentamente. Só isto lhe era permitido.


Uma noite António trouxe de novo o rádio. Fez ouvir a Samba a notícia, repetida amiúde pela rádio Bissau, de uma grande vitória das nossas forças. O locutor descrevia com minúcia as circunstâncias e os resultados de um golpe de mão que tinha surpreendido, em pleno abastecimento, uma coluna de terroristas na tabanca de Autacunda. Falava das baixas irrisórias sofridas pelas nossas tropas e contrapunha o elevado número de mortes havidas na guerrilha e entre os habitantes dessa aldeia de traidores. Deus estava, como se via, connosco..


Ao ouvir a notícia Samba Badji sentia uma irreprimível angústia assaltar-lhe a garganta. Era da sua aldeia que falavam.


Outras coisas havia que turbavam o seu coração. Maria era uma delas. Talvez mesmo a maior. Aos seus verdes anos aparecia-lhe como a imagem da perfeição. Inicialmente pensou ser o seu bem-querer consequência da gratidão. Mas o sofrimento que lhe trazia a voz dela na mistura com o gargalhar dos soldados e os desejos, quase sonhos, que acalentava, fizeram-lhe perceber a natureza do sentimento nutrido pela mulher. A sua proximidade perturbava-o demais. Já por algumas vezes, quando os dias lhe corriam de feição, pegara em cinquenta pesos para, como qualquer outro, no mal anoitecer que surpreende, entrar casa dentro e comprar o seu tempo de amor. Nunca ousara chegar mais que à porta. Mesmo uma vez em que avançando mais, sentindo passos ela veio abrir, ele respondeu apenas que lhe apetecera, nesse dia, ficar ali pelo lado de cima. Estava cansado de se enrolar no escuro.


Foi com voz cariciosa que ela lhe perguntou porque não ia viver com o António. Podiam dividir o aluguer do barraco. Era melhor para os dois. Samba não soube dizer mais que qualquer dia sim. Por dentro sentiu um frio muito grande ao pensar-se fora daquela comunhão precária, mas que o prendia à vida. Com a chegada de um soldado que se agarrou a Maria a porta fechou-se e ele voltou a instalar-se na sombra.


Dias depois António trouxe com ele um velho da aldeia de Samba. Chamava-se Sanca João e em melhor oportunidade contar-lhe-ei a sua história. Desta vez apenas lhe digo que vinha como emissário. Trazia a Samba a notícia da morte do pai no assalto que os comandos tinham feito à sua aldeia.


Samba ouviu tudo sem falar. Nada perguntou. Soube apenas que ao amanhecer a aldeia fora cercada. Procuravam um emissor de rádio que um informador dissera estar escondido na aldeia.

- Entraram os militares pelas casas destruindo e roubando. Algumas mulheres assustadas tentaram fugir. Foram fuziladas pelos que de fora, fechavam o cerco. Depois juntaram toda a gente na coberta dos ferreiros. Levaram os mais velhos para interrogar. Não havia rádio nenhum e ninguém poderia dizer, assim, onde ele estava. Então foram buscar as mulheres e os filhos dos homens grandes e em pequenos grupos foram-nos levando para o outro lado da aldeia. Passado tempo ouviram-se tiros e vieram buscar mais. Antes de cada leva perguntavam aos velhos onde estava o rádio e os bandidos. Ninguém sabia. Ninguém respondia. Ouviam-se a seguir mais tiros. As mulheres choravam agarradas aos filhos. Foi quando o teu pai disse à tropa que ali não havia mais nada que trabalho e que se quisessem que os matassem a eles e deixassem as mulheres e as crianças.


- Bem lembrado, - disse o capitão.


- Agarraram no teu pai e mandaram-no, em frente de toda a aldeia, cavar a sua cova. Quando o trabalho terminou o capitão perguntou-lhe:

- Pela última vez, onde está a porra do rádio, onde é a base e quem estabelece os contactos?


- O teu pai continuava calado...

- Tratem do gajo - .


- Primeiro espetaram-lhe lascas de madeira sob as unhas. A seguir, sobre o peito, despejaram pólvora dos cartuchos das balas e puxaram-lhe fogo. Como ele nada dissesse encharcaram um pedaço de desperdício em gasolina e queimaram-lhe todo o corpo. Quando lhe deram o tiro final já não o deve ter sentido. Finalmente puxaram fogo à mata e à tabanca e lançaram granadas sobre todos nós. Nem sei quantos morreram.



Samba continuava a ouvir as palavras sem nada perguntar. Dentro um vulcão acumulava forças. Cresce-se sempre dolorosamente. Dos seus olhos vermelhos e secos nada parecido com lágrimas se soltou. Só o continuado frio de não perceber qual o sentido das coisas lhe veio habitar a noite que o envolvia. Maria, por entre o tabuado tinha ouvido o recado que Sanca trouxera, saiu às escadas e sentada junto a Samba chorou por ele as lágrimas das suas condições. Muito lentamente foi-lhe acariciando a cabeça e diminuindo, entre eles, a distância inexistente. Foi, com esses gestos, traçando um risco luminoso no grande escuro onde Samba estava envolvido. Nessa noite, pela primeira vez, dormiu dentro de casa e na cama de Maria.


Noites passadas chegou um dos clientes certos. Era o Cabo Xico. Talvez este fosse o seu nome verdadeiro, ou talvez não fosse. Na realidade isso não tinha qualquer importância. Todos se chamavam como queriam ou podiam. De qualquer modo ele chegou mais ruidoso e bebido que o costume. À entrada da rua, para se anunciar berrou:

- Maria abre-te toda e prepara a vaselina que o teu cobridor chegou.


Samba tremeu. De todos os homens que frequentavam aquela casa este era o que mais profundamente detestava. Se pudesse levaria Maria para um lugar onde vivessem sem a afronta diária de ganhar a vida a troco de cinquenta pesos, mais o custo das bebidas. Se a intrusão de qualquer homem lhe era penosa a presença do Cabo Xico era o seu maior tormento. Militar dos Comandos comportava-se sempre de modo insolente e tratava os negros como merda. Para ele todos eram turras e não tinham direito a nada além de uma bala bem metida nos cornos. Se havia guerra era porque os pretos queriam. Andavam a matar brancos e esperavam que ficássemos quietos. Ora não. O que era preciso era dar-lhe forte no focinho. Muito se admirava que alguns maricas quisessem que os tratassem como gente. Mandasse ele e resolvia o problema em duas penadas. Só não percebia como era que o Spínola, que era macho a valer, embarcava na cantiga da "psico". Boa "psico" lhes daria ele. Bala para cima até fazer faísca. Só de pensar que por essa merda o proibiram de usar o colar de orelhas dos turras abatidos dava para ficar verde.


Dizia abatidos e sentia-se impante. Primeiro porque abatidos era palavra fina que até ia nos relatórios e era assim que diziam o alferes e o capitão. Depois porque abatidos estava muito correcto. Morrer morrem os homens. Os pretos e os cães, quando muito, são é abatidos.



Samba, ao ouvi-lo, tremeu de raiva. Encolheu-se mais na manta e quando a porta bateu chorou baixinho a sua incapacidade e mais uma vez desejou a mata e invejou o destino de Gazela.


Na casa o Cabo Xico cantava. No seu tom rude ordenou que Maria lhe pusesse um uísque no copo.


- Do melhor ouviste? Hoje é um dia especial. Tira-me da frente essa morraça. Disse-te que era do melhor. Puta de merda! Quero desse que guardas para os oficiaiszecos e furriéis que te vêm lamber a cona... Hoje é dia grande. Porra! Já disse... deita desse...mas que grande traço que tu és! Vê-se mesmo que tens sangue branco. Vá senta-te aqui no meu colo. Vou contar-te um segredo. Vou ser condecorado! Ouviste? CONDECORADO.



- Porra! Vou repetir. Vê lá se percebes. VOU SER CONDECORADO. Ganhei a Cruz de Guerra. E esta, hem??!! Não esperavas por isto, pois não? Mas é verdade. Vou gramar à brava. Ver a cara dos mandões lá da terra quando aparecer com a condecoração. Sempre quero ver como passarão a tratar-me. Mas olha que não fazem favor nenhum ao darem-ma. Se tu me tivesses visto esta tarde. A malta, na parada, toda formada. Apareceu um granjolas e toca de fazer um grande elogio. Porque somos os melhores, porque a Pátria para aqui e a Nação para ali tinham os olhos postos na gente e porque confiavam em nós e mais tretas e tretas. Até que agarrou numa Ordem de Serviço e, para nós vermos como a Pátria sabia reconhecer os seus melhores filhos, iam agraciar o melhor dos melhores.


Bumba, lá veio o meu nome. Ia caindo de cu. Começou a ler um louvor que vinha do Spínola. Tudo a tratar bem o mangas. Ainda por cima vão pagar-me uma viagem de férias à terra. Nada como a guerra para apreciarem um homem com eles no sítio. Também não fazem nada de mais. Ainda não há muito tempo em Antauda...


Samba Badji ficou de pé num instante. Ele era um deles...

...se tu visses o que foi ceifar neles. Pareciam tordos. Eu sempre disse que o que eles querem é porrada...

Maria estremeceu e uma agonia muito antiga subiu-lhe à boca...

...provavelmente até matara o seu pai...

...se procedêssemos todos assim esta guerra de merda acabava que era uma lindeza...,

...e gritou-lhe bem alto a palavra que sempre temera ouvir na sua boca:-

- Assassino, sai já desta casa!

O Xico parou de surpresa. Na rua?! Ele!! Hoje! Condecorado!!

- Puta dum cabrão que te fôdo. Estás feita com eles.


Avançou para Maria agredindo-a com a selvajaria que a incompreensão manifestada pela sua grandeza justificava. Anos de luta, miséria, submissão recompensados pela medalha... e aquela puta de bairro...preta dum caralho...


Enquanto ele lhe batia e gritava, atirando-a para o escuro da rua, Samba tremia de medo e fúria.


...Vais pagá-las todas. Puxou da faca de mato e por três vezes esfaqueou Maria. O seu último som foi um estertor de sangue na garganta cortada.. A luta entre o medo e a fúria que paralisava Samba terminou nesse momento. Enraivecido correu para o local onde o Xico, estupefacto, olhava a mulher morta. Deitou-lhe as mãos à garganta e apertou com todas as suas forças. Tirado da apatia o Xico sacudiu Samba Badji e pontapeou-lhe a perna doente. Olhou em redor para ver se alguém observava e gritou:

- Seus cabrões, a quererem-me lixar a vida!


Ainda se revolvia com dores no chão quando Xico lhe mandou um pontapé na cabeça. Conseguiu, num rápido reflexo, evitar o impacto directo mas ficou completamente atordoado. Rodou o corpo para fugir a nova agressão e sentiu, por baixo de si, a faca que Xico tinha deixado cair. Agarrou-a firme e esperou novo ataque do comando. Como lhe foi possível enlaçou-se ao corpo do militar. Quando este começava a estrangulá-lo, as suas mãos conseguiram unir-se sobre as costas do adversário e com um penetrar horrivelmente fácil enterrou a faca nas costas do comando.


Todo o bairro estava silencioso e de janelas fechadas quando Samba, com a lentidão dos sonhos, se afastou do corpo que agonizava na valeta, arrastando atrás de si a perna doente e o negrume da noite.



O homem que se encontrava sentado levantou-se. Do cimo da lareira retirou um copo meio de bebida, olhou para o seu interlocutor que acabara de falar, pigarreou e disse:

- Pois doutor, como é habitual em si expôs-me esta história com brilhantismo. Tudo isso é muito bonito. Romanesco, mesmo. Não acha, porém, que cheira a lugar comum e a inverosímil? Repare, por um lado temos um comando, jovem e possante, treinado para a luta e a sobrevivência em qualquer situação; por outro, temos uma caboverdeana, que afinal nem o era, sexualmente explorada pelo branco mau e o jovem doente que miraculosamente mata um homem muito mais forte e preparado e se perde, romanticamente na noite. Desculpe-me se insisto, mas tudo isto me faz pensar na imagem gasta do ocidente forte e pujante, mas ética e historicamente condenado a ser vencido por uma África desgastada e aparentemente sem hipóteses, levantada, apesar de tudo, do chão da sua impotência em busca de uma distante alvorada.

O narrador fez uma pausa. Afastou-se um pouco da lareira onde o fogo devorava com avidez as achas de madeira, respondendo com um breve sorriso a marcar a tepidez do ambiente:

- A história que lhe contei parece, sem dúvida, pura ficção e o meu amigo fez, indubitavelmente, jus ao seu espírito cartesiano. Mas como reagiria se eu acrescentasse que, nesse tempo, me chamavam Samba Badji?