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fevereiro 26, 2006

A Arte de ensinar a matar dragões

Estive para começar esta crónica usando a conhecida frase “naquele tempo”…mas tive receio que considerassem tal forma um abuso de liberdade de expressão e, tresloucados, viessem ara a rua católicos fundamentalista ou, pior que isso, alguém apresentasse queixa ao Senhor Procurador-Geral da República.

Desta maneira, autocensurei-me, usando da minha melhor dose de responsabilidade e resolvi, para evitar danos de maior, começar de uma maneira menos comprometedora. Portanto cá vai:

Era uma vez… (haverá já criancinhas furibundas na rua?) Pois então lá vai o que era dessa vez.

Na velhíssima China de há mais que muitos anos nasceu uma criança a quem deram o nome Fun Leong – o nome fui eu que o inventei e espero que não signifique qualquer coisa de ofensivo para os chineses – e que, por desgraça, nasceu oficialmente filho de pobre. Digo oficialmente porque vocês sabem como são estas coisas! A mãe era jovem e “bem-parecida” e o Mandarim da terra, por questões que não se percebem bem, mesmo antes da criança nascer, sempre teve para com aquela família abundantes desvelos. Tão grandes que se poderia dizer que foi como um pai em toda a vida do nosso Leong.

A criança, de esperta que constantemente foi, nem parecia provir de meio de tão escassos recursos. Como todos sabem e não preciso de perder tempo a explicar o que é óbvio, a inteligência das crianças, desde sempre, está na razão directa do meio em que nascem. Se disto alguém tem dúvidas consulte as estatísticas e veja, com olhos próprios, a evidência das minhas afirmações.

Para que capacidades tão raras se não perdessem o bom Mandarim tratou de ensinar e conseguir mestres que educassem o rapazinho. Que nunca desiludiu. Da prática à teoria, do desenho de caracteres à argumentação, era sempre o mais rápido e ladino. Por isso, para abreviar, o Mandarinato estava-lhe mesmo a cair na sopa. Tais provas de argúcia deu, tais aptidões demonstrou perante os examinadores que lhe foi destinado o mais difícil e prestigioso curso, a saber: A Arte de matar dragões.

Como era de prever foi o primeiro classificado da sua formatura e, com os outros companheiros, mal se viram habilitados partiram, cada qual para seu canto do vasto mundo, para meterem em prática, com a máxima coragem e eficiência, a difícil arte a que se consagraram.

Alguns anos passados voltaram estas promissoras criatura a encontrar-se para comunicar aos outros as suas fortunas. Mas - valha-me qualquer coisa que se creia como sobrenatural e que não me atrevo a nomear - dos exuberantes jovens partidos regressaram fontes encanecidas, nenhum ar da esperada opulência e nos rostos, mais que desilusões, reflectia-se o pânico da inutilidade. É que, todos eles, nem sequer com a excepção do excepcional Leong, em parte alguma do mundo, encontraram dragões em que pudessem exercer a sua arte ganhando glória e proventos.

Assim estavam as coisas: - Lamentos, tristeza infinita e o que é que vamos fazer?

Das reflexões longas que efectuaram ninguém conseguiu arranjar saída para tão crítico estado de coisas.

É natural que me perguntem: Então e o Leong, essa tão brilhante esperança, nada tinha escondido nas consabidamente longas mangas da túnica?

Claro que teria e o que eu fiz foi um pequeno truque de autor para aumentar o suspense e o tamanho do escrito (vício que me ficou de quando me pagavam artigos à linha). Portanto, no meio da depressão colectiva, elevou-se a voz do nosso herói que disse:

-Meus amigos, nada de desesperos. Somos a casta letrada e detentora de todos os conhecimentos do Império do Meio. Mal seria se para tão parco problema não houvesse nas nossas esclarecidas mentes cabal resolução.

Pasmo e bocas abertas entre os sábios em conclave… (oh! Diabo, querem ver que vou arranjar outro problema por falta de responsabilidade no uso da liberdade de expressão? Vou esperar 24 Horas para ver o que dá.) … adiante, ia nas bocas abertas e nas expressões “confucianas” daqueles reunidos (assim é mais anódino e está melhor, não está?) uma expectativa dolorosa preste a rebentar em gritaria.

Para que tal não acontecesse, o que seria basto desprestigiante par os dignos mandarins, resolveu-se, finalmente, Leong, a expor a sua ideia.

Camaradas (ai, ai, ai…) já que tanto sabemos sobre a Arte de matar dragões e também sabemos, de experiência feita, que dragões não existem o melhor que temos a fazer é mantermo-nos unidos e utilizar os nossos conhecimentos, para proveito dos outros, abrindo uma nova Escola Superior da Arte de Matar Dragões.

Reza a lenda que assim se fez e que o êxito foi tal que, de todas as partes do Império, chegavam pedidos para a abertura urgente de novos pólos de tão importantes estudos.

A história está contada e não tenho qualquer conclusão a tirar dela e se alguém, mal intencionado, encontrar qualquer semelhança entre esta lenda e o que se tem passado em algum país, que não nomeio, tal poderá, ou não, ser considerado pura coincidência.

Cada um que em sua consciência decida!

fevereiro 19, 2006

Luz (Poema)

I
Da explosão dos dias
em fulgor rubro
te falo eu
na curva verde da distância.

O tempo parou-te
no umbral.
A fenda clara
entrava mansamente
no obscuro domínio.

Serena
dormia a casa.
Só tu de olhos
claros de luz
colhias a manhã inicial.

Parada na porta.
Mãos num gesto
de abraço,
ouvindo a melodia da luz
tu bailavas ...
quieta!

Um pé teu avançou súbito
para o azul do voo.
Mas recolheste,
o movimento
ainda com o corpo quente
da matinal luminosidade.
II
Encostas a porta.
Do jardim,
chega-te o trinado dos melros.
Sentes intenso o aroma das violetas.
Por isso, fechas a porta
e devolves-te à sombra.

Por ela te moves
com a elegância
segura e sinuosa
dos cegos.

Ecoa no teu corpo
a memória do fulgor.

Pegas na rotina espalhada
pela cozinha
e vais ordenando aquele mundo:
as torradas para os miúdos,
o chocolate,
o sumo para o Zé-Tó ...
e o aroma mágico do café,
eficaz mensageiro
que envias pela casa.

Confirmas ... – as cortinas estão
corridas!
São azuis e deixam-te uma nesga de horizonte,
por onde teimosa
entra a luz melodiosa.



Saltam enérgicas as torradas!
Fazes correr a manteiga pelo dorso do pão quente!
E no centro da mesa,
ternamente dispões
a fruta vermelha .

Ao lado, no tabuleiro
as chávenas para o café.
Duas.
Brancas. Com um pássaro
azul,
em voo.

Esquecida da rua
admiras o quadro composto...
Perfeito!
Nos tons,
na harmonia entre as coisas.
Nada esquecido. Nem o pannier de linho cru.

Levantas-te precipitadamente:
as cascas de laranja
perturbam-te.
A faca tombada na bancada
como gente sem rumo
arrepia-te.

Arrumas tudo.
Estirada na cadeira
lanças um olhar pela mesa
– podia ser uma bela natureza morta! – pensas.



Depois, esperas ...
mordiscando uma torrada distraída.
O café esquecido
arrefece na chávena.

Por isso te lembro
a negada explosão dos dias
rubros,
únicos.

A luz baça
azulada
alastra-se pela cozinha
embalando-te na espera.

A quietude da casa
permanece
intacta.

É nesse instante,
que fechas os olhos,
e percorrendo sôfrega
a sombra
entregas o teu corpo
ao transe da luz amanhecida.

fevereiro 18, 2006

Tirem as mãos do teclado

O Presidente da Republica deu um prazo curto a Souto Moura para lhe apresentar justificações para as escutas – ou inserção do seu número de telefone particular em listagem inserta no processo Casa Pia – que lhe teriam sido feitas.

Souto Moura ainda não se explicou ao Presidente

A Assembleia da República, dada a delicadeza da situação, convocou o Procurador-Geral da República para num determinado dia comparecer perante a Comissão adequada para se explicar.

Souto Moura não foi no dia marcado, foi quando quis apenas para dizer que não tinha ainda nada para dizer.

Se bem me lembro algumas ou muitas da fugas de segredos de justiça partiram de uma funcionária, de confiança, do seu gabinete.

Souto Moura passou intocável por isto.

Mas, no entanto, em vez de responder ao que os mais altos órgão de poder do País lhe exigiram e que era tão-somente: - quem tinha mandado executar as escutas; quem tinha pedido as listas; porque foram apensas a um processo onde não deviam estar…

Souto Moura mandou a polícia à casa de um jornalista onde foi apreendido o seu meio de trabalho – o computador – à Redacção de um Jornal, onde, no melhor estilo, entraram de rompante gritando:

Tirem as mãos do teclado!

Não sabendo se apontaram ou não as armas para os atónitos jornalista fico-me a pensar na sorte que tiveram em nenhum, no momento, estar a desenhar um “cartoon”.

fevereiro 11, 2006

Como uma liberdade (Transcrição de Link)

Do blogue "Um prego no sapato" de autoria do meu amigo Henrique Jorge, retirei esta nota e o endereço de um manifesto que urge ler e assinar. Recomendo-o a todos os amante da liberdade.


Como uma liberdade
Da autoria de Rui Bebiano e Tiago Barbosa Ribeiro, aqui fica o MANIFESTO que pode ser visto e subscrito em:
http://liberdade.home.sapo.pt/

fevereiro 04, 2006

Hábitos Sociais

Os hábitos culturais são coisas insidiosas. Tanto nos facilitam a vida em comunidade, como nos precipitam em atitudes perigosas e irracionais. Para alguém que viva integrado numa determinada cultura, o particular modo de pensar e agir desse grupo aparece como “natural” excluindo todos os outros os quais serão considerados, no mínimo, como insensatos.

Tomado este postulado duas situações apareceram esta semana suscitando a minha atenção. A primeira é sobre o casamento de homossexuais e a segunda sobre as caricaturas de Maomé.

1 – Casamento de Homossexuais

Duas mulheres expuseram a sua vida comum reclamando, sobre o direito constitucional à não descriminação, o direito ao seu casamento.

Explodiram apoios e ataques e a sociedade, como é caso comum, dividiu-se nas suas posições. Em fóruns e debates assistimos ao apoio, compreensão e ataques ferozes contra o desejo destas duas senhoras e, para lá delas, à pretensão genérica de casais do mesmo sexo verem reconhecidos os seus direitos a comunhão de casa, cama e mesa.

No entanto, tal como no caso da despenalização do aborto, as posições de defensores e atacantes não são simétricas.

De facto, quem defende o direito ao casamento, ou qualquer outro instituto de reconhecimento, entre homossexuais - vendo aceite a sua tese - não obriga ninguém a seguir esse caminho. No caso contrário uma parte da população pretende coagir os outros a pensar e agir como eles próprios. Isto é, elevam a sua particular visão do mundo a um imperativo universal. O que sobre esta posição se pode dizer é que, no mínimo, não é nada democrática.

Depois, perorou-se imenso sobre o casamento e a família, como se fossem coisas naturais, sempre as mesmas, com forma fixada no tempo. Pura ilusão. As famílias são agrupamentos humanos que visam, mais que a reprodução, a ordenação e defesa de territórios e a sucessão de bens. Na sua forma comum são institutos legais.

Ora todos os institutos obedecem a um dado estado da sociedade e são alterados, para simplificar, quando esse estado muda. Nada de natureza e eternidade, portanto!

Mas, a família é também um local de partilhas e afectos. Então, se casamento não é só procriação e sucessão e se privilegiarmos os sentimentos os que faltará a estas díades para terem o reconhecimento legal da sua escolha?

A separação de um ser amado causa angústia, dor e saudade a qualquer ser humano. Seja mulher ou homem, sejam hetero, homo ou bissexual. O amor procura a luz das aceitações. Negá-las é produzir infelicidade. Vamos ignorar que milhares de cidadãos têm escolhas sexuais alternativas e obrigá-los a uma permanente clandestinidade? Não me parece que, para bem de todos, essa seja uma opção aceitável e inteligente. Vamos viver e deixar viver!

2 – Caricaturas de Maomé

A tradição islâmica não permite a representação gráfica da figura de Maomé. É uma opção, é um dogma, é um direito. Portanto, que os seguidores desse credo o cumpram e vivam com esta prescrição. A cultura dominante no Ocidente é pictural, representativa e antropomórfica. Esta é uma diferença substancial. Somos também laicos e a separação de poderes, bem como a liberdade de expressão, são valores predominantes e conseguidos após árduas lutas. Por isso deveremos conservá-los e pugnar por eles sempre que sejam atacados. Tal como está a acontecer.

Pode não ser de bom gosto a publicação de um “cartoon” que afronte a religião de alguém. Esse alguém tem todo o direito de se sentir incomodado ou ofendido e de o demonstrar de forma razoável. Manifestando-se, por exemplo, ou recorrendo a tribunal. Não tem é o direito à agressão e destruição e muito menos a coarctar o direito de outrem à manifestação de posições diferentes. Não tem o direito de determinar como é que eu vou viver, como me vou comportar e sobretudo de vir ditar ordens em minha casa.

Alguém está a exagerar e a criar um clima inquisitório no mundo. É excessivo e inadmissível. Bem ou mal o que está publicado está e foi decisão assente em modos de vivência que são os nossos. Que devemos defender. Quem não gostar que não os use, mas mande na sua casa e não na nossa.

janeiro 29, 2006

Que fazer com este Blogue?

Durante cerca de uma semana, por avaria no servidor, estive sem acesso à Internet. Assim, o que foi um percalço comunicacional transformou-se num período de reflexão sobre as razões de existência e continuidade deste espaço cibernético.

Relembro que o ponto fulcral para este lançamento foi a afirmação inequívoca, por parte de Manuel Alegre, da sua decisão de concorrer às eleições presidenciais. Passadas estas, resta saber da bondade ou necessidade de continuação destas parlendas.

Olhando para os três meses que precederam o acto de votação, para a campanha eleitoral, para as quezílias levantadas, sobretudo contra Manuel Alegre, pelos outros candidatos e muitos comentadores, fica-me a sensação de que o combate não só valeu a pena como foi eficaz.

Desde início se sabia que esta candidatura seria incómoda para o Partido Socialista. A sua má escolha e sobretudo a forma pouco edificante como as cúpulas decidiram o nome do candidato, faziam prever forte comoção no Partido. Era natural! Então, porque é que os outros candidatos e meios de comunicação ficaram tão apoquentados?

Elementar meu caro Watson!

A decisão de Manuel Alegre foi uma pedrada na paz podre da situação política no País. Todos os partidos, na comodidade da sua instalação no sistema, sentiram a ameaça como sua. Se de repente todas as pessoas começassem a por em causa as decisões dos órgãos partidários e tomassem decisões próprias; ou sentissem que a sua voz vale mais que um simples aquiescer e pudesse tomar volume e vontade própria, não teriam os partidos de repensar as suas abordagens e decisões?

Mais ainda. Afirmou Manuel Alegre que ninguém é dono da Democracia. É verdade, adiro completamente a este conceito mas, há por aí muito boa gente que pensa o contrário e age de acordo com esse pensamento.

A título de ilustração relembro um episódio – que não foi único – passado na junta de freguesia a que pertenço, aquando da discussão para eleger os representantes dos candidatos para as mesas de voto.

Estiveram presentes na reunião os representantes de quatro candidaturas e havia sessenta lugares a distribuir. Pareciam fáceis de fazer estas contas. Mas não foram. O representante de um candidato, que em termos partidários e nas eleições anteriores dispunha de 25 lugares, recusou-se a admitir a diferente lógica das eleições presidenciais, e com o pretexto de que tinha direitos adquiridos àqueles lugares, boicotou a representação do nosso candidato nas mesas de voto desta freguesia. Este pensa que é, senão dono da Democracia, pelo menos das mesas de voto. E na verdade foi-o porquanto o Presidente da Câmara, numa decisão legalmente correcta mas eticamente reprovável, por inacção, convalidou esta absurda posição.

É contra este mentalidade que se formou este movimento de apoio a Manuel Alegre e é porque ela existe que é necessário, por todos os meios e em todos os tempos, continuar a afirmar o direito à nossa diferença.

Por isso, está decidido! O Blogue continuará a viver e a expressar, do modo que os seus subscritores determinaram, os mais fundos desígnios e desejos que enformaram o movimento e apoiará e colaborará nas decisões que no âmbito deste movimento vierem a ser tomadas. Mantendo a nossa independência crítica, não deixaremos de ser parte deste colectivo que se consubstanciou em torno da figura de Manuel Alegre.

Que novos desafios e projectos surjam para que a nossa força se manifeste!

janeiro 21, 2006

Barreiro – A centralidade periférica

Trace-se um círculo ao redor da Grande Lisboa. No centro, no âmago dessa massa de gentes e construções, situa-se o Barreiro. No entanto, é mais excêntrico, mais periférico, que as periferias geográficas. A que se deve tão estranha contradição?

Delineemos uma brevíssima incursão sob a história moderna do Barreiro. Criado por gentes marinheiras que se foram radicando junto ao rio foi, mais tarde, acrescentado por ferroviários e operários das indústrias químicas. Nasceu assim uma urbe diversificada nos pólos de desenvolvimento mas unida na vida associativa e política.

O seu acentuado querer de esquerda não lhe granjeou simpatias nem benefícios na ditadura. Apesar disso e mercê da força do seu colectivo sobreviveu e a industrialização, acompanhada de fenómenos de imigração, desenvolveram, embora de forma algo caótica, a urbe.

Era de esperar que com os alvores da Liberdade um surto de progresso e modernização rebentasse na então vila da pertinaz resistência. Contudo, por fenómenos que podemos enumerar mas que só os sociólogos poderão analisar em profundidade, o Barreiro começou a ser lentamente estrangulado.

Porque é que sendo, durante tantos anos, um centro Ferroviário se viu despossuído do seu terminal e o comboio que liga a Margem Sul a Lisboa parou primeiro no Fogueteiro e depois avançou para Coina, evitando o Barreiro?

Porque é que a Ponte Vasco da Gama, envolta na polémica do seu posicionamento, foi desviada do Barreiro, local de mais forte densidade populacional, e a colocaram em zona desviada onde menor serviço poderia fornecer a esta população?

Porque é que o Metropolitano, em perspectiva, continua em cortes e plantas com miríficas datas marcadas e nenhuma solução à vista.

Se a estas interrogações acrescentarmos os efeitos do encerramento das fábricas da Quimigal, sem que outras unidades produtivas mais modernas e eficientes a tenham substituído, começamos a vislumbrar os motivos, induzidos por estranhos interesses, que estão a levar o Barreiro a uma dolorosa estagnação.

O comércio tradicional agoniza cercado pelos grandes Centros Comerciais implantados nos arredores distantes da Metrópole. A população começa a envelhecer e a diminuir, incapaz de fixar os seus jovens que procuram vida em zonas menos afectadas pelas crises nacionais ou locais, assim se entardecendo uma cidade!


No entanto, com um pouco mais de atenção dos Poderes, poder-se-ia dar prontamente um rejuvenescimento do tecido sociocultural e económico desta urbe. Esperamos pelo Polis; pela reclassificação urbana; pela devolução do rio à paisagem e lazeres da população; pela possibilidade de alargamentos do pólo de estudos superiores; pelo desenvolvimento de uma indústria forte, não poluente e actualizada; quem sabe por companhia residente de teatro, orquestra, bandas e outras actividades de religação social e, talvez, da nunca construída ponte ferro-rodoviária aproximando de vez esta centralidade periférica do centro a que realmente pertence.

janeiro 19, 2006

Glosas à Trova do Vento que passa

Com a devida vénia transcrevo estas décimas enviadas, por "e-mail", por uma amiga e da autoria de Manuel Inácio Veladas:



Mote

Pergunto ao vento que passa
Notícias do meu País
O vento cala a desgraça
O vento nada me diz

(Manuel Alegre)

Glosas



Este mote ouvi um dia
Numa canção bem cantada
E por mim considerada
Das mais lindas que eu ouvia.
Quem fez esta poesia
Via o futuro sem ter graça,
Sem algo que o satisfaça
No seu exílio infernal,
Notícias de Portugal,
Pergunto ao vento que passa.




Sofreu, não desesperou
Dum sofrimento tão vil,
Mas o 25 de Abril
Afinal sempre chegou.
Satisfeito regressou
Considerou-se feliz
Por ver o que sempre quis
- Em Portugal nova aurora –
Perguntava a toda a hora
Notícias do meu País.



Dizia Manuel Alegre
No seu exílio sombrio:
Se morrer, morro com brio
Sem que à tristeza me entregue,
Por muito que alheio navegue
Sou quem o exílio abraça,
Julgo o vento de má raça
Porque o é, infelizmente.
De quem sofre injustamente,
O vento cala a desgraça.




Sofreu com brio e coragem
Esperava a todo o momento
Que até o próprio vento
Lhe levasse uma mensagem.
Não o quero em desvantagem,
- Ponham-se as pintas nos iis! –
Não sejamos imbecis
Deixemos de hipocrisia,
Lembrai-vos quando ele dizia
O vento nada me diz!


Évora, 14 de Janeiro de 2006

Manuel Inácio Veladas (Ti Limpas)

Manuel Inácio Veladas é natural de Ferreira de Capelins, Alandroal, onde nasceu e reside há 76 anos de idade.
Toda a vida trabalhou na Agricultura e, nos últimos anos, tem vindo a ajudar a construir a Confraria do Pão (Alentejo), cujo Centro de Documentação já publicou o Livro “Nasce do Meu Pensamento”, com algumas das poesias populares alentejanas que vem fazendo e aprendendo desde criança.
Com uma vastíssima e riquíssima obra, é, seguramente, um dos mais importantes Poetas Populares que o Alentejo e Portugal já teve.

ESTAS DÉCIMAS FORAM FEITAS DE IMPROVISO PARA A MANHÃ DE 14.01 EM ESTREMOZ

janeiro 14, 2006

MEGA CONCERTO

No dia 19 vamos encontrar-nos no Pavilhão Atlântico.
Que a festa dure até às tantas...

Posted by Picasa

janeiro 02, 2006

Cavacorrências

Não sei depois o que aconteceu. Não sei sequer se estou a contar um sonho. Não sei. Ninguém sabe. Ninguém nunca saberá.

Escuro, O Quadrado, Manuel Alegre





Cavaco quer ser presidente da República. Isto é, Presidente de todos os portugueses. O que é uma impossibilidade!
Até pode ser que Cavaco ganhe as eleições, mas, o que nunca ganhará é o coração de todos os portugueses. Nem sequer da possível maioria que o possa eleger.

Porque Cavaco é um equívoco!

As suas possibilidades existem na razão inversa das possibilidades do nosso Povo. Da esperança de que um Presidente, versado em economia, seja aquilo que ele não é, por não o ser e por, mesmo que queira, nunca poder ser:

Uma Providência!

Alguém fez confundir Presidência com Providência. Como se sabe, são bem distintas coisas. Existem em diferenciados níveis e funções. Não são fusionais. Cavaco, por mesquinhos interesses, permite e alimenta a confusão. Assim se cala ou dizendo não diz: repete o ensaiado monólogo da competência. Sua! Que só ele encontra nele. Que os seus próceres repetem à exaustão. Cavaco não é propriamente um candidato. É um produto.

Cavaco é também um medo!

Primeiro de si mesmo, de se descolar do boneco que vestiu. Assim o seu ar plástico. Esgar cortado na boca o seu sorriso. Virtual a comunicação. Nada é nele autêntico. Tudo é programado. Cavaco tem medo de falhar o papel.
Depois é nosso o medo de que o país possa ser exactamente aquilo que Cavaco diz que ele é:

A vocação pequenina do quase nada. O não saber. O não querer mesmo saber senão aquilo que é o Ser no mais rasteiro quotidiano. Cavaco é um medonho deserto de emoção. Uma retórica vazia. Um conteúdo de nada.

Cavaco transporta uma visão do mundo que fica “entre”!

Não é clara nem clarificável. Situa-se no terreno movediço das fronteiras ambíguas. Não é de direita nem de esquerda. Não é político, embora o seja. Não pertence ao Povo nem às elites. Situa-se entre o que é e o que deseja ser, sendo apenas o que apenas parece.

Cavaco é um simulacro de si próprio.

Poderemos dar-nos ao luxo de eleger um simulacro de Presidente? Eu não o quero! Prefiro o seu anverso. Que faz versos!

dezembro 28, 2005

luís volta a casa com ar meditabundo

Não sei se alguém consegue voltar de um longo exílio. Não sei se alguma vez se volta verdadeiramente a casa.

Alma, Arte de Marear, Manuel Alegre





I

longos tédios de gelo sobre os campos
cristais inelutáveis de fontes
por pensar

a cinza
interior de águas entre ruas
disfarces de boas intenções

já não são eternos
os deuses
sobrevivem empregados
a baixas cotações

II

trazes a lembrança de um rio
por dentro da cidade
a estranheza de um nome plantado
ao fundo da sesta

não há interdições às tardes da infância

a propósito
a intersecção de duas linhas
produz na esquina do infinito
um ângulo vagamente proibitivo

III

que tal te foi a vida
a mim também
aos poucos me morria
ora que tem

falando de amor
pois a mim
por favor
acho que sim

IV

regressas meu amigo
nesse choutado passo
de receber a tença antiga
no paço

derrogas delongas de fado
canela que te coube
neste país dormido por diferença

onde rogas
por pobre devagar
a tença

dezembro 18, 2005

Na volta dos dias

Eis que de novo chega um tempo de batalhas.
Chega um tempo de povo…


Ser ou não ser, O canto e as Armas, Manuel Alegre




Foi interessante a semana que findou. Desde quase o seu início se adivinhava um rumor profundo, qualquer coisa que se não dizia mas em silêncio se preparava e não se conseguia conter sem que algo se vislumbrasse.

Foi primeiro, salvo erro, Jorge Coelho quem, no Programa Quadratura do Circulo, disse, ou insinuou, que uma nova sondagem do nada se levantava e que, alimentada pelos debates televisivos, fizera arrancar a candidatura do Dr. Mário Soares. Mais António Costa, posterior, e Vitorino, secundaram o murmúrio com a consequência lógica de aconselharem os restantes candidatos de esquerda a desistirem a favor do seu candidato.

Perversa lógica esta. Assente num conhecimento de dados não divulgados, mas pré-anunciados, mais parecia táctica de marketing que acção de correcta política, além disso nada sustentada na bondade dos seus efeitos se, por um extraordinário acaso, as restantes candidaturas viessem a aceitar o repto.

Por outro lado vem o Candidato Mário Soares dessolidarizar-se da posição desses importantes dirigentes do partido que apoia a sua campanha.

Que se passa então, senhores?

Parece que apesar das sondagens, do País inundado de cartazes, dos giga-jantares, alguma incomodidade ou incerteza dolorosa reina no binómio Soares/Partido Socialista.

Na verdade, aparecida a sondagem, verifica-se que, apesar de dar um crescimento a Mário Soares, esta candidatura aparece muito abaixo da linha desejável e, a crer nela, consubstanciando uma vitória na primeira volta para Cavaco Silva. Aquilo que faria bater o coração dos dirigentes socialistas era a passagem de Mário Soares para a segunda posição, até então ocupada por Manuel Alegre. Então, como se frisou, a consequência lógica, e primária, seria a entrega dos votos de Manuel Alegre a Mário Soares.

Pensamento obnubilado de quem julga mandar nos votos dos outros. Quem lhes afiançou que, desistindo Manuel Alegre, Mário Soares aumentaria a sua votação? Quem lhes disse que os cidadãos que com o seu esforço alimentam a candidatura de Manuel Alegre estavam dispostos a transferirem o seu voto livre e republicano para a manutenção de uma aristocracia que se quer impor ao País? Já agora, porque não declarar Mário Soares como candidato experiente e vitalício e assumir uma dinastia Soarista a governar, por direito próprio ou divino, prolongadamente os destinos deste rectângulo?

Um pouco de contenção não faria mal aos dirigentes, em pânico, do Partido Socialista. Postos perante o colossal erro de escolha que fizeram para as presidenciais, fazem apelos que não valem pelo que é pedido, mas sim por aquilo que revelam: Sabem que o seu candidato não está em posição de fazer o pleno de esquerda – mesmo numa segunda volta - sabem que não agindo eticamente dividiram os votos da esquerda e sabem que terão de prestar contas sobre o desperdício de uma maioria recente, naufragada numa escolha infeliz. Para não terem de abandonar o barco procuram bodes expiatórios. Mais nada.

Para mim é isto que vale o empenhamento desta semana de dirigentes e comentaristas afectos. A sondagem não me afecta nada, como não me afectariam se os resultados fossem, como repetidamente têm sido, mais favoráveis ao meu candidato. Porque eu sei coisas que as sondagens não dizem, porque nem sabem nem podem medir. Sei das pessoas que nos contactam e oferecem, voluntárias, as suas horas de descanso e os seus merecidos fins-de-semana. Sei de quem tendo pouco dinheiro aparece para contribuir, com o que pode, para uma causa que consideram justa e onde se revêem; sei também de quem, por motivos vários, prefere não ser conhecido e nos vem afiançar que o seu candidato é Manuel Alegre e sei, finalmente que, preparados para vencer, mesmo que não conquistando a Presidência da República, só pelo movimento gerado e pela esperança renascida nas pessoas, nós já ganhámos.

Lembrem-se de Humberto Delgado.

dezembro 11, 2005

Malhas que o sistema de saúde tece ou a trágica história de José

Pretende atingir a porta longínqua da saída do hospital. Porém, as pernas recusam-lhe o movimento, as dores tolhem-lhe o passo, amortalham-lhe a alma e a visão turva diz-lhe a distância longa - ainda há meses percorrida em largas passadas – a que se encontra a porta por onde passará curvado, qual hera em torno da canadiana que lhe suporta o corpo.
A história de José é breve e simples. Na verdade, todos conhecemos “Josés” que caíram na rede tecida por este sistema a que se dá o nome de serviço nacional de saúde e onde pontifica a figura do médico de família, o qual, só por ironia, tem semelhante epíteto, tantas são as famílias desamparadas que por esse país vivem sem médico que as assista Porventura não serão famílias! Efectivamente, nos centros médicos os funcionários designam-nos sem qualquer hesitação. São «os sem médico». Esqueçamos este aparte até porque José foi um felizardo já que contou sempre com médico de família, com alguns hiatos, é certo. Mas, por Deus, que qualquer cidadão “normal” o perceberá. Não há médicos que cheguem para tantos doentes e maleitas. Importa suportar o sofrimento tanto tempo quanto o necessário - o estoicismo é um valor a preservar, estou mesmo a ver! Não há como retomar os bons velhos valores da Antiguidade clássica. E os doentes aprendem. Ai, se aprendem…. Coisas do sistema que devemos entender!
Aproximemo-nos de José que atravessa lentamente o umbral que o levará ao exterior do hospital. Sempre foi um homem simples. Amava a copa das árvores de fruto, o seu quintal de hortícolas, o vinho sonhado nas videiras enfezadas, amava a ordem da sebe aparada, suspirava feliz perante a relva simétrica e verde. Além disso, tinha a sábia arte da reciclagem e, frequentemente, num velho ferro, ou num pedaço de madeira entrevia o que os outros não viam. A sua utilidade. E das mãos de José – carpinteiro como o da sagrada família – nascia algo um novo objecto. Era raro este seu dom. Com 70 e tantos anos, recusando a imobilidade de bancos de jardim, ocupava energicamente os dias. O que eu mais lhe admirava era esse modo enérgico como envelhecia. E falo no passado para o descrever porque José perdeu todo o seu vigor em quatro meses, porque em quatro meses deixou de aparar a relva, entregou o quintal à caruma, as flores aos gatos vadios, as alfaces às lagartas …
Agora é a hera que se encosta suplicante à palmeira nobre do seu jardim e lhe suplica que a deixe enroscar-se nela (a palmeira tem a idade do neto. Plantou-a ele. A trepadeira também…, tal como a nespereira que marca o nascimento da neta).
As mãos fortes, o tronco firme que domavam o jardim e o harmonizavam deram lugar a um frágil caule …! E não estaria assim se tivesse sido convenientemente tratado numa perspectiva médica de prevenção.
De facto é simples a história de José. Respeitoso para com os senhores doutores cumpriu sempre escrupulosamente as suas indicações para controlar a sua diabetes, o seu colesterol, a tensão arterial etc. Nunca lhe passou pela cabeça colocar alguma dúvida sobre prescrições ou solicitar qualquer exame pois não só depositava inteira confiança no médico, como não dispunha de saber ou capacidade expositivo-argumentativa. José era o doente ideal: «Sim, Sr. Doutor!». E lá seguia, fazendo os exames de rotina, e lá continuava acreditando piamente que tudo estava bem, desde que tomasse os medicamentos, às vezes prescritos sem que tivesse sido sequer observado. E neste passo é bom lembrar que José é um senhor idoso, e com baixa literacia, dado importante para se perceber ainda que não estranhasse tomar há quase uma vintena de anos os mesmos medicamentos, quando a ciência médica tem dado passos gigantescos.
Um dia, há cerca de dez anos, dores fortes nas pernas impediram-no de andar. Após tentativas goradas de consulta, lá foi assistido. Fez um RX e um outro exame e logo vaticinou a autoridade médica: «Reumatismo, trata-se de reumatismo». Por isso, nada mais natural que medicamentos reumatismais. José tomou-os Sempre! Ainda falou, como era habitual, da má circulação, dos pés frios … Mas se tinha reumatismo, havia que engolir as cápsulas. E de novo voltou às matutinas horas, e ainda madrugada lá estava na fila para não perder a consulta. Às vezes perdia-a. Mas regressava sempre. Aliás como se sabe, “erguer cedo” “ dá saúde e faz crescer”, desde que o indivíduo cedo se deite. Assim o fazia José como homem regrado que era, tanto mais que os ritmos agrários ainda lhe pulsavam no coração.
Contudo, maugrado os reumatismais, as dores nas pernas persistiam, levando o antigo andarilho a tornar os passeios mais curtos, mas nada confessando à família. Todavia, disse-o aos médicos, sem que estes achassem necessário investigar fosse o que fosse (o velhote estava era mal das articulações!) e avançavam - «Sabe são coisas da idade. Ande a pé e tenha paciência! E José acreditou, obedeceu sem questionar. Quanto à paciência teve em dose elevada. E o pés diabéticos? E a má circulação? Da frequência inicial com que os observavam, restava agora um leve olhar ou até um não olhar. O que, como sabemos bem, não tem importância nenhuma!.
Um dia (creio que em 2004), mais envelhecidos, ele e a mulher mudam de centro médico, buscando uma maior proximidade de casa. Tiveram muito poucas consultas, pois a médica adoeceu e, naturalmente, deixou de comparecer. E quem assegurou a observação de José e sua mulher? Ninguém!
Supor-se-ia que, identificado como diabético, tivesse José acesso facilitado a uma consulta. Ingenuidades! Espera igual para todos é o lema dos centros médicos. E não é que se afigura algo de tom igualitário? Pois é… mas a diabetes é uma doença crónica com evolução muito grave para o doente e isso foi esquecido como se ninguém num centro de saúde o soubesse. A prova disto é claramente vista na regularidade quase diária das idas de José ao seu centro na mira da almejada consulta. E o resultado? Nulo, restringindo-se às vozes desabridas ou inexpressivas dizendo o mesmo de sempre, ou seja: «Não há médico! Volte amanhã, para a semana. Para o mês que vem talvez… Que quer que lhe faça?» Por essa altura os pés enegreciam, a palidez aumentava e as dores nas pernas agudizavam. José já pouco andava … e um dia parou.
Uma unha encravada num dedo cianosado levou-o aos serviços de enfermagem do Centro de saúde uma, duas, vezes sem conta. - «Hoje não temos S.ra enfermeira, nem médica! – Venha amanhã pode ser que a doutora o veja». E nada mais! Depois veio o grito de apelo de um casal de velhinhos, aparando-se um ao outro. Este dado foi irrelevante. Mais tarde numa outra “visita” médica obtém um pouco de algodão sob a unha a desprender-se e um despachado «Volte amanhã! Essa unha é para arrancar!». Tout court!
Quanto aos encaminhamentos médicos necessários? Nenhuns. E consulta? Nenhuma.
Finalmente José percebeu que ninguém o ajudaria, o trataria no centro médico. E rendeu-se, abatido e perplexo com o facto de tal acontecer. Importa lembrar que ele sempre achou que o tratariam, mesmo que demorasse um pouquinho. Os senhores doutores lá sabiam, mas vê-lo-iam … (Pois não viram José!)
Passaram-se quatro meses de suplício, apesar de tudo medicado porque se recorreu à clínica privada. E muito se correu. E muito sofreu José pois a gangrena instalava-se a olhos vistos, a par das dores lancinantes. E muito choro correu naquela casa. José não comia já, perante o desespero da família, vomitava comida e medicamentos. Para além disto havia que fazer o penso. Nova corrida ao centro e surgiu uma enfermeira que sabia o que eram pés diabéticos. Fez mover os médicos. Encaminharam José para uma consulta de podologia, sendo visto cerca de um mês depois. Trouxe uma pomada, uns conselhos para tratar dos ferimentos e nada mais, a não ser consulta para daí a um outro mês.
E de consulta em consulta (clínica privada – geral, especialista em cirurgia vascular), de exame em exame andou José arrastando-se, até que desembocou num hospital de referência da área de Lisboa. Por lá andou em três consultas, com a indicação de que faria uma arterioscopia no dia X pois as veias não estavam assim tão más.
Em José cresceu a esperança e no seio da família também. Efémero momento! Chegado o dia, e após observação pelos cirurgiões, é a família informada de que não poderia fazer jamais tal intervenção devido ao elevado nível da sua creatinina. O que fazer? Resposta sábia do médico: «consultar um nefrologista para impedir a paragem renal e a diálise». Nova corrida em busca de um médico com reputação nesta área.
Mais tarde, saber-se-á, através de cirurgiões de dois hospitais, que a creatinina não era o problema. A microcirculação estava muito comprometida. Não havia cirurgia que salvasse as artérias de José. Ninguém lhe tiraria as dores a não ser pela amputação de membros. Isto saber-se-á muito tempo depois, já José estava internado no hospital da sua área de residência, como deveria ter sido logo feito. E por pura sorte, meus senhores!
Eu conto: acorreram José e a mulher num dia de desespero aos serviços de enfermagem do seu centro de saúde que os encaminhou para a urgência de um outro centro onde foi observado por uma médica que lhe receitou um cicatrizante ( para dedo em gangrena!!!? – estranho, mas confesso a minha ignorância …. O certo é que poucos dias depois o cirurgião vascular retirou-o). Sofreu José, sem qualquer anestésico, dores dilacerantes ao fazer o penso. De lá saiu, não para o hospital, mas para casa, com a indicação de que deveria mudar o dito penso na segunda-feira no seu centro de saúde. Assim fez. Arrastando-se lá chegou e, desta feita, a enfermeira, perante o estado do dedo, recusou-se a tratá-lo pois ultrapassava a sua esfera de competência e tratou de o enviar para o hospital. ( Houve alguém a pensar e a ser humano neste processo! Será? Até custa a crer!).
Mas não entrem, caros amigos, em euforia e nalgum sossego. É que José teve de lá chegar por meios próprios. Parece que as ambulâncias não são chamadas para “palha tão pequena”. E assim José – depois de esperar das 11 h da manhã à 01 hora do dia seguinte – foi internado e finalmente tratado com cuidado. Mas como afirmou logo um dos cirurgiões, e depois outro, e outro: «Já chegou muito tarde». E todos avançavam com a sacro-santa pergunta: «Sr. José diga lá não tem dores nas pernas? E não as tinha já antes? A primeira vez…? Aí há uns dez anos, ou menos?» - «Há dez anos senhor doutor!» balbuciou em resposta, enquanto o Doppler do momento anunciava o destino trágico de José, meu pai.
«- Pois é chegam-nos neste estado … quando já pouco há a fazer …!», comentou o cirurgião.
Eu ouvi este veredicto e soube que o meu pai perdera a sua vida, a única que existe, a que nós temos enquanto somos íntegros. Soube também que a via-crucis pela qual passa actualmente foi causada pela negligência de quem, com responsabilidades médicas, não coloca todos os cenários clínicos inerentes a um doente diabético, com agravantes, e dá o mesmo a todos pois desconhece o significado da palavra prevenção! E segundo a observação dos últimos cirurgiões vasculares (em meio hospitalar), este problema de insuficiência na circulação já era antigo e deveria ter sido tratado há muito!!

José, meu pai, grita com dores, chora como um bebé, está ligado a um aparelho a partir da coluna para ter menos dores. Mas elas não passam, apesar do empenho destes médicos que só encontrámos em «dead line». José, meu pai, morre lentamente a cada grito lancinante, a cada penso, a cada cateter, a cada droga nova que toma e não faz efeito…! E nós morremos com ele todos os dias.
É isto saúde familiar? É isto saber técnico-científico, humanidade, reconhecimento do outro enquanto pessoa? Não! Isto acontece a quem não tem dinheiro para pagar a saúde, a quem não pode recorrer a especialidades várias no domínio da medicina privada, a quem acredita no seu médico de família, esperando dele o melhor encaminhamento tanto para essas consultas, como para uma ajustada medicação. E, por fim, isto acontece porque o médico nem sequer disse, nesses tais tantos anos do passado, que exames e a que consultas o meu pai deveria fazer/ir, mesmo que o seu crédito (o médico) para requisições de exames/encaminhamentos para especialidade não o permitisse, por razões economicistas que este país segue na saúde. Esta razão eu entenderia, ou, por outra, aceitaria melhor. O meu pai tratar-se-ia em clínica privada, mas tratava-se e o alerta tinha sido dado. Seria o mínimo de ética, não? O que eu não aceito é que um profissional de saúde saiba o que deve fazer e não o faça, preferindo omitir, fingir que o problema não existe. E não quero sequer colocar a hipótese de que um clínico geral não saiba o que envolve um doente diabético em termos de sinais a detectar e a ler, em termos de especialidades pelas quais deve ser seguido.
Sei de quem é a culpa. Mas como sempre morrerá virgem e arquivada. Afinal que importa um José marido, pai, avô de ….? É apenas um velhote! Há muitos, não é?
Um grito impotente de revolta ecoa continuadamente dentro de mim, sublinhada por «e nada podes fazer…» a que se sobrepõe: «Pena, chegou aqui tarde demais …»


PS: recado a meu pai, José …

Boa-noite pai. Estamos aqui. Que os céus (e as drogas) sejam balsâmicos e te deixem dormir sossegado. Ao menos esta noite. Ao menos a outra. Sabes na consulta da dor, a médica põe-te outro cateter, mais medicamento… já falta pouco… tá?


( ele criança, eu mãe, ao lado da minha mãe soluçante mas forte, muito forte)



Um beijo da tua filha,

F.
10/12/05

dezembro 08, 2005

Exames...

E vem com tuas mãos com teu lamento.
E vem com tua dor. Despenteia-
-me assim por dentro
do canto onde tu passas como um vento…

Pátria Expatriada, O Canto e as Armas, Manuel Alegre





De mim não se poderá dizer que seja um grande adepto da avaliação de conhecimentos por meio de exames. Admito a necessidade de apreciação do saber adquirido mas penso que centrá-la toda num único momento é mais lotaria que demonstração de ciência.

No entanto, sendo o sistema de ensino em Portugal baseado em exames nacionais, até que outro surja, há que aceitá-lo e tentar retirar dele o máximo de virtualidades.

Também me parece que os exames de 12º ano serão em demasia e que, de facto, como aparece em proposta ministerial, se poderia ficar pelos exames de disciplinas nucleares. Faria sentido, uma vez que até ao nono ano se dariam as matérias de cultura geral e, no secundário, se começaria a enveredar pelos saberes mais específicos de cada escolha.

Portanto tudo parece levar-me a concordar com as intenções da Ministra da Educação.

Mas a verdade é que não só não concordo, como a acho um tremendíssimo disparate.

Eu explico!

Em primeiro lugar parece-me que o instrumento, por excelência, de recepção e transmissão de saber é a língua pátria. Não haverá desenvolvimento social ou tecnológico se o utensílio base de divulgação não for convenientemente dominado. Infelizmente, como sabemos, mesmo em meio universitário, tal está longe de ser uma realidade no nosso País.

Em segundo lugar a língua faz parte integrante do sentimento de pertença nacional. Uma língua menosprezada representa uma baixa auto-estima nacional. Disso já temos que baste! Não precisamos que este Governo/Ministério venha pôr mais sal na ferida.

Ficamos, no entanto, a pensar por que razão virá alguém propor uma situação tão sem nexo. Pareceria pois que os proponentes ou eram parvos ou se guiavam por razões tão misteriosas e escondidas como, por exemplo, estarem-se nas tintas para os problemas que a medida venha a suscitar desde que - cortando um grande número de examinandos, de correctores de provas, de júris de exame - tal medida redunde num diminuir de custos , coisa sagrada acima de todas os outros considerandos.

Finalmente, em terceiro lugar, bastando ouvir as entrevistas feitas a alunos do secundário, num sistema de exames, disciplina que a eles não venha a ser submetida será matéria a não levar demasiada a sério.

Assim, visivelmente por questões aparentemente de âmbito financeiro, o Ministério está disposto a empenhar um dos garantes da expansão da cultura portuguesa e mesmo do desenvolvimento global do País.

Pedir que uma só medida comportasse tantos malefícios era coisa que eu não me atreveria a pedir a este Governo. Sou obrigado a reconhecer que o subestimei e que aqui ele se ultrapassa no grã talento de mal-fazer.

Só me resta, portanto, dizer-lhe: bem haja benemérito da Nação.

P.S. (não confundir) Lembram-se de Manuel Alegre ter apresentado, no seu programa, nomeadamente através do fortalecimento da CPLP, a dignificação da Língua Portuguesa?

Será que a mesquinhez vai tão longe?

dezembro 05, 2005

Presidente da República - Poderes Constitucionais

Só para recordar, sem pretensões de conhecimentos constitucionais, tendo em vista as confusões que por aí vão quanto ao papel do Presidente da República, penso que haverá algum interesse em respigar alguns elementos na nossa Constituição.

Assim, o “Presidente da República representa a República Portuguesa, garante a independência nacional, a unidade do Estado e o regular funcionamento das instituições democráticas e é, por inerência, Comandante Supremo das Forças Armadas”, sendo elegíveis os eleitores, portugueses de origem, maiores de 35 anos.

Para alguém ser oficialmente candidatos terá que ser proposto por um mínimo de 7.500 eleitores e o máximo de 15.000. As candidaturas serão apresentadas, perante o Tribunal Constitucional, até trinta dias antes da data marcada para a eleição será eleito, na primeira volta,” o candidato que obtiver mais de metade dos votos validamente expressos, não se considerando como tal os votos em branco”.

Não obtendo nenhum dos candidatos a maioria absoluta disputar-se-á, entre os dois candidatos mais votados, uma segunda volta que de correrá ”até ao vigésimo dia subsequente à primeira votação”.

O mandato terá a duração de cinco anos.

As competências do Presidente da Republica são, genericamente, as seguintes:

- Preside ao Conselho de Estado;
- marca as datas dos actos eleitorais;
- convoca extraordinariamente a Assembleia da Republica;
-dirige mensagens às Assembleias da República e Regiões Autónomas;
- dissolve a Assembleia da Republica;
- nomeia o Primeiro-Ministro;
- demite o Governo, ou, por proposta do Primeiro-Ministro, os seus membros;
- exonera o Primeiro-Ministro;
- pode presidir ao Conselho de Ministros a solicitação do Primeiro-Ministro;
- dissolve as Assembleias Legislativas das Regiões Autónomas;
- nomeia e exonera os representantes da República para as Regiões Autónomas;
- nomeia e exonera o Presidente do Tribunal de Contas e o Procurador-Geral da República;
- nomeia cinco membros do Conselho de Estado e dois vogais do Conselho Superior de Magistratura;
- preside ao Conselho Superior de Defesa Nacional;
- nomeia e exonera os chefes de Estado-maior dos vários ramos das Forças Armadas;
- é o Comandante Supremo das Forças Armadas;
- promulga e manda publicar leis, acordos etc.…;
- submete a referendo questões de interesse nacional;
- declara o estado de sítio ou de emergência:
- pronuncia-se sobre todas as emergências graves;
- indulta e comuta penas:
-requer ao Tribunal Constitucional a apreciação preventiva de constitucionalidade, a declaração de inconstitucionalidade;
- confere condecorações;
- nomeia embaixadores e enviados extraordinários;
- ratifica tratados internacionais;
- declara a guerra e faz a paz.


Com o inevitável simplismo aqui deixo o meu contributo para que a discussão sobre poderes e programas dos vários candidatos possa ficar melhor situada e não venha alguém prometer mais do que pode.

dezembro 02, 2005

Carta Aberta do Movimento JÁ

Com a devida vénia damos aqui publicidade à Carta Aberta remetida pelo Movimento JÁ



"NAS TUAS MÃOS COMEÇA A LIBERDADE!"

Somos um grupo de jovens que pretende dar o seu contributo para a caminhada presidencial de Manuel Alegre. Nele vemos um passado de lutas sociais, um passado de resistência. Nele encontramos uma referência política actual, distinta pela frontalidade, pela verticalidade, pelo arrojo.

Candidatar-se à Presidência da República, mesmo sem o apoio de nenhuma máquina partidária, é preferir a Liberdade ao espartilho, o Humanismo ao fatalismo, a Consciência à apatia.

A sua candidatura é uma pedrada no charco, um abanar de consciências e de poderes instituídos, um não ao seguidismo. Vive exclusivamente da iniciativa e participação daqueles que sentiram e aceitaram o desafio por ele lançado, para que, sem preconceitos nem embaraços, se lhe juntassem na defesa de um Portugal social onde os números não valham mais do que as pessoas. É por isso que as mulheres e os homens que dão corpo a esta candidatura não servem outros interesses que não os da mobilização cívica e da participação democrática.

É urgente quebrar com a onda de abstenção entre os jovens, é necessário
estabelecer compromissos que conduzam à construção de uma nova cidadania.

Por isso reclamamos novos projectos, novas lutas, novos incentivos à dinâmica do país. Que ele cresça connosco, com traçados firmes, com novas cores que a todos representem. Portugal depende da ruptura com o cinzentismo e com o marasmo em que hoje nos encontramos.

Na política, como na vida, não devemos ficar à espera de super heróis. Apoiamos Manuel Alegre, cidadão como nós. As suas qualidades humanas, intelectuais e políticas são garantia dum desempenho do cargoao serviço da democracia e de todos os portugueses, que tanto a desejam fortalecida e regenerada.

Ser jovem é ser futuro, mas também reivindicar o presente. Por isso nos juntámos a esta candidatura. Por isso queremos ajudar na sua construção. Por isso apoiamos Manuel Alegre!

Os Subscritores

dezembro 01, 2005

O Bife (conto)

….Porque o mais
é já sombra de sombra e o breve traço
de quem passamos para nunca mais


Quem somos nós, O Canto e as Armas, Manuel Alegre













Quis-me o autor católico e tímido. Por esses factos, aqui estou, hoje como sempre, sentado na terceira mesa da Segunda fila desta esplanada, olhando o pipilar da fonte e os miúdos desnudados, em banhos mais de sol que na contida água.

Serei, também, no decorrer do conto, o quanto baste de ingénuo e sonhador. Adequa-se-me a ingenuidade porque, com ela, poderei correr certos riscos e aceitar alguns jogos que de outro modo poderiam passar por estultícia. Calha-me o sonhador por comple­mento desse atributo. Quem se navega pelos fumos da lógica dos sonhos e os antepõe ao que a maioria denomina de real, terá toda a conveniência na estruturação de um universo à medida do romântico, que se pretende herói e não consegue, no seu ser, força bastante.

Volto à água. Tomba, por enquanto, entre salpicos de relva. Logo mais, quando a noite quase de surpresa chegar, as luzes do lago acender-se-ão e tornarão mais distantes e imprecisas as árvores do outro lado. Equidistantes do meu ponto de observação ficam as duas esquinas, estas sem nenhumas árvores. Só casas, em esses breves prenúncios de floresta que resistem no largo, do outro lado. Aquele onde nunca estou.

Nas casas das esquinas habitam pessoas e sei de histórias de outras que gostariam de habitar em casas e não o podem fazer. Mas isso são outros contos e, neste, o autor não me deixa entrar por esses caminhos. Aliás, como se sabe, é de boa norma delimitar os assuntos e esta é uma narrativa mais ou menos romântica pelo que não deverá perder-se em desinteressantes críticas sociais.

Retomemos o rumo certo. A poucos metros, do meu lado direito, fica a Primeira Esquina. Ao centro, comigo dentro, está a esplanada. Alguns metros para além do meu braço esquerdo, queda-se a Segunda Esquina.

Para além das esquinas nada conheço. Todos quantos as ultrapassam saem do meu ângulo de visão e deixam de ter história. Inexistem. Quem vem da Primeira Esquina aparece sem aviso. A sua presença é impensável até que dobre a esquina e se corporize no súbito de um bico de pé, num passo inacabado obrigando a presumir o anterior, numa sequência posterior de outros que se dirigem ao presente do café, ou na inexistência, por dobragem da outra esquina. Tudo isto resumindo-se num nada de corpo, numa existência precária, mais movimento ou fulguração que realidade.

Eu, estou aqui à espera. No meu estar existe certamente um objectivo, uma necessidade. Aguardo que ela dobre a Primeira Esquina, surja a emoção e se cumpra o determinado.

Por isso aqui me encontro, instalado no Verão, sentado na terceira mesa da segunda fila da esplanada.

Pelo ardor do corpo e pelo amarfanhado da pele suponho ter voltado da praia. Saboreio um imperial que poderia ter sido mais bem tirada se estivesse colocado na cervejaria. Mas a cervejaria fica lá mais em cima, a meio da avenida, enorme e plana, estendida sem surpresas e sem possibilidade de duas esquinas suficientemente distanciadas para permitir o espaço do cenário e suficientemente próximas para a passagem dela poder ser o campo entre a esperança e aquilo que não sendo desespero nem frustração, fica no magoado da alma como música melancólica.

Não me desagrada, na verdade, ter vindo da praia. Se me fosse possível passaria a maior parte do meu tempo nessa fusão de sal e luz. Que tardes! Quando o saboroso cansaço nos leva a rumar para casa na busca do duche, deixar a salmoura e, antes que o sol se ponha, correr para a esplanada, procurar a mesa conveniente, sentar-me e, beberricando a cerveja, esperar, sem falta, a partir da Primeira Esquina, pedaço a pedaço, o cumprimento da promessa da sua presença.

Aparecerá, primeiro, uma das suas pernas, seguida de um braço. Depois a saia leve tendida pelo passo e pela brisa. Num repente solar surgirá de corpo inteiro. As mãos, os cabelos, o peito num balanço cálido de ondas dentro de ondas.

Muitas vezes pergunto-me o que será ela para além da esquina. Que fará na vida fora deste caminho onde cruza o meu olhar? Como nada sei espero o seu avanço até à esplanada e tento adivinhar. Por momentos parece-me saber tudo e desejo que venha sentar-se à minha mesa. Reparo depois que nem sequer sei o seu nome, embora lhe adivinhe os passos e saiba que nunca, por si só, virá sentar-se aqui. Talvez nem sequer pare no café para tomar uma bebida ou fazer um telefonema. Seguir sempre em frente, até à Segunda Esquina, parece ser, imperiosamente, o seu destino.

Enquanto os seus passos a afastam tento confortar as esperanças caídas. Pergunto-me quantas vezes esperaste por ela e a viste passar, sem um desvio, por pequeno que fosse, entre uma esquina e outra? Esperavas, insensato, que ela viesse ter contigo e sem mais começasse a falar dizendo-te todas as palavras que tu calas? Grande besta sou! Porque raio deveria tal coisa acontecer? Sou católico, mas não espero milagres. Olho para mim e desconforta-me o que vejo. Como esperar então que ela possa ter alguma vez sequer reparado em mim. Ela nem me conhece e não sou tão irresistível que possa tornar-me notado aos olhos de qualquer mulher, apenas por me ter entreolhado. Sou uma boa anedota. Isso é que sou!

Além disto, basta olhá-la para sentir a diferença. É perfeita! Nela nada há de destoante. É, verdadeira e meteoricamente, perfeita. O caminho que percorre, só porque o trilha, é mais altar que percurso. Como pensar compartilhar o meu espaço com ela? Tão anódino que sou! Insensatez, meu caro, insensatez. Querias, se calhar, a estrela polar fora da sua rota, mortinha por se instalar ao teu lado!? Não é a mesma coisa? Ai não, não é!! Estás tolinho se não percebes. Então a estrela polar não passa também‚ todos os dias, entre dois limites? Sensivelmente à mesma hora e no mesmo local? E não é bela? E não é presente e inacessível? Os olhos não a seguem, porventura desejando-a? A outra é uma mulher!? Isso que tem? Não são ambas criaturas e igualmente perfeitas?

Peço o impossível? Não é esse, porventura, o meu direito? O que está à mão? Qual o merecimento?...

Voos.. Voos inconsequentes é o que fazes. Estás para aí com toda essa filosofia e nem sequer consegues convidá-la para a tua mesa. Aproveita agora. Daqui a pouco ultrapassará a tua mesa e atingirá a Segunda Esquina. Força. Um pouco mais e perderás a tua oportunidade. Mais acção. Menos filosofia.

Isso queria eu. Ter força para que ela fique. Para que o meu desejo fosse o dela. Pois é! Mas eu sou tímido. Nem me serão permitidas certas actuações. Por exemplo, neste momento, apesar da minha vontade e turbação, devo verificar se algum dos circundantes se apercebeu das minhas intenções; se os meus pensamentos se tornaram visíveis, se tomaram voz e gritaram, subitamente, o meu amor, na praça.

Olho em volta. Tudo continua como se não tivesse havido tempo. O meu vizinho mais próximo que, quando ela apareceu, começara a levar o copo aos lábios, nem sequer terminou o movimento. Toma agora o primeiro trago. Ela dá outro passo. Na praça o meu olhar é uma súplica. Eu, um desassossego.

Antes que outro passo se inicie e o bebedor desça, leve e lento, o copo sobre a mesa, procuro em mim aqueles olhos interiores de tudo sentir e perceber. Os mais completos e clarividentes olhos que ninguém reconhece fora de si e em si ninguém contesta. Iluminado por eles volto-me na direcção da Primeira Esquina. Preocupo-me. Se os fechar continuará a haver esquina? Se os fechar continuará a existir o que não sei se existe, do outro lado da esquina? Se os fechar é possível que a esquina desapareça ou não mas quem garante que essa anulação a não arrastará a ela também?

De olhos bem abertos sei que nada sabendo dela terei de continuar, até tudo acontecer, aqui sentado, entre duas esquinas, à espera, no, concedo, aprazível local onde situaram a esplanada, desconcertado por me sentir pedaço de coisa nenhuma, títere de um ciclo de existência onde, um dia, acredito, ela terá que vir sentar-se na minha mesa.

Se me fosse permitido resolveria este caso rapidamente. Faria com que ela, finalmente, reparasse em mim. Que me olhasse e, nesse olhar, ficasse a saber da minha longa e repetida espera, suspendendo, só por isso a progressão para a Segunda Esquina. Eu avançaria para ela de molde a tolher-lhe o passo. Contar-lhe-ia a minha espera e um sorriso de compreensão posar-lhe-ia nos lábios. Ver-lhe-ia despontar a emoção por se saber aguardada e despertar-lhe-ia a reflexão sobre o inexorável de todos os dias passar, à mesma hora, de semelhante modo, no mesmo local, entre duas esquinas, perdendo-se sempre um pouco mais de outro lado, sem a certeza de que no dia seguinte a catástrofe não acontecesse e a Primeira Esquina se toldasse pela sua ausência.

Por mim sei. Estarei aqui todos os amanhãs deste Verão esperando o seu aparecimento. Dia após dia verei morrer o sol incapaz de a chamar, incapaz de deixar de esperar. Continuarei parado tentando perceber o seu mistério. Além da esquina há possibilidades que me angustiam e a desconfiança de que tudo seja possível e tudo isto tenha um sentido, possua uma coerência. Porque eu sei. Estarei aqui, cada dia mais bronzeado, bebendo a minha cerveja, convicto que, lá mais acima, na cervejaria, seria melhor tirada, mas, compreendendo que só neste lugar cumpro o meu papel e me será possível vê-la passar indiferente e significativa.

Como antevia foi o Verão passando. O Sol declinava. Ela aparecia na Primeira Esquina. Eu esperava que os seus passos a conduzissem até mim. Ela passava ignorando-me. Eu, desesperado, ansiava o novo dia para que, declinando o Sol ela de novo aparecesse e eu continuasse a aguardar...

Um dia ela apareceu. Na Esquina. Na Primeira. Trazia qualquer coisa de novo. Seria o ângulo do avanço ou uma subtil transparência de intenções reflectidas na biqueira do sapato? Não sei. Apenas me foi perceptível, de golpe, a diferença. O dia de hoje não seria como nenhum outro. Era este o dia total, por excelência.. Sobressaltei-me. Algo vai acontecer e não estou preparado. Não sei o que é nem se o desejo. É certo. A minha mansa rebelião tem ensombrado o desempenho do papel que me foi atribuído. É certo. Por vezes sonhei-me outro e quis-me diferente. Mas, por acaso não me esforcei? Não me adaptei e tentei cumprir como quiseram que cumprisse? Não me mantive pacientemente sentado, todo o Verão, nesta esplanada, sempre ao fim da tarde? Esperando sempre a mulher que nunca abordarei e me destinaram que aguardasse?

Neste momento limite todas as questões são igualmente irrespondíveis. Não há tempo nem vontade. Porque pela última vez ela irá iluminar esta última tarde. Sei que, majestosa, inflectirá a costumada marcha no sentido do café. Inicialmente indecisa avançará depois, seguida de olhares e de mim, para o interior. Sei ainda que, agora que posso queimar-me no fogo do seu sol, a tão desejada, a eternamente aguardada, a suma, a inatingível se sentará ao balcão do bar e, ai de mim, com estes ouvidos onde ainda ressoam os roçagares do seu hálito na atmosfera, a irei ouvir, naquela voz que se adivinha de pétalas, pedir ao empregado:


- Dê-me um bife... em SANGUE, se faz favor

novembro 25, 2005

Pensar...

Por isso me dói o que tenho para contar e não porei mais do que vi e do que ouvi, ainda que para o bem falar seja maior a ignorância que sageza.

Rafael, Manuel Alegre






Talvez porque as últimas sondagens continuem a não ser muito simpáticas para o Pai Fundador, parece notar-se, nas suas últimas declarações, um especial ênfase no ataque a Manuel Alegre.

Provavelmente percebeu, ou lhes disseram os seus directores de campanha, que o estilo agressivo utilizado contra Cavaco Silva, não estaria a dar muitos resultados e que o melhor era virar as baterias contra o trânsfuga da família, o qual com a consabida falta de respeito, que lhe é peculiar, não acatou os ditames do aparelho partidário, exigindo o reconhecimentos dos seus direitos constitucionais, não acusa nenhum competidor só pelo facto de o ser e se atreve a umas eleições confiando apenas nos seus apoiantes e na possibilidade destes, no seu desejo de renovação, virem a superar o inicial défice aparelhístico desta candidatura.

Ora isto é sobremodo perigoso. Se as pessoas se põem a pensar e descobrem que muito do poder de mudança social está nas suas mãos, variadas e mui interessantes criaturas, enxameadoras dos centros de poder e locais afins, teriam imensas probabilidades de:

a) iniciar a estimulante leitura das páginas de anúncios da imprensa em busca de ocupação compatível;


b) sentar-se, frente ao computador, para num extenuante exercício de imaginação construir um curriculum, minimamente aceitável e credível, que interessasse, pela sua leitura, ao menos a um Gestor de Recursos Humanos que o não remetesse, directa e imediatamente, para a “Sexta Secção”.

b) perceberem, então, que o desemprego existe, é dramático e não é só uma figura de retórica ou uma estatística utilizável em relatórios, comícios ou telejornais, com fins detestavelmente demagógicos.

A estes abencerragens não é conveniente que se recomece a pensar e a sair fora das extremas permitidas. Com as devidas diferenças lembra-me algo que escrevi no tempo da outra senhora e que não resisto a recordar aqui:


uma hora de lazer
sem nada para fazer
é um caso sério

obriga-me a pensar

e pensar é tão perigoso
como matar um ministro
ou ser anarquista

é ultrapassar
a forma prevista
de me comportar

o melhor é pensar em não pensar

Tenho dito.





novembro 20, 2005

A minha mulher anda cinzentinha (3)

Após o meu pobre diagnóstico e a solidariedade demontrada no texto anterior, a minha mulher decidiu falar do seu cinzento. São suas as palavras que se seguem:



" Nestes dias de cinza em que de meu estado me acho incerta.


Sabias que os dias são novelos de cinza insidiosamente entretecidos?

A contraluz, a trama vai prosseguindo silenciosa e de nada te apercebes. Porém, a urdidura está pronta e, só então, constatas que o branco, antes luminoso, desponta mais escuro! Distraídas, as mãos colhem esse cinza. As mãos! Não tu, que tens os olhos presos à cor que, insidiosa, integrou a paleta dos teus dias. Vê-la-ás com nitidez até lhe sentires o peso.

Então, as mãos dir-te-ão que soçobras.

Então, curvarás o rosto para o peito meditativo.
Então, de olhos toldados, procurarás pesar o cinza que te habita, se medida houver para a insustentabilidade.
Se a não tiveres, subirás ao pino do dia, buscarás a inclemência da luz e, ao ponto máximo do branco, colarás as mãos plenas de mágoa. Esperarás.

O tempo forja o tempo. É na paciência que se tece a espessura da cor. Atenta e silenciosa, esperarás. Só assim sentirás o corpo vergar-se. Quando a dor te envolver, o peso do cinza ser-te-á entregue. Toma-o e desce ao passeio que corre ao lado do mar. Que estará não verde – como gostas – mas branco cinza com pinceladas de azul teimoso. Não te prendas ao azul. Guarda os olhos para o branco. Não o alvo! o sujo, o que irás sentir nas mãos, o que se empurrará para o centro de ti.

Dizia-te eu que o cinza é feito de novelos. Lembro-to porque recusas o branco sujo em que te moves. Lembro-to, neste instante, em que trémula te inebrias de azul. É certo que a atenção te foge pois, embora o recuses, já te sentes presa ao casulo cinzento, qual marioneta puxada pela cor. Mas, atenta naquilo que sabes: o azul não é o teu destino.

Também te falei do tempo espesso. Desse que é a massa física do cinza.
Sabes que o deves ver, e sabes mais, que só o peso que te esmaga te trará a vidência. Então, penetrarás na cor de que foges. Olharás o mar vazio - nele não estão as alucinadas notas de azul nem o verde de Chagall, há pouco sonhado.. –, e cega, de pernas recusando-te firmeza, colherás uma a uma todas as gotas de cinza do oceano imenso. Colocá-las-ás no teu regaço. Depois, deitada na praia fecharás os olhos. Sei que temes nunca mais ver o azul e que procuras uma nota dele no recôndito de ti. É tarde. Já te integraste na trama perfeita do cinza. Esta sapiência não é absoluta, nem definitiva posto que ainda sonhas ondas suaves e azuis, bordadas de branco. É certo que este intervalo pouco durará. Daqui a um minuto, abrirás os olhos.

Decidida! Curvada! Fixarás novamente o aço marinho. Descerás um pouco. E na linha em que tu e a água se tocam, permanecerás. Abrirás as mãos em concha até que molhadas pesem todo o cinza que neste mar existe. Erguerás as mãos e beberás o aço desta água acre e insustentável. Podes com segurança pesá-lo. Em ti está. Inspira e sente-o na marcha, a que o corpo e a mente se recusam.

Andarás pela curva da enseada, sentindo os passos sepultarem-se na areia. Ficarás prisioneira do teu cinzento sofrimento. E, nesse exacto instante, tendo consciência da inutilidade das asas («asas que um anjo levou» - ah, o eco de Garrett chegando), rasando a terra molhada, verás erguer-se diante de ti a beleza estonteante e inalcançável do azul. E a dor galopante dos dias de hoje invadir-te-á!"
Fernanda R. Afonso

A minha mulher anda cinzentinha (2)

A propósito do Post com este título, aqui publicado, recebi um comentário que, por adequado e interessante, passo a publicar:

"Caro Carlos,aqui está alguém que sofre do mesmo mal que a sua mulher.Até já entrei em depressão com tanta injustiça para quem, durante trinta anos investiu esforços, tempo, dinheiro, sonhos, esperanças ... eu sei lá! Era e ainda sou uma boa profissional. Mas eles não merecem! Estou completamente desmoralizada!Puseram o país de pé descalço, gastaram «à grande e à francesa», e agora mandam-nos pagar a nós. E para desviar a atenção da sua incompetência total e descarada, lançam o olhar da opinião pública sobre nós. É certo que algumas coisas estão mal,como em todas as profissões também existem entre nós maus profissionais. Mas quem já nasceu torto nunca se endireita!Não é deste modo que vão conseguir um melhor ensino. Aliás esta reforma, mascarada de modernidade e eficiência, não tem esses objectivos. As pessoas que a teceram não sabem o que é a prática pedagógica nas escolas, a realidade. Tenho em casa um escritório bem apetrechado: boa biblioteca e tecnologia. Que fico a fazer na escola, onde não tenho nada disto? A olhar para as paredes? A tagarelar com os colegas? Ai meu Deus, estava tão bem em casa a produzir... que tempo precioso desperdiçado! Nunca mais me vou poder dedicar e preparar aulas como fazia, porque na escola não tenho os meios.É uma vergonha o que se está a passar. E a Casa Pia? Já ninguém fala. Não há culpados! E as férias judiciais. Fizeram greve e já todos se calaram! E nós? E nós? Nós é que estamos a pagar por todos. Até um dia... até um dia... Olhem para Paris. Quem sabe Lisboa não segue o exemplo qualquer dia. Tenhamos esperança, porque esta ainda não morreu. As melhoras para a sua mulher."
Antonieta
Dom Nov 20, 12:52:07 AM CET