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maio 10, 2007

Helena Roseta

Apenas umas breves palavras para saudar a coragem, mais uma vez demonstrada, a visão política e a entrega total a causas, desta mulher a que ninguém consegue ficar indiferente.

Não sou de Lisboa, não voto em Lisboa - e hoje tenho pena - mas o meu apoio vai desde já para esta candidatura. Este blogue, independente por natureza e escolha, tomará, sempre que necessário, as cores da bandeira que Helena Roseta ergueu por Lisboa.

Independência, capacidade, inteligência. sensibilidade e intuição.

Com Helena Roseta é Lisboa que ganha.

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maio 06, 2007

Tertúlia Oficina da Palavra - 3



Dois belos quadros de Kira, de colecções particulares, expostos na sala da Tertúlia

Foto: Carolina André

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Tertúlia Oficina da Palavra - 2


Vista parcial da sala. Ao fundo,em pé, Sousa Pereira, Director do Jornal Rosto On-line, usando a palavra.

Foto: Carolina André

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Tertúlia Oficina da Palavra - 1



Vista Geral da Mesa - da direita para a esquerda: Camarro, Kira, Olga Mano, Fernanda Afonso, Rosa Guerreiro e Artílio Baptista.

Foto: Carolina André

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maio 05, 2007

Levanta-te Liberdade! ou a Oficina da Palavra

Fui convidado ontem para uma tertúlia, na Escola Secundária de Stº André, designada por “O Barreiro na palavra dos artistas”.

Numa sala bem composta de público e decoração leve e notavelmente requintada para os meios financeiros que sabemos as escolas disporem para tais actividades, decorreu uma memorável sessão de convívio intergeracional que, como viria a dizer Sousa Pereira, Director do Jornal On-Line Rostos, nos fazia sentir que o “Barreiro respira”.

Na mesa, moderada pela Dr.ª Fernanda R. Afonso, tomaram lugar D. Olga Costa Mano, antiga funcionária na biblioteca desta cidade; D. Rosa Guerreiro, em representação do pai José Vicente, poeta popular já falecido; o Dr. Artílio Baptista, dinamizador e professor da Universidade da Terceira Idade e os artistas plásticos Kira e Camarro. A organização da tertúlia coube a um grupo de professoras da Secundária de Stº André, formado pela moderadora e pelas doutoras Carolina André, Fátima Correia, Maria Manuel Dias e Liliete Parada Monteiro.

Este grupo é dinamizador de um fórum designado por Oficina da Palavra que nos últimos anos tem desenvolvido, com os seus alunos, actividades muito interessantes nos campos do debate, da escrita e do teatro, interessando e abrindo perspectivas aos jovens às quais, de outra forma, provavelmente, poucos teriam acesso ou para tal teriam alguma vez sido despertados. No entanto, segundo sei, na contagem para o concurso para professores titulares são actividades consideradas sem qualquer peso ou relevância.

Malhas que o Ministério tece…!


Voltemos à tertúlia onde a palavra foi redonda e circulou da mesa para a assistência e da assistência para a mesa, criando uma densidade humana fascinante, indo das memórias anedóticas às trágicas, da rememoração individual à inesperada poética, construindo um inolvidável serão que apenas pecou por não se puder estender mais no tempo. E pecará se não voltar a reorganizar-se, proporcionando a todos o vivenciar de factos e costumes, alguns ainda vivos outros só história, que refundaram a contemporaneidade desta terra onde habitamos e que no dizer do Kira “é melhor madrasta que mãe”.

Alunos da Drª Alzira Nobre recitaram poemas de alguns poetas presentes e ausentes. Dentre eles apraz-me ressaltar o poema “Querem saber? Eu conto“ do meu amigo Monginho, que, mais uma vez, viajou para outra cidade, deixando saudades da sua presença e palavras: Eis o seu poema que me autorizo a transcrever:


Antigamente eu ouvia as sirenes
Das fábricas de cortiça e os meus gestos de esperança
Despedaçavam-se contra as cortinas da minha impotência

Mais tarde deambulei por lojas
E escritórios com uma panóplia
De sonhos na algibeira

Hoje sou um funcionário que só
Funciona por fora. A rotina é
Uma excrescência de que intento
Despojar-me

Sou cada vez mais pescador de
pérolas por haver

Deixo aos outros as cinzas dos
Braseiros

Que não me fujam as rosas!




Termino esta minha já longa parlenda com uma das história que gostaria de ter contado na tertúlia e que não contei por falta de tempo; tem a ver com o nosso já falecido Mestre Cabanas.

Fazia ele, salvo erro 72 anos e, na cave de uma sociedade recreativa de que já não me recordo o nome, um alargado grupo de amigos festejava o seu aniversário. Como é normal ele tomava a cabeceira da mesa. Ao seu lado direito sentava-se, a sua afilhada, uma rapariguita com uns 10 anos de idade a que ele pusera pusera o belo nome de Liberdade.

Jantar adiantado, discursos e brindes em curso, fomos avisados de que a Guarda Nacional Republicana tinha cercado a colectividade. Num arroubo oratório como só Mestre Cabanas era capaz, improvisou um discurso brilhante sobre a opressão e o fascismo, terminando, ostentoreamente, dizendo:


Mesmo que os esbirros dos fascismos nos cerquem e tentem calar-nos, nunca nos calaremos, e, olhando para a pequena, ordena:

Levanta-te, Liberdade!

Foi o que ontem nos disse, na Tertúlia, a Oficina da Palavra.



Publicado in “Rostos on line” – http://rostos.pt/

maio 03, 2007

K I R A - BARREIRO: UM POEMA DA "MECINHA"

K I R A - BARREIRO: UM POEMA DA "MECINHA"

Vejam o espantoso azulejo com que o Kira ilustrou este poema da "Mecinha".
Para saberem qualquer coisa sobre a "Mecinha" acompanhem os comentários no Blogue do Kira.

abril 30, 2007

elogio dos estúpidos (poema)

I

vejo-os passar no seu ar alheado
parecem-me felizes

meus olhos longos e doces de trabalhar mágoas
recordam paisagens onde habitava a tua companhia

era nesse tempo suficiente e completo
tomava por verdade o que os olhos vêem
e a razão do momento pelo momento da razão

II

como é pesada a vida quando tudo é desconhecido
e nada do que temos é suficiente
e as saudades nos assaltam até às lágrimas
ficando agarrados à possível dignidade
noção vaga inoportuna irreal indemonstrável mas
de tal forma necessária que nos desgarra em contínuas escolhas

atacados da mansa loucura da solidão
procuramos o rosto amigo o peito amante
que venha reaquecer o nosso sol

ninguém entende quanto estamos sós
ninguém entende como esta injustiça universal
cai sobre o fogo sagrado que ardendo em nós
nos faz maiores mais vulneráveis solitários e nocturnos

III

há nesta obsessão da noite neste sentimento de falta
um resto de desejo da tua presença que não quero

tudo está de rastos

terramoto interior que nada poupou
deixou-me sobrevivente de mim
violento e teimoso de pé sobre os
escombros a reconstruir

por isso escrevo para ti estas palavras que não lerás
compor-te-ei ainda versos e não serão teus
habitar-te-ei das minhas palavras fazendo-te bela e
amante como nunca conseguiste e forte da força que não possuis

no entanto tudo isto é insubstancial
a tua imagem descrita nunca
poderá ser molhada pela chuva de outono
ou beijada nas horas em que o fogo anima o coração

dentro de mim é que serás real e estrangeira
dentro de mim continuarei a procurar-te e a banir-te
por plainos longos e monótonos onde apenas
um estático ribeiro chora


IV

o que dizer mais de mim
coração magoado que espera

ó céus que coisa grande é a dor que conseguimos
que pena tenho de nós
não só de mim que sou náufrago
mas também de quem afundou o meu navio

é que tu canhoneira dos meus hábitos
és algoz e vítima deste jogo cósmico que ninguém criou
mas onde todos somos à uma caça e caçador
e nada nos é poupado e a nada somos estranhos

V

é isso sou um erro crasso
apareci na vida pela porta errada
compareci no mundo quando não era a minha vez

p'ró raio que as parta as filosofias requintadas
quero ser estúpido e viver o dia-a-dia cumprindo
a leve obrigação de estar vivo somente porque como
ou ejaculo

quem me dera que eu fosse estúpido
e conhecesse a vida através dos programas de televisão
e pudesse ser feliz por ser o melhor dançarino da "boite"
estar bem visto no emprego
cumprir ordens sem as discutir
ter uma mulher certa matronal estúpida
distantemente carinhosa e de horizontes limitados
à ancestralidade da família

quem me dera puder ser feliz assim

ser o perfeito pai de família dominador
circunspecto que ao domingo sai apascentando as filhas
que ocupa os sábados a dar lustro ao carro
e que tem encontros clandestinos com uma colega
e pensam por isso ter descoberto os limites da aventura
a fronteira onde os homens assumem a divindade
e acabam molhados e langorosos numa ressaca de remorsos
citadina e poluída dizendo foi tão bom e mentindo
por dentro como se mente por fora ímpios enganadores
da morte com máscaras de cartão

quem me dera ser tudo isto que não sou

VI

em vez disso procuro conhecer
as razões de sentir tudo íntima e analiticamente
para com este conhecimento fazer
coisa nenhuma

por isso a mim tudo me dói mais tudo tem a crueza de ser aquilo que é
e não haver razões nem desculpas para ser outra coisa

sim eu que não enjeito culpas
nem atiro às costas do destino
as causas dos meus efeitos
sei que seria mais feliz sendo estúpido

por isso é tão urgente fazer o elogio dos cretinos
daqueles a quem todas as coisas passam mais ao lado
ou reagem instintivamente com violência ou crueldade
e ficam limpos e nada lhes acerta com jeito de ficar
porque se estão nas tintas para todas as culturas
vivendo tão naturalmente como uma glândula
segrega os seu humores

VII

após este elogio aos estúpidos
descarreguei a minha bílis contra
esta ocasião de vida

sinto-me mais aliviado
um pouco mais reconciliado
quase agradecido à pequenez da memória
e à doçura das ondas contornando a praia

mas faço um esforço de vontade
quebro o adormecimento que me embala
e a realidade esmurra-me nas ventas

porque na verdade estou fundamentalmente só
porque na verdade me sinto defraudado
e a vida que eu vivo não é melhor que a dos estúpidos
e aquilo que eu sinto não justifica coisa nenhuma
e o esquecimento que procuro é igual ao de toda a gente

por isso num pôr-de-sol repleto de cansaços
acabo o poema deixo cair os braços

abril 27, 2007

lúdica e débil a flauta (poema)

I

confusos iniciais
dentro navegámos

a sombra cingia-se de marcas
repentes de barco
na fantástica pátria
das viúvas

pelos caminhos
estremunhado
um filamento
incandescia

II

e os títeres
também por dentro

mas
das fugas

não sei se sabem
dos títeres
lenta marcha
de harpas agitando
nortadas

viradas ao frio
de fora

quando tudo vinha
do fundo da orquestra
com olhos espantados
de fronteiras


III

sim mas os barcos
foram apartados
um tempo além
do permitido

apertados em ventos
em velas
grafia de mundo
no agora externo

olhem para nós

IV

das longarinas
gastámos-lhes as faces

mesmo ao canto do sorriso no comprimento do mundo
a vida dói

qual o sentido
de permanência

que nos corrói

abril 24, 2007

K I R A - BARREIRO: KEM DIRIA !

K I R A - BARREIRO: KEM DIRIA !

Para além de a minha vaidade ter ficado basto satisfeta com a transcrição do "Que Alexandre não me tape o Sol", ( obrigado Kira) vejam os comentários interessantes e cifrados a que o mesmo deu aso.

É só clicar e é remetido para o mundo esotérico e louco da CAEM -Coorporação dos Amigos de Elogio Mútuo !!!

abril 22, 2007

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Os meus quadros do Kira (2) - Silêncio Mordido



O meu segundo quadro do Kira, não é um quadro mas a capa do meu primeiro livro. Para falar dele vou recuperar um texto, publicado no ano passado e que explica racional e emocionalmente o grafismo e as cores fortes que tornam esta capa uma evocação magoada de gentes e tempos, não muito remotos, mas que começam a ser perigosamente esquecido.


NÃO TE ESQUECEREI NUNCA


Farão 33 anos, no próximo dia 25 de Abril, que no meio dos acontecimentos que revolucionaram o País, saiu, discreto, para a luz do dia um pequeno livro de poesia com o nome de Silêncio Mordido.

Foi o meu primeiro livro editado e, no dia da sua saída, ficou por completo abandonado, mesmo por mim, porque aquilo que este livro denunciava e atacava, acabara de ruir sem honra nem glória.

Com o avassalar de acontecimentos quer o lançamento, quer a distribuição do livrinho ficaram muito comprometidos e se despercebido nasceu, despercebido continuou até que um dia, passados muitos anos, um amigo me disse, meio envergonhado, que numa banca de alfarrabista, no Parque Mayer, estavam, a preços da chuva, alguns quilos do meu Silêncio Mordido.

Corri ao alfarrabista e por tuta-e-meia comprei as centenas de exemplares à venda.

E aí lhe fiz correr o destino entregando-o a leitores seleccionados, que sabiam muito sobre as suas circunstâncias.

Explico.

O livro trás a seguinte dedicatória:

“À memória de MANUEL JOÃO

Alentejano. Mineiro em S. Domingos ceifeiro em Baleizão. No dia 7 de Abril morreu. Na linha de Cascais, sob um comboio. NÃO FALOU. “

O Manuel João tinha mais de cinquenta anos nessa altura e estava quebrado pela dureza da vida e pela prisão política. Tinha os cabelos fartos e brancos e uma voz de quem pede desculpa. No entanto espantava tanto por tantas coisas que um dia, um administrador da empresa onde ambos trabalhávamos comentava comigo em jeito de admiração: Sabe que o Manuel João lê o Alves Redol??!! Um contínuo a ler…!!!

Sabia e sabia muito mais. Que dava apoio e guarida em casa a gente perseguida pela PIDE e que, na Sexta-Feira ante da sua morte, ao findar do dia, me revelou uma sua grande preocupação. Tinha sido levado uns dias antes à PIDE. Tinham-no interrogado brevemente e, coisa admirável, deixaram-no sair sem muitos problemas. Do seu saber arcano isto tinha-o feito desconfiar muito e percebeu que continuava a ser seguido. A preocupação que me confiou foi: - Estou velho, tenho medo de já não aguentar o interrogatório e de vir a dizer coisas que não devo.

Confortei-o conforme me foi possível mas com pouco êxito. O Manuel João lá se foi a caminho de casa e do fim-de-semana.

Nunca mais o vi.

Disse-me posteriormente o irmão que pela manhã desse sábado, na estação ferroviária de S. Domingos de Rana, esperava o comboio, perto da mulher, quando se apercebeu que a PIDE o ia prender.

Beijou-a e disse-lhe qualquer coisa como isto – Eu não falo. Adeus!

Atirou-se para baixo da composição, que passava no momento, mordendo, para sempre, os seus segredos.


abril 17, 2007

QUE ALEXANDRE NÃO ME TAPE O SOL

Não há ainda muitos dias, tomando consciência de quantos quadros do Kira tinha em casa e de como alguns marcavam pontos importantes da minha vida, decidi iniciar no meu blogue, uns “posts” aliados a cada um desses quadros. Quando publiquei o primeiro (e por enquanto único) informei o Kira do facto e, no seu jeito irónico e corrosivo, ligando o blogue às publicações que, o mais regularmente possível, venho a fazer no Rostos, insinuou, primeiro que estaria a publicitar-me para candidato a Presidente da Câmara, mais tarde, emendando a mão, vendo a pobreza do que me destinava, lá se dignou considerar-me como previsível candidato a Primeiro-ministro.

Já não era mau de todo!

Mesmo assim, fiquei desiludido. Sempre pensei que, por um lado ele me estimasse mais, por outro me considerasse um ser tão excepcional – como, aliás, eu me considero a mim próprio e vá lá, também a ele – e me futurasse uma Presidência da Europa ou quiçá um Secretariado-Geral da ONU.

Isso é que me vinha a calhar e a ele também porque, sem nepotismo nem favoritismo ou qualquer grau de corrupção (!?), sempre lhe arranjaria um empregosito melhor. Então, é para isso que são os amigos, pois não é?

Visto que ele não me propõe para os cargos que o meu alto desígnio aponta e, sobretudo mereceria, venho proclamar, alto e bom som, que não estou disponível para nenhuma outra posição, ainda que digna e de relevo, em qualquer quadro político local, nacional ou internacional.

Postas as vírgulas nos sítios, avancemos para uma explicação, sumaria e anedoticamente antropológica, das razões em que me fundo para negar-me a tais e tantos aliciantes cargos de poder.

Correndo o risco de vir a ser exautorado e quem sabe mesmo apedrejado na via pública, afirmo que o poder não me interessa, porque, se existindo realmente não é uma mentira, tem razões de ser incontornáveis e faz sentir muito bem o seu peso sobre os viventes, já a sua génese assenta sobre uma fraude social que se vai repercutindo e estilizando aos longo dos tempos e conforme as sociedades crescem e se sofisticam.

Perante as vossas bocas abertas de espanto e o escandalizado ar que ostentam pela enormidade que do teclado me saiu vou tentar credibilizar a minha tese.

Supúnhamos que num tempo tão remoto que não havia história nem chefias, num determinado grupo humano, onde todos eram tão iguais quanto as diferenças pessoais o permitem, um individuo se destacava do grupo por ser quem mais caça conseguia apanhar. Olhando os mais altos interesses desse grupo, uma noite, reunidos à volta da fogueira, alguém sugeriu que o exímio caçador fosse dispensado de todos os outros trabalhos socialmente importantes para se dedicar só e apenas ao acto de caçar.

Sábia decisão. Sendo a vida difícil e frágil perante os perigos dos animais e da fome, estes caçadores recolectores, assegurando o trabalho exclusivo daquele perito, evitavam riscos de ferimento ou morte nos restantes e conseguiam a RMG (refeição mínima garantida).

Espanto da inteligência e racionalidade de que o homem é capaz.

Só que, o raio da vida tem destas coisas, o nosso caçador, gostou tanto do tratamento diferenciado que este estatuto lhe concedia, que já não lhe passava pela cabeça voltar às lides normais do grupo. No entanto, por envelhecimento ou falta de sorte, algumas caçadas começaram a ser menos produtivas e a escassez – que é má conselheira – levou a que algumas vozes dissonantes e isoladas pusessem em dúvida a bondade da solução até aí adoptada. Sentido este estado de alma o nosso caçador puxou do raciocínio e dando a volta ao bestunto, magicou que se conseguisse trazer para o seu lado os dois manos mais fortes do povoado talvez ganhasse algo com isso.

Vai daí, numa lauta comezaina a três, o caçador sussurrou aos Golias que se ficassem do seu lado e o ajudassem, com umas porradinhas, a calar os maldizentes teriam sempre uma melhor parte na distribuição dos alimentos, além de serem os seus melhores amigos com tudo o que isso poderia trazer de vantagens.

Os nossos Golias não eram primos do Einstein, mas não era estúpidos de todo. Aceitaram a incumbência, passaram a usar as peles de modo um pouco diferente dos restantes, amachucaram meia dúzia de cabeças e assim se formou a primeira força pública, a bem da população, autorizada ao uso legitimado da violência.

Esta situação durante algum tempo manteve serena a comunidade. Mas como mesmo no melhor dos mundos há sempre descontentes, houve quem não gostasse de ver o irmão sem dentes ou de cabeça rachada e iniciasse nova onda de protestos. O nosso caçador, mais esperto, ou com mais tempo para pensar, matutou consigo e disse: Bem, os Golias têm-me resolvido o problema. O pior é que o pessoal recalcitrante pode arranjar outros mais fortes ou em maior número e desancarem-me os esbirros. O melhor é pensar numa outra forma de, em conjunto com esta, tirar-lhes da cabeça a ideia de me porem de novo ao nível de toda a gente.

Conhecia o nosso caçador um grande patranhas que passava a vida a tentar enganar os outros vendendo-lhes ervas e decifrando sonhos e futuros a troco de um bife ou de um punhado de cereais bravios. Chamou-o e propôs-lhe que pusesse o seu talento a render a “favor do povo” e não com até aí, egoisticamente, só para ele. O nosso aldrabilhas, que não era nada parvo, percebeu que ou alinhava ou levava uma amarrotadela significativa dos dois Golias. Assim, considerou os ganhos e perdas e tornou-se o FOG (Feiticeiro Oficial do Grupo), com assento ao lado do CHECA (Chefe Caçador) e da FUSP (Força Unida de Segurança Pública). Revelando augúrios e significações legitimou, para sempre, o poder do caçador, como descendente directo – por isso bafejado com os talentos que lhes eram reconhecidos e só ele possuía – dos mais importantes antepassados do grupo. Criou rituais, obrigou a hábitos e normas e legitimou de forma absoluta e divina os inalienáveis direitos do Caçador e da sua descendência.

Com esta brevíssima história penso ter demonstrado porque é que não gosto do exercício do poder, da sua génese e considero ter ratificado a hipótese de todo o poder assentar, algures no passado, senão numa fraude, pelo menos numa rábula de consequências, por vezes, trágicas.

Desta forma, os meus heróis não são os poderosos, nem eu consigo perceber-me em lugares de tal poder. Antes prefiro, como Diógenes, olhar para o poderoso Alexandre Magno e dizer-lhe tão-somente que dele apenas queria que não lhe tapasse o Sol.




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abril 07, 2007

KIRA: 1960 - GALERIA "A TRAVE" - �VORA

KIRA: 1960 - GALERIA "A TRAVE" - �VORA

Os meus quadros de Kyra

1 – O Peninha

O Kyra conheço-o desde o princípio dos tempos. Das corridas loucas pelas ruas de Évora, aos nossos primeiros amores, vividos com a força das coisas primordiais e irrepetíveis. Muito antes de se iniciar visivelmente na grande pintura que é a sua.

Acordo todos os dias a olhar para um belo quadro a que chamou “Os Noivos” e que está no meu quarto. É uma óptima maneira de enfrentar mais um dia que nunca se sabe como vai correr ou acabar. Mas não é desse quadro que vou falar no momento. Refiro-me a ele, porque hoje, ao levantar-me, olhando-o, tendo em conta outras obras suas que me acompanham em casa, vi, claramente, como cada um deles marca momentos importantes das nossas vivências. Decidi assim, ir, ao longo dos próximos tempos, com os vagares da meditação e do tempo disponível, fazendo um levantamento e dando testemunho deles e das suas circunstâncias.

Assim, o primeiro quadro, que não posso reproduzir aqui para o compartilhar convosco, como gostaria, porque nem sei se ele ainda existe, a que ele chamou “o grito” e eu, por circunstâncias que aduzirei denominei “o peninha”, nasceu em 1966.

Foi assim:

Vivia eu uma desesperada paixão correspondida pela minha musa mas contrariada pela família. Lembram-se do poema do Zeca:

Chamaram-me um dia
Cigano e maltês
Menino, não és boa rês
Abri uma cova
Na terra mais funda
Fiz dela
A minha sepultura
Entrei numa gruta
Matei um tritão
Mas tive
O diabo na mão

Havia um comboio
Já pronto a largar
E vi
O diabo a tentar
Pedi-lhe um cruzado
Fiquei logo ali
Num leito
De penas dormi
Puseram-me a ferros
Soltaram o cão
Mas tive o diabo na mão(…)

Pois ele corresponde inteiramente à forma como a família da minha enamorada me via e me queria fazer sentir. Nesse tempo as diferenças sociais eram bem mais marcadas e marcantes que nos dias de hoje e a minha pretensão mais parecia heresia que coisa de gente com juízo. Mas a juventude é única e alimenta-se dos obstáculos e por isso o nosso namoro continuava afrontando ventos e marés.

Aproximava-se a data de aniversário da minha amada e eu queria dar-lhe uma prenda que a merecesse. Dinheiro não direi que não abundava porque isso era ser demasiado optimista. Na realidade quase não havia. Foi então que eu tive uma ideia fabulosa. Fui ter com o Kyra, então ainda o Gama, com o meu projecto: Eu comprava os materiais e ele pintar-me-ia um quadro para eu oferecer como prenda de aniversário.

Com a generosidade que o caracteriza anuiu imediatamente. Alguns dias antes do aniversário veio o Kyra com a tela – que se me lembro era um contraplacado trabalhado – e eu fiquei maravilhado. O quadro, de uma beleza cromática inexcedível na linha dos laranjas avermelhados, representava um vasto espaço onde a terra e o céu se confundiam, com uma única e mínima figura a perder-se na linha de horizonte onde os tons de laranja-céu e laranja-terra se uniam. Nessa figurinha quase a desaparecer, postada na convergência das linhas verticais e horizontais desse mundo ignoto, pressentia-se um desespero, uma angústia, uma solidão que fazia ouvir dolorosamente o grito irreprimível e reprimido que ameaçava soltar-se-lhe do peito. Nada, para o caso e o momento, poderia ser simbolicamente mais perfeito que essa obra.

Como a figurinha, parecendo esmagada pela forças cósmicas, resistia estoicamente e parecia ter, como um índio, uma pena na cabeça, eu chamei-lhe “o peninha” e assim passou a ser conhecido.

Que foi feito desse quadro? Não sei! Cruzaram-se tempos e guerras, mudaram-se perspectivas e nunca mais eu e ela festejámos, juntos, um aniversário. Mas para lá de tudo o que possa ter acontecido, mesmo que “o peninha” se tenha perdido nos naufrágios da vida, ele existe e estará sempre presente pendurado nas paredes dos meus sentimentos. E é e será para sempre o meu primeiro quadro do Kyra.

abril 05, 2007

Uma questão de equilíbrio

Ele há coisas que parecem mentira.

Esta semana, fui acometido, por um surpreendente síndrome vertiginoso que me fazia parecer um ébrio a querer andar em linha recta. As coisas, estranhamente, pareciam todas fugir da sua vertical e bambolear-se ao ritmo de imaginárias ondas de mar. Assim descrito pode parecer poético mas, na verdade é apenas desesperante e patético. Ainda por cima para mim que, por ser Balança e intelectualmente estruturado pelas Ciências Sociais, procuro desesperadamente a comparação e equilíbrio dos eventos.

Dirão, os que tiverem pachorra para acompanhar este arrazoado, por que carga de água está este tipo a sobrecarregar-nos com os seus problemas pessoais? Ou se pensa muito importante ou julga que nada mais temos que fazer na vida que aturar os seus problemas. E seria muito bem dito se fosse só isto o que eu viesse ao mundo virtual comunicar.

Mas não! Outras coisas hão de “mor espanto”!

Trabalha há muitos anos, em minha casa, uma mais que empregada, amiga, que, por motivos de saúde, teve que ser hospitalizada por longo tempo. Não, não vou dizer mal do sistema de saúde nem atacar o ministro. Esta explicação tem somente a ver com o facto de ter tido que me socorrer, temporariamente, de uma outra pessoa para assegurar o asseio suficiente da casa.

E lá está ele, dirão, a continuar a maçar-nos com a sua vida particular. Grande engano! O que se passa é apenas um engodo para levar o leitor, inicialmente desconfiado e reactivo, a abrir as guardas com estas confissões pessoais, a fazer de si um amigo de trato longo e confiado, para melhor lhe vender o meu peixe, quando o momento for azado.

O motivo de trazer à baila a empregada substituta e o meu síndrome vertiginoso (o nome é um espanto, não é?) prende-se com o tempo mais largo que tive para conhecer a senhora. Numa conversa, não muito longa, contou-me que tinha estado a ler um livro que a impressionara imenso. Recordo o título de cor: ”Deus chorou no Afeganistão”. O seu espanto derivava, segundo me disse, não tanto do relato dos acontecimentos, porque gostava muito de ler livros de história e devorava tudo sobre a Segunda Guerra Mundial, mas porque o que lia nesses livros, por horrível que fosse, era passado e o que lia sobre o Afeganistão estava ainda a decorrer. Rematou na ignorância do síndrome que eu sofria:

- O que falta no mundo é equilíbrio!

Nada mais precisaria de ser acrescentado a esta sentença. No entanto lá fomos falando de como a riqueza do mundo estava mal distribuída; como se a ganância fosse moderada ninguém teria de passar fome, de ser condenado a morte por doenças que se podem curar num ápice e que matam uma grande parte da humanidade; que quantas mais riquezas existem nos países – referia-se ao dito terceiro mundo – maior é a miséria do povo, que não havia razão para as pessoas serem desapossadas da sua dignidade pela miséria e que o mundo, desta forma, não chegaria a bom porto. Rematando: - e no entanto bastava um pouco de equilíbrio!

Foi por isso que eu cometi o risco científico da analogia. Entre o meu estado vertiginoso e o mundo que nos rodeia havia algo de similar. Se eu, diagnosticado o sintoma procurara e conseguira uma terapêutica que tudo parece indicar ser de eficácia suficiente para me repor em condições normais, não poderia mandar o mundo ao médico para que ele lhe receitasse umas pílulas que, ao menos, lhe atenuasse a tentação do abismo?

Levantei-me, cheio de boas intenções, disposto a mostrar ao mundo a sua insanidade e vertigem, certo de que conseguiria despertar algumas boas consciências para este obra fundamental de equilibrar toda a gente que busca equilíbrio e zás! tropeço no noticiário da rádio que me enviou, de novo e rapidamente, para um síndrome vertiginoso, o qual nada tendo a ver com este, pessoal curável a comprimidos, mais parecia raivosa cascata de ignoto oceano a precipitar-se no espaço vazio, nas fronteiras imaginadas do mundo de Quinhentos.

Publicado in “Rostos on line” – http://rostos.pt

abril 01, 2007

Nem Ota… nem desota

Depois que Heisenberg destruiu as certezas das ciências duras com o princípio da incerteza – estranhas coisas da Física Quântica –fiquei com muito receio das grandes convicções e das pessoas que parecem nunca ter dúvidas de coisa nenhuma. Aliás, parece-me melhor ser algo indeciso que fanático exemplar. Lembremo-nos só como as verdades absolutas e inquestionáveis trouxeram enormes dores à humanidade.

De qualquer modo eu tenho duas coisas razoavelmente certas. Uma é de que o Aeroporto deverá sair da Portela; a outra é que defendo, com unhas e dentes – embora não venha neste momento explicar porquê - um comboio de alta velocidade.

Expliquemo-nos!

Sempre gostei, basbacamente, de ver descolar aviões. É caso que muito me espanta esse milagre quotidiano, milhares de vezes repetido, de algo enorme e pesado desprendendo-se da terra e como ave surpreendentemente leve demandar o mais alto do céu. É pecha minha, mas que querem, gosto mesmo de ver. No entanto, nunca consegui esquecer-me de que a Portela está no meio de Lisboa e que, longe vá o agoiro, seria coisa assaz desagradável que um Boeing, de não sei quantas toneladas, falhada a pista, se despenhasse sobre as habitações de Lisboa. Poderia acontecer e, não sei mesmo quantas vezes, não teria estado iminente esse risco.

Por isso, quanto à minha humilíssima mas determinada opinião o aeroporto tem mesmo de mudar de sítio.

O busílis da questão está, no momento, na escolha do local onde o mesmo se quedará. A discussão, como todos sabem, vem já do distante ano de 1969, quando Marcelo Caetano desenhava fragilmente os contornos de uma primavera apenas anunciada. Duas localizações eram possíveis: Ota e Rio Frio. Por razões de ordem ambiental a opção Rio Frio foi extinta e, muitos anos depois, parece que avançará a escolha da Ota.

Como cidadão preocupado com o risco do aeroporto da Portela até nem achei mal de todo. Que estava bastante distanciado de Lisboa era verdade mas, sabemos bem que muitos dos aeroportos mais importantes do mundo ficam a uma hora ou mais de distância das suas cidades. Desde que houvesse acessibilidades fáceis poderia ser uma situação um tanto desconfortável para nós que habitamos por estes locais, mas não seria nada demasiado grave e inultrapassável.

E bem-disse a decisão de mudar o aeroporto.

Só que entretanto, por motivos mais ou menos claros, vieram à tona oposições várias. Li, reli, presenciei debates, recebi “mails” e a subtil dúvida foi-se insinuando. Era então verdade que o aeroporto tinha condicionantes de expansão? Ficava numa zona de risco de ventos e corredores aéreos? O terreno era alcantilado e pantanoso fazendo crescer os custos de construção de modo assustador? No enfiamento da pista, a muitos poucos quilómetros, existia um perigosíssimo depósito de gás? Havia novas alternativas, melhores, menos dispendiosas, mais bem posicionadas e que não comprometiam os prazos de construção?

Perante as exposições apaixonadas e coerentes de muitos técnicos reputados o meu bem-dizer estilhaçou-se. Hoje sou um desesperado cidadão à espera que alguém explique as razões de escolha da Ota e por que motivo não se encaram outras localizações antes que uma escolha definitiva nos leve para outro elefante branco, como os muitos, que boa parte das obras públicas mais propaladas, vieram a demonstrar ser.

Que Nossa Senhora dos aviões nacionais venha em meu auxílio que já não sei o que pensar. Isto assim está pior que Alqueva – a tal barragem feita para introduzir a cultura de regadio no Alentejo pondo-o mais verde do que o verde Minho – onde nós gastámos o dinheiro e, segundo dizem, os espanhóis estão a colher os frutos. Se a construção do aeroporto avançar para a opção indicada que claramente nos sejam expostas razões coerentes e que afastem qualquer vestígio de falta de transparência na escolha. É que assim, quem escolhe, fica com o papel de mulher de César e pagará, necessariamente custos vultuosos num futuro, não muito distante, nos votos de qualquer de nós.

Porque isto assim, repito, não Ota nem desota!




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março 26, 2007

Afinal foi o meu candidato que ganhou…

Lá nos mostraram o resultado dos Grandes Portugueses. Já anteriormente, em várias ocasiões e lugares, referira o sem nexo de uma escolha a granel, como se fosse possível, em tantos e tão variados campos de acção e tempos, encontrar o maior múltiplo comum de uma diversidade mais rica que a imaginação.

No entanto, não deixei de escolher um candidato que anunciei publicamente e nele votei convicto e uma única vez, isto é, não recorri ao truque de usar vários telefones para multiplicar os apoios ao candidato da minha eleição. E, certamente, muitos o fizeram.

Também aguentei estoicamente o programa de ontem que a RTP1 esticou até perto da duas da manhã. Continua-se a não perceber que as pessoas tem de trabalhar e que para tal o descanso é absolutamente necessário. Ah! Dizem vocês, as pessoas são grandinhas e se ficam sem dormir é coisa de seu alvedrio. Pois é verdade, têm Vossas Excelências toda a razão… No entanto, o poder dos media é grande, a curiosidade matou o gato e quando se anunciava, desde há meses, que Salazar iria ganhar toda a gente quis tirar o caso a limpo o mais cedo possível. Por isso, hoje, além do muito bocejar no emprego (para os afortunados que ainda o conservam) poderá haver gente muito apardalada com os 41% de votação no ditador das botas.

No entanto foi interessante ouvir e ver as tantas reacções do antes e depois. Vamos por partes.

Primeiro foi interessantíssimo o anúncio de Maria Elisa, - quando já as votações tinham terminado - da sondagem, feita para a RTP pela Eurosondagens, em que, salvo erro, no primeiro lugar aparecia D. Afonso Henrique e se lhe seguiam outros candidatos que, na final se atrasaram do pelotão. É claro que isto me deixou com as orelhinhas ao alto. Então para que é que a gente precisava de uma previsão quando os resultados estavam mesmo, mesmo, a rebentar? Moiro na costa, com certeza. Desculpas antecipadas, possivelmente. O pássaro bisnau tinha mesmo ganho e havia engulhos na boa consciência democrática dos feitores do nosso serviço público. E não foi que não me enganei? Sou mesmo um gajo esperto!

Depois o acentuado nervosismo de Odete Santos, a sua agressividade fora de moda, o recordar o pior de um certo PC, dizia-me que o segundo “lobby” não conseguira os seus objectivos. Aquilo começava a estar feio para caraças. A senhora perdeu o siso, afrontou a apresentadora e não me admirava nada se tal comportamento não tivesse carreado mais uns votitos de última hora para a salazarenta figura.

No restante painel de defensores houve mais comedimento e sentido do que realmente se passava ali. Inteligentes, Leonor Pinhão na demonstração da pequenez ridícula e sórdida da dimensão do ditador com aquela nota memorável para os funcionários dos Serviços de Meteorologia e o defensor de Salazar ao relativizar o valor do acontecimento.

Feito este apanhado incompleto e frágil do evento tenho de informar que me fui deitar triste e contente.
Fui triste porque, aceitando as palavras emocionadas e ao mesmo tempo lúcidas de Fernando Dacosta, senti que nós, como tantos outros que lutaram para tornar possível o 25 de Abril, nalguma coisa tínhamos falhado. Só isso explicava que trinta anos após o delírio de liberdade existisse alguma réstia de saudade de um tempo de chumbo e o esquecimento das malfeitorias do seu principal responsável. Aceito as minhas culpas. Outros mais responsáveis que repensem as suas!

Fui contente porque, tendo em conta que a cegueira proselitista dos grupos de apoio dos dois primeiros classificados foram, em grande parte, a mútua razão de êxito relativo um do outro, o terceiro candidato, aquele que eu sempre apoiei pelo seu gesto absoluto de nobre humanismo – Aristides de Sousa Mendes – foi, no seu terceiro lugar, o distinto vencedor do Concurso os Grandes Portugueses.


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fevereiro 28, 2007

notícia sobre o achamento destas ilhas (poema)

I

como movimentos nascidos da emoção
as palavras ecoam transitórias
venho por isso a meu rei dizer
que por cavados caminhos as ilhas
estão achadas

permitam-nos os tempos ir mais para diante

aquilo que no mar assusta
é o que atrai
descobrir é caminho
para o total dos olhos
portanto antes de aqui chegar
no minuto anterior às novas do achado
trarei as tempestades desses dias
salpicados de sal
em que nos fomos de busca
e de glória

II

o rio é o abraço que se lança ao mar

absortos esperam na amurada os homens
soltar-se a quilha do acaso no vento dos navios
de anil reflectem-se perturbadas as vozes das tensões

repartamos o saque pelo preço do sangue
cobremos na coberta os ventos passageiros

cresce o tédio quando se esfuma o sonho
o retorno esquece a rota desejada
no perigo no momento no nada
neste risco das ilhas se perderem
por ventos que rujam nas ideias

deus é somente vaga que dentro se levanta

III

trago-vos pois as esperadas notícias do achamento destas ilhas
com adoçada memória relembro sob os pés
as danças dos mares desses inícios
porque senhor achar é como ser achado
e navegar é um longo caminho para o interior de nós

sabei ainda que por mais velozes que as naves sejam
é sempre igual o tempo da viagem
tudo se expande
todas as ilhas se afastam à velocidade síncrona da nave

é certo que sempre alcançaremos a ínsula a que nos propomos
mas certo é também que o tempo se medirá
pela justeza do esforço
também vos digo tudo é mar em movimento
os rios que correm para um deus das águas
são pequenezes de espírito
que nós sabemos senhor
tudo ser mar por descobrir
ou carga por levar a um porto
sempre diferente daquele que se espera

também sabeis que as ilhas que anunciamos
primeiro que nós outros as tocaram
porém é sempre novo o achamento e daí
a urgência da notícia
equadores há de factos excessivos
obstáculos de calor
mas vós senhor mandaste o avanço
e tal dizer é tremulina no corpo do deserto

IV

vejo que em vosso rosto se expressa a incredulidade do instante
parece-me vos contaram os baixos ventos
e as derrotas impossíveis de seguir

mas senhor se duvidais do mandado
é porque em vós duvida o mandador

tendes porém um ponto de razão

todo quanto é ordenado percorrer-se
na demanda destas ilhas
traz mais desperto e longo o seu olhar

os pés que a ti me trazem
trazem senhor o pó dos descampados
onde o silêncio dos homens é total
e se atende o fundar de um só grito

mandai agora as palavras semear
tereis então o trigo requerido

fevereiro 24, 2007

Os Provedores

O dicionário da Língua Portuguesa Contemporânea da Academia de Ciências de Lisboa define o provedor como: “Entidade ou personalidade independente dos serviços onde se encontra instalada e à qual se pode recorrer em caso de dúvida ou litígio, ou para emitir um parecer.”

As palavras-chave desta definição são, portanto, independente, recurso e parecer

Assim, os vários provedores que foram nomeados – Justiça, leitores, telespectadores, etc. – introduziriam, num determinado corpo, um olhar lúcido, crítico e capaz de produzir um discurso auto-correctivo.

Desta forma as instituições permitiriam a formação de uma consciência crítica, partindo do seu âmago e decisão, que poderia ser justaposta e tenderia a antecipar posições menos controladas do exterior. Teríamos, assim, a autodefesa canalizada através de um corpo mediador o qual, detentor de um aparente poder de transformação funcionaria, pela canalização da fúria, como prudente almofada para amortizar impactos mais destrutivos, por menos controlados.

Escolhem-se para tal posição pessoas altamente competentes, prestigiadas e inatacáveis, ostentando-se aos utentes a verificação da abertura das instituições ao exterior demonstrativa de uma democraticidade a toda a prova.

Estas personalidades, de integridade incontestável, recolheriam as críticas, sugestões e opiniões dos cidadãos e transformá-las-iam em pareceres coerentes, objectivados e funcionais, utilizados para o melhoramento, ou mesmo transformação, das organizações e dos serviços prestados.

Não contestando a boa-fé e a vontade de servir dos vários provedores tenho sempre presente a sensação de que a sua utilidade se esgota nos estreitos limites entre a produção do discurso e a possibilidade de actuarem, com eficácia, em qualquer coisa que atinja os equilíbrios dos poderes que os nomearam.

Assim sendo, estaríamos perante mais uma demonstração do discurso “esquizofrénico” que vem invadindo a realidade social manifestado na diferença entre o enunciado e o verificado, entre valores e materialidade, bem-fazer e desenrascanço, ser e ter, ou realidade e aparência.

No entanto os provedores existem para além das minhas dúvidas e a melhor forma de lhes outorgar poder e deixá-los testar as fronteiras que os inibem é, quanto a mim, colaborar com eles comunicando-lhes as nossas posições e verificar posteriormente qual a sua eficácia.

Assim fiz, enviando, em 21 do corrente mês, o texto abaixo inserido, ao Prof. Paquete de Oliveira, Provedor do Telespectador, na RTP1.

O programa que me leva a entrar em contacto consigo enquanto Provedor do Telespectador é o “Grandes Portugueses”.

Uma primeira observação geral para o objectivo do próprio programa: -Eleger o maior português de sempre!?

Tarefa, penso eu, impossível sem que o campo seja segmentado por áreas ou tempos. Há grandes portugueses em muitas áreas e eras, não será possível escolher um em absoluto. Enfim, é a minha opinião, possivelmente isolado ou minoritária. Além disso, este programa não passará de um jogo…

E que importância tem ou poderá adquirir um jogo na nossa sociedade? Melhor que eu o Professor dará resposta adequada.

Por isso, passemos à crítica na especialidade.

Ontem, Terça-feira, dia 20 de Fevereiro, passou na RTP1 o programa dedicado a Fernando Pessoa. Sendo ele um dos eleitos do citado concurso pressupõe-se que haverá a intenção de chegar às “massas”, isto é, de ter a maior penetração possível nos variados grupos sociais que compõem os espectadores do canal. Por outro lado, fazendo o poeta parte do conteúdo programático do ensino secundário teria bastante interesse que esse programa fosse acessível ao maior número possível de jovens.

Parecem-me pressupostos razoáveis.

No entanto, o programa foi para o ar já passava muito da meia-noite. Não posso precisar se no horário programado (00,10) mas presumo que muitos minutos depois.

A minha questão é se há bom senso neste tipo de programação. Repare-se! Em Portugal a Quarta-feira de Cinzas não é dia de trabalho? Os portugueses não têm necessidade de um sono de cerca de oito horas por pessoa? A sua deslocação para os locais de trabalho não os obrigam a levantar-se pelas seis da manhã? E não têm direito a ver um programa – que embora concurso - pertence à área do cultural e por isso mesmo ultrapassa o efeito distractivo e soporífico do pão e circo? Só o futebol é que pode alterar a ordem normal de programação para ser transmitido em directo?

Se olharmos para a programação do dia, a partir das 21 horas, ficamos a perceber a razão da apresentação, a horas tardias, do documentário sobre Fernando Pessoa. Ele pode lá competir com o José Mourinho!!!

Agradecendo a atenção para o meu desabafo cumprimento-o, mais uma vez, desejando-lhe os maiores êxitos.”



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fevereiro 15, 2007

tipos (poema)

I

é necessariamente diferente o meu estar

por ser árvore banco outono certo
nesse longo vento dos sentidos
notícia de passos até à exaustão
da aventura
não cessam meus olhos de notar
as diferentes fadigas do cansaço
sabor de sede onde tudo é árvore
aço
algemas desta fala
afrontada por enganos do dizer

o meu caminho desfaz o meu cuidado

II

na força dos castelos é que vês
a luz das estrelas de outras eras
indiscretas e vagas em devoção
de palavras dementadas
na acidental opacidade do poder
híbrida e sensual máquina onde
impreterivelmente te referencias
obcecada pela árvore
língua digestora no rompimento
dos líquenes da estrada

III

ponho óculos à cor do meu luar
véspera de multidão saúdo o vértice
das cinzas das camélias

fabrico a nave do desejo
desmesurado náufrago do vitríolo
acordo em marte de morte consumido
enrolado no forte coração da máquina

calco o acelerador introduzo a raiva
na briga-brisa que me beija
expludo à tua volta equação de
fumos e riscos acrescentada à
fome do teu ser

IV

antes que a noite caia voltemos às árvores
a cada raio de sul juntemos o instante da
plaina da justiça os verdes que se despem
nos campos intermináveis do teu corpo

resplandece e habita o segundo inominável em que cada célula se perfaz e te persegue
na impossibilidade da tua combustão

no mutismo centenário essa árvore
arranca o vento à depredação

deixo ciclicamente da invernia posar
a volúpia no âmago da flor como quem
descobre o sepulcro ou a ressurreição

deposta a raiva desabitas a angústia
e num tecido breve de cidade
abres os lúpulos à fermentação

fevereiro 09, 2007

Gisela do quotidiano – uma estória de sempre

Conto esta breve estória no papel de marido da Margarida Gentil, já falecida, que se estivesse viva militaria, com certeza, num movimento de apoio ao SIM no referendo sobre a interrupção voluntária da gravidez.

A mãe de Gisela trabalhava a dias, desde há muitos anos, na nossa casa. Conhecemos a Gisela desde o nascimento e afeiçoámo-nos profundamente à menina tornando-se ela a companheira, por excelência, da nossa filha nascida dois anos depois.

Cumprindo o ritmo natural da vida a Gisela foi bebé, criança e chegou à adolescência numa fugaz passagem do tempo. A sua relação connosco foi-se mantendo e reforçando no decorrer dos anos tornando-se cada vez mais familiar.

Andava pelo 15º aniversário quando um dia, de olhos inchados e o nervosismo a rebentar por tudo o que era corpo, pediu atrapalhadamente à Margarida para falar a sós com ela.

Estava grávida do namorado, de igual idade, e também estudante. De angustiada não sabia o que fazer. Falar com a mãe, não! Nem saberia como começar. Encarar o pai? Nem pensar nisso nem na sova que levaria mal tivesse aberto a boca. O namorado ficara em pânico quando lhe contara a situação e agora evitava encontrar-se a sós com ela e mal lhe falava. Estava infeliz, desamparada e ameaçava pôr termo à vida. Toda a sua angústia expressava-se numa única interrogação:

- O que vou fazer da minha vida?

Contou-me Margarida que, tanto quanto foi possível, a tentou tranquilizar. Informou-se sobre quanto tempo pensava ter de gravidez prometendo que, no dia seguinte, voltariam a conversar sobre o assunto. Nessa noite contactou algumas pessoas e entre elas uma amiga psicóloga que se prontificou a falar com a Gisela, caso ela quisesse.

A Gisela quis.

Não conheci o teor da conversa. Sei que Margarida me pediu para, num certo dia, as acompanhar a um determinado hospital onde, sob uma qualquer denominação cirúrgica, a Gisela iria ser submetida a um aborto que oficialmente nunca o seria.

Abro um parêntesis para esclarecer que tanto eu como a Margarida sentíamos, em relação ao aborto, uma certa incomodidade. Ética e teoricamente defendíamos a sua possibilidade mas, quando em conversa transpunhamos a sua realização para um possível filho nosso, concordávamos que seria uma opção que talvez nunca fossemos capazes de tomar.

Parêntesis fechado.

Gisela ficou nessa noite, sob vigilância, em nossa casa e felizmente, como foi bem assistida, depressa de recompôs.

O tempo continuou a passar e Gisela fez uma licenciatura em Direito, casou, teve filhos, ganhou estatuto social. Esta estória só não acaba completamente bem porque, alguns dias atrás, depois de, pelas voltas da vida, passarmos muito tempo sem contactarmos, a encontrei na Baixa Lisboeta.

Eu distribuía panfletos apoiando o Sim ao referendo, ela, olhando-me um pouco comprometida, ostentava uma vistosa pancarta defendendo voluntariosamente o Não.

Sem negar à Gisela do ano 2007 o seu direito a uma opinião própria, não me foi possível deixar de reverter àquela desesperada Gisela que procurou a Margarida, no já distante ano de mil novecentos e sessenta e nove.


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fevereiro 03, 2007

compre o novo televisor (a cores) - poema

I

atenção queridos consumidores
acabou de chegar o novo gadget
atenção atenção muita atenção
corra imediatamente ao seu fornecedor
adquira-o o mais rápido possível

a partir de amanhã já será tarde
a partir de amanhã já você estará classificado
ao lado dos párias dos desintegrados dos irrelevantes sociais

e tudo por não ser razoável
e tudo por não ter querido comprar o novo gadget
e tudo por não ser proprietário desta maravilha técnica
da nova televisão a cores

II

comprometa-se hoje mesmo comprando o televisor
quem não tem um terá que ter
grandes facilidades de pagamento basta assinar de cruz
não é preciso fiador

existimos para o servir
você é o nosso prazer
o nosso fim absoluto

mas compre o televisor


III

se o não fizer vai-se arrepender
vai deixar de ser visitado pelo seu cunhado
feliz possuidor de um carro convertível
e de um seguro de vida maior que o valor da sua vida

- dizem que se vai suicidar dentro de dois anos
quando da próxima queda de valores na bolsa -

se não comprar o televisor será marginalizado no emprego
as suas opiniões serão postas em causa
e ninguém ousará recomendar
um cidadão incapaz de adquirir um objecto
tão conforme à racional utilização dos seus lazeres

IV

é melhor comprar já um televisor a cores

quem o avisa seu amigo é
escute a sabedoria popular
vá lá compre o televisor
tudo está estudado
vai ver a satisfação que ele lhe vai dar

vai ver a vida toda colorida
as locutoras mais bonitas e até
as coxas da vedeta serão mais reais
bem na sua casa tão na sua cama

durma impunemente com a sua vedeta
todas as noites
em cores naturais
no horário marcado

faça parte do grande adultério colectivo
sinta-se irmanado na grande sociedade
dos fornicadores do pequeno écran

faça tudo quanto dizemos vá
você não é mais que os outros ouviu
compre a merda do televisor ou ainda se lixa

V

olhe que tudo está cientificamente estudado
o aparelho é bastante caro para poder ser
objecto de prestígio
facilita-se imenso o pagamento
para que muitos o possam ter - ao menos
como objectivo - democratiza-se a máquina
sem a deixar cair na demasia da posse
para que tê-la seja estar um pouco acima
possui-la seja pertencer ao grupo
adquiri-la seja conseguir a admiração nocturna
dos amigos não possuidores

VI

vá depressa não seja anjinho compre o televisor
não seja palerma não deixe que o seu irmão
lhe coma as papas na cabeça
recorde-se que foi ele quem primeiro comprou
a iogurteira automática que faz iogurte sem leite

já tinha sido ele quem adquiriu
primeiro que todos
um andar na moderna zona residencial
do esgoto-à-porta

já foi ele quem primeiro teve um filho
já foi esse filho quem primeiro ganhou o concurso
do bebé mais nestlé do ano rechonchudo

e você que faz

não seja palerma
não se deixe ficar para trás

VII

então seu cabrão
compra o televisor
ou não

VIII

últimas notícias do rádio conta-dores

foi hoje fuzilado ao alvorecer
por um pelotão de bons consumidores
o senhor fulano de tal
indivíduo perigosamente associal
que se negou a comprar
um novo televisor a cores
sistema pal

janeiro 28, 2007

A excepção e a regra

A caminho de Urga, atravessando o deserto vão um viajante e o seu guia. O viajante é um homem cruel que sobrecarrega desumanamente o seu servidor, negando-lhe mesmo em determinada parte do percurso, quando a água escasseava e se tornava vital, o quinhão que lhe pertencia.

De acidente em acidente chegam, ou chega o guia à cidade demandada, sendo este remetido para a justiça por o viajante ter morrido, ou pelo mesmo, não tendo morrido, ter apresentado qualquer queixa contra o guia.

Apesar de ficar demonstrado, em juízo, que o comportamento do guia foi de exemplar humanismo e superior paciência, também se estabeleceu uma enorme desconfiança por o mesmo ser uma excepção absoluta em relação à expectável conduta de alguém submetido a tais vexames.

Assim, por ser uma excepção, foi o guia condenado em nome da regra e dos procedimentos estabelecidos.

Esta súmula imprecisa – há muitos anos que li a peça de Brecht a quem “roubei” o título desta crónica e muito detalhes já se me escapam – serve para introduzir mais um apontamento sobre o caso do Sargento Luís Gomes.

Como se sabe está condenado a seis anos de prisão por não entregar, como a regra defendida pelo tribunal manda, a criança que vive como filha, na sua família, há quase cinco anos.

Ele, tal como o guia, não se comportou da forma estabelecida. Faltou aos costumes! A excepção do seu comportamento valeu-lhe a condenação, conforme acórdão do Tribunal de Tomar por: Crime de Sequestro Agravado, Crime de subtracção de menor, Regulação do poder paternal e Recusa de entrega de menor a pai biológico.

O acórdão tem 43 páginas e representa, para um leigo como eu, o exercício absoluto da norma sem a temperança de um juízo que a enquadre e faça perceber a excepcionalidade psicossociológica do quadro.

Recordando o caso: Uma mãe em desespero socioeconómico não recebeu reconhecimento de paternidade nem auxílio para criar uma filha nascida de uma relação pontual com o alegado pai biológico. No desespero da situação procurou alguém que lhe garantisse a subsistência e vida da filha. Encontrou o porto de abrigo no casal Luís Gomes e Maria Adelina que recolheram a criança e a trataram como filha.

Em acto de registo de nascimento da menina, como a lei portuguesa não admite a situação de filhos de pais incógnitos, foi o provável pai biológico, sob intimação judicial e custódia da GNR, obrigado a sujeitar-se a testes de genética os quais viriam a provar a sua paternidade.

Ao que consta, a partir daí, o já provado pai biológico apresentou a sua pretensão à tutela da menina, que lhe foi concedida pelo tribunal, em Julho de 2004, isto é, quando a menina já, há dois anos, fazia parte integrante da família adoptante.

Ignorando a teia de afectos entretanto criada, a possibilidade de, não fora a adopção de facto exercida pelo casal, talvez a menina já não se encontrasse viva ou fosse mais uma criança abandonada, o tribunal mandou entregar, de imediato e friamente, a criança ao pai biológico. Não teve em conta, minimamente os interesses da criança, os sentimentos dos pais adoptantes, nem os efeitos de mudança de hábitos e ritmos na vida da menina.

Esta primeira decisão tardia e cega foi causa bastante para precipitar todos os acontecimentos posteriores. Está aqui, no meu parecer, a génese do mal o qual é completamente atribuível à demora e insensibilidade social da justiça.

O acórdão do Tribunal de Tomar, para além de erros e omissões já apontados em vários jornais, seguiu este precedente, tornando-o mais gravoso por ter vindo a lume já passados cinco anos sobre o início do caso e por se ter declarado inequivocamente a favor do biológico contra o social, do legal contra o afectivo, do rigor mecânico e estático das normas contra a sua interpretação à luz da dinâmica dos afectos e da vida real.

Os nossos vizinhos britânicos resolveram esta dicotomia optando pelo uso simultâneo de duas fontes de direito. O direito inscrito nos códigos e o consuetudinário. Quer-se dizer que os usos e costumes de um dado lugar ou época podem fazer alterar o sentido de uma lei escrita. Depende do juízo e conhecimento do julgador.

Não sei se os resultados desta forma de fazer justiça são melhores ou piores que aquele que é utilizado nos tribunais portugueses. Sei apenas que permitiria uma decisão diferente daquela que foi tomada e que, tão justamente, causou enorme comoção entre os nossos conterrâneos, por princípio, tão desatentos do exercício quotidiano da cidadania. Sei também que não há muitos anos as uniões de facto não só não eram reconhecidas legalmente como eram fonte de vergonha e hoje, para quase todos os efeitos, são comparáveis aos casamentos de “papel passado”. Resta-me esperar que o mesmo se venha a passar nos casos em que, como neste, exista, sem qualquer dúvida, uma adopção de facto.

PS 1 – O sargento Luís Gomes continua encarcerado e com uma pena de 6 anos a cumprir e, pasme-se, com o Ministério Público, generoso e magnânimo a pedir a redução para 4 anos!! Assusta-me que com tal liberalidade possa tão brevemente regressar ao nosso convívio um tão perigoso e cadastrado “sequestrador”.

PS 2 – No dia 11 de Fevereiro vou votar, novamente, SIM


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janeiro 26, 2007

habitualmente zeloso e cumpridor (poema)

I

estás tramado meu lírico burocrata
de empresa quase falida neste tempo de terceiro-mundo
em vésperas de europa

estás bem lixado com tudo quanto inopinado sobre ti desaba
e te afugenta as sonhadas planícies do lazer
seguidas até ao servilismo

lá se vai o teu sossegado apartamento entranhado
de pequenas cobardias apenas choradas quando
as tuas asas de anjo cumpridor se abatem
na imagem de eunuco pálido habilmente alimentado a restos
de ilusão por imagens coloridas tal
a superfície fria e inabitável por detrás da luz
efémera com absolutos sentimentos de realidade
vultejando no horizonte de uma chuva de jardim
espalhando outonos e restos de jornais

adivinhas no passado o trânsito onde foste transviado
e te transformou nessa máquina de obrigações e ordens
mineral que abdicou de si para naufragar no
estrume colorido de uma hierarquia que

passeava o brilho da sua eternidade na sombra esmoler
da tua sombra caverna degenerada de desejo
no todo circunspecto de quem sempre viu o que foi grande
o que foi belo o que foi tudo
feito pelos outros e
apenas existia porque se enquadrava no sagrado organograma
de um regime de uma empresa ou de um partido

III

meu palerma em psicatto pústula de raiva que casaste com uma
genoveva
com paixão adquirida por empréstimo no coração do fastio
que já dez dias antes do casamento te predispunhas ao sacrifício
e te quiseste heróico e aguentaste o patau pensando sobretudo
no que os outros diriam no momento em que
por te saberem tão nabo
alinhavam escárnios na tua frente e tu
no estoicismo barato do teu comportamento
tentavas a vingança dominando o espelho de tédio
nos olhos de uma prostituta quando

os americanos desciam na lua e acertavas
com um doze no totobola acreditando que
em nome da humanidade
pousavas sobre o corpo de selene sondavas um discurso
enquanto passeavas pelo vídeo a tua refeição de aparências
sorrindo com raivinhas fundas por um dia
por qualquer distracção um qualquer jardineiro nem sequer
mal-intencionado ter
podado a haste da vida que em ti crescia

na verdade enquanto a vida perpassas linear
outros requerem o incómodo das coisas transgressoras
das iniquidades num interior de força
procurada nas origens do ribeiro que está
no outro lado da infância e aparentes e loucos
colocam todos os dias um padrão de fogo
no interior das estrelas

III

num destes dias pequenos e pacatos
meu cidadão do nada envolvido subtilmente nos brancos
de um consórcio mantido à força de regulamentos
por entre rendas e preceitos vigentes

morrerás com

a) um padre à cabeceira da extrema-unção

b) o oficialmente incontrolável choro da tua viúva imersa nos
tranquilizantes
recomendados para situações congéneres

c) inquietos no seu enquadramento
os filhos e
os netos
buscadores de testamentos e legais benesses

d) as flores
os lutos
as mulheres da casa preparando
o momento do trespasse
que se quer
composto
digno
em família
mas letal

contudo latente a intriga rodeia os herdeiros

porque

cá fora a vida segue noutras máquinas
cumpridoras zelosas e pacatas
escondedoras do ódio que as consome
que já cobriram o espaço que deixaste
e arrastam o teu cadáver sem peso e sem remorsos
até ao dia em que súbito aos seus ouvidos
alguém murmurar as insofridas palavras

"estás tramado meu lírico burocrata"

janeiro 22, 2007

Três Causas

Há neste momento três causas que me prendem a atenção. Não serão de igual valor para o observador exterior, mas todas têm em comum apontar para aspectos essenciais do viver e dignidade humanos. Duas causas têm nome de homem, a outra, sendo gramaticalmente masculina, atinge, não única mas principalmente, as mulheres.

Acabe-se então o mistério e, ordenadamente, desvendemos os nossos segredos!

Primeira Causa – Aristides de Sousa Mendes

Decorre pela RTP 1 um concurso denominado “Grandes Portugueses”. O modelo foi importado, salvo erro, da Grã-Bretanha e como é por demais sabido pretende, através de explanação de curtas e variadas biografias de notáveis de todos os tempos deste país, por meio de votação popular, determinar qual é o maior de todos eles.

Bem, só por isto não viria mal ao mundo e até seria interessante e pedagógico dar a conhecer os assinalados barões do peito ilustre lusitano (passe este tortuoso empréstimo a Camões). No entanto, algumas leves perplexidades são-me levantadas por este concurso. Começo por não saber como é que é possível designar “o maior dos portugueses” sem determinar, no mínimo, em que época e em que área. Confesso que a falta destes critérios me abala na minha escolha. Não sendo tarefa fácil nomear o maior dos portugueses em áreas definidas – por exemplo na poesia com Camões e Fernando Pessoa (e a Sophia e o Ruy Belo e o Herberto Hélder etc… etc.) – descobrir qual é o maior em absoluto parece-me, no mínimo confuso, no máximo tarefa impossível.

Como, no entanto, o impossível é o meu território, decidi fazer uma escolha. Escolhi Aristides de Sousa Mendes. O Homem que em Junho de 1940, quando Cônsul em Bordéus, em apenas três dias, desobedecendo às ordens de Salazar, salvou dezenas de milhares de pessoas do extermínio às mãos dos Nazis, condenando-se a si e aos seus, a uma vida de tal privação que, para alimentar a família, necessitou do auxílio de instituições de caridade.

Morreu em 1954 pobre e sozinho (os 12 filhos tiveram de emigrar) desonrado pelo estado novo mas com a dignidade única de ser um Homem sem par.

Não desmerecendo ninguém, eu, voto nele.

Segunda Causa: Sargento Luís Gomes

Já alguém disse que o direito não é sinónimo de Justiça. Nós sabemo-lo muito bem. O formalismo normativo, quando despido da necessária dose de percepção do viver humano, assume, por vezes, um não sentido, uma absurdidade e uma arrogância sem par.

É, para este caso, paradigmática a sentença de prisão de seis anos, por rapto, atribuída, por uma com certeza douta e meritíssima juíza, ao Sargento Luís Gomes. Justíssima punição, digo eu, merecida pela defesa intransigente que Luís Gomes e a esposa vêm fazendo no sentido de manterem o equilíbrio emocional e a felicidade de uma criança de cinco anos. Dos factos que deram origem a este caso não vale a pena falar. São por demais conhecidos e, felizmente, deram início a uma corrente de simpatia e solidariedade para com este militar que arriscou liberdade e carreira para fazer o que considera correcto. Há desobediências que só honram quem as pratica. Orgulho-me de viver num país que produziu um homem capaz destas posições.

Ele é, sem dúvida, um grande português!


Terceira Causa – O Referendo sobre o Aborto

Vou votar, mais uma vez, SIM


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janeiro 14, 2007

A nebulosa da Águia

Este é o terrível desenho do meu conhecimento. Esta imagem, tirada pelo telescópio Hubble, é conhecida como Nebulosa da Águia, fica na constelação da Serpente, a 7 mil anos-luz da Terra.

No passado dia 12 vinha publicada no Público acompanhada pela informação de que, dentro de mil anos, este “viveiro de estrelas” seria totalmente destruído. Desapareceria.

E porquê?

Porque à seis mil anos atrás - como agora já sabemos - uma estrela explodiu nas proximidades galácticas e as suas ondas de choque volatizaram a bela nebulosa da Águia. Como esta formação de poeira estelar está a 7 mil anos-luz de distância o fenómeno só se tornará visível, para nós, daqui a mil anos.

No entanto eu sei, nós sabemos, que a imagem que vimos já não existe senão como luz fóssil, como transitiva inverdade do nosso olhar. Porque conhecemos os acontecimentos podemos fazer uma predição para os próximos mil anos. Seremos sábios, pareceremos, a qualquer ouvinte menos esclarecido, omniscientes. Como por esse saber nada poderemos fazer para evitar o já acontecido somos Cassandras impotentes.

Horrendo dilema entre o conhecimento e a impotência para o acto corrector. Assim se deve sentir o deus todo-poderoso criado pelos humanos. Sabe porque quisemos que soubesse e porque a relatividade o proporciona, mas não age, nem a pedido, porque o fenómeno, por acontecido, é inevitável.

Terrível e frustrante é o papel de deus!

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janeiro 03, 2007

O Ponto dos Médicos

A gente ouve, vê e pasma!

O Ministério da Saúde, no uso das suas prerrogativas legais e administrativas, decide instaurar um processo de fiscalização de pontualidade e assiduidade através de meios electrónicos em consonância, penso eu, com as regras do actualíssimo choque tecnológico.

Os médicos, e restante pessoal em serviço nos hospitais, todos os dias, à saída e à entrada do trabalho vão ter de pôr o dedinho no identificador, o qual, como frio polícia indicará à puridade a que horas o funcionário entrou e saiu do seu local de trabalho.

Esta prática, com defensores e atacantes, é, de variados modos, aplicada em inúmeras empresas. Serve como simples meio de controlo de presenças e pontualidade e nada diz sobre a quantidade e qualidade do trabalho prestado.

Que eu saiba, no caso vertente, também nada mais se pretende e poderá obter com ela, sendo simplesmente a mudança de controlo por ancestral livro de ponto, por meio mais jovem, mais sofisticado e possivelmente mais actuante.

Daí qual o motivo para esta vaga de indignação, protesto, ameaças subjacentes e demissões reais de chefes de serviço clínico no Hospital onde a prática entrou em experiência? Têm razão os médicos, está certo o Governo, é justo o bramido vingador da população?

Como escriba, no momento, distanciado dos interesses em jogo, em olímpica posição de autor omnisciente, olho do meu alto pedestal para a agitação do formigueiro e decido-me pela análise clínica dos actores sociais em causa.

Deixemos portanto os prolegómenos e vamos à substância.

Andou bem o Governo ao ordenar esta forma de controlo? Quanto à legitimidade do acto, já afirmámos acima, nada a declarar. Está nas suas competências organizar os serviços e o seu controlo. Quanto ao método, também pouco há para dizer. Adquiriu meios, procede a uma implementação experimental num local para tal escolhido e, alegadamente, procura medir os efeitos desta remodelação para posterior alargamento sustentado e corrigido. Admirável!

Os médicos espumeceram. Que não! Inominável afronta! Qual dedo nem meio dedo! Se entrarem à hora certa terão inevitavelmente que sair à hora certa podendo, ho! impensável, deixar uma cirurgia a meio, adiar a vida do paciente, deixá-lo pendurado no limbo com meio órgão restaurado, guardando para amanhã o restante, quando a nova marcação de ponto obrigar a equipa a entrar de novo ao serviço. O Bastonário da Ordem fez-se eco mediático destas posições!

Os doentes e os possíveis doentes - quer dizer, uma boa parte da população que, com a minha anunciada e majestosa exclusão, somos - obrigada a horários, a relógios de ponto, por vezes a ritmos de trabalho diários muito intensos e vigiados, a contragosto habituados a angustiantes e desesperadas esperas em Centros de Saúde e Hospitais, sentiu uma ânsia vingadora e, de alma e coração, desagravando anos de sentida humilhação pela arrogância e frieza de algum pessoal dos serviços médicos, veio apoiar com vigor a fiscalização daqueles malandros. Em nome da igualdade de direitos e deveres entre cidadãos, anote-se!

Que tem então o distante observador para acrescentar a este tão sumário como equilibrado e douto levantamento?

Nada de muito especial. Apenas algumas observações de mero senso comum.

Aconselhado pela sabedoria popular – que tantas vezes o não é – cito o velhíssimo ditado “casa onde não há pão todos ralham e nenhum tem razão”.

Senão vejamos!

É verdade que nos Serviços de Saúde, como em outros serviços e nas empresas privadas, há prevaricadores que deixam nódoas no tecido a que pertencem e que por abusivas generalizações são estendidas a toda a gente. É um erro, mas muito comum. Será no entanto a questão da marcação de ponto o maior ou mais urgente problema dos nossos serviços de saúde. Como é claro e evidente, não é! Bem mais grave são a falta de meios humanos, técnicos e financeiros que estrangulam e tornam, por vezes, desumanos e deficientes o tratamento que as pessoas conseguem nos hospitais. É bem mais fácil introduzir relógios de ponto que reformular o sistema hospitalar. É uma medida imediata, muito visível e que terá, certamente, o apoio da população que olha os médicos com a admiração de quem do seu saber precisa e a ira do seu sentimento de incapacidade perante o que, com ou sem razão, considera a prepotência e desprezo dos médicos frente aos doentes e ao seu sofrimento. Portanto, jogada política mais que tentativa de resolução séria de problemas.

Por sua vez, os médicos morderam o anzol. Percebemos! Não são políticos. São técnicos de saúde. Alguém quis demonstrar que todos os cidadãos são iguais, sem ter de fazer um profundo trabalho de estruturação de direitos. Neste momento os médicos, como em outros os juízes e os professores, vieram mesmo a calhar. O desemprego campeia? Os orçamentos das instituições são curtos? A economia não arranca? Então lá vai distracção para a populaça olvidar suas agruras. Pão e circo, entenderam? Os problemas continuam ou mesmo aumentam, pouco ou nada se resolve mas, enquanto o espectáculo dura há alguém que folga. Portanto a classe médica não se deveria prestar a esta manipulação. É instruída, tem poder real, melhor faria em se repensar nas suas práticas e relacionamentos, deixar de parte a cegueira corporativa e disciplinar quantos, por seus comportamentos, permitem a adesão entusiástica de tanta gente as estas não medidas.

E nós? Agora também me incluo.

Pagamos impostos, sofremos esperas em tudo o que é serviço público, somos desprezados pelas instituições que mantemos com o nosso dinheiro e trabalho, aguentamos tudo isto com ressentimentos mudos e em vez de reclamarmos, exigirmos os nossos direitos com energia e civilidade, contentamo-nos com a vingança possível quando, demagogicamente, são tomadas medidas, apenas paliativas, contra as corporações que, é verdade, muitas vezes nos subjugam.

Acordemos pois, para o que vale a pena e é real. Deixemos o ponto dos médicos, as férias dos juízes e as faltas dos professores e passemos a exigir dos nossos eleitos um sistema de saúde compatível com o grau de desenvolvimento das sociedades europeias, melhor e mais rápida justiça e uma educação atenta às idiossincrasias locais, ao interesse nacional e ao desenvolvimento contínuo dos conhecimentos e das pessoas.

Como é que isto pode ser conseguido? Bem, isso já é outra história. Mas comecemos por não nos deixarmos distrair com o ponto dos médicos…

Publicado in “Rostos on line” – http://rostos.pt/

dezembro 29, 2006

Fundamentalismo Cristão (criacionismo)

Andamos tão preocupados com os fundamentalismos islâmicos que mal nos apercebemos da víbora que cresce nas nossas entranhas sociais.

Começou a germinar-me esta inquietação, na semana passada, quando li na imprensa que, algures no país, iria inaugurar-se um museu criacionista!

Perguntar-me-ão se não é disparatada esta inquietude, uma vez que não só convivemos com a doutrina criacionista durante séculos, como, sem dúvida, foi ela a base e o sustentáculo da nossa civilização. Antes de avançar em mais alargadas explicações, convém ao escrevente esclarecer o que vem a ser isto do criacionismo. Atenho-me, na explicação, apenas à actualidade.

Pois então, os criacionistas defendem que as explicações dadas pelas ciências sobre origem e evolução do universo e da vida são todas falsas, excepto se estiverem avalizadas pela palavra bíblica. Aprofundando um pouco mais: a teoria do Big Bang é errónea, a terra tem apenas cerca de 4.000 anos, o mundo foi criado em seis dias (os registos fósseis devem ter sido um divertimento de Deus para enganar os homens, porque, criados nos mesmo seis dias, revelam à análise alguns milhões de anos de existência), etc., etc.

Como tais afirmações são difíceis de manter perante um público instruído, guardam estas asserções para uma população menos letrada ou já em adiantado estado de conversão. Para os mais críticos ou mais difíceis de convencer, instituíram uma linguagem pseudocientífica apoiada numa teoria designada por “Desenho Inteligente”.

Esta teoria baseia-se no princípio da “Complexidade Irredutível”, isto é, na existência de organismos biológicos complexos que não podendo, na perspectiva criacionista, ser explicados pela teoria da evolução e da selecção natural, exigem, para a sua concepção, um projecto e um ser criador. Não sendo este o espaço nem o momento para maiores explicações direi, no entanto, que os exemplos de complexidade irredutível, apontados pelos criacionistas, estão cabalmente refutados pela esmagadora maioria da comunidade científica mundial.

Onde está então o perigo que estas crenças apresentam?

Enquanto a abordagem científica assenta na investigação, racionalidade, aumento de conhecimentos, confronto de hipóteses, construção de teorias e possibilidade da sua refutação quando novas descobertas aconselham a mudança ou abandono das teorias dominantes, a abordagem criacionista funciona num discurso circular e fechado que somente pretende reafirmar as crenças a que já se aderiu. Qualquer coisa que saia do instituído pelas fontes sagradas é inaceitável heresia que deve ser exterminada. É portanto uma posição que leva aos obscurantismos, ao fechamento ao progresso e à autoridade natural de um ou mais esclarecidos, por sopro divino, sobre todos os outros. È uma atitude cientificamente fechada, obstrucionista e socialmente autoritária.

São disto exemplo vários casos acontecidos, sobretudo, em escolas dos Estados Unidos da América ( ex: Arkansas, 1968), cujos Conselhos Directivos foram sendo gradualmente dominados por criacionistas. Nessas escolas foram imediatamente proibidos os manuais de biologia que se referiam ao Evolucionismo (teoria científica) e foram adoptadas à letra as descrições metafóricas e metafísicas da Bíblia, como se de boa ciência se tratasse. Estas posições foram sendo tomadas, com grandes tensões sociais e prejuízo de conhecimentos, até que o Supremo Tribunal dos EUA se pronunciou determinando a ilegalidade de tais atitudes e a impossibilidade de considerar no mesmo nível crenças e ciências.

Daqui a minha inquietação.

Eles vêm aí de mansinho. Aqui um museu, além uma ajuda económica atempada a comunidades carenciadas e por detrás a manipulação do pensamento através do aproveitamento de fragilidade sociais ganhando insidiosamente posições que, no seu limite, conduzirão a uma nova e obscura idade média, ao fechamento da investigação e do progresso, à fusão dos poderes executivo, legislativo e judicial num único poder religioso e totalitário reagindo violentamente a qualquer tentativa de inconformidade ao modelo único.

Tenho, apesar de tudo, esperanças que ao dominarem as sociedades, mesmo não aceitando a evolução, por necessidades pragmáticas, adoptem métodos de eliminação dos inconformados mais eficientes que o das clássicas lapidações ou fogueiras.

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dezembro 09, 2006

O Vítor

Numa tarde de sábado, acerca de dois meses, quando, no estacionamento de um supermercado, acabava de arrumar as compras na mala do carro, fui surpreendido pela manobra de um condutor que travou no lugar ao lado de forma admiravelmente rápida, hábil e sonora.

O desembaraçado chegante desceu o vidro da janela e com o sorriso luminoso e aberto de quem encontra algo desejado, Há muito perdido, disse:

- Olá! Eu sou o Vítor!

Com certeza espantou-se -me na face a admiração porque logo de imediato acrescentou:

- Não te lembras de mim?

Confesso que não reconhecia aquela cara de lado nenhum. No entanto dava tratos à memória para me recordar de algum encontro onde tivesse conhecido aquela pessoa franca e contente que começava a ensombrar-se pelo meu esquecimento.

Vá lá, recorda-te, o Vítor, lembras-te? Então, o Vítor…

Eu não me lembrava coisíssima nenhuma do Vítor e já começava a sentir-me meio culpado. Tartamudeando foi-lhe dizendo que lamentava mas não me conseguia recordar.

- Não te recordas? Mas nós trabalhávamos juntos… e deu-me alguns detalhes que me pareceram condizer com um local onde de facto trabalhara.

- Será de Empresa X? Perguntei, meio aliviado.


- Precisamente…

- De qualquer forma não me lembro.. e fui-me lentamente recordando de um Vítor que tinha trabalhado comigo e que deixara o emprego para terminar a o curso de direito. Perguntei-lhe se era esse Vítor e logo o sorriso reacendeu e aquiesceu entusiasmado.

- Sabia que te havias de lembrar… E continuou desfolhando algumas recordações, em que não me revia, mas que poderiam bem ter acontecido, atribuindo eu à minha má memória o olvido de tais factos.

Eis senão quando me diz ter trocado a licenciatura em direito por um lugar de Comissário de Bordo na TAP e, num gesto largo e generoso põe-me nas mãos um estojo de reputada marca com um relógio para senhora e outro para homem.

Fiquei atrapalhadíssimo. Que não podia aceitar os relógios. Ele, a por o ar de quem recebe grave afronta, reiterando o prazer de me encontrar ao fim de tantos anos para eu estragar tudo recusando a sua oferta.

Contra o seu semblante contrariado consegui por fim entregar-lhe os relógios e já me preparava para entrar no carro quando subitamente, puxando de uma máquina de filmar digital ele disse:

- Olha, para comemorar o nosso encontro é tua por 300 euros…

Olhei para ele e para a máquina. Era da plástico, a lente deveria ser um vidro grosso, made in China ou Taiwan, e aquele Vítor nunca seria o Vítor que eu levemente conheci.

- Não quero máquina nenhuma e você não me conhece de lado nenhum…

- 150 Euros, respondeu-me.

- Desapareça!

- 50 Euros…

Saquei do telemóvel e informei-o de que iria ligar à polícia e lhes daria a matrícula do carro.

Num ápice, com a mesma maestria com que estacionara, fez uma rapidíssima marcha atrás e saiu, em velocidade constantemente acelerada, do parque.

Entrei no carro e fui-me a pensar na lata do tipo e na habilidade com que fora sacando informações para me baralhar na conversa e chegar a fazer-me desejar recordar os factos de reconhecimento que ia inventando.

Ontem, a caminho de Sintra, parei na estação de serviço da Ponte Vasco da Gama. Tinha acabado de atravessar o caminho quando, atrás de mim, dois leves toques de buzina, me chamaram.

Um homem de quarenta anos, bigode bem aparado, um sorriso grande como um largo, descia o vidro do carro e com enorme contentamento dizia:

- Então, não te lembras de mim? Eu sou o Vítor!

Voltei-lhe as costas e fui tomar o pequeno-almoço.

abril 20, 2006

ocidente

a ocidente

é meu país um movimento
é meu país coisa ficada

no entanto
em ruas dormirei de sono feito
e acordarei

no dia em que país crescendo
for interior de homens encontrados
não país quieto no movimento

onde me quedo sentado

In Silêncio Mordido, Plexo,1974

Foto: Pedro Correia Posted by Picasa

abril 18, 2006

o desporto não se mistura com política

na praça do desporto damos as mãos
ao pepe das bancadas e o coração também
o voto não

no terreno santo da concórdia
abrimos o grito em sã competição
a voz enrouquece
mas é pela nação

sem problemas de cor credo ou raça
eliminamos os dissídios de classe
e lutamos armas iguais pela vitória
- exeptuamos berlim que aí
hitler volta as costas à história -

na praça do desporto damos as mãos
na concentração de massas unicéfalas
alpinista do peão emigrantes da glória
matamos o árbitro e nesse movimento
esmagamos quem oprime - claro em pensamento

que tudo na praça do desporto tem seu preço
- como na da canção -
se um ganha outro perde nesta confrontação
cada campo é de desporto e de concentração


In silêncio mordido, Plexo, 1974

Foto : Forte de Peniche - Pedro Correia






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abril 14, 2006

poema para charly

o poeta social o poeta do amor geral
tinha ossos na alma mão acilosadas

é preciso que se ame enquanto a recordação dura
e nada é frio nada são olhos de morte mãos no cérebro

à porta da decepção os átomos de carbono
acenavam lenços de assoar

e as casas grandes esmagavam o jardim


é o tempo
que chega o tempo de não chegar as televisões
gritam bombas conquista diária da morte

é preciso charly é preciso que se ame com raiva
e átomos fissionados até um inexistente
deus voltar a cara ao polígono dos dedos
em orações de corpos de mulheres ao nosso

baloiçam as pernas nas caudas dos cometas
seca a areia come-se espaços de sermos pouco

basta do tempo do nada que chega


In silêncio mordido, Plexo, 1974 Posted by Picasa
Foto: Pedro Correia

abril 12, 2006

cupelon



sobre a guiné havia brumas
de histórias sem regresso

na noite
em calmosas mentiras
dormiam pântanos incêndios
e dois homens mortos
em casa do grotesco

bissau quase um pouco de nada
um corpo mulato a vários níveis de crédito
convidado para o grande reveillon do fim da vida

hospital militar 241 nos braços dos helicópteros
ou a surpresa de morrer em cada manhã

um batido de política e desportos
na arquitectura de um sorriso e perfume
para depois das cinco e meia com revistas
e pin-ups e frases que colo no cérebro

máquinas de fazer milagres precisam-se
ou a cristina vai ficar se namorado

in silencio mordido, Plexo, 1974 Posted by Picasa

abril 04, 2006

Não te esquecerei nunca

Cumprir-se-ão 32 anos, no próximo dia 25 de Abril, que no meio dos acontecimentos que revolucionaram o País, saiu, discreto, para a luz do dia um pequeno livro de poesia com o nome de Silêncio Mordido.

Foi o meu primeiro livro editado e, no dia da sua saída, ficou por completo abandonado, mesmo por mim, porque aquilo que este livro denunciava e atacava, acabara de ruir sem honra nem glória.

Com o avassalar de acontecimentos quer o lançamento, quer a distribuição do livrinho ficaram muito comprometidos e se despercebido nasceu, despercebido continuou até que um dia, passados muitos anos, um amigo me disse, meio envergonhado, que numa banca de alfarrabista, no Parque Mayer, estavam, a preços da chuva, alguns quilos do meu Silêncio Mordido.

Corri ao alfarrabista e por tuta-e-meia comprei as centenas de exemplares à venda.

E aí lhe fiz correr o destino entregando-o a leitores seleccionados, que sabiam muito sobre as suas circunstâncias.

Explico.

O livro trás a seguinte dedicatória:

“À memória de MANUEL JOÃO

Alentejano. Mineiro em S. Domingos ceifeiro em Baleizão. No dia 7 de Abril morreu. Na linha de Cascais, sob um comboio. NÃO FALOU. “

O Manuel João tinha mais de cinquenta anos nessa altura e estava quebrado pela dureza da vida e pela prisão política. Tinha os cabelos fartos e brancos e uma voz de quem pede desculpa. No entanto espantava tanto por tantas coisas que um dia, um administrador da empresa onde ambos trabalhávamos comentava comigo em jeito de admiração: Sabe que o Manuel João lê o Alves Redol??!! Um contínuo a ler…!!!

Sabia e sabia muito mais. Que dava apoio e guarida em casa a gente perseguida pela PIDE e que, na Sexta-Feira ante da sua morte, ao findar do dia, me revelou uma sua grande preocupação. Tinha sido levado uns dias antes à PIDE. Tinham-no interrogado brevemente e, coisa admirável, deixaram-no sair sem muitos problemas. Do seu saber arcano isto tinha-o feito desconfiar muito e percebeu que continuava a ser seguido. A preocupação que me confiou foi: - Estou velho, tenho medo de já não aguentar o interrogatório e de vir a dizer coisas que não devo.

Confortei-o conforme me foi possível mas com pouco êxito. O Manuel João lá se foi a caminho de casa e do fim-de-semana.

Nunca mais o vi.

Disse-me posteriormente o irmão que pela manhã desse sábado, na estação ferroviária de S. Domingos de Rana, esperava o comboio, perto da mulher, quando se apercebeu que a PIDE o ia prender.

Beijou-a e disse-lhe qualquer coisa como isto – Eu não falo. Adeus!

Atirou-se para baixo da composição, que passava no momento, mordendo, para sempre, os seus segredos.