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abril 09, 2010

Em louvor dos corruptos, hipócritas e mentirosos




(esta crónica deverá ser acompanhada com o trautear de fundo do Requiem de Mozart)
Era ainda menino quando recebi uma lição que, para mal dos meus pecados, nunca levei muito a sério. Foram precisos muitos anos, muitas escorregadelas e estampanços na dura realidade, para que desse, a esse ensinamento, o devido valor. Tratava-se de uma frase amiúde repetida por um homem inteligente, ou observador, que do alto do seu saber e posição, fazia dos seus ditos regras. Dizia ele, da cátedra de Governador Civil, que no Alentejo, para se ser respeitado, não se podia ter mais que a quarta classe nem menos de quatrocentos porcos. Assim, lapidarmente, completava alguns rifões que têm sido apanágio da cultura popular. Para não ficarem em excessiva curiosidade e poder sobrevir-vos algum stress traumático, aqui vão eles. O primeiro, corroborando inteiramente o dito do senhor Governador é: Este gajo sabe muito, numas versões; ou mais forte ainda: este gajo sabe de mais. E aqui temos o início de uma catilinária de analfabetos funcionais, contra quem se esforça por compreender profundamente as coisas, sendo por isso considerado como uma ameaça para aqueles apenas interessados em aperceber-se do superficial e desde que tal não lhes custe muito esforço. O segundo, dito sempre numa admiração basbaque e dirigido a quantos, sem quaisquer rebuços morais, vivem e prosperam à sombra de chicanas e aldrabices, é o exclamativo: aquele gajo é cá um espertalhaço ou, noutra versão, aquele é que sabe viver.


Aqui temos senhores a explícita dicotomia da nossa agónica civilização. Mas, pergunta-se: numa sociedade possuidora de tantos meios e conhecimentos, como é possível chegar a este ponto de decepção a caminho do desespero? Vêm-me então à ideia o ocaso dos impérios. Sempre na sua agonia existiu a perversa esperança de que os bárbaros viessem e na sua destruidora chegada regenerassem as patologias civilizacionais. O momento antecedente a este desejo insano foi sempre pontuado pela desilusão dos povos perante o desprestígio galopante das suas instituições.

O caminho para tal estado de coisas é lento. Imperceptível no início, desliza depois velozmente, em plano inclinado, até um tão profundo apodrecimento que mesmo a destruição de tudo parece ser mais fácil de suportar, ou transportar mais esperanças, que manter os velhos e desacreditados figurinos. Tudo começa, imperceptivelmente, com a perda de valores solidários. O egoísmo, o enriquecimento próprio, contra tudo e contra todos, institui-se como valor axial e tudo subordina. Que importa que fulano seja um coerente defensor das suas ideias, se isso o não faz enriquecer mais um euro? É pôr de lado, que não interessa a ninguém. Porque os valores são trocados por uma contabilidade a corrupção aparece como forma de consagrar uma nova ordem, novas potências, outras dependências. O poder, até aí utilizado no pressuposto de servir a comunidade, passa a ser unicamente veículo de promoção pessoal. Na estrénua procura de sustentar a sua indefensável posição, o corrupto torna-se hipócrita e, mesmo que profundamente errado e prejudicial, apenas apoia e louva aquilo ou aqueles que podem ser úteis aos seus mesquinhos desígnios. Pretende apresentar a falsidade e traição como verdadeiras virtudes.

A hipocrisia é uma hidra de várias cabeças com um corpo de mentiras. É essencial ao hipócrita dominar a fala de língua bífida. Como um mentiroso se apanha mais facilmente que um coxo, dizem, é preciso, para defender possíveis percalços, preparar um conjunto de seguidores e altifalantes, pagos a bom preço, os quais, pelo ruído e repetição, apoiem descaradamente a sua mentira tornando-a numa verdade. Partem sempre do princípio que o resto do mundo é estúpido e nunca conseguirá aperceber-se do logro em que o querem lançar. Dependendo do poder e do lugar de emissão, o êxito estará, na maior parte dos casos, assegurado.

É claro que as inúmeras contradições surgidas, nunca passíveis de prova concreta e evidente - por mor das cascalhantes companhias interessadas na continuidade dos ardis - vão criando uma atmosfera pesada e incómoda onde toda a gente começa a sentir que qualquer coisa não vai bem, que um mal-estar difuso mas persistente se insinua, cobrindo tudo de cinzas, criando uma ameaça, mais pressentida que manifesta, de permanente inverno. E a gangrena seguirá triunfante o seu caminho.

Devemos ainda referenciar o indispensável apoio dos medíocres. Daqueles que sempre reclamam mais e mais direitos e nada fazem para cumprir os seus deveres. Aqueles que esperam que tudo lhes chegue sem esforço são os apoios necessários e fatais do reino dos corruptos. Sem eles, que publicamente falam contra a corrupção, a hipocrisia e a mentira, mas que nada fazem de útil para a erradicar das suas práticas, a consentem e, na sua pequenez, a apoiam (esperando a migalha caída da mesa dos patronos) a vérmina não poderia subsistir. Mas isso exigiria esforço, claridade e, muitas vezes sacrifícios. Volta-se então ao senso comum do deixe-se estar o presidente da Câmara que, embora roubando faz qualquer coisa, porque ao mudar, não só se arranjam chatices, como podemos lá pôr um que não faça nada. Brilhante conclusão. Justifica tudo. A cobardia, o oportunismo, a menoridade cívica e mental. Por estas estradas vamos desconfiando dos políticos, da justiça, das mais instituições. Fatalistas encolhemos os ombros em trágicas desistências, murmurando, por entre dentes, o que se há-de fazer! Isto foi sempre assim. Já não tem remédio!

Na verdade as análises desta gente de vistas curtas, apenas cotejadoras de conjunturas precárias, parecem dar razão a quem assim pensa. Mas veja-se mais longe. Quantas vezes imensas potestades de sólida implantação, parecendo indestrutíveis, pereceram de supetão. É olhar a história. Não é preciso ir muitos longe para testarmos a razão. Mas atenção, depois de acontecida a queda, os mesmos que impunemente declararam nada haver a fazer, chegam-se-nos aos ouvidos com os impantes “estava-se mesmo a ver”, “eu já tinha dito”, “a mim nunca me enganaram”, “aquilo eram elefantes com pés de barro”! Acordam tarde mas já vêm preparados para arranjar um lugarzinho na nova ordem das coisas onde possam acoitar-se. Se não houver cuidado consegui-lo-ão de novo, porque sempre estarão acocorados aos pés de quem lhes poderá dar alguma coisa, sempre calcarão quem se atrever a denunciar as suas práticas, bajularão os poderes sem reservas, serão mais zelosos que quaisquer outros e levarão, sempre além do requerido, a vontade dos seus novos amos, até ao dia em que os possam transformar naquilo que eles sempre foram: corruptos, hipócritas e mentirosos. É preciso ter muito cuidado com os medíocres. Eles são muitos, não têm medidas nem as regras os coíbem. Correm, por isso, o risco de vencer muitas vezes.

É pois da maior urgência que se louvem os corruptos, os hipócritas e os mentirosos. No fundo, ao semearem a podridão, são eles que, sem de tal se aperceberem, aprofundando a dialéctica dos contrários, fornecem o húmus para a construção da nova história.


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março 24, 2010

Bullying à alentejana




(Excerto do capítulo Boa-Nova do romance em construção Concerto para Sanca João)

Saíamos compostos, por filas de carteiras, da sala de aulas. Passada a porta acabava a compostura e com gritos de selvagem liberdade corríamos direito às bicas dos bebedouros, alimentados, a partir da nora, pelo rodar incessante de um burro de olhos vendados, condenado, como Sísifo, àquele eterno deambular sem progresso que se visse. Quando cheguei às bicas já uma pequena multidão chegara à minha frente. Aguardei, na fila, a minha vez. Preparava-me para, dobrando o corpo, torcendo o pescoço, pôr a boca abaixo da bica escorrente quando, imperiosa uma voz eclodiu no recreio:

- Chegar e “boer”!

Desconhecia, por novato, as regras do recreio. Faziam gala, os alunos da quarta classe, em chegar ao recreio depois de todos os outros. Deixavam formar as bichas de pirilau para a dessedentação e então, fazendo valer o direito da sua senioridade e maior força física, afastavam os pobres gaiatos do bebedouro. Como estava na minha vez de beber, continuei sem me importar com a ordem do brutamontes o qual, colocando-se atrás de mim repetiu “chegar e boer”. Aos meus ouvidos moucos sucedeu um chapadão. Bati com o lábio na bica, rachando-o e abrindo um entorneiro de sangue que fez acudir o vigilante. Que se passa aqui? Nada, disse a brutidade. O puto escorregou e feriu o lábio. Ninguém tugiu nem mugiu. Olhei bem para a cara do mânfio enquanto era levado para a enfermaria para ser tratado.

Quando a minha mãe me viu com o lábio num trambolho ficou aflita e irritada. Que não, dizia o vigilante, não fora briga nenhuma. Escorregara no chão molhado do bebedouro e magoara-me. Calei-me e só a caminho de casa contei à minha mãe o acontecido. Amanhã levas um barril com água. Isso não volta a acontecer, decidiu. Escolhi o barril. O maior! Feito de um barro forte e vermelho. É muito grande! Não, mãe. É este que eu quero. É bom. Mas vais muito carregado para a escola. Não vou. Ponho um cordel dobrado entre as asas e assim não custa nada. Raio de rapaz, teimoso como tudo. Levei a minha avante e, no dia seguinte, sozinho, derreado pelo peso da sacola de serapilheira levada a tiracolo e pelo incómodo do barril, lá fui para o meu segundo dia de aulas. Embora gostasse de aprender e o início do ano fosse mais passado em jogos que em qualquer coisa parecida com aprender – inquieta a minha mãe perguntava-me se já escrevera letras, lera ou cantara a tabuada ficando muito desiludida quando lhe dizia só cantámos, jogámos e o professor é que leu e falou connosco sobre o que tinha lido – nesse dia o tempo, até ao recreio da manhã, parecia não passar. Mal se ouviu o toque da campainha saltei como mola retesada levando o professor a mandar-me sentar advertindo: mesmo que o sino toque só se levantam quando eu disser. Permaneceu pétreo, olhando-me fundo, debaixo do crucifixo, enquadrado pelas fotografias, sempre presentes, do Marechal Carmona, feito presidente da República e do verdadeiro mandante Oliveira Salazar. Ao podem sair corri para o bebedouro encostando, com desvelo ao peito, o pesado barril cheiinho de água. Não fiquei na fila. Coloquei-me estrategicamente nas imediações das torneiras e aguardei que chegasse o crápula que me tinha rachado o lábio. Quando o espertalhão se inclinou para beber só deve ter notado o barril a atingir-lhe as têmporas quando o rasgão na pele se abriu e o sangue dele se derramou no exacto lugar onde o meu correra no dia anterior. À estupefacção de caloiros e veteranos seguiu-se um burburinho da malta da quarta a avançar contra mim. O voltear do barril na minha frente, fazendo um zunido de vento a ser cortado, dissuadiu a turba das intenções vindicativas que contra mim laboravam. Quando o vigilante, sempre tardio, apareceu eu, adiantando-me a todos os outros, olhei-o bem fundo nos olhos, informando-o: escorregou na lama ao vir beber. Ninguém me desdisse e nunca mais, estando a beber, alguém com insolência me disse: “chegar e boer”

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março 18, 2010

Pedofilia




(Excerto do capítulo “Boa Nova” do romance em construção “Concerto para Sanca João”)


…Que os santos me perdoem esta dúvida mas foi o seminário o primeiro plantador de suspeitas. Aconteceu no meu segundo ano. Era prefeito da camarata o Padre Lucas. Fosse embora seu mester submeter a apertada vigilância os jovens a seu cuidado, vendo se tomavam duche de calções e camisola interiores vestidos, se dormiam com as mãos fora das cobertas, cumpria a sua tarefa de forma doce como se de brincadeira se tratasse. Obrigava-o a sua função a adormecer muito depois de nós e a acordar antes. Tudo fazia por bem o santo homem e sendo o último a abandonar a camarata, era o primeiro, aos alvores da manhã, a acordar-nos com palavras bem-dispostas, tal ave madrugadora em solarengos madrigais. Todos gostávamos dele até que um dia o Zé Maria, em assustada confidência, nos disse o padre é maricas. Não pode ser! Cala-te Zé Maria. O que estás a dizer? Não cabia em nenhum de nós semelhante pensamento. Era aterrorizador. O nosso prefeito! Sim, confirmava Zé Maria. Ontem, já vocês dormiam todos senti que alguém me levantava as roupas da cama. Fiquei borradinho de medo, sobretudo quando vi que era o padre Lucas que estava a tentar desapertar-me o laço das calças do pijama. Quando abri os olhos ia gritar. Tapou-me a boca e disse chiu! Estou a ver se não te estavas a masturbar. Se gritares ou disseres alguma coisa vou informar o reitor de que te apanhei em masturbação. E tu? Calei-me e ele bateu-me uma punheta.

Se não fosse o Zé Maria a contar não íamos acreditar. Mas ele era nosso amigo já na Cidade e, filho de sacristão, não iria mentir e inventar uma coisa daquelas sobre o padre Lucas. Que vais fazer? Vou-me embora do seminário. Não estou para isto e se ele sabe que falo com vocês ainda me arranja um sarilho. Vê lá se ele conta ao meu pai. Não vais nada embora, disse o Bento, já reconciliado comigo e decidido a ser amigo porque ambos éramos estrelas, a gente resolve isso. Resolve como, perguntei. Fácil! Logo à noite fingimos que adormecemos. Quando o padre Lucas for ter com o Zé Maria ele começa a gritar ladrão, ladrão e nós pomos os cobertores por cima do padre, arriamos-lhe uma carga de porrada e vais ver que ele não é capaz de fazer nada que te lixe! Combinação feita, espera, depois do apagar da luz, que o padre viesse ao local do pecado. Veio e tudo aconteceu como o previsto. Foi tanta a algazarra que o Reitor, cujas instalações eram próximas desta camarata foi quem abriu a luz. O quadro era por demais explícito para que merecesse dúvidas. Em cima da cama, berrando com um desalmado o Zé Maria, de calças de pijama caídas, continuava a gritar ladrão, ladrão, enquanto saltava que nem um cabrito, como se histérico estivesse. Debaixo dos cobertores lançados por sete putos, em pijamas ou ceroulas, debatia-se o padre Lucas. Severo, o reitor, mandou que Zé Maria se compusesse e ordenou ao padre Lucas, já para o meu gabinete. No dia seguinte já ninguém viu o padre Lucas e, na hora de estudos, um novo prefeito transmitiu que o padre Lucas se ausentara por ter sido acometido de perturbações mentais.


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março 08, 2010

Memórias XIX - fragor de rosto




I

um mosquito doido pousa na vidraça
o cais alonga-se ao correr do risco
rumo de olhares contemplando chuvas

a água da nascente aperta-me a garganta

II

trazes hoje um semblante de palavras
imensa descoberta que se espalha triste
sobre a sombra da tarde

a paisagem habita-se de encostas
de outros impossíveis campos rompe a floresta
e escala oculta a imperfeita génese dos contornos
mágicos das cinzas das estrelas coalhadas de espanto

por agora nas manhãs enregeladas suponho o ritual
estandarte onde se agarra o vento
dos corpos nos traços das ofertas

canto o nome dos lugares de todo o procurar
a harmonia inteira o que se pode sorrir
entre os cortados de montes e paisagens
sem rios e sem diferenças

ao revés da cera em que a tarde se esbate
em passo apontado ao outro lado
o silêncio aquece o rubor estridente dos campos

III

na vidraça doido dança o doido do mosquito



Lisboa, Fevereiro de 1984

março 03, 2010

A Justiça do Segredo




O Artigo 2º da Constituição define-nos como um Estado de Direito Democrático, onde, pelo menos em tese, a soberania reside no Povo. Quer isto dizer que todos os poderes legítimos derivam da vontade popular livremente expressa e do princípio da separação dos mesmos. O legislativo e o executivo são eleitos. O judicial não! Os seus hierarcas são votados, cooptados ou nomeados corporativamente ou pelos outros poderes dos quais são teoricamente independentes. Possuem, portanto, uma legitimidade delegada por quem também já tem um poder igualmente delegado. No entanto não seria por aqui que o gato iria às filhoses. O problema é que a estes mandatos que, pelas suas circunstâncias, ousarei chamar de limitados, juntam-se as questões de inamovibilidade e da irresponsabilidade, isto é, a nenhum juiz poderá ser retirado um caso por conveniências quaisquer, nem lhe poderá ser imputada responsabilidades sobre as decisões tomadas. Princípio justo que pretenderia salvaguardar a independência dos juízes mas que exigiria, continuadamente, que a existência dessa mesma independência, não fosse, de qualquer modo, comprometida pelo modo de designação, por compromissos partidários ou pela defesa do corpo fechado de agentes em que estas instituições se podem transformar. Por uma perversão de carácter o que era um meio poderá constituir-se como fim e, por vezes mesmo no único objectivo dessas instituições, numa lógica própria de sobrevivência e reprodução dos estatutos dos seus membros.

As semanas anteriores têm vindo a ser incendiadas por um vívido debate sobre o segredo de justiça e a legitimidade de o mesmo ser ultrapassado quando o interesse colectivo se opõe ao individual. Levanta-se uma primeira perplexidade quando, estando a soberania no povo, algo ou alguém, com um poder dele derivado, se permite decidir unilateralmente o que lhe deve ser dito ou ocultado. Por mais uma das abundantes subversões das nossas relações sociais perde o mandatário essa qualidade, passando a entidade subordinada a mandante, reduzindo tudo ao critério dos seus interesses institucionais. No limite chegaremos ao velho conceito salazarento do povo-criança, impreparado para entender os subtis caminhos das governações, a quem deve ser evitado o esforço desumano de conhecer e opinar sobre acontecimentos determinantes para a sua vivência.

Por tais artes parece estar assente o sacrossanto dever de preservar a todo o custo o dito segredo de justiça. Interroguemo-nos qual será o fim deste recato quando o que ele preserva são crimes contra pessoas ou bens, que deverão, por definição, ser públicos quer no julgamento quer no resultado a que se chegue em sede de juízo. Dizem-nos os mestres do Direito que tal secretismo poderá ser útil, durante algum tempo, para preservar e possibilitar a investigação. Muito bem! Estamos visivelmente na presença de um meio de duração limitada e com a única finalidade de facilitar a obtenção de provas, não alertando para tais intentos os indivíduos suspeitos. É compreensível e aceitável. Evita-se assim a destruição de provas e a obnubilação de factos ou circunstâncias. Só que, passado este momento crítico, o segredo de justiça será retirado e o processo ficará em domínio público. No entanto não é isto que verificamos no quotidiano judicial. Os inquéritos são intermináveis e o segredo de justiça nunca mais acaba. Resultado? Insatisfação, revolta e constantes fugas de informação no intuito de ilibar ou castigar, em público, o que a justiça não fez, em tempo, nos seus palácios. É a homeostase da sociedade civil a equilibrar os poderes mal entendidos que pretendem dominar o conhecimento e o direito de cada cidadão.

O caso mais flagrante e contemporâneo é, como toda a gente sabe, o das escutas telefónicas orientadas para negócios de sucatas que aparentemente apanhou na rede peixe muito mais graúdo e negócios de muito maior monta. Os representantes da justiça, em Aveiro, viram crime onde o Presidente do Supremo Tribunal e o Procurador de Justiça nada viram que tal se parecesse. Provavelmente andaram em faculdades diferentes e estudaram outro direito, porque tudo é gente de bem e ninguém cede a pressões de chefes ou governantes. O que neste caso me impressiona é o poder desmedido concedido ao Presidente do Supremo e ao PGR. Então se um primeiro-ministro for apanhado numa escuta a perpetrar um crime e se tiver poder para pressionar a seu favor qualquer uma destas entidades o crime nunca virá a público nem será julgado? Não é de bradar aos céus que para coisas bem menores seja necessário um colectivo de juízes e para situação de tal monta um apenas seja suficiente? Ou eu estou enganado ou isto não é mera distracção.

Um outro debate que destes casos decorre, mas ficará para melhor oportunidade, é o de saber da legitimidade das escutas, do seu emprego, da sua divulgação e, esclarecer muito melhor o que é do âmbito privado ou não. É que no limite mesmo combinar-se entre duas pessoas um golpe de estado ou a morte de alguém, desde que seja feito por meios próprios e entre duas pessoas poderá sempre ser uma conversa privada e, a contrário, se duas personalidades públicas falam aos telefones de suas casas, dos filhos, da mulher ou da amante corre-se o risco do exagero de se considerar conversa de interesse público. Como se vê o tema é vasto, perigoso e merece certamente melhor tratamento que aquele que a baixa política anda a dispensar-lhe.

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fevereiro 24, 2010

Baralhar e dar de novo




Ele há coisas assim. De repente tudo o que parece firme e claro, como por artes mágicas, rebenta noutras perspectivas até aí de todo desconhecidas. O que parecia tão firme e claro era a anunciada disputa do lugar presidencial entre o verbo inspirado do poeta e a deficiente comunicação do professor de economia. A direita temia o resultado do recontro, a esquerda embandeirou em arco e precipitou-se em apoios e gritos de arraial! Arraial! Até pareciam monárquicos!

Foi o factor Nobre, de Fernando, entenda-se, que veio desestabilizar esta contenda anunciada. Entrou de rompante pelo simples facto de anunciar que iria reclamar um direito. O de, sendo português maior de 35 anos de idade, poder disputar o lugar de Presidente da República. É claro que toda a gente nos partidos sabe isso, concorda inteiramente, desde que o candidato “independente” seja um político por eles reconhecido.

Ao anúncio devastador de contas feitas correspondeu um murmurar incomodado – da direita à esquerda – de que o homem seria um cidadão notável, nada havendo, senão elogios, a apontar na sua vida, que dera provas nas mais difíceis situações de capacidades notórias de liderança e organização mas que, facto imperdoável, não tinha experiência política relevante. Quer isto dizer, em partidês, que Fernando Nobre não sabia, não quereria ou não estaria disponível para entrar nos jogos dos interesses de poder e aparecia com um perturbante e muito dispensável discurso sobre valores e ética.

Como se sabe, ao olhar o panorama nacional, nenhum dos nossos políticos de capa de jornal precisa de noções de ética. Toda a população reconhece neles os seres impolutos que são, magros de preocupação com o bem-estar geral, descuidando escabrosamente os seus interesses pessoais em prol do bem comum; inquietando-se plenamente com o conseguimento da justiça civil e da equidade social, sofrendo atrozmente nas raras vezes que tal não acontece neste país onde até o primeiro-ministro – ao contrário do que acontece pelo mundo fora - fala sempre verdade.

O Presidente Cavaco tem andado debilitado na saúde política. O Verão foi-lhe nefasto e não fora a Face Oculta ter desnudado, um tanto por acaso, uma profunda vérmina a grassar entre política, informação e finanças, poderia ser o primeiro Presidente a não bisar o acto. Graças a Sócrates e “sus muchachos” o homem arribou e viu melhorar bastante as suas perspectivas. Também temos de ser humanos. Ainda há poucos se mudou para Belém, começava agora a afeiçoar-se à casa e zumba! Uma acção de despejo. Isso não se faz! É falta de humanidade. Nenhum rancor justifica uma família sem tecto. Dizem-me vocês não ser bem assim, que ele até tem o apartamento em Lisboa e a moradia no Algarve, que está bem de vida, tomara a maioria dos portugueses ter o que ele tem, etc. etc. etc.. Pura inveja, meus caros. Alarguem as vossas vistas, não olhem para o que ele tem, mas para o que ele faz. Não se esqueçam de quem, tão acertadamente, traduziu a Lei de Gresham – aquela da má moeda expulsar de circulação a boa moeda – em termos políticos referindo-se aos notáveis desempenhos do nosso primeiro Santana. Vocês eram pessoas para chegar a tão brilhante raciocínio? Vá lá ponham a mão na consciência e reconheçam onde o saber e a grandeza estão. Se posteriormente se contradisse e o veio a apoiar não foi coisa diferente do que entre ele e o insubstituível Alberto João se passou. Portanto, amigos, existe aqui uma coerência na contradição e arrepio que nós só não compreendemos pelas nossas muito evidentes incapacidades. Felizmente lá estão os iluminados para pensar por nós e nos conduzirem ao correcto caminho. Deus os leve breve para a sua companhia porque nós, que aborrecimento, não estamos sequer perto do seu nível e somos um insuportável tédio nas suas vidas.

O candidato Manuel Alegre sonhava já com a vitória que pôde almejar nas últimas presidenciais. Não deve ter levado em linha de conta que, mau grado os anúncios da sua bem colocada voz, se foi aproximando, talvez sem se aperceber, do lamaçal existente ao redor do seu Secretário-geral. Não comunga dos benefícios que à matilha couberam? Creio bem que não! Mas não deixou de se encantar com a possibilidade (a última que lhe resta de chegar à Presidência) de, encostando-se a Sócrates – sobretudo na recta final – apoiando-o para uma vitória eleitoral que ratificaria a política que vinha invectivando, perder a força da verdade que o mantinha. Hoje, por ironia, ocupa o lugar que pertenceu a Mário Soares. Será o candidato oficial de um partido pouco interessado neste casamento e que nada fará de essencial para que a noiva seja feliz ou possa cumprir a sua missão. Apesar da sua proclamada independência terá sempre que ajustar-se à exagerada factura que o partido lhe apresentará.

O lugar da esperança, que já lhe pertenceu, passa hoje por Fernando Nobre. Estranho é ouvir, vindo de apoiantes actuais, as mesmas diatribes que contra ele foram lançadas anteriormente. Não tem aparelho de suporte, não tem dinheiro, quem é que o subsidia? A candidatura de Manuel Alegre que olhe para trás e verifique o que com ela aconteceu. Fomos nós o seu aparelho, as suas finanças, o seu poder. Hoje muitos de nós já não se reconhecem na sua atitude. Temos esse direito tal como ele tem o de seguir o caminho para si mais conveniente. Terá de conceder-nos que tal via poderá não ser a nossa. Tudo na vida tem um preço e há que pagá-lo!

Em acerto de contas de previsibilidade política é certo que as duas candidaturas poderão enfraquecer a esquerda e possibilitar a vitória da direita. Só que nem isto é absolutamente certo, nem os destinos de um povo são uma mera contabilidade de deves e haveres. Há uma esperança em dias melhores que não passa, tantas vezes, pelo que parece evidencia inelutável. Como dizia um outro poeta: “pelo sonho é que vamos” e precisamos urgentemente de um pouco de sonho neste tão viciado ar do quotidiano português. Precisamos de respirar sem que o metano do pântano nos envenene e a pressão dos interesses nos esmague.

Para já, o meu voto que seria nulo, passa a ter, de novo, expressão e eficácia!





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fevereiro 09, 2010

A deriva autoritária




Farto de que o meu amigo Belegário me saturasse os ouvidos martelando ininterruptamente na tecla: “ eh, Pá, tu não gramas o homem”, arrumei, por uns tempitos a necessidade de reacção escrita aos acontecimentos e deixei-me pastorear vagares sem qualquer sentimento de responsabilidade social. Fui fazendo a vida naquela do deixa lá ver se o Belegário tem razão; se o homem não é nada daquilo que eu penso, digo e escrevo e se não será a minha má vontade, ou um arreigado preconceito, que me obriga a ver constantes intenções malévolas em quase tudo quanto a criatura faz.

Os dias foram passando e veio a Face Oculta, o drama do orçamento, o caso Crespo, a tragédia da Lei de Financiamento das Regiões Autónomas, o Conselho de Estado, as pressões das agências de “rating”, as veladas ameaças de demissões e a publicação, no Semanário Sol, de parte das escutas feitas às personagens requentadas que rodeiam o nosso primeiro-ministro.

Pensei: “vai-te lixar Belegário, o erro não está em mim, mas sim no sujeito verdadeiramente (ir)responsável por toda esta confusão”. O meu engano, se tal tropeção cometi, é não ter sido suficientemente cáustico, nem deter a eficácia necessária para, tal Zeus irado, fulminar com verbo mais penetrante a couraça de desvergonha daquele pequeno Berlusconi.

Sempre lhe reconhecemos um inveterado pendor para confundir a democracia com a sua vontade própria. Parecia-nos estar mal apetrechado para uma sã vivência democrática, mas lá íamos aguentando naquela de reconhecer como defeitos, em certo grau toleráveis, de alguns espíritos com ânsias de poder, uma necessidade grande de empolamento pessoal, de disposição predatória, de vontade de conquista de estatuto perene. Ora, com é sabido, estas, quando intensas, são mais disposições de regimes monárquicos absolutos, de governos autoritários auto-eleitos, que de gente predisposta ao jogo democrático de obtenção e perda de poder - conforme a vontade expressa dos cidadãos - constantemente limitado por fiscalizações e regras, nunca transmissível e sempre, sempre, precário.

Dá-se mal com estas questões o nosso governante. Direi mais! Pensa-as obstáculos à efectivação da sua grandeza, da qual não duvida por sempre reafirmada pela pouco interessante trupe, daquelas coisas rasteiras, que o rodeia.


Já tínhamos estranhado as posições equívocas no agendamento, discussão e reprovação de leis claras contra a corrupção. Aos nossos olhos ingénuos não se tornava perceptível a razão de a um discurso oficial moralizante não sucederem acções conducentes à eliminação dessas práticas lesivas do bem público. Sentíamos a injustiça de experimentar quanto a crise pesava em números de desempregados, de desesperos, de aperto económico da maioria da população; de como os direitos sociais iam sendo diminuídos por falta de dinheiro e como patifarias feitas em bancos particulares se tornavam em prioridades económicas e em sorvedouros de fundos sempre disponíveis. Não percebíamos também como se congelavam salários e pensões ridículas e não se agia sobre as pensões sumptuárias, os “offshores” e não se taxavam as mais-valias da especulação bolsista.

Mas um dia, ao ler um livro de que não recordo o nome, fiquei esclarecido. Dizia o autor, reportando-se a tempos idos, que a diferença entre os governantes aristocratas e os republicanos era muito simples. Enquanto os primeiros já tinham fortunas consolidadas e só procuravam mais poder e aumento de estatuto, os outros, além de querer o mesmo que os aristocratas, tinham ainda de conquistar as suas fortunas. O pouco tempo que tinham para o fazer não dava aso a grandes sofisticações de métodos. Sendo simplista não deixa esta explicação de nos pôr a pensar sobre a verdadeira razão das coisas.

Pois, é! O mal da governança é de que não durando todo o tempo, cria maus hábitos. Como passar, de repente, das alturas do poder para a rasteira vida civil? Se a grande parte destes zelosos servidores do Estado não têm, ou não se lhes conhece, outras quaisquer competências? Ou se as têm diminuídas como suportar a ignomínia de andar de cavalo para burro? Nós compreendemos que têm de tratar da vidinha. No fundo são simples mortais com os comezinhos problemas de pagar a casa, a saúde, a alimentação, os estudos etc.. etc.. etc.. Só não compreendemos nem aceitamos que para conseguir tais desideratos tenha a democracia que ser ultrajada, o Estado que ser degradado e as misérias económicas e morais sejam a regra e não a excepção.

Com a centenária República neste estado quem se admira que o vulgo se refugie numa saudade doentia de pessoas, que só por esquecimento e por comparação com a mesquinha actualidade sobrevivem e que deveriam, para sempre, estar sepultada no mais fundo inferno da lembrança das gentes.


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dezembro 08, 2009

Igreja do Lavradio – uma falhada sistina?




Na passada sexta-feira, no almoço da Tertúlia do Pato Bravo, comentava com o Nuno Banza e o Sousa Pereira, o quadro sobre a Paixão de Cristo, encomendado pela Igreja do Lavradio ao Pintor Kira. Dizia eu que aquela tela haveria de fazer história. Para tal baseava-me na concepção da obra, a qual, apesar de algumas servidões ao gosto litúrgico, impostas pelos encomendadores do quadro, arrojava-se, nas figuras que acompanhavam a morte de Cristo, a representações pouco ortodoxas e, por isso mesmo, fortes e demonstrativas da compunção e tristeza gerais acarretadas pela morte do Filho do Homem.

Era baseado na iconoclastia destas figura, que o meu comentário, no citado almoço, apontava para um atribulado caminho para esta obra. Só não pensava que, naquele mesmo momento, essa história já tinha começado. Soube-o pelo Blogues Pintor Kira e Poleiro Pá. Afinal, a inauguração do quadro, que deveria ocorrer no próximo dia 8 de Dezembro, inscrita num cerimonial mais vastos, com ordenação de padre e presença de Bispo, já não iria acontecer. Porquê? Porque os bons padres se negaram a pagar o trabalho e pretendiam que o mesmo fosse oferecido à Igreja. Achei esta atitude abusiva e pretendi saber a verdade dos factos. Para tal nada melhor que perguntar ao Pintor como este desencontro tinha sido possível.

Segue-se, resumidamente, a história.

De há uns cinco anos a esta parte o Kira vinha a ser solicitado para fazer um quadro para a Igreja do Lavradio. Dada a sua orientação artística não ser a da arte sacra foi adiando a questão até que, este ano, por maior insistência decidiu anuir ao pedido. Foi-lhe então encomendada a execução de dois quadros, uma crucifixão com as dimensões de 3 metros X 2 metros, para a Igreja e um outro de 2 metrosX2 metros para o baptistério. Perante a monumentalidade da obra o pintor comunicou aos padres não ter dinheiro suficiente para comprar as telas. Do então argumentado ficou patente que a Igreja adiantaria o dinheiro para os materiais e que o pintor faria depois um “preço para amigos”. Acertadas as coisas recebeu o custo da tela maior e começou o trabalho pagando, do próprio bolso, algumas centenas de euros para os restantes materiais. Durante os seis meses que durou a concepção e concretização da obra não foi possível ao pintor pegar em qualquer outro trabalho. Os padres sabiam disso pois não só foram acompanhando a feitura da obra como requereram algumas modificações. Mais, sugeriram ainda que fosse pensando numa Via Sacra para a Igreja. Ora a Via Sacra é composta por 15 estações, o que significava a elaboração de quinze pinturas alusivas, todas de grande porte. Quase dava, com ironia e pelo tempo necessário a tal consecução, para que se assinasse um contrato de trabalho a muito longo termo. Estas questões foram ganhando, pelo que agora se entende, uma estranha ambiguidade. Assim, para o Kira o trabalho seria remunerado com um preço a combinar, para além dos custos dos materiais. Para os bons padres o trabalho seria suficientemente remunerado com o pagamento da tela (esquecendo as tintas, o tempo, o trabalho e a concepção) e o sublime privilégio de tornarem o Kira numa espécie de Miguel Ângelo, mal pago, do Barreiro. Não ficou claro se o artista deveria ainda fazer um agradecimento à Igreja pelo favor de se ver espoliado do valor do seu ganha-pão

Partindo do princípio que na sua produção o pintor fará uma média de 1.500 euros por mês, só o custo do tempo de trabalho investido neste quadro seria de 9.000 euros. Com os materiais gastar-se-iam, no mínimo mais 1.500 euros, ficando (sem ter em conta a remuneração artística) o quadro em 10.500 euros. Este preço seria, em termos de mercado de arte, muito baixo para a obra apresentada. No entanto o que o Kira pediu como remuneração era tão-somente cerca de 10% deste valor. Na verdade um preço mais que de amigo. A que responderam a isto os santos homens? Que esperavam que ele fizesse a oferta das obras à Igreja, fazendo com que o ofendido e pré-espoliado artista perguntasse se iria alimentar a família com hóstias.

Com os acontecimentos nesta posição, o quadro que já estava na Igreja, foi retirado e está agora no atelier do pintor à espera do seu destino depois de o Kira, num acto de grande honestidade, ter devolvido à Igreja o dinheiro adiantado para a tela. É uma pintura de venda problemática, mais pela sua envergadura que pelo tema. Somente poderá figurar num grande salão sob risco de, em qualquer outro lugar, esmagar qualquer envolvência. Fica-me pela mente a pergunta se estamos, pela parte da Igreja, perante uma grande ingenuidade, desconhecimento do real da vida, má-fé ou ainda outros pressupostos de que é melhor não falar. Para melhor compreensão do quadro e de possíveis motivações não ditas, cito uma apreciação do mesmo feita, num comentário no Blogue Kira Pintor, pela Dr.ª Fernanda Afonso:

“Gostaria de acrescentar algo ao que tem sido dito. Parece-me que a situação o merece. Vejamos o quadro. Este representa, no plano central, o acto sacrificial de Cristo. Na base, a lateralidade das figuras mostra a unanimidade solidária com o acontecimento.
Porém, as personagens não elevam, todas, os olhos para o Senhor ou para a pomba - os padres olham-na directamente, tal como a criança (perplexa) e os homens da "urbe", e por este mesmo facto, indiciam no seu recolhimento a consciência da tragédia no Presente. E o pintor?. De frente, interpela-nos com o olhar, sendo ele o agente da denúncia: Cristo sacrificado está vivo nos dias de hoje. Não é isto uma soberba forma de olhar o sagrado?
A igreja deveria estar grata por uma compreensão tão profunda da crucificação. Não a teve. Caso contrário, honraria o pagamento devido pelas telas, pelas tintas, já que o quadro é a dádiva do pintor à Igreja de Cristo - a da tolerância. Como se acha no direito de só pagar a tela? (parece que nem todo o custo é coberto). E o restante? Não é oferta suficiente a obra de arte?
Cristo não gostaria desta atitude que mais parece de vendilhões do templo... A César o que é de César, a Cristo o que dele é, ao pintor o que se lhe deve!”


Quanto a mim, modesto e inconformado figurante na obra, limito-me a pensar que esta Igreja – parece que em crise ética - perdeu a única possibilidade de alguma vez me ter, nem que fosse deste modo, dentro, ou sobre, as paredes dos seus templos.


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outubro 28, 2009

As escolhas da CDU




Vêm alguns dos meus amigos e companheiros de partido mostrando alguma irritação pela preferência demonstrada pela CDU, na composição de juntas de freguesia, em relação ao PSD. Os comentários feitos por putativos apoiantes dessa força política são, regra geral, de uma acrimónia que junta gasolina à fogueira. Pelo lado dos meus crê-se que se está perante uma ligação contra-natura – seja lá isso o que for – pelo facto de não ser concebível a coligação de políticas de esquerda com as vontades sociais dos eleitos pela direita. Apertados por esta lógica de difícil refutação os apoiantes da coligação vencedora partem para agressões verbais desnecessárias.

Sumariado o evento tentemos uma abordagem mais serena da questão.

Já foi mil vezes repetidos e se-lo-á até à exaustão terem as eleições autárquicas um cariz diferente de quaisquer outras. E bem que eu pense que todas as eleições são distintas umas das outras, dependendo quer do órgão a ser eleito, quer da especial conjuntura em que ocorrem ou ocorrerão, aceitemos pelo seu valor facial, para facilidade de exposição, este enunciado. A principal característica diferenciadora destas eleições seria a da extrema personalização dos candidatos. Efectivamente, a prática tem demonstrado que existe forte mutabilidade na vontade dos eleitores, os quais, tantas vezes, nestas circunstâncias, trocam o voto ideológico pelo voto afectivo.

Aceite este princípio salta aos olhos que a inelutável vencedora destas autárquicas, no Concelho do Barreiro, foi a CDU. Não só a população lhe outorgou claramente a vitória, como lhe concedeu a maioria absoluta na Câmara, e lhe proporcionou maiorias confortáveis ou absolutas em muitos outros órgãos autárquicos. Ninguém, de boa-fé, poderá pôr em causa o claro sentido do voto da população. O corolário desta situação é que, descendo genericamente a votação em todos os restantes partidos e, consolidando-se ou subindo na CDU, esta está armada de uma legitimidade intransponível.

Ultrapassando a posição pessoal de esperar que um dia a maioria sociológica de esquerda se transforme em política, bem como de considerar como perigosa qualquer maioria absoluta, de qualquer partido, em qualquer órgão de soberania, resta-me aceitar, a contra gosto que seja, que os eleitores deste concelho, declararam sem rebuços, o apoio às políticas seguidas e propostas pela autarquia.

Dessa política fazia parte a repartição de Pelouros com o Vereador, Bruno Vitorino, eleito pelo PSD e com o Vereador João Soares, PS, que aceitou o cargo à revelia da posição assumida pelo seu partido. Pelo discurso do Presidente Carlos Humberto, na tomada de posse, presume-se que nesta Câmara se irão manter os pressupostos anteriores. Ressalte-se que tendo obtido a maioria absoluta poderia a CDU fechar a vereação nos eleitos pela sua coligação e, não o fazendo, deve salientar-se a abertura democrática desta acção do Presidente Carlos Humberto.

Não havendo novidades nesta área, até porque ao BE não foi possível eleger um vereador, fica a situação das “perigosas ligações” nas freguesias.

Este ponto de vista parece-me enfermar de uma falta de lógica de continuidade. Se a Câmara disponibilizou um lugar, é certo que exigindo solidariedade institucional, ao eleito do PSD, porque é que não o poderia fazer nas Juntas de Freguesia? Parece-me óbvio que nenhum impedimento sério se pode colocar quanto à justeza desta posição. Os eleitos de qualquer partidos são, quanto a mim, pessoas estimáveis, com as quais convivemos no dia-a-dia e que, tal como nós procuram, dentro da sua perspectiva, o bem destas populações. Poderão objectar que, a nível da Assembleia da República o panorama será bem distinto. É bem verdade que aí, iremos ver, por coincidência de propostas, muitas vezes o Bloco a votar com a CDU e contra o PSD. Só que, tendo isto em vista, não é lícito aos meus camaradas derivarem estes comportamentos a nível nacional, como espelhamento de escolhas ao nível local. O Barreiro, por razões certamente históricas, tem a peculiaridade, várias vezes demonstrada, de as estruturas locais mostrarem uma independência notória em relação às directivas nacionais dos partidos. Veja-se, como exemplo, as posições sobre a Terceira Travessia do Tejo. É bastante ilustrativa e penso não ser necessário trazer mais factos à colação.

Assim sendo, dada a personalização do voto e a desiologização do mesmo, quem é escolhido para o órgão autárquico será, eventualmente, mais a pessoa que o membro do partido. São estes dois elementos que podem explicar as escolhas da CDU. Dever-se-á acrescentar mais um elemento, este sim partidário, que é o do PSD, pelas suas características, não ameaçar o terreno político da CDU e do Bloco, pelo mesmo motivo, pescar nas mesmas águas o que introduz um elemento agonístico na equação. É portanto aceitável que as escolhas havidas só possam ter sido as que foram.

Como não se faz um casamento sem a livre vontade dos nubentes, não deverão os meus camaradas de partido ficar enfadados por terem sido preteridos nas escolhas. É compreensível, pelos factos aduzidos que o tenham sido. Até me parece que tal exclusão é laudatória e deverá motivar a continuidade dos nossos esforços apresentando à população a bondade das nossas acções e programas. Se o soubermos fazer, e relembro que uma eleição se começa a ganhar no primeiro dia do novo mandato e não na campanha eleitoral, os resultados virão naturalmente. Os nossos pontos de vista são, necessariamente, diferentes dos da CDU. Não deveremos pois esperar benesses e facilidades por parte desta coligação, independentemente da qualidade das relações pessoais, devendo sim, demonstrar com clareza as nossas propostas e, como oposição legítima, apresentar, caso a caso, em que se diferenciam e se tornam mais positivas para a população, as propostas e acções que empreenderemos em todos os órgãos em que estamos representados.

O poder autárquico foi estruturado, nos inícios de Abril, com os partidos então colocados nos órgãos de poder. Não será fácil agilizar esta estrutura muito solidificada mas é possível e é esse o trabalho que nos espera. Menos agastamento com escolhas que não nos pertencem e mãos à obra, Camaradas.


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outubro 23, 2009

In illo tempore, Saramago





Nota-se, por vezes, que na voz restante da Igreja, reside uma saudade imensa da força que teve o poder excomungante que lhe permitia calar todas as vozes insubmissas ao seu dizer “paternal”. Mais ainda, fica realmente perturbada quando o que é dito, vem de alguém cujo brado possa ser escutada e a confronte, racionalmente, com a irracionalidade do produto que coloca no mercado. Um mercado, diga-se, onde a concorrência é cada vez maior e o peso burocrático da sua máquina a impede de agir com a agilidade necessária à conquista das almas transviadas por outras seduções religiosas ou profanas. Defende-se, portanto, com a outra face da burocracia: o peso da Instituição. Entende, por isso, que quem lhe não veste o dogma, deve-se calar. O contrário será, como afirmaram várias fontes da Igreja perante este caso, ser pouco sério e ignorante.

O Vaticano, que desde o Evangelho Segundo Jesus Cristo, traz um saramago atravessado na garganta, agravado pelas declarações feitas em Roma, há poucos dias, nas quais o escritor apodava de cínico o Cardeal Ratzinger - actual Papa Bento XVI e anterior Prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé - veio, prontamente afirmar que não daria nenhuma importância ao caso conferindo-lhe, de imediato, toda a importância que pretenderia negar-lhe.

As afirmações desempoeiradas de Saramago, sobre a Bíblia, no lançamento do seu novo livro Caim, fizeram soltar na praça a ira persecutória do porta-voz da Conferência episcopal, Manuel Morujão, a arrogância de um ou outro teólogo de maior ou menor nomeada, bem como uma revoada de gente bem pensante cujo confessado desejo seria o de eliminar a fonte de tal perturbação.

Tentando discorrer com alguma serenidade no meio de tanta comoção apraz-me perguntar o que é a Bíblia? Escrito fundamental para a fundação da nossa matriz cultural, não duvido. Palavra de Deus oferecida aos mortais para seu esclarecimento e guia de vida? Vão falar com outros meninos!

As narrativas bíblicas são recolhas de mitos existentes em tradições orais e escritas de várias religiões e regiões do médio oriente, escolhidas e modificadas, de acordo com interesses e actualizações vários, ao longo dos tempos. É um edifício simbólico, não um manual de conhecimentos como os fundamentalistas querem fazer crer. Se não devemos julgar os actos descritos com os olhos morais deste tempo, também não podemos, sem prejuízo de soltar todas as crendices derrotadas pelo conhecimento, aceitar acriticamente o relato bíblico. Deverá ser encarado como um reconto de um dado momento da humanidade, com as suas grandezas e misérias, ajustado às necessidades de unificar um povo – os Hebreus – desunidos por nomadizações e guerras contínuas. A dureza e crueldade existentes no Deus bíblico é a imagem das forças necessárias para a unificação de Israel e para a derrota dos seus inimigos locais. Fazer disto o padrão moral para a nossa época é, no mínimo, risível. Mesmo há dois mil anos, o padrão já estava de tal modo ultrapassado que Cristo teve de subverter o paradigma bíblico para provocar uma mudança cultural. Transformou o terrível deus da ira em deus do amor, não conseguindo, no entanto, ultrapassar todas as contradições que essa revisão provocou. O resultado foi a ortodoxia religiosa usar o seu poder para exigir e causar a sua morte.

A Igreja, como detentora da”verdade única”, tem uma génese autocrática de que não se consegue desligar. Democracia é um conceito estranho para um corpo de sacerdotes profissionais para quem o máximo bem está no fortalecimento da sua corporação e na manutenção da diferenciação hierárquica. Que o façam em nome de um deus ou de uma qualquer outra força é irrelevante. Por isso vamos encontrar as religiões dominante sempre do lado dos poderosos e utilizadas como forças de subjugação terrena sob promessas de um bem maior a ser outorgado num qualquer paraíso posterior. São estas as ocorrências que levam a um confronto rude sempre que o progresso tenta dar um passo que seja. Por isso as igrejas são, por norma, científica e socialmente reaccionárias. O terreno que a ciência ganha perde-o sempre a crença obscurantista, para grande incomodidade dos que com esta aproveitam.

Que os próceres da Igreja tenham vindo bramar sem rebuços contra as imprecações anti-blíblicas de um ateu confessado admira-me muito quando, por estes dias, várias igrejas católicas, na América, declaram falência, num movimento sem precedentes e desgostante, com o fito de evitar pagar as indemnizações devidas, por condenação em tribunal dos seus agentes, por actos de pedofilia praticados no decorrer e com a força do seu múnus apostólico.

Senhores Cardeais, senhores Bispos, senhores Padres, para onde se escapuliu, nestes casos, a vossa indignada voz? Por favor, deixem de pretender dar lições de moral ao mundo e tratem de limpar o que de podre vai no vosso reino. Lembrai-vos que o Mestre, que dizeis seguir, afirmava ser mais fácil reparar no argueiro que entrou no olho do vizinho que aperceberem-se da trave que vos habita o olhar.


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outubro 09, 2009

Memórias XVIII – trago um país


Foto de BlueShell

trago comigo
um país achado em Portugal
trago um país meu
por final

trago comigo um país de mel e poesia
um país de vinho
um país amargo
trago um país que há muito não havia
e que foi encontrado ao largo
de si mesmo

trago um país repartido a esmo
um país vizinho e longe
em vento e tortura abandonado
num país de novo construído
de novo este país foi encontrado

levo comigo um país de tempos idos
um país que não volta
sem saudades
trago num sorriso à rédea solta
um país que me fala de verdades

digo trigo e pão e primavera
o sol nasce
digo tempo era
e hoje faz-se
o país que em mim trago ousadamente

tenho uma pátria trago um país agora
enormemente



Lisboa, Primavera de 1974

outubro 01, 2009

O Bloco, segundo Bruno Vitorino


Confessando a minha simpatia pelas pessoas do Vereador Bruno Vitorino e do candidato à Câmara Municipal Nuno Banza e, a título meramente pessoal, não posso deixar de tecer breves comentários às afirmações produzidas pelo primeiro, dadas à luz na edição “on-line” do Rostos de 30 de Setembro, a propósito, ou a despropósito, do Bloco de Esquerda.

Aponta Bruno Vitorino as suas baterias dizendo não ter o Bloco de Esquerda feito o trabalho de casa e de não ter ideias para o Barreiro. Como a notícia não esclarece mais não sei a que trabalhos, que devessem ter sido feitos e não o foram, se refere o Vereador. Se, no entanto se quiser esclarecer basta dar-se ao trabalho de “folhear “ o Rostos e depressa de aperceberá das intervenções do Bloco nos órgão políticos onde tem representação e na sociedade em geral, durante todo o tempo e não apenas em períodos eleitorais, feitas no e sobre o Barreiro. Espero que reflicta e não queira entrar naquela categoria do “pior cego é o que não quer ver”.

A afirmação de não ter o Bloco ideias para o Barreiro é arrogante e simplista. Arrogante porque pressupõe o princípio erróneo de que a inteligência e esclarecimento são património exclusivo de um homem ou de um partido; simplista porquanto parte da noção de o que não vê ou não sabe é pura inexistência. Esta é uma posição muito restrita e paroquial que é perigosa para quem se propõe ao governo dos homens.

Por outro lado, como afirma o candidato Nuno Banza, não será muito curial que os simpatizantes do Bloco venham a votar PSD, ou vice-versa. Se o amor à democracia nos une, muita coisa sobre a forma de a pôr em prática nos separa. Por isso, por aí, não virá grande perigo para qualquer dos partidos. Então porquê esta incomodidade que o Bloco de Esquerda parece suscitar em Bruno Vitorino que o leva a querer evidenciar, estraçalhando a realidade, miríficas incapacidades do Bloco?

Só uma resposta me parece plausível. No Concelho do Barreiro o Bloco teve uma votação superior à obtida pelo PSD. O receio sustentado de que, a manter-se este resultado, perca o PSD o seu vereador a favor do Bloco é a real substância de tais afirmações. Não duvido que o temor seja legítimo mas, para bem de todos, devemos dignificar a política não recorrendo a este tipo de argumentos infundados, desprestigiantes para quem os utiliza. Façamos, isso sim, uma política informada, baseada no desejo das melhores soluções para a Cidade, consultando com boa-fé as propostas dos adversários e a bondade dos seus programas, criticando as verdadeiras ineficácias ou as reais actividades que desmereçam o proposto.

Se o não conhecer terei todo o gosto em enviar-lhe o programa autárquico do Bloco de Esquerda do Barreiro, para que consigo não se passe o que se passou com a sua líder nacional a qual, por semelhante arrogância, também não reconhecia nos outros a existência de programas e ideias capazes de pensar e renovar o país.

Veja o resultado que deu!

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setembro 28, 2009

Primeiro os parabéns…




Para quem viveu em tempos de direito de voto condicionado, nulo ou perverso, o decorrer normal de qualquer eleição, tenha os resultados que tiver, é, só por si, motivo de festa interior. Por mais umas eleições livres está de parabéns o País. Também deverá ser felicitado por, na sua escolha, ter introduzido mais um elemento de democracia na Democracia. Trata-se da supressão da maioria absoluta e do regresso do poder ao Parlamento, local primordial, por natureza, do querer democrático.

Como venho defendendo, a maioria absoluta é uma subversão do sistema preparado para relativizar o poder e mantê-lo dentro dos limites da sua representatividade. A dispersão do voto por mais partidos torna a representação mais real embora exija, de quem quer governar, a procura incessante de consensos. É mais difícil, é mais trabalhoso, mas é mais equânime.

Continuando as congratulações dirijo-as seguidamente ao PS, vencedor aritmético do prélio e seguramente mandatado para a formação do novo governo; ao CDS-PP, com um amargo de boca da minha parte, porque obteve uma clara vitória conseguindo todos os objectivos a que se propôs, ficando em posição excelente para condicionar, para as suas propostas, a acção do futuro governo; ao Bloco de Esquerda pelo crescimento exponencial da sua votação, número de deputados e consolidação no terreno e ao PC porque, apesar de perder o lugar no “ranking”, conseguiu aumentar o número de votantes e, em Setúbal, averbou mais um deputado.

depois os cuidados!

O quadro saído destas eleições é complexo e pode vir a tornar-se preocupante. Advém-lhe a complexidade das diversas geometrias de poder que se poderão constituir. Assim, não entrando em linha de conta com os votos da emigração ainda por atribuir, o somatório de deputados do PSD e do PP, ultrapassam em dois lugares os votos do PS, podendo perspectivar-se com escolha governativa. Não crendo que o Presidente, por fragilizado, se atrevesse a tal feito, ele é, constitucionalmente possível. Ao Presidente cabe indicar o Primeiro Ministro tendo em conta os resultados eleitorais. O conjunto da direita é, em relação ao PS, maioritário. Outra maioria possível é facultada com um acordo PS/CDS. Só que aqui, a facilidade governativa, tenderia a incendiar os conflitos internos no PS. E Sócrates, para ganhar, viu-se obrigado a compromissos com a ala esquerda do seu partido, esgrimida, em desespero de causa, na recta final da campanha, tendo como endereço os possíveis votantes no bloco de esquerda. A maioria PS/PSD, a presumivelmente mais estável em termos de governação, está impossibilitada pela previsível contenda interna no segundo partido e pela necessidade do seu novo líder ter de ganhar espaço opondo-se às políticas governamentais. A maioria de esquerda, apenas existente aritmeticamente, é inviável no quadro de uma política que, embora de modo mais “soft”, se inscreverá no conjunto de soluções anteriormente apresentadas pelo Governo Sócrates.

Então, perguntar-se-á, não ganhamos nada, ficou tudo na mesma?

A resposta é um rotundo não! O quadro político foi substancialmente alterado. Mudaram, na direita, as dinâmicas interpartidárias; nas esquerdas voltou, apesar de tudo, a reforçar-se a maioria sociológica que , paulatinamente, se tem vindo a afirmar; e o primeiro ministro a empossar, quer queira, quer não queira, terá de contar com ela, não só para apoiar algumas medidas de esquerda, como para manter a paz no seu partido.

E o Presidente da República?

Teria, provavelmente agora, o seu momento de maior poder e glória mas, depois do incidente cretino das escutas – e antes de ele vir explicar-se ao Povo – creio bem que pode iniciar-se aqui a sua caminhada para a não reeleição.

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setembro 22, 2009

Memória XVII - ofício




longo das paixões latentes gelos
as distâncias giram
fascinando círculos de som

nem vómitos nem água
inauguram a nuvem
móbil de procura o sol
distende gritos

colar os lábios às casas
instantes que restam
nos remos da memória

húmidos recôncavos do sono
alquímicos véus da floresta

tão duro ofício a reconhecer




Lisboa, Agosto de 1984

setembro 17, 2009

A Sétima Vaga






Uma velha lenda do sudeste asiático, terras bem conhecedoras de violentos maremotos, conta-nos que a Natureza, em virtude dos maus tratos que os homens lhe dão, por vezes se zanga com a humanidade. Nessa altura as águas do mar invadem a terra e a sétima vaga destrói todos os vestígios humanos em terra. Ao cataclismo, mito paralelo ao dilúvio ocidental só que com repetições periódicas, segue-se a regeneração da humanidade, a partir de uns quantos sobreviventes escolhidos. Este ciclo continuará enquanto as sociedades não chegarem à plena harmonia com o todo e forem cometendo erros contra a Natureza.

Recordo-me de, há também muitos anos, ter visto um documentário sobre um colónia de insectos que viviam em folhas de nenúfares flutuando num lago. A ausência de predadores e a organização social dos bichos permitiram que se tornassem espécie dominante e com grande sucesso demográfico. Com tanto êxito que, o excesso de população e consumo, fez afundar as folhas de nenúfar destruindo, por afogamento, toda a população.

Assim como se fora uma Atlântida dos insectos.

Estes dois exemplos servem para introduzir a questão que tenho vindo a colocar-me com frequência e que, sendo de fácil resolução em termos racionais, é praticamente impossível de pôr em prática por causa de direitos, desejos e emoções. É tal magna pendência a de saber se o modelo de crescimento contínuo em que vivemos poderá manter-se indefinidamente e para todo o género humano. Ressalta perfeitamente, a qualquer ser pensante, que não é possível tirar proveitos infinitos de coisa finita. Só se podem retirar objectos de um saco enquanto ele não estiver vazio. No entanto, em relação às possibilidades do Globo, é deste modo que procedemos. Agimos como se os bens fossem inesgotáveis e fosse possível manter o crescimento das produções ininterrupto e por todo o sempre. Mas o que acontecerá se defendermos que as nações, nestes actos, estão a depredar o nosso habitáculo – o planeta – e que melhor seria diminuir os nossos consumos de molde a fazer-se uma distribuição equitativa e racionalizada por toda a humanidade?

Bem, isto seria o cabo dos trabalhos!

Veja-se como toda a gente já percebeu que a continuidade do modelo de vida e consumo ocidentais – a expandir-se para todos os lados – vai conduzindo, pelo aquecimento global, à situação em que, como no mito citado, a Natureza lança a sua sétima vaga de absoluta limpeza. Que fazem as nações? Conversam, combinam e nada cumprem, agravando cada vez mais o problema, porque ninguém quer ceder um pouco do seu bem-estar e da ambição de incessante aumento do mesmo, de molde a abrandar o esgotamento e deterioração do ambiente e dos recursos naturais.
E têm, aparentemente, razão.

Porque é que eu hei-de ceder algo das minhas facilidades a favor de outros que nem conheço ou de um tempo em que já não estarei no mundo? Por outras palavras, porque hão-de os brasileiros deixar de melhorar a sua economia, devastando o pulmão do mundo – a Amazónia – para favorecer o nosso tipo de vida a que tão poucos deles têm acesso? Ou os chineses continuarem em pobreza endémica para não acrescentar mais poluição à gerada pelos países industrializados? E que partido, no Ocidente, de direita ou de esquerda, ousaria incluir no seu programa medidas de decréscimo de bens ou diminuição de protecção social sem ver desertar eleitores?

Pois é. Os geólogos bem nos avisam contra as várias extinções em massa ocorridas no nosso planeta. Se é verdade que tais factos se devem a causas exteriores como as radiações gama - provenientes de supernovas -, ou impacto de meteoritos; ou internas tais os vulcões, a divisão de massas continentais ou mudanças climáticas, a verdade é que agora, mercê da acção da humanidade, já se antevêem alterações ambientais que poderão vir a acrescentar mais um estrato geológico para o estudo de espécies malogradas.

Dir-me-ão os senhores a que propósito virá este arrazoado cataclísmico quando parto do princípio que falar de tais coisas é como pregar no deserto e que nunca, por nunca ser, deixaremos o produtivismo continuado e o trocaremos por um decréscimo de consumo mais compaginável com as possibilidades da Terra? A minha resposta, acompanhada por um sorriso cínico de impotência, será a de obter assim a única satisfação permitida a Cassandra. É a de olhar do alto o indígena atónito e pespegar-lhe um sonoro:

-Eu bem te avisei, não foi?...

Um pouco antes de, imparável, a sétima vaga fazer ruir todo o orgulho humano.



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setembro 03, 2009

Karta abrida ós tupidos k diz male do sistema de edukassão




Barreiro, 2 de Çetembro de 2024

Xenhor dretor:

Vai fecar bem barafundado ao receber esta minha. Mas seu lhe diser cos amaricanos apezar de serem gajos brutos e sem coltura como agente sabe iventaram uma manera de cumunicassao co passado já fica a perceber a marosca. E assim um genero de canal mimoria mas k premite cagente escogna o pasado k ker ver.

Çei muto bem k tam ai em tempu de ileicoes e ca eskerda nam sabi faser mai nada k dizer male da pulitica de inducassao do inginheiro Xocrates de da menistra Lurdes. Iço e uma a fronta nam so ao groveno bestiale deses sinhores cumo uma froma de despritijo de kantos comaeu fazeram o encino secondario neça epoca.

Çei bem que nam foxem eles euca nunca ter akabado o insino secondario. Cumo era jove dava faltas todos dias. Kem me valeo foi a çenhora menistra Lurdes k nam premitio cós çafardanas dos profs me xumbaçem por faltas. Tamem não deixou k so pro não çaber a procaria da materia nam ma deichazem paçar de ano. Inda ma lembra do barulho cós gajos fazeram. Kakilo era prastatistica co foturo saria de anafabetos funsionais cagente avia de ficar no rabo da eropa e era todo tretas. Basta vermamim i o me primo que fes o 12 ano nas novas oprotunidades e cagora vive munta bem aqui no Algrave a çervir no restorante ao ingleses, franseses e lemoes k jacatam de novu a gosar o klima e as augas kentes.

Agente pra çervir no terismo nam preciça de çaber aquelas coisas do zarolho pareçeme que se xamã os lucindas e e uma cuscuvilhize do carlos da maia andar a dromir com a irman. Çisto e la coiza ksensine a crianças nuvinhas.

Xame a atenzam no seu jronal para a neçeçidade de elejer de novo o sinhor inginheiro pra ca Lurdes poça voltar a dar no coco aos deslanbidos dos prof. Pra ver çeles ganham juiso e por pura malvades nam crotam a pernas aqules k comaeu so kerem vençer na vida e comsegir uma boa vida cum karrinho e um plaxma pra se desstrair opois do trabalho.

Penço k sou um bom esemplo das medidas acertadas desse groveno k estaquaze acabar. Nam neguen a poçibilidade deles continureim a faser tambom trabalho para o foturo de tudos nos. Votem neles pra puodermos garantir uma suciedade onde todos tenhao direito a fazer o 12 ano sem medo de xumbarem. Viva a igoldade.



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agosto 06, 2009

Memória XVI - Ai de quem



Sentado na varanda do seu desejo o poeta trabalha no poema. O mar em frente penetra-o pelo olhar. Ausente, vai modelando no seu íntimo a mais sublime peça poética que o mundo poderá saborear. As palavras saem do arquivo da memória, passam no coador do gosto, juntam-se na epiderme da sensibilidade, prontas quase à recusa ou ao conceito do conhecimento.

Já a este poeta foram tecidos nas praças das letras hagiografias intocáveis. É um homem de cultura e nome feitos. Fala-se dele nos jornais e outros meios de comunicação titulando-o de enorme, monstro das letras, talentoso, inspirado, um que sei mais de qualificativos em extremo. Quase se pode ficar esmagado debaixo do peso de tal fama.

Mas o nosso poeta gosta. E mais, pensa que é de menos. Considera como insuficiente a glória tida. Tal como o oceano, que o contempla, ele aspira à sem razão de medida. Um infinito será talvez suficiente, mas o grande que ele tem é ainda pequeno. Quer muito de mais. Por isto, ele se pende sobre o mar. Ele busca, ele constrói. Por isso, lentamente o seu poema toma forma, vai crescendo. E no mirar-se, fazendo-se poema, não pode ouvir, queixando-se solitária a mulher que quis ser a companheira e está sozinha, atrás do poeta, atrás do mar, muito aquém da varanda do desejo, onde se busca, onde se perde, onde a memória recusa qualquer coisa que não seja o poema em escrita.

O mundo rola. Na cidade perto do mar a vida das pessoas flui. É comummente atroz e agradável. Nas marítimas ruas dessa cidade perpassam gaivotas e aromas salinos entremeados de vozes. Um mundo de gente, de barcos, de irmãos e inimigos. Nesta cidade edifica-se a glória do poeta. São aquelas mãos dadas que o lêem , o fazem grande e o mitificam. Dele sabem apenas os seus versos. O poeta é uma forma de leitura. Do homem nada sabem. Por isso o idealizam puro como uma intenção, por isso ele se pensa plano e sereno tal uma grande planície levemente soprada pela brisa, onde toda a calma permanece estável há séculos sem conto.

De mansinho, como que estando numa igreja sem ninguém, os medrosos dedos tacteiam os ombros do poeta. Ele volta-se de rompão, desabrido. Malcriado grita à mulher a estupidez do momento em que lhe perturbou os sentidos quando a rede da sua imaginação, quase-quase, aprisionara a fúlgida borboleta da inspiração.



Perante o pavor expresso nos olhos da companheira ao aceitar, passiva, o sacrilégio cometido, cresce-lhe no peito o gozo do poder. Desencarnando um largo gesto, olímpico na fala, teatral no todo, berra desaustinado o manso poeta dos versos, tocantes e oficiais, para namorados de acordo com a ordem social vigente, aceite e recomendável. À companheira diz da grandeza de que está investido. Aumenta-se diminuindo-a. Ela, transida e crédula, sente a desgraça no olhar irado do deus.

Amachuca-se, pede perdão. O poeta-deus, terrível aponta no acusador índex, a saída do paraíso.

A mulher, derrotada, em vão implora a graça de um olhar, de uma palavra amiga, de um pouco da compreensão que ele esbanja por páginas e páginas de romances e poemas elevados à celebridade dos compêndios escolares. Nada demove a granítica vontade .A mulher desaparece da sua vida deixando o cenário do conto um pouco mais vazio.

Intemporal o poeta continua a criação do grande poema, do último, do definitivo. Com ele encerrará a sua obra e todas as outras obras ainda por escrever. Ele será o último e o único. Ele poema. Ele poeta.

Ao que parece, na cidade junto ao mar passou a fome, a guerra, a doença. Nada tocou o poeta. De nada se apercebeu. A sua obra enche-o por completo. É o trabalho mais importante do mundo. É a esperança de toda a gente. Ele dirá tudo, ele resolverá todos os problemas.

No princípio, tal como no fim, será o verbo...

Na varanda do seu desejo o poeta , contemplando o mar, envelheceu e morreu. O seu último poema, unanimemente considerado uma obra de génio, um programa de vida e o retrato daquele homem amável e humano, começava assim:

Ai de quem vive a vida instalado
na varanda do desejo virado ao mar ...

Ai de quem egoísta e santificado
não deu de si aos outros mais que simulação

Ai de quem Ai de quem Ai de quem
estragou a sua vida na contemplação ...




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julho 14, 2009

Adeus Amigo



(uma pequena lágrima por Palma Inácio)

A penúltima vez que estivemos juntos foi em 13 de Maio de 2000, quando um enorme grupo de amigos se juntou para te ver receber, das mãos de Manuel Alegre, a Grã Cruz da Ordem da Liberdade, que o Presidente Sampaio merecidamente te outorgou mas da qual não quis fazer-te entrega pessoal. Sei bem que a justificação dada era que se não encontrava disponível por afazeres fora de Lisboa. No entanto, ironia das coisas, quando com os meus amigos Roque Laia, Santos e Pimenta (que aqui, sem o seu consentimento, trago por testemunhas) saímos, por uns momentos, da estufa-fria para irmos a um café, ironia das ironias, fomos afavelmente cumprimentados pelo ilustre Presidente da República o qual, calmamente, se passeava na rua, a escassos metros do acontecimento, com o seu filho. Não é caso para admirar. Foste sempre necessário mas incómodo. Os teus métodos não seguiam a linha da hipocrisia dominante. Para ti a luta não ficava apenas pelas discussões de putativos direitos em intermináveis debates. Tal como Hoederer, nas Mãos Sujas, de Sartre, também tu sabias que a revolução não era uma festa de salão e estavas disposto a dar tudo, inclusive a vida, pela sua realização.

Foste sempre o herói trágico e incompreendido. Muitos se utilizaram dos teus feitos mas poucos te reconheceram oficialmente os méritos. Já depois do 25 de Abril, quando tantos serventuários do fascismo se passavam de campo e continuavam a ter, ou ganhavam novas sinecuras, tu, o herói apontado às massas e aos estrangeiros como exemplo romântico do revolucionário, passavas fome e vivias mais que modestamente, nada pedindo para ti, tentando sempre fazer avançar a revolução, o socialismo, a liberdade e a igualdade.

Sempre te reconheci amigo do teu amigo e agradecido pelo pouco de bem que te fizessem. Por isso continuamente honraste Mário Soares que sabias companheiro seguro dos dias maus. Muitos te recriminaram, por tal posição, dizendo que fazias concessões de direita. Eram pequenos moralistas de circunstância incapazes de reconhecer o teu valor humano e de compreenderem que, para ti, revolução sem sentimentos e dignidade não era revolução.

Sinto saudades de ti, hoje, 14 de Julho de 2009 porque amigos me telefonaram, comovidos, dizendo “morreu o Velho”. Para te designar não usávamos nem era preciso outras palavras. Nem chefe, nem presidente, caudilho ou secretário-geral. Era apenas, simples e totalmente, o Velho! E estava tudo dito!

Outros te farão panegíricos e darão da tua vida a conta mais ou menos correcta. Não é minha intenção - nesta hora em que medito sobre a morte de um amigo que nos deixou ainda mais pobre do que era quando nasceu e que bem poderia ser um dos poderosos deste país (e não só) - desfilar os êxitos e os sofrimentos do teu percurso vital. Quero apenas recordar-me da nossa convivência, dos acordos e desacordos, sempre fortes mas frontais, que tivemos e da idêntica vontade de construir um mundo onde a humanidade prevalecesse sobre todas as doutrinas e a vida de cada pessoa decorresse sem vénias necessárias a qualquer tipo de senhor.
Sei que todos os teus amigos hoje se vão sentir um pouco mais sós. Faz parte do luto! No entanto o que nos vais deixar é a tua crença e a perseverança que sempre mantiveste, ao longo da vida, mesmo nos momentos mais dolorosos e deprimentes. Espero que sejamos dignos de ti e que, quando soar a nossa hora, alguém possa de nós dizer o que aqui sobre ti afirmo ao mundo inteiro: Que os sinos dobrem sem rebuço. Hoje, morreu um Homem!

julho 01, 2009

nestas ruas o sentido




meu amor o desalento nestas ruas
é viagem perfeita de chegadas

toda a cidade nos envolve de sonhos
e promessas e angústias
portas ensombradas à espreita
das tuas pernas animais libertos
ao exterior das gentes

interiorizo enormemente esses momentos
plenos do sentido da passagem
e nos esquecimentos a mulher
é verdes penas sobre águas
nos dias invernais intranquilos
vaga consciência que adivinha
no rosto o passo solicitando o ventre

minha amada
são percursos do amor
o não chegar
quando a estrada
nos repudia os traços

tendo em conta a breve eternidade
que vamos obter
para nada caminho meu amor

alças a voz
arrebanhas o vento
e danças na música das algas
a tristeza semeada pelos muros

e no tempo de dizer-te meu amor
a voz vibra passado
sem timbre de futuro

junho 26, 2009

O que é isso da governabilidade?





Desde que Paulo Rangel venceu Sócrates nas Europeias, a Direita acordou! Mas despertou receosa de que, no próximo confronto, tal espavento não se repita e os partidos de esquerda voltem a somar a maioria absoluta dos votos expressos. Para que tal não aconteça é necessário agitar alguns papões ameaçadores .O bloco de direita – PSD, CDS a que , pelas suas recentes posições, é licito juntar o Presidente da República – está unido em torno de três ideias básicas as quais, sendo puros mitos, pretendem simular verdades absolutas: a da governabilidade, a da simultaneidade das eleições legislativas e autárquicas e a da economia por corte das grandes obras públicas.

A primeira questão é apresentada como se qualquer unidade pós-eleitoral só fosse possível à direita. Espera-se que o PSD ganhe as legislativas e componha a maioria com o CDS ou, cereja em cima do bolo, que o bloco central de interesses económicos venha a traduzir-se num bloco central da política unindo PSD e o PS. Por outro lado, na esquerda apenas pressentem impossibilidades. O PS nunca uniria esforços com o PCP e, muito menos ainda com, dizem eles, o imaturo Bloco de Esquerda. A pergunta a fazer-se é porquê? Que fatalidade genética dará aos partidos de direita maior capacidade ou apetência para a governação e as retira às esquerdas? Em que tratado de Política, ou de Biologia, tal se demonstra? Já se esqueceram de Durão Barroso, do seu pântano e do precipitado abandono do governo para rumar à sinecura europeia, deixando pendurados os portugueses, entre eles, oh! Ironia, a ministra Ferreira Leite mais o seu doloroso programa de emagrecimento da população? Já estamos esquecidos que as acções governativas da direita são aquelas que conduziram o mundo às guerras e a esta crise? Mais liberalismo sem freio? Mais mercado a dirigir os destinos do mundo sob a lenda da auto regulação, quando sabemos que o seu objectivo é sempre explorar, até ao limite e sem ética, todas as possibilidades? Esquecendo que o seu único objectivo é a máxima acumulação de riqueza, num exíguo número de empresas ou pessoas, e quando os limites são atingidos abandonando as populações empobrecidas aos problemas por eles criados na ânsia louca de um desmedido enriquecimento?

Temos de tornar claro que a acção comum das esquerda é uma possibilidade. Perante propostas e políticas concretas, que defendam as populações trabalhadoras, qualquer dos partidos de esquerda pode, e muitas vezes já foi feito, juntar as suas vozes e votos para tornar possível o melhoramento da vida da nossa gente.

A segunda ideia-força é a da simultaneidade das eleições. O grande argumento é a poupança feita se as eleições decorrerem no mesmo dia. Se os argumentos forem somente os de índole económica, na fronteira, chegaremos à denegação da democracia porque, aparentemente é mais cara que qualquer regime de quero, posso e mando. Na realidade apenas o PSD defende eleições simultâneas. Fá-lo, sejamos claros,porque lhes parecem ser mais favoráveis aos seus desígnios, porque pensa optimizar assim os seus resultados eleitorais. Todos os outros partidos preferem eleições desligadas. Será porque são mais perdulários que o PSD? Claro que não! Também aqui se joga o interesse próprio de cada partido. No entanto há algo mais a juntar a esta posição. Cada eleição tem a sua dignidade e o seu espaço próprio. Misturá-las, não sendo crime de lesa democracia, é sem dúvida subalternizar uma em relação à outra. Ora isto seria um mau serviço, a longo prazo, à democracia. Seria como cortar na comida e ficar admirado por se ter fome. Não me parece, à primeira vista, que devamos submeter-nos à ilusão económica prestando, nesse passo, um péssimo serviço à democracia.

Finalmente a grande preocupação com a dívida, resolúvel no corte dos investimentos com as obras públicas, faze-me lembrar lágrimas de crocodilo. Que é preocupante a subida do endividamento, claro que é! Todos o sabemos. Mas serão todas as dívidas iguais? O endividamento ao jogo é semelhante ao investimento numa máquina para produção? O que se deve discutir não é se vamos gastar muito dinheiro, mas sim o que poderemos ganhar com esse gasto. Desta discussão foge a direita preferindo a facilidade de um economicismo parvo. No entanto, sabemos que, caso ganhasse as eleições, algumas destas agora contestadas obras teriam que ser feitas. O aeroporto de Lisboa é um enorme risco. Tem-nos valido Nossa Senhora de Fátima ou dos aviões senão já uma aeronave se teria esmagado sobre o casario lisboeta. O aeroporto está cercado pela cidade e terá, inevitavelmente de ser mudado. Como está decidido ser em Alcochete, teriam de construir-se acessos e, lamentando ter de dar o braço a torcer, lá viria a direita dizer que afinal a ponte era necessária. Só que num outro local onde servisse melhor a sua clientela e não nestas zonas demasiado vermelhas para o seu requintado gosto. E o TGV? Claro, com o impulso que a direita, em boa hora eleita, daria ao mercado, seria necessário um meio de transporte expedito para que os homens de negócio pudessem, sem perdas de tempo, encontrar-se em qualquer ponto da Ibéria. Lá viria o comboio rápido solucionar parte do problema. Pareço demasiado cínico na minha exposição? Olhem que não! Na verdade esta súbita moderação da direita não é real. É meramente estratégica. Visa assustar para dominar. Afinal quem é que, em primeiro lugar, beneficia dos grandes empreendimentos senão as grandes empresas? E de quem são eles apoiantes? Do Bloco, não! Do PCP, tão pouco! Do PS, às vezes quando faz o jogo liberal. Do bloco de direita? Certamente e sem qualquer dúvida.

Então, sabendo isto, não nos deixemos embalar em cantos de sereia a vamos, frontalmente, recusar os receios que a direita tenta injectar na vontade dos portugueses e dizer claramente que a maioria é o povo e que o povo espera uma esquerda que não se traia nem o traia. Desta forma poderemos fazer frente à crise e ultrapassá-la em benefício dos que diariamente labutam com um mínimo de réditos.

Não podemos esperar que resolvam a crise aqueles que a criaram.


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