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fevereiro 24, 2010

Baralhar e dar de novo




Ele há coisas assim. De repente tudo o que parece firme e claro, como por artes mágicas, rebenta noutras perspectivas até aí de todo desconhecidas. O que parecia tão firme e claro era a anunciada disputa do lugar presidencial entre o verbo inspirado do poeta e a deficiente comunicação do professor de economia. A direita temia o resultado do recontro, a esquerda embandeirou em arco e precipitou-se em apoios e gritos de arraial! Arraial! Até pareciam monárquicos!

Foi o factor Nobre, de Fernando, entenda-se, que veio desestabilizar esta contenda anunciada. Entrou de rompante pelo simples facto de anunciar que iria reclamar um direito. O de, sendo português maior de 35 anos de idade, poder disputar o lugar de Presidente da República. É claro que toda a gente nos partidos sabe isso, concorda inteiramente, desde que o candidato “independente” seja um político por eles reconhecido.

Ao anúncio devastador de contas feitas correspondeu um murmurar incomodado – da direita à esquerda – de que o homem seria um cidadão notável, nada havendo, senão elogios, a apontar na sua vida, que dera provas nas mais difíceis situações de capacidades notórias de liderança e organização mas que, facto imperdoável, não tinha experiência política relevante. Quer isto dizer, em partidês, que Fernando Nobre não sabia, não quereria ou não estaria disponível para entrar nos jogos dos interesses de poder e aparecia com um perturbante e muito dispensável discurso sobre valores e ética.

Como se sabe, ao olhar o panorama nacional, nenhum dos nossos políticos de capa de jornal precisa de noções de ética. Toda a população reconhece neles os seres impolutos que são, magros de preocupação com o bem-estar geral, descuidando escabrosamente os seus interesses pessoais em prol do bem comum; inquietando-se plenamente com o conseguimento da justiça civil e da equidade social, sofrendo atrozmente nas raras vezes que tal não acontece neste país onde até o primeiro-ministro – ao contrário do que acontece pelo mundo fora - fala sempre verdade.

O Presidente Cavaco tem andado debilitado na saúde política. O Verão foi-lhe nefasto e não fora a Face Oculta ter desnudado, um tanto por acaso, uma profunda vérmina a grassar entre política, informação e finanças, poderia ser o primeiro Presidente a não bisar o acto. Graças a Sócrates e “sus muchachos” o homem arribou e viu melhorar bastante as suas perspectivas. Também temos de ser humanos. Ainda há poucos se mudou para Belém, começava agora a afeiçoar-se à casa e zumba! Uma acção de despejo. Isso não se faz! É falta de humanidade. Nenhum rancor justifica uma família sem tecto. Dizem-me vocês não ser bem assim, que ele até tem o apartamento em Lisboa e a moradia no Algarve, que está bem de vida, tomara a maioria dos portugueses ter o que ele tem, etc. etc. etc.. Pura inveja, meus caros. Alarguem as vossas vistas, não olhem para o que ele tem, mas para o que ele faz. Não se esqueçam de quem, tão acertadamente, traduziu a Lei de Gresham – aquela da má moeda expulsar de circulação a boa moeda – em termos políticos referindo-se aos notáveis desempenhos do nosso primeiro Santana. Vocês eram pessoas para chegar a tão brilhante raciocínio? Vá lá ponham a mão na consciência e reconheçam onde o saber e a grandeza estão. Se posteriormente se contradisse e o veio a apoiar não foi coisa diferente do que entre ele e o insubstituível Alberto João se passou. Portanto, amigos, existe aqui uma coerência na contradição e arrepio que nós só não compreendemos pelas nossas muito evidentes incapacidades. Felizmente lá estão os iluminados para pensar por nós e nos conduzirem ao correcto caminho. Deus os leve breve para a sua companhia porque nós, que aborrecimento, não estamos sequer perto do seu nível e somos um insuportável tédio nas suas vidas.

O candidato Manuel Alegre sonhava já com a vitória que pôde almejar nas últimas presidenciais. Não deve ter levado em linha de conta que, mau grado os anúncios da sua bem colocada voz, se foi aproximando, talvez sem se aperceber, do lamaçal existente ao redor do seu Secretário-geral. Não comunga dos benefícios que à matilha couberam? Creio bem que não! Mas não deixou de se encantar com a possibilidade (a última que lhe resta de chegar à Presidência) de, encostando-se a Sócrates – sobretudo na recta final – apoiando-o para uma vitória eleitoral que ratificaria a política que vinha invectivando, perder a força da verdade que o mantinha. Hoje, por ironia, ocupa o lugar que pertenceu a Mário Soares. Será o candidato oficial de um partido pouco interessado neste casamento e que nada fará de essencial para que a noiva seja feliz ou possa cumprir a sua missão. Apesar da sua proclamada independência terá sempre que ajustar-se à exagerada factura que o partido lhe apresentará.

O lugar da esperança, que já lhe pertenceu, passa hoje por Fernando Nobre. Estranho é ouvir, vindo de apoiantes actuais, as mesmas diatribes que contra ele foram lançadas anteriormente. Não tem aparelho de suporte, não tem dinheiro, quem é que o subsidia? A candidatura de Manuel Alegre que olhe para trás e verifique o que com ela aconteceu. Fomos nós o seu aparelho, as suas finanças, o seu poder. Hoje muitos de nós já não se reconhecem na sua atitude. Temos esse direito tal como ele tem o de seguir o caminho para si mais conveniente. Terá de conceder-nos que tal via poderá não ser a nossa. Tudo na vida tem um preço e há que pagá-lo!

Em acerto de contas de previsibilidade política é certo que as duas candidaturas poderão enfraquecer a esquerda e possibilitar a vitória da direita. Só que nem isto é absolutamente certo, nem os destinos de um povo são uma mera contabilidade de deves e haveres. Há uma esperança em dias melhores que não passa, tantas vezes, pelo que parece evidencia inelutável. Como dizia um outro poeta: “pelo sonho é que vamos” e precisamos urgentemente de um pouco de sonho neste tão viciado ar do quotidiano português. Precisamos de respirar sem que o metano do pântano nos envenene e a pressão dos interesses nos esmague.

Para já, o meu voto que seria nulo, passa a ter, de novo, expressão e eficácia!





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fevereiro 09, 2010

A deriva autoritária




Farto de que o meu amigo Belegário me saturasse os ouvidos martelando ininterruptamente na tecla: “ eh, Pá, tu não gramas o homem”, arrumei, por uns tempitos a necessidade de reacção escrita aos acontecimentos e deixei-me pastorear vagares sem qualquer sentimento de responsabilidade social. Fui fazendo a vida naquela do deixa lá ver se o Belegário tem razão; se o homem não é nada daquilo que eu penso, digo e escrevo e se não será a minha má vontade, ou um arreigado preconceito, que me obriga a ver constantes intenções malévolas em quase tudo quanto a criatura faz.

Os dias foram passando e veio a Face Oculta, o drama do orçamento, o caso Crespo, a tragédia da Lei de Financiamento das Regiões Autónomas, o Conselho de Estado, as pressões das agências de “rating”, as veladas ameaças de demissões e a publicação, no Semanário Sol, de parte das escutas feitas às personagens requentadas que rodeiam o nosso primeiro-ministro.

Pensei: “vai-te lixar Belegário, o erro não está em mim, mas sim no sujeito verdadeiramente (ir)responsável por toda esta confusão”. O meu engano, se tal tropeção cometi, é não ter sido suficientemente cáustico, nem deter a eficácia necessária para, tal Zeus irado, fulminar com verbo mais penetrante a couraça de desvergonha daquele pequeno Berlusconi.

Sempre lhe reconhecemos um inveterado pendor para confundir a democracia com a sua vontade própria. Parecia-nos estar mal apetrechado para uma sã vivência democrática, mas lá íamos aguentando naquela de reconhecer como defeitos, em certo grau toleráveis, de alguns espíritos com ânsias de poder, uma necessidade grande de empolamento pessoal, de disposição predatória, de vontade de conquista de estatuto perene. Ora, com é sabido, estas, quando intensas, são mais disposições de regimes monárquicos absolutos, de governos autoritários auto-eleitos, que de gente predisposta ao jogo democrático de obtenção e perda de poder - conforme a vontade expressa dos cidadãos - constantemente limitado por fiscalizações e regras, nunca transmissível e sempre, sempre, precário.

Dá-se mal com estas questões o nosso governante. Direi mais! Pensa-as obstáculos à efectivação da sua grandeza, da qual não duvida por sempre reafirmada pela pouco interessante trupe, daquelas coisas rasteiras, que o rodeia.


Já tínhamos estranhado as posições equívocas no agendamento, discussão e reprovação de leis claras contra a corrupção. Aos nossos olhos ingénuos não se tornava perceptível a razão de a um discurso oficial moralizante não sucederem acções conducentes à eliminação dessas práticas lesivas do bem público. Sentíamos a injustiça de experimentar quanto a crise pesava em números de desempregados, de desesperos, de aperto económico da maioria da população; de como os direitos sociais iam sendo diminuídos por falta de dinheiro e como patifarias feitas em bancos particulares se tornavam em prioridades económicas e em sorvedouros de fundos sempre disponíveis. Não percebíamos também como se congelavam salários e pensões ridículas e não se agia sobre as pensões sumptuárias, os “offshores” e não se taxavam as mais-valias da especulação bolsista.

Mas um dia, ao ler um livro de que não recordo o nome, fiquei esclarecido. Dizia o autor, reportando-se a tempos idos, que a diferença entre os governantes aristocratas e os republicanos era muito simples. Enquanto os primeiros já tinham fortunas consolidadas e só procuravam mais poder e aumento de estatuto, os outros, além de querer o mesmo que os aristocratas, tinham ainda de conquistar as suas fortunas. O pouco tempo que tinham para o fazer não dava aso a grandes sofisticações de métodos. Sendo simplista não deixa esta explicação de nos pôr a pensar sobre a verdadeira razão das coisas.

Pois, é! O mal da governança é de que não durando todo o tempo, cria maus hábitos. Como passar, de repente, das alturas do poder para a rasteira vida civil? Se a grande parte destes zelosos servidores do Estado não têm, ou não se lhes conhece, outras quaisquer competências? Ou se as têm diminuídas como suportar a ignomínia de andar de cavalo para burro? Nós compreendemos que têm de tratar da vidinha. No fundo são simples mortais com os comezinhos problemas de pagar a casa, a saúde, a alimentação, os estudos etc.. etc.. etc.. Só não compreendemos nem aceitamos que para conseguir tais desideratos tenha a democracia que ser ultrajada, o Estado que ser degradado e as misérias económicas e morais sejam a regra e não a excepção.

Com a centenária República neste estado quem se admira que o vulgo se refugie numa saudade doentia de pessoas, que só por esquecimento e por comparação com a mesquinha actualidade sobrevivem e que deveriam, para sempre, estar sepultada no mais fundo inferno da lembrança das gentes.


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dezembro 08, 2009

Igreja do Lavradio – uma falhada sistina?




Na passada sexta-feira, no almoço da Tertúlia do Pato Bravo, comentava com o Nuno Banza e o Sousa Pereira, o quadro sobre a Paixão de Cristo, encomendado pela Igreja do Lavradio ao Pintor Kira. Dizia eu que aquela tela haveria de fazer história. Para tal baseava-me na concepção da obra, a qual, apesar de algumas servidões ao gosto litúrgico, impostas pelos encomendadores do quadro, arrojava-se, nas figuras que acompanhavam a morte de Cristo, a representações pouco ortodoxas e, por isso mesmo, fortes e demonstrativas da compunção e tristeza gerais acarretadas pela morte do Filho do Homem.

Era baseado na iconoclastia destas figura, que o meu comentário, no citado almoço, apontava para um atribulado caminho para esta obra. Só não pensava que, naquele mesmo momento, essa história já tinha começado. Soube-o pelo Blogues Pintor Kira e Poleiro Pá. Afinal, a inauguração do quadro, que deveria ocorrer no próximo dia 8 de Dezembro, inscrita num cerimonial mais vastos, com ordenação de padre e presença de Bispo, já não iria acontecer. Porquê? Porque os bons padres se negaram a pagar o trabalho e pretendiam que o mesmo fosse oferecido à Igreja. Achei esta atitude abusiva e pretendi saber a verdade dos factos. Para tal nada melhor que perguntar ao Pintor como este desencontro tinha sido possível.

Segue-se, resumidamente, a história.

De há uns cinco anos a esta parte o Kira vinha a ser solicitado para fazer um quadro para a Igreja do Lavradio. Dada a sua orientação artística não ser a da arte sacra foi adiando a questão até que, este ano, por maior insistência decidiu anuir ao pedido. Foi-lhe então encomendada a execução de dois quadros, uma crucifixão com as dimensões de 3 metros X 2 metros, para a Igreja e um outro de 2 metrosX2 metros para o baptistério. Perante a monumentalidade da obra o pintor comunicou aos padres não ter dinheiro suficiente para comprar as telas. Do então argumentado ficou patente que a Igreja adiantaria o dinheiro para os materiais e que o pintor faria depois um “preço para amigos”. Acertadas as coisas recebeu o custo da tela maior e começou o trabalho pagando, do próprio bolso, algumas centenas de euros para os restantes materiais. Durante os seis meses que durou a concepção e concretização da obra não foi possível ao pintor pegar em qualquer outro trabalho. Os padres sabiam disso pois não só foram acompanhando a feitura da obra como requereram algumas modificações. Mais, sugeriram ainda que fosse pensando numa Via Sacra para a Igreja. Ora a Via Sacra é composta por 15 estações, o que significava a elaboração de quinze pinturas alusivas, todas de grande porte. Quase dava, com ironia e pelo tempo necessário a tal consecução, para que se assinasse um contrato de trabalho a muito longo termo. Estas questões foram ganhando, pelo que agora se entende, uma estranha ambiguidade. Assim, para o Kira o trabalho seria remunerado com um preço a combinar, para além dos custos dos materiais. Para os bons padres o trabalho seria suficientemente remunerado com o pagamento da tela (esquecendo as tintas, o tempo, o trabalho e a concepção) e o sublime privilégio de tornarem o Kira numa espécie de Miguel Ângelo, mal pago, do Barreiro. Não ficou claro se o artista deveria ainda fazer um agradecimento à Igreja pelo favor de se ver espoliado do valor do seu ganha-pão

Partindo do princípio que na sua produção o pintor fará uma média de 1.500 euros por mês, só o custo do tempo de trabalho investido neste quadro seria de 9.000 euros. Com os materiais gastar-se-iam, no mínimo mais 1.500 euros, ficando (sem ter em conta a remuneração artística) o quadro em 10.500 euros. Este preço seria, em termos de mercado de arte, muito baixo para a obra apresentada. No entanto o que o Kira pediu como remuneração era tão-somente cerca de 10% deste valor. Na verdade um preço mais que de amigo. A que responderam a isto os santos homens? Que esperavam que ele fizesse a oferta das obras à Igreja, fazendo com que o ofendido e pré-espoliado artista perguntasse se iria alimentar a família com hóstias.

Com os acontecimentos nesta posição, o quadro que já estava na Igreja, foi retirado e está agora no atelier do pintor à espera do seu destino depois de o Kira, num acto de grande honestidade, ter devolvido à Igreja o dinheiro adiantado para a tela. É uma pintura de venda problemática, mais pela sua envergadura que pelo tema. Somente poderá figurar num grande salão sob risco de, em qualquer outro lugar, esmagar qualquer envolvência. Fica-me pela mente a pergunta se estamos, pela parte da Igreja, perante uma grande ingenuidade, desconhecimento do real da vida, má-fé ou ainda outros pressupostos de que é melhor não falar. Para melhor compreensão do quadro e de possíveis motivações não ditas, cito uma apreciação do mesmo feita, num comentário no Blogue Kira Pintor, pela Dr.ª Fernanda Afonso:

“Gostaria de acrescentar algo ao que tem sido dito. Parece-me que a situação o merece. Vejamos o quadro. Este representa, no plano central, o acto sacrificial de Cristo. Na base, a lateralidade das figuras mostra a unanimidade solidária com o acontecimento.
Porém, as personagens não elevam, todas, os olhos para o Senhor ou para a pomba - os padres olham-na directamente, tal como a criança (perplexa) e os homens da "urbe", e por este mesmo facto, indiciam no seu recolhimento a consciência da tragédia no Presente. E o pintor?. De frente, interpela-nos com o olhar, sendo ele o agente da denúncia: Cristo sacrificado está vivo nos dias de hoje. Não é isto uma soberba forma de olhar o sagrado?
A igreja deveria estar grata por uma compreensão tão profunda da crucificação. Não a teve. Caso contrário, honraria o pagamento devido pelas telas, pelas tintas, já que o quadro é a dádiva do pintor à Igreja de Cristo - a da tolerância. Como se acha no direito de só pagar a tela? (parece que nem todo o custo é coberto). E o restante? Não é oferta suficiente a obra de arte?
Cristo não gostaria desta atitude que mais parece de vendilhões do templo... A César o que é de César, a Cristo o que dele é, ao pintor o que se lhe deve!”


Quanto a mim, modesto e inconformado figurante na obra, limito-me a pensar que esta Igreja – parece que em crise ética - perdeu a única possibilidade de alguma vez me ter, nem que fosse deste modo, dentro, ou sobre, as paredes dos seus templos.


Publicano in "Rostos on line"

outubro 28, 2009

As escolhas da CDU




Vêm alguns dos meus amigos e companheiros de partido mostrando alguma irritação pela preferência demonstrada pela CDU, na composição de juntas de freguesia, em relação ao PSD. Os comentários feitos por putativos apoiantes dessa força política são, regra geral, de uma acrimónia que junta gasolina à fogueira. Pelo lado dos meus crê-se que se está perante uma ligação contra-natura – seja lá isso o que for – pelo facto de não ser concebível a coligação de políticas de esquerda com as vontades sociais dos eleitos pela direita. Apertados por esta lógica de difícil refutação os apoiantes da coligação vencedora partem para agressões verbais desnecessárias.

Sumariado o evento tentemos uma abordagem mais serena da questão.

Já foi mil vezes repetidos e se-lo-á até à exaustão terem as eleições autárquicas um cariz diferente de quaisquer outras. E bem que eu pense que todas as eleições são distintas umas das outras, dependendo quer do órgão a ser eleito, quer da especial conjuntura em que ocorrem ou ocorrerão, aceitemos pelo seu valor facial, para facilidade de exposição, este enunciado. A principal característica diferenciadora destas eleições seria a da extrema personalização dos candidatos. Efectivamente, a prática tem demonstrado que existe forte mutabilidade na vontade dos eleitores, os quais, tantas vezes, nestas circunstâncias, trocam o voto ideológico pelo voto afectivo.

Aceite este princípio salta aos olhos que a inelutável vencedora destas autárquicas, no Concelho do Barreiro, foi a CDU. Não só a população lhe outorgou claramente a vitória, como lhe concedeu a maioria absoluta na Câmara, e lhe proporcionou maiorias confortáveis ou absolutas em muitos outros órgãos autárquicos. Ninguém, de boa-fé, poderá pôr em causa o claro sentido do voto da população. O corolário desta situação é que, descendo genericamente a votação em todos os restantes partidos e, consolidando-se ou subindo na CDU, esta está armada de uma legitimidade intransponível.

Ultrapassando a posição pessoal de esperar que um dia a maioria sociológica de esquerda se transforme em política, bem como de considerar como perigosa qualquer maioria absoluta, de qualquer partido, em qualquer órgão de soberania, resta-me aceitar, a contra gosto que seja, que os eleitores deste concelho, declararam sem rebuços, o apoio às políticas seguidas e propostas pela autarquia.

Dessa política fazia parte a repartição de Pelouros com o Vereador, Bruno Vitorino, eleito pelo PSD e com o Vereador João Soares, PS, que aceitou o cargo à revelia da posição assumida pelo seu partido. Pelo discurso do Presidente Carlos Humberto, na tomada de posse, presume-se que nesta Câmara se irão manter os pressupostos anteriores. Ressalte-se que tendo obtido a maioria absoluta poderia a CDU fechar a vereação nos eleitos pela sua coligação e, não o fazendo, deve salientar-se a abertura democrática desta acção do Presidente Carlos Humberto.

Não havendo novidades nesta área, até porque ao BE não foi possível eleger um vereador, fica a situação das “perigosas ligações” nas freguesias.

Este ponto de vista parece-me enfermar de uma falta de lógica de continuidade. Se a Câmara disponibilizou um lugar, é certo que exigindo solidariedade institucional, ao eleito do PSD, porque é que não o poderia fazer nas Juntas de Freguesia? Parece-me óbvio que nenhum impedimento sério se pode colocar quanto à justeza desta posição. Os eleitos de qualquer partidos são, quanto a mim, pessoas estimáveis, com as quais convivemos no dia-a-dia e que, tal como nós procuram, dentro da sua perspectiva, o bem destas populações. Poderão objectar que, a nível da Assembleia da República o panorama será bem distinto. É bem verdade que aí, iremos ver, por coincidência de propostas, muitas vezes o Bloco a votar com a CDU e contra o PSD. Só que, tendo isto em vista, não é lícito aos meus camaradas derivarem estes comportamentos a nível nacional, como espelhamento de escolhas ao nível local. O Barreiro, por razões certamente históricas, tem a peculiaridade, várias vezes demonstrada, de as estruturas locais mostrarem uma independência notória em relação às directivas nacionais dos partidos. Veja-se, como exemplo, as posições sobre a Terceira Travessia do Tejo. É bastante ilustrativa e penso não ser necessário trazer mais factos à colação.

Assim sendo, dada a personalização do voto e a desiologização do mesmo, quem é escolhido para o órgão autárquico será, eventualmente, mais a pessoa que o membro do partido. São estes dois elementos que podem explicar as escolhas da CDU. Dever-se-á acrescentar mais um elemento, este sim partidário, que é o do PSD, pelas suas características, não ameaçar o terreno político da CDU e do Bloco, pelo mesmo motivo, pescar nas mesmas águas o que introduz um elemento agonístico na equação. É portanto aceitável que as escolhas havidas só possam ter sido as que foram.

Como não se faz um casamento sem a livre vontade dos nubentes, não deverão os meus camaradas de partido ficar enfadados por terem sido preteridos nas escolhas. É compreensível, pelos factos aduzidos que o tenham sido. Até me parece que tal exclusão é laudatória e deverá motivar a continuidade dos nossos esforços apresentando à população a bondade das nossas acções e programas. Se o soubermos fazer, e relembro que uma eleição se começa a ganhar no primeiro dia do novo mandato e não na campanha eleitoral, os resultados virão naturalmente. Os nossos pontos de vista são, necessariamente, diferentes dos da CDU. Não deveremos pois esperar benesses e facilidades por parte desta coligação, independentemente da qualidade das relações pessoais, devendo sim, demonstrar com clareza as nossas propostas e, como oposição legítima, apresentar, caso a caso, em que se diferenciam e se tornam mais positivas para a população, as propostas e acções que empreenderemos em todos os órgãos em que estamos representados.

O poder autárquico foi estruturado, nos inícios de Abril, com os partidos então colocados nos órgãos de poder. Não será fácil agilizar esta estrutura muito solidificada mas é possível e é esse o trabalho que nos espera. Menos agastamento com escolhas que não nos pertencem e mãos à obra, Camaradas.


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outubro 23, 2009

In illo tempore, Saramago





Nota-se, por vezes, que na voz restante da Igreja, reside uma saudade imensa da força que teve o poder excomungante que lhe permitia calar todas as vozes insubmissas ao seu dizer “paternal”. Mais ainda, fica realmente perturbada quando o que é dito, vem de alguém cujo brado possa ser escutada e a confronte, racionalmente, com a irracionalidade do produto que coloca no mercado. Um mercado, diga-se, onde a concorrência é cada vez maior e o peso burocrático da sua máquina a impede de agir com a agilidade necessária à conquista das almas transviadas por outras seduções religiosas ou profanas. Defende-se, portanto, com a outra face da burocracia: o peso da Instituição. Entende, por isso, que quem lhe não veste o dogma, deve-se calar. O contrário será, como afirmaram várias fontes da Igreja perante este caso, ser pouco sério e ignorante.

O Vaticano, que desde o Evangelho Segundo Jesus Cristo, traz um saramago atravessado na garganta, agravado pelas declarações feitas em Roma, há poucos dias, nas quais o escritor apodava de cínico o Cardeal Ratzinger - actual Papa Bento XVI e anterior Prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé - veio, prontamente afirmar que não daria nenhuma importância ao caso conferindo-lhe, de imediato, toda a importância que pretenderia negar-lhe.

As afirmações desempoeiradas de Saramago, sobre a Bíblia, no lançamento do seu novo livro Caim, fizeram soltar na praça a ira persecutória do porta-voz da Conferência episcopal, Manuel Morujão, a arrogância de um ou outro teólogo de maior ou menor nomeada, bem como uma revoada de gente bem pensante cujo confessado desejo seria o de eliminar a fonte de tal perturbação.

Tentando discorrer com alguma serenidade no meio de tanta comoção apraz-me perguntar o que é a Bíblia? Escrito fundamental para a fundação da nossa matriz cultural, não duvido. Palavra de Deus oferecida aos mortais para seu esclarecimento e guia de vida? Vão falar com outros meninos!

As narrativas bíblicas são recolhas de mitos existentes em tradições orais e escritas de várias religiões e regiões do médio oriente, escolhidas e modificadas, de acordo com interesses e actualizações vários, ao longo dos tempos. É um edifício simbólico, não um manual de conhecimentos como os fundamentalistas querem fazer crer. Se não devemos julgar os actos descritos com os olhos morais deste tempo, também não podemos, sem prejuízo de soltar todas as crendices derrotadas pelo conhecimento, aceitar acriticamente o relato bíblico. Deverá ser encarado como um reconto de um dado momento da humanidade, com as suas grandezas e misérias, ajustado às necessidades de unificar um povo – os Hebreus – desunidos por nomadizações e guerras contínuas. A dureza e crueldade existentes no Deus bíblico é a imagem das forças necessárias para a unificação de Israel e para a derrota dos seus inimigos locais. Fazer disto o padrão moral para a nossa época é, no mínimo, risível. Mesmo há dois mil anos, o padrão já estava de tal modo ultrapassado que Cristo teve de subverter o paradigma bíblico para provocar uma mudança cultural. Transformou o terrível deus da ira em deus do amor, não conseguindo, no entanto, ultrapassar todas as contradições que essa revisão provocou. O resultado foi a ortodoxia religiosa usar o seu poder para exigir e causar a sua morte.

A Igreja, como detentora da”verdade única”, tem uma génese autocrática de que não se consegue desligar. Democracia é um conceito estranho para um corpo de sacerdotes profissionais para quem o máximo bem está no fortalecimento da sua corporação e na manutenção da diferenciação hierárquica. Que o façam em nome de um deus ou de uma qualquer outra força é irrelevante. Por isso vamos encontrar as religiões dominante sempre do lado dos poderosos e utilizadas como forças de subjugação terrena sob promessas de um bem maior a ser outorgado num qualquer paraíso posterior. São estas as ocorrências que levam a um confronto rude sempre que o progresso tenta dar um passo que seja. Por isso as igrejas são, por norma, científica e socialmente reaccionárias. O terreno que a ciência ganha perde-o sempre a crença obscurantista, para grande incomodidade dos que com esta aproveitam.

Que os próceres da Igreja tenham vindo bramar sem rebuços contra as imprecações anti-blíblicas de um ateu confessado admira-me muito quando, por estes dias, várias igrejas católicas, na América, declaram falência, num movimento sem precedentes e desgostante, com o fito de evitar pagar as indemnizações devidas, por condenação em tribunal dos seus agentes, por actos de pedofilia praticados no decorrer e com a força do seu múnus apostólico.

Senhores Cardeais, senhores Bispos, senhores Padres, para onde se escapuliu, nestes casos, a vossa indignada voz? Por favor, deixem de pretender dar lições de moral ao mundo e tratem de limpar o que de podre vai no vosso reino. Lembrai-vos que o Mestre, que dizeis seguir, afirmava ser mais fácil reparar no argueiro que entrou no olho do vizinho que aperceberem-se da trave que vos habita o olhar.


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outubro 09, 2009

Memórias XVIII – trago um país


Foto de BlueShell

trago comigo
um país achado em Portugal
trago um país meu
por final

trago comigo um país de mel e poesia
um país de vinho
um país amargo
trago um país que há muito não havia
e que foi encontrado ao largo
de si mesmo

trago um país repartido a esmo
um país vizinho e longe
em vento e tortura abandonado
num país de novo construído
de novo este país foi encontrado

levo comigo um país de tempos idos
um país que não volta
sem saudades
trago num sorriso à rédea solta
um país que me fala de verdades

digo trigo e pão e primavera
o sol nasce
digo tempo era
e hoje faz-se
o país que em mim trago ousadamente

tenho uma pátria trago um país agora
enormemente



Lisboa, Primavera de 1974

outubro 01, 2009

O Bloco, segundo Bruno Vitorino


Confessando a minha simpatia pelas pessoas do Vereador Bruno Vitorino e do candidato à Câmara Municipal Nuno Banza e, a título meramente pessoal, não posso deixar de tecer breves comentários às afirmações produzidas pelo primeiro, dadas à luz na edição “on-line” do Rostos de 30 de Setembro, a propósito, ou a despropósito, do Bloco de Esquerda.

Aponta Bruno Vitorino as suas baterias dizendo não ter o Bloco de Esquerda feito o trabalho de casa e de não ter ideias para o Barreiro. Como a notícia não esclarece mais não sei a que trabalhos, que devessem ter sido feitos e não o foram, se refere o Vereador. Se, no entanto se quiser esclarecer basta dar-se ao trabalho de “folhear “ o Rostos e depressa de aperceberá das intervenções do Bloco nos órgão políticos onde tem representação e na sociedade em geral, durante todo o tempo e não apenas em períodos eleitorais, feitas no e sobre o Barreiro. Espero que reflicta e não queira entrar naquela categoria do “pior cego é o que não quer ver”.

A afirmação de não ter o Bloco ideias para o Barreiro é arrogante e simplista. Arrogante porque pressupõe o princípio erróneo de que a inteligência e esclarecimento são património exclusivo de um homem ou de um partido; simplista porquanto parte da noção de o que não vê ou não sabe é pura inexistência. Esta é uma posição muito restrita e paroquial que é perigosa para quem se propõe ao governo dos homens.

Por outro lado, como afirma o candidato Nuno Banza, não será muito curial que os simpatizantes do Bloco venham a votar PSD, ou vice-versa. Se o amor à democracia nos une, muita coisa sobre a forma de a pôr em prática nos separa. Por isso, por aí, não virá grande perigo para qualquer dos partidos. Então porquê esta incomodidade que o Bloco de Esquerda parece suscitar em Bruno Vitorino que o leva a querer evidenciar, estraçalhando a realidade, miríficas incapacidades do Bloco?

Só uma resposta me parece plausível. No Concelho do Barreiro o Bloco teve uma votação superior à obtida pelo PSD. O receio sustentado de que, a manter-se este resultado, perca o PSD o seu vereador a favor do Bloco é a real substância de tais afirmações. Não duvido que o temor seja legítimo mas, para bem de todos, devemos dignificar a política não recorrendo a este tipo de argumentos infundados, desprestigiantes para quem os utiliza. Façamos, isso sim, uma política informada, baseada no desejo das melhores soluções para a Cidade, consultando com boa-fé as propostas dos adversários e a bondade dos seus programas, criticando as verdadeiras ineficácias ou as reais actividades que desmereçam o proposto.

Se o não conhecer terei todo o gosto em enviar-lhe o programa autárquico do Bloco de Esquerda do Barreiro, para que consigo não se passe o que se passou com a sua líder nacional a qual, por semelhante arrogância, também não reconhecia nos outros a existência de programas e ideias capazes de pensar e renovar o país.

Veja o resultado que deu!

Publicado in “Rostos on line” – http://rostos.pt

setembro 28, 2009

Primeiro os parabéns…




Para quem viveu em tempos de direito de voto condicionado, nulo ou perverso, o decorrer normal de qualquer eleição, tenha os resultados que tiver, é, só por si, motivo de festa interior. Por mais umas eleições livres está de parabéns o País. Também deverá ser felicitado por, na sua escolha, ter introduzido mais um elemento de democracia na Democracia. Trata-se da supressão da maioria absoluta e do regresso do poder ao Parlamento, local primordial, por natureza, do querer democrático.

Como venho defendendo, a maioria absoluta é uma subversão do sistema preparado para relativizar o poder e mantê-lo dentro dos limites da sua representatividade. A dispersão do voto por mais partidos torna a representação mais real embora exija, de quem quer governar, a procura incessante de consensos. É mais difícil, é mais trabalhoso, mas é mais equânime.

Continuando as congratulações dirijo-as seguidamente ao PS, vencedor aritmético do prélio e seguramente mandatado para a formação do novo governo; ao CDS-PP, com um amargo de boca da minha parte, porque obteve uma clara vitória conseguindo todos os objectivos a que se propôs, ficando em posição excelente para condicionar, para as suas propostas, a acção do futuro governo; ao Bloco de Esquerda pelo crescimento exponencial da sua votação, número de deputados e consolidação no terreno e ao PC porque, apesar de perder o lugar no “ranking”, conseguiu aumentar o número de votantes e, em Setúbal, averbou mais um deputado.

depois os cuidados!

O quadro saído destas eleições é complexo e pode vir a tornar-se preocupante. Advém-lhe a complexidade das diversas geometrias de poder que se poderão constituir. Assim, não entrando em linha de conta com os votos da emigração ainda por atribuir, o somatório de deputados do PSD e do PP, ultrapassam em dois lugares os votos do PS, podendo perspectivar-se com escolha governativa. Não crendo que o Presidente, por fragilizado, se atrevesse a tal feito, ele é, constitucionalmente possível. Ao Presidente cabe indicar o Primeiro Ministro tendo em conta os resultados eleitorais. O conjunto da direita é, em relação ao PS, maioritário. Outra maioria possível é facultada com um acordo PS/CDS. Só que aqui, a facilidade governativa, tenderia a incendiar os conflitos internos no PS. E Sócrates, para ganhar, viu-se obrigado a compromissos com a ala esquerda do seu partido, esgrimida, em desespero de causa, na recta final da campanha, tendo como endereço os possíveis votantes no bloco de esquerda. A maioria PS/PSD, a presumivelmente mais estável em termos de governação, está impossibilitada pela previsível contenda interna no segundo partido e pela necessidade do seu novo líder ter de ganhar espaço opondo-se às políticas governamentais. A maioria de esquerda, apenas existente aritmeticamente, é inviável no quadro de uma política que, embora de modo mais “soft”, se inscreverá no conjunto de soluções anteriormente apresentadas pelo Governo Sócrates.

Então, perguntar-se-á, não ganhamos nada, ficou tudo na mesma?

A resposta é um rotundo não! O quadro político foi substancialmente alterado. Mudaram, na direita, as dinâmicas interpartidárias; nas esquerdas voltou, apesar de tudo, a reforçar-se a maioria sociológica que , paulatinamente, se tem vindo a afirmar; e o primeiro ministro a empossar, quer queira, quer não queira, terá de contar com ela, não só para apoiar algumas medidas de esquerda, como para manter a paz no seu partido.

E o Presidente da República?

Teria, provavelmente agora, o seu momento de maior poder e glória mas, depois do incidente cretino das escutas – e antes de ele vir explicar-se ao Povo – creio bem que pode iniciar-se aqui a sua caminhada para a não reeleição.

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setembro 22, 2009

Memória XVII - ofício




longo das paixões latentes gelos
as distâncias giram
fascinando círculos de som

nem vómitos nem água
inauguram a nuvem
móbil de procura o sol
distende gritos

colar os lábios às casas
instantes que restam
nos remos da memória

húmidos recôncavos do sono
alquímicos véus da floresta

tão duro ofício a reconhecer




Lisboa, Agosto de 1984

setembro 17, 2009

A Sétima Vaga






Uma velha lenda do sudeste asiático, terras bem conhecedoras de violentos maremotos, conta-nos que a Natureza, em virtude dos maus tratos que os homens lhe dão, por vezes se zanga com a humanidade. Nessa altura as águas do mar invadem a terra e a sétima vaga destrói todos os vestígios humanos em terra. Ao cataclismo, mito paralelo ao dilúvio ocidental só que com repetições periódicas, segue-se a regeneração da humanidade, a partir de uns quantos sobreviventes escolhidos. Este ciclo continuará enquanto as sociedades não chegarem à plena harmonia com o todo e forem cometendo erros contra a Natureza.

Recordo-me de, há também muitos anos, ter visto um documentário sobre um colónia de insectos que viviam em folhas de nenúfares flutuando num lago. A ausência de predadores e a organização social dos bichos permitiram que se tornassem espécie dominante e com grande sucesso demográfico. Com tanto êxito que, o excesso de população e consumo, fez afundar as folhas de nenúfar destruindo, por afogamento, toda a população.

Assim como se fora uma Atlântida dos insectos.

Estes dois exemplos servem para introduzir a questão que tenho vindo a colocar-me com frequência e que, sendo de fácil resolução em termos racionais, é praticamente impossível de pôr em prática por causa de direitos, desejos e emoções. É tal magna pendência a de saber se o modelo de crescimento contínuo em que vivemos poderá manter-se indefinidamente e para todo o género humano. Ressalta perfeitamente, a qualquer ser pensante, que não é possível tirar proveitos infinitos de coisa finita. Só se podem retirar objectos de um saco enquanto ele não estiver vazio. No entanto, em relação às possibilidades do Globo, é deste modo que procedemos. Agimos como se os bens fossem inesgotáveis e fosse possível manter o crescimento das produções ininterrupto e por todo o sempre. Mas o que acontecerá se defendermos que as nações, nestes actos, estão a depredar o nosso habitáculo – o planeta – e que melhor seria diminuir os nossos consumos de molde a fazer-se uma distribuição equitativa e racionalizada por toda a humanidade?

Bem, isto seria o cabo dos trabalhos!

Veja-se como toda a gente já percebeu que a continuidade do modelo de vida e consumo ocidentais – a expandir-se para todos os lados – vai conduzindo, pelo aquecimento global, à situação em que, como no mito citado, a Natureza lança a sua sétima vaga de absoluta limpeza. Que fazem as nações? Conversam, combinam e nada cumprem, agravando cada vez mais o problema, porque ninguém quer ceder um pouco do seu bem-estar e da ambição de incessante aumento do mesmo, de molde a abrandar o esgotamento e deterioração do ambiente e dos recursos naturais.
E têm, aparentemente, razão.

Porque é que eu hei-de ceder algo das minhas facilidades a favor de outros que nem conheço ou de um tempo em que já não estarei no mundo? Por outras palavras, porque hão-de os brasileiros deixar de melhorar a sua economia, devastando o pulmão do mundo – a Amazónia – para favorecer o nosso tipo de vida a que tão poucos deles têm acesso? Ou os chineses continuarem em pobreza endémica para não acrescentar mais poluição à gerada pelos países industrializados? E que partido, no Ocidente, de direita ou de esquerda, ousaria incluir no seu programa medidas de decréscimo de bens ou diminuição de protecção social sem ver desertar eleitores?

Pois é. Os geólogos bem nos avisam contra as várias extinções em massa ocorridas no nosso planeta. Se é verdade que tais factos se devem a causas exteriores como as radiações gama - provenientes de supernovas -, ou impacto de meteoritos; ou internas tais os vulcões, a divisão de massas continentais ou mudanças climáticas, a verdade é que agora, mercê da acção da humanidade, já se antevêem alterações ambientais que poderão vir a acrescentar mais um estrato geológico para o estudo de espécies malogradas.

Dir-me-ão os senhores a que propósito virá este arrazoado cataclísmico quando parto do princípio que falar de tais coisas é como pregar no deserto e que nunca, por nunca ser, deixaremos o produtivismo continuado e o trocaremos por um decréscimo de consumo mais compaginável com as possibilidades da Terra? A minha resposta, acompanhada por um sorriso cínico de impotência, será a de obter assim a única satisfação permitida a Cassandra. É a de olhar do alto o indígena atónito e pespegar-lhe um sonoro:

-Eu bem te avisei, não foi?...

Um pouco antes de, imparável, a sétima vaga fazer ruir todo o orgulho humano.



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setembro 03, 2009

Karta abrida ós tupidos k diz male do sistema de edukassão




Barreiro, 2 de Çetembro de 2024

Xenhor dretor:

Vai fecar bem barafundado ao receber esta minha. Mas seu lhe diser cos amaricanos apezar de serem gajos brutos e sem coltura como agente sabe iventaram uma manera de cumunicassao co passado já fica a perceber a marosca. E assim um genero de canal mimoria mas k premite cagente escogna o pasado k ker ver.

Çei muto bem k tam ai em tempu de ileicoes e ca eskerda nam sabi faser mai nada k dizer male da pulitica de inducassao do inginheiro Xocrates de da menistra Lurdes. Iço e uma a fronta nam so ao groveno bestiale deses sinhores cumo uma froma de despritijo de kantos comaeu fazeram o encino secondario neça epoca.

Çei bem que nam foxem eles euca nunca ter akabado o insino secondario. Cumo era jove dava faltas todos dias. Kem me valeo foi a çenhora menistra Lurdes k nam premitio cós çafardanas dos profs me xumbaçem por faltas. Tamem não deixou k so pro não çaber a procaria da materia nam ma deichazem paçar de ano. Inda ma lembra do barulho cós gajos fazeram. Kakilo era prastatistica co foturo saria de anafabetos funsionais cagente avia de ficar no rabo da eropa e era todo tretas. Basta vermamim i o me primo que fes o 12 ano nas novas oprotunidades e cagora vive munta bem aqui no Algrave a çervir no restorante ao ingleses, franseses e lemoes k jacatam de novu a gosar o klima e as augas kentes.

Agente pra çervir no terismo nam preciça de çaber aquelas coisas do zarolho pareçeme que se xamã os lucindas e e uma cuscuvilhize do carlos da maia andar a dromir com a irman. Çisto e la coiza ksensine a crianças nuvinhas.

Xame a atenzam no seu jronal para a neçeçidade de elejer de novo o sinhor inginheiro pra ca Lurdes poça voltar a dar no coco aos deslanbidos dos prof. Pra ver çeles ganham juiso e por pura malvades nam crotam a pernas aqules k comaeu so kerem vençer na vida e comsegir uma boa vida cum karrinho e um plaxma pra se desstrair opois do trabalho.

Penço k sou um bom esemplo das medidas acertadas desse groveno k estaquaze acabar. Nam neguen a poçibilidade deles continureim a faser tambom trabalho para o foturo de tudos nos. Votem neles pra puodermos garantir uma suciedade onde todos tenhao direito a fazer o 12 ano sem medo de xumbarem. Viva a igoldade.



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agosto 06, 2009

Memória XVI - Ai de quem



Sentado na varanda do seu desejo o poeta trabalha no poema. O mar em frente penetra-o pelo olhar. Ausente, vai modelando no seu íntimo a mais sublime peça poética que o mundo poderá saborear. As palavras saem do arquivo da memória, passam no coador do gosto, juntam-se na epiderme da sensibilidade, prontas quase à recusa ou ao conceito do conhecimento.

Já a este poeta foram tecidos nas praças das letras hagiografias intocáveis. É um homem de cultura e nome feitos. Fala-se dele nos jornais e outros meios de comunicação titulando-o de enorme, monstro das letras, talentoso, inspirado, um que sei mais de qualificativos em extremo. Quase se pode ficar esmagado debaixo do peso de tal fama.

Mas o nosso poeta gosta. E mais, pensa que é de menos. Considera como insuficiente a glória tida. Tal como o oceano, que o contempla, ele aspira à sem razão de medida. Um infinito será talvez suficiente, mas o grande que ele tem é ainda pequeno. Quer muito de mais. Por isto, ele se pende sobre o mar. Ele busca, ele constrói. Por isso, lentamente o seu poema toma forma, vai crescendo. E no mirar-se, fazendo-se poema, não pode ouvir, queixando-se solitária a mulher que quis ser a companheira e está sozinha, atrás do poeta, atrás do mar, muito aquém da varanda do desejo, onde se busca, onde se perde, onde a memória recusa qualquer coisa que não seja o poema em escrita.

O mundo rola. Na cidade perto do mar a vida das pessoas flui. É comummente atroz e agradável. Nas marítimas ruas dessa cidade perpassam gaivotas e aromas salinos entremeados de vozes. Um mundo de gente, de barcos, de irmãos e inimigos. Nesta cidade edifica-se a glória do poeta. São aquelas mãos dadas que o lêem , o fazem grande e o mitificam. Dele sabem apenas os seus versos. O poeta é uma forma de leitura. Do homem nada sabem. Por isso o idealizam puro como uma intenção, por isso ele se pensa plano e sereno tal uma grande planície levemente soprada pela brisa, onde toda a calma permanece estável há séculos sem conto.

De mansinho, como que estando numa igreja sem ninguém, os medrosos dedos tacteiam os ombros do poeta. Ele volta-se de rompão, desabrido. Malcriado grita à mulher a estupidez do momento em que lhe perturbou os sentidos quando a rede da sua imaginação, quase-quase, aprisionara a fúlgida borboleta da inspiração.



Perante o pavor expresso nos olhos da companheira ao aceitar, passiva, o sacrilégio cometido, cresce-lhe no peito o gozo do poder. Desencarnando um largo gesto, olímpico na fala, teatral no todo, berra desaustinado o manso poeta dos versos, tocantes e oficiais, para namorados de acordo com a ordem social vigente, aceite e recomendável. À companheira diz da grandeza de que está investido. Aumenta-se diminuindo-a. Ela, transida e crédula, sente a desgraça no olhar irado do deus.

Amachuca-se, pede perdão. O poeta-deus, terrível aponta no acusador índex, a saída do paraíso.

A mulher, derrotada, em vão implora a graça de um olhar, de uma palavra amiga, de um pouco da compreensão que ele esbanja por páginas e páginas de romances e poemas elevados à celebridade dos compêndios escolares. Nada demove a granítica vontade .A mulher desaparece da sua vida deixando o cenário do conto um pouco mais vazio.

Intemporal o poeta continua a criação do grande poema, do último, do definitivo. Com ele encerrará a sua obra e todas as outras obras ainda por escrever. Ele será o último e o único. Ele poema. Ele poeta.

Ao que parece, na cidade junto ao mar passou a fome, a guerra, a doença. Nada tocou o poeta. De nada se apercebeu. A sua obra enche-o por completo. É o trabalho mais importante do mundo. É a esperança de toda a gente. Ele dirá tudo, ele resolverá todos os problemas.

No princípio, tal como no fim, será o verbo...

Na varanda do seu desejo o poeta , contemplando o mar, envelheceu e morreu. O seu último poema, unanimemente considerado uma obra de génio, um programa de vida e o retrato daquele homem amável e humano, começava assim:

Ai de quem vive a vida instalado
na varanda do desejo virado ao mar ...

Ai de quem egoísta e santificado
não deu de si aos outros mais que simulação

Ai de quem Ai de quem Ai de quem
estragou a sua vida na contemplação ...




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julho 14, 2009

Adeus Amigo



(uma pequena lágrima por Palma Inácio)

A penúltima vez que estivemos juntos foi em 13 de Maio de 2000, quando um enorme grupo de amigos se juntou para te ver receber, das mãos de Manuel Alegre, a Grã Cruz da Ordem da Liberdade, que o Presidente Sampaio merecidamente te outorgou mas da qual não quis fazer-te entrega pessoal. Sei bem que a justificação dada era que se não encontrava disponível por afazeres fora de Lisboa. No entanto, ironia das coisas, quando com os meus amigos Roque Laia, Santos e Pimenta (que aqui, sem o seu consentimento, trago por testemunhas) saímos, por uns momentos, da estufa-fria para irmos a um café, ironia das ironias, fomos afavelmente cumprimentados pelo ilustre Presidente da República o qual, calmamente, se passeava na rua, a escassos metros do acontecimento, com o seu filho. Não é caso para admirar. Foste sempre necessário mas incómodo. Os teus métodos não seguiam a linha da hipocrisia dominante. Para ti a luta não ficava apenas pelas discussões de putativos direitos em intermináveis debates. Tal como Hoederer, nas Mãos Sujas, de Sartre, também tu sabias que a revolução não era uma festa de salão e estavas disposto a dar tudo, inclusive a vida, pela sua realização.

Foste sempre o herói trágico e incompreendido. Muitos se utilizaram dos teus feitos mas poucos te reconheceram oficialmente os méritos. Já depois do 25 de Abril, quando tantos serventuários do fascismo se passavam de campo e continuavam a ter, ou ganhavam novas sinecuras, tu, o herói apontado às massas e aos estrangeiros como exemplo romântico do revolucionário, passavas fome e vivias mais que modestamente, nada pedindo para ti, tentando sempre fazer avançar a revolução, o socialismo, a liberdade e a igualdade.

Sempre te reconheci amigo do teu amigo e agradecido pelo pouco de bem que te fizessem. Por isso continuamente honraste Mário Soares que sabias companheiro seguro dos dias maus. Muitos te recriminaram, por tal posição, dizendo que fazias concessões de direita. Eram pequenos moralistas de circunstância incapazes de reconhecer o teu valor humano e de compreenderem que, para ti, revolução sem sentimentos e dignidade não era revolução.

Sinto saudades de ti, hoje, 14 de Julho de 2009 porque amigos me telefonaram, comovidos, dizendo “morreu o Velho”. Para te designar não usávamos nem era preciso outras palavras. Nem chefe, nem presidente, caudilho ou secretário-geral. Era apenas, simples e totalmente, o Velho! E estava tudo dito!

Outros te farão panegíricos e darão da tua vida a conta mais ou menos correcta. Não é minha intenção - nesta hora em que medito sobre a morte de um amigo que nos deixou ainda mais pobre do que era quando nasceu e que bem poderia ser um dos poderosos deste país (e não só) - desfilar os êxitos e os sofrimentos do teu percurso vital. Quero apenas recordar-me da nossa convivência, dos acordos e desacordos, sempre fortes mas frontais, que tivemos e da idêntica vontade de construir um mundo onde a humanidade prevalecesse sobre todas as doutrinas e a vida de cada pessoa decorresse sem vénias necessárias a qualquer tipo de senhor.
Sei que todos os teus amigos hoje se vão sentir um pouco mais sós. Faz parte do luto! No entanto o que nos vais deixar é a tua crença e a perseverança que sempre mantiveste, ao longo da vida, mesmo nos momentos mais dolorosos e deprimentes. Espero que sejamos dignos de ti e que, quando soar a nossa hora, alguém possa de nós dizer o que aqui sobre ti afirmo ao mundo inteiro: Que os sinos dobrem sem rebuço. Hoje, morreu um Homem!

julho 01, 2009

nestas ruas o sentido




meu amor o desalento nestas ruas
é viagem perfeita de chegadas

toda a cidade nos envolve de sonhos
e promessas e angústias
portas ensombradas à espreita
das tuas pernas animais libertos
ao exterior das gentes

interiorizo enormemente esses momentos
plenos do sentido da passagem
e nos esquecimentos a mulher
é verdes penas sobre águas
nos dias invernais intranquilos
vaga consciência que adivinha
no rosto o passo solicitando o ventre

minha amada
são percursos do amor
o não chegar
quando a estrada
nos repudia os traços

tendo em conta a breve eternidade
que vamos obter
para nada caminho meu amor

alças a voz
arrebanhas o vento
e danças na música das algas
a tristeza semeada pelos muros

e no tempo de dizer-te meu amor
a voz vibra passado
sem timbre de futuro

junho 26, 2009

O que é isso da governabilidade?





Desde que Paulo Rangel venceu Sócrates nas Europeias, a Direita acordou! Mas despertou receosa de que, no próximo confronto, tal espavento não se repita e os partidos de esquerda voltem a somar a maioria absoluta dos votos expressos. Para que tal não aconteça é necessário agitar alguns papões ameaçadores .O bloco de direita – PSD, CDS a que , pelas suas recentes posições, é licito juntar o Presidente da República – está unido em torno de três ideias básicas as quais, sendo puros mitos, pretendem simular verdades absolutas: a da governabilidade, a da simultaneidade das eleições legislativas e autárquicas e a da economia por corte das grandes obras públicas.

A primeira questão é apresentada como se qualquer unidade pós-eleitoral só fosse possível à direita. Espera-se que o PSD ganhe as legislativas e componha a maioria com o CDS ou, cereja em cima do bolo, que o bloco central de interesses económicos venha a traduzir-se num bloco central da política unindo PSD e o PS. Por outro lado, na esquerda apenas pressentem impossibilidades. O PS nunca uniria esforços com o PCP e, muito menos ainda com, dizem eles, o imaturo Bloco de Esquerda. A pergunta a fazer-se é porquê? Que fatalidade genética dará aos partidos de direita maior capacidade ou apetência para a governação e as retira às esquerdas? Em que tratado de Política, ou de Biologia, tal se demonstra? Já se esqueceram de Durão Barroso, do seu pântano e do precipitado abandono do governo para rumar à sinecura europeia, deixando pendurados os portugueses, entre eles, oh! Ironia, a ministra Ferreira Leite mais o seu doloroso programa de emagrecimento da população? Já estamos esquecidos que as acções governativas da direita são aquelas que conduziram o mundo às guerras e a esta crise? Mais liberalismo sem freio? Mais mercado a dirigir os destinos do mundo sob a lenda da auto regulação, quando sabemos que o seu objectivo é sempre explorar, até ao limite e sem ética, todas as possibilidades? Esquecendo que o seu único objectivo é a máxima acumulação de riqueza, num exíguo número de empresas ou pessoas, e quando os limites são atingidos abandonando as populações empobrecidas aos problemas por eles criados na ânsia louca de um desmedido enriquecimento?

Temos de tornar claro que a acção comum das esquerda é uma possibilidade. Perante propostas e políticas concretas, que defendam as populações trabalhadoras, qualquer dos partidos de esquerda pode, e muitas vezes já foi feito, juntar as suas vozes e votos para tornar possível o melhoramento da vida da nossa gente.

A segunda ideia-força é a da simultaneidade das eleições. O grande argumento é a poupança feita se as eleições decorrerem no mesmo dia. Se os argumentos forem somente os de índole económica, na fronteira, chegaremos à denegação da democracia porque, aparentemente é mais cara que qualquer regime de quero, posso e mando. Na realidade apenas o PSD defende eleições simultâneas. Fá-lo, sejamos claros,porque lhes parecem ser mais favoráveis aos seus desígnios, porque pensa optimizar assim os seus resultados eleitorais. Todos os outros partidos preferem eleições desligadas. Será porque são mais perdulários que o PSD? Claro que não! Também aqui se joga o interesse próprio de cada partido. No entanto há algo mais a juntar a esta posição. Cada eleição tem a sua dignidade e o seu espaço próprio. Misturá-las, não sendo crime de lesa democracia, é sem dúvida subalternizar uma em relação à outra. Ora isto seria um mau serviço, a longo prazo, à democracia. Seria como cortar na comida e ficar admirado por se ter fome. Não me parece, à primeira vista, que devamos submeter-nos à ilusão económica prestando, nesse passo, um péssimo serviço à democracia.

Finalmente a grande preocupação com a dívida, resolúvel no corte dos investimentos com as obras públicas, faze-me lembrar lágrimas de crocodilo. Que é preocupante a subida do endividamento, claro que é! Todos o sabemos. Mas serão todas as dívidas iguais? O endividamento ao jogo é semelhante ao investimento numa máquina para produção? O que se deve discutir não é se vamos gastar muito dinheiro, mas sim o que poderemos ganhar com esse gasto. Desta discussão foge a direita preferindo a facilidade de um economicismo parvo. No entanto, sabemos que, caso ganhasse as eleições, algumas destas agora contestadas obras teriam que ser feitas. O aeroporto de Lisboa é um enorme risco. Tem-nos valido Nossa Senhora de Fátima ou dos aviões senão já uma aeronave se teria esmagado sobre o casario lisboeta. O aeroporto está cercado pela cidade e terá, inevitavelmente de ser mudado. Como está decidido ser em Alcochete, teriam de construir-se acessos e, lamentando ter de dar o braço a torcer, lá viria a direita dizer que afinal a ponte era necessária. Só que num outro local onde servisse melhor a sua clientela e não nestas zonas demasiado vermelhas para o seu requintado gosto. E o TGV? Claro, com o impulso que a direita, em boa hora eleita, daria ao mercado, seria necessário um meio de transporte expedito para que os homens de negócio pudessem, sem perdas de tempo, encontrar-se em qualquer ponto da Ibéria. Lá viria o comboio rápido solucionar parte do problema. Pareço demasiado cínico na minha exposição? Olhem que não! Na verdade esta súbita moderação da direita não é real. É meramente estratégica. Visa assustar para dominar. Afinal quem é que, em primeiro lugar, beneficia dos grandes empreendimentos senão as grandes empresas? E de quem são eles apoiantes? Do Bloco, não! Do PCP, tão pouco! Do PS, às vezes quando faz o jogo liberal. Do bloco de direita? Certamente e sem qualquer dúvida.

Então, sabendo isto, não nos deixemos embalar em cantos de sereia a vamos, frontalmente, recusar os receios que a direita tenta injectar na vontade dos portugueses e dizer claramente que a maioria é o povo e que o povo espera uma esquerda que não se traia nem o traia. Desta forma poderemos fazer frente à crise e ultrapassá-la em benefício dos que diariamente labutam com um mínimo de réditos.

Não podemos esperar que resolvam a crise aqueles que a criaram.


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junho 17, 2009

Memórias XV – Momento




Eu hoje vi o mar, não estava azul
era branco como o sol da manhãzinha
falavam-me as ondas por enigmas
e as vagas estendiam-se, estendiam-se…

Que faz andar as ondas, perguntei…
uma gaivota que voava contra o vento fechou as asas
e veio cair flecha ao pé de mim.

Eu vi que quem fez cair a gaivota, fazia mover o mar

Porém, não acredito num deus que tudo faz.
Se ele existisse a gaivota não morria
e porque havia ele de mexer o mar

o mar quando parado é um espelho
é assim que o sol gosta dele e no verão o quer queimar

Então o que faz mover as ondas? Outras ondas.
Que fez cair a gaivota? As asas.
Não há causa primeira. Só efeitos
das nossas causas.

É por isso que a saudade que tenho não é mística
é por isso que a dor que sentimos é só nossa
é por isso que o amor, para terceiros, é sempre estúpido
é por isso que as flores nascem de flores
é por isso que eu estou aqui e tu ali
é por isso, é por isso, é por isso
que não descubro o princípio nem o fim.



Algarve, Fevereiro, 1966

junho 08, 2009

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Há, na história, momentos cruciais que prenunciam mudanças até aí pouco discerníveis. Há também desenvolvimentos irónicos só entendíveis na invenção de um deus perverso entretido a baralhar os juízos dos homens ou, mais na teoria do Caos, se compreendermos que efeitos inesperados eram perfeitamente previsíveis e fatais, só não sendo apercebidos como tais por não conseguirmos apreender todas as diversas e subtis causalidades as quais, somadas, os tornaram inevitáveis.

Estas eleições europeias serão, possivelmente e a meu ver, um desses inopinados fenómenos.

Os partidos socialistas no poder, todos enfeudados, contranatura, à defesa e execução de modelos de governação neoliberal, foram castigados pelo seu desvio direitista. Os eleitores socialistas não votaram neles porque não se reconhecem nestas políticas, os liberais, sentindo-os estranhos e de pouca confiança, agradecendo o serviço prestado, preferiram voltar aos partidos que melhor e mais abertamente defendem o seu ideário. Deste modo, apesar das sucessivas mentiras e traições os socialistas neoliberais, no primeiro momento de tira-teimas, encontraram-se em terra de ninguém e com as hostes, que consideravam conquistadas, a dizerem-lhes claramente que ninguém confia em vira-casacas ideológicos.

Foi o que se viu por essa Europa fora acrescentado do quanto de desprezo, na recusa de comparência às urna, de parte significativa da população. Temos portanto os governos socialistas a pagar o preço da crise alimentada pelos neoliberais e estes, alterando agora o discurso, prometem uma regulação que não pensam implementar, aparecendo como a esperança de mudança de paradigma. Ironia das ironias espera-se que os responsáveis pela crise nos venham salvar dessa mesma crise. Ou dito de outra maneira, como se o ingénuo cordeiro fosse à toca do leão pedir-lhe protecção para os ataques desse mesmo leão.

Postos estes prolegómenos olhemos para Portugal.

De parabéns está Paulo Rangel porque, abandonado pelo baronato do partido, se bateu sozinho e com coragem, conseguindo um resultado que é, só por si, um sério aviso a Sócrates e à sua governação. O PSD, no geral, recebeu um brinde que se calhar não mereceria e que penso, será de mais difícil repetição nas Legislativas. Não duvidando que boa parte das deslocações de votos foram acções de protesto contra o Governo, é incerto que, num mano-a-mano entre Ferreira Leite e Sócrates, aquela possa levar a melhor. É que, para além do seu parco envolvimento emotivo com os eleitores também ela tem, desde o seu ministério das finanças, telhados de vidro. O resultado obtido por Rangel não será facilmente transferível para o partido no terreno das legislativas.

Por outro lado, e lá vão contas de merceeiro, a esquerda sociológica é ainda claramente maioritária. Somando canhestramente os votos do PS, Bloco e PCP, andaremos pelos 49% dos votos expressos. Seria confortável maioria se a palavra esquerda tivesse validade intrínseca e não escondesse rivalidades assassinas. Serve aqui, como reflexão, o processo exemplar que decorre, desde há dez anos, no Bloco de Esquerda. Ultrapassando as desinteligências graves que dividiam vários grupos, ditos de esquerda radical, foi possível construir uma plataforma de entendimento, através de programas e acções comuns, privilegiando o que une e ultrapassando o que separa. A pergunta que me faço é a de saber se o mesmo será possível fazer com esta agregação meramente sociológica que são os partidos do povo de esquerda?

Os tempos que aí vêm não vão ser fáceis. O brilho destas vitórias eleitorais cedo se embaciará frente às dificuldades a que iremos ser sujeitos. O tempo das facilidades – para nós recentes e breves – acabou. A globalização, que num primeiro momento acrescentou riquezas às sociedades desenvolvidas, está agora a reclamar o pagamento das facturas. Uma cada vez maior parte da população mundial, até há pouco afastada das benesses e malefícios do consumo exige, agora e com veemência, a sua quota-parte do bolo. Só que o bolo, ao ser dividido por mais gente, será não só escasso, como as suas fatias terão de ser, necessariamente, bem menores. As sociedades ocidentais não sabem conviver com isto. Inventaram a social-democracia quando era fácil transferir a exploração proletária da sua população para as colónias e ex-colónias. Acabada a mama os malefícios do desemprego, pobreza e doença espreitam novamente à porta daqueles que já se desabituaram de tais coisas e as vêm aparecer de novo como ameaça constante e inultrapassável. Para estes males não há soluções no “mercado livre” que os alimenta. Este procura apenas a maximização dos lucros e não tem preocupações humanitárias. Para ele o homem é mero factor económico e não a razão de ser da economia. Trocaram os factores da equação e a resposta só pode estar errada. Cabe às esquerdas a correcção deste estado anómalo de coisas. Mas para isso terá que encontrar-se no terreno da união, com a generosidade de tentar perceber o projecto do outro e a inteligência de ser capaz de se adaptar a uma causa comum para benefício de todos. É necessário perceber que a razão não está toda no mesmo sítio e que é essencial conseguir ceder para, em conjunto, se poder avançar. Olhando para o estado das coisas não creio que tal possa ser já uma conquista ou uma consequência destas eleições ou do que elas prenunciam. Tenho pena que ainda se vão queimar inutilmente muitas ilusões e energias antes de podermos congregar esforços para a prossecução de um mundo onde a pobreza seja erradicada e a condição humana atinja a dignidade que lhe cabe. Sei, no entanto, que esse é o caminho e para ele laborarei. Um dia, os homens de boa vontade, deixarão as divisões inconsequentes e unir-se-ão para o que é primordial e importante. Assim o espero, assim o quero e para tal trabalharei sabendo que não estou isolado nos meus esforços. Se alcançarmos estes desígnios os nossos filhos poderão crescer em paz. Caso contrário talvez eles não possam conhecer os seus netos.




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junho 02, 2009

Borradas judiciais





1 - Declaração de interesses

Como foi noticiado na imprensa local integro as listas do Bloco de Esquerda para as eleições autárquicas. Este facto coloca-me um problema de princípios sobre a circunstância de, sendo candidato, dever, ou não, suspender a minha colaboração temporariamente neste Jornal. Consultado o travesseiro, como é costume dizer-se, cheguei à conclusão que, alertados os leitores para o facto, conscientes da declaração de interesses, nada obstaria à continuidade da minha colaboração neste órgão informativo. Na verdade a crónica nada mais é que o exercício opinativo abordado através dos factos quotidianos ou da defesa de valores e crenças. Assim ela é por natureza e sempre um acto político por excelência.

Pesados estes critérios, não havendo nada em contrário por parte da direcção do Rostos, manterei a minha presença, acrescentando na assinatura as condições de militante e candidato pelo Bloco de Esquerda. Ficarão assim ressalvados, em meu critério, os pressupostos éticos que devem presidir à relação entre escritor e leitores.

2 – As borradas

Esmeralda, Alexandra e tantos mais casos e pessoas que não chegaram às luzes da ribalta desesperam-nos em relação ao aparelho judicativo do País. Somos um país legislativo, dificilmente um estado de direito. A justiça cara e tardia, decisões socialmente chocantes, o poder possivelmente excessivo do corpo judicial, fazem parte do descontentamento das nossas vidas.

Qualquer forma de poder, em democracia, exige de quem o receba imenso cuidado na sua utilização. Responsabilidade e humildade na execução legitimam o seu possuidor e conferem dignidade a quem, parcimoniosamente, o exerce. A arrogância e a prepotência são a outra, negativa, face do poder.

Por questões históricas e sociais há muita arrogância a impregnar o tecido judicial. Daí à decisão injusta ou desfasada da realidade é um pequeno passo que é, por demais, dado sem maior reflexão sobre os efeitos latentes da mesma.

Para ilustrar estas afirmações não resisto a contar um caso antigo, para o qual me foi pedida fundamentação antropológica, de atribuição de poder paternal.

Um casal com um bebé de cerca de um ano divorciou-se. Na divisão de bens, como era costume, concordaram na atribuição da casa à mãe factor correlato com a responsabilidade parental directa que lhe fora consignada. Só que a mãe não correspondeu às exigências inerentes. Começou por deixar o filho sozinho durante a noite e, conhecido o facto, chamada a atenção, passou a largar o filho em casa da avó paterna. Inicialmente apenas nas noites em que decidia ir divertir-se, posteriormente acrescentou os fins-de-semana e, finalmente, passando semanas inteiras em que nem sequer ia saber como estava o bebé. Entretanto, o pai que era militar, vivia nos quartéis onde prestava serviço, não podendo ter consigo um filho de tão tenra idade. Mas, para a mãe, não havia qualquer problema. Tudo corria sobre rodas.

Ia o bebé pelos seus dois anos e meio quando o pai, casando em segundas núpcias, achou-se com capacidades para dar de novo um lar ao seu filho. Muito embora o pequeno continuasse a viver, habitualmente, em casa da avó paterna, sendo respeitador da lei, pediu a revisão, em sede própria, da atribuição do poder paternal. O caso, que parecia de fácil resolução, dado o abandono a que a mãe sempre votara a criança, arrastou-se uns quatro anos pelo tribunal. Continuando ela, como se provou, a ser negligente em relação à criança, possivelmente como vingança pelo facto de o pai se ter casado novamente, retirou o seu filho de casa da avó, começando a sonegar as visitas da criança à nova família. Como consequência, ainda, da existência um tanto ou quanto desregrada perdeu a mãe o emprego e da pensão reforçada, dada pelo pai, para manutenção do filho saía parte substancial para sustento da sua vida social com prejuízo das condições de manutenção do bebé. Aviltando ainda mais a situação desta mulher acresceu a remessa para tribunal de casos de cheques sem cobertura – na altura considerados crime – bem como uma pendência qualquer, com a então Policia de Viação e Trânsito, por ilegalidade cometida. Apurou-se também que estava em vias de emigração.

Esta possibilidade levou a que o pai aumentasse a pressão sobre o tribunal. Um dia lá chegou o julgamento e tudo quanto foi dito sobre o comportamento negligente e culposo da mãe foi provado. Assim como a possível deslocação para o estrangeiro. O libelo produzido pela Juíza do caso era terrível para a mãe. Reconhecia tudo. Havia indignidade no seu comportamento, não merecia credibilidade, não obedecia às ordens emanadas pelo tribunal, por isso – quando todos pensávamos que iria ter a devida sanção - o poder parental continuaria a ser-lhe garantido!

Pasmei e aquele pai nunca mais viu o seu filho!

Este caso foi aqui trazido por me parecer bem paradigmático de uma certa forma de fazer justiça. Poderia chamar-lhe a decisão “by the book”. Isto é, a simples colagem à letra da lei, sem que haja capacidade de perceber que em casos de consequências sociais como estes, a decisão sábia será mais baseada na sociologia que no estrito cumprimento do enunciado legal. Não são simples as questões da parentalidade nem o laço biológico será sempre o mais importante critério a avaliar. A consanguinidade não é tudo. Os laços socioafectivos são, muitas vezes, bem mais importantes que os genéticos. As questões de progenitura foram importantes para as sucessões dinásticas e outras. Fazem parte de uma mitologia do sangue que a ciência hoje já não pode assumir de forma tão primária. A parentalidade é uma criação derivada do social e que só nas interligações criadas se consubstancia. Mas para efectivar esta atitude na Justiça é necessário uma outra forma de preparação, um outro entendimento da vida e das consequências de determinadas deliberações, para as quais, que me perdoem aqueles que não cabem nesta descrição, a maior parte dos nossos juízes não está preparada.

Precisamos de outra justiça. Fazem falta novos juízes! Não é possível continuar, tantas vezes, a borrar-se, desta maneira, a escrita.



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maio 26, 2009

ela de coração parado




à memória de elis regina


é sempre assim que chegam as notícias
repentinas absurdas e brutais
tudo fica parado como cartaz
em muro de silêncio
gentes isolando mágoas
em fundo de ruídos de atabaques

todos iremos um dia a esse encontro
como tu foste inesperada e breve
apartando olhos em colares nocturnos
tecidos da morte de cada um de nós

preciso agora da dureza das palavras
para enfrentar o momento aguçar a pedra
e profanar a alma desse deus de impudica grandeza
firmada sobre o inútil de sentirmos
como se morre na lentidão dos dias
sempre mais incompletos e sós

acredite-se embora que na morte
continue a vida de outro modo
não se percebe porque se cala a voz
e o esquecimento e instala
amarelecendo imagens vivas e reais

borboletas de sombras em mar esmaecido
ou comprido nevoeiro que se adensa
a minha mágoa é mão que arrefece
na janela do comboio perante a noite

canto na ribalta a decepção
da hora em que se cai sobre a notícia
de um corpo abandonado

que desse desejar animador da voz resta ela
de coração parado

maio 06, 2009

Bem prega Frei Tomás…




Não se pode queixar o cronista de falta de material imprevisto e saboroso. Ele há-o para todos os gostos e em tanta abundância que o desesperante é a escolha de sobre qual nos debruçarmos. Assim, do caudal dos últimos dias, escolhi dois casos que, por facilidade de discurso, tratarei na ordem inversa da sua cronologia.

Começarei pelo incidente acontecido, na manifestação do 1º de Maio, a Vital Moreira. Resumindo: o candidato do PS às Europeias, juntamente com a comitiva socialista, apresentou-se na manifestação convocada pela CGTP para, além da comemoração do evento, protestar contras as políticas sociais do Governo, amplamente defendidas, na comunicação social, pelo candidato.

Se é incontestável o direito de qualquer cidadão participar em algum acto de cariz público já se percebe menos bem, porque carga de água, haveria Vital Moreira de, contrariando todo o seu historial, aparecer, inesperadamente, numa festa a que, por norma, nunca comparecia. A explicação que de imediato surge era a de, sendo ano de eleições e estando ele interessado em captar votos, encontraria alguma utilidade em mostrar-se num movimento de massas. É porém lícito perguntarmo-nos se seria aquele local o ideal para conseguir captar alguns votantes para a sua causa. Só com muita ingenuidade esta pergunta poderia ter uma resposta positiva.

Então o que o faria correr para um acto onde seguramente saberia não ser bem-vindo?

Seria tão-somente a firme vontade de exigir o cumprimento de um direito democrático? Poderia bem tratar-se disso não se desse o caso insólito de a vontade lutadora só lhe ter chegado neste ano e de, confrontado com a indesculpável hostilidade de uns poucos, lançar, como se disso estivesse já à espera, ser aquela a sua Marinha Grande. Sabendo nós todos como o incidente da Marinha Grande foi importante para a viragem nos maus resultados até ali obtidos por Mário Soares, sabendo também como a campanha não vai alegre para Vital Moreira, instala-se por demais a desconfiança que o escarcéu seria o verdadeiro motivo da presença do apagado candidato às Europeias. Sem entrar em teorias da conspiração, nem fazendo gala de tentativas de cabalas negras, a verdade é que se seria de esperar uma reacção enérgica à situação criada. Só que a reacção foi muito maior e alargada, passando o incidente com manifestantes a ser móbil para exigir um pedido formal de desculpas por parte do PCP.

Aqui me espanto eu!

Mas porquê do PCP? A organização do evento não era da responsabilidade da CGTP? E mesmo que os desordeiros fossem militantes do PCP teria ele de arcar com a responsabilidade do gesto de alguns energúmenos, por acaso putativos militantes desse partido? Então, quando em Felgueiras militantes do Partido Socialista agrediram dirigentes do mesmo partido ter-se-ia de meter no mesmo saco – porque eram militantes – agredidos e agressores? E porque alguns militantes do PS possam vir a ser acusados de corrupção entende-se que todo o partido é corrupto? Um pouco de seriedade e comedimentos é o que se pede meus senhores. É sempre a extensão abusiva do acto individual ao colectivo que fundamenta o aparecimento de teorias racistas e autoritárias.

Por outro lado o facto de possuirmos um direito exime-nos de ponderar quando, onde e em que casos o deveremos exercer? Sabendo embora que é a sua utilização que funda o direito possuído, não será que qualquer pessoa com um mínimo de racionalidade procurará, se tal for possível, não tornar o seu exercício num acto agressivo?

Exemplifico:

Durante muitos anos fui simultaneamente associado de um sindicato e membro de conselhos de administração de empresas onde trabalhei. Como sempre entendi que a minha profissão era a que me levara a entrar nas empresas e que a eleição para a administração era uma mera comissão de serviços, mantive-me sempre como sócio do sindicato. Esta situação permitia-me, de direito próprio, estar presente nos plenários de trabalhadores convocados pelo sindicato. No entanto, nunca pretendi exercer esse direito, por achar que era abusivo em relação aos direitos dos restantes trabalhadores, e só fui a reuniões, quando directamente convidado e apenas permanecia nelas enquanto o assunto que ali me levara era tratado. Geri, durante muito tempo esta situação esquizofrénica e, por mais difícil e delicada que fosse, sempre cumpri todas as minhas obrigações e nunca fui desrespeitado em nenhum plenário e por nenhum trabalhador.

Quanto a mim, se não houve premeditação táctica no assunto, foi aqui que Vital falhou. Fez prevalecer o seu direito de presença acima de uma ausência ética. Foi a uma festa para a qual não tinha sido convidado e, por estar de relações tensas com os anfitriões seria fácil prever que a sua presença não seria bem aceite. Não sendo diminuído mental e consciente da situação deixa antever que procurou o que encontrou e que se serviu disso para poder marcar algum relevo político no plaino da sua campanha. Pecou por excesso de utilização de direito e míngua de bom senso e respeito por si próprio.

Ainda por ética e mudando de roteiro, vejo-me forçado a escrever sobre um outro assunto que me dói na alma.

Estou estupefacto e não consigo compreender como o meu partido, o Bloco de Esquerda, aceitou votar favoravelmente a nova lei de financiamento dos partidos. Se a lei anterior era iníqua – estruturada para garrotar economicamente o PCP, não permitindo alocar os lucros da festa do Avante – não é apadrinhando uma outra que permite multiplicar por cinquenta e cinco vezes o valor possível de receber, nos partidos, em dinheiro corrente, que se corrige um erro particular. Choca-me aliás a hipocrisia declarada de partidos de direita justificarem a sua aprovação com a resolução do problema financeiro do PCP. Que amigos eles são!

Então, que é feito da exigência de transparência? Da honestidade e declaração de interesses? Do evitamento de prestações monetárias com posteriores exigências, nunca declaradas, de favores políticos? Podemos exigir isto para os outros sem primeiro darmos o exemplo? Temos a trave no olho e preocupamo-nos com o argueiro no olho do vizinho? Não será que o nível de exigência que eu posso ter com os outros só se justificará na medida em que seja, no mínimo, equiparável àquele a que me obrigo?

Em nome da coerência e da possibilidade de continuarmos a defender a via da transparência e da moral expliquem-me e ajudem-me a encarar aqueles que hoje me olham sardónicos e atiram à queima-roupa “ bem prega Frei Tomás”.


Publicado in “Rostos on line” – http://rostos.pt