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setembro 27, 2007

Os lutos de Esmeralda

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Pega-se numa palmeira ainda arbusto, retira-se da terra onde cresceu e, com todos os cuidados, transplanta-se para local apropriado. Temos noventa por cento de probabilidades de que a palmeira morra.

Se isto é assim com um vegetal, o que se passará com um ser humano? Provavelmente nada de especial, senão é impossível entender o acórdão do Tribunal da Relação de Coimbra em relação ao Sargento Luís Gomes, quer na substância, quer nos seus termos.

Reafirmando a decisão de primeira instância ordenaram os juízes deste tribunal que a pequena Esmeralda fosse entregue ao pai biológico.

Não duvido que a decisão esteja bem estribada em normas de direito, mas nada me obriga a concordar com tal deliberação. Nem sequer consigo encontrar razões para, neste caso, concordar com o estrito seguimento das leis, neste país onde a delonga no tratamento de processos deixa sem castigo tantos e mais gravosos crimes.

É crime desobedecer ao Tribunal? Sem dúvidas que é. Mas, todas as desobediências têm o mesmo valor facial? Com certeza que não! A sentença de prisão por três anos a que Luís Gomes foi condenado, não é, para a sensibilidade pública, um nítido exagero? A resposta foi veementemente dada, ainda não há muito tempo, por um público emocionado e incrédulo a tanta sanha justiceira em relação a este homem que apenas pretendeu defender a integridade emocional de uma criança a qual, no seu coração, já lhe pertencia.

Ah! Pois! Mas a transacção, no sentido nobre da palavra, não decorrera segundo os preceitos legais. Admitimos que sim mas, no interesse da menina evocado, desde sempre, pelas instâncias judiciais, não seria preferível preservar-lhe o bem-estar, a saúde, quem sabe se a vida, aceitando, de uma mãe sem possibilidades económicas – com a ausência de um não-pai contumaz -, uma criança para agasalhar e mimar? Parece bem que não. Na dificuldade de concertar legalmente e em tempo justo a adopção, esperar-se-ia que a mãe e a criança tombassem de exaustão e fome para então se percorrer o caminho sacrossanto de uma legalidade encerrada sobre si própria. Sinceramente, é desumano!

Como também acho inaceitáveis os termos em que os ” pais afectivos” são descritos na pronúncia. Parece que o pecado original de não ter obedecido à tardia ordem de tribunal para entregar a “sua criança”, a um pai subitamente descoberto, entranha toda a lógica judicativa. Então eles nunca pensaram no bem-estar da Esmeralda? Os anos que trataram daquela criança foram puro egoísmo? O tempo de prisão sofrido, as provas de amor dadas pelo casal é só interesse próprio?

Distraído anda o julgador que tal pensa.

O que eu encontro na acusação e no seu tom é qualquer coisa de conservadorismo social que visa castigar a mãe natural – que parece não existir em todo o processo - pelos seus comportamentos morais, os pais afectivos por porem o amor acima das prescrições sociais, e premiar unicamente o acto biológico masculino de procriar, dando-lhe um estatuto muito superior aos actos sucessivos e permanentes de manter e educar.

Em qualquer sociedade evoluída não é este o pensamento dominante.

Não é preciso, para resolver esta embrulhada, recorrer a psiquiatras – com ou sem pedo anteposto – nem a sofisticadas análises societais. O senso comum diria que, estando as coisas no pé em que estão, o melhor seria permitir a continuidade de permanência da menina com a sua actual família, permitindo o avizinhar da criança aos pais biológicos (a ambos), até que em idade decisória fosse ela a escolher com quem quereria continuar a viver. Fora disto receio bem que, por melhores intenções havidas, na vida da Esmeralda se venha a instalar uma imensa falha conducente a enormes e continuados lutos sem resolução.


Publicado in “Rostos on line” – http://rostos.pt





setembro 22, 2007

setembros II




I

aguardo agora a passagem da paz sobre o colibri do tempo
tumultuosos de imensidão doem-me os espaços

aqui te espero e me perfaço

alguém me disse
a hora de partir é um inverso sorriso
dolorido no momento
em que prantos morrem por dentro das vozes
tal um substantivo estala lentamente no real dos dentes
e adormece recalcando a luz e o olhar

aguardo calmo o tempo
de parar

II

estudas vagamente o lento traçar das pernas
espontâneas as coxas sobrenadam
recolhidas nas memórias

resides nessa messe subtil e recortas o recôndito do sexo
pleno exercício de perfeccionismo
quando te dás e és meiga generosa e pensativa

encontro-te por vezes no todo onde resisto
lugar de movimentos e recusas
procura imediata de tudo quanto é novo
inocente e pleno e montado na loucura das palavras
setembro avança e as notícias vagamente vão chegando

III

há quanto tempo espero o teu sinal
égua de vento carrossel de chuva
e preparo as imagens que se perdem nos amados Setembros
entre as muitas águas da realidade

dizes-me
em setembro meu amor iremos aos campos
onde as borboletas se amaram com doçura e se extinguiram
pequeno fogo que ilude as madrugadas e o céu é pasto
de mansas estrelas iniciais
pedes-me mudamente que te espere
contas histórias incompletas e heróicas
produzindo os alicerces da minha catedral

porque me falas de setembro
se todas as sombras estão paradas
e desmoronadas pelas frinchas da tristeza
as paredes escurecem em prematuros invernos
vesperais

que nada tivesses dito por setembro
e me fosses interdita meu amor
nem teimasses em parecer possível
ó irrealizável alvorada de azul transparente e completa
tonta gazela que te esvais nos moinhos das palavras
quando desapaixonada comentas

em setembro lembro-me da morte

e fechas os olhos contra a almofada
e calas o medo das tardes
por enquanto doces e doiradas
e do vento fresco nos ocasos
pesados em abismo sobre os olhos
melancólicos e trágicos de nuvens
plantadas à porta dos sorrisos

IV

em setembro longe das promessas por fazer
ou dos sonhos por cortar
construí esta história nas asas dos ventos minerais

em setembro não vieste o sonho desfazia
em setembro entre raivas e esperanças
o tempo por demais se consumia



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setembro 15, 2007

setembros I




I

recordo a melancolia dos beijos
suspensos entre o hálito de setembro
e um insuspeito golpe de outono

traduzo o lume brando dessas tardes
os ocasos fortuitos de langorosos sóis
no ruge-ruge de olhos marginais

no incómodo da pele traça a tua mão
arabescos de fogo sobre as malvas
estáticas em tórridos areais

II

soltam-se as primeiras nuvens e os céus
ainda claramente juvenis caem na modorra
dos apressados hábitos

cinzento é acampamento de esperanças
no solitário corte dos umbrais

III

eu sei
não mais cantos de cigarras não mais
somente as ternas sensações pretéritas
remordem em remorsos outonais

eu sei
e por saber estou de qualquer modo
por demais afastado da acção

recordo os lumes velhos
e esmagando rumos ou trovejando camas
procuro no casulo a paz desta estação

dobo a luz afago a natureza
preparo o advento na minha fortaleza
de outros dias grandes e ferozes
onde termine a minha hibernação

IV

o vento largo e fresco amarinha
arrasta as coisas velhas pelo ar
setembro é chegado
a luz caminha
devagar

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setembro 12, 2007

Mercado de Rua "Marquês de Pombal": Mercado de Santa Maria / Verderena - Curiosidades...

Mercado de Rua "Marquês de Pombal": Mercado de Santa Maria / Verderena - Curiosidades...

Movimento de Cidadania em prol do Mercado do Marquês. Iniciativa de Cabós Gonçalves a apoiar. Visite o Blogue.

O fatinho do Franklin







Foi uma estranheza. Um escancarar de boca. Uma autêntica espantação!!!

O meu amigo Franklin, génio maior da defesa do comércio local estava ali, mesmo na minha frente, no mais impossível dos lugares. No centro comercial.

Perguntar-me-ão qual a novidade. Qualquer pessoa vai a uma grande superfície, pelo menos, de vez em quando. Até mesmo os mais renitentes comerciantes tradicionais lá vão fazer umas compritas…

Só que o Franklin fazia gala em nunca ter entrado num centro comercial. Para ele, todos os malefícios da sociedade de consumo, todas as agruras da globalização ali se encontravam, física e simbolicamente, representadas. Se o demónio residisse em algum lugar era nesse antro que, certamente, repousaria os seus metafísicos ossos. A sua Bíblia era a Caverna, de Saramago, a sua caldeirinha de água benta, o abaixo-assinado contra a abertura das grandes superfícies ao Domingo.

Por isso lhe disse: - Oh! Homem, tu por aqui? Mas que grande sacrilégio! Então e o comércio tradicional onde fica agora?

- Nem me fales nesses gajos – explodiu. Que rebentem todos! Nunca mais me vais ver numa loja qualquer. Palavra de honra. Seja eu ceguinho se mais alguma vez caio nessa parvoíce.

Iracundo gesticulava violentamente enrubescendo quase até à apoplexia.

Pensei para comigo que só coisa muito séria levaria o meu amigo a voltar as costas aos aliados de uma vida e tornar-se assim, todo de rompante, para o inimigo.

-Conta lá, pá!

Abriu-se a barragem e o rio desaguou torrentoso pela encosta das palavras.

Era uma vergonha. Não podia ser. Então ele, que fora convidado para um casamento, ao dar a volta ao guarda-roupas não encontrara véstia digna da cerimónia. Decidiu por isso comprar uma sécia catita que estivesse à altura do acontecimento e não envergonhasse a família. A mulher bem o tentou para ir ao centro comercial: - porque lá havia muitas lojas, maior escolha e o preço até poderia ser bem melhor. Por causa da concorrência (esclareceu). Mas ele, nada. Certo da sua razão apostou em comprar o fato numa casa comercial do burgo. Centros comerciais é que não! Logo ele que os considerava um clamoroso perigo de lesa tradição.

Por isso, arrastando uma furibunda esposa, correu seca e meca e lá conseguiu encontrar o fatito que lhe ficava a matar:

- Punha-me dez anos mais novo.

Logo ali o mercadejou e marcou alturas e larguras para que a roupa se lhe ajustasse à figura.

Transacção quase efectuada e eis que surge um problema. A costureira estava sobreocupada e demoraria alguns dias a fazer os arranjos. O Franklin esclareceu a vendedora que embora o fato só fosse necessário no mês seguinte, era imprescindível que estivesse pronto antes do fim dessa semana. É que ele ia de férias e só voltaria na noite da véspera do casamento. O argumento convenceu a vendedora. Prometeu-lhe logo ali que no sábado seguinte, pela manhã, teria o fato arranjado e à sua disposição. No entanto, por precaução, o meu amigo ainda frisou:

-Olhe que não pode falhar! Era para sair no sábado de manhã mas vou adiar a viagem para a tarde para vir buscar o fato.

-Mas por quem nos toma Sr. Franklin, escandalizou-se a vendedora. Palavra dada!

Foi dada mas não foi cumprida. Na manhã de Sábado bem andou o Franklin de volta da loja. O fato não estava, a vendedora idem e o empregado que o atendia não conseguia encontrar sequer a nota de encomenda. Por isso, cheio de cólera e angustiado, partiu o Franklin para férias a pensar que teria de arranjar-se com o que tinha em casa, nada à altura daquele acontecimento social que já assombrava o gozo das suas férias.

Dada a arrelia que lhe ia no coração a sua mulher telefonou para a loja, falou com a empregada que tinha feito a venda e entre raivinhas e desculpas combinaram a antecipação do retorno em um dia para irem buscar o fato que, assegurava a vendedora, estava, mesmo ali na sua frente, arranjadinho de todo. O Franklin anuiu, suspirou e descansou. Estava salva a honra da família!

Voltaram e foram em demanda do ansiado fato. Mas qual quê! Por muitas voltas que dessem a vendedora, ela própria que afiançara a prontidão da roupa, dizia compungidamente, como havia ainda tanto tempo, não se tinha pressa, a roupa não fora logo enviada para a costureira; que ficara à espera de melhor vaga, que tinha havido engano e que por fim, o esquecimento se instalara e agora não havia nada a fazer. Sim, sim, devolveria o dinheiro. Então, era uma casa séria, de porta aberta, em que os clientes podiam ter toda a confiança…

O Franklin explodiu! Antes de partir a loja, foi arrastado para a rua pela mulher, sob o olhar indignado da vendedora, que não percebia como podia haver gente tão mesquinha, capaz de criar confusões por dá cá aquela palha, tão incapaz de perceber a tremenda complexidade da sua tão difícil função.

Esmagado pela tremenda necessidade de ter o fato novo ou de ceder nas suas convicções, o meu amigo deixou-se convencer pela mulher e cedeu. Foi ao centro comercial e teve sorte. Um fato bonito, um empregado a querer subir na vida, a necessidade do cliente a ser ordem e volte cá às nove da noite que tem o fato pronto. E teve.

Por isso agora o Franklin com a mesma força que punha na luta a favor do comércio tradicional luta agora pelo seu total desaparecimento debaixo das grandes superfícies. Quando eu lhe disse: nem tanto ao mar nem tanto à terra, olhou para mim com os seus olhinhos furibundos e rematou:

-São todos uma cambada. É esmagá-lo, Ireneu, é esmagá-los.





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julho 03, 2007

novas histórias de penélope - ulisses não volta



I

não há barcos em ítaca morre-se entre o nevoeiro
e ulisses não volta
não há remos e as ilhas
afundam-se entre a barra sem a barca de ulisses

circe desmonta inútil o encantamento
eólo brame as velas afasta tróia e
em tréguas de sal penélope espera na moldura

em vão espera penélope um ulisses se âncora
ulisses desgarrado nas quilhas da inquietação
penélope espera em vão

II

o seu corpo pairava sobre as águas
concebível nas formas que lhe dava
o seu corpo quieto sonhando o movimento
não se aquietava

em plena era de bruma sobre as águas
feridas de ulisses vinham as memórias
onde ulisses já sem vida se agitava

III

volta de novo ao esconço da capa dp retorno
morre capitão torna soldado ferido e sem glória
volta momento e só sem mais história

mas ulisses já não volta
consumido por presságios morenos que trouxera
corta as amarras e a miragem de ondas que fizera

e na sua metáfora
escondido momento de amargura
penélope está à espera
sem procura

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julho 02, 2007

novas histórias de penélope


(imagem David Ligare)


penélope a que espera por paixão
já não espera não a espera
desesperada

penélope
já não espera nada

porque esperar é um cansaço de olhos
um cardo
escolho da terra desventrada

penélope
já não espera nada

e no entanto
ulisses em tardança
é uma forma perversa
de esperança

é que penélope não espera a espera
atende que a porto desejado
a clássica manhã se aventure
no espaço transformado

assim penélope
no termo da solidão
fica parada

e não espera nada

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julho 01, 2007

novas histórias de penélope - polifemo




hoje ulisses embarcou
num ovni
a caminho da estranheza

apegada à terra
penélope circunda os espaços
na procura da fronteira
dos abraços

ulisses tem
uma nave um caminho
e penélope a firmeza de um carinho
só concebido em votos
mas real

se ulisses é o percurso
o por fazer
penélope é o porto da certeza
de uma imensa forma
de estar

ulisses passa mal
agoniza no tempo
penélope tece o seu momento
a sua calma forma
de aguardar

o mar é um espaço
um fosso um tormento
que há que navegar

de repente a ilha
o asteróide surge
na proa enloquecida
sabe ulisses então
que viverá ali
um tempo já vivido

de polifemo o gado pasta lá
e a fome de ulisses repentina
aguça-lhe o engenho e vá não vá
toca de dizimar a raça ovina

polifemo está só
no seu disforme corpo
no seu olho solitário e transviado
roda a saudade como dura mó
suavizada apenas pelo cuidado
que em desvelos ao seu rebanho


polifemo disforme é generoso
e percebe um filho seu em cada anho

polifemo está só
que galateia por ácis o trocou
e partiram para a morte bem juntinhos
no sonho que os tocou

em vão polifemo
tenta esquecer
o amor que ele mesmo
fez morrer

ulisses o sozinho não apreende
em polifemo o companheiro
a quem a solidão mais dura ofende
e contra a sua nave
o seu ribeiro
trocaria de boa-mente o polifemo
o seu rebanho inteiro

desesperado
ulisses sem razão
mata a esmo
procura na carnagem a vingança
para o não regresso
a cruel tardança
em que lhe tarda a volta
e a esperança

aparelha a nave e quer partir
nada escuta e num olhar
tresvairado pelo soco do a vir
fixa a muda nave em rota estelar
e deixa o gigante
sem nenhum rebanho para cuidar

ai do cego ciclope
corpo disforme
sempre a recordar
onde o apagado olho
já não brilha
como farol do tempo
fogo enorme
onde a nave de ulisses
te deixa sempre só
na tua ilha

ele por si tem o seu curso
percorre a aventura
e se não encontra aqui
o que procura
pode sempre ir mais longe procurar

e tu que de galateia
o eco só tiveste
estarás sempre mais só
sempre mais triste
porque quanto tu tiveres
será roubado

no espaço cego
polifemo chora
a morte do seu gado

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junho 30, 2007

novas histórias de penélope - telémaco



telémaco a quem atena conduziu
em busca de seu pai
a própria vida
do povo que assumiu

como ulisses
de navio parte em viagem
e sempre pelo tempo ultrapassado
telémaco não viaja em sua rota
é viajado

que busca telémaco
nos caminhos do mar por onde vai

nem ele sabe
os fados que pocura
só lhe contaram
que além da zona escura
o sol aparecerá
um destes dias

é por isso
que sem busca
telémaco
não havia

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junho 29, 2007

novas histórias de penélope - circe



I

sob o olhar de circe
a desmedida
ulisses aportou à ilha

ali quis enterrar
tróia destruída
mas sobre o sangue de páris
derramado
por enquanto tróia ardia

os guerreiros em retirada
instantes descobriram
as armas embotadas

ninguém ganhara nada

só tróia no seu fogo
a vida consumia
de helena agrilhoada

no caminho de esparta
presentia
que menelau ansioso
a aguardava
e nunca saberia
que era páris o morto
que ela ainda amava

nos olhos de circe
a sem medida
inútil ulisses tentava adormecer

II

ulisses está parado
olhando a calmaria

que inquietações
lhe nascem nos sentidos

circe perturbada redobra o encantamento
e o seu vestido
semeando campos de luar
tranforma toda a ilha
num infinito rio de navegar

ulisses em movimento
parado junto à praia
faz viagens ao redor
da sua saia

III

mas se ulisses acorda
e se esvanece a ilusão de marear

nesse dia circe
a esquecida
não vai tecer cadeias
no olhar

ficará circe
convertida
na felicidade
de o saber de novo livre
nas vastidão do mar

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junho 28, 2007

novas histórias de penélope - a sereia



(imagem http://www.rafaeltrelles.com/espanol/obras1977.html)



está quebrado o mastro
e as cordas deslaçadas
jaz a nave sob espuma
naufragada

quando doente de sonho adormeceu
a locura dos deuses recebeu

está quebrado o mastro
ao longe os companheiros
numa jangada

a voz de lorelei
está embargada
pela força com que ulisses se espanta
de a sereia abraçar
enquanto canta

está quebrado o mastro
mas na vela a viagem continua
na imagem do seu rastro

as vagas
ulisses no sonho inquietaram
e as algas
todo o sonho devoraram

para não retorno
ulisses as cordas deslaçou
e no palor da alva estremunhada
com lorelei dançou

mas de repente
enquanto a sereia canta
por si só ulisses se levanta

nos seus ouvidos ruge a primavera
soltam-se dos cantos as seduções
o silêncio é um hino
as multidões
reparam nas estrelas

ulisses é a força
a viagem
a aventura

o mito do regresso
é a textura
que faz de ulisses
meu irmão

os cantos das sereias
muitos são
mas por mais braços
nos cinjam a cintura
partiremos sempre
à procura
dessa penélope
que espera em vão

ulisses por si só
do abraço se levanta
a seus pés
a sereia já não canta

como um sorriso do céu
a nova lua cheia
nos encanta

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junho 27, 2007

novas histórias de penélope - o aviso a ulisses



foram as vagas quem lhe transmitiram
a infausta notícia
a queda da mulher

em ulisses o altar da diferença
derruiu
e pensou nela
como uma qualquer

nesse momento circe enloqueceu
ao pensar que ulisses se perdera
e nos seus olhos finalmente se espelhou
um céu onde azuis
se relectiam as esperas

as vagas
que de ítaca vinham desvairadas
cavalgavam ventos
e normas estropiadas

só ulisses navegava a aventura
porque a ilha onde a queda se plasmava
assentava arraiais noutras funduras

confirmou-lhe uma ave
que penélope
noutras águas hoje navegava

que o seu leito estava apodrecido
pela distância da saudade e que a ternura
que hoje nele de novo se gerava
não era de penélope outra coisa
que homenagem ao seu amado
que nunca mais chegava

então ulisses tristemente adormeceu
e pelo sonho
noutro corpo
penélope o recebeu

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junho 26, 2007

novas histórias de penélope - a queda de penélope


(imagem aspirinab.weblog.com.pt)



penélope à partida
tem um pretendente

penélope de esperar
está doente

já na praia cansou
o seu olhar
já na teia
a trama emeudeceu
perante o ressoar d'outras sereias

penélope pelas veias
sente o sangue arder em correrias

a penélope só ulisses serviria
só de ele ela gostaria
continuar esta espera angustiada

mas penélope olha o mar
e não vê nada

surge então uma grande
frustração
que gela o coração de toda
a gente

e penélope - não esqueçam
tem um pretendente

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junho 25, 2007

novas histórias de penélope - helena



ouvira já falar de helena
e cada vez que a palavra pressentia
ficava mais pequena
pensava que ulisses assediando-a
não poderia escapar
ao seu assédio

penélope em ítaca
temia tróia
e morria de tédio

diziam que era a mais bela das morenas
que a mente dos homens ensandecia
e que os reis lhe dedicavam novenas
como aos deuses se fazia

helena de penélope não sabia
nem em ulisses reconhecia o viajante
pequeno rei de povo ignorado
só sabia de páris que de rompante
o rapto em amor tinha tornado

seráfica helena aguarda o seu destino
enquanto agamémnon por sobre o vento
numa magia feita desatino
procura transformar em forma o tempo

penélope
só sabia de helena
ser ela até falada
por atena

por isso estremecia
no seu leito
e se abraçava
ao corpo contrafeito
à ausência
do chamado

nas ameias
helena aguarda
o cavalo do destino
e a morte
do amado

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junho 24, 2007

novas histórias de penélope - primeiro choro de penélope



é aos deuses que dirijo
esta imprecação
aos deuses que cruéis e desumanos
beijam na boca
o sonho dos mortais

ainda a clepsidra não rodou
e já as velas difusas
no horizonte se fundem

a sibila murmura palavras
que não me iludem

que no meu choro pressinto
muro de tróia a arder
o tempo deste absinto
feito fruto de sofrer

sou penélope
a que espera dos deuses
consolação
na trama do meu regaço
guardo o futuro
da nação

e sou mulher nesta espera
do tempo que for capaz
que o peso que em mim carrego
só nasça se for rapaz

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junho 23, 2007

novas histórias de penélope - a partida



hoje tudo é necessário
porque um barco partiu

das palavras
não lhe disse
"meu amor"

e penélope... sorriu

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junho 22, 2007

novas histórias de penélope - despedida



serei breve tu sabes
a partida é só prenúncio
de chegada
como a noite anuncia
a alvorada
e o ninho nos diz
que a primavera
vem chegando renovada

em tróia uma nova lua
espera o momento
de a desvendar
é este mulher um encontro
a que não posso faltar

serei breve
porque breve é a vida
e curto o espaço do vivido
é na ausência
que começa a festa
do regresso acontecido

serei amiga breve
aquece o coração
que voltarei com as naves do inverno
roxo de frio e emoção

o teu calor abrigará o meu navio

mas agora tenho de partir
diz-me o coração
amiga... o teu corpo
é o meu timão

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junho 18, 2007

A côncava funda




Pensei chamar a esta crónica o “ovo da serpente”. O título convinha-me porque, sendo bebido no filme de Ingmar Bergman, de 1977, era ponto de partida para a ideia da criação de um monstro, o qual, de forma pretendida e dissimulada, ou apenas por mera distracção ou incapacidade governativa, haveria de levar o país a uma difícil situação social ou, no caso do filme, o mundo à quase destruição pelo ideário nazi. No entanto, uma pequena pesquisa na Internet veio mostrar-me como esta minha brilhante ideia já tinha sido tida e usado, pelo menos, por cinquenta mil e dois outros autores. Assim, lá me fui à procura de título sugestivo, menos usado e que simbolicamente remetesse para o meu objectivo.

Encontrei-o no poema do Fausto, “Por este rio acima”, que em parte transcrevo:


“Por este rio acima
Deixando para trás
A côncava funda
Da casa do fumo
Cheguei perto do sonho…”

Ora o terceiro e quarto versos da canção serviam perfeitamente para representar o local inominável onde, por ocorrências várias, no cenário nacional e internacional, me vou sentindo. Porque as questões internacionais são demasiado vastas para inscrever numa simples crónica, estreitando o campo, falarei da côncava funda da casa do fumo nacional. Para estabelecer a necessária ligação, referir-me-ei, ainda que em breves traços, à circunstância onde, na Peregrinação de Fernão Mendes Pinto, aparece a alegoria.

Então, lá vamos!

Andava, por essas épocas, Fernão Mendes Pinto viajando por terras do Japão. Em Fuchéu travou conhecimento com o rei a quem tratou de uma grave enfermidade, tornando-se por isso pessoa grada naquela cidade. Caçava de vez em quando rolas, pombos e codornizes com a sua espingarda, maravilha técnica que espantava os locais. O segundo filho do rei, cativado pelas possibilidades da arma insistiu, com apoio do pai, para que Fernão o industriasse no manejo da escopeta. Tentou escapar-se da tarefa o nosso autor, dados os múltiplos perigos que a utilização de tal arma representava, mesmo para o utilizador, desde que não se tivesse aprofundados conhecimentos da tecnologia e processos envolvidos na preparação e execução do tiro. No entanto, dada a insistência, decidiu treinar o príncipe na arte do disparo. No dia aprazado, ainda o português dormia, o príncipe, acompanhado de dois outros jovens, apoderou-se da arma e, macaqueando o que vira fazer a Fernão Mendes Pinto, carregou-a e disparou-a, com o resultado de a fazer rebentar, ferindo-se gravemente.

A primeira reacção dos nipónicos foi a de matar o português. Alguma ponderação levou a que se esperasse para que fosse feito um inquérito para saber se, por detrás deste acontecimento, não haveria o interesse de alguém que tivesse pago a Fernão Mendes Pinto para que fizesse acontecer tal desgraça. No interrogatório é instado a confessar pelo Bonzo nos seguintes moldes “Eu te esconjuro como o filho do Diabo, que és, e culpado neste crime tão grave como os habitadores da casa do fumo metidos na côncava funda do centro da terra, que aqui em voz alta que todos te ouçam, me digas qual foi a causa porque quiseste que a tua espingarda com feitiçarias matasse este inocente menino que todos tínhamos por cabelos da nossa cabeça?” (Peregrinação, Capítulo 136).

Onde é que eu quero chegar, com isto tudo? Perguntarão retoricamente os meus amigos, sabendo de antemão que me vou remeter para a crítica directa e clara à situação vivida em Portugal, neste ano da Graça de 2007 e no segundo ano da governação do Celeste Sócrates.

Os portugueses confiaram e concederam-lhe uma maioria absoluta. Grave erro na minha opinião. Sendo a Democracia a melhor das sempre más formas de governação, dois limites há que se lhe impõem de forma constrangedora. O primeiro é o limite temporal. Juntando-se este com a necessidade de conquistar votos, no curto prazo, tem esta servidão o efeito de dificilmente serem tomadas medidas estruturais, as quais a serem seguidas, só no longo prazo farão sentir os seus benefícios, trazendo para o curto prazo o desagrado e a perda de votos. O Governo Sócrates, inicialmente, parecia inscrever-se no tipo do governo corajoso, capaz de perder no imediato para maior colheita no futuro. Do desengano falarei posteriormente. O segundo limite é o da tão requestada maioria absoluta. Não há partido que a não deseje, nem governo que por ela se não bata denodadamente.

No entanto a maioria absoluta é uma forma subtil de corrupção dos ideais democráticos. A Democracia não é só meter o papelinho na urna e voltar para casa confiando na previdência dos deuses e na bondade dos homens. É um exercício contínuo de cidadania, crítica, propostas e contraditório. Tudo isto fica abalado quando a tão pretendida maioria absoluta é conseguida. Salvo erro, apenas duas vezes – Cavaco Silva e Sócrates – tal foi atingido. Inicialmente saudadas porque aparentemente a ultrapassagem de oposições, pelo superior número de votos no Parlamento, permite fazer a apresentar obra de imediato, traz em si, um gérmen destrutivo, chamado soberba. Era esta a doença dos Césares e Faraós que, perante o enorme poder do Império, enlouqueciam e se faziam considerar divinos, portanto acima de qualquer possibilidade de aceitarem sugestões ou chegarem a consenso com os pobres e diminutos mortais.

Concluo, portanto, que embora possível e constitucional, a maioria absoluta é uma doença da democracia que se não a nega, a debilita profundamente.

Disto temos a prova nas inconsequências e erros deste governo. Apareceu, com entradas de leão, disposto a diminuir o défice, manter os impostos, transportar o país para os níveis de prosperidade da melhor Europa, diminuir o desemprego, actualizar os conhecimentos tecnológicos dos portugueses, resolver o problema da desertificação do interior, etc.,etc. e etc.

Que vemos nós, dois anos passados das miríficas promessas?

Houve um êxito relativo no valor do défice que não compensa a morte das restantes esperanças. Desacreditou-se o Primeiro-ministro pela inversão das promessa e por episódio pouco dignificante de pesporrência social. Na educação, chave para o progresso de qualquer nação, a ministra, assertiva e inconstitucional, abre várias guerras contra os professores, esquecendo-se que não há educação sem educadores motivados e inventa titularidades – que podendo ser discutidas e abertas por soma de méritos – acabam num pântano cargo-administrativo. O ministro Lino afunda-se, com o governo atrás, no pântano da Ota e de afirmativo e prepotente, de um dia para o outro, descobre que enfim a decisão final não é assim tão final ainda. Lobbies que nalgum esconso local se firmam!

Não fica isento de culpas o ministro dos assuntos parlamentares na questão da domesticação dos media. Não era precisos que ele se esforçasse tanto e tão contra o que já foi e já escreveu. Bastava esperar que o movimento de fusões nas empresas jornalísticas e de difusão de som ou imagem prosseguissem paulatinamente o caminho já encetado. Chegaríamos na mesma à voz do dono. Só que a imagem do governo e do ministro não se degradariam tanto. Esforço desatempado e a mais para o domínio de algo que já está a ser dominado. Ah! É verdade! Falta a blogosfera…mas a essa, com algum tempo lá chegaremos também.

E a saúde como está doente! Fecham-se urgências, maternidades, hospitais antes que alternativas válidas sejam postas em campo. Depois é o burburinho que se sabe. As certezas e os recuos. A afirmação e o voltar atrás descredibilizando estudos, soluções e intenções. É o país desertificado a ficar mais deserto. São as populações jovens a fugir para o já muito desequilibrado litoral, são os velhos a ficar, sem condições à espera que a morte os liberte do isolamento. E tudo em nome de uma boa política de desenvolvimento e saúde.

Só não fico por aqui, e já seria demais, porque sinto o país a fechar-se no medo irracional se ver alguém apontado por falar mal do chefe. Voltámos ao pequeno e ignóbil reino das delações e intrigas onde o que conta é o coeficiente de dobragem de espinha e não a inteireza, livre e responsável, de um cidadão consciente e orgulhoso de ter direitos porque cumpriu cabalmente os seus deveres.

Estas são, entre muitas outras, as razões da minha vil tristeza, por sentir como me embarco e sou arrastado, contra vontade, para a côncava funda da casa do fumo.

É por isso, por longa que vá a palinódia, que não deixarei de citar António Gedeão, em excertos do seu poema Galileo, para que “quem tiver olhos que veja, quem tiver ouvidos que ouça”:

(…)“E tu foste dizendo a tudo que sim, que sim senhor, que era tudo tal e qual
conforme suas eminências desejavam,
e dirias que o Sol era quadrado e a Lua pentagonal
e que os astros bailavam e entoavam
à meia-noite louvores à harmonia universal.
E juraste que nunca mais repetirias
nem a ti mesmo, na própria intimidade do teu pensamento, livre e calma,
aquelas abomináveis heresias
que ensinavas e escrevias
para eterna perdição da tua alma.
Ai, Galileo!
Mal sabiam os teus doutos juízes, grandes senhores deste pequeno mundo,
que assim mesmo, empertigados nos seus cadeirões de braços,
andavam a correr e a rolar pelos espaços
à razão de trinta quilómetros por segundo.(…)

(…)Por isso estoicamente, mansamente,
resististe a todas as torturas,
a todas as angústias, a todos os contratempos,
enquanto eles, do alto inacessível das suas alturas,
foram caindo,
caindo,
caindo,
caindo,
caindo sempre,
e sempre,
ininterruptamente,
na razão directa dos quadrados dos tempos.

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junho 08, 2007

ode para um zé pires qualquer (poema)





nasci lá nos barrocais
e o mê nome é zé pires
fui pastor e fui ganhão
palmilhei o alentejo
botei filhos em mulheres
e nos alcanchais perdi
noutes fugindo da lei

era eu mui novo então

mondava os campos de trigo
pruma jorna de miséria

quando o galo do ti pedro
adregava amanhecer
já me pusera à margia
qu’era longe o mê patrão

lá pró meio do caminho
encontrava a rosa amado
-uma poldra redondinha -
que se mordia aluada
e comigo chafurdou
nos lamaçais da herdade

pus-lhes os tampos numa fona
e a melra pôs-se a bradar
qu’eu a tinha desgraçado

vai daí o velho amado
-que m’engula o inferno
s’isto que digo é mentira-
agarrou na de dois canos
e antes que lhe aprouvesse
romper-me a pele com ela
botei-lhe as tripas ao sol

e rais parta a minha sorte
mais a minha sevilhana
ele esticou o pernil

prantou-se a justiça a mim
e que remédio senhores
sem arreceber a jorna
com um pão sem conduto
fez-se o zé pires maltês

ninguém chorou qu’eu cá moça
era arranjo que nã tinha
parentes nã conhecia
em riba da porca terra

a nha mãe - que me desseram -
era uma boniteza
tratava do manual
do mê pai silvestre pires

ele qu’era môral
das vacas do unha grande
pra nã pagar o trabalho
-um dia oito mil réis
e azête prá semana-
apalavrou-se com ela

depois dos pregões botados
lá se casaram os dois

veio um padre da cedade
e um coxo sacristão

foi festa rija senhores
o povo sempre a bailar
p’la noute toda adiante

um dia - p’lo s. joão -
chegaram prá acêfa
ratinhos mal-encarados

os patrões - essa canalha -
deu-lhes o faro - a tantos passos
fedia a fome desses beirões -
e vá d’abaxar o preço
com que pagavam ganhões

os homens cá da nha terra
que os têm no lugar
botaram-se a caminho
do monte do unha grande

deitaram palavra rija
que um homem
só s’agacha pra cagar

mas ele largou-lhe os cães
e a guarda qu’é bruta
pra quem nã tem massaroca
prendeu os chefes e deu-les
porrada plo dia inteiro

depois foram pra lisboa
p’ra outra polícia que quis
ca modos fossem polítecos
e os deixou lá dois anos

o mê pai estava com eles

quando voltou p’rá vila
disse-lhe o bento - ó silvestre
um dos ratinhos - daqueles -
armou-te em chavelhudo

foi o mê pai encontrado
na nora velha do pico

é por isso que o zé pires
já nã tem ninguém no mundo

depois d’andar a monte-
prás bandas de montemor -
seis meses e cinco dias
prantei-me a dormir ao sol
debaxo dumas sobrêras

duas pegas estrangeradas
qu’eu enxerguei pela fala
sentaram-se ao pé do zé

eu cá nã nas percebia
dezia a tudo que sim

deram-me galinha e cigarros
e mais outras porcarias
a fome era tão grande
qu’eu tudo botava abaxo

calculem que depois
elas inté me despiram

eram duas e só eu
arrimei-lhe a conta delas

“ nã há nada mais prefêto
do cum homem satesfêto”

foram tempos assentei
os anos iam passando
o corpo já nã queria
passar a noute ó relento

botei o alforge no chão
perguntei ao lagariço
se precisavam dum moço
p’rá altura da debulha

empreguê-me na herdade
arranjei mulher e filhos
e nas noutes de inverno
sentado junto ao madêro
já sonhava ver os netos
em riba dos mês joelhos

mas nesta vida senhores
nã se pode sossegar
mandei prá escola o miúdo
e ele já nã quer parar

se vou dezer ao patrão
co denhero nã m’achega
ele é capaz de largar
os guardas e cães a mim

e lá começa de novo

o gaiato a maltezar
eu em lisboa a penar

a moenga nã tem fim

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junho 05, 2007

Nós e Eles






Nós entramos em casa, ligamos a luz, tomamos um banho quente e vemos o noticiário na TV.
Eles não têm casa ou quando a têm é de cartão, ramos de árvores ou materiais compósitos e pobres; iluminam-se com fogueiras ou velhos candeeiros; percorrem quilómetros para alcançar um ponto de água, quantas vezes insalubre, e são, tantas vezes as personagens e as vítimas dos noticiários que nos entretêm.

Nós temos automóveis potentes que nos transportam, com facilidade, aos locais de trabalho ou aos divertimentos que procuramos. Eles andam a pé e extraem dos seus solos o petróleo que faz andar os nossos carros e morrem em guerras feitas para os expropriar desses combustíveis.

Nós vivemos em democracias e achamos que temos esse direito natural, como se este fosse o estado normal do viver dos homens. Eles não têm quaisquer direitos senão o de penar sob o jugo de qualquer pequeno senhor local, que os utiliza de modo instrumental, para seu benefício imediato e visível e para um distanciado e obscuro interesse das longínquas democracias.

Nós sofremos terrivelmente com o mau funcionamento da nossa rede hospitalar e temos vidas prolongadas; eles morrem novos, e já velhos de míngua, minados por doenças incontáveis e vêem os filhos desaparecer com febres que nos nossos mundos uma aspirina curaria.

Nós vamos ao supermercado comprar produtos de todo o mundo, sempre excessivamente caros, e fazemos várias refeições diárias que comemos, quantas vezes, enfastiados. Eles procuram comida em matas, ribeiros e lixeiras, não sabem quando nem se poderão matar a fome nesse dia, e produzem, por quase nenhum valor, os dispendiosos e desperdiçados produtos que habitualmente consumimos.

Nós temos jardins-de-infância, escolas e programas de reabilitação de dependentes de várias facilidades. Eles vagueiam pelas ruas, roubam, brigam e morrem sob as balas “justiceiras” da polícia, ou qualquer outra força de ordem que nós, para eles, misericordiosamente treinamos e exportamos.

Nós inventámos e receamos a globalização, sentindo que ela põe em perigo a nossa prosperidade. Eles são o motor e os escravos dos nossos empreendedores globalizantes e morrem, de acidentes ou exaustão, nas fábricas deslocalizadas e nas minas sem possibilidades de deslocalização.

Nós embarcamos em cruzeiros de luxo que cruzam o mediterrâneo e demandamos os paraísos artificiais das costa de África. Eles cruzam-se connosco em velhos barcos meio desmantelados buscando, clandestinos, o el-doirado da margem donde nós partimos para férias e morrem na tentativa ou são capturados, desgraçados e famintos, pelas polícias do almejado paraíso.

Nós produzimos e vendemos as armas com que eles se matam para garantirmos o domínio económico dos bens que as suas terras possuem e eles não.

Nós somos inocente ou culpadamente assim e eles são-no, igualmente, mas em muito piores circunstâncias. Por isso, meus senhores o que esperam que venha a acontecer entre nós e eles, senão o mesmo que entre as hordas de bárbaros e o poderoso império romano aconteceu?

As decadências dos impérios têm todas um suave fascínio de queda e entropia!



Publicado in “Rostos on line” – http://rostos.pt
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junho 02, 2007

Margarida Morgado – Água Pródiga

Capa: João Moniz



Editado pela associ’arte – Associação de Comunicação e Arte (associ.arte@mail.telepac.pt), de Évora foi lançado no passado dia 28 de Maio, o novo livro da Margarida Morgado, "água pródiga", cuja capaz se reproduz acima.

Prometendo voltar ao livro, para publicar alguns dos seus poemas, ficamos, por agora, pela apresentação feita na badana do volume:

“Margarida Morgado
nasceu em 1932, em Olhão.
Com 2 anos de idade a família muda-se para Évora.
Aqui estuda nas Doroteias
e no Instituto de Economia
e Sociologia de Évora,
onde se licenciou em Sociologia.
Na Bélgica fez a pós-graduação
em Sociologia dos Sistemas
Simbólicos. Foi professora
em Angola, esteve na Alemanha
e em França. Volta a Portugal
no pós 25 de Abril, e empenha-se
de corpo e alma a um país que
sonhou diferente. Trabalhou
na Comissão de Condição Feminina,
durante 15 anos.
A escrita sempre fez parte
da sua vida. Escrita que guardou
nos diários que sempre
a acompanharam e que de vez
em quando dá aos amigos.
Na cidade alentejana que adoptou,
e por quem foi adoptada,
é fácil encontrá-la numa esplanada
de esferográfica em punho
a murmurar para as páginas
em branco o que lhe vai na alma
e no pensamento. Em 2003, reuniu
alguns dos seus poemas e deixou-nos
dar uma espreitadela aos seus
escritos. Soube a pouco e quisemos
mais. “ Água Pródiga” é esse mais
que pedimos e que ela
com o seu carinho, a sua ternura
e o seu amor por todos nós, nos dá!”

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maio 30, 2007

bruma o tempo (poema)


I

à mulher seguiu-se um ansiolítico
e o tempo ia passando ao outro lado do tempo
sem que reaparecessem as suaves mãos de grega
que tiram os colapsos dos peitos dos afogados de amar

a viagem é por vezes estender a solidão
barco clandestino por entre púrpuras galantes
punhos de espada águas da minha água
armadura grega tróia e troiana enchendo-me
o barco furando em segredo perto do meu sono
longe do meu beijo.

II

bruma avança entre o mar espesso
o silêncio cria um tempo de poema

contrária a si mesma
fresca acolhedora
espera há mais de dois mil anos
e liga-se-me sináptica e sonhadora
generosa e meiga mãe sobre todas as mães
amante prometida acima de todas as amantes

procurará o meu corpo percorrerá o meu espírito
e amalgamados entre nós dar-se-ão os dedos dos lábios
diremos os nossos secretos nomes e chamaremos poetas
para incendiar luz e abrir caminho sobre as inquietas águas

em linha tranquila bruma divide o horizonte
e paciente traça sobre a minha vida a noite e o dia
diz-me vive e os seus sorrisos são alquimia
a rolhar a solidão das fragas

III

tempo de bruma só adivinhado
vago da esperança do desejo
tempo de bruma por chegar

um dia toda a cidade acordará abraçada de bruma
todas as casas estarão no mesmo sítio
todas as pessoas estarão nos mesmos gestos
todas as águas pararão

bruma chegou de seu caminho

de repente toda a cidade parou ou será outra
entanto bruma se estende corpo inicia o gesto
suaviza as coisas que murmuram e lentas retornam iguais e diversas

e tudo é mais quieto mais quente mais produtivo

se o seu nome ressoa todo o tempo se resolve
nos espasmos de um orgasmo atlântico
ela chegou mãe primeva de todas as substâncias
entre o líquido e o orgânico corpo frutuoso
cândido e lascivo que me acalma para após
me seduzir a ainda mais me excitar

por isso acorro ao chamamento e vou
bárbaro e tranquilo voando devagar a arrulhar mansinho
sem rufos de asas para que o vento não disperse bruma


IV

diáfana bruma corpo de vestal cumprindo véus
que passas entre olhares e entardeces Penélope
tema de teia talvez no meu encalço

mas antes de mim quantos estarão
quando chegar quem me anunciará
ainda estarás à minha espera
ou o meu vento uivará através da tua sensibilidade
e nem acordarás

pode ulisses o triste pensar em penélope neste longe
pode ulisses sem barco contar os longes da viagem
pode ulisses sem arco ser o herói
que tudo vence e tudo a si domina
pode ulisses assim como o vês ser ulisses no poder
o aguardado ulisses é ainda este
que atendes no teu leito e ouve lá fora
os urros dos pretendentes-esbirros

pode ulisses deitar velas ao sonho no mar do teu consentimento

V

porque ver-te e querer-te ó pequena subtil ó perto da meia tarde
quando os cabelos se dobram nas fímbrias do vento
quando a semi-saia cortou já parte da esquina
quando tu passas e o teu amanhã me é improvável
possa eu todo desconhecido inibição inicial
ressurgir no diálogo interrompido antes das palavras mágicas
que te trazem género' igual ao meu mas de sinal diferente
prometida desde o tempo em que ainda havia deuses e se guardou
e pôs à prova apenas para que eu um dia num local
improvável no inesperado do tempo numa procura consciente
fosse tocado por um sorriso preso por um olhar
perdido por ter de ir

talvez para a próxima a bordo do barco da poesia
quando o timoneiro pintor fizer as águas
tenhamos tempo para possuir a urgência de ser pátria
de ser rio e preparar esta coisa tremenda e fatal
que é o corpo do espírito da mulher esta coisa que se sente e não
se sabe esta coisa que nos corta e que nos abre esta coisa enorme
e feminina esta coisa que nos acalma e nos atrai esta coisa
que em suma é um sonho rodopiante com o tempo e a bruma
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maio 27, 2007

Novo Mapa de Portugal



Com a devida vénia reproduzo a imagem do Novo Mapa de Portugal que me foi enviada, por pessoa amiga, através de e-mail. Ao autor original os meus agradecimentos e parabéns pela pronta imaginação e criatividade com que reagiu à palavras insensatas do Ministro Lino.
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maio 25, 2007

Uma não-crónica e o arguido Carmona



1 – Não-crónica

Peço desculpa aos meus não-leitores pela não-escrita que hoje trago aos vossos benemerentes olhos. É porque eu, tal como muitos de vocês, sou uma inexistência comprovada, pelo que só poderei produzir não-coisas e não-escritas. Não sei se filosoficamente se pode, de algum modo, ser uma inexistência ou se sendo se é completamente, não podendo por isso, não se ser de modo algum. Deixo o desembrulhar deste labirinto para o inefável Ministro da Obras Públicas, de nome Lino, que ontem declarou pública e notoriamente a nossa completa inexistência.

Perante uma tão abalizada afirmação eu confino-me à mina plena ausência de ser aos olhos de, pelo menos, parte do Estado. Resta-me a espúria esperança de que nenhum terrorista decida rebentar todas as pontes que hipoteticamente ligam a coisa nenhuma deste lado ao tudo do outro lado das margens. (Vide Dicionário da asneira de Almeida Santos)

Perante o atabalhoamento das mui preciosas declarações e actuações de algumas excelentíssimas personagens ministeriais vai enriquecendo, se não o país pelo menos o anedotário nacional, o que em si já não é pequena coisa. Sempre ouvi dizer que o riso combatia a depressão e como a nossa economia continua deprimida, como deprimidos teimam em continuar os desempregados cá do território, talvez esta seja uma infalível e secreta receita para ultrapassar o acabrunhado ambiente em que vivemos.

2 – O arguido Carmona

É costume retórico começar por confessar-se a simpatia por alguém para a seguir a arrasar com a nossa argumentação. Não sou inocente nesses artifícios e confesso que já deles me tenho servido. No entanto aqui não o farei. Não gosto mesmo do homem desde quando espetou a faca nas costas de outra personagem que também não me é simpática: Santana Lopes. E lá que o fez com todo o despudor, fê-lo. Só que eu embirro solenemente com qualquer quebra de lealdade, mesmo entre políticos.

Teimou agora - nesse seu jeito de trair quem lhe dá confiança - não acatar as indicações para se demitir vindas do partido que o colocou na Câmara. Manteve-se teimosamente agarrado ao poder num “tem-te não caia” agoniativo. Mas como é homem de palavra disse que não iria concorrer à Câmara e, a seu modo cumpriu. Cá está de novo na corrida.

Isto nem seria o pior se ele não fosse arguido num caso de possível corrupção com uma empresa, a qual me abstenho de nomear porque, mesmo sendo verdade tudo o que sobre o caso se diz, posso vir a ser sancionado por algum tribunal por atentar contra o bom nome de um provável corruptor.

Tem-se falado muito sobre o comportamento a ter por nomeados para cargos públicos quando arguidos em qualquer processo.

Consultando o dicionário da Academia de Ciências vejo que arguido quer dizer: “Pessoa indiciada ou acusada de crime, delito, falta condenável, punível com pena ou disciplinarmente.” Não me esqueço que no nosso ordenamento jurídico existe a presunção de inocência até condenação em julgado, mas também não posso esquecer que quem ocupa um cargo público (de nomeação ou por eleição), deve estar acima de qualquer suspeita. Acredito firmemente que só há arguido quando os indícios se mostrarem fortes. Não creio que os juízes andem a arguir os políticos só por intrínseca malvadez ou ciúmes de poder. Por dever ético penso que qualquer arguido deve, nesse caso e no mínimo, pôr o seu cargo à disposição de quem de direito.

Mas, pasme-se a coerência do concorrente Carmona. Perguntado pelo Público (24 de Maio) se aceitaria receber apoio monetário da empresa que levou à suspeição de corrupção nos órgãos camarários – e à correspondente queda da edilidade - respondeu prontamente que sim. É portanto um arguido contumaz e convicto.

De homens como o ministro Lino e o edil Carmona é que o país precisa…para continuar a afundar-se.
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maio 23, 2007

Lágrimas (Conto)

Retorno a este conto tendo em vista a situação da Câmara de Lisboa, à qual apenas um mágico como Mandrake parece poder valer.
Que o novo presidente - que espero seja Helena Roseta - nunca venha a parecer-se
com o bicharoco desta estória.





Pretensiosamente pretendi chamar a esta história o meu barbeiro. Meditando um pouco perante o ecrã vazio - onde vai o desespero da folha de papel branco à espera da escrita e dos furiosos riscos que inutilizavam início e papel - tive de chegar à conclusão que:

a) não tinha, nem nunca tive um barbeiro fixo, coisa que passarei a explicar mais para diante (se me apetecer ou se o decorrer do conto não me levar por outros caminhos) e,

b) era demasiada pretensão chamar de minha a qualquer pessoa, ainda que fosse um barbeiro pobre, de revolta suave e a atingir o raiar das lágrimas.

Assim, vai a estória chamar-se lágrimas, não porque as houvesse na conversa, mas porque, de forma vária, estavam subentendidas numa vida de esforço sem glória nem perspectivas. Há, no entanto, para ajuntar que a culpa desta conversa é da Câmara Municipal, que por acaso é socialista, partido onde votou o meu barbeiro e que agora, com desespero, se arrenega dizendo que nunca mais votará em ninguém.

É claro que esta prosa corre o risco de se transformar numa lamúria fora de moda, tipo fado do desgraçadinho, coisa muito em voga nas escrevinhações que por cá fazemos. Desenganadamente o portuga escrevente – e será só ele? - desforra-se na escrita da sua consciência infeliz, enforma-a de confissão e procura nela ultrapassar problemas que, por inépcia ou falta de oportunidade, não consegue resolver de outro modo.

Dizia o barbeiro, dentro de e voltado para um amplo estaleiro de obras em funcionamento pleno, que a Câmara lhe estava a rebentar com a vida. E ao seu patrão também. Estranha esta preocupação do servente com o dono do estabelecimento. Marx não havia de gostar desta aproximação de classes, embora, se passasse pela barbearia e ao cortar o desgrenhado cabelo, ou a aparar a furiosa barba, ouvindo a estória que eu ouvi, pudesse pensar em alterar qualquer coisita na sua obra monumental. Ou quem sabe, talvez não mudasse nada porque uma coisa é a mudança encarada do ponto de vista sociológico, outra bem diferente é o drama do indivíduo apanhado nas teias dos volte-faces sociais.

Pois é verdade, o patrão da barbearia ficou estarrecido quando numa Segunda-feira vai para abrir o seu estabelecimento e verifica que todo o largo tinha sido, durante o fim-de-semana, cercado por imponente paliçada, cheia de anúncios de empresas de construção pedindo desculpas pelo incómodo, clamando que iriam ser breves, que trabalhavam para o bem-estar de todos e ali, do seu esforço e engenho, iria nascer um magnífico parque subterrâneo para automóveis para, de vez, resolver todos os problemas de trânsito daquela muito importante zona da cidade. No entanto, o problema para o dono da barbearia é que não só não tinha qualquer acesso à sua loja, como nem sequer a avistava, tapada que estava com protecções e andaimes e, sobretudo como em desespero dizia:

- ... mas nunca me disseram nada...

e ao pretender entrar teve que dar uma enorme volta para descobrir uma porta, onde foi esbarrar num serventuário negro, interposto à sua frente, mal falante do português, o qual, obstrutivo e repetidor, dizia: -sinhor non. Empresa e Câmara não querer ninguém dentro...

Estupefacção transformada em raiva. O sentimento de impotência a subir pelo corpo todo, começando nas mãos, estendendo-se pelos braços, ocupando o peito e um berro a sair e a explodir dentro do coração. Tudo vermelho por fora e por dentro como a ambulância onde o transportaram para o hospital, com um ataque cardíaco, conquistado naquele preciso momento e local.

Dizia-me o barbeiro que ao tomar conhecimento deste triste evento a Câmara fora companheira e impecável. Acorreu em peso em visita ao hospital, acompanhada dos órgãos de informação, para pedir desculpas ao patrão, que por acaso não tinha morrido, apenas ficando tolhido dos braços - o que não é de somenos para um barbeiro - e prometendo-lhe passagem livre, quando quisesse, para a sua loja, desde que, evidentemente, o estaleiro estivesse aberto, porque como sabe, por causa do ruído não se pode trabalhar à noite, e as máquinas existentes, de valiosas, não poderem ficar abandonadas ao sabor das malquerenças de algum energúmeno, além do perigo acrescido que representa atravessar um local de obras para alguém que não esteja habituado a tais andanças. O senhor bem sabe como são estas coisas dos acidentes na Construção Civil…

…O que se tinha passado é que todos os Bancos e Empresas da zona tinham sido avisadas com tempo e a Câmara, que não é descuidada, tivera mesmo reuniões com representantes dessas firmas e quantos problemas -meu Deus!! - não foram resolvidos. Só a questão da garagem do Banco Enfisema fora uma dor de cabeça...mas felizmente tudo se resolvera. Agora, a questão é que no meio de tanto afã, passou despercebida a questão da barbearia. Também o senhor sabe é só você e o seu empregado, aquilo está para ali esquecido a um canto, tem pouco movimento, vocês não se actualizaram e assim, não é que sirva de desculpa, ninguém se lembrou de vos avisar desta coisa...

Mas como é que eu vou viver? tartamudeou em espanto o patrão.

Pois é, é complicado, disse o Sr. Presidente. Agora não temos solução nenhuma. As coisas estão muito em cima do acontecimento. Teremos que estudar o caso. Mas não se preocupe, dê tempo ao tempo,...alguma coisa se há-de conseguir...

E conseguiu mesmo. Logo ali o patrão teve uma recaída - também quem é que espera que um patrão tenha um tão delicado coração - o que obrigou à rápida evacuação dos meios de comunicação social, para não perturbar o doente. Uma câmara de uma televisão independente, que cirandava atrás do presidente e que se tinha dado ao desplante de filmar despudoradamente todo o incidente, teve o azar de chocar de frente com um homem da segurança que ia a correr chamar o médico - que já estava à cabeceira do doente - e ficou toda partidinha no chão. No entanto, como o segurança era homem de boa índole, parou de imediato para ajudar o operador a levantar-se e a recuperar a câmara. O que o desgraçado nunca recuperou foi a cassete que se sumiu ninguém sabe para onde. Coisas....

Assim o meu barbeiro reflectia em voz alta, dando curso à sua mansa indignação e utilizando-me para a sua psicoterapia.

Pois é - dizia ele - por causa destas obras vou agora de férias. O senhor já viu o que é ir de férias no pico do Inverno?

Tentando amenizar as coisas lá lhe fui dizendo que férias de Inverno têm os seus encantos e méritos. Por exemplo, não se perdia tempo a esperar por um lugar nos restaurantes, era-se mais bem tratado nos hotéis e, para quem gostasse de neve, umas férias na montanha era o que era.

Pois sim, ripostou-me. Para mim férias são sempre no mesmo local. Em casa! Como é que quer que eu passe férias noutro lado? Repare, ganho menos de sessenta contos líquidos, fora as gorjetas, evidentemente,

-Já te percebi meu marau.- pensei eu! Está-te a fazer ao piso...

e com isso tenho que pagar a renda do barraco, os remédios da mulher que é doente como o caraças, os transportes, a alimentação e a pouca roupa que vestimos.

A raiva desta situação infeliz fez-se sentir na minha nuca. Zás! A navalha a entrar fina e dolorosamente na minha carne.

-Cuidado homem! Ainda me tira um bife do pescoço.

- Peço-lhe desculpas...mas quando penso na minha vida dá-me cá uma raiva!

Não é que eu não percebesse a razão da sua fúria. Com sessenta anos, sem dinheiro, sem nunca ter sabido o que era um gozo real de férias, dava para rebentar com todo. No entanto eu não tinha, objectivamente culpa nenhuma desta situação e a navalha, quase tão velha como ele, já tinha com certeza cortado centenas de pescoços (à superfície, é claro) e, valha-me Deus, se algum pertencesse a alguém contaminado com sida? Estremeci e, solícito, pergunta-me o barbeiro:

- Tem frio? Eu fecho já a porta. Como isto está nem se tem ganho para comprar uma garrafa de gás para o esquentador, quanto mais para o aquecedor.

Isso já tinha notado. Levara um duche de água fria ao lavar da cabeça. Como sou pacato e não gosto de levantar questões nem disse nada. Pensei que o esquentador não tivesse ainda aquecido, no entanto disse-lhe:

-Podia ter-me avisado antes. Assim evitaria o frio que passei.

Pois é, objectou, o serviço já é tão pouco! Se eu avisar o cliente ele não lava a cabeça. E é uma quinhentola que se vai à vida. A verdade fica muito cara. Não me posso dar ao luxo de ser verdadeiro. Se agora lhe falo nisto é porque já lavou a cabeça e é o meu último cliente. Quando acabar este cabelo vou fechar as portas, entro de férias e já não volto. Não tenho dinheiro para ser patrão, o dono da barbearia nunca voltará ao ofício e eu consegui uma reforma por causa da artrite. O dinheiro não é muito. Mas com as economias em transportes e roupas, mais umas cabeças que arranje lá pelo bairro, cá me hei-de governar.

Chegado o serviço ao fim escovou-me as costas, recebeu o dinheiro e a gorjeta, fez-me um sorriso e mal eu saí, fechou, para sempre, as portas da barbearia.


Vivia-se ao tempo a euforia construtiva do Sr. Presidente. Pelo sorriso permanente, de alvos dentes em riste, pela mania de mandar azulejar de branco tudo quanto fosse de retretes a estações de metro ou comboios tinha sido Sua Excelência apodado - claro, pela oposição - de Brancolejo.

Dizia-se que as sessões na Câmara eram tumultuosas e inúteis. Discutisse-se o que quer se discutisse, tomassem-se quais decisões fossem, era certo e sabido que apenas vingariam aquelas que o Sr. Presidente já trouxesse encasquetadas no bestunto. Era um homem de grande inteireza - diziam os apoiantes - era um burro teimoso - contestavam os outros. O certo porém é que o seu mandato lá ia de vento em popa, assim, como de vento e pompa foi o dia da inauguração do parqueamento.

O que parecia não ter remédio era a desgraçada barbearia. Para além da disfunção obtida pelo patrão, da compelida reforma do empregado, erguera-se agora, comemorativamente, mesmo em frente da sua portada, um imponente monumento, que a ocultava completamente, destruindo qualquer possibilidade do patrão obter algum trespasse que merecesse a pena. Saído do hospital e confrontada a Câmara com a possibilidade de um processo em tribunal, a cair mesmo em cheio no período eleitoral, foram convocados sábios consultantes.

Que arranjassem uma solução – clamou o Sr. Presidente.

E foi assim que no dia da inauguração, entre bombeiros de retoque e desfile, meninas de flor e beijinho, fitas cortadas, discursos como o deveriam ser, todo ao jeito do antigo regime só que com mais populares na corrida, o patrão - agora tetraplégico, de cadeirinha de rodas empurrada por zeloso funcionário da Câmara -, engrossava a fila de convidados importantes e, pasmem, ele que nunca tivera carro, nem poderia agora pretender conduzir, receberia, de modo estatutário, o direito a um lugar de parqueamento vitalício e não endossável…

Mas, dir-me-ão que foi feito do empregado?

E perguntam bem porquanto, como todos somos iguais e detentores dos mesmos direitos, não poderemos cometer o feio pecado de falar de presidentes, de bancos e mesmo de barbearias e deixar, como coisa que não interessa, o destino desse anónimo fazedor das coisas reais.

Pois bem, não deixem de ter em conta que falamos de um município, de presidência consabidamente democrática e socialista, onde o povo miúdo é sempre tido na devida conta. Foi assim que no dia da inauguração, impante, garbosamente fardado, dentro de um cubículo de vidro, o meu barbeiro recebera a importante missão de cobrar os pagamentos e passar talões aos utentes do novíssimo parque.

E a estória poderia por aqui ficar, com honra, glória e proveito para todos se, no meio da felicidade do meu barbeiro, não caísse a dúvida cruel de um futuro ameaçado. É que, não nos podemos esquecer, vivemos numa época de grandes e progressivas mudanças e o nosso presidente é dinâmico, homem de larga visão do futuro e sobretudo muito viajado. Assim, dissertando sobre melhorias e desenvolvimento, por mero descuido próximo ao recém reciclado barbeiro, comentou, para a sua comitiva, que um parque assim tão moderno, dentro de todas as convenções das normas europeias, não ficaria completo sem um actualizado sistema de cobranças e controlos automáticos. Era assim que se fazia lá fora...

Vocês bem vêem, isto de ter uns velhotes caquécticos nas portagens de instalações tão modernas não dá lá muito bom aspecto...

Por isto ter ouvido é que o meu barbeiro, quando lhe fui dar os parabéns pela resolução dos seus problemas de emprego, esboçou um esforçado sorriso e disse:

Não sei bem... não sei bem...

...deixando que duas pequeninas lágrimas ensombrassem a luz daquele grande dia.

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maio 19, 2007

rostos







para o adriano correia de oliveira


I

pelos interstícios da razão
vislumbra-se a paixão do racíocinio

o horizonte fundido sobre a rota dos barcos
escapa dentro do texto que se julga
sempre a caminho do mar

a neblina colcha de torrente
comanda-me a voz
em prosas no olhar

pela altura da vaga
mede-se a esperança

à janela do tempo
acrescento qualidades
às minhas sensações

um homem
com os dias azulinos sobre o mar
traça o curso das querenas

II

eram tão poucos os rostos
franjados de presságios
para os árduos barcos
que o sonho requeria

entre enganos e dias
restolhavam vozes
cobertas de noite
onde o silêncio
começava a existir

mas eram tão poucos
a mondar nos trigos dos critérios
o gorgulho dos prantos

ausentes da revolta
agora vamos sozinhos

os deuses são abismos do futuro

III

alguns barcos encalham e apodrecem
dentro dos rios crescem as barragens
balanço de metáforas transformação de cidades

nas máscaras do grito espia-se o grito
neste país de fronteiras sem vizinhos as borboletas das noites de agosto
turbilhonam sentidos que não sabemos

perguntado ao rio qual o caminho
o bafo das neves sem repouso
remete ao local sonolento dos pricípios

a voz a pedra a tensão do futuro
contra o tempo

ícaro promete despertar

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