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abril 18, 2008

“Pré(k)ários” a verde






Hesitei bastante sobre o tema desta crónica. Dois assuntos ressaltavam da massa de acontecimentos deste período. Um era a visita do Presidente da República à Madeira tendo, como pano de fundo, as subtis declarações do inefável Alberto João, o outro seria a angustiante situação de tanta gente que não só ganha pouco, como não dispõe de qualquer protecção social porque trabalha a recibos verdes.

Ponderações feitas ponho de lado a viagem à Madeira. As razões não são difíceis de explicar embora sejam difíceis de perceber. Não votei, nem votarei em Cavaco Silva. Para além disso ele legitimou-se como Presidente da República Portuguesa e, desde aí, não passando eu a gostar mais dele, aceito-o, democraticamente, na sua função e no respeito que, pela mesma, lhe é devido. No entanto, o Sr. Alberto João veio demonstrar cabalmente que, quem se deslocou à Madeira não foi o Presidente mas sim o Sr. Silva. Portanto para mim o assunto ficou arrumado. O Sr. Silva, que aceitou este estatuto conferido pelo Sr. Alberto, não é o meu Presidente porque não soube assumir o seu lugar menorizando-se - mais um - perante o incomensurável e misterioso poder do Sr. Alberto.

Passemos, por isso, a assuntos mais sérios.

Na legislação de trabalho – inscrita na sua maior parte no Código de Trabalho – consagram-se os seguinte tipos de contrato:
- Contrato sem termo, isto é, os efectivos permanentes da empresa;
- Contrato a termo incerto, determinado para realizar trabalhos bem definidos e temporários mas de que não se conhece a data de término;
- Contrato a termo certo, utilizado até três anos (em casos especiais podendo alargar-se até seis anos), estabelecidos para postos de trabalhos não permanentes e com indicação expressa de tipo de trabalho e do início e fim do contrato, que deverá ter a duração do trabalho a executar. É claro na lei que não poderá ser contratado a prazo um trabalhador que vá ocupar posto de trabalho de características permanentes.

Assim, se uma determinada função é para ser executada continuadamente para a prover não poderá ser contratado ninguém a prazo. Para um lugar permanente terá de ser concedido ao trabalhador um contrato sem prazo.

Olhando para as definições e permissões destes tipos de contratos parece-nos que não existe qualquer iniquidade na letra da lei, sobretudo se for tido em conta que o trabalho a prazo deve ser encarado como a excepção e não a regra de contratação. É de fácil entendimento que se uma empresa precisa de um aumento temporário da força de trabalho para uma situação de aumento temporário de trabalho, ou para uma obra ou tarefa perfeitamente delimitada, não se veja obrigada a estatuir contratos de cariz permanente. Seria pouco racional e criaria bolsas internas de subemprego. Mas o contrário também é verdade e racional. Se a tarefa ou função forem de necessidade permanente não fará sentido contratar a prazo alguém que irá permanecer longo tempo a desempenhar essas funções.

No entanto é isto que acontece.

Aproveitando a fraca, ou quase inexistente, fiscalização fazem-se contratos a prazo para situações onde liminarmente a lei tal não permite. As justificações dadas pelas entidades patronais vão desde a inflexibilidade das leis laborais – entenda-se a dificuldade em despedir – às questões da produtividade.

Isto é puro blá-blá.

Efectivamente a lei proíbe o despedimento “sem justa causa”, não impedindo porém que o mesmo se faça quando essa causa existe, e é provada em processo disciplinar. Por outro lado, o argumento de que a empresa tem que alargar ou contrair os seus quadros de pessoal, conforme as solicitações do mercado, sendo de considerar, não passa muitas vezes de mera desculpa. Primeiro porque a gestão da empresa, para ser competente, terá que ter uma previsão do desenvolvimento do mercado e criar estratégias para isso e, segundo, porque a lei lhe permite nesses casos – se tudo o mais falhar – o recurso ao despedimento colectivo.

Só que o despedimento colectivo, além de uma carga razoável de burocracia e necessidade de prova das situações invocadas, tem, normalmente, um impacto desagradável na comunidade e fortalece a solidariedade entre trabalhadores e o papel dos sindicatos. Por estes factos as empresas evitam tal medida e, na falta da requerida flexibilidade para despedir, recorrem aos contratos a prazo excessivos e aos recibos verdes.

Se o exagerado número de contratos a prazo indevidos cria já precariedade, tem, no entanto, sobre os recibos verdes uma vantagem para o trabalhador e uma “desvantagem” para o empregador. Exigem os pagamentos para a Segurança Social. O remédio? Recibos verdes.

No entanto, esta forma de pagamento, que não consubstancia por si um contrato, foi idealizada como prova de prestação e recebimento de serviço liberal. Pretendia-se com ela fazer fé, perante o fisco, que um determinado acto fora pago e deduzidos os respectivos impostos. Assim, estariam neste caso os actos médicos livres, o apoio jurídico e qualquer prestação de serviço que não implicasse subordinação jurídica à entidade pagadora. O simples facto de a pessoa neste caso ter um gabinete fixo no local de trabalho, poderá implicar não ser reconhecido como trabalhador liberal, logo ser considerado um falso prestador de serviços livres.

Hoje, muitas empresas recorrem a este tipo de relação para evitarem os encargos sociais e aumentarem a mobilidade dos seus trabalhadores. As vítimas mais frequentes são os jovens, licenciados ou não, e os trabalhadores acima dos quarenta anos que tiveram o azar de perder os seus empregos.

A facilidade em, deste modo, torpedear a lei está a causar graves distúrbios na sociedade. A organização de vida e independência da juventude tornam-se impossíveis, a instabilidade acentua-se em todas as dimensões desde as económicas às afectivas, as perturbações psicológicas e sociais sucedem-se e mesmo a propalada necessidade de aumento de produtividade fica, pela instabilidade, inexperiência e desmotivação, completamente comprometida.

E no entanto era tão fácil resolver o problema. As leis existem e são claríssimas. Bastava vigiar o seu cumprimento e, como elas determinam, todos os contratos a prazo e recibos verdes que não obedecessem ao legalmente estatuído passarem a contratos sem termo. É apenas por em campo a fiscalização e usar as bases de dados da Segurança Social e das Finanças. É difícil? Deixem-me sorrir levemente e permitam-me que desconfie que alguém, que não devia, quer deixar as coisas assim, talvez porque de si parta o mau exemplo.

Quem for Estado e quiser enfie a carapuça.



Publicado in “Rostos on line” – http://rostos.pt/

abril 08, 2008

falenas I





por dentro do rumor

habitual do silêncio

é que existe o rumo

a chamada o calor

do corpo onde desfolho

minhas falenas de amor


com lentidão sigo a rota

clara de uma borboleta

subtil reminiscência

do branco onde me assumo

como rouxinol de fumo

no canto da tua ausência


falenas

onde se doem os prantos

deste corpo quase etéreo

nomes das breves passagens

percursos de uma viagem

ou abrir de outra janela


falenas

no meu corpo se distendem

na memória apreendem

as brevidades da vida

asas de sombras esguias

tapetes de fantasia

na zona do inconcreto


falenas

imersas na claridade

meus sonhos de uma cidade

povoada de paixão

meus amores minhas idades

hipnoses de saudades

perto da sua extinção

abril 04, 2008

Casamentos, divórcios e bispos







De um ponto de vista antropológico não há casamento, há casamentos. De facto cada grupo social institui, conforme as suas vivências e conveniências, a forma de ligação homem/mulher que melhor serve os intuitos do agregado. Uma das poucas regras sociais com aceitação quase universal é a da proibição do incesto. A cedência de uma mulher de um grupo a outro estabelece uma relação de aliança fortalecedora de ambos os conjuntos.

Desta forma o casamento é, sem sombra de dúvida, um acto contratual.

Por isso o casamento dos nobres era uma questão de estado. Igualmente, quando a Revolução Industrial se implantou, o casamento dos filhos da indústria seguia estratégias nupciais de aprofundamento do poder económico-financeiro. Bom casamento era aquele que acrescentava património às famílias.

E o amor? Onde entra nesta história?

Bem, o amor-paixão é uma invenção romântica da civilização ocidental. Não sendo, muitas vezes, possível satisfazer necessidades afectivas com os casamentos contratuais, e não deixando os seres humanos de perseguir afectos, começa a enaltecer-se, na literatura, a transgressão, como acto de superação do simples registo de interesses económicos ou nobiliárquicos, através da exacerbação de uma sentimentalidade arrebatadora, a raiar o irracional e, quase sempre, com desfecho trágico. (Vide, Tristão e Isolda; Romeu e Julieta).

Não deixando de, nas sociedades modernas, existirem estratégias nupciais mais ou menos subterrâneas, o valor declarado e fundador nas nossas ligações é o afectivo. Um casamento faz-se por amor, isto é, por escolha mútua de onde, presume-se, estará afastada qualquer noção de ganho económico ou social.

O meu amigo Belegário não acredita muito nisto. De tal maneira descrê que, ainda não há muitos dias dizia-me, referindo-se à experiência pessoal observada no microcosmo da empresa onde trabalha:

- Olha, Carlos, eu não tenho dúvida nenhuma que as pessoas se casam por amor. Aliás, tenho visto isso, com alguma frequência na minha empresa. As pessoas contactam-se, conhecem-se, namoram-se e casam-se. Nada disto seria excepcional se não fosse o caso das raparigas da empresa se apaixonarem sempre por doutores ou engenheiros. Não conheço um único caso em que se tenham apaixonado por contínuos ou motoristas.

Mistérios que o Belegário encontra os quais, no essencial, não mudam as observações até agora expendidas.

Temos portanto o casamento como um contrato, uma vez que institui direitos e deveres, mas como um contrato especial fundado no afecto entre os cônjuges. Hoje nem o mais empedernido conservador ousa dizer que o casamento segue linhas de interesse contrárias à livre escolha sentimental dos nubentes. Nem mesmo quando isso é claramente visível.

Aceitamos portanto ser no casamento a livre escolha das pessoas que o institui e o torna aceitável em termos sociais. Não percebo, assim, haver tanta dificuldade em, seguindo a lógica da opção, aceitar que quando um dos componentes da díade considera já não ser possível ou desejável a continuidade da ligação seja obrigado a continuar numa convivência que se tornou penosa ou, no mínimo, desagradável. Sou pois, indefectivelmente, pela manutenção da escolha livre tanto para a celebração como para a dissolução de qualquer relação conjugal. Quanto a mim, basta um elemento do casal querer por termo ao vínculo e ele deverá poder dissolver-se sem complicações de maior. Aliás, de facto, é isto que acontece. Quando o amor acaba termina a relação real mantendo-se, embora, a mesma por arrastamento do cadáver contratual.

Em Portugal, nos tempos da outra dama, o domínio da Igreja Católica obrigava toda a gente a manter os casamentos até à morte de um dos cônjuges. A infelicidade e os prejuízos causados às pessoas e ao tecido social, por tal imposição, são por demais conhecidos para que valha a pena estar a tratá-los em pormenor. Ressalta apenas a sempre conhecida propensão da Igreja para dominar a vida social, não apenas dos seus seguidores – com todo o direito – mas mesmo daqueles que lhe são desafectos e sobre os quais nenhum direito lhe assiste, a não ser o direito de abuso, sempre reivindicado.

Apesar de ser altamente privilegiada no nosso país a Igreja Católica, pela voz autorizada dos seus bispos, vem de vez em quando carpir mágoas à boca de cena. Se tivermos em conta o que reza a constituição em termos de igualdade de tratamento das religiões verificaremos estarmos em falta grave para com todos os outros cultos. A existência do pretenso estado do Vaticano permite-lhe reivindicar o tratamento preferencial de estado a estado, ultrapassando o múnus cultual, intrinsecamente da ordem da consciência, passando de relações de culto a relações políticas. Se já isto é mau, esquecem-se com frequência os mesmo bispos que, além de deterem uma rádio, de nível nacional, com várias antenas emissoras, já possuíram um estação de TV a qual, de moto próprio e com interesses comerciais, alienaram no mercado e, escandalosamente, ainda emitem, duas horas todos os domingos, na nossa rádio principal, benesse que nenhum dos outros cultos possui.

Não estão no entanto satisfeitos porque a sociedade civil lhes diz diariamente que se mantenham nos limites traçados para a sua instituição. Mas eles querem mais. Querem manter o monopólio de serviço religioso nos hospitais, no exército, nas escolas. E querem que o Estado lho reconheça e lhes pague por isso. Como não vão obtendo o desejado fazem pressão sobre o Primeiro-ministro para que coarcte a liberdade legislativa da Assembleia da Republica e para restrição da actuação libertadora daquilo a que ousam chamar “ Estado ateu”. É, senhores bispos, a completa perda de vergonha. O vosso papel é aquele que a Constituição reserva para os credos religiosos e mais nenhum. Como nenhum outro direito vos deve ser reconhecido e, deixem-me lembrar que Jesus Cristo, que dizem seguir e evocam como fundador da vossa religião, disse acerca de dois mil anos: “Dai a César o que é de César e a Deus o que é de Deus” e, aprofundando: “ o meu reino não é deste mundo”.

Só respeitando este ditames podereis olhar para quem ainda em vós acredita e, como na Bíblia, proclamar com legitimidade e a plena voz: “Quem tem olhos que veja, quem tem ouvidos que ouça”. Caso contrário, como pessoalmente penso que acontece há muitos anos, não estareis a dar a Deus o que lhe pertence por demasiado interessados em fruir completamente tudo o que vem ou é de César.


Publicado in “Rostos on line” – http://rostos.pt/

abril 01, 2008

Memória 5





descobri

numa estante

da velha biblioteca

um livro raro


não era um livro

de capas bordadas a oiro

nem tinha folhas

de pergaminho


era um livro velho

e amarelo

abandonado há muitos anos

que ficou p'ra'li sozinho


na lombada tinha o título

"em busca da perfeição"

em nota do autor

tinha "solidão"


eu senti carinho

pelo livro que ninguém lia


...se era o meu retrato

que antevia



Évora, 1956

março 27, 2008

O Bife - um conto reeditado






Quis-me o autor católico e tímido. Por esses factos, aqui estou, hoje como sempre, sentado na terceira mesa da Segunda fila desta esplanada, olhando o pipilar da fonte e os miúdos desnudados, em banhos mais de sol que na contida água.

Serei, também, no decorrer do conto, o quanto baste de ingénuo e sonhador. Adequa-se-me a ingenuidade porque, com ela, poderei correr certos riscos e aceitar alguns jogos que de outro modo poderiam passar por estultícia. Calha-me o sonhador por comple­mento desse atributo. Quem se navega pelos fumos da lógica dos sonhos e os antepõe ao que a maioria denomina de real, terá toda a conveniência na estruturação de um universo à medida do romântico, que se pretende herói e não consegue, no seu ser, força bastante.

Volto à água. Tomba, por enquanto, entre salpicos de relva. Logo mais, quando a noite quase de surpresa chegar, as luzes do lago acender-se-ão e tornarão mais distantes e imprecisas as árvores do outro lado. Equidistantes do meu ponto de observação ficam as duas esquinas, estas sem nenhumas árvores. Só casas, em esses breves prenúncios de floresta que resistem no largo, do outro lado. Aquele onde nunca estou.

Nas casas das esquinas habitam pessoas e sei de histórias de outras que gostariam de habitar em casas e não o podem fazer. Mas isso são outros contos e, neste, o autor não me deixa entrar por esses caminhos. Aliás, como se sabe, é de boa norma delimitar os assuntos e esta é uma narrativa mais ou menos romântica pelo que não deverá perder-se em desinteressantes críticas sociais.

Retomemos o rumo certo. A poucos metros, do meu lado direito, fica a Primeira Esquina. Ao centro, comigo dentro, está a esplanada. Alguns metros para além do meu braço esquerdo, queda-se a Segunda Esquina.

Para além das esquinas nada conheço. Todos quantos as ultrapassam saem do meu ângulo de visão e deixam de ter história. Inexistem. Quem vem da Primeira Esquina aparece sem aviso. A sua presença é impensável até que dobre a esquina e se corporize no súbito de um bico de pé, num passo inacabado obrigando a presumir o anterior, numa sequência posterior de outros que se dirigem ao presente do café, ou na inexistência, por dobragem da outra esquina. Tudo isto resumindo-se num nada de corpo, numa existência precária, mais movimento ou fulguração que realidade.

Eu, estou aqui à espera. No meu estar existe certamente um objectivo, uma necessidade. Aguardo que ela dobre a Primeira Esquina, surja a emoção e se cumpra o determinado.

Por isso aqui me encontro, instalado no Verão, sentado na terceira mesa da segunda fila da esplanada.

Pelo ardor do corpo e pelo amarfanhado da pele suponho ter voltado da praia. Saboreio um imperial que poderia ter sido mais bem tirada se estivesse colocado na cervejaria. Mas a cervejaria fica lá mais em cima, a meio da avenida, enorme e plana, estendida sem surpresas e sem possibilidade de duas esquinas suficientemente distanciadas para permitir o espaço do cenário e suficientemente próximas para a passagem dela poder ser o campo entre a esperança e aquilo que não sendo desespero nem frustração, fica no magoado da alma como música melancólica.

Não me desagrada, na verdade, ter vindo da praia. Se me fosse possível passaria a maior parte do meu tempo nessa fusão de sal e luz. Que tardes! Quando o saboroso cansaço nos leva a rumar para casa na busca do duche, deixar a salmoura e, antes que o sol se ponha, correr para a esplanada, procurar a mesa conveniente, sentar-me e, beberricando a cerveja, esperar, sem falta, a partir da Primeira Esquina, pedaço a pedaço, o cumprimento da promessa da sua presença.

Aparecerá, primeiro, uma das suas pernas, seguida de um braço. Depois a saia leve tendida pelo passo e pela brisa. Num repente solar surgirá de corpo inteiro. As mãos, os cabelos, o peito num balanço cálido de ondas dentro de ondas.

Muitas vezes pergunto-me o que será ela para além da esquina. Que fará na vida fora deste caminho onde cruza o meu olhar? Como nada sei espero o seu avanço até à esplanada e tento adivinhar. Por momentos parece-me saber tudo e desejo que venha sentar-se à minha mesa. Reparo depois que nem sequer sei o seu nome, embora lhe adivinhe os passos e saiba que nunca, por si só, virá sentar-se aqui. Talvez nem sequer pare no café para tomar uma bebida ou fazer um telefonema. Seguir sempre em frente, até à Segunda Esquina, parece ser, imperiosamente, o seu destino.

Enquanto os seus passos a afastam tento confortar as esperanças caídas. Pergunto-me quantas vezes esperaste por ela e a viste passar, sem um desvio, por pequeno que fosse, entre uma esquina e outra? Esperavas, insensato, que ela viesse ter contigo e sem mais começasse a falar dizendo-te todas as palavras que tu calas? Grande besta sou! Porque raio deveria tal coisa acontecer? Sou católico, mas não espero milagres. Olho para mim e desconforta-me o que vejo. Como esperar então que ela possa ter alguma vez sequer reparado em mim. Ela nem me conhece e não sou tão irresistível que possa tornar-me notado aos olhos de qualquer mulher, apenas por me ter entreolhado. Sou uma boa anedota. Isso é que sou!

Além disto, basta olhá-la para sentir a diferença. É perfeita! Nela nada há de destoante. É, verdadeira e meteoricamente, perfeita. O caminho que percorre, só porque o trilha, é mais altar que percurso. Como pensar compartilhar o meu espaço com ela? Tão anódino que sou! Insensatez, meu caro, insensatez. Querias, se calhar, a estrela polar fora da sua rota, mortinha por se instalar ao teu lado!? Não é a mesma coisa? Ai não, não é!! Estás tolinho se não percebes. Então a estrela polar não passa também‚ todos os dias, entre dois limites? Sensivelmente à mesma hora e no mesmo local? E não é bela? E não é presente e inacessível? Os olhos não a seguem, porventura desejando-a? A outra é uma mulher!? Isso que tem? Não são ambas criaturas e igualmente perfeitas?

Peço o impossível? Não é esse, porventura, o meu direito? O que está à mão? Qual o merecimento?...

Voos.. Voos inconsequentes é o que fazes. Estás para aí com toda essa filosofia e nem sequer consegues convidá-la para a tua mesa. Aproveita agora. Daqui a pouco ultrapassará a tua mesa e atingirá a Segunda Esquina. Força. Um pouco mais e perderás a tua oportunidade. Mais acção. Menos filosofia.

Isso queria eu. Ter força para que ela fique. Para que o meu desejo fosse o dela. Pois é! Mas eu sou tímido. Nem me serão permitidas certas actuações. Por exemplo, neste momento, apesar da minha vontade e turbação, devo verificar se algum dos circundantes se apercebeu das minhas intenções; se os meus pensamentos se tornaram visíveis, se tomaram voz e gritaram, subitamente, o meu amor, na praça.

Olho em volta. Tudo continua como se não tivesse havido tempo. O meu vizinho mais próximo que, quando ela apareceu, começara a levar o copo aos lábios, nem sequer terminou o movimento. Toma agora o primeiro trago. Ela dá outro passo. Na praça o meu olhar é uma súplica. Eu, um desassossego.

Antes que outro passo se inicie e o bebedor desça, leve e lento, o copo sobre a mesa, procuro em mim aqueles olhos interiores de tudo sentir e perceber. Os mais completos e clarividentes olhos que ninguém reconhece fora de si e em si ninguém contesta. Iluminado por eles volto-me na direcção da Primeira Esquina. Preocupo-me. Se os fechar continuará a haver esquina? Se os fechar continuará a existir o que não sei se existe, do outro lado da esquina? Se os fechar é possível que a esquina desapareça ou não mas quem garante que essa anulação a não arrastará a ela também?

De olhos bem abertos sei que nada sabendo dela terei de continuar, até tudo acontecer, aqui sentado, entre duas esquinas, à espera, no, concedo, aprazível local onde situaram a esplanada, desconcertado por me sentir pedaço de coisa nenhuma, títere de um ciclo de existência onde, um dia, acredito, ela terá que vir sentar-se na minha mesa.

Se me fosse permitido resolveria este caso rapidamente. Faria com que ela, finalmente, reparasse em mim. Que me olhasse e, nesse olhar, ficasse a saber da minha longa e repetida espera, suspendendo, só por isso a progressão para a Segunda Esquina. Eu avançaria para ela de molde a tolher-lhe o passo. Contar-lhe-ia a minha espera e um sorriso de compreensão posar-lhe-ia nos lábios. Ver-lhe-ia despontar a emoção por se saber aguardada e despertar-lhe-ia a reflexão sobre o inexorável de todos os dias passar, à mesma hora, de semelhante modo, no mesmo local, entre duas esquinas, perdendo-se sempre um pouco mais de outro lado, sem a certeza de que no dia seguinte a catástrofe não acontecesse e a Primeira Esquina se toldasse pela sua ausência.

Por mim sei. Estarei aqui todos os amanhãs deste Verão esperando o seu aparecimento. Dia após dia verei morrer o sol incapaz de a chamar, incapaz de deixar de esperar. Continuarei parado tentando perceber o seu mistério. Além da esquina há possibilidades que me angustiam e a desconfiança de que tudo seja possível e tudo isto tenha um sentido, possua uma coerência. Porque eu sei. Estarei aqui, cada dia mais bronzeado, bebendo a minha cerveja, convicto que, lá mais acima, na cervejaria, seria melhor tirada, mas, compreendendo que só neste lugar cumpro o meu papel e me será possível vê-la passar indiferente e significativa.

Como antevia foi o Verão passando. O Sol declinava. Ela aparecia na Primeira Esquina. Eu esperava que os seus passos a conduzissem até mim. Ela passava ignorando-me. Eu, desesperado, ansiava o novo dia para que, declinando o Sol ela de novo aparecesse e eu continuasse a aguardar...

Um dia ela apareceu. Na Esquina. Na Primeira. Trazia qualquer coisa de novo. Seria o ângulo do avanço ou uma subtil transparência de intenções reflectidas na biqueira do sapato? Não sei. Apenas me foi perceptível, de golpe, a diferença. O dia de hoje não seria como nenhum outro. Era este o dia total, por excelência.. Sobressaltei-me. Algo vai acontecer e não estou preparado. Não sei o que é nem se o desejo. É certo. A minha mansa rebelião tem ensombrado o desempenho do papel que me foi atribuído. É certo. Por vezes sonhei-me outro e quis-me diferente. Mas, por acaso não me esforcei? Não me adaptei e tentei cumprir como quiseram que cumprisse? Não me mantive pacientemente sentado, todo o Verão, nesta esplanada, sempre ao fim da tarde? Esperando sempre a mulher que nunca abordarei e me destinaram que aguardasse?

Neste momento limite todas as questões são igualmente irrespondíveis. Não há tempo nem vontade. Porque pela última vez ela irá iluminar esta última tarde. Sei que, majestosa, inflectirá a costumada marcha no sentido do café. Inicialmente indecisa avançará depois, seguida de olhares e de mim, para o interior. Sei ainda que, agora que posso queimar-me no fogo do seu sol, a tão desejada, a eternamente aguardada, a suma, a inatingível se sentará ao balcão do bar e, ai de mim, com estes ouvidos onde ainda ressoam os roçagares do seu hálito na atmosfera, a irei ouvir, naquela voz que se adivinha de pétalas, pedir ao empregado:


- Dê-me um bife... em SANGUE, se faz favor

março 23, 2008

tema de solidão XII



nos teus olhos
nuvem esparsa no iodo
do teu nome
navego a minha barca
e a ilha floresce vegetal

no teu nome
ó construtora de trágicas heranças
não há máquinas nem sombras
só os trilhos
das mágicas andanças

por mais que magoe a solidão
e os tédios ou os vidros
nos apartem
por entre lúcidos sons
ou cores plenas
eu dou-te uma mão cheia
de falenas
efémeras belas marginais
que morrem docemente sobre o feno
ou nas pontas dos bicos
dos pardais

março 20, 2008

“Balha-bem”






Cansado do azedume provocado pelas contínuas observações sobre o estado do mundo, procurei nos arcanos da memória um tema de menor crispação. E veio-me à retentiva o “Balha-bem”. No entanto, para falar dele tenho, primeiro, de dissertar sobre o Sr. Sepúlveda, conterrâneo do nosso herói, mas que, possivelmente, nunca se apercebeu da sua humilde existência.

Ao escrever o seu nome salta-me à lembrança a imagem pequena, meio corcunda, de nariz adunco e desconformes pés, ataviado no eterno fato azul. O Sr. Sepúlveda era funcionário público no tempo em que ter um ordenado certo, casa no centro da urbe e contactos privilegiados com os poderes delegados, emprestava ao funcionário um ar de magnificência. Assumia o Sr. Sepúlveda a sua condição, para além do vestuário, num expressar-se hipercorrecto que o afastava do vulgo vingando-se dele o vulgo por desenfreada troça.

Assim, certo dia, instado por um polícia, novo na cidade, a identificar-se, foi pelo mesmo detido e acompanhado à esquadra, porque o guarda suspeitava que ele lhe faltara ao respeito quando lhe pediu a identificação. Foi o caso que, surpreso por ser abordado por autoridade menor, retorquiu à intimação:

- Saberá o Sr. Cívico que se dirige inopinada e abruptamente a um sujeito com foros de cidade em desmesurada altercância para com o seu direito de ininterrupta e continuada progressão no burgo onde reside em domus próprio?

E zumba! Assarapantado com tamanha eloquência lá foi o Sr. Sepúlveda, acompanhando o atónito, desconfiado e ofendido chui para a esquadra da cidade, onde, um espavorido chefe tratou de se desculpar e xeringou o polícia por prender tão destacado elemento da burguesia urbana, o qual, por funcionário judicial, não só tinha o direito de dar voz de prisão a qualquer pessoa como, das suas funções, muitos jeitinhos e facilidades colhiam eles, polícias, por boa vontade do ilustre citadino.

Por seu lado, o “Balha-bem”, adolescente, cigano e analfabeto era o oposto da pequena glória do Sr. Sepúlveda. Nunca soube o seu nome. “Balha-bem”, chegava. Recebera a alcunha por ser hábil com a gaita-de-beiços, onde tocava melodias ciganas que acompanhava com o seu sapateado, pretensamente andaluz, pelo qual, recebia nas tascas, uns cobres com que se ia governando. Era companhia assídua da malta estudante com quem gostava de conviver nas serenatas e nas farras que lhe sucediam. Liberalmente o grupo acolhia-o.

Tornou-se meu amigo porque, todas as manhãs, me aparecia pedindo que lhe emprestasse vinte e cinco tostões. Não era muito dinheiro mas quase dava para uma ida ao cinema. Por isso, na primeira vez, hesitei e logo ele pressuroso, com o seu palrar conspícuo entre o espanhol e o alentejano, me assegurou que à noite me pagava o numerário.

Efectivamente cumpriu. Mas, no dia seguinte, pela manhã, lá estava, de novo, a pedir o empréstimo. Sempre pagou e, durante muito tempo, todas as manhãs, pedia a mesma importância. Intrigado, perguntei-lhe um dia a razão desta conta-corrente. Tentou esquivar a resposta dizendo ser o segredo a alma do negócio, mas perante a possibilidade de não tornar a ter o abono lá me explicou que ia, todos os dias, a um armazém da cidade, comprar uma caixa de sabonetes. Retirava os invólucros e ia vende-los aos incautos como se fossem sabonetes espanhóis de contrabando. Admirado perguntei-lhe se o negócio era bom.

- Vai dando. Foi a sua resposta.

A junção destas duas personalidades tão ímpares deu-se numa tasca, agora restaurante de referência, onde a malta desembocava para beber umas imperiais e onde o Sr. Sepúlveda, Fernando Pessoa sem génio, diária, comedida e rigorosamente se embebedava com vinho tinto.

Propondo-lhe um dia o dono da cervejaria o consumo de uma santola, andando de fundos baixos e não querendo dar parte de fraco, o Sr. Sepúlveda olhou para o bicho, pegou-lhe, simulou que se tinha picado e disse, alto e bom som, para quem o queria ouvir:

- Maldita lagosta, jamais comerei deste abominável crustáceo!

O “Balha-bem”, presente no local e circunstância, não só quis ouvir como quis, igualmente, por admiração total, ficar seguidor incondicional do Sr. Sepúlveda.

Por isso, na tarde seguinte, aproximando-se do balcão, simulou ter-se picado na santola e, certo de ter audiência, gritou:

- Maldita crovina, jamais comerei deste abominável constâncio!

Foi, para ele, a glória imediata. Para nós, motivo de conversa por muitos e bons anos.

Os tempos passaram, cada um foi à sua vida e, regressado há pouco tempo da guerra das colónias, vindo a Lisboa para uma entrevista para um possível emprego vejo, em pleno Rossio, vestido com um impecável fato branco e um vistoso "borsalino" na cabeça, o meu amigo “Balha-bem”.

- Então, que tens feito? Não sabia que estavas por Lisboa.

Foi mesmo um sorriso feliz que lhe vi no rosto.

-Não morreste na guerra, provocou!
-Como se pode ver, não. Parece não estares mal na vida.
- Vem ali beber uma cerveja. Pago eu, disse vitorioso.

Recompondo a simetria no mundo, podendo pagar agora o que eu sempre lhe pagara, lá me contou que viera para Lisboa dançar num clube nocturno. Mas aquilo era pouco para ele. Começou a perceber que o seu ar cigano não era indiferente a algumas estrangeiras que passavam pelo clube. Assim encetou um outro acto na sua vida:

- Agora sou puto.
- Puto??!!
- Sim, as gajas pagam-me para eu
… e largou uma bojarda das antigas.


Engasgado só me ocorreu perguntar se o negócio era bom.

- Vai dando. Foi a resposta.

Pagou as cervejas, sorriu e com o seu fato impecavelmente branco desapareceu da minha vida.



Publicado in “Rostos on line” – http://rostos.pt/

março 18, 2008

Memória 4 - ramal de évora



o comboio da minha terra corre
corre sem parar
latifúndios crescem fomes
latifúndios por lavrar

tanta terra tanta terra
passa o comboio a cantar

lindo comboio passeante
na campina a ondear
tanta terra tanta terra
e eu sem poder ficar

partido por ventos montes
montes quero observar
quero encher o coração
quero ter o que guardar

tanta terra tanta terra
ai os meus olhos no mar
e o pensamento em ti
ficada no soluçar
quanto mais assobiava
mais eu te via chorar
mais a terra desfilava
e mais maio para chegar

santa terra santa terra
vai o comboio a largar

este comboio só parou num dia de insurreição
houve greve no barreiro foi o povo para a estação
mas perde sempre este povo luta sem armas na mão

lá parte o comboio de novo
sempre comboio popular
leva rapazes pra guerra
outros que vão emigrar

tanta terra tanta terra
vai o comboio a chorar

verde e vermelho vestido
vem o comboio a chegar
traz o chico e o rosário
tornados do ultramar

tanta terra tanta terra
tenta o comboio recordar

já apitando na linha
pensa o comboio em partir
chegou leve do jerónimo
esse não conseguiu vir

pouca terra pouca terra
foi precisa pró cobrir

ai este comboio maluco que percorre o alentejo
dentro transporta desejos
fora ficam só saudades
meu comboio da meninice rompedor de uma cidade
onde a pacatez dormindo vê partir a mocidade
pra qualquer terra distante
onde viver e morrer será sempre como dantes

na minha terra o comboio
leva gente sem parar
é como a nau catrineta
sempre tem de que contar


março 15, 2008

A mão que lhe dá o voto





Que, por inúmeras e consensuais razões podemos dizer estar esta sociedade doente de paranóia galopante, é facto dificilmente indesmentível. Culpa das tendências neoliberais imperantes na governação, da discórdia entre pragmática e ética, da dilaceração entre o local e o global. Agora, o que é mais difícil de compreender é que este estado de coisas se tenha apoderado do nosso governo, transformando a sua indiscutível legitimidade num exercício de declarações alucinadas de quem vê monstros onde o normal ser humano observa a simples consequência de decisões, por vezes correctas nos princípios gerais, mas feridas de autoritarismo míope, nebulosas, fora de tempo, descontextualizadas e sem que se encontrem justificações para os métodos utilizados.

Refiro-me, como já se percebeu, à primeira ronda de declarações apaixonadas do nosso primeiro e do inefável ministro Silva de ver, por todo o lado, em tudo o que é contestação política de medidas políticas, a mão diabólica do partido Comunista. Na verdade pode dizer-se que é o medo que tenho do meu adversário que o faz tão grande e omnipresente a meus olhos.

E o temor antecipado da maioria poderá ser verdadeiro se o bom senso e equidade não se sobrepuserem ao presente e tão estranho espírito “socialista” desta maioria absoluta.

Não porque os comunistas, ou outra qualquer oposição, sejam, no momento, um perigo real. Aliás, a desorientação reinante, favorecida pela mais longa depressão económica dos últimos anos, reflecte-se, não só no Governo, como na ausência de outras perspectivas credíveis, venham de onde vierem. Não representa este estado de coisas apenas a incompetência de quem governa ou se opõe, mas também a deriva de uma realidade ultrapassante das possibilidades de decisões a nível nacional.

No entanto, outras decisões são do restrito domínio doméstico.

Debrucemo-nos, levemente, sobre a questão da avaliação de desempenho de professores.

Tenho a imodéstia de pensar que sei alguma coisa sobre este assunto, derivado de dezenas de anos de experiência em avaliações profissionais. É certo que as fiz sempre no âmbito de empresas privadas e que, se me fosse posto o problema de pensar um sistema de avaliação para professores ver-me-ia, sinceramente, muito atrapalhado.

A avaliação de desempenho comporta vários fins. Um deles é conseguir apreciar o comportamento profissional, em dado período de tempo, de uma determinada pessoa. Para tal é necessário a construção de critérios objectivos e mensuráveis, bem como da respectiva medida. Parâmetros que podem ser mensurados com objectividade são, por exemplo, a assiduidade e a pontualidade. Outros que se podem, mediante descritivos sintéticos e correctos, tornar mensuráveis serão a quantidade e qualidade de trabalho, as atitudes de colaboração/integração no corpo profissional e os vários procedimentos para com o meio envolvente. Outro fim é o de estabelecer uma base de discussão mútua, com vista ao aperfeiçoamento e correcção de erros ou desvios, entre o avaliado e os seus avaliadores. Finalmente, após o percurso avaliativo pode estabelecer-se parâmetros de prémios/compensações e necessidades de formação.

Quando pensamos em professores para serem avaliados confrontamo-nos de imediato com a realidade de uma importante parte das suas tarefas serem dificilmente mensuráveis. O professor transmite conhecimentos – que poderão ser de alguma forma medidos – mas também educa cidadãos. Ora esta parte tão importante do seu trabalho só se poderá verificar plenamente muitos anos depois da saída da escola dos seus alunos. Como é que se medirá isto? Deixaremos, por miopia escolarenga, desincentivar os professores de uma tão importante função que, por muito esforço que custe, não se repercutirá, minimamente, no resultado da sua avaliação?

E a equidade? Como se conseguirá que a avaliação de um professor, numa determinada escola, por determinado avaliador, seja comparável a outras avaliações na mesma escola ou em escola diferente, com avaliadores distintos e perspectivas desiguais sobre a interpretação de cada um dos parâmetros propostos? Está isto pensado e resolvido? Não me parece e assim, só se chega à confusão nunca à justiça equiparativa. O que se pede é um sistema em que seja possível afirmar que alguém classificado com Bom no Barreiro é equiparado a outro qualquer, com a mesma classificação, em qualquer outra escola do país.

È portanto a avaliação de desempenho um instrumento de trabalho muito útil para a evolução dos trabalhadores, quando efectuada com seriedade, compreendida e aceite por todas as partes. A boa-fé e a confiança são as duas pernas em que este exercício se estriba. Faltando alguma delas o resultado é catastrófico por destrutivo em termos de relacionamento entre as parte.

Estas simples normas de bom senso faltaram ao ministério da educação. A resposta foi-lhe dada na rua pela impressionante marcha da indignação que cem mil docentes protagonizaram, com toda a “irrelevância” que a ministra, em reportagens televisivas subsequentes, lhe consignou. Como era de esperar de tal personalidade, a um mau trabalho seguiu-se o autismo impenitente. A vida é assim. Há pessoas que dê lá por onde der, trazem no bandulho todas as certezas do mundo e, por mais que a realidade lhe trespasse os olhos, apenas vêem o que lhes interessa ver.

A ministra que tentou apresentar os professores à opinião pública como madraços e incapazes, num piscar de olhos malandro para os piores sentimentos da turba, viu-se, deste modo, perante uma afirmação de dignidade pessoal e profissional que ela não pode entender.

Por isso foi ainda, se possível, mais fechada e prepotente e cortou todas as pontes possíveis para a resolução do problema. Mas fez mais! Quando instada a responder sobre a possibilidade da sua demissão afirmou claramente: - “eu não me demito!”.

Como para bom entendedor meia palavra basta eu entendi, naquela declaração, muito mais que o que ela desejaria que eu entendesse. Vi, que perante a enormidade do disparate, centrando-se no seu único e exclusivo querer, desafiava o primeiro-ministro a demiti-la. Sim, que ela, mesmo contestada pela classe docente em bloco, não faria como o ministro da saúde o qual, cedendo a possíveis pressões, contrariado embora, apresentou a carta de demissão que, provavelmente, lhe fora pedida. Ela não o faria. Só sairia com decisão comunicada pelo primeiro-ministro. A bola foi-lhe passada tão lepidamente como isto. Deve ser este o comportamento designado de solidariedade partidária e governativa.

O primeiro-ministro, tendo em conta os acontecimentos anteriores e estes, estaria completamente bloqueado para tomar qualquer decisão sobre os assuntos da educação. Estava preso por ter e não ter cão. No limite apenas lhe cabia, mesmo se a contragosto, apoiar a ministra. Ela aproveitou-se, completamente, deste estado de coisas.

No entanto, vindas de um PS ligado ou habitualmente consensual com as políticas do Governo, vozes credenciadas apareceram, nas ágoras televisivas, introduzindo um discurso morigerador apontando aberturas várias. E mesmo membros da equipa ministerial vieram a terreiro, na sequência, introduzir a “luz ao fundo do túnel”.

Quando, legitimamente, pensávamos que a lição de unidade e conquista de dignidade dos docentes, tinha sido apreendida e levada em conta eis senão, que a ministra vem de novo à televisão reafirmar as posições anteriores, desmentindo as aberturas anunciadas pelo seu secretário de estado, desdizendo as conversações mantidas com os sindicatos, reafirmando, do alto do seu Olimpo, “tudo ficará na mesma”.

Como bem se pode compreender não sendo os cem mil professores cem mil comunistas, muitos seriam votos contados do partido que lhe deu lugar na governação. Assim, diga ela o que disser, ainda que por questões tácticas não convenha ao nosso primeiro apeá-la do trono, a certeza com que fico é que só temos ministra a curto prazo. Porque, em 2009, há eleições e quem quer ser eleito não pode morder a mão que lhe dá o voto.




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março 13, 2008

tema da solidão XI




só se parte inteiramente
quem foi que disse
que partir são bocados de cidade

quando se parte
é com o corpo todo que se vai
nega-se o sol
o sonho é demais

porquê então partir
senão para preparar uma chegada
na incerteza na dor de coração
por não saber se há retorno ou não

daqui só se parte inteiramente

não é possível ficar

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março 10, 2008

Memórias 3 - EPITÁFIO PARA UMA RESSURREIÇÃO DE DOMINGO

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Naqueles anos,sob a influência do existencialismo , escrevia assim:



Por acaso, hoje, foi domingo. Podia ter sido um outro dia, mas não foi. O domingo amanheceu silencioso, parece-me que até já isso e hábito. Como nada tinha para fazer, deixei-me estar na cama até me doer o corpo.

Gosto de ficar na quentura mole do regresso do sono, a sonhar quase na realidade, o mundo que me apetece, nas coisas que de antemão sei que não possuirei, porque são passado e o homem vive no presente.
Depois, quase sem dar por isso, chegara a noite. Com ela veio solidão a apertar-me dentro, nem sequer me deixando o orgulho de sentir-me só. Tive a tristeza a construir-me a noite, a intranquilizar-me, e a saturar-me de estar farto.

Olho para mim e pergunto o que faço e porque o faço. Não distingo objectivos. E tudo tão solitariamente material.

Durante os dias normais, o turbilhonar daquilo a que chamemos quotidiano faz-me divergir os pensamentos. Nestes dias, porém, o silêncio entra em mim duma maneira dolorosamente esquiva e as ausências tornam-se maiores. Tento enganar-me, dizendo que sou superior a tudo quanto possa acontecer-me. Sei que não o sou, mas terei que sê-lo.

Da soleira duma porta, iluminada pela luz pobre dum bairro de lata resmungava uma voz irada de mulher:

-Anda meu desgraçado, vai para a bebedeira. Porque terei eu casado com esta porcaria de homem? Deixa estar que, quando não tiver comer para os teus filhos, te ponho uma armadura tão grande que não entras na rua Augusta...

Cá para comigo monologuei que mais dia, menos dia, o homem estaria mesmo "empalitado", se é que não o estava já. Talvez um dia eles se tivessem amado, tivessem prometido mundos um ao outro. A vida levou-os aquilo. A miséria matou o amor e os estômagos vazios, pesam mais que uma alma cheia de ilusões.

Vi, como há pouco, aquele casal novo que se ria da chuva. As pessoas voltavam-se quando passavam, encolhiam os ombros ou sorriam. Para mim, no meio daquela multidão impessoal, eles eram uma promessa de frescura na aridez do meu deserto interior.

Este acontecimento deu-me para pensar. Do meu pessimismo veio-me, para eles, que tão confiados iam, uma pena quase eterna. Um dia acordariam do seu sonho de deuses. Ao olharem os seus andrajos humanos, iriam sentir-se bem mais pobres, infinitamente sofredores e desesperados.

Nós somos assim. A nossa natureza sociável, porque o é sem dúvida nenhuma, não nos permite viver muito tempo em contacto com alguém, sem que os mais variados choques psicológicos aconteçam. São sempre as ninharias que mais contam para criar desentendimentos irreparáveis. Um grande problema predispõe o homem para a grandeza. Abre-lhe a alma. Torna-o superior. A razão inversa acontece com os pequenos problemas. Isto leva-me a concluir, talvez precipitadamente, que o homem é um ser de extremos na luta por um terreno médio, que pessoalmente não posso conceber. Sinto essa posição como uma fuga à responsabilidade. Devemos ter o orgulho de enfrentar os nossos actos, de suportar-lhes as consequências. Somos nós quem vamos construindo o futuro. A vida não é como dizem algumas filosofias, uma linha recta, traçada quando nascemos, ou antes e acaba na morte ou mesmo depois. Essa linha do destino, a existir, tornaria estúpida qualquer tentativa de libertação qualquer tomada de posição, qualquer progresso.

Um acto torna-nos responsável, não só por ele, mas pelos que o seguem e, em consequência do anterior, aparecerão. Cada um deles dar-nos-á um número de caminhos diversos. Nos escolheremos aquele que o momento, a hereditariedade, as hormonas, o tempo, isto é, nós e sobretudo nós quisermos. Uma constante opção é o acto vida; acto principal duma carreira infindável de actos menores.

Divagando cheguei a casa. A minha casa é um quarto com uma janela pequena, que dá para uma miserável imitação de quintal. Moro ali agoniado e preso pela liberdade de um dos meus actos. Tudo o que lá vive dentro me agarra e tem um sentido tão próprio, que não sei se sou eu quem dá vida aos objectos, se eles a mim.

Na minha terra era quase feliz. A despreocupação era o meu lema e da vida ia retirando os pequenos prazeres, que nos fazem duvidar das pessoas que choram. Um dia, alguém, ou um sorriso, me fez pensar que devia ser mais no mundo. Esqueci-me de tudo e lancei-me na cidade grande, todo esperança, todo vontade, até que esse sorriso me faltou. Tenho sempre comigo o "nosso" último livro. "0 Mágico" de Somerset Maugham. A dedicatória, por irónica, faz-me sorrir. Não é que tenha sido ou seja essa a sua função, mas sim porque um acto tornou mentira as palavras que se disseram e o que entre nós se passou. Aquele livro encerra algumas delas e às vezes sorrir e uma forma diferente de chorar...

Lá fora deixara uma multidão embaraçada em impermeáveis e guarda-chuvas, a maldizer o tempo. Felizes ou infelizes? Criaturas que nada mais tinham, pelo menos aparentemente, a preocupá-las, que a presumível gripe.

Bah! Gente mesquinha - dizia-me num esforço de auto-consolação. A verdade é que me sentia bem pequeno e desamparado ao pé dessa gente vulgar.

Vulgar!!! É um termo com outro qualquer, a que nós demos um significado e que usamos para classificar o inclassificável. Acresce ainda, que nesta época em que toda a gente luta pela invulgaridade, o invulgar é mesmo ser-se beatificamente vulgar.


Como um relâmpago surgiu-me a ideia do que, em minha casa, faria numa noite destas. Por alguns momentos, ai de mim, saí da prisão conceitual da gravata domingueira a vi-me livre na terra dos meus sonhos.

Chovia! Por lá, também o tempo ia chorão - com tanta experiência atómica estragam o tempo, dizia a gente velha do meu sítio. Numa noite assim, é quase certo que ficaria em casa a ler, ouvindo a dança da chuva no tecto de telha-vã. Esmagaria o nariz nos vidros embaciados, para espreitar os vultos fugitivos, os guardas chuvas negros a brilharem sob a luz molhada das lâmpadas sonolentas. Quando já fosse tarde demais, talvez saísse sozinho, à procura nas ruas escorregadias, de um motivo para me andar a molhar-me, a uma hora tão tardia. Não faria nada de extraordinário, é certo, mas que são actos extraordinários mais que meros acasos? E a vida, que é mais que um desses acontecimentos.

Já não me sentia bem no quarto. Aliás, nunca me sinto completamente bem em algum lugar. Sinto que onde não estou, é que devia estar. Por isso, nunca estou no sítio certo.

Saí, talvez a procura de mim nas ruas escuras, nas ruas baças, à hora em que se vende nas ruas, amor de deve-haver, de tempo contado, de cheiro enjoativo a suor, momento de fêmeas e machos no esquecimento fácil das contas da vida.

O meu problema e de princípio e fim. Porque nasci? Para que nasci? É culpa minha não saber estas respostas? Nunca me deram nada a que me agarrasse para viver. Em cada momento me vejo a inventar amarras, que por fracas ou coincidência desastrosas soçobram. E fico outra vez à deriva. È certo que sempre fui capaz de inventar uma outra finalidade mais ou menos longa. A imaginação é que não dura sempre. Quantas vezes mais serei capaz de me inventar no universo? Terei eu razão nos meus problemas, ou as pessoas que sub-vivem sem preocupações de finalidade?

Passou por mim, a cantar, um bêbado. Vai aos bordos. Cada passo e um compêndio na arte do desequilíbrio. Será isso uma solução? Acho que não. A alienação, ainda que parcial, nunca o será, porque as soluções exigem coragem e vontade. As fugas não! No entanto estou convencido que nem tudo é ruim. A capacidade do ser-se feliz existe algures e em alguém. Só quem, como eu, pede tudo de tudo, se encontrara sem nada. Quem esbanja cedo, tarde lhe falta. Mas que posso eu fazer? O mundo e um campo de luta onde eu terei que impor a minha certeza, ou ser esmagado pela certeza dos outros. Sei que não passo de um indivíduo entre milhões. Ao mesmo tempo sou mais do que isso, porque sou eu e como eu, sou único. O que acontece comigo, acontece com os outros milhões. Uns duma maneira outros doutra, todos lutamos por uma meta mais longa. A luta humana acontece onde esteja um homem e uma mulher. Apesar disso, ninguém é feliz, ninguém pode ao menos dizer que se está a realizar. A felicidade só existe em escassos momentos. Mesmo assim, não passa de uma armadilha, porque após ela, vem o desengano, a dor dos espíritos e dos corpos e os homens ficam, cada vez mais, sozinhos. Quem sabe mesmo se é isto que justifica ainda o acto de viver.

A abstracção dos meus passos levou-me até um bar escuso. Sentei-me. Agarrei em papel e estas palavras começaram a surgir-me. Dentro em pouco irei parar. Já disse muito de nada e não vou perder mais tempo. Afinal nós somos uns mentirosos natos. Quanto do que eu disse não passa de uma representação teatral de mim, duma incapacidade, mais ou menos momentânea, para fazer qualquer coisa? Se calhar, amanhã, à luz do dia, as minhas opiniões serão outras. Quem é que se pode perceber?

Nas minhas mãos o colorido velho do “brandy” desfazia-se em vómitos de luz. Levantei-o aos olhos e engoli nele os restos do meu orgulho.

Foi como se um escarro me tivesse deslizado pela garganta…


Guiné, Teixeira Pinto 25/6/67

março 05, 2008

tema da solidão X

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minha pátria é este sol
esta música um barco de vento
a febre das rosas ou
maio que se abre em novas cores

minha pátria é um país
de estranheza
circundado por ternura e pardais
minha pátria é esta terra
uma hera recolhida
em horas vesperais

é o branco silêncio a luz intensa
o acordar o sonho a sombra imensa
que torna e roda e que decai
em ciclo duradoiro
onde o sangue pulsa
plantando vinhais de solidão

poema terra
sentido sem razão
sol de maio meu tempo sustido
entre o momento de partir e de estar

o tempo gota a gota cai
e ninguém vê
que o tempo é pátria e terra avara

é por isso que o meu canto pára

fevereiro 27, 2008

Downshifters

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John, rico banqueiro americano, passava, há muitos anos, férias anuais na Ilha de Maui, no arquipélago do Havai. No decorrer desses anos conheceu um pescador, de nome Mauna, de quem se foi tornando amigo. Conversavam descontraidamente ao Sol, deitados nas redes suspensas entre palmeiras vizinhas, discorrendo sobre a vida, as mulheres, as bebidas e outros prazeres que a amena temperatura e o relaxamento da boa vida proporcionavam.

Depois de muitas férias passadas, na confiança adquirida nos aprazíveis conciliábulos, um dia, cuidadosamente, John disse a Mauna:

- Meu caro amigo sabe como o estimo, o prazer que tenho em encontrá-lo aqui todos os anos e como me é agradável passarmos este tempo maravilhoso bebendo e preguiçando no calor da praia. Deixe-me no entanto, e não se ofenda com isto, dizer-lhe da minha estranheza pela falta de ambição que revela. Tenho reparado que o amigo, consoante a sorte das marés, leva o seu barquinho para o mar, deita as redes, regressa à praia e, passadas umas horas, torna ao mar para recolher a rede. Entrega o pescado na lota e regressa à praia.

- É verdade, returque Mauna, é essa a minha vida.

- Pois é por isso que penso haver em si uma notória falta de ambição.

- É possível, mas porque é que diz isso?

- Bem, parece-me que não utiliza ao máximo as suas potencialidades bem como as deste local. Com o tempo que lhe sobra dessa única ocupação diária bem podia comprar um equipamento de mergulho e ir, entretanto, caçar umas lagostas para aumentar o seu rendimento.

- Verdade que sim, e o que faria com o rendimento adicional?

-Ora, homem, aforrava e quando fosse suficiente comprava um novo barco. Entregava-o ao seu filho mais velho e, produtos reunidos, você ficaria bastante mais rico.

- Tem toda a razão… e depois de ficar mais rico o que faria com esse dinheiro?

- Comprava outro barco, entregava-o ao filho seguinte e triplicaria o seu rendimento. O capital acumulado, os juros e um empréstimo bancário, possibilitar-lhe-iam adquirir uma traineira de pesca longínqua.

- Está bem visto, sim senhor. E depois?

- Com um pouco de sorte iria aumentando a frota e poderia vir a ser um potentado das pescas e quem sabe se um armador de nível internacional.

- Tem toda a razão o meu amigo. Quando fosse um armador de nível internacional, faria o quê?

- Ora então, poderia gozar um rico mês de férias, passá-lo sem nenhuma preocupação numa bela ilha como esta, com o único cuidado de tirar o melhor aproveitamento do seu tempo de lazer e sol.

- O amigo não deixa de ter razão mas, se não reparou chamo-lhe a atenção para que, sem tantos trabalhos, ser precisamente isso o que faço, todos os dias, desde há mais de cinquenta anos.

A história não nos diz qual a resposta do banqueiro, nem tal é, em absoluto, necessário para os nossos propósitos. O que fica claro é a existência de dois diferentes modos de encarar o sucesso e a vida, de duas filosofias radicalmente opostas, degladiando-se no palco mundial.


A sociedade moderna impõe ritmos de mudança rápidos e muitas vezes espúrios. As palavras mágicas actuais são acumulação e inovação, tendo esta última perdido o sentido inicial de alterações essenciais para a melhoria de objectos e utilizações e representando apenas a pele com que as empresas, envolvidas numa luta de morte pelo domínio do mercado e pela maximização do lucro, tentam diferenciar o mesmo produto com roupagem diversa, através de uma trama de mentiras publicitárias visando arregimentar o maior número de consumidores, independentemente da necessidade do produto ou da real capacidade de satisfação do utilizador. No entanto isto é apenas a superfície da torrente. É que para obter o chamado sucesso torna-se necessário alterar os valores de convivência social. Deste modo o Ser cede lugar ao Ter e esta inversão modifica profundamente os comportamentos e relacionamentos sociais.

A inveja, a frustração, o egoísmo tornam-se os valores fundamentais da sociedade. Os meios de comunicação social vendem, “ad nauseam”, a imagem de gente bem-sucedida, vidas paradisíacas, tudo apenas pela obtenção dos produtos Y, da viatura Z, da casa Alfa. As pessoas, muito lá no fundo, acreditam e constroem a esperança em espuma de vento. Mas como todos sabemos nem as promessas estão ao colher da mão, nem as minorias que as obtém, tiram delas a satisfação esperada e prometida. No entanto, todos os dias, toda a gente se atola um pouco mais na dívida, no fossar em trabalhos excessivos e desumanizados que levam ao total domínio da pessoa, a qual, sem tempo para reflectir na sua condição, vai perdendo as referências humanas e conviviais, desinteressa-se da coisa pública, vê em cada vizinho um adversário que urge ultrapassar com mais dez centímetros de comprimento de carro, mais cinco metros de jardim na vivenda, mais umas férias, cem quilómetros mais longe, escondendo o empenhamento financeiro contraído e ficando na dependência absoluta de quem gere os créditos, diminuindo de forma absoluta a sua liberdade de escolha.

Contra este estado de coisas, algumas minorias esclarecidas, desfrutando de uma segurança económica que lhe permite fazer estas opções, decidiram que ter mais tempo livre, mesmo que tal signifique uma diminuição de disponibilidades monetárias, é preferível a continuar na corrida insana de, através da posse, ostentar um estatuto de supremacia sobre os outros, que a nada de útil ou positivo conduz São estas pessoas, raras por enquanto, que são denominadas “downshifters”.

A sua atitude é profundamente racional e visa dar respostas globais à degradação das relações sociais e a fenómenos mais vastos no campo ambiental. No seu limite tenderiam a destruir completamente, por contenção, o sistema maximizador capitalista, a tornar efectiva e durável a preservação ecológica e a avançar para uma redistribuição mais equitativa dos recursos existentes.


Podemos considerar que é utópica e franciscana esta forma de vida, que nem todos os que a iniciam conseguem mantê-la e que múltiplos desvios podem sempre reconduzi-los à lógica dominante. Mas, também não podemos deixar de pensar que muitos movimentos alteradores da face do mundo começaram de maneira quase apagada e foram, muitas vezes, considerados caricatos pelos modos dominantes. A lógica profunda que leva a trocar maior prosperidade económica por mais tempo disponível é uma coerência intrínseca de defesa e valorização da vida. Só por isso deverá ser tida na devida conta.

Como penso que o Mauna da nossa história conseguiu demonstrar, deveremos distinguir claramente entre desejos e necessidades, entre o fundamental e o acessório e fazer as escolhas correctas. Até porque, como dizia S. Francisco de Assis, não é o homem que possui os objectos, mas sim os objectos que possuem o homem.


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Publicado in “Rostos on line” – http://rostos.pt








fevereiro 24, 2008

O Alentejo

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Este texto, de autor desconhecido, foi-me enviado pelo meu amigo Jorge Matos. Com a devida vénia ao seu autor, aproveito para o inserir neste blogue.
Palavra mágica que começa no Além e termina no Tejo, o rio da portugalidade. O rio que divide e une Portugal e que à semelhança do Homem Português, fugiu de Espanha à procura do mar.
**O Alentejo molda o carácter de um homem. A solidão e a quietude da planície dão-lhe a espiritualidade, a tranquilidade e a paciência do monge; as amplitudes térmicas e a agressividade da charneca dão-lhe a resistência física, a rusticidade, a coragem e o temperamento do guerreiro. Não é alentejano quem quer. Ser alentejano não é um dote, é um dom. Não se nasce alentejano, é-se alentejano.
**Portugal nasceu no Norte mas foi no Alentejo que se fez Homem. Guimarães é o berço da Nacionalidade, Évora é o berço do Império Português. Não foi por acaso que D. João II se teve de refugiar em Évora para descobrir a Índia. No meio das montanhas e das serras um homem tem as vistas curtas; só no coração do Alentejo, um homem consegue ver ao longe.
**Mas foi preciso Bartolomeu Dias regressar ao reino depois de dobrar o Cabo das Tormentas, sem conseguir chegar à Índia para D. João II perceber que só o costado de um alentejano conseguia suportar com o peso de um empreendimento daquele vulto. Aquilo que para o homem comum fica muito longe, para um alentejano fica já ali. Para um alentejano não há longe, nem distância porque só um alentejano percebe intuitivamente que a vida não é uma corrida de velocidade, mas uma corrida de resistência onde a tartaruga leva sempre a melhor sobre a lebre.
**Foi, por esta razão, que D. Manuel decidiu entregar a chefia da armada decisiva a Vasco da Gama. Mais de dois anos no mar... E, quando regressou, ao perguntar-lhe se a Índia era longe, Vasco da Gama respondeu: «Não, é já ali.». O fim do mundo, afinal, ficava ao virar da esquina.
**Para um alentejano, o caminho faz-se caminhando e só é longe o sítio onde não se chega sem parar de andar. E Vasco da Gama limitou-se a continuar a andar onde Bartolomeu Dias tinha parado. O problema de Portugal é precisamente este: muitos Bartolomeu Dias e poucos Vasco da Gama. Demasiada gente que não consegue terminar o que começa, que desiste quando a glória está perto e o mais difícil já foi feito. Ou seja, muitos portugueses e poucos alentejanos.
**D. Nuno Álvares Pereira, aliás, já tinha percebido isso. Caso contrário, não teria partido tão confiante para Aljubarrota. D. Nuno sabia bem que uma batalha não se decide pela quantidade mas pela qualidade dos combatentes. É certo que o Rei de Castela contava com um poderoso exército composto por espanhóis e portugueses, mas o Mestre de Avis tinha a vantagem de contar com meia-dúzia de alentejanos. Não se estranha, assim, a resposta de D. Nuno aos seus irmãos, quando o tentaram convencer a mudar de campo com o argumento da desproporção numérica: «Vocês são muitos? O que é que isso interessa se os alentejanos estão do nosso lado?»
**Mas os alentejanos não servem só as grandes causas, nem servem só para as grandes guerras. Não há como um alentejano para desfrutar plenamente dos mais simples prazeres da vida. Por isso, se diz que Deus fez a mulher para ser a companheira do homem. Mas, depois, teve de fazer os alentejanos para que as mulheres também tivessem algum prazer. Na cama e na mesa, um alentejano nunca tem pressa. Daí a resposta de Eva a Adão quando este, intrigado, lhe perguntou o que é que o alentejano tinha que ele não tinha:«Tem tempo e tu tens pressa.» Quem anda sempre a correr, não chega a lado nenhum. E muito menos ao coração de uma mulher. Andar a correr é um problema que os alentejanos, graças a Deus, não têm. Até porque os alentejanos e o Alentejo foram feitos ao sétimo dia, precisamente o dia que Deus tirou para descansar.
**E até nas anedotas, os alentejanos revelam a sua superioridade humana e intelectual. Os brancos contam anedotas dos pretos, os brasileiros dos portugueses, os franceses dos argelinos... só os alentejanos contam e inventam anedotas sobre si próprios. E divertem-se imenso, ao mesmo tempo que servem de espelho a quem as ouve.
**Mas para que uma pessoa se ria de si própria não basta ser ridícula porque ridículos todos somos. É necessário ter sentido de humor. Só que isso é um extra só disponível nos seres humanos topo de gama.
**Não se confunda, no entanto, sentido de humor com alarvice. O sentido de humor é um dom da inteligência; a alarvice é o tique da gente bronca e mesquinha. Enquanto o alarve se diverte com as desgraças alheias, quem tem sentido de humor ri-se de si próprio. Não há maior honra do que ser objecto de uma boa gargalhada. O sentido de humor humaniza as pessoas, enquanto a alarvice diminui-as. Se Hitler e Estaline se rissem de si próprios, nunca teriam sido as bestas que foram.
**E as anedotas alentejanas são autênticas pérolas de humor: curtas, incisivas, inteligentes e desconcertantes, revelando um sentido de observação, um sentido crítico e um poder de síntese notáveis. **Não resisto a contar a minha anedota preferida. Num dia em que chovia muito, o revisor do comboio entrou numa carruagem onde só havia um passageiro. Por sinal, um alentejano que estava todo molhado, em virtude de estar sentado num lugar junto a uma janela aberta. «Ó amigo, por que é que não fecha a janela?», perguntou-lhe o revisor.
* *«Isso queria eu, mas a janela está estragada.», respondeu o alentejano.«Então por que é que não troca de lugar?» «Eu trocar, trocava... mas com quem?»
**Como bom alentejano que me prezo de ser, deixei o melhor para o fim. O Alentejo, como todos sabemos, é o único sítio do mundo onde não é castigouma pessoa ficar a pão e água. Água é aquilo por que qualquer alentejano anseia.E o pão... Mas há melhor iguaria do que o pão alentejano? O pão alentejano come-se com tudo e com nada. É aperitivo, refeição e sobremesa. E é o único pão do mundo que não tem pressa de ser comido. É tão bom no primeiro dia como no dia seguinte ou no fim da semana. Só quem come o pão alentejano está habilitado para entender o mistério da fé. Comê-lo faz-nos subir ao Céu!
**É por tudo isto que, sempre que passeio pela charneca numa noite quente de verão ou sinto no rosto o frio cortante das manhãs de Inverno, dou graças a Deus por ser alentejano. Que maior bênção poderia um homem almejar? *

fevereiro 20, 2008

Memórias - 2 - Carta à Marquesa

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Em fins dos anos sessenta, princípios de setenta, havia, no saudoso Diário de Lisboa, um suplemento chamado Mosca, dirigido pelo Stau Monteiro. A carta que abaixo transcrevo, foi escrita para esse suplemento, mas, por obra e graça da censura, não chegou a ser publicada. Esclarecendo a situação. Havia ao tempo, nos salões de uma marquesa de que já não me recordo o nome, nem o título, um cenáculo de poesia onde pontificava um poetastro de seu nome Cravina. Seria o que de mais conservador se encontraria na nossa sociedade, arvorando-se, no entanto, no Parnaso da poesia portuguesa. Era a chacota de quantos pretendiam que a poesia fosse mais que um poeirento molde de sentimentalidades desfasadas e que apenas servia para encobrir a luta, que em todos os meios, se fortalecia contra a ditadura. A resposta que eu tentei dar e não consegui é a que agora se apresenta. Mais feliz foi Ary dos Santos que, fazendo-se convidado para um serão, os mimoseou, para grande escândalo, com o seu poema S.A.R.L..



CENHOURA MARQUESA

despois de muito pençar arresolvime a escreverlhe esta é que li nu jurnal ca ecelentissima marquesa tinha um çunaculo de poisia onde cum cenhor que se cha­ma caravina deziam versinhos a modos que damor cumo acontesse eu gustar muitissemo de dezer déçemas cria pudir à ecelentissima marquesa auturisassão para botar uma das minhas nam sei sa cenhoura sabe queucá nam tenho muita instrussão andei até a turçêra classe purque despois tive quir trabalhar nu campo do fêtor da urtariça pur cu mê pai dezia quem nam trabuca nam manduca i o cenhour pirior um santo ome que deus u tenha em sê mrecido descanço tambem dezia cu rêno dos ceus era dos pobrezinhos i cuando era de verão i eu andava nas açêfas davame cá uma pena ver u santo ome a çuar coumu uma besta aperdoe voça ecelencia este mo­do de mal acomparar caté a alma se marrepelava i ele que tão amigo era dos po­bres caté me dezia sempre à joao quem me dera ter a tua vida i eu ficava satisfeto pur nam ter que massentar no terrasso dupaçal á ora da sesta a ler o bruviario i dezia ele ainda cagente nam devia dar óvidos aos maldezentes que deziam cagente sermos todos iguais i que quem nascia chaparro nunca daria laranjas i que deviamos de arrespeitar as marquesas e os çunáculos de dezer decemas e sunetos damor e nam deviamos de gustar daquelas poisias que se fazem a dezer que os omes teem fome que teem os mesmos deretos i que cantam baladas i dizem ca instrução deve ser pra toudos ainda bem que á marquesas que sabem o que os santos piriores ensinam i fazem çunáculos i vendo bem as coisas é melhor eu nam dezer os meus versos purque secalhar a marquesa nam gustava i era capaz
de pençar queu estava a guzar i longe de mim guzar uma marquesa purque
cá inté nem ouve revulussao francesa e os fidalgos sao uma coisa muito bonita em que nam devemos mexer i assim acaba e sassina o seu qriado

fevereiro 18, 2008

tema da solidão IX

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por vezes escrevo
como quem luta
outras
como quem disfruta
do modo
da conduta

o importante é agarrar
a frase o lento murmurar
por dentro da palavra

o importante é descobrir
o senso que oculta

porque conhecer é desconhecer inicialmente
o resto é a semente
com que se emprenha o futuro

às vezes a palavra tem um muro
onde se esconde deusa refractária

contra a palavra invisto
nesse tempo
a palavra é um silêncio
que se recusa
e contra mim atenta

outras vezes desliza
é fio de água
ribeiro a correr nos roseirais
onde os peixes passam
átomos originais

assim a palavra se revela
se obstina ou se rebela
criando esta tensão
que me percorre
no silêncio ou no grito
em que se morre

palavra cujo império é a palavra

edifício construído sobre o nada
que é o ar a sílaba modulada

assim entendo o meu campo
a minha lavra
como lavrador me angustio
se o tempo não convém
à sementeira

mas sempre no inverno
ao som do frio
no meio da solidão onde me ostento
ponho as minhas palavras
na fogueira

fevereiro 11, 2008

Matar o rei

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Andava completamente enlevado nas minhas emocionadas relações com a República, quando, um pouco de todo o lado, charangas anunciam o centésimo aniversário da morte do rei Carlos. Foi um vê se te avias de notícias, artigos, pagelas, livros, homenagens, remoques e condenações. A República ficou perturbada, tornou-se enjoada e esquiva e o fulgor do nosso relacionamento viu-se seriamente ameaçado.

Não gostei nem um bocadinho que viessem, deste modo, perturbar o meu embevecimento.

Então eu que sou, como o outro embora diferentemente, socialista, republicano e laico ia deixar-me lesar pelos anseios cediços de uns não sei quantos saudosos do fausto cortesão, pondo em causa o meu bem quisto regime pelo preço de algumas acusações sobre um possível pecado original e sangrento na sua fundação?

Para meu escarmento socorri-me do meu amigo Belegário, alter-ego necessário em dificultosos momentos, de modo a que, no espelho lúcido da sua dialéctica, reflectisse as resposta imprescindíveis ao meu esclarecimento e consequente paz de espírito.


- Sabes bem que sou contra a pena de morte. Não há local de reunião contra a nefanda onde eu não vá, não há abaixo-assinado que não assine, nem manifestação em que a minha voz não espraie a total indignação por tão abominável forma de (in)justiça…

- Já te conheço a conversa, atalhou. A seguir vais dizer-me que, por outro lado…

- Não sejas palerma e escuta-me. Esta questão da morte do Carlos de Bragança começa a agastar-me. Mesmo sendo contrário à pena de morte não consigo ficar indiferente à forma com estão a tratar o regicídio. Não pode ser olhado apenas como caso moral aquilo que é notoriamente derivado do foro político. Se os matadores foram criminosos, heróis ou qualquer outra coisa não deixa de ser importante, mas o que mais interessa é conhecer as razões que levaram a tais acontecimentos, bem como as suas consequências.

- Ora, está claro, afirmou o Belegário, quem mata é sem dúvida assassino. Quem mata o rei é ainda pior porque pretende, com essa morte, abater o Estado.

- E as circunstâncias dos acontecimentos, não valem nada? É ou não verdade que o Rei criou e apoiava a ditadura do João Franco? É ou não verdade que tinha assinado o decreto de deportação das chefias republicanas para Timor? E o que era isso senão condenar à morte, irrevogável e morosa, toda essa gente?

- Isso, meu amigo, seria um acto em potência. Poderia acontecer ou não. O regicídio foi uma calamidade verificada e gritante contra um rei legítimo, ainda por cima sábio.

- Não sou indiferente às qualidades humanas do rei. Reconheço-lhe o talento pictórico bem como a competência científica nas ciências marítimas. Mas uma coisa é o homem, outra bem diferente é o estadista e a sua política. Aquilo que os regicidas atacaram foi o estadista…

- Pois…pois, mas quem morreu e completamente foi o homem.

-É verdade que sim, mas não morreu sozinho. O Buiça e o Costa também morreram e ao contrário do rei sabiam que iriam morrer. Não podemos ser tão ligeiros a condenar e a julgar aqueles que por razões poderosas cometem actos que transcendem o comummente aceite. Alguém que põe em jogo a sua vida para atingir os seus ideais pode estar errado, mas merece que os seus actos e juízos sejam analisados à luz dos contextos que os emolduram.

Foi aqui que o Belegário perdeu o pio. Por muito que o não queira lembrar sabe que os regicidas não poderiam ignorar que dificilmente sobreviveriam ao atentado. Saldariam a conta da morte do rei com as suas mortes. Era troca por troca, pagando o preço máximo. Não regatearam os custos O heroísmo e a execração convivem paredes meias.

A simpatia que a pessoa de Carlos de Bragança poderia suscitar foi ultrapassada pelo peso dos actos políticos e económicos lesivos do País e das ideologias igualitárias e progressistas que campeavam pelo mundo. À luz da conjuntura e dos seus actos é natural que a sua pessoa fosse vista como um obstáculo ao avanço das mudanças, que se sabiam necessárias, para a continuidade do percurso histórico do País. Como obstáculo que era, teria de ser removido.

Pessoalmente estou convencido que mesmo sem o atentado o advento da República era apenas uma questão de tempo. Desde o principio que o reinado de D. Carlos foi ferido, pelos seus amigos ingleses, com o Ultimato. A monarquia, por débil, não conseguiu evitar a humilhação sentida pelos portugueses. A coroa decrépita, mais caduca ainda se tornou. Não passava do fantasma envilecido de si mesma. Já não representava as forças vivas da economia e do pensamento. No entanto, as suas rendas, mesmo rasgadas e amarelecidas, ainda chocavam com a plena misérias das classes populares e com o poder emergente, denegado pela aristocracia, das classes burguesas. Como resultado as sociedades secretas proliferaram e introduziram-se nos interstício do poder, minando-o e destroçando-o aos poucos.

Por tudo isto, se a morte de um homem me choca pelo que tem de definitivo, recuso-me a condenar os executores e a engrandecer a vítima, esquecendo os seus papéis como agentes históricos. Muito menos quero fazer coro com esses passadistas impenitentes que gostariam de voltar atrás no tempo para restabelecer a monarquia. Tal veleidade resulta, para mim, impensável. Não concebo que alguém julgue que, por circunstâncias de nascimento, adquire mais direitos do que qualquer outra pessoa assim sendo até aos fins dos séculos, transitando tais direitos de geração em geração e mantendo-se, como gostam de dizer, “cada macaco no seu galho”. Que se pendurem pelos braços na árvore da evolução e lá se deixem ficar, quedos e velhos, é escolha que lhes cabe e fiquem muito felizes com ela. Mas não queiram ressuscitar o que a História sepultou. Os que pensam como eu, continuarão a lutar por um mundo de iguais em direitos, em que a única diferença provenha da natural distinção entre uma individualidade e outra, sem que isso produza cartilha de privilégios desiguais.

Acabe assim para sempre o domínio dos braganças e quejandos. Ponto final, assunto encerrado.

-Encerrado o tanas! Replicou o Belegário. Nada na sociedade está terminado para sempre. As coisas vão e vem. Se não como réplicas completas, sempre como actualizações. Quer tu queiras quer não queiras, por esclarecimento, reacção ou por nada disto, há pessoas que porão em causa o regime em que vivemos e quererão voltar à antiga monarquia. E têm o seu direito... mas o que agora me interessa é saber se o caso fosse contigo matavas o rei ou não?

Pesei os prós e os contras. Pus na balança as razões e os princípios. Desejando intrinsecamente a instauração da República, ansiando a mudança, odiando a ideologia dos aristocratas, posso dizer-te que de modo algum mataria o rei. Preferia que a República sofresse atrasos mas que viesse pelo seu pé. Esta é a minha escolha pessoal, não obriga ninguém a partilhá-la, mas também não permite que sob ela se acuse gratuitamente quem tomou a difícil decisão de, matando-se, matar o rei.


Publicado in “Rostos on line” – http://rostos.pt

fevereiro 09, 2008

tema da solidão VIII

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resumo o movimento
um dedo um passo um contratempo
o rio o sono a aventura
um tempo
solitário e abismado

um plano longo aborrecido
onde a ternura
resiste em eflúvios perfumados
nas rosas do jardim
dos teus sentidos

por dentro da escrita
sabe-se o poema
unidade dispersa iluminada
pela mágica cadência de fonemas
que fora dela
não querem dizer nada

construo o movimento

o universo é inventado
um pouco
nos meus versos
e deles faço sangue
ou lume ou ferida

mas caio desta certeza
e o poema
por mais belo que seja
não compensa
um só minuto vivo
nesta vida

fevereiro 05, 2008

Memórias 1 - À espera de Godot

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(Publicado em "Democracia do Sul" 1969)


Fui ao teatro ver "À espera de Godot". Da peça e nesta nota não farei nenhuma crítica. Apenas quero dizer do texto que nos fere e intranquiliza. Do grito que nos atinge. Do absurdo que nos assalta.

- Vamos embora
- Não podemos
- Porquê?
- Estamos à espera de Godot.

Ninguém sabe quem é Godot. Só se sabe que se espera e ele nunca é nesse dia que vem. Os homens desesperam e alguns –aparentemente - deixam de esperá-lo. É fácil pensar que se deixou de esperar por Godot.
Quando isso acontece, a vida e dum cinzento morno, dum manso desespero. Não há lugar para a revolta, porque não há nada ou ninguém contra quem nos re­voltemos.

Saí entre os últimos espectadores. A rua estava quase deserta. O último táxi desertava na curva lá adiante.

No largo Trindade Coelho, sentado nos degraus do edifício da Santa Casa da Misericórdia, estava um homem. Alto, barba ruça por fazer, gabardina branca, suja, esfiapada. Ao seu lado um saco grande, de plástico, inchado de trapos velhos. Uma lata de lixo esventrada, ainda há pouco, parecia rir-se do homem, que nas mãos tinha um trapo, promovido a lenço.

Vê-lo, era pensar nas noites de calcorrear as ruas, destapando caixotes, recolhendo detritos. Talvez, arrogando-se um velho direito, os gatos lhe chamassem intruso, ou lhe agradecessem o destapar das latas onde, em conjunto, procuravam a vida.

Ele estava sentado nos degraus. Talvez cansado, talvez conformado, tal­vez…

A porta bateu violentamente e a imagem do velho deixou-me. Um corpo ro­lou na rua. Zaragata de bar. A porta escancarou-se para passar mais gente. Comentários.

- Olha o que o bruto fez ao rapaz.
- Bruto é o seu pai e casou-se.
- Oiça lá amigo

E mais, mais opiniões divididas.

O rapaz levantou-se. Chorava. As lágrimas misturavam-se com o sangue. Dois amigos amparavam-no.

Um pouco mais abaixo o agressor justificava-se:
-Vocês bem viram que ele me provocou. Eu até evitei bastante. Mas chamar isso a um homem casado, não está certo.

À sua volta assentia-se com movimentos de cabeça.

- Tem razão, sim senhor. Estes franganotes metidos a vivaços…
- Mas você deu-lhe com força …
- É verdade. Quando perco a cabeça a sou assim…
- Uma vez, vinha eu do Intendente…

Todos tinham uma história semelhante a contar. Todos eram valentes. Todos bateram, ninguém levou.

Ao descer a Calçada da Gloria misturavam-se em mim as personagens da noite.

O velho ia ao encontro do escuro remexendo caixotes. Intumescia a cara do rapaz. Gabava-se modestamente o agressor. Todos eram culpados e inocentes. Todos eram ricos e miseráveis. Todos eram agressores e agredidos. Todos afinal estavam, sem saber, à espera de Godot.

janeiro 31, 2008

tema da solidão VII

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invisto as madrugadas
o frio esmorecer do tempo
utilizado
entre o rumo da alva e
o do não ser

em mim me fundo
e só partindo
desvendo o caminho
por onde chego

mal o caminho infinito
se acaba
reencontro a estrada
o esperado sinal
a fonte de água

sou mestre na espera
aguardo até o que acabar não sabe
e dentro deste peito que se abre
fomento inteiro o dia por nascer

quem sabe de mim
quem me constrói
em que rua em que ave
em que rio
encontro a cidade que me aguarda

que lábios de mulher posso esperar
para além da poeira do já visto
a transcendência pouca
que procuro
absorve-me o tempo
e se insisto
é porque sinto vias vejo atalhos
onde podem frutificar os meus trabalhos