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março 18, 2008

Memória 4 - ramal de évora



o comboio da minha terra corre
corre sem parar
latifúndios crescem fomes
latifúndios por lavrar

tanta terra tanta terra
passa o comboio a cantar

lindo comboio passeante
na campina a ondear
tanta terra tanta terra
e eu sem poder ficar

partido por ventos montes
montes quero observar
quero encher o coração
quero ter o que guardar

tanta terra tanta terra
ai os meus olhos no mar
e o pensamento em ti
ficada no soluçar
quanto mais assobiava
mais eu te via chorar
mais a terra desfilava
e mais maio para chegar

santa terra santa terra
vai o comboio a largar

este comboio só parou num dia de insurreição
houve greve no barreiro foi o povo para a estação
mas perde sempre este povo luta sem armas na mão

lá parte o comboio de novo
sempre comboio popular
leva rapazes pra guerra
outros que vão emigrar

tanta terra tanta terra
vai o comboio a chorar

verde e vermelho vestido
vem o comboio a chegar
traz o chico e o rosário
tornados do ultramar

tanta terra tanta terra
tenta o comboio recordar

já apitando na linha
pensa o comboio em partir
chegou leve do jerónimo
esse não conseguiu vir

pouca terra pouca terra
foi precisa pró cobrir

ai este comboio maluco que percorre o alentejo
dentro transporta desejos
fora ficam só saudades
meu comboio da meninice rompedor de uma cidade
onde a pacatez dormindo vê partir a mocidade
pra qualquer terra distante
onde viver e morrer será sempre como dantes

na minha terra o comboio
leva gente sem parar
é como a nau catrineta
sempre tem de que contar


março 15, 2008

A mão que lhe dá o voto





Que, por inúmeras e consensuais razões podemos dizer estar esta sociedade doente de paranóia galopante, é facto dificilmente indesmentível. Culpa das tendências neoliberais imperantes na governação, da discórdia entre pragmática e ética, da dilaceração entre o local e o global. Agora, o que é mais difícil de compreender é que este estado de coisas se tenha apoderado do nosso governo, transformando a sua indiscutível legitimidade num exercício de declarações alucinadas de quem vê monstros onde o normal ser humano observa a simples consequência de decisões, por vezes correctas nos princípios gerais, mas feridas de autoritarismo míope, nebulosas, fora de tempo, descontextualizadas e sem que se encontrem justificações para os métodos utilizados.

Refiro-me, como já se percebeu, à primeira ronda de declarações apaixonadas do nosso primeiro e do inefável ministro Silva de ver, por todo o lado, em tudo o que é contestação política de medidas políticas, a mão diabólica do partido Comunista. Na verdade pode dizer-se que é o medo que tenho do meu adversário que o faz tão grande e omnipresente a meus olhos.

E o temor antecipado da maioria poderá ser verdadeiro se o bom senso e equidade não se sobrepuserem ao presente e tão estranho espírito “socialista” desta maioria absoluta.

Não porque os comunistas, ou outra qualquer oposição, sejam, no momento, um perigo real. Aliás, a desorientação reinante, favorecida pela mais longa depressão económica dos últimos anos, reflecte-se, não só no Governo, como na ausência de outras perspectivas credíveis, venham de onde vierem. Não representa este estado de coisas apenas a incompetência de quem governa ou se opõe, mas também a deriva de uma realidade ultrapassante das possibilidades de decisões a nível nacional.

No entanto, outras decisões são do restrito domínio doméstico.

Debrucemo-nos, levemente, sobre a questão da avaliação de desempenho de professores.

Tenho a imodéstia de pensar que sei alguma coisa sobre este assunto, derivado de dezenas de anos de experiência em avaliações profissionais. É certo que as fiz sempre no âmbito de empresas privadas e que, se me fosse posto o problema de pensar um sistema de avaliação para professores ver-me-ia, sinceramente, muito atrapalhado.

A avaliação de desempenho comporta vários fins. Um deles é conseguir apreciar o comportamento profissional, em dado período de tempo, de uma determinada pessoa. Para tal é necessário a construção de critérios objectivos e mensuráveis, bem como da respectiva medida. Parâmetros que podem ser mensurados com objectividade são, por exemplo, a assiduidade e a pontualidade. Outros que se podem, mediante descritivos sintéticos e correctos, tornar mensuráveis serão a quantidade e qualidade de trabalho, as atitudes de colaboração/integração no corpo profissional e os vários procedimentos para com o meio envolvente. Outro fim é o de estabelecer uma base de discussão mútua, com vista ao aperfeiçoamento e correcção de erros ou desvios, entre o avaliado e os seus avaliadores. Finalmente, após o percurso avaliativo pode estabelecer-se parâmetros de prémios/compensações e necessidades de formação.

Quando pensamos em professores para serem avaliados confrontamo-nos de imediato com a realidade de uma importante parte das suas tarefas serem dificilmente mensuráveis. O professor transmite conhecimentos – que poderão ser de alguma forma medidos – mas também educa cidadãos. Ora esta parte tão importante do seu trabalho só se poderá verificar plenamente muitos anos depois da saída da escola dos seus alunos. Como é que se medirá isto? Deixaremos, por miopia escolarenga, desincentivar os professores de uma tão importante função que, por muito esforço que custe, não se repercutirá, minimamente, no resultado da sua avaliação?

E a equidade? Como se conseguirá que a avaliação de um professor, numa determinada escola, por determinado avaliador, seja comparável a outras avaliações na mesma escola ou em escola diferente, com avaliadores distintos e perspectivas desiguais sobre a interpretação de cada um dos parâmetros propostos? Está isto pensado e resolvido? Não me parece e assim, só se chega à confusão nunca à justiça equiparativa. O que se pede é um sistema em que seja possível afirmar que alguém classificado com Bom no Barreiro é equiparado a outro qualquer, com a mesma classificação, em qualquer outra escola do país.

È portanto a avaliação de desempenho um instrumento de trabalho muito útil para a evolução dos trabalhadores, quando efectuada com seriedade, compreendida e aceite por todas as partes. A boa-fé e a confiança são as duas pernas em que este exercício se estriba. Faltando alguma delas o resultado é catastrófico por destrutivo em termos de relacionamento entre as parte.

Estas simples normas de bom senso faltaram ao ministério da educação. A resposta foi-lhe dada na rua pela impressionante marcha da indignação que cem mil docentes protagonizaram, com toda a “irrelevância” que a ministra, em reportagens televisivas subsequentes, lhe consignou. Como era de esperar de tal personalidade, a um mau trabalho seguiu-se o autismo impenitente. A vida é assim. Há pessoas que dê lá por onde der, trazem no bandulho todas as certezas do mundo e, por mais que a realidade lhe trespasse os olhos, apenas vêem o que lhes interessa ver.

A ministra que tentou apresentar os professores à opinião pública como madraços e incapazes, num piscar de olhos malandro para os piores sentimentos da turba, viu-se, deste modo, perante uma afirmação de dignidade pessoal e profissional que ela não pode entender.

Por isso foi ainda, se possível, mais fechada e prepotente e cortou todas as pontes possíveis para a resolução do problema. Mas fez mais! Quando instada a responder sobre a possibilidade da sua demissão afirmou claramente: - “eu não me demito!”.

Como para bom entendedor meia palavra basta eu entendi, naquela declaração, muito mais que o que ela desejaria que eu entendesse. Vi, que perante a enormidade do disparate, centrando-se no seu único e exclusivo querer, desafiava o primeiro-ministro a demiti-la. Sim, que ela, mesmo contestada pela classe docente em bloco, não faria como o ministro da saúde o qual, cedendo a possíveis pressões, contrariado embora, apresentou a carta de demissão que, provavelmente, lhe fora pedida. Ela não o faria. Só sairia com decisão comunicada pelo primeiro-ministro. A bola foi-lhe passada tão lepidamente como isto. Deve ser este o comportamento designado de solidariedade partidária e governativa.

O primeiro-ministro, tendo em conta os acontecimentos anteriores e estes, estaria completamente bloqueado para tomar qualquer decisão sobre os assuntos da educação. Estava preso por ter e não ter cão. No limite apenas lhe cabia, mesmo se a contragosto, apoiar a ministra. Ela aproveitou-se, completamente, deste estado de coisas.

No entanto, vindas de um PS ligado ou habitualmente consensual com as políticas do Governo, vozes credenciadas apareceram, nas ágoras televisivas, introduzindo um discurso morigerador apontando aberturas várias. E mesmo membros da equipa ministerial vieram a terreiro, na sequência, introduzir a “luz ao fundo do túnel”.

Quando, legitimamente, pensávamos que a lição de unidade e conquista de dignidade dos docentes, tinha sido apreendida e levada em conta eis senão, que a ministra vem de novo à televisão reafirmar as posições anteriores, desmentindo as aberturas anunciadas pelo seu secretário de estado, desdizendo as conversações mantidas com os sindicatos, reafirmando, do alto do seu Olimpo, “tudo ficará na mesma”.

Como bem se pode compreender não sendo os cem mil professores cem mil comunistas, muitos seriam votos contados do partido que lhe deu lugar na governação. Assim, diga ela o que disser, ainda que por questões tácticas não convenha ao nosso primeiro apeá-la do trono, a certeza com que fico é que só temos ministra a curto prazo. Porque, em 2009, há eleições e quem quer ser eleito não pode morder a mão que lhe dá o voto.




Publicado in “Rostos on line” – http://rostos.pt

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março 13, 2008

tema da solidão XI




só se parte inteiramente
quem foi que disse
que partir são bocados de cidade

quando se parte
é com o corpo todo que se vai
nega-se o sol
o sonho é demais

porquê então partir
senão para preparar uma chegada
na incerteza na dor de coração
por não saber se há retorno ou não

daqui só se parte inteiramente

não é possível ficar

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março 10, 2008

Memórias 3 - EPITÁFIO PARA UMA RESSURREIÇÃO DE DOMINGO

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Naqueles anos,sob a influência do existencialismo , escrevia assim:



Por acaso, hoje, foi domingo. Podia ter sido um outro dia, mas não foi. O domingo amanheceu silencioso, parece-me que até já isso e hábito. Como nada tinha para fazer, deixei-me estar na cama até me doer o corpo.

Gosto de ficar na quentura mole do regresso do sono, a sonhar quase na realidade, o mundo que me apetece, nas coisas que de antemão sei que não possuirei, porque são passado e o homem vive no presente.
Depois, quase sem dar por isso, chegara a noite. Com ela veio solidão a apertar-me dentro, nem sequer me deixando o orgulho de sentir-me só. Tive a tristeza a construir-me a noite, a intranquilizar-me, e a saturar-me de estar farto.

Olho para mim e pergunto o que faço e porque o faço. Não distingo objectivos. E tudo tão solitariamente material.

Durante os dias normais, o turbilhonar daquilo a que chamemos quotidiano faz-me divergir os pensamentos. Nestes dias, porém, o silêncio entra em mim duma maneira dolorosamente esquiva e as ausências tornam-se maiores. Tento enganar-me, dizendo que sou superior a tudo quanto possa acontecer-me. Sei que não o sou, mas terei que sê-lo.

Da soleira duma porta, iluminada pela luz pobre dum bairro de lata resmungava uma voz irada de mulher:

-Anda meu desgraçado, vai para a bebedeira. Porque terei eu casado com esta porcaria de homem? Deixa estar que, quando não tiver comer para os teus filhos, te ponho uma armadura tão grande que não entras na rua Augusta...

Cá para comigo monologuei que mais dia, menos dia, o homem estaria mesmo "empalitado", se é que não o estava já. Talvez um dia eles se tivessem amado, tivessem prometido mundos um ao outro. A vida levou-os aquilo. A miséria matou o amor e os estômagos vazios, pesam mais que uma alma cheia de ilusões.

Vi, como há pouco, aquele casal novo que se ria da chuva. As pessoas voltavam-se quando passavam, encolhiam os ombros ou sorriam. Para mim, no meio daquela multidão impessoal, eles eram uma promessa de frescura na aridez do meu deserto interior.

Este acontecimento deu-me para pensar. Do meu pessimismo veio-me, para eles, que tão confiados iam, uma pena quase eterna. Um dia acordariam do seu sonho de deuses. Ao olharem os seus andrajos humanos, iriam sentir-se bem mais pobres, infinitamente sofredores e desesperados.

Nós somos assim. A nossa natureza sociável, porque o é sem dúvida nenhuma, não nos permite viver muito tempo em contacto com alguém, sem que os mais variados choques psicológicos aconteçam. São sempre as ninharias que mais contam para criar desentendimentos irreparáveis. Um grande problema predispõe o homem para a grandeza. Abre-lhe a alma. Torna-o superior. A razão inversa acontece com os pequenos problemas. Isto leva-me a concluir, talvez precipitadamente, que o homem é um ser de extremos na luta por um terreno médio, que pessoalmente não posso conceber. Sinto essa posição como uma fuga à responsabilidade. Devemos ter o orgulho de enfrentar os nossos actos, de suportar-lhes as consequências. Somos nós quem vamos construindo o futuro. A vida não é como dizem algumas filosofias, uma linha recta, traçada quando nascemos, ou antes e acaba na morte ou mesmo depois. Essa linha do destino, a existir, tornaria estúpida qualquer tentativa de libertação qualquer tomada de posição, qualquer progresso.

Um acto torna-nos responsável, não só por ele, mas pelos que o seguem e, em consequência do anterior, aparecerão. Cada um deles dar-nos-á um número de caminhos diversos. Nos escolheremos aquele que o momento, a hereditariedade, as hormonas, o tempo, isto é, nós e sobretudo nós quisermos. Uma constante opção é o acto vida; acto principal duma carreira infindável de actos menores.

Divagando cheguei a casa. A minha casa é um quarto com uma janela pequena, que dá para uma miserável imitação de quintal. Moro ali agoniado e preso pela liberdade de um dos meus actos. Tudo o que lá vive dentro me agarra e tem um sentido tão próprio, que não sei se sou eu quem dá vida aos objectos, se eles a mim.

Na minha terra era quase feliz. A despreocupação era o meu lema e da vida ia retirando os pequenos prazeres, que nos fazem duvidar das pessoas que choram. Um dia, alguém, ou um sorriso, me fez pensar que devia ser mais no mundo. Esqueci-me de tudo e lancei-me na cidade grande, todo esperança, todo vontade, até que esse sorriso me faltou. Tenho sempre comigo o "nosso" último livro. "0 Mágico" de Somerset Maugham. A dedicatória, por irónica, faz-me sorrir. Não é que tenha sido ou seja essa a sua função, mas sim porque um acto tornou mentira as palavras que se disseram e o que entre nós se passou. Aquele livro encerra algumas delas e às vezes sorrir e uma forma diferente de chorar...

Lá fora deixara uma multidão embaraçada em impermeáveis e guarda-chuvas, a maldizer o tempo. Felizes ou infelizes? Criaturas que nada mais tinham, pelo menos aparentemente, a preocupá-las, que a presumível gripe.

Bah! Gente mesquinha - dizia-me num esforço de auto-consolação. A verdade é que me sentia bem pequeno e desamparado ao pé dessa gente vulgar.

Vulgar!!! É um termo com outro qualquer, a que nós demos um significado e que usamos para classificar o inclassificável. Acresce ainda, que nesta época em que toda a gente luta pela invulgaridade, o invulgar é mesmo ser-se beatificamente vulgar.


Como um relâmpago surgiu-me a ideia do que, em minha casa, faria numa noite destas. Por alguns momentos, ai de mim, saí da prisão conceitual da gravata domingueira a vi-me livre na terra dos meus sonhos.

Chovia! Por lá, também o tempo ia chorão - com tanta experiência atómica estragam o tempo, dizia a gente velha do meu sítio. Numa noite assim, é quase certo que ficaria em casa a ler, ouvindo a dança da chuva no tecto de telha-vã. Esmagaria o nariz nos vidros embaciados, para espreitar os vultos fugitivos, os guardas chuvas negros a brilharem sob a luz molhada das lâmpadas sonolentas. Quando já fosse tarde demais, talvez saísse sozinho, à procura nas ruas escorregadias, de um motivo para me andar a molhar-me, a uma hora tão tardia. Não faria nada de extraordinário, é certo, mas que são actos extraordinários mais que meros acasos? E a vida, que é mais que um desses acontecimentos.

Já não me sentia bem no quarto. Aliás, nunca me sinto completamente bem em algum lugar. Sinto que onde não estou, é que devia estar. Por isso, nunca estou no sítio certo.

Saí, talvez a procura de mim nas ruas escuras, nas ruas baças, à hora em que se vende nas ruas, amor de deve-haver, de tempo contado, de cheiro enjoativo a suor, momento de fêmeas e machos no esquecimento fácil das contas da vida.

O meu problema e de princípio e fim. Porque nasci? Para que nasci? É culpa minha não saber estas respostas? Nunca me deram nada a que me agarrasse para viver. Em cada momento me vejo a inventar amarras, que por fracas ou coincidência desastrosas soçobram. E fico outra vez à deriva. È certo que sempre fui capaz de inventar uma outra finalidade mais ou menos longa. A imaginação é que não dura sempre. Quantas vezes mais serei capaz de me inventar no universo? Terei eu razão nos meus problemas, ou as pessoas que sub-vivem sem preocupações de finalidade?

Passou por mim, a cantar, um bêbado. Vai aos bordos. Cada passo e um compêndio na arte do desequilíbrio. Será isso uma solução? Acho que não. A alienação, ainda que parcial, nunca o será, porque as soluções exigem coragem e vontade. As fugas não! No entanto estou convencido que nem tudo é ruim. A capacidade do ser-se feliz existe algures e em alguém. Só quem, como eu, pede tudo de tudo, se encontrara sem nada. Quem esbanja cedo, tarde lhe falta. Mas que posso eu fazer? O mundo e um campo de luta onde eu terei que impor a minha certeza, ou ser esmagado pela certeza dos outros. Sei que não passo de um indivíduo entre milhões. Ao mesmo tempo sou mais do que isso, porque sou eu e como eu, sou único. O que acontece comigo, acontece com os outros milhões. Uns duma maneira outros doutra, todos lutamos por uma meta mais longa. A luta humana acontece onde esteja um homem e uma mulher. Apesar disso, ninguém é feliz, ninguém pode ao menos dizer que se está a realizar. A felicidade só existe em escassos momentos. Mesmo assim, não passa de uma armadilha, porque após ela, vem o desengano, a dor dos espíritos e dos corpos e os homens ficam, cada vez mais, sozinhos. Quem sabe mesmo se é isto que justifica ainda o acto de viver.

A abstracção dos meus passos levou-me até um bar escuso. Sentei-me. Agarrei em papel e estas palavras começaram a surgir-me. Dentro em pouco irei parar. Já disse muito de nada e não vou perder mais tempo. Afinal nós somos uns mentirosos natos. Quanto do que eu disse não passa de uma representação teatral de mim, duma incapacidade, mais ou menos momentânea, para fazer qualquer coisa? Se calhar, amanhã, à luz do dia, as minhas opiniões serão outras. Quem é que se pode perceber?

Nas minhas mãos o colorido velho do “brandy” desfazia-se em vómitos de luz. Levantei-o aos olhos e engoli nele os restos do meu orgulho.

Foi como se um escarro me tivesse deslizado pela garganta…


Guiné, Teixeira Pinto 25/6/67

março 05, 2008

tema da solidão X

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minha pátria é este sol
esta música um barco de vento
a febre das rosas ou
maio que se abre em novas cores

minha pátria é um país
de estranheza
circundado por ternura e pardais
minha pátria é esta terra
uma hera recolhida
em horas vesperais

é o branco silêncio a luz intensa
o acordar o sonho a sombra imensa
que torna e roda e que decai
em ciclo duradoiro
onde o sangue pulsa
plantando vinhais de solidão

poema terra
sentido sem razão
sol de maio meu tempo sustido
entre o momento de partir e de estar

o tempo gota a gota cai
e ninguém vê
que o tempo é pátria e terra avara

é por isso que o meu canto pára

fevereiro 27, 2008

Downshifters

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John, rico banqueiro americano, passava, há muitos anos, férias anuais na Ilha de Maui, no arquipélago do Havai. No decorrer desses anos conheceu um pescador, de nome Mauna, de quem se foi tornando amigo. Conversavam descontraidamente ao Sol, deitados nas redes suspensas entre palmeiras vizinhas, discorrendo sobre a vida, as mulheres, as bebidas e outros prazeres que a amena temperatura e o relaxamento da boa vida proporcionavam.

Depois de muitas férias passadas, na confiança adquirida nos aprazíveis conciliábulos, um dia, cuidadosamente, John disse a Mauna:

- Meu caro amigo sabe como o estimo, o prazer que tenho em encontrá-lo aqui todos os anos e como me é agradável passarmos este tempo maravilhoso bebendo e preguiçando no calor da praia. Deixe-me no entanto, e não se ofenda com isto, dizer-lhe da minha estranheza pela falta de ambição que revela. Tenho reparado que o amigo, consoante a sorte das marés, leva o seu barquinho para o mar, deita as redes, regressa à praia e, passadas umas horas, torna ao mar para recolher a rede. Entrega o pescado na lota e regressa à praia.

- É verdade, returque Mauna, é essa a minha vida.

- Pois é por isso que penso haver em si uma notória falta de ambição.

- É possível, mas porque é que diz isso?

- Bem, parece-me que não utiliza ao máximo as suas potencialidades bem como as deste local. Com o tempo que lhe sobra dessa única ocupação diária bem podia comprar um equipamento de mergulho e ir, entretanto, caçar umas lagostas para aumentar o seu rendimento.

- Verdade que sim, e o que faria com o rendimento adicional?

-Ora, homem, aforrava e quando fosse suficiente comprava um novo barco. Entregava-o ao seu filho mais velho e, produtos reunidos, você ficaria bastante mais rico.

- Tem toda a razão… e depois de ficar mais rico o que faria com esse dinheiro?

- Comprava outro barco, entregava-o ao filho seguinte e triplicaria o seu rendimento. O capital acumulado, os juros e um empréstimo bancário, possibilitar-lhe-iam adquirir uma traineira de pesca longínqua.

- Está bem visto, sim senhor. E depois?

- Com um pouco de sorte iria aumentando a frota e poderia vir a ser um potentado das pescas e quem sabe se um armador de nível internacional.

- Tem toda a razão o meu amigo. Quando fosse um armador de nível internacional, faria o quê?

- Ora então, poderia gozar um rico mês de férias, passá-lo sem nenhuma preocupação numa bela ilha como esta, com o único cuidado de tirar o melhor aproveitamento do seu tempo de lazer e sol.

- O amigo não deixa de ter razão mas, se não reparou chamo-lhe a atenção para que, sem tantos trabalhos, ser precisamente isso o que faço, todos os dias, desde há mais de cinquenta anos.

A história não nos diz qual a resposta do banqueiro, nem tal é, em absoluto, necessário para os nossos propósitos. O que fica claro é a existência de dois diferentes modos de encarar o sucesso e a vida, de duas filosofias radicalmente opostas, degladiando-se no palco mundial.


A sociedade moderna impõe ritmos de mudança rápidos e muitas vezes espúrios. As palavras mágicas actuais são acumulação e inovação, tendo esta última perdido o sentido inicial de alterações essenciais para a melhoria de objectos e utilizações e representando apenas a pele com que as empresas, envolvidas numa luta de morte pelo domínio do mercado e pela maximização do lucro, tentam diferenciar o mesmo produto com roupagem diversa, através de uma trama de mentiras publicitárias visando arregimentar o maior número de consumidores, independentemente da necessidade do produto ou da real capacidade de satisfação do utilizador. No entanto isto é apenas a superfície da torrente. É que para obter o chamado sucesso torna-se necessário alterar os valores de convivência social. Deste modo o Ser cede lugar ao Ter e esta inversão modifica profundamente os comportamentos e relacionamentos sociais.

A inveja, a frustração, o egoísmo tornam-se os valores fundamentais da sociedade. Os meios de comunicação social vendem, “ad nauseam”, a imagem de gente bem-sucedida, vidas paradisíacas, tudo apenas pela obtenção dos produtos Y, da viatura Z, da casa Alfa. As pessoas, muito lá no fundo, acreditam e constroem a esperança em espuma de vento. Mas como todos sabemos nem as promessas estão ao colher da mão, nem as minorias que as obtém, tiram delas a satisfação esperada e prometida. No entanto, todos os dias, toda a gente se atola um pouco mais na dívida, no fossar em trabalhos excessivos e desumanizados que levam ao total domínio da pessoa, a qual, sem tempo para reflectir na sua condição, vai perdendo as referências humanas e conviviais, desinteressa-se da coisa pública, vê em cada vizinho um adversário que urge ultrapassar com mais dez centímetros de comprimento de carro, mais cinco metros de jardim na vivenda, mais umas férias, cem quilómetros mais longe, escondendo o empenhamento financeiro contraído e ficando na dependência absoluta de quem gere os créditos, diminuindo de forma absoluta a sua liberdade de escolha.

Contra este estado de coisas, algumas minorias esclarecidas, desfrutando de uma segurança económica que lhe permite fazer estas opções, decidiram que ter mais tempo livre, mesmo que tal signifique uma diminuição de disponibilidades monetárias, é preferível a continuar na corrida insana de, através da posse, ostentar um estatuto de supremacia sobre os outros, que a nada de útil ou positivo conduz São estas pessoas, raras por enquanto, que são denominadas “downshifters”.

A sua atitude é profundamente racional e visa dar respostas globais à degradação das relações sociais e a fenómenos mais vastos no campo ambiental. No seu limite tenderiam a destruir completamente, por contenção, o sistema maximizador capitalista, a tornar efectiva e durável a preservação ecológica e a avançar para uma redistribuição mais equitativa dos recursos existentes.


Podemos considerar que é utópica e franciscana esta forma de vida, que nem todos os que a iniciam conseguem mantê-la e que múltiplos desvios podem sempre reconduzi-los à lógica dominante. Mas, também não podemos deixar de pensar que muitos movimentos alteradores da face do mundo começaram de maneira quase apagada e foram, muitas vezes, considerados caricatos pelos modos dominantes. A lógica profunda que leva a trocar maior prosperidade económica por mais tempo disponível é uma coerência intrínseca de defesa e valorização da vida. Só por isso deverá ser tida na devida conta.

Como penso que o Mauna da nossa história conseguiu demonstrar, deveremos distinguir claramente entre desejos e necessidades, entre o fundamental e o acessório e fazer as escolhas correctas. Até porque, como dizia S. Francisco de Assis, não é o homem que possui os objectos, mas sim os objectos que possuem o homem.


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Publicado in “Rostos on line” – http://rostos.pt








fevereiro 24, 2008

O Alentejo

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Este texto, de autor desconhecido, foi-me enviado pelo meu amigo Jorge Matos. Com a devida vénia ao seu autor, aproveito para o inserir neste blogue.
Palavra mágica que começa no Além e termina no Tejo, o rio da portugalidade. O rio que divide e une Portugal e que à semelhança do Homem Português, fugiu de Espanha à procura do mar.
**O Alentejo molda o carácter de um homem. A solidão e a quietude da planície dão-lhe a espiritualidade, a tranquilidade e a paciência do monge; as amplitudes térmicas e a agressividade da charneca dão-lhe a resistência física, a rusticidade, a coragem e o temperamento do guerreiro. Não é alentejano quem quer. Ser alentejano não é um dote, é um dom. Não se nasce alentejano, é-se alentejano.
**Portugal nasceu no Norte mas foi no Alentejo que se fez Homem. Guimarães é o berço da Nacionalidade, Évora é o berço do Império Português. Não foi por acaso que D. João II se teve de refugiar em Évora para descobrir a Índia. No meio das montanhas e das serras um homem tem as vistas curtas; só no coração do Alentejo, um homem consegue ver ao longe.
**Mas foi preciso Bartolomeu Dias regressar ao reino depois de dobrar o Cabo das Tormentas, sem conseguir chegar à Índia para D. João II perceber que só o costado de um alentejano conseguia suportar com o peso de um empreendimento daquele vulto. Aquilo que para o homem comum fica muito longe, para um alentejano fica já ali. Para um alentejano não há longe, nem distância porque só um alentejano percebe intuitivamente que a vida não é uma corrida de velocidade, mas uma corrida de resistência onde a tartaruga leva sempre a melhor sobre a lebre.
**Foi, por esta razão, que D. Manuel decidiu entregar a chefia da armada decisiva a Vasco da Gama. Mais de dois anos no mar... E, quando regressou, ao perguntar-lhe se a Índia era longe, Vasco da Gama respondeu: «Não, é já ali.». O fim do mundo, afinal, ficava ao virar da esquina.
**Para um alentejano, o caminho faz-se caminhando e só é longe o sítio onde não se chega sem parar de andar. E Vasco da Gama limitou-se a continuar a andar onde Bartolomeu Dias tinha parado. O problema de Portugal é precisamente este: muitos Bartolomeu Dias e poucos Vasco da Gama. Demasiada gente que não consegue terminar o que começa, que desiste quando a glória está perto e o mais difícil já foi feito. Ou seja, muitos portugueses e poucos alentejanos.
**D. Nuno Álvares Pereira, aliás, já tinha percebido isso. Caso contrário, não teria partido tão confiante para Aljubarrota. D. Nuno sabia bem que uma batalha não se decide pela quantidade mas pela qualidade dos combatentes. É certo que o Rei de Castela contava com um poderoso exército composto por espanhóis e portugueses, mas o Mestre de Avis tinha a vantagem de contar com meia-dúzia de alentejanos. Não se estranha, assim, a resposta de D. Nuno aos seus irmãos, quando o tentaram convencer a mudar de campo com o argumento da desproporção numérica: «Vocês são muitos? O que é que isso interessa se os alentejanos estão do nosso lado?»
**Mas os alentejanos não servem só as grandes causas, nem servem só para as grandes guerras. Não há como um alentejano para desfrutar plenamente dos mais simples prazeres da vida. Por isso, se diz que Deus fez a mulher para ser a companheira do homem. Mas, depois, teve de fazer os alentejanos para que as mulheres também tivessem algum prazer. Na cama e na mesa, um alentejano nunca tem pressa. Daí a resposta de Eva a Adão quando este, intrigado, lhe perguntou o que é que o alentejano tinha que ele não tinha:«Tem tempo e tu tens pressa.» Quem anda sempre a correr, não chega a lado nenhum. E muito menos ao coração de uma mulher. Andar a correr é um problema que os alentejanos, graças a Deus, não têm. Até porque os alentejanos e o Alentejo foram feitos ao sétimo dia, precisamente o dia que Deus tirou para descansar.
**E até nas anedotas, os alentejanos revelam a sua superioridade humana e intelectual. Os brancos contam anedotas dos pretos, os brasileiros dos portugueses, os franceses dos argelinos... só os alentejanos contam e inventam anedotas sobre si próprios. E divertem-se imenso, ao mesmo tempo que servem de espelho a quem as ouve.
**Mas para que uma pessoa se ria de si própria não basta ser ridícula porque ridículos todos somos. É necessário ter sentido de humor. Só que isso é um extra só disponível nos seres humanos topo de gama.
**Não se confunda, no entanto, sentido de humor com alarvice. O sentido de humor é um dom da inteligência; a alarvice é o tique da gente bronca e mesquinha. Enquanto o alarve se diverte com as desgraças alheias, quem tem sentido de humor ri-se de si próprio. Não há maior honra do que ser objecto de uma boa gargalhada. O sentido de humor humaniza as pessoas, enquanto a alarvice diminui-as. Se Hitler e Estaline se rissem de si próprios, nunca teriam sido as bestas que foram.
**E as anedotas alentejanas são autênticas pérolas de humor: curtas, incisivas, inteligentes e desconcertantes, revelando um sentido de observação, um sentido crítico e um poder de síntese notáveis. **Não resisto a contar a minha anedota preferida. Num dia em que chovia muito, o revisor do comboio entrou numa carruagem onde só havia um passageiro. Por sinal, um alentejano que estava todo molhado, em virtude de estar sentado num lugar junto a uma janela aberta. «Ó amigo, por que é que não fecha a janela?», perguntou-lhe o revisor.
* *«Isso queria eu, mas a janela está estragada.», respondeu o alentejano.«Então por que é que não troca de lugar?» «Eu trocar, trocava... mas com quem?»
**Como bom alentejano que me prezo de ser, deixei o melhor para o fim. O Alentejo, como todos sabemos, é o único sítio do mundo onde não é castigouma pessoa ficar a pão e água. Água é aquilo por que qualquer alentejano anseia.E o pão... Mas há melhor iguaria do que o pão alentejano? O pão alentejano come-se com tudo e com nada. É aperitivo, refeição e sobremesa. E é o único pão do mundo que não tem pressa de ser comido. É tão bom no primeiro dia como no dia seguinte ou no fim da semana. Só quem come o pão alentejano está habilitado para entender o mistério da fé. Comê-lo faz-nos subir ao Céu!
**É por tudo isto que, sempre que passeio pela charneca numa noite quente de verão ou sinto no rosto o frio cortante das manhãs de Inverno, dou graças a Deus por ser alentejano. Que maior bênção poderia um homem almejar? *

fevereiro 20, 2008

Memórias - 2 - Carta à Marquesa

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Em fins dos anos sessenta, princípios de setenta, havia, no saudoso Diário de Lisboa, um suplemento chamado Mosca, dirigido pelo Stau Monteiro. A carta que abaixo transcrevo, foi escrita para esse suplemento, mas, por obra e graça da censura, não chegou a ser publicada. Esclarecendo a situação. Havia ao tempo, nos salões de uma marquesa de que já não me recordo o nome, nem o título, um cenáculo de poesia onde pontificava um poetastro de seu nome Cravina. Seria o que de mais conservador se encontraria na nossa sociedade, arvorando-se, no entanto, no Parnaso da poesia portuguesa. Era a chacota de quantos pretendiam que a poesia fosse mais que um poeirento molde de sentimentalidades desfasadas e que apenas servia para encobrir a luta, que em todos os meios, se fortalecia contra a ditadura. A resposta que eu tentei dar e não consegui é a que agora se apresenta. Mais feliz foi Ary dos Santos que, fazendo-se convidado para um serão, os mimoseou, para grande escândalo, com o seu poema S.A.R.L..



CENHOURA MARQUESA

despois de muito pençar arresolvime a escreverlhe esta é que li nu jurnal ca ecelentissima marquesa tinha um çunaculo de poisia onde cum cenhor que se cha­ma caravina deziam versinhos a modos que damor cumo acontesse eu gustar muitissemo de dezer déçemas cria pudir à ecelentissima marquesa auturisassão para botar uma das minhas nam sei sa cenhoura sabe queucá nam tenho muita instrussão andei até a turçêra classe purque despois tive quir trabalhar nu campo do fêtor da urtariça pur cu mê pai dezia quem nam trabuca nam manduca i o cenhour pirior um santo ome que deus u tenha em sê mrecido descanço tambem dezia cu rêno dos ceus era dos pobrezinhos i cuando era de verão i eu andava nas açêfas davame cá uma pena ver u santo ome a çuar coumu uma besta aperdoe voça ecelencia este mo­do de mal acomparar caté a alma se marrepelava i ele que tão amigo era dos po­bres caté me dezia sempre à joao quem me dera ter a tua vida i eu ficava satisfeto pur nam ter que massentar no terrasso dupaçal á ora da sesta a ler o bruviario i dezia ele ainda cagente nam devia dar óvidos aos maldezentes que deziam cagente sermos todos iguais i que quem nascia chaparro nunca daria laranjas i que deviamos de arrespeitar as marquesas e os çunáculos de dezer decemas e sunetos damor e nam deviamos de gustar daquelas poisias que se fazem a dezer que os omes teem fome que teem os mesmos deretos i que cantam baladas i dizem ca instrução deve ser pra toudos ainda bem que á marquesas que sabem o que os santos piriores ensinam i fazem çunáculos i vendo bem as coisas é melhor eu nam dezer os meus versos purque secalhar a marquesa nam gustava i era capaz
de pençar queu estava a guzar i longe de mim guzar uma marquesa purque
cá inté nem ouve revulussao francesa e os fidalgos sao uma coisa muito bonita em que nam devemos mexer i assim acaba e sassina o seu qriado

fevereiro 18, 2008

tema da solidão IX

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por vezes escrevo
como quem luta
outras
como quem disfruta
do modo
da conduta

o importante é agarrar
a frase o lento murmurar
por dentro da palavra

o importante é descobrir
o senso que oculta

porque conhecer é desconhecer inicialmente
o resto é a semente
com que se emprenha o futuro

às vezes a palavra tem um muro
onde se esconde deusa refractária

contra a palavra invisto
nesse tempo
a palavra é um silêncio
que se recusa
e contra mim atenta

outras vezes desliza
é fio de água
ribeiro a correr nos roseirais
onde os peixes passam
átomos originais

assim a palavra se revela
se obstina ou se rebela
criando esta tensão
que me percorre
no silêncio ou no grito
em que se morre

palavra cujo império é a palavra

edifício construído sobre o nada
que é o ar a sílaba modulada

assim entendo o meu campo
a minha lavra
como lavrador me angustio
se o tempo não convém
à sementeira

mas sempre no inverno
ao som do frio
no meio da solidão onde me ostento
ponho as minhas palavras
na fogueira

fevereiro 11, 2008

Matar o rei

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Andava completamente enlevado nas minhas emocionadas relações com a República, quando, um pouco de todo o lado, charangas anunciam o centésimo aniversário da morte do rei Carlos. Foi um vê se te avias de notícias, artigos, pagelas, livros, homenagens, remoques e condenações. A República ficou perturbada, tornou-se enjoada e esquiva e o fulgor do nosso relacionamento viu-se seriamente ameaçado.

Não gostei nem um bocadinho que viessem, deste modo, perturbar o meu embevecimento.

Então eu que sou, como o outro embora diferentemente, socialista, republicano e laico ia deixar-me lesar pelos anseios cediços de uns não sei quantos saudosos do fausto cortesão, pondo em causa o meu bem quisto regime pelo preço de algumas acusações sobre um possível pecado original e sangrento na sua fundação?

Para meu escarmento socorri-me do meu amigo Belegário, alter-ego necessário em dificultosos momentos, de modo a que, no espelho lúcido da sua dialéctica, reflectisse as resposta imprescindíveis ao meu esclarecimento e consequente paz de espírito.


- Sabes bem que sou contra a pena de morte. Não há local de reunião contra a nefanda onde eu não vá, não há abaixo-assinado que não assine, nem manifestação em que a minha voz não espraie a total indignação por tão abominável forma de (in)justiça…

- Já te conheço a conversa, atalhou. A seguir vais dizer-me que, por outro lado…

- Não sejas palerma e escuta-me. Esta questão da morte do Carlos de Bragança começa a agastar-me. Mesmo sendo contrário à pena de morte não consigo ficar indiferente à forma com estão a tratar o regicídio. Não pode ser olhado apenas como caso moral aquilo que é notoriamente derivado do foro político. Se os matadores foram criminosos, heróis ou qualquer outra coisa não deixa de ser importante, mas o que mais interessa é conhecer as razões que levaram a tais acontecimentos, bem como as suas consequências.

- Ora, está claro, afirmou o Belegário, quem mata é sem dúvida assassino. Quem mata o rei é ainda pior porque pretende, com essa morte, abater o Estado.

- E as circunstâncias dos acontecimentos, não valem nada? É ou não verdade que o Rei criou e apoiava a ditadura do João Franco? É ou não verdade que tinha assinado o decreto de deportação das chefias republicanas para Timor? E o que era isso senão condenar à morte, irrevogável e morosa, toda essa gente?

- Isso, meu amigo, seria um acto em potência. Poderia acontecer ou não. O regicídio foi uma calamidade verificada e gritante contra um rei legítimo, ainda por cima sábio.

- Não sou indiferente às qualidades humanas do rei. Reconheço-lhe o talento pictórico bem como a competência científica nas ciências marítimas. Mas uma coisa é o homem, outra bem diferente é o estadista e a sua política. Aquilo que os regicidas atacaram foi o estadista…

- Pois…pois, mas quem morreu e completamente foi o homem.

-É verdade que sim, mas não morreu sozinho. O Buiça e o Costa também morreram e ao contrário do rei sabiam que iriam morrer. Não podemos ser tão ligeiros a condenar e a julgar aqueles que por razões poderosas cometem actos que transcendem o comummente aceite. Alguém que põe em jogo a sua vida para atingir os seus ideais pode estar errado, mas merece que os seus actos e juízos sejam analisados à luz dos contextos que os emolduram.

Foi aqui que o Belegário perdeu o pio. Por muito que o não queira lembrar sabe que os regicidas não poderiam ignorar que dificilmente sobreviveriam ao atentado. Saldariam a conta da morte do rei com as suas mortes. Era troca por troca, pagando o preço máximo. Não regatearam os custos O heroísmo e a execração convivem paredes meias.

A simpatia que a pessoa de Carlos de Bragança poderia suscitar foi ultrapassada pelo peso dos actos políticos e económicos lesivos do País e das ideologias igualitárias e progressistas que campeavam pelo mundo. À luz da conjuntura e dos seus actos é natural que a sua pessoa fosse vista como um obstáculo ao avanço das mudanças, que se sabiam necessárias, para a continuidade do percurso histórico do País. Como obstáculo que era, teria de ser removido.

Pessoalmente estou convencido que mesmo sem o atentado o advento da República era apenas uma questão de tempo. Desde o principio que o reinado de D. Carlos foi ferido, pelos seus amigos ingleses, com o Ultimato. A monarquia, por débil, não conseguiu evitar a humilhação sentida pelos portugueses. A coroa decrépita, mais caduca ainda se tornou. Não passava do fantasma envilecido de si mesma. Já não representava as forças vivas da economia e do pensamento. No entanto, as suas rendas, mesmo rasgadas e amarelecidas, ainda chocavam com a plena misérias das classes populares e com o poder emergente, denegado pela aristocracia, das classes burguesas. Como resultado as sociedades secretas proliferaram e introduziram-se nos interstício do poder, minando-o e destroçando-o aos poucos.

Por tudo isto, se a morte de um homem me choca pelo que tem de definitivo, recuso-me a condenar os executores e a engrandecer a vítima, esquecendo os seus papéis como agentes históricos. Muito menos quero fazer coro com esses passadistas impenitentes que gostariam de voltar atrás no tempo para restabelecer a monarquia. Tal veleidade resulta, para mim, impensável. Não concebo que alguém julgue que, por circunstâncias de nascimento, adquire mais direitos do que qualquer outra pessoa assim sendo até aos fins dos séculos, transitando tais direitos de geração em geração e mantendo-se, como gostam de dizer, “cada macaco no seu galho”. Que se pendurem pelos braços na árvore da evolução e lá se deixem ficar, quedos e velhos, é escolha que lhes cabe e fiquem muito felizes com ela. Mas não queiram ressuscitar o que a História sepultou. Os que pensam como eu, continuarão a lutar por um mundo de iguais em direitos, em que a única diferença provenha da natural distinção entre uma individualidade e outra, sem que isso produza cartilha de privilégios desiguais.

Acabe assim para sempre o domínio dos braganças e quejandos. Ponto final, assunto encerrado.

-Encerrado o tanas! Replicou o Belegário. Nada na sociedade está terminado para sempre. As coisas vão e vem. Se não como réplicas completas, sempre como actualizações. Quer tu queiras quer não queiras, por esclarecimento, reacção ou por nada disto, há pessoas que porão em causa o regime em que vivemos e quererão voltar à antiga monarquia. E têm o seu direito... mas o que agora me interessa é saber se o caso fosse contigo matavas o rei ou não?

Pesei os prós e os contras. Pus na balança as razões e os princípios. Desejando intrinsecamente a instauração da República, ansiando a mudança, odiando a ideologia dos aristocratas, posso dizer-te que de modo algum mataria o rei. Preferia que a República sofresse atrasos mas que viesse pelo seu pé. Esta é a minha escolha pessoal, não obriga ninguém a partilhá-la, mas também não permite que sob ela se acuse gratuitamente quem tomou a difícil decisão de, matando-se, matar o rei.


Publicado in “Rostos on line” – http://rostos.pt

fevereiro 09, 2008

tema da solidão VIII

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resumo o movimento
um dedo um passo um contratempo
o rio o sono a aventura
um tempo
solitário e abismado

um plano longo aborrecido
onde a ternura
resiste em eflúvios perfumados
nas rosas do jardim
dos teus sentidos

por dentro da escrita
sabe-se o poema
unidade dispersa iluminada
pela mágica cadência de fonemas
que fora dela
não querem dizer nada

construo o movimento

o universo é inventado
um pouco
nos meus versos
e deles faço sangue
ou lume ou ferida

mas caio desta certeza
e o poema
por mais belo que seja
não compensa
um só minuto vivo
nesta vida

fevereiro 05, 2008

Memórias 1 - À espera de Godot

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(Publicado em "Democracia do Sul" 1969)


Fui ao teatro ver "À espera de Godot". Da peça e nesta nota não farei nenhuma crítica. Apenas quero dizer do texto que nos fere e intranquiliza. Do grito que nos atinge. Do absurdo que nos assalta.

- Vamos embora
- Não podemos
- Porquê?
- Estamos à espera de Godot.

Ninguém sabe quem é Godot. Só se sabe que se espera e ele nunca é nesse dia que vem. Os homens desesperam e alguns –aparentemente - deixam de esperá-lo. É fácil pensar que se deixou de esperar por Godot.
Quando isso acontece, a vida e dum cinzento morno, dum manso desespero. Não há lugar para a revolta, porque não há nada ou ninguém contra quem nos re­voltemos.

Saí entre os últimos espectadores. A rua estava quase deserta. O último táxi desertava na curva lá adiante.

No largo Trindade Coelho, sentado nos degraus do edifício da Santa Casa da Misericórdia, estava um homem. Alto, barba ruça por fazer, gabardina branca, suja, esfiapada. Ao seu lado um saco grande, de plástico, inchado de trapos velhos. Uma lata de lixo esventrada, ainda há pouco, parecia rir-se do homem, que nas mãos tinha um trapo, promovido a lenço.

Vê-lo, era pensar nas noites de calcorrear as ruas, destapando caixotes, recolhendo detritos. Talvez, arrogando-se um velho direito, os gatos lhe chamassem intruso, ou lhe agradecessem o destapar das latas onde, em conjunto, procuravam a vida.

Ele estava sentado nos degraus. Talvez cansado, talvez conformado, tal­vez…

A porta bateu violentamente e a imagem do velho deixou-me. Um corpo ro­lou na rua. Zaragata de bar. A porta escancarou-se para passar mais gente. Comentários.

- Olha o que o bruto fez ao rapaz.
- Bruto é o seu pai e casou-se.
- Oiça lá amigo

E mais, mais opiniões divididas.

O rapaz levantou-se. Chorava. As lágrimas misturavam-se com o sangue. Dois amigos amparavam-no.

Um pouco mais abaixo o agressor justificava-se:
-Vocês bem viram que ele me provocou. Eu até evitei bastante. Mas chamar isso a um homem casado, não está certo.

À sua volta assentia-se com movimentos de cabeça.

- Tem razão, sim senhor. Estes franganotes metidos a vivaços…
- Mas você deu-lhe com força …
- É verdade. Quando perco a cabeça a sou assim…
- Uma vez, vinha eu do Intendente…

Todos tinham uma história semelhante a contar. Todos eram valentes. Todos bateram, ninguém levou.

Ao descer a Calçada da Gloria misturavam-se em mim as personagens da noite.

O velho ia ao encontro do escuro remexendo caixotes. Intumescia a cara do rapaz. Gabava-se modestamente o agressor. Todos eram culpados e inocentes. Todos eram ricos e miseráveis. Todos eram agressores e agredidos. Todos afinal estavam, sem saber, à espera de Godot.

janeiro 31, 2008

tema da solidão VII

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invisto as madrugadas
o frio esmorecer do tempo
utilizado
entre o rumo da alva e
o do não ser

em mim me fundo
e só partindo
desvendo o caminho
por onde chego

mal o caminho infinito
se acaba
reencontro a estrada
o esperado sinal
a fonte de água

sou mestre na espera
aguardo até o que acabar não sabe
e dentro deste peito que se abre
fomento inteiro o dia por nascer

quem sabe de mim
quem me constrói
em que rua em que ave
em que rio
encontro a cidade que me aguarda

que lábios de mulher posso esperar
para além da poeira do já visto
a transcendência pouca
que procuro
absorve-me o tempo
e se insisto
é porque sinto vias vejo atalhos
onde podem frutificar os meus trabalhos

janeiro 24, 2008

Duas ou três lagartas

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A humilde crónica que Vexas podem neste momento apreciar anunciava-se colérica e apocalíptica. Olhava eu para os acontecimentos que na Pátria se vem a tornar constantes e memoráveis, irritava-me com eles até ao tutano, preparava-me para endireitar o mundo com o poderoso verbo justiceiro, quando, confessando estas intenções ao Belegário, ele sorriu e pacata e sensatamente recomendou-me um pouco de paciência para com as imperfeições dos outros.

Na imensa serenidade do seu estar foi derrubando as ponderosas razões da minha fúria.

Falei-lhe da saúde, do calamitoso estado da mesma, nas diabruras do ministro da dita, na sua falta de jeito para implementar reformas, se calhar necessárias e inadiáveis, mas sempre feitas apressadamente, meio coxas, a descambar para o desastrado. Então cabe lá na cabeça de alguém fechar urgências e SAPes, sem primeiro ter arranjado alternativas e quando porventura as tinha não as sabia explicar?

Pois, dizia-me ele, se calhar isso até é um benefício. Vê o meu caso. Estou na Segurança Social há mais de trinta anos e ainda não tenho médico de família. Houve tempos em que me aborreci e chateei o pessoal do centro, fiz esperas ao Director, mandei cartas, mails e demais formas de pressão para o centro, para os ministérios, para as ordens e népias. Se de início me aborreci, depois até fiquei contente com as vantagens da coisa. Na verdade, não tendo médico nenhum, tinha todos os médicos disponíveis. Bastava apenas que fosse para a fila de espera às quatro horas da manhã e tinha o assunto resolvido. Para além disso fiz conhecimentos e amizades com outros esperantes, os quais, de outra forma, nunca teria tido a oportunidade de conhecer. Foi isso que me valeu quando me divorciei. Nunca tive, por mor destas permanências, um só dia de solidão. Havia sempre um conhecido das filas de espera com que trocar uma palavra, beber um copo, jogar uma bisca lambida. Como vês, tem as suas vantagens. Por outro lado também não percebo a diferença de morrer num hospital sem condições e pessoal, ou numa ambulância, lançada a alta velocidade, na expectativa de chegar a uma urgência, distante mas bem equipada, onde a espera para atendimento, por sobrelotação, te matará na mesma.

Não conseguindo destruir esta barreira de impecável lógica repliquei, com uma nota vitoriosa na voz: -e a Educação, que me dizes da educação?

- Vai de vento em popa! Sorriu.

Lembras-te de quando éramos miúdos o medo que tínhamos dos professores? É pá, a escola era mesmo um regime marcial. Mas saíamos de lá direitinhos, prontos para a vida e para o exército. Vê agora a rebaldaria. Ninguém respeita ninguém, os putos são uns malcriados e é preciso dar-lhes nas orelhas. Os professores são uns baldas que só inventam palermices para atafulhar o cérebro dos ganapos. È preciso que alguém meta ordem nesta confusão. Venham os Directores, venham ministros como esta e ponham no seu sítio estes professores sem nervo que se deixam dominar pelos putos. Cá para mim voltava à lei da régua.

- Eh! Belegário, nunca te vi tão reaça. O que é que andas a comer para ficares tão farpado?

- Nada, se calhar estou um bocadinho azedo.. Tenho andado a meditar no que vai acontecendo mas como a minha ex é professora, votei no Sócrates e tenho um fraquinho pela ministra, sinto-me obrigado a apoiar a sua política…

Aproveitei a brecha e disparei: - E o que me dizes do BCP?

- O que querias tu que eu dissesse. És cliente desse banco? És por acaso accionistas? Então o que te preocupa. O Jardim Gonçalves, o Teixeira Pinto? Ora deixa-te de tretas, tu não queres saber, a sério, de nada disto. Que te importa que o Jardim tenha vindo a demonstrar na prática o síndrome do fundador. Não sabes o que é? Eu digo-te. Quando o fundador de uma determinada empresa excede o seu período de validade e não se retira a tempo, começa a inverter o seu papel na organização levando-a, se não forem tomadas as necessárias precauções, à derrocada. Como viste, apesar do barulho as decisões foram tomadas e o homem acabou por ser afastado. Esta gente do dinheiro não deixa os seus créditos por mãos alheias. O Teixeira Pinto? Estavas com medo que ao perder o emprego não tivesse direito a subsídio de desemprego e arranjasse um problema de subsistência para a família? Como vês, podes estar descansado. Com a indemnização que levou e a “reformita” vitalícia que lhe foi concedida, é capaz de não ter grandes angústias existenciais. Além disso, foi uma lição bem dada as pequenos accionistas que se pensam donos do banco. Não queriam mais nada? Capitalismo popular? Nem na China! Agora já ficaram a perceber que o seu papel é só deixar o dinheirinho nas mãos dos grandões que eles saberão muito bem como aplicá-lo ao serviço dos seus interesses. Sabes que mais, dá tempo ao tempo, que tudo isto não passa das duas ou três lagartas necessárias para conhecermos as borboletas. Dá tempo ao tempo rapaz e descontrai.

Certo, Belegário, vou descontrair acreditando que tens razão e que um destes dias as borboletas aí estarão a dar cor ao depressivo cinzento dominante. Mas também te digo, se as lagartas continuarem a comer as nossas couves e as borboletas não surgirem, forem débeis ou tardias, não deixará, por certo, de haver já, em algum lugar e tempo, uma bota cardada pronta não só a esmagar as lagartas como as couves também.




Publicado in “Rostos on line” – http://rostos.pt

janeiro 16, 2008

tema da solidão VI



perverso
o recontro das virtudes
a busca do campo
onde a luta longamente sublimada
retorna luminosa
de tempo e de água

no líquido da lira me dissolvo
e abandono
no lento marginar
deste remoto lenho
onde de longe em longe
em armistício breve
me contenho

prolongo o teu olhar

então escrevo
a verdade dos campos
onde me atrevo
além do amarelo que
o verão
irá trazer

é porque sei
que em vão me perco
que não aceito o breve
do prazer

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janeiro 11, 2008

Um euro por dia

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Depois de uma infância e meia adolescência vividas nos cânones da Santa Madre Igreja apercebi-me de ter o meu zelo arrefecido, não me sendo a ideia de Deus necessária, nem para a vida, nem para a explicação do mundo. Por isso abandonei totalmente a prática religiosa.

Não me interessavam, igualmente, discussões sobre a existência ou não da divindade. Os argumentos, a favor e contra, pareciam todos inteiramente pertinentes e por mais voltas que déssemos, a uma prova outra contrária sucedia, num movimento de empate permanente. Tornei-me agnóstico e pensei, para mim, que se Deus existisse o problema seria dele. Assim passei adiante com toda a leveza de espírito.

Mas se em relação à existência de Deus resolvi, de uma penada e sem azedumes, o diferendo, já o mesmo não se passou em relação à sua Igreja Militante, isto é, aos seus representantes na Terra.

Aí, a coisa piava mais fino. Primeiramente porque a Igreja, desde Constantino, abandonando a mensagem de fé e esperança para os oprimidos, assumiu a quota-parte de religião de estado, comportando-se como um apêndice do mesmo, utilizando a sua influência para gerar o conformismo nas massas despossuídas. Depois, e em Portugal nos anos cinquenta, pelo seu claro enfeudamento ao fascismo nacional, estendendo os seus ouropéis para colorir o cinzentismo institucional, assentando a sua prática na negação da doutrina propalada. Acrescente-se ainda o percurso histórico da Igreja, o qual nada abona a seu favor.

Entre as muitas coisas que me foram arrepiando estava a figura do Papa, a sua omnisciência em questões religiosas, bem como o espectáculo litúrgico de que é causa e efeito. É bem verdade que as igrejas monoteístas são por natureza espectaculares, totalitárias, centralizadoras e monopolistas. O seu deus é único, a sua fé é a verdadeira, todos os que não pensam do mesmo modo deverão ser convertidos ou, no limite, exterminados.

Inquisição dixit!

O pensamento e actuação comuns às religiões monoteístas - o princípio de exclusão das restantes - têm levado, ao longo dos séculos, a cruentas guerras em nome da verdadeira religião e, pasme-se, da manutenção da paz. Também, em nome do Céu, se diferia a felicidade humana para um mundo posterior e perfeito de forma a manter, com esta esperança, miseráveis e dominadas as populações. Sob o jugo de uma classe minoritária e rica, vivendo o paraíso possível na terra, a pregação da igreja era o esteio ideológico que permitia a alienação das populações, trocando o bem possível, por um pretenso lugar na mansão do Senhor. A garantia desse lugar era assegurada pela palavra sacrossanta da Igreja e do maior dos representantes de Deus na Terra.

É claro que a Igreja vendendo, a outros, o paraíso para depois, na realidade comungava integralmente dos bens terrenos sem problemas de consciência. Para ela o Céu podia esperar.

Vêm estas diatribes a propósito do discurso do Papa no início do ano. Com justeza zurziu a organização capitalista da sociedade, apontando o dedo, com certeza cirúrgica, para o capitalismo selvagem, no seu corolário da globalização e na indesmentível ausência de justiça na distribuição dos bens terrenos. Sábias as palavras, certo o objectivo.

Então porque é que eu reagi com tanto desagrado à bondade desta intervenção?

Bem, olhei para o monsenhor Ratzinger e lembrei-me que ele, ainda não há muitos anos, era o responsável pela manutenção da ortodoxia mais restrita no corpo da Igreja. Nesse papel, perseguiu a Teologia da Libertação e o seu apóstolo, Padre Leonardo Boff, tendo-o compelido a abandonar a Igreja para não ter de renunciar ao seu apostolado.

O que pregava a teoria da libertação? Por ironia, tudo aquilo que o Monsenhor Ratzinger perseguiu e que agora, transubstanciado em Bento XVI, no discurso proferido para o mundo, ao raiar de um novo ano, vem defender. É caso para dizer “tarde piaste” e para não se levar a sério estes desígnios, antes os incluindo no estendal de hipocrisias discursivas a que a Cúria Romana nos habituou.

Se o Santo Padre quiser ser levado a sério, peça perdão a Leonardo Boff e a todos quantos perseguiu, ponha de lado o estatuto privilegiado e ostentatório em que vive, encerre de vez esse estado artificial de que é chefe, calce as sandálias do Pescador e retorne à humildade dos fundadores do movimento religioso que diz seguir; faça penitência e viva com os pobres e para os pobres.

Enquanto tal não fizer e não se libertar das riquezas, continuadas a acumular pelo Vaticano através da globalização e do capitalismo selvagem, essa figura que se diz veneranda, mais não será que o protótipo de alguém que, como São Tomás, segue a lei do “faz como ele diz, não como ele faz”.

Para mim, que não sendo já católico, não tenho de esquecer quem fala e de que lugar fala; não temo as penas eternas pela minha heresia e, por viver numa sociedade que a Igreja já não pode dominar inteiramente, não receio igualmente a perseguição nem a fogueira, afirmo que tal discurso é hipócrita, ridículo e até patético.

Falar de pobreza, envolto em púrpuras e arminhos, é gozar com os milhões que, no mundo, sobrevivem em desespero, apenas com um euro por dia.



janeiro 04, 2008

tema da solidão V

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em évora meu amor
entre os sonhos das lúcidas
arcadas
persigo o mês dos laranjais
evoluindo lentamente
nas rosas da percepção

em évora a solidão
é percurso onde me encontro
em cada sombra de rua
em cada ponto de luz
nas curtas imensidões
das translúcidas noites
quando

em évora as estrelas
estão mais perto do gesto
e mansas murmuram
a sua inquietação
na permanência luminosa
dos odores

em évora meu amor
e meus amores

dezembro 28, 2007

O estilo brilhantina






Desde que num pretérito congresso do PSD o Sr. Dr. Luís Filipe Menezes saiu em desgraça por ter invectivado os congressistas pelo horrível vício, inerente a boa parte deles, de serem “sulistas”, não perdi de vista esta prometedora personagem.

Devo dizer que muito me custou os anos de relativo apagamento que sucederam ao seu pequeno deslize político-regionalista. Rejubilei quando, através da autarquia a sua estrela recomeçou a ganhar brilho e fui impacientemente esperando que ela se levantasse no zénite e lhe proporcionasse os rasgos de indesmentível mérito a que tinha direito.

Tremi quando um indefectível sulista ameaçava, com os seus êxitos na capital, retirar-lhe o facho do mais incrível abencerragem do quadrante político do centro-direita, mas, confesso, estive perto da traição, deixando-me seduzir pela criatividade na asneira dessa figura de opereta. Muito se esforçou o inefável Santana por conservar o pódium, mas a incompreensão do povo e a força dos poderosos haveria de fazer borregar o esforço indómito do menino-guerreiro, aquele a quem todos, desde pequenote, davam com arrebatamento na tola.

Entusiasmei-me, esmoreci, deprimi-me quando o brilhantismo político de Santana e da sua corte, afastados do poder, me negaram a diversão e o insólito das broncas e do estilo cabelo puxado para trás com brilhantina, próprio para dar seriedade aos actos importantes de tão gravérrima personagem.

De qualquer modo, o crescimento da estrela sulista impedia o engrandecimento e brilho da estrela nortista. Como nada é na vida totalmente mau, o afastamento da ribalta de Santana, permitiu a abertura de espaço propício ao desenvolvimento do autarca de Gaia.

Não tendo sido criado nos princípios sábios e morais de que não se bate nos mais pequenos, o Menezes, aproveitando a vaga de descontentamento partidário e, tomando as dores de quem não queria queimar-se por afastar a destempo um chefe tido em desamor, zurziu no pequenote de voz grossa e mandou-o para casa com um cresce e aparece de indescritível superioridade, prometendo que, com ele no leme do PSD, é que o Governo Socialista iria apanhar das boas.

Houve gente que acreditou!

E lá ganhou o Menezes o palco nacional. Sob a luz forte dos holofotes perdeu rapidamente a empáfia e adoptou uma pose de estado, com brilhantina baça na voz, agora pausada e institucional, a fingir uma ponderação inexistente e cómica, revelando insegurança por todos os lados, dando a sensação de quem se meteu num sarilho e não sabe como sair dele. Algum conselheiro, que não o grama ou a soldo de potência exterior, sugeriu-lhe que, para não se sentir tão sozinho no palco do quase-poder, utilizasse os serviços do menino que não estando lá, andava por aí, aos caídos digo eu, e repescou-o para a direcção do grupo parlamentar.

Jogada de génio! Emparelhadas as estrelas, unificadas as brilhantinas, solidificado o estilo de pompa e balofa circunstância fica o ditado provado “ Deus os fez, Deus os juntou”. O problema restante é o de saber quem vai arcar com as culpas quando perderem as próximas legislativas.

A parlenda poderia parar por aqui, com o reconhecimento que estes políticos são uma verdadeira ameaça ao futuro dos Gatos Fedorentos, se o inultrapassável Menezes não se tem saído com mais um formidável arranque político, muito a propósito para o fortalecimento da democracia e da fé dos portugueses nos seus políticos e instituições.

Foi o caso, eu ouvi com estes que a terra há-de comer, da sua peremptória afirmação de que concorrendo ao BCP um presidente da área socialista, teria de ser nomeado, obrigatoriamente, para a CGD um presidente do PSD.

Assim, sem mais nem menos!

Ouvi e espantei! Não por não saber que desde há muito, no campo económico-financeiro, existe uma convenção, não escrita, de repartição de poderes pelo blocão do centro, mas sim pelo despudor do requerimento o qual, não se baseava minimamente em critérios de competência mas sim na posse do cartão do partido. Este sim era exigência indispensável. A competência, se a houvesse, viria depois.

Lindo! Admirável! Inultrapassável!

Empresas privadas, empresas públicas, irmanadas na mesma luta! Para lá das diatribes sobre independência, competência, livre decisão de accionistas, mantêm-se, nestes pobres liberais, a crença profunda no amparo do Estado, a sua especial predilecção pela distribuição de benesses e pela resolução das porcarias que sem rebuço vão fazendo e que, longe da sanção justiceira que se esperava, terminam num conluio de compadres, onde o que está em jogo é a divisão da presa num ora tomas tu, ora tomo eu, em estilo brilhantinoso e cediço, que agonia o mais distraído dos cidadãos.

Será possível “dessarriscar-me” de sócio deste engordurado País, alegando o estado de vómito contínuo?



Publicado in “Rostos on line” – http://rostos.pt

dezembro 20, 2007

tema de solidão IV

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eu hoje andei
pelo meio de um desespero
feito de mansas saudades
perturbadas
em lágrimas suaves
onde não se sofre nada

mas acordei bisonho
e sem saber porquê
embrulhado em desejos de esquecer
o que não lembro
e já me falta e ainda me sobeja

acordei partido entre
dois mundos dois poemas
dois profundos sonhos acordados
onde o ar que respirava
era pesado

se fui poeta foi só neste acordar
entre o gelo do tempo
a degelar
e o calor de um corpo a descobrir

aqui
na velha galáxia apodrecida
entre o raiar de um outro sol de outra vida
a nova luz apenas vislumbrei

e tão intensa era
e tão distante
que sem saber porquê
num só instante
dentro de mim os anjos acordaram

…………………………………….

só eu não acordei

dezembro 13, 2007

O dado e o enunciado

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Reconheço! Embirro completamente com a ministra Maria de Lurdes. Detesto o seu ar lânguido, melancólico e crispado, o discurso de melífluo autoritarismo, o manifestar de intenções para as escolas a que corresponde, maioritariamente, uma prática absurda e contrária ao enunciado.

Se bem se lembram, quando a pessoa se sentou na mula do poder, afirmou o seu propósito de melhorar a imagem dos professores, reforçar o poder disciplinador e de, assumindo ser a educação o ponto fulcral para o desenvolvimento do País, vir animada da vontade de transformá-la no instrumento essencial para o salto qualitativo da Nação.

E se bem o enunciou, mal o fez.

Os principais problemas da educação estão desde há muito levantados: falta ou inadequação de equipamentos, sobrepopulação das escolas e das turmas, inexistência de locais de trabalho adequados, desinteresse e indisciplina de uma boa porção dos alunos.

Grande parte destas situações é devida à massificação do ensino, sem a outorga de meios suficientes para fazer face a tal mudança e sem terem sido traçadas perspectivas adequadas às realidades e às funções renovadas da escola. Também assistimos a um vendaval de reformas iniciadas por um governo e abortadas pelo seguinte.

Presenciámos, de bancada, o desmoronamento do edifício escolar por excesso de carga e incompetências governamentais.

Com a entrada desta ministra para o pelouro, veio um discurso de rigor no ensino e na aprendizagem, exigência de qualidade e dignificação do papel do professor. Dado o caos em que as coisas estavam não parecia difícil cumprir o enunciado. Bastaria um trabalho sério de organização, distribuindo os recursos de forma eficaz, agrupando os professores em torno de objectivos claros e atribuindo os meios para se alcançar os fins.

Fácil, não é?

O que fez a ministra?

Olhou para a escola e viu um enorme custo financeiro. Coitada, não percebe a diferença entre custo e investimento! Considerou que os maus resultados escolares eram exclusivamente culpa dos professores e abriu, contra eles, uma guerra que conduziu ao resultado inverso da enunciada política de dignificação dos docentes. Tentou, e durante algum tempo conseguiu, virar a população contra os professores, apontando-os como uma classe incompetente e de madraços, gozando privilégios excessivos. Com o pretexto de igualizar esta classe com o regime geral quebrou, de forma leonina e unilateral, o contrato de trabalho até aí existente, sem ter em conta a especificidade do acto pedagógico. Introduziu de maneira artificial a divisão entre professores concebendo, de modo arbitrário, a categoria de professor titular, inserindo no sistema uma divisão em que a qualidade pedagógica quase não foi tida em conta e onde os cargos burocrato-administrativos, desempenhados nos últimos sete anos, tinham peso determinante, alimentando, assim, uma atmosfera de mal-estar e um sentimento de injustiça generalizados.

Mas fez mais. Atafulhou os professores de trabalhos administrativos, retirado ao tempo de preparação de aulas, elaboração e correcção de trabalhos, tempo de maturação e avaliação, induzindo a deterioração da qualidade pedagógica e a fabricação de dossiês demonstradores de uma qualidade meramente documental.

O ensino que devia ser criativo e interessante transforma-se, assim, num vórtice de tarefas onde a qualidade do mesmo e a atenção ao aluno são preteridas a favor de representações escriturais e de permanências alongadas e, por falta de estruturas de apoio, improdutivas.

A cerejinha no cume do bolo é, porém, a nova legislação sobre as faltas dos alunos. O seu objectivo declarado é o de “salvar” o aluno absentista e desinteressado. Como se faz? É simplérrimo, se o aluno não se interessa e não vai às aulas não chumbará por faltas. Não senhor! Qual quê? Ser-lhe-ão feitos teste de recuperação até que o discente venha a “demonstrar” um saber que não quis adquirir e não se percebe onde o irá obter.

O pensamento profundo que subjaz nestes princípios continua a ser o da guerra da ministra contra os professores. Se o aluno falta não é por sua culpa ou desinteresse, é porque o professor o não sabe cativar. Logo, castigue-se o professor!

Deste modo, de uma só penada, a querida ministra consegue destruir a possibilidade dos professores manterem alguma disciplina em turmas de trinta alunos - onde nem todos pretendem aprender - e, obrigando a passagens estatísticas compromete o futuro do País e dos educandos que parece proteger. Lá teremos de novo, como nos tempos salazarentos, um nível estatístico de literacia mais elevado que o real, lançando na vida uma quantidade de novos iletrados funcionais.

O custo desta política cega pagá-lo-á o País em termos de desenvolvimento.

Uma outra medida ministerial é a da permanência dos professores, durante três anos, na escola onde foram colocados. Se em termos de estabilidade dos estudantes podemos aceitar esta obrigação, já a forma como a mesma foi estabelecida produz, mais uma vez, resultados antagónicos aos previstos.

Senão, vejamos.


Quando qualquer empresa privada pretende deslocar um seu colaborador para local diferente daquele para onde foi contratado é, legalmente, obrigada a pagar-lhe as viagens, despesas de alimentação e alojamento e a atribuir-lhe ainda uma ajuda de custo que minore os incómodos e os acréscimos de despesas tidos com essa deslocação. Isto é normal e justo, mas não é o que se passa com os professores. Se dois professores, casados e com filhos, forem colocados em escolas distantes terão que ter, no mínimo por três anos, duas casas em locais diferentes, divisão de filhos ou entrega a avós, e despesas de manutenção acumuladas, não recebendo, em troca, nada mais que o seu salário normal.

Esta situação é injusta e inumana mas é assim que a ministra vê a aceita as coisas. Tudo em nome da dignificação dos professores, do benefício do ensino, do fortalecimento da família.

Tantas e mais malvadezas, que não cabem neste escrito, só podem resultar de uma inépcia inaudita, de um ódio cego ou de uma estratégia de desvalorização do ensino oficial.

Quanto a mim, é aqui que bate o ponto.

Criada a instabilidade emocional e profissional dos professores, relaxadas as regras de obtenção de conhecimentos e civilidade, comprometida a competência adquirida no ensino oficial, quais serão os pais que, fazendo das tripas coração, não hipotecarão as suas vidas para pagarem aos seus filhos um ensino que possibilite uma garantia de futuro? E onde o poderão fazer? No ensino particular, evidentemente!

Não é pois por pura maldade ou incompetência que a ministra age. Norteia-a o pensamento economicista e neoliberal de que não é ao Estado que cabe garantir a educação dos seus cidadãos, de modo tendencialmente gratuito, mas que tudo se mede pelo lucro imediato ou pela supressão de despesas. É a absurda noção de que a escola deverá ser gerida como uma empresa. Daí resulta que, o mesmo que um ministro de direita disse a respeito da saúde, pensa esta ministra sobre a educação:

- Quem a quiser que a pague!



Publicado in “Rostos on line” – http://rostos.pt