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janeiro 11, 2008

Um euro por dia

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Depois de uma infância e meia adolescência vividas nos cânones da Santa Madre Igreja apercebi-me de ter o meu zelo arrefecido, não me sendo a ideia de Deus necessária, nem para a vida, nem para a explicação do mundo. Por isso abandonei totalmente a prática religiosa.

Não me interessavam, igualmente, discussões sobre a existência ou não da divindade. Os argumentos, a favor e contra, pareciam todos inteiramente pertinentes e por mais voltas que déssemos, a uma prova outra contrária sucedia, num movimento de empate permanente. Tornei-me agnóstico e pensei, para mim, que se Deus existisse o problema seria dele. Assim passei adiante com toda a leveza de espírito.

Mas se em relação à existência de Deus resolvi, de uma penada e sem azedumes, o diferendo, já o mesmo não se passou em relação à sua Igreja Militante, isto é, aos seus representantes na Terra.

Aí, a coisa piava mais fino. Primeiramente porque a Igreja, desde Constantino, abandonando a mensagem de fé e esperança para os oprimidos, assumiu a quota-parte de religião de estado, comportando-se como um apêndice do mesmo, utilizando a sua influência para gerar o conformismo nas massas despossuídas. Depois, e em Portugal nos anos cinquenta, pelo seu claro enfeudamento ao fascismo nacional, estendendo os seus ouropéis para colorir o cinzentismo institucional, assentando a sua prática na negação da doutrina propalada. Acrescente-se ainda o percurso histórico da Igreja, o qual nada abona a seu favor.

Entre as muitas coisas que me foram arrepiando estava a figura do Papa, a sua omnisciência em questões religiosas, bem como o espectáculo litúrgico de que é causa e efeito. É bem verdade que as igrejas monoteístas são por natureza espectaculares, totalitárias, centralizadoras e monopolistas. O seu deus é único, a sua fé é a verdadeira, todos os que não pensam do mesmo modo deverão ser convertidos ou, no limite, exterminados.

Inquisição dixit!

O pensamento e actuação comuns às religiões monoteístas - o princípio de exclusão das restantes - têm levado, ao longo dos séculos, a cruentas guerras em nome da verdadeira religião e, pasme-se, da manutenção da paz. Também, em nome do Céu, se diferia a felicidade humana para um mundo posterior e perfeito de forma a manter, com esta esperança, miseráveis e dominadas as populações. Sob o jugo de uma classe minoritária e rica, vivendo o paraíso possível na terra, a pregação da igreja era o esteio ideológico que permitia a alienação das populações, trocando o bem possível, por um pretenso lugar na mansão do Senhor. A garantia desse lugar era assegurada pela palavra sacrossanta da Igreja e do maior dos representantes de Deus na Terra.

É claro que a Igreja vendendo, a outros, o paraíso para depois, na realidade comungava integralmente dos bens terrenos sem problemas de consciência. Para ela o Céu podia esperar.

Vêm estas diatribes a propósito do discurso do Papa no início do ano. Com justeza zurziu a organização capitalista da sociedade, apontando o dedo, com certeza cirúrgica, para o capitalismo selvagem, no seu corolário da globalização e na indesmentível ausência de justiça na distribuição dos bens terrenos. Sábias as palavras, certo o objectivo.

Então porque é que eu reagi com tanto desagrado à bondade desta intervenção?

Bem, olhei para o monsenhor Ratzinger e lembrei-me que ele, ainda não há muitos anos, era o responsável pela manutenção da ortodoxia mais restrita no corpo da Igreja. Nesse papel, perseguiu a Teologia da Libertação e o seu apóstolo, Padre Leonardo Boff, tendo-o compelido a abandonar a Igreja para não ter de renunciar ao seu apostolado.

O que pregava a teoria da libertação? Por ironia, tudo aquilo que o Monsenhor Ratzinger perseguiu e que agora, transubstanciado em Bento XVI, no discurso proferido para o mundo, ao raiar de um novo ano, vem defender. É caso para dizer “tarde piaste” e para não se levar a sério estes desígnios, antes os incluindo no estendal de hipocrisias discursivas a que a Cúria Romana nos habituou.

Se o Santo Padre quiser ser levado a sério, peça perdão a Leonardo Boff e a todos quantos perseguiu, ponha de lado o estatuto privilegiado e ostentatório em que vive, encerre de vez esse estado artificial de que é chefe, calce as sandálias do Pescador e retorne à humildade dos fundadores do movimento religioso que diz seguir; faça penitência e viva com os pobres e para os pobres.

Enquanto tal não fizer e não se libertar das riquezas, continuadas a acumular pelo Vaticano através da globalização e do capitalismo selvagem, essa figura que se diz veneranda, mais não será que o protótipo de alguém que, como São Tomás, segue a lei do “faz como ele diz, não como ele faz”.

Para mim, que não sendo já católico, não tenho de esquecer quem fala e de que lugar fala; não temo as penas eternas pela minha heresia e, por viver numa sociedade que a Igreja já não pode dominar inteiramente, não receio igualmente a perseguição nem a fogueira, afirmo que tal discurso é hipócrita, ridículo e até patético.

Falar de pobreza, envolto em púrpuras e arminhos, é gozar com os milhões que, no mundo, sobrevivem em desespero, apenas com um euro por dia.



janeiro 04, 2008

tema da solidão V

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em évora meu amor
entre os sonhos das lúcidas
arcadas
persigo o mês dos laranjais
evoluindo lentamente
nas rosas da percepção

em évora a solidão
é percurso onde me encontro
em cada sombra de rua
em cada ponto de luz
nas curtas imensidões
das translúcidas noites
quando

em évora as estrelas
estão mais perto do gesto
e mansas murmuram
a sua inquietação
na permanência luminosa
dos odores

em évora meu amor
e meus amores

dezembro 28, 2007

O estilo brilhantina






Desde que num pretérito congresso do PSD o Sr. Dr. Luís Filipe Menezes saiu em desgraça por ter invectivado os congressistas pelo horrível vício, inerente a boa parte deles, de serem “sulistas”, não perdi de vista esta prometedora personagem.

Devo dizer que muito me custou os anos de relativo apagamento que sucederam ao seu pequeno deslize político-regionalista. Rejubilei quando, através da autarquia a sua estrela recomeçou a ganhar brilho e fui impacientemente esperando que ela se levantasse no zénite e lhe proporcionasse os rasgos de indesmentível mérito a que tinha direito.

Tremi quando um indefectível sulista ameaçava, com os seus êxitos na capital, retirar-lhe o facho do mais incrível abencerragem do quadrante político do centro-direita, mas, confesso, estive perto da traição, deixando-me seduzir pela criatividade na asneira dessa figura de opereta. Muito se esforçou o inefável Santana por conservar o pódium, mas a incompreensão do povo e a força dos poderosos haveria de fazer borregar o esforço indómito do menino-guerreiro, aquele a quem todos, desde pequenote, davam com arrebatamento na tola.

Entusiasmei-me, esmoreci, deprimi-me quando o brilhantismo político de Santana e da sua corte, afastados do poder, me negaram a diversão e o insólito das broncas e do estilo cabelo puxado para trás com brilhantina, próprio para dar seriedade aos actos importantes de tão gravérrima personagem.

De qualquer modo, o crescimento da estrela sulista impedia o engrandecimento e brilho da estrela nortista. Como nada é na vida totalmente mau, o afastamento da ribalta de Santana, permitiu a abertura de espaço propício ao desenvolvimento do autarca de Gaia.

Não tendo sido criado nos princípios sábios e morais de que não se bate nos mais pequenos, o Menezes, aproveitando a vaga de descontentamento partidário e, tomando as dores de quem não queria queimar-se por afastar a destempo um chefe tido em desamor, zurziu no pequenote de voz grossa e mandou-o para casa com um cresce e aparece de indescritível superioridade, prometendo que, com ele no leme do PSD, é que o Governo Socialista iria apanhar das boas.

Houve gente que acreditou!

E lá ganhou o Menezes o palco nacional. Sob a luz forte dos holofotes perdeu rapidamente a empáfia e adoptou uma pose de estado, com brilhantina baça na voz, agora pausada e institucional, a fingir uma ponderação inexistente e cómica, revelando insegurança por todos os lados, dando a sensação de quem se meteu num sarilho e não sabe como sair dele. Algum conselheiro, que não o grama ou a soldo de potência exterior, sugeriu-lhe que, para não se sentir tão sozinho no palco do quase-poder, utilizasse os serviços do menino que não estando lá, andava por aí, aos caídos digo eu, e repescou-o para a direcção do grupo parlamentar.

Jogada de génio! Emparelhadas as estrelas, unificadas as brilhantinas, solidificado o estilo de pompa e balofa circunstância fica o ditado provado “ Deus os fez, Deus os juntou”. O problema restante é o de saber quem vai arcar com as culpas quando perderem as próximas legislativas.

A parlenda poderia parar por aqui, com o reconhecimento que estes políticos são uma verdadeira ameaça ao futuro dos Gatos Fedorentos, se o inultrapassável Menezes não se tem saído com mais um formidável arranque político, muito a propósito para o fortalecimento da democracia e da fé dos portugueses nos seus políticos e instituições.

Foi o caso, eu ouvi com estes que a terra há-de comer, da sua peremptória afirmação de que concorrendo ao BCP um presidente da área socialista, teria de ser nomeado, obrigatoriamente, para a CGD um presidente do PSD.

Assim, sem mais nem menos!

Ouvi e espantei! Não por não saber que desde há muito, no campo económico-financeiro, existe uma convenção, não escrita, de repartição de poderes pelo blocão do centro, mas sim pelo despudor do requerimento o qual, não se baseava minimamente em critérios de competência mas sim na posse do cartão do partido. Este sim era exigência indispensável. A competência, se a houvesse, viria depois.

Lindo! Admirável! Inultrapassável!

Empresas privadas, empresas públicas, irmanadas na mesma luta! Para lá das diatribes sobre independência, competência, livre decisão de accionistas, mantêm-se, nestes pobres liberais, a crença profunda no amparo do Estado, a sua especial predilecção pela distribuição de benesses e pela resolução das porcarias que sem rebuço vão fazendo e que, longe da sanção justiceira que se esperava, terminam num conluio de compadres, onde o que está em jogo é a divisão da presa num ora tomas tu, ora tomo eu, em estilo brilhantinoso e cediço, que agonia o mais distraído dos cidadãos.

Será possível “dessarriscar-me” de sócio deste engordurado País, alegando o estado de vómito contínuo?



Publicado in “Rostos on line” – http://rostos.pt

dezembro 20, 2007

tema de solidão IV

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eu hoje andei
pelo meio de um desespero
feito de mansas saudades
perturbadas
em lágrimas suaves
onde não se sofre nada

mas acordei bisonho
e sem saber porquê
embrulhado em desejos de esquecer
o que não lembro
e já me falta e ainda me sobeja

acordei partido entre
dois mundos dois poemas
dois profundos sonhos acordados
onde o ar que respirava
era pesado

se fui poeta foi só neste acordar
entre o gelo do tempo
a degelar
e o calor de um corpo a descobrir

aqui
na velha galáxia apodrecida
entre o raiar de um outro sol de outra vida
a nova luz apenas vislumbrei

e tão intensa era
e tão distante
que sem saber porquê
num só instante
dentro de mim os anjos acordaram

…………………………………….

só eu não acordei

dezembro 13, 2007

O dado e o enunciado

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Reconheço! Embirro completamente com a ministra Maria de Lurdes. Detesto o seu ar lânguido, melancólico e crispado, o discurso de melífluo autoritarismo, o manifestar de intenções para as escolas a que corresponde, maioritariamente, uma prática absurda e contrária ao enunciado.

Se bem se lembram, quando a pessoa se sentou na mula do poder, afirmou o seu propósito de melhorar a imagem dos professores, reforçar o poder disciplinador e de, assumindo ser a educação o ponto fulcral para o desenvolvimento do País, vir animada da vontade de transformá-la no instrumento essencial para o salto qualitativo da Nação.

E se bem o enunciou, mal o fez.

Os principais problemas da educação estão desde há muito levantados: falta ou inadequação de equipamentos, sobrepopulação das escolas e das turmas, inexistência de locais de trabalho adequados, desinteresse e indisciplina de uma boa porção dos alunos.

Grande parte destas situações é devida à massificação do ensino, sem a outorga de meios suficientes para fazer face a tal mudança e sem terem sido traçadas perspectivas adequadas às realidades e às funções renovadas da escola. Também assistimos a um vendaval de reformas iniciadas por um governo e abortadas pelo seguinte.

Presenciámos, de bancada, o desmoronamento do edifício escolar por excesso de carga e incompetências governamentais.

Com a entrada desta ministra para o pelouro, veio um discurso de rigor no ensino e na aprendizagem, exigência de qualidade e dignificação do papel do professor. Dado o caos em que as coisas estavam não parecia difícil cumprir o enunciado. Bastaria um trabalho sério de organização, distribuindo os recursos de forma eficaz, agrupando os professores em torno de objectivos claros e atribuindo os meios para se alcançar os fins.

Fácil, não é?

O que fez a ministra?

Olhou para a escola e viu um enorme custo financeiro. Coitada, não percebe a diferença entre custo e investimento! Considerou que os maus resultados escolares eram exclusivamente culpa dos professores e abriu, contra eles, uma guerra que conduziu ao resultado inverso da enunciada política de dignificação dos docentes. Tentou, e durante algum tempo conseguiu, virar a população contra os professores, apontando-os como uma classe incompetente e de madraços, gozando privilégios excessivos. Com o pretexto de igualizar esta classe com o regime geral quebrou, de forma leonina e unilateral, o contrato de trabalho até aí existente, sem ter em conta a especificidade do acto pedagógico. Introduziu de maneira artificial a divisão entre professores concebendo, de modo arbitrário, a categoria de professor titular, inserindo no sistema uma divisão em que a qualidade pedagógica quase não foi tida em conta e onde os cargos burocrato-administrativos, desempenhados nos últimos sete anos, tinham peso determinante, alimentando, assim, uma atmosfera de mal-estar e um sentimento de injustiça generalizados.

Mas fez mais. Atafulhou os professores de trabalhos administrativos, retirado ao tempo de preparação de aulas, elaboração e correcção de trabalhos, tempo de maturação e avaliação, induzindo a deterioração da qualidade pedagógica e a fabricação de dossiês demonstradores de uma qualidade meramente documental.

O ensino que devia ser criativo e interessante transforma-se, assim, num vórtice de tarefas onde a qualidade do mesmo e a atenção ao aluno são preteridas a favor de representações escriturais e de permanências alongadas e, por falta de estruturas de apoio, improdutivas.

A cerejinha no cume do bolo é, porém, a nova legislação sobre as faltas dos alunos. O seu objectivo declarado é o de “salvar” o aluno absentista e desinteressado. Como se faz? É simplérrimo, se o aluno não se interessa e não vai às aulas não chumbará por faltas. Não senhor! Qual quê? Ser-lhe-ão feitos teste de recuperação até que o discente venha a “demonstrar” um saber que não quis adquirir e não se percebe onde o irá obter.

O pensamento profundo que subjaz nestes princípios continua a ser o da guerra da ministra contra os professores. Se o aluno falta não é por sua culpa ou desinteresse, é porque o professor o não sabe cativar. Logo, castigue-se o professor!

Deste modo, de uma só penada, a querida ministra consegue destruir a possibilidade dos professores manterem alguma disciplina em turmas de trinta alunos - onde nem todos pretendem aprender - e, obrigando a passagens estatísticas compromete o futuro do País e dos educandos que parece proteger. Lá teremos de novo, como nos tempos salazarentos, um nível estatístico de literacia mais elevado que o real, lançando na vida uma quantidade de novos iletrados funcionais.

O custo desta política cega pagá-lo-á o País em termos de desenvolvimento.

Uma outra medida ministerial é a da permanência dos professores, durante três anos, na escola onde foram colocados. Se em termos de estabilidade dos estudantes podemos aceitar esta obrigação, já a forma como a mesma foi estabelecida produz, mais uma vez, resultados antagónicos aos previstos.

Senão, vejamos.


Quando qualquer empresa privada pretende deslocar um seu colaborador para local diferente daquele para onde foi contratado é, legalmente, obrigada a pagar-lhe as viagens, despesas de alimentação e alojamento e a atribuir-lhe ainda uma ajuda de custo que minore os incómodos e os acréscimos de despesas tidos com essa deslocação. Isto é normal e justo, mas não é o que se passa com os professores. Se dois professores, casados e com filhos, forem colocados em escolas distantes terão que ter, no mínimo por três anos, duas casas em locais diferentes, divisão de filhos ou entrega a avós, e despesas de manutenção acumuladas, não recebendo, em troca, nada mais que o seu salário normal.

Esta situação é injusta e inumana mas é assim que a ministra vê a aceita as coisas. Tudo em nome da dignificação dos professores, do benefício do ensino, do fortalecimento da família.

Tantas e mais malvadezas, que não cabem neste escrito, só podem resultar de uma inépcia inaudita, de um ódio cego ou de uma estratégia de desvalorização do ensino oficial.

Quanto a mim, é aqui que bate o ponto.

Criada a instabilidade emocional e profissional dos professores, relaxadas as regras de obtenção de conhecimentos e civilidade, comprometida a competência adquirida no ensino oficial, quais serão os pais que, fazendo das tripas coração, não hipotecarão as suas vidas para pagarem aos seus filhos um ensino que possibilite uma garantia de futuro? E onde o poderão fazer? No ensino particular, evidentemente!

Não é pois por pura maldade ou incompetência que a ministra age. Norteia-a o pensamento economicista e neoliberal de que não é ao Estado que cabe garantir a educação dos seus cidadãos, de modo tendencialmente gratuito, mas que tudo se mede pelo lucro imediato ou pela supressão de despesas. É a absurda noção de que a escola deverá ser gerida como uma empresa. Daí resulta que, o mesmo que um ministro de direita disse a respeito da saúde, pensa esta ministra sobre a educação:

- Quem a quiser que a pague!



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novembro 29, 2007

tema da solidão III




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para além de toda a dor
nós persistimos
em tudo quanto é fogo
acordados nos sonhos das cascatas


a sombra dum cabelo
na encosta
aponta-me esta água
descida corpo opalescente
trídulo cantar de uma avena
quente



como uma lágrima de olhos
por dentro deste corpo meu
desliza


que triste é a tristeza que me cerca
quando longe das mãos eu já não toco
a longa superfície onde deslizas
como forma poderosa e pequenina

no céu brilham as galáxias inocentes
por dentro dos teus olhos de menina

novembro 28, 2007

Onde há carne sempre voam abutres

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Conheci o Alexandre nos anos cinquenta. Vizinhos de tenda num acampamento internacional era um dos poucos que se relacionava com ele. De anos, tínhamos os mesmos, mas ele era muito mais velho do que eu.

O Alexandre era casapiano. Ainda antes dele e dos seus colegas chegarem ao local do acampamento, já corriam rumores de que os casapianos iam chegar. Acompanhava o sururu uma nota de precaução no sentido de não se lhes dar confiança porque os putos da Casa Pia eram arruaceiros, ladrões e mariconços.

Isto sem mais nem menos há quase cinquenta anos.

Portanto podemos concluir que os casos Casa Pia não são unicamente os de data recente mas já se perdem no fumo das histórias contemporâneas.

Escrevo isto como forma de justificação dos acontecimentos mais recentes ou para justificar os procedimentos de quantos estão acusados de pedofilia e abusos sexuais a menores?

Nem pouco mais ou menos.

A minha intenção é tão-somente não me deixar embarcar nas indignações fáceis, igual aquelas que o bom povo ululante faz às portas dos tribunais para se sentir superior a quem de alguns crimes vai acusado, mas de tentar situar os dados do problema para que, compreendido, melhor possa ser atacado e ultrapassado.


Comecemos pela pedofilia. Correndo o risco de chocar muita gente bem pensante sou obrigado a reconhecer que esta prática não é, na sua substância, um crime. É crime nas sociedades onde a instituição jurídica ou os preceitos morais assim o considera. Por mais chocantes que algumas práticas possam ser para um dado povo ou cultura, pode a mesma ser considerada inócua, ou mesmo virtuosa, numa outra talvez não muito distante na geografia ou na história.


Concretizemos. Aquilo a que chamamos pedofilia é entendido em algumas culturas como protecção de menores. Assim, em certas etnias na Índia era costume (ou ainda é) casar as raparigas em tenra idade, com homens mais velhos que, em caso de desaparecimento dos pais lhe garantiam a protecção necessária numa sociedade onde uma rapariga sozinha não poderia sobreviver. Na Melanésia, em muitas tribos, a iniciação sexual faz-se em crianças muito novas (de ambos os sexos) por um familiar próximo. Seja-me perdoado a generalidade destas informações mas, como apenas as utilizo como ilustrações, seria fastidioso enumerar minuciosamente essas etnias, costumes e regiões.

Por outro lado, temos a grande norma fundadora das sociedades que é a proibição do incesto. Com efeito, um dado homem ao privar-se da posse sexual de uma mulher da sua família, entregando-a a outro, funda uma aliança que é a base das relações familiares, económicas e societais. Presume-se que a horda se torna grupo com a instituição desta regra. No entanto, a regra é criada para suprir falhas de “comportamento natural”. Mas, sendo as normas impostas, pelo exterior ao indivíduo, demoram anos a ser globalmente interiorizadas como “comportamento natural”. Até chegarem e esse estádio - e um pouco menos quando é atingido - necessitam de vigilância e sanções para os prevaricadores. Assim se cria o crime e o castigo.

Feita esta leve incursão por tropos antropológicos regressemos ao assunto.

Na civilização ocidental está profundamente assente a regra da proibição do incesto. Faz parte integrante daquilo que para nós é proceder “naturalmente”. Todo o agir a contrário nos choca e ofende. Reagimos a essa quebras com indignação e nojo. Mas se reagimos é porque, para lá de leis e proibições, o facto existe. É uma pulsão? É um desvio de personalidade? É a vontade de transgredir porque a falta é mais aliciante que o cumprimento?

É possivelmente um pouco de tudo isto.

Por isso vamos encontrar, transversal a toda a sociedade, com enorme incidência nos familiares próximos, comportamentos sexuais virados contra os menores calados por uma complexa rede de afectos, dependências e pesados silêncios.

Em que é que os acontecimentos da Casa Pia se destaca deste pano de fundo desagradável, mas existente? No facto de que estas crianças, entregues ao Estado, estarem mais desprotegidas e, durante muito tempo terem sido sujeitos de direito ténue e socialmente desvalorizadas. O chocante é que elas foram mais coisas que pessoas, mais objectos que sujeitos.

Um objecto é transaccionável, utilizável e descartável.

Assim aconteceu, tantos anos, aos deserdados da sorte que residem nas esmolas das instituições. Menos que cidadãos, por posição e idade, habitam um estatuto de menoridade social que permite, sem grandes escrúpulos ou perigos, o desabalado prazer de quantos aceitam estar acima das leis por poder, riqueza ou fama. Ah! É claro, também daqueles que, à sombra da protecção dos poderosos, lhe servem os seus banquetes proibidos, esperando protecção eficaz e eterna.

Mais ainda! Nem sempre as crianças são meros agentes passivos na situação. A falta de carinho, a impessoalidade institucional, a identidade fluída e as solicitações de uma sociedade do Ter, roçando pela sua impossibilidade económica, resultam num Ser difuso, desorientado, pronto para procurar e ceder perante deslumbramentos de consumo impossível, tornados realizáveis.

Por isso, todas as medidas de investigação, olhando para o passado, não vêem o presente. Nem vislumbram o futuro. Só a consideração de completude e identidade de cada ser humano é medida suficiente para obstar à continuidade de casos Casa Pia. Isto é trabalho árduo, para muitos anos, que não se limita apenas a justiça e acompanhamento, mas que tem a ver com a estrutura profunda da sociedade envolvente.

Não sei o que foi feito do Alexandre. Após a curta temporada que durou o acampamento voltámos, aos nossos espaços e ocupações, sem mais sabermos um do outro. Nunca me esquecerei porém que ao ouvi-lo contar as suas aventuras perdi a inocente visão de um mundo, senão paradisíaco, pelo menos certo e seguro. Ele trouxe-me o cinismo necessário à sobrevivência num meio selvático, do qual me sentia protegido e, se não me disse, pelo menos fez-me pensar que onde há carne sempre voam abutres.



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novembro 17, 2007

tema da solidão II


Tela de Kira

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atenta à sua porta espera
a breve permanência duma vida
na fímbria da soleira desespera
a pálida manhã
interrompida

alabastro de fogo lhe chamaram
sabendo que ficar é por demais
os barcos descuidados encalharam
em plena madrugada

em terras de poente
estremunhada
constrói a solidão

os barcos
atenta à sua porta espera

os barcos não virão

novembro 16, 2007

“É a estatística, estúpido!”








No início da década de 70 do passado século, Bourdieu e Passeron, sociólogos franceses, publicaram um livro, que veio a fazer doutrina, chamado La reproduction.

Nestes estudos os autores partiam da hipótese de que a escola, apesar de reclamar para si a capacidade de introduzir na sociedade factores de ascensão social, unicamente baseados no mérito individual, assentava hipocritamente na reprodução social, isto é, na transmissão, de pais para filhos, de posições equivalentes na estrutura societária.

O método utilizado foi o da observação do percurso escolar de um grupo de jovens entrado em determinado ano no sistema escolar. Assim, e sumariamente, os autores verificaram que uma grande percentagem de alunos abandonava a escola no fim da instrução primária, que os restantes avançavam para o ensino secundário e que só uma muito pequena parte seguia para estudos superiores.

Até aqui nada de novo, dirão os meus possíveis leitores, desiludidos com este arrazoado e possivelmente pensarão que estou a fazê-los perder o seu rico tempo afirmando o que é facilmente descortinável a qualquer um mesmo sem a mínima preparação sociológica.

O interessante é que os autores em referência decidiram dissecar os percursos escolares e profissionais dos pais dos componentes do grupo em análise.

Surpresa das surpresas, ou talvez não, verificaram que aqueles que abandonavam o ensino no final da instrução primária eram filhos de famílias operárias e onde a instrução primária era a dominante; já os que seguiam para o secundário tinham como pais pequenos comerciantes, funcionários públicos, encarregados oficinais e por aí adiante; os poucos que chegavam ao ensino superior eram, “inesperadamente!!!”, filhos de licenciados e das classes dominantes na sociedade.

Deste modo, os nossos autores desmontaram o discurso hipócrita da democracia e do mérito e mostraram que a escola era, como tantos afirmaram antes e depois, um instrumento ideológico visando a manutenção da estratificação social existente, alterando apenas o suficiente para que tudo se mantivesse igual.

Por alturas deste estudo, ainda em Portugal, o ensino não era massificado. As divisões sociais eram demasiado marcadas e evidentes através de extenso número de analfabetos e da cisão do secundário em estudos práticos – escolas comerciais e industriais - para os filhos das classes menos classificadas, liceus para a classe dos futuros funcionários e universidades para a esmagadora minoria dos possidentes ou equiparados. A inquietação pelo ocultamento do fenómeno da reprodução social viria apenas com o 25 de Abril e as sucessivas reviravoltas dos diferentes projectos sociais.

No entanto não devemos esquecer a preocupação de Salazar, tentando igualar-nos às nações europeias em número de alfabetizados, ao “conceder no mínimo a terceira classe” à maioria dos cidadãos nacionais. Seria ideia louvável se se traduzisse no efectivo apoderamento de conhecimentos por parte dos atingidos mas, como foi patente, apesar da camuflagem, tratava-se apenas de uma operação cosmética, visando uma movimentação quantitativa e meramente estatística. Depois da campanha nem os portugueses liam e escreviam melhor, nem tinham adquiridos novos conhecimentos ou hábitos, mas as comparações numéricas em sede internacional demonstraram o grande salto em frente do nosso país na valorização das aprendizagens e na aproximação ao nível de escolaridade das populações europeias.

O actual Governo, mormente através da sua ministra da educação, apresentou-se com um discurso de valorização do ensino, fautor de modificação e aumento de competências, de incremento do mérito, do esforço e do interesse.

Discurso interessante, prática decepcionante.

Não vale a pena insistir muito mais sobre o relacionamento instaurado pelo Ministério da Educação em relação aos “seus professores”. Onde se queria valoração apareceu humilhação; onde era de esperar reforço de poderes disciplinares e tempo para a aplicação de pedagogias ajustadas e reconhecimento de métodos, estatuiu-se burocracia; em vez de apoio aos melhores profissionais orientaram-se as mentes para processos administrativos e do parece ser…

Enfim, continuamos com mais do mesmo.

Um professor tem necessidade absoluta de se dedicar, no seu tempo de trabalho, por inteiro, aos seus alunos. Seja por atenção directa em sala de aula; seja por tempo dedicado a actualização e pesquisa; seja por correcção e acompanhamento de trabalhos ou por abertura de diálogo com os encarregados de educação, de molde a que o ensino não se torne um abstracto descarregar de conceitos estranhos à vida e que a maior parte, por não se aperceber para que servem, somente atura e quase sempre rejeita.

Colocar o professor trinta e cinco horas semanalmente na escola poderia ser uma boa decisão se lá houvesse estruturas tais como gabinetes, bibliotecas actualizadas e outros meios de trabalho em quantidade e qualidade suficiente para que o professor, terminado o tempo lectivo, pudesse então preparar aulas, corrigir testes, acompanhar alunos, atender pais. No entanto, como sabemos, não é isto que acontece e os professores, de castigo por qualquer indizível culpa, permanecem nas suas escolas, ocupando o seu tempo em miríades funções, algumas desviadas do papel docente, e terão de ir para casa - roubados do merecido descanso e do apoio à sua família - passar horas e fins-de-semana, a tratar de actividades exclusivamente dedicadas aos vários actos a que bem ensinar obriga, sem remuneração por este trabalho extra e nem sequer reconhecimento dos órgãos ministeriais.

Para tornar ainda o discurso ministerial , sobre mérito, mais absurdo e distanciado do mundo real, aparece agora a peregrina ideia de retirar às escolas a possibilidade de reprovar por faltas os alunos, tão desinteressados do acto de aprender, que nem sequer o esforço mínimo requerível – estar presente na aula – estão dispostos a despender. Para eles, será, provavelmente quando lhes apetecer, feito um especial exame de recuperação!

A minha alma pasma!

Exame de recuperação de quê? Se o aluno não está interessado, se por faltar frequentemente às aulas não pode captar os conhecimentos que lá são transmitidos, o que e onde pode ele recuperar? Espera-se talvez que por um acto mágico, repentinamente, o trânsfuga tenha um sopro de iluminação e debite o que não sabe nem nunca se esforçou por aprender?

Ou será outra coisa pior?

Então se todos tiverem oportunidade de atingir o décimo segundo ano, mas se esse grau de ensino for, subtilmente, desvalorizado nuns alunos e valorizado, por efectividade de saberes ou prosseguimento de estudos noutros, não estaremos a acentuar uma distinção social que virá facilitar a continuidade de reprodução da estratificação existente?

É evidente que não. Tal enormidade não poderá deixar de ser um acto perverso do meu modo de encarar as claras e eficientes medidas da Ministra da Educação, a qual, por opção ideológica, está obrigatoriamente imersa num pensamento socialista de inclusão igualitária por mérito próprio e nunca, por nunca ser, tenderá a perpetuar diferenças pelo acaso de uma mais elevada capacidade socioeconómica mantendo, ao mesmo tempo, o favorável evoluir das estatísticas de literacia nacional.

A propósito parece-me que nos melhores colégios particulares esta disposição sobre faltas não irá ser acolhida e que os mesmos continuarão, apesar da perda de propinas, a expulsar os alunos desinteressados e faltosos.

Que estranhas razões enformarão este tão grande altruísmo?



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outubro 07, 2007

tema da solidão I



na leitura completa e transcendente
mergulhamos vazios neste café
onde ausência funciona intermitente
num tejo mansarrão que perde o pé

intromete-se o rio na minha bica
neste momento ignoto introspectivo
e nunca sou aquele que atrás fica
tão somente um presente objectivo

sobre a palma rota desta mão
fica o futuro porto a descoberto
em volutas lineares de solidão

e todos vós amigos estais tão perto
do lume que incendeia o coração
que eu entro no café de peito aberto

de repente
reparo que o poema
se recusa ao que sinto
e se tranforma inútil
no morfema
das dores em que me minto

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setembro 27, 2007

Os lutos de Esmeralda

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Pega-se numa palmeira ainda arbusto, retira-se da terra onde cresceu e, com todos os cuidados, transplanta-se para local apropriado. Temos noventa por cento de probabilidades de que a palmeira morra.

Se isto é assim com um vegetal, o que se passará com um ser humano? Provavelmente nada de especial, senão é impossível entender o acórdão do Tribunal da Relação de Coimbra em relação ao Sargento Luís Gomes, quer na substância, quer nos seus termos.

Reafirmando a decisão de primeira instância ordenaram os juízes deste tribunal que a pequena Esmeralda fosse entregue ao pai biológico.

Não duvido que a decisão esteja bem estribada em normas de direito, mas nada me obriga a concordar com tal deliberação. Nem sequer consigo encontrar razões para, neste caso, concordar com o estrito seguimento das leis, neste país onde a delonga no tratamento de processos deixa sem castigo tantos e mais gravosos crimes.

É crime desobedecer ao Tribunal? Sem dúvidas que é. Mas, todas as desobediências têm o mesmo valor facial? Com certeza que não! A sentença de prisão por três anos a que Luís Gomes foi condenado, não é, para a sensibilidade pública, um nítido exagero? A resposta foi veementemente dada, ainda não há muito tempo, por um público emocionado e incrédulo a tanta sanha justiceira em relação a este homem que apenas pretendeu defender a integridade emocional de uma criança a qual, no seu coração, já lhe pertencia.

Ah! Pois! Mas a transacção, no sentido nobre da palavra, não decorrera segundo os preceitos legais. Admitimos que sim mas, no interesse da menina evocado, desde sempre, pelas instâncias judiciais, não seria preferível preservar-lhe o bem-estar, a saúde, quem sabe se a vida, aceitando, de uma mãe sem possibilidades económicas – com a ausência de um não-pai contumaz -, uma criança para agasalhar e mimar? Parece bem que não. Na dificuldade de concertar legalmente e em tempo justo a adopção, esperar-se-ia que a mãe e a criança tombassem de exaustão e fome para então se percorrer o caminho sacrossanto de uma legalidade encerrada sobre si própria. Sinceramente, é desumano!

Como também acho inaceitáveis os termos em que os ” pais afectivos” são descritos na pronúncia. Parece que o pecado original de não ter obedecido à tardia ordem de tribunal para entregar a “sua criança”, a um pai subitamente descoberto, entranha toda a lógica judicativa. Então eles nunca pensaram no bem-estar da Esmeralda? Os anos que trataram daquela criança foram puro egoísmo? O tempo de prisão sofrido, as provas de amor dadas pelo casal é só interesse próprio?

Distraído anda o julgador que tal pensa.

O que eu encontro na acusação e no seu tom é qualquer coisa de conservadorismo social que visa castigar a mãe natural – que parece não existir em todo o processo - pelos seus comportamentos morais, os pais afectivos por porem o amor acima das prescrições sociais, e premiar unicamente o acto biológico masculino de procriar, dando-lhe um estatuto muito superior aos actos sucessivos e permanentes de manter e educar.

Em qualquer sociedade evoluída não é este o pensamento dominante.

Não é preciso, para resolver esta embrulhada, recorrer a psiquiatras – com ou sem pedo anteposto – nem a sofisticadas análises societais. O senso comum diria que, estando as coisas no pé em que estão, o melhor seria permitir a continuidade de permanência da menina com a sua actual família, permitindo o avizinhar da criança aos pais biológicos (a ambos), até que em idade decisória fosse ela a escolher com quem quereria continuar a viver. Fora disto receio bem que, por melhores intenções havidas, na vida da Esmeralda se venha a instalar uma imensa falha conducente a enormes e continuados lutos sem resolução.


Publicado in “Rostos on line” – http://rostos.pt





setembro 22, 2007

setembros II




I

aguardo agora a passagem da paz sobre o colibri do tempo
tumultuosos de imensidão doem-me os espaços

aqui te espero e me perfaço

alguém me disse
a hora de partir é um inverso sorriso
dolorido no momento
em que prantos morrem por dentro das vozes
tal um substantivo estala lentamente no real dos dentes
e adormece recalcando a luz e o olhar

aguardo calmo o tempo
de parar

II

estudas vagamente o lento traçar das pernas
espontâneas as coxas sobrenadam
recolhidas nas memórias

resides nessa messe subtil e recortas o recôndito do sexo
pleno exercício de perfeccionismo
quando te dás e és meiga generosa e pensativa

encontro-te por vezes no todo onde resisto
lugar de movimentos e recusas
procura imediata de tudo quanto é novo
inocente e pleno e montado na loucura das palavras
setembro avança e as notícias vagamente vão chegando

III

há quanto tempo espero o teu sinal
égua de vento carrossel de chuva
e preparo as imagens que se perdem nos amados Setembros
entre as muitas águas da realidade

dizes-me
em setembro meu amor iremos aos campos
onde as borboletas se amaram com doçura e se extinguiram
pequeno fogo que ilude as madrugadas e o céu é pasto
de mansas estrelas iniciais
pedes-me mudamente que te espere
contas histórias incompletas e heróicas
produzindo os alicerces da minha catedral

porque me falas de setembro
se todas as sombras estão paradas
e desmoronadas pelas frinchas da tristeza
as paredes escurecem em prematuros invernos
vesperais

que nada tivesses dito por setembro
e me fosses interdita meu amor
nem teimasses em parecer possível
ó irrealizável alvorada de azul transparente e completa
tonta gazela que te esvais nos moinhos das palavras
quando desapaixonada comentas

em setembro lembro-me da morte

e fechas os olhos contra a almofada
e calas o medo das tardes
por enquanto doces e doiradas
e do vento fresco nos ocasos
pesados em abismo sobre os olhos
melancólicos e trágicos de nuvens
plantadas à porta dos sorrisos

IV

em setembro longe das promessas por fazer
ou dos sonhos por cortar
construí esta história nas asas dos ventos minerais

em setembro não vieste o sonho desfazia
em setembro entre raivas e esperanças
o tempo por demais se consumia



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setembro 15, 2007

setembros I




I

recordo a melancolia dos beijos
suspensos entre o hálito de setembro
e um insuspeito golpe de outono

traduzo o lume brando dessas tardes
os ocasos fortuitos de langorosos sóis
no ruge-ruge de olhos marginais

no incómodo da pele traça a tua mão
arabescos de fogo sobre as malvas
estáticas em tórridos areais

II

soltam-se as primeiras nuvens e os céus
ainda claramente juvenis caem na modorra
dos apressados hábitos

cinzento é acampamento de esperanças
no solitário corte dos umbrais

III

eu sei
não mais cantos de cigarras não mais
somente as ternas sensações pretéritas
remordem em remorsos outonais

eu sei
e por saber estou de qualquer modo
por demais afastado da acção

recordo os lumes velhos
e esmagando rumos ou trovejando camas
procuro no casulo a paz desta estação

dobo a luz afago a natureza
preparo o advento na minha fortaleza
de outros dias grandes e ferozes
onde termine a minha hibernação

IV

o vento largo e fresco amarinha
arrasta as coisas velhas pelo ar
setembro é chegado
a luz caminha
devagar

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setembro 12, 2007

Mercado de Rua "Marquês de Pombal": Mercado de Santa Maria / Verderena - Curiosidades...

Mercado de Rua "Marquês de Pombal": Mercado de Santa Maria / Verderena - Curiosidades...

Movimento de Cidadania em prol do Mercado do Marquês. Iniciativa de Cabós Gonçalves a apoiar. Visite o Blogue.

O fatinho do Franklin







Foi uma estranheza. Um escancarar de boca. Uma autêntica espantação!!!

O meu amigo Franklin, génio maior da defesa do comércio local estava ali, mesmo na minha frente, no mais impossível dos lugares. No centro comercial.

Perguntar-me-ão qual a novidade. Qualquer pessoa vai a uma grande superfície, pelo menos, de vez em quando. Até mesmo os mais renitentes comerciantes tradicionais lá vão fazer umas compritas…

Só que o Franklin fazia gala em nunca ter entrado num centro comercial. Para ele, todos os malefícios da sociedade de consumo, todas as agruras da globalização ali se encontravam, física e simbolicamente, representadas. Se o demónio residisse em algum lugar era nesse antro que, certamente, repousaria os seus metafísicos ossos. A sua Bíblia era a Caverna, de Saramago, a sua caldeirinha de água benta, o abaixo-assinado contra a abertura das grandes superfícies ao Domingo.

Por isso lhe disse: - Oh! Homem, tu por aqui? Mas que grande sacrilégio! Então e o comércio tradicional onde fica agora?

- Nem me fales nesses gajos – explodiu. Que rebentem todos! Nunca mais me vais ver numa loja qualquer. Palavra de honra. Seja eu ceguinho se mais alguma vez caio nessa parvoíce.

Iracundo gesticulava violentamente enrubescendo quase até à apoplexia.

Pensei para comigo que só coisa muito séria levaria o meu amigo a voltar as costas aos aliados de uma vida e tornar-se assim, todo de rompante, para o inimigo.

-Conta lá, pá!

Abriu-se a barragem e o rio desaguou torrentoso pela encosta das palavras.

Era uma vergonha. Não podia ser. Então ele, que fora convidado para um casamento, ao dar a volta ao guarda-roupas não encontrara véstia digna da cerimónia. Decidiu por isso comprar uma sécia catita que estivesse à altura do acontecimento e não envergonhasse a família. A mulher bem o tentou para ir ao centro comercial: - porque lá havia muitas lojas, maior escolha e o preço até poderia ser bem melhor. Por causa da concorrência (esclareceu). Mas ele, nada. Certo da sua razão apostou em comprar o fato numa casa comercial do burgo. Centros comerciais é que não! Logo ele que os considerava um clamoroso perigo de lesa tradição.

Por isso, arrastando uma furibunda esposa, correu seca e meca e lá conseguiu encontrar o fatito que lhe ficava a matar:

- Punha-me dez anos mais novo.

Logo ali o mercadejou e marcou alturas e larguras para que a roupa se lhe ajustasse à figura.

Transacção quase efectuada e eis que surge um problema. A costureira estava sobreocupada e demoraria alguns dias a fazer os arranjos. O Franklin esclareceu a vendedora que embora o fato só fosse necessário no mês seguinte, era imprescindível que estivesse pronto antes do fim dessa semana. É que ele ia de férias e só voltaria na noite da véspera do casamento. O argumento convenceu a vendedora. Prometeu-lhe logo ali que no sábado seguinte, pela manhã, teria o fato arranjado e à sua disposição. No entanto, por precaução, o meu amigo ainda frisou:

-Olhe que não pode falhar! Era para sair no sábado de manhã mas vou adiar a viagem para a tarde para vir buscar o fato.

-Mas por quem nos toma Sr. Franklin, escandalizou-se a vendedora. Palavra dada!

Foi dada mas não foi cumprida. Na manhã de Sábado bem andou o Franklin de volta da loja. O fato não estava, a vendedora idem e o empregado que o atendia não conseguia encontrar sequer a nota de encomenda. Por isso, cheio de cólera e angustiado, partiu o Franklin para férias a pensar que teria de arranjar-se com o que tinha em casa, nada à altura daquele acontecimento social que já assombrava o gozo das suas férias.

Dada a arrelia que lhe ia no coração a sua mulher telefonou para a loja, falou com a empregada que tinha feito a venda e entre raivinhas e desculpas combinaram a antecipação do retorno em um dia para irem buscar o fato que, assegurava a vendedora, estava, mesmo ali na sua frente, arranjadinho de todo. O Franklin anuiu, suspirou e descansou. Estava salva a honra da família!

Voltaram e foram em demanda do ansiado fato. Mas qual quê! Por muitas voltas que dessem a vendedora, ela própria que afiançara a prontidão da roupa, dizia compungidamente, como havia ainda tanto tempo, não se tinha pressa, a roupa não fora logo enviada para a costureira; que ficara à espera de melhor vaga, que tinha havido engano e que por fim, o esquecimento se instalara e agora não havia nada a fazer. Sim, sim, devolveria o dinheiro. Então, era uma casa séria, de porta aberta, em que os clientes podiam ter toda a confiança…

O Franklin explodiu! Antes de partir a loja, foi arrastado para a rua pela mulher, sob o olhar indignado da vendedora, que não percebia como podia haver gente tão mesquinha, capaz de criar confusões por dá cá aquela palha, tão incapaz de perceber a tremenda complexidade da sua tão difícil função.

Esmagado pela tremenda necessidade de ter o fato novo ou de ceder nas suas convicções, o meu amigo deixou-se convencer pela mulher e cedeu. Foi ao centro comercial e teve sorte. Um fato bonito, um empregado a querer subir na vida, a necessidade do cliente a ser ordem e volte cá às nove da noite que tem o fato pronto. E teve.

Por isso agora o Franklin com a mesma força que punha na luta a favor do comércio tradicional luta agora pelo seu total desaparecimento debaixo das grandes superfícies. Quando eu lhe disse: nem tanto ao mar nem tanto à terra, olhou para mim com os seus olhinhos furibundos e rematou:

-São todos uma cambada. É esmagá-lo, Ireneu, é esmagá-los.





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julho 03, 2007

novas histórias de penélope - ulisses não volta



I

não há barcos em ítaca morre-se entre o nevoeiro
e ulisses não volta
não há remos e as ilhas
afundam-se entre a barra sem a barca de ulisses

circe desmonta inútil o encantamento
eólo brame as velas afasta tróia e
em tréguas de sal penélope espera na moldura

em vão espera penélope um ulisses se âncora
ulisses desgarrado nas quilhas da inquietação
penélope espera em vão

II

o seu corpo pairava sobre as águas
concebível nas formas que lhe dava
o seu corpo quieto sonhando o movimento
não se aquietava

em plena era de bruma sobre as águas
feridas de ulisses vinham as memórias
onde ulisses já sem vida se agitava

III

volta de novo ao esconço da capa dp retorno
morre capitão torna soldado ferido e sem glória
volta momento e só sem mais história

mas ulisses já não volta
consumido por presságios morenos que trouxera
corta as amarras e a miragem de ondas que fizera

e na sua metáfora
escondido momento de amargura
penélope está à espera
sem procura

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julho 02, 2007

novas histórias de penélope


(imagem David Ligare)


penélope a que espera por paixão
já não espera não a espera
desesperada

penélope
já não espera nada

porque esperar é um cansaço de olhos
um cardo
escolho da terra desventrada

penélope
já não espera nada

e no entanto
ulisses em tardança
é uma forma perversa
de esperança

é que penélope não espera a espera
atende que a porto desejado
a clássica manhã se aventure
no espaço transformado

assim penélope
no termo da solidão
fica parada

e não espera nada

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julho 01, 2007

novas histórias de penélope - polifemo




hoje ulisses embarcou
num ovni
a caminho da estranheza

apegada à terra
penélope circunda os espaços
na procura da fronteira
dos abraços

ulisses tem
uma nave um caminho
e penélope a firmeza de um carinho
só concebido em votos
mas real

se ulisses é o percurso
o por fazer
penélope é o porto da certeza
de uma imensa forma
de estar

ulisses passa mal
agoniza no tempo
penélope tece o seu momento
a sua calma forma
de aguardar

o mar é um espaço
um fosso um tormento
que há que navegar

de repente a ilha
o asteróide surge
na proa enloquecida
sabe ulisses então
que viverá ali
um tempo já vivido

de polifemo o gado pasta lá
e a fome de ulisses repentina
aguça-lhe o engenho e vá não vá
toca de dizimar a raça ovina

polifemo está só
no seu disforme corpo
no seu olho solitário e transviado
roda a saudade como dura mó
suavizada apenas pelo cuidado
que em desvelos ao seu rebanho


polifemo disforme é generoso
e percebe um filho seu em cada anho

polifemo está só
que galateia por ácis o trocou
e partiram para a morte bem juntinhos
no sonho que os tocou

em vão polifemo
tenta esquecer
o amor que ele mesmo
fez morrer

ulisses o sozinho não apreende
em polifemo o companheiro
a quem a solidão mais dura ofende
e contra a sua nave
o seu ribeiro
trocaria de boa-mente o polifemo
o seu rebanho inteiro

desesperado
ulisses sem razão
mata a esmo
procura na carnagem a vingança
para o não regresso
a cruel tardança
em que lhe tarda a volta
e a esperança

aparelha a nave e quer partir
nada escuta e num olhar
tresvairado pelo soco do a vir
fixa a muda nave em rota estelar
e deixa o gigante
sem nenhum rebanho para cuidar

ai do cego ciclope
corpo disforme
sempre a recordar
onde o apagado olho
já não brilha
como farol do tempo
fogo enorme
onde a nave de ulisses
te deixa sempre só
na tua ilha

ele por si tem o seu curso
percorre a aventura
e se não encontra aqui
o que procura
pode sempre ir mais longe procurar

e tu que de galateia
o eco só tiveste
estarás sempre mais só
sempre mais triste
porque quanto tu tiveres
será roubado

no espaço cego
polifemo chora
a morte do seu gado

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junho 30, 2007

novas histórias de penélope - telémaco



telémaco a quem atena conduziu
em busca de seu pai
a própria vida
do povo que assumiu

como ulisses
de navio parte em viagem
e sempre pelo tempo ultrapassado
telémaco não viaja em sua rota
é viajado

que busca telémaco
nos caminhos do mar por onde vai

nem ele sabe
os fados que pocura
só lhe contaram
que além da zona escura
o sol aparecerá
um destes dias

é por isso
que sem busca
telémaco
não havia

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junho 29, 2007

novas histórias de penélope - circe



I

sob o olhar de circe
a desmedida
ulisses aportou à ilha

ali quis enterrar
tróia destruída
mas sobre o sangue de páris
derramado
por enquanto tróia ardia

os guerreiros em retirada
instantes descobriram
as armas embotadas

ninguém ganhara nada

só tróia no seu fogo
a vida consumia
de helena agrilhoada

no caminho de esparta
presentia
que menelau ansioso
a aguardava
e nunca saberia
que era páris o morto
que ela ainda amava

nos olhos de circe
a sem medida
inútil ulisses tentava adormecer

II

ulisses está parado
olhando a calmaria

que inquietações
lhe nascem nos sentidos

circe perturbada redobra o encantamento
e o seu vestido
semeando campos de luar
tranforma toda a ilha
num infinito rio de navegar

ulisses em movimento
parado junto à praia
faz viagens ao redor
da sua saia

III

mas se ulisses acorda
e se esvanece a ilusão de marear

nesse dia circe
a esquecida
não vai tecer cadeias
no olhar

ficará circe
convertida
na felicidade
de o saber de novo livre
nas vastidão do mar

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