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dezembro 08, 2005

Exames...

E vem com tuas mãos com teu lamento.
E vem com tua dor. Despenteia-
-me assim por dentro
do canto onde tu passas como um vento…

Pátria Expatriada, O Canto e as Armas, Manuel Alegre





De mim não se poderá dizer que seja um grande adepto da avaliação de conhecimentos por meio de exames. Admito a necessidade de apreciação do saber adquirido mas penso que centrá-la toda num único momento é mais lotaria que demonstração de ciência.

No entanto, sendo o sistema de ensino em Portugal baseado em exames nacionais, até que outro surja, há que aceitá-lo e tentar retirar dele o máximo de virtualidades.

Também me parece que os exames de 12º ano serão em demasia e que, de facto, como aparece em proposta ministerial, se poderia ficar pelos exames de disciplinas nucleares. Faria sentido, uma vez que até ao nono ano se dariam as matérias de cultura geral e, no secundário, se começaria a enveredar pelos saberes mais específicos de cada escolha.

Portanto tudo parece levar-me a concordar com as intenções da Ministra da Educação.

Mas a verdade é que não só não concordo, como a acho um tremendíssimo disparate.

Eu explico!

Em primeiro lugar parece-me que o instrumento, por excelência, de recepção e transmissão de saber é a língua pátria. Não haverá desenvolvimento social ou tecnológico se o utensílio base de divulgação não for convenientemente dominado. Infelizmente, como sabemos, mesmo em meio universitário, tal está longe de ser uma realidade no nosso País.

Em segundo lugar a língua faz parte integrante do sentimento de pertença nacional. Uma língua menosprezada representa uma baixa auto-estima nacional. Disso já temos que baste! Não precisamos que este Governo/Ministério venha pôr mais sal na ferida.

Ficamos, no entanto, a pensar por que razão virá alguém propor uma situação tão sem nexo. Pareceria pois que os proponentes ou eram parvos ou se guiavam por razões tão misteriosas e escondidas como, por exemplo, estarem-se nas tintas para os problemas que a medida venha a suscitar desde que - cortando um grande número de examinandos, de correctores de provas, de júris de exame - tal medida redunde num diminuir de custos , coisa sagrada acima de todas os outros considerandos.

Finalmente, em terceiro lugar, bastando ouvir as entrevistas feitas a alunos do secundário, num sistema de exames, disciplina que a eles não venha a ser submetida será matéria a não levar demasiada a sério.

Assim, visivelmente por questões aparentemente de âmbito financeiro, o Ministério está disposto a empenhar um dos garantes da expansão da cultura portuguesa e mesmo do desenvolvimento global do País.

Pedir que uma só medida comportasse tantos malefícios era coisa que eu não me atreveria a pedir a este Governo. Sou obrigado a reconhecer que o subestimei e que aqui ele se ultrapassa no grã talento de mal-fazer.

Só me resta, portanto, dizer-lhe: bem haja benemérito da Nação.

P.S. (não confundir) Lembram-se de Manuel Alegre ter apresentado, no seu programa, nomeadamente através do fortalecimento da CPLP, a dignificação da Língua Portuguesa?

Será que a mesquinhez vai tão longe?

dezembro 05, 2005

Presidente da República - Poderes Constitucionais

Só para recordar, sem pretensões de conhecimentos constitucionais, tendo em vista as confusões que por aí vão quanto ao papel do Presidente da República, penso que haverá algum interesse em respigar alguns elementos na nossa Constituição.

Assim, o “Presidente da República representa a República Portuguesa, garante a independência nacional, a unidade do Estado e o regular funcionamento das instituições democráticas e é, por inerência, Comandante Supremo das Forças Armadas”, sendo elegíveis os eleitores, portugueses de origem, maiores de 35 anos.

Para alguém ser oficialmente candidatos terá que ser proposto por um mínimo de 7.500 eleitores e o máximo de 15.000. As candidaturas serão apresentadas, perante o Tribunal Constitucional, até trinta dias antes da data marcada para a eleição será eleito, na primeira volta,” o candidato que obtiver mais de metade dos votos validamente expressos, não se considerando como tal os votos em branco”.

Não obtendo nenhum dos candidatos a maioria absoluta disputar-se-á, entre os dois candidatos mais votados, uma segunda volta que de correrá ”até ao vigésimo dia subsequente à primeira votação”.

O mandato terá a duração de cinco anos.

As competências do Presidente da Republica são, genericamente, as seguintes:

- Preside ao Conselho de Estado;
- marca as datas dos actos eleitorais;
- convoca extraordinariamente a Assembleia da Republica;
-dirige mensagens às Assembleias da República e Regiões Autónomas;
- dissolve a Assembleia da Republica;
- nomeia o Primeiro-Ministro;
- demite o Governo, ou, por proposta do Primeiro-Ministro, os seus membros;
- exonera o Primeiro-Ministro;
- pode presidir ao Conselho de Ministros a solicitação do Primeiro-Ministro;
- dissolve as Assembleias Legislativas das Regiões Autónomas;
- nomeia e exonera os representantes da República para as Regiões Autónomas;
- nomeia e exonera o Presidente do Tribunal de Contas e o Procurador-Geral da República;
- nomeia cinco membros do Conselho de Estado e dois vogais do Conselho Superior de Magistratura;
- preside ao Conselho Superior de Defesa Nacional;
- nomeia e exonera os chefes de Estado-maior dos vários ramos das Forças Armadas;
- é o Comandante Supremo das Forças Armadas;
- promulga e manda publicar leis, acordos etc.…;
- submete a referendo questões de interesse nacional;
- declara o estado de sítio ou de emergência:
- pronuncia-se sobre todas as emergências graves;
- indulta e comuta penas:
-requer ao Tribunal Constitucional a apreciação preventiva de constitucionalidade, a declaração de inconstitucionalidade;
- confere condecorações;
- nomeia embaixadores e enviados extraordinários;
- ratifica tratados internacionais;
- declara a guerra e faz a paz.


Com o inevitável simplismo aqui deixo o meu contributo para que a discussão sobre poderes e programas dos vários candidatos possa ficar melhor situada e não venha alguém prometer mais do que pode.

dezembro 02, 2005

Carta Aberta do Movimento JÁ

Com a devida vénia damos aqui publicidade à Carta Aberta remetida pelo Movimento JÁ



"NAS TUAS MÃOS COMEÇA A LIBERDADE!"

Somos um grupo de jovens que pretende dar o seu contributo para a caminhada presidencial de Manuel Alegre. Nele vemos um passado de lutas sociais, um passado de resistência. Nele encontramos uma referência política actual, distinta pela frontalidade, pela verticalidade, pelo arrojo.

Candidatar-se à Presidência da República, mesmo sem o apoio de nenhuma máquina partidária, é preferir a Liberdade ao espartilho, o Humanismo ao fatalismo, a Consciência à apatia.

A sua candidatura é uma pedrada no charco, um abanar de consciências e de poderes instituídos, um não ao seguidismo. Vive exclusivamente da iniciativa e participação daqueles que sentiram e aceitaram o desafio por ele lançado, para que, sem preconceitos nem embaraços, se lhe juntassem na defesa de um Portugal social onde os números não valham mais do que as pessoas. É por isso que as mulheres e os homens que dão corpo a esta candidatura não servem outros interesses que não os da mobilização cívica e da participação democrática.

É urgente quebrar com a onda de abstenção entre os jovens, é necessário
estabelecer compromissos que conduzam à construção de uma nova cidadania.

Por isso reclamamos novos projectos, novas lutas, novos incentivos à dinâmica do país. Que ele cresça connosco, com traçados firmes, com novas cores que a todos representem. Portugal depende da ruptura com o cinzentismo e com o marasmo em que hoje nos encontramos.

Na política, como na vida, não devemos ficar à espera de super heróis. Apoiamos Manuel Alegre, cidadão como nós. As suas qualidades humanas, intelectuais e políticas são garantia dum desempenho do cargoao serviço da democracia e de todos os portugueses, que tanto a desejam fortalecida e regenerada.

Ser jovem é ser futuro, mas também reivindicar o presente. Por isso nos juntámos a esta candidatura. Por isso queremos ajudar na sua construção. Por isso apoiamos Manuel Alegre!

Os Subscritores

dezembro 01, 2005

O Bife (conto)

….Porque o mais
é já sombra de sombra e o breve traço
de quem passamos para nunca mais


Quem somos nós, O Canto e as Armas, Manuel Alegre













Quis-me o autor católico e tímido. Por esses factos, aqui estou, hoje como sempre, sentado na terceira mesa da Segunda fila desta esplanada, olhando o pipilar da fonte e os miúdos desnudados, em banhos mais de sol que na contida água.

Serei, também, no decorrer do conto, o quanto baste de ingénuo e sonhador. Adequa-se-me a ingenuidade porque, com ela, poderei correr certos riscos e aceitar alguns jogos que de outro modo poderiam passar por estultícia. Calha-me o sonhador por comple­mento desse atributo. Quem se navega pelos fumos da lógica dos sonhos e os antepõe ao que a maioria denomina de real, terá toda a conveniência na estruturação de um universo à medida do romântico, que se pretende herói e não consegue, no seu ser, força bastante.

Volto à água. Tomba, por enquanto, entre salpicos de relva. Logo mais, quando a noite quase de surpresa chegar, as luzes do lago acender-se-ão e tornarão mais distantes e imprecisas as árvores do outro lado. Equidistantes do meu ponto de observação ficam as duas esquinas, estas sem nenhumas árvores. Só casas, em esses breves prenúncios de floresta que resistem no largo, do outro lado. Aquele onde nunca estou.

Nas casas das esquinas habitam pessoas e sei de histórias de outras que gostariam de habitar em casas e não o podem fazer. Mas isso são outros contos e, neste, o autor não me deixa entrar por esses caminhos. Aliás, como se sabe, é de boa norma delimitar os assuntos e esta é uma narrativa mais ou menos romântica pelo que não deverá perder-se em desinteressantes críticas sociais.

Retomemos o rumo certo. A poucos metros, do meu lado direito, fica a Primeira Esquina. Ao centro, comigo dentro, está a esplanada. Alguns metros para além do meu braço esquerdo, queda-se a Segunda Esquina.

Para além das esquinas nada conheço. Todos quantos as ultrapassam saem do meu ângulo de visão e deixam de ter história. Inexistem. Quem vem da Primeira Esquina aparece sem aviso. A sua presença é impensável até que dobre a esquina e se corporize no súbito de um bico de pé, num passo inacabado obrigando a presumir o anterior, numa sequência posterior de outros que se dirigem ao presente do café, ou na inexistência, por dobragem da outra esquina. Tudo isto resumindo-se num nada de corpo, numa existência precária, mais movimento ou fulguração que realidade.

Eu, estou aqui à espera. No meu estar existe certamente um objectivo, uma necessidade. Aguardo que ela dobre a Primeira Esquina, surja a emoção e se cumpra o determinado.

Por isso aqui me encontro, instalado no Verão, sentado na terceira mesa da segunda fila da esplanada.

Pelo ardor do corpo e pelo amarfanhado da pele suponho ter voltado da praia. Saboreio um imperial que poderia ter sido mais bem tirada se estivesse colocado na cervejaria. Mas a cervejaria fica lá mais em cima, a meio da avenida, enorme e plana, estendida sem surpresas e sem possibilidade de duas esquinas suficientemente distanciadas para permitir o espaço do cenário e suficientemente próximas para a passagem dela poder ser o campo entre a esperança e aquilo que não sendo desespero nem frustração, fica no magoado da alma como música melancólica.

Não me desagrada, na verdade, ter vindo da praia. Se me fosse possível passaria a maior parte do meu tempo nessa fusão de sal e luz. Que tardes! Quando o saboroso cansaço nos leva a rumar para casa na busca do duche, deixar a salmoura e, antes que o sol se ponha, correr para a esplanada, procurar a mesa conveniente, sentar-me e, beberricando a cerveja, esperar, sem falta, a partir da Primeira Esquina, pedaço a pedaço, o cumprimento da promessa da sua presença.

Aparecerá, primeiro, uma das suas pernas, seguida de um braço. Depois a saia leve tendida pelo passo e pela brisa. Num repente solar surgirá de corpo inteiro. As mãos, os cabelos, o peito num balanço cálido de ondas dentro de ondas.

Muitas vezes pergunto-me o que será ela para além da esquina. Que fará na vida fora deste caminho onde cruza o meu olhar? Como nada sei espero o seu avanço até à esplanada e tento adivinhar. Por momentos parece-me saber tudo e desejo que venha sentar-se à minha mesa. Reparo depois que nem sequer sei o seu nome, embora lhe adivinhe os passos e saiba que nunca, por si só, virá sentar-se aqui. Talvez nem sequer pare no café para tomar uma bebida ou fazer um telefonema. Seguir sempre em frente, até à Segunda Esquina, parece ser, imperiosamente, o seu destino.

Enquanto os seus passos a afastam tento confortar as esperanças caídas. Pergunto-me quantas vezes esperaste por ela e a viste passar, sem um desvio, por pequeno que fosse, entre uma esquina e outra? Esperavas, insensato, que ela viesse ter contigo e sem mais começasse a falar dizendo-te todas as palavras que tu calas? Grande besta sou! Porque raio deveria tal coisa acontecer? Sou católico, mas não espero milagres. Olho para mim e desconforta-me o que vejo. Como esperar então que ela possa ter alguma vez sequer reparado em mim. Ela nem me conhece e não sou tão irresistível que possa tornar-me notado aos olhos de qualquer mulher, apenas por me ter entreolhado. Sou uma boa anedota. Isso é que sou!

Além disto, basta olhá-la para sentir a diferença. É perfeita! Nela nada há de destoante. É, verdadeira e meteoricamente, perfeita. O caminho que percorre, só porque o trilha, é mais altar que percurso. Como pensar compartilhar o meu espaço com ela? Tão anódino que sou! Insensatez, meu caro, insensatez. Querias, se calhar, a estrela polar fora da sua rota, mortinha por se instalar ao teu lado!? Não é a mesma coisa? Ai não, não é!! Estás tolinho se não percebes. Então a estrela polar não passa também‚ todos os dias, entre dois limites? Sensivelmente à mesma hora e no mesmo local? E não é bela? E não é presente e inacessível? Os olhos não a seguem, porventura desejando-a? A outra é uma mulher!? Isso que tem? Não são ambas criaturas e igualmente perfeitas?

Peço o impossível? Não é esse, porventura, o meu direito? O que está à mão? Qual o merecimento?...

Voos.. Voos inconsequentes é o que fazes. Estás para aí com toda essa filosofia e nem sequer consegues convidá-la para a tua mesa. Aproveita agora. Daqui a pouco ultrapassará a tua mesa e atingirá a Segunda Esquina. Força. Um pouco mais e perderás a tua oportunidade. Mais acção. Menos filosofia.

Isso queria eu. Ter força para que ela fique. Para que o meu desejo fosse o dela. Pois é! Mas eu sou tímido. Nem me serão permitidas certas actuações. Por exemplo, neste momento, apesar da minha vontade e turbação, devo verificar se algum dos circundantes se apercebeu das minhas intenções; se os meus pensamentos se tornaram visíveis, se tomaram voz e gritaram, subitamente, o meu amor, na praça.

Olho em volta. Tudo continua como se não tivesse havido tempo. O meu vizinho mais próximo que, quando ela apareceu, começara a levar o copo aos lábios, nem sequer terminou o movimento. Toma agora o primeiro trago. Ela dá outro passo. Na praça o meu olhar é uma súplica. Eu, um desassossego.

Antes que outro passo se inicie e o bebedor desça, leve e lento, o copo sobre a mesa, procuro em mim aqueles olhos interiores de tudo sentir e perceber. Os mais completos e clarividentes olhos que ninguém reconhece fora de si e em si ninguém contesta. Iluminado por eles volto-me na direcção da Primeira Esquina. Preocupo-me. Se os fechar continuará a haver esquina? Se os fechar continuará a existir o que não sei se existe, do outro lado da esquina? Se os fechar é possível que a esquina desapareça ou não mas quem garante que essa anulação a não arrastará a ela também?

De olhos bem abertos sei que nada sabendo dela terei de continuar, até tudo acontecer, aqui sentado, entre duas esquinas, à espera, no, concedo, aprazível local onde situaram a esplanada, desconcertado por me sentir pedaço de coisa nenhuma, títere de um ciclo de existência onde, um dia, acredito, ela terá que vir sentar-se na minha mesa.

Se me fosse permitido resolveria este caso rapidamente. Faria com que ela, finalmente, reparasse em mim. Que me olhasse e, nesse olhar, ficasse a saber da minha longa e repetida espera, suspendendo, só por isso a progressão para a Segunda Esquina. Eu avançaria para ela de molde a tolher-lhe o passo. Contar-lhe-ia a minha espera e um sorriso de compreensão posar-lhe-ia nos lábios. Ver-lhe-ia despontar a emoção por se saber aguardada e despertar-lhe-ia a reflexão sobre o inexorável de todos os dias passar, à mesma hora, de semelhante modo, no mesmo local, entre duas esquinas, perdendo-se sempre um pouco mais de outro lado, sem a certeza de que no dia seguinte a catástrofe não acontecesse e a Primeira Esquina se toldasse pela sua ausência.

Por mim sei. Estarei aqui todos os amanhãs deste Verão esperando o seu aparecimento. Dia após dia verei morrer o sol incapaz de a chamar, incapaz de deixar de esperar. Continuarei parado tentando perceber o seu mistério. Além da esquina há possibilidades que me angustiam e a desconfiança de que tudo seja possível e tudo isto tenha um sentido, possua uma coerência. Porque eu sei. Estarei aqui, cada dia mais bronzeado, bebendo a minha cerveja, convicto que, lá mais acima, na cervejaria, seria melhor tirada, mas, compreendendo que só neste lugar cumpro o meu papel e me será possível vê-la passar indiferente e significativa.

Como antevia foi o Verão passando. O Sol declinava. Ela aparecia na Primeira Esquina. Eu esperava que os seus passos a conduzissem até mim. Ela passava ignorando-me. Eu, desesperado, ansiava o novo dia para que, declinando o Sol ela de novo aparecesse e eu continuasse a aguardar...

Um dia ela apareceu. Na Esquina. Na Primeira. Trazia qualquer coisa de novo. Seria o ângulo do avanço ou uma subtil transparência de intenções reflectidas na biqueira do sapato? Não sei. Apenas me foi perceptível, de golpe, a diferença. O dia de hoje não seria como nenhum outro. Era este o dia total, por excelência.. Sobressaltei-me. Algo vai acontecer e não estou preparado. Não sei o que é nem se o desejo. É certo. A minha mansa rebelião tem ensombrado o desempenho do papel que me foi atribuído. É certo. Por vezes sonhei-me outro e quis-me diferente. Mas, por acaso não me esforcei? Não me adaptei e tentei cumprir como quiseram que cumprisse? Não me mantive pacientemente sentado, todo o Verão, nesta esplanada, sempre ao fim da tarde? Esperando sempre a mulher que nunca abordarei e me destinaram que aguardasse?

Neste momento limite todas as questões são igualmente irrespondíveis. Não há tempo nem vontade. Porque pela última vez ela irá iluminar esta última tarde. Sei que, majestosa, inflectirá a costumada marcha no sentido do café. Inicialmente indecisa avançará depois, seguida de olhares e de mim, para o interior. Sei ainda que, agora que posso queimar-me no fogo do seu sol, a tão desejada, a eternamente aguardada, a suma, a inatingível se sentará ao balcão do bar e, ai de mim, com estes ouvidos onde ainda ressoam os roçagares do seu hálito na atmosfera, a irei ouvir, naquela voz que se adivinha de pétalas, pedir ao empregado:


- Dê-me um bife... em SANGUE, se faz favor

novembro 25, 2005

Pensar...

Por isso me dói o que tenho para contar e não porei mais do que vi e do que ouvi, ainda que para o bem falar seja maior a ignorância que sageza.

Rafael, Manuel Alegre






Talvez porque as últimas sondagens continuem a não ser muito simpáticas para o Pai Fundador, parece notar-se, nas suas últimas declarações, um especial ênfase no ataque a Manuel Alegre.

Provavelmente percebeu, ou lhes disseram os seus directores de campanha, que o estilo agressivo utilizado contra Cavaco Silva, não estaria a dar muitos resultados e que o melhor era virar as baterias contra o trânsfuga da família, o qual com a consabida falta de respeito, que lhe é peculiar, não acatou os ditames do aparelho partidário, exigindo o reconhecimentos dos seus direitos constitucionais, não acusa nenhum competidor só pelo facto de o ser e se atreve a umas eleições confiando apenas nos seus apoiantes e na possibilidade destes, no seu desejo de renovação, virem a superar o inicial défice aparelhístico desta candidatura.

Ora isto é sobremodo perigoso. Se as pessoas se põem a pensar e descobrem que muito do poder de mudança social está nas suas mãos, variadas e mui interessantes criaturas, enxameadoras dos centros de poder e locais afins, teriam imensas probabilidades de:

a) iniciar a estimulante leitura das páginas de anúncios da imprensa em busca de ocupação compatível;


b) sentar-se, frente ao computador, para num extenuante exercício de imaginação construir um curriculum, minimamente aceitável e credível, que interessasse, pela sua leitura, ao menos a um Gestor de Recursos Humanos que o não remetesse, directa e imediatamente, para a “Sexta Secção”.

b) perceberem, então, que o desemprego existe, é dramático e não é só uma figura de retórica ou uma estatística utilizável em relatórios, comícios ou telejornais, com fins detestavelmente demagógicos.

A estes abencerragens não é conveniente que se recomece a pensar e a sair fora das extremas permitidas. Com as devidas diferenças lembra-me algo que escrevi no tempo da outra senhora e que não resisto a recordar aqui:


uma hora de lazer
sem nada para fazer
é um caso sério

obriga-me a pensar

e pensar é tão perigoso
como matar um ministro
ou ser anarquista

é ultrapassar
a forma prevista
de me comportar

o melhor é pensar em não pensar

Tenho dito.





novembro 20, 2005

A minha mulher anda cinzentinha (3)

Após o meu pobre diagnóstico e a solidariedade demontrada no texto anterior, a minha mulher decidiu falar do seu cinzento. São suas as palavras que se seguem:



" Nestes dias de cinza em que de meu estado me acho incerta.


Sabias que os dias são novelos de cinza insidiosamente entretecidos?

A contraluz, a trama vai prosseguindo silenciosa e de nada te apercebes. Porém, a urdidura está pronta e, só então, constatas que o branco, antes luminoso, desponta mais escuro! Distraídas, as mãos colhem esse cinza. As mãos! Não tu, que tens os olhos presos à cor que, insidiosa, integrou a paleta dos teus dias. Vê-la-ás com nitidez até lhe sentires o peso.

Então, as mãos dir-te-ão que soçobras.

Então, curvarás o rosto para o peito meditativo.
Então, de olhos toldados, procurarás pesar o cinza que te habita, se medida houver para a insustentabilidade.
Se a não tiveres, subirás ao pino do dia, buscarás a inclemência da luz e, ao ponto máximo do branco, colarás as mãos plenas de mágoa. Esperarás.

O tempo forja o tempo. É na paciência que se tece a espessura da cor. Atenta e silenciosa, esperarás. Só assim sentirás o corpo vergar-se. Quando a dor te envolver, o peso do cinza ser-te-á entregue. Toma-o e desce ao passeio que corre ao lado do mar. Que estará não verde – como gostas – mas branco cinza com pinceladas de azul teimoso. Não te prendas ao azul. Guarda os olhos para o branco. Não o alvo! o sujo, o que irás sentir nas mãos, o que se empurrará para o centro de ti.

Dizia-te eu que o cinza é feito de novelos. Lembro-to porque recusas o branco sujo em que te moves. Lembro-to, neste instante, em que trémula te inebrias de azul. É certo que a atenção te foge pois, embora o recuses, já te sentes presa ao casulo cinzento, qual marioneta puxada pela cor. Mas, atenta naquilo que sabes: o azul não é o teu destino.

Também te falei do tempo espesso. Desse que é a massa física do cinza.
Sabes que o deves ver, e sabes mais, que só o peso que te esmaga te trará a vidência. Então, penetrarás na cor de que foges. Olharás o mar vazio - nele não estão as alucinadas notas de azul nem o verde de Chagall, há pouco sonhado.. –, e cega, de pernas recusando-te firmeza, colherás uma a uma todas as gotas de cinza do oceano imenso. Colocá-las-ás no teu regaço. Depois, deitada na praia fecharás os olhos. Sei que temes nunca mais ver o azul e que procuras uma nota dele no recôndito de ti. É tarde. Já te integraste na trama perfeita do cinza. Esta sapiência não é absoluta, nem definitiva posto que ainda sonhas ondas suaves e azuis, bordadas de branco. É certo que este intervalo pouco durará. Daqui a um minuto, abrirás os olhos.

Decidida! Curvada! Fixarás novamente o aço marinho. Descerás um pouco. E na linha em que tu e a água se tocam, permanecerás. Abrirás as mãos em concha até que molhadas pesem todo o cinza que neste mar existe. Erguerás as mãos e beberás o aço desta água acre e insustentável. Podes com segurança pesá-lo. Em ti está. Inspira e sente-o na marcha, a que o corpo e a mente se recusam.

Andarás pela curva da enseada, sentindo os passos sepultarem-se na areia. Ficarás prisioneira do teu cinzento sofrimento. E, nesse exacto instante, tendo consciência da inutilidade das asas («asas que um anjo levou» - ah, o eco de Garrett chegando), rasando a terra molhada, verás erguer-se diante de ti a beleza estonteante e inalcançável do azul. E a dor galopante dos dias de hoje invadir-te-á!"
Fernanda R. Afonso

A minha mulher anda cinzentinha (2)

A propósito do Post com este título, aqui publicado, recebi um comentário que, por adequado e interessante, passo a publicar:

"Caro Carlos,aqui está alguém que sofre do mesmo mal que a sua mulher.Até já entrei em depressão com tanta injustiça para quem, durante trinta anos investiu esforços, tempo, dinheiro, sonhos, esperanças ... eu sei lá! Era e ainda sou uma boa profissional. Mas eles não merecem! Estou completamente desmoralizada!Puseram o país de pé descalço, gastaram «à grande e à francesa», e agora mandam-nos pagar a nós. E para desviar a atenção da sua incompetência total e descarada, lançam o olhar da opinião pública sobre nós. É certo que algumas coisas estão mal,como em todas as profissões também existem entre nós maus profissionais. Mas quem já nasceu torto nunca se endireita!Não é deste modo que vão conseguir um melhor ensino. Aliás esta reforma, mascarada de modernidade e eficiência, não tem esses objectivos. As pessoas que a teceram não sabem o que é a prática pedagógica nas escolas, a realidade. Tenho em casa um escritório bem apetrechado: boa biblioteca e tecnologia. Que fico a fazer na escola, onde não tenho nada disto? A olhar para as paredes? A tagarelar com os colegas? Ai meu Deus, estava tão bem em casa a produzir... que tempo precioso desperdiçado! Nunca mais me vou poder dedicar e preparar aulas como fazia, porque na escola não tenho os meios.É uma vergonha o que se está a passar. E a Casa Pia? Já ninguém fala. Não há culpados! E as férias judiciais. Fizeram greve e já todos se calaram! E nós? E nós? Nós é que estamos a pagar por todos. Até um dia... até um dia... Olhem para Paris. Quem sabe Lisboa não segue o exemplo qualquer dia. Tenhamos esperança, porque esta ainda não morreu. As melhoras para a sua mulher."
Antonieta
Dom Nov 20, 12:52:07 AM CET

novembro 19, 2005

Viagens de Mário Soares(?)

Tenho recebido, de vários correspondentes, esta listagem. Não sei se todas estas viagens foram feitas, não tenho forma de me certificar de tal, e também desconheço se, do ponto de vista político, foram necessárias e importantes ou se apenas reflectem o irrequieto desejo de mudar de sítio.

Viajar é bom, mas quanto custa uma viagem presidencial e qual será o resultado, a todos os níveis, de uma análise custo/benefício?

Como não sei responder decidi publicar esta lista, tal como me foi mandada, neste blogue. Como no entanto sai fora do tipo de publicação que é a minha regra, não farei, como de início nenhuma citação de Manuel Alegre para que não haja qualquer confusão. Nem o candidato tem como princípio falar mal dos opositores, nem, de igual forma o autor deste blogue tem por princípio a baixa política e o ataque soez a ninguém.

No entanto, partindo do princípio da veracidade dos elementos constantes na lista, tendo em conta o perfil do candidato Mário Soares e o estado da Nação, a possibilidade de repetição de tais andanças não deixa de me preocupar.

Por isso decidi postá-la aqui à atenção dos vossos comentários.






1986

11 a 13 de Maio - Grã-Bretanha
06 a 09 de Julho - França
12 a 14 de Setembro - Espanha
17 a 25 de Outubro - Grã-Bretanha e França
28 de Outubro - Moçambique
05 a 08 de Dezembro - São Tomé e Príncipe
08 a 11 de Dezembro - Cabo Verde

1987

15 a 18 de Janeiro - Espanha
24 de Março a 05 de Abril - Brasil
16 a 26 de Maio - Estados Unidos
13 a 16 de Junho - França e Suíça
16 a 20 de Outubro - França
22 a 29 de Novembro - Rússia
14 a 19 de Dezembro - Espanha

1988

18 a 23 de Abril - Alemanha
16 a 18 de Maio - Luxemburgo
18 a 21 de Maio - Suíça
31 de Maio a 05 de Junho - Filipinas
05 a 08 de Junho - Estados Unidos0
8 a 13 de Agosto - Equador
13 a 15 de Outubro - Alemanha
15 a 18 de Outubro - Itália
05 a 10 de Novembro - França
12 a 17 de Dezembro - Grécia

1989

19 a 21 de Janeiro - Alemanha
31 de Janeiro a 05 de Fevereiro - Venezuela
21 a 27 de Fevereiro - Japão
27 de Fevereiro a 05 de Março - Hong-Kong e Macau
5 a 12 de Março - Itália
24 de Junho a 02 de Julho - Estados Unidos
12 a 16 de Julho - Estados Unidos
17 a 19 de Julho - Espanha
27 de Setembro a 02 de Outubro - Hungria
02 a 04 de Outubro - Holanda
16 a 24 de Outubro - França
20 a 24 de Novembro - Guiné-Bissau
24 a 26 de Novembro - Costa do Marfim
26 a 30 de Novembro - Zaire
27 a 30 de Dezembro - República Checa

1990

15 a 20 de Fevereiro - Itália
10 a 21 de Março - Chile e Brasil
26 a 29 de Abril - Itália
05 a 06 de Maio - Espanha
15 a 20 de Maio - Marrocos
09 a 11 de Outubro - Suécia
27 a 28 de Outubro - Espanha
11 a 12 de Novembro - Japão

1991

29 a 31 de Janeiro - Noruega
21 a 23 de Março - Cabo Verde
02 a 04 de Abril - São Tomé e Príncipe
05 a 09 de Abril - Itália
17 a 23 de Maio - Rússia
08 a 11 de Julho - Espanha
16 a 23 de Julho - México
27 de Agosto a 01 de Setembro - Espanha
14 a 19 de Setembro - França e Bélgica
08 a 10 de Outubro - Bélgica
22 a 24 de Novembro - França
08 a 12 de Dezembro - Bélgica e França

1992

10 a 14 de Janeiro - Estados Unidos
23 de Janeiro a 04 de Fevereiro - Índia
09 a 11 de Março - França
13 a 14 de Março - Espanha
25 a 29 de Abril - Espanha
04 a 06 de Maio - Suíça
06 a 09 de Maio - Dinamarca
26 a 28 de Maio - Alemanha
30 a 31 de Maio - Espanha
01 a 07 de Junho - Brasil
11 a 13 de Junho - Espanha
13 a 15 de Junho - Alemanha
19 a 21 de Junho - Itália
14 a 16 de Outubro - França
16 a 19 de Outubro - Alemanha
19 a 21 de Outubro - Áustria
21 a 27 de Outubro - Turquia
01 a 03 de Novembro - Espanha
17 a 19 de Novembro - França
26 a 28 de Novembro - Espanha
13 a 16 de Dezembro - França

1993

17 a 21 de Fevereiro - França
14 a 16 de Março - Bélgica
06 a 07 de Abril - Espanha
18 a 20 de Abril - Alemanha
21 a 23 de Abril - Estados Unidos
27 de Abril a 02 de Maio - Grã-Bretanha e Escócia
14 a 16 de Maio - Espanha
17 a 19 de Maio - França
22 a 23 de Maio - Espanha
01 a 04 de Junho - Irlanda
04 a 06 de Junho - Islândia
05 a 06 de Julho - Espanha
09 a 14 de Julho - Chile
14 a 21 de Julho - Brasil
24 a 26 de Julho - Espanha
06 a 07 de Agosto - Bélgica
07 a 08 de Setembro - Espanha
14 a 17 de de Outubro - Coreia do Norte
18 a 27 de Outubro - Japão
28 a 31 de Outubro - Hong-Kong e Macau

1994

02 a 05 de Fevereiro - França
27 de Fevereiro a 03 de Março - Espanha (incluindo Canárias)
18 a 26 de Março - Brasil
08 a 12 de Maio - África do Sul (Tomada de posse de Mandela)
22 a 27 de Maio - Itália
27 a 31 de Maio - África do Sul
06 a 07 de Junho - Espanha
12 a 20 de Junho - Colômbia
05 a 06 de Julho - França
10 a 13 de Setembro - Itália
13 a 16 de Setembro - Bulgária
16 a 18 de Setembro - - França
28 a 30 de Setembro - Guiné-Bissau
09 a 11 de Outubro - Malta
11 a 16 de Outubro - Egipto
17 a 18 de Outubro - Letónia
18 a 20 de Outubro - Polónia
09 a 10 de Novembro - Grã-Bretanha
15 a 17 de Novembro - República Checa
17 a 19 de Novembro - Suíça
27 a 28 de Novembro - Marrocos
07 a 12 de Dezembro - Moçambique
30 de Dezembro a 09 de Janeiro 1995 - Brasil

1995

31 de Janeiro a 02 de Fevereiro - França
12 a 13 de Fevereiro - Espanha
07 a 08 de Março - Tunísia
06 a 10 de Abril - Macau
10 a 17 de Abril - China
17 a 19 de Abril - Paquistão
07 a 09 de Maio - França
21 de Setembro - Espanha
23 a 28 de Setembro - Turquia
14 a 19 de Outubro - Argentina e Uruguai
20 a 23 de Outubro - EstadosUnidos
27 de Outubro - Espanha
31 de Outubro a 04 de Novembro - Israel
04 e 05 de Novembro Faixa de Gaza e Cisjordânia
05 e 06 de Novembro - Cidade de Jerusalém
15 a 16 de Novembro - França
17 a 24 de Novembro - África do Sul
24 a 28 de Novembro - Ilhas Seychelles
04 a 05 de Dezembro - Costa do Marfim
06 a 10 de Dezembro - Macau
11 a 16 de Dezembro - Japão

1996

08 a 11 de Janeiro - Angola

Durante os anos que ocupou o Palácio de Belém, Soares visitou 57 países (alguns várias vezes como por exemplo Espanha que visitou 24 vezes e a França 21 vezes), percorrendo no total 992.809 KMS o quecorresponde a 22vezes a volta ao mundo.

novembro 18, 2005

neutral-neutrão (poema)

Como Ulisses te busco e desespero
como Ulisses confio e desconfio
e como para o mar se vai um rio
para ti vou. Só não me canta Homero
.

Os dois sonetos de amor de Ulisses, Praça da Canção, Manuel Alegre






I

sob o sobrolho da paisagem
a sombra do campo das anémonas
habita
a súbita tristeza das oliveiras
nos espaços do suor
nas ausências a partir dos hábitos
onde alquímico me ressuscito e transconheço

está por inventar a água
por dentro das cidades

II

neste tempo somam-se as antíteses

os profetas das novas divindades
dormem nos mundos luminosos
anónimos inextinguíveis como
estas sociedades da fartura
onde cada vez mais temos
um pouco de tudo a menos

seguramente desaprendemos
a forma de alçar voo
quando se espera o lume da invenção
e morremos esmagados à sombra
das novas catedrais
e sempre mais rotos e compatíveis
somos mais consumo que satisfação
mais imagem que real

somos
o sumo do consumo social
ou
mais ou menos um
na rota da neura catalogável e consumível
conforme o esgotamento nervoso do stock
a propaganda da pastilha
descoberta do mais curto caminho
para o marítimo reino das solicitações intempestivas

III

chama-se solitude à marcha para a divindade
onda que não molha carril parado
que une o sexo dos campos
ao umbigo das cidades

é preciso que a onda se encontre com a terra
para a vaga ter sentido e ser fusão
velocidade aumentada até à fuga
navalha virada contra o vento
misteriosa irmã do apagar de luzes
contra-espera de mães acenando sóis

por essas manhãs nocturnas
balançavam fantasmas provisórios
em ecos de aprendizagem da vida
nas formas absolutas e mágicas
em que nada ainda foi posto em causa
que tudo é pretexto para a maravilha
de compreender todas as coisas
intuitiva e desregradamente
como fome pura e sensual

IV

o mundo está atravancado por pessoas que são coisas
e receiam ser pessoas

nem que seja numa carta a receber por estes dias
dizendo das saudades que me trazes
de como te espero em cada primavera
impercebendo quotidianamente a diferença
entre o asfalto e o sangue dos grilos
mártires esmagados por convicções

nossa senhora dos aviões nacionais
proteja as empresas com capital do estado
jesus cristo redentor vele pelos impérios privados
e ponha um bom gestor no papado
são marx do capital nos salve dos leninistas
e que o tio sam o magnífico retire da cartola
um céu azul e vermelho com milionários e vedetas
e aumente a venda dos bebés proveta e
deixe os homens aspirarem ao grande trombo nuclear
à maravilhosa explosão que nos irá redimir
por todos os séculos dos séculos neutrão

V

uma hora
uma hora após
uma hora após não havia nada
uma hora após não havia nada para dizer
nem boca para falar ou mal-estar a sentir
ou vestígios de confrontação
nem espaço onde ficar ou mesmo solidão

havia só o espaço sem fronteiras
da última das bebedeiras

novembro 15, 2005

Dormir descansado

Por isso a ironia em relação à mudança do seu próprio estatuto: de ex-exilado a Presidente da Republica, ontem mais ou menos tolerado, agora convidado de honra do Presidente da França. Não, o Hotel de Saint-Pierre não estava diferente, a História é que tinha dado uma volta. E ele? E eu? Permaneceríamos idênticos?

Arte da política ou retrato de Mário enquanto Mário, Arte da Marear, Manuel Alegre





1 – Ena! O que para aí vai de confusão. Desde o candidato Jerónimo de Sousa, passando pelos jornais e com grande estadão em muitos blogues, há um mar encrespado de críticas a Manuel Alegre porque, calculem, perguntado sobre o que se passaria se Cavaco Silva ganhasse as eleições ele teve a ousadia de dizer que “dormiria descansado”.

Como, por muito que a hipótese de tal vitória me desagrade e contrarie, eu, pensando também que não iria recorrer a soporíferos para conciliar o meu merecido descanso de cada noite (nos dai hoje), embasbaquei!

Talvez por Manuel Alegre ser um escritor, faltando aos oponentes argumentos para atacar o melhor dos manifestos de candidatura presidencial apresentados, muita gente decidiu enveredar pela descoberta de duvidosos sentidos em algumas palavras usadas pelo candidato. Temos assim a perplexidade pelo uso aberto e sem timidez da palavra Pátria, e mais recentemente o “dormir descansado”.

Que me perdoem se estou enganado mas, parece-me, existir uma constituição que, cumpridas algumas condições, permite a qualquer cidadão candidatar-se a Presidente da Republica para que os eleitores, todos nós, através do voto, avaliem a aceitação e bondade de cada candidatura, concedendo-lhe, ou negando-lhe, o direito ao lugar pretendido. O regime em que vivemos consente também uma grande liberdade na apresentação de ideologias e propostas. Assim sendo, se os eleitores preferirem o Dr. Cavaco a qualquer outro candidato, poderá ficar em causa a minha perspectiva política e o meu projecto – que, evidentemente, eu considero os melhores – mas não estarão em causa valores essenciais da democracia.

Como já afirmei não sou adepto da visão sociopolítica do candidato da direita mas, não vou por isso considerar que a eleição dessa pessoa é um perigoso para a democracia, tal como não o seria a vitória de qualquer outro legitimo candidato, considerando apenas que o projecto que defendo não conseguiu passar a sua mensagem convenientemente, ou que, tão-somente, no momento, não seria o preferido pela maioria dos eleitores.

Simples mentalidade democrática…

Considero, pois, que ao fazer a afirmação que fez, o Dr. Manuel Alegre, apresentou uma profissão de fé nos valores democráticos, por si defendidos longo da vida, o que só o enobrece e me diz estar certo no candidato porque, tendo como natural objectivo alcançar a vitória, reconhece os direitos dos outros e mesmo contra si os defende.

Assim todos procedessem com ele.

2 – Depois do debate de ontem na RTP1 - Prós e Contras – os portugueses podem dormir mais descansados. A nossa proverbial e consabida diferença, em termos de aceitação do outro, vai proteger-nos contra os males da xenofobia e da não integração de imigrantes. Não importa que vivam em bairros degradados, sem condições de vida condignas, despossuídos de trabalho e perspectivas, porque, o nosso génio nacional, a nossa proverbial lhaneza de sentimentos cá estarão, a sobrepor-se aos factos sociais e económicos, com acrescidas vantagens.
Ainda bem que é assim… No entanto, porque é que eu não fico sossegado? Porque é que me inquieta a tão grande desigualdade existente na nossa sociedade? Porque é que me parece que não há evidentes elementos integradores a securizar a vida das nossas cidades?

Se calhar é porque, não há muitos anos ainda, quando frequentava um mestrado com estudantes dos PALOP, falando com um deles sobre a existência de racismo declarado na sociedade portuguesa, ele, que era um falante escorreito de português, dizia-me que sempre que tentava alugar um quarto – pelo telefone – estava tudo bem, mas, quando chegava às casas e os alugadores viam o seu tom de pele, o quarto já estava sempre ocupado…

…e ontem no citado programa – que confesso não vi de início e não sei se foi dada alguma explicação para o facto – para tratar de assuntos relacionados com migrantes, ao contrário do habitual, não vi na mesa de debate, nem nos interpelados da plateia, nenhum membro, ou representante, dessas minorias nem das suas associações. E vi e ouvi, isso sim, quando um dos intervenientes, exemplificando, usou a expressão “vão para as vossas terras” um salva de palmas e um sussurro de aprovação vindo da plateia.

Por isto, é que não posso dormir descansado.

novembro 12, 2005

Por vezes o drama (conto)

Era um tempo com barcos nos minutos.
Havia o mar. Raparigas da terra da saudade
e os grandes gestos belos e gratuitos
no tempo em que não tínhamos idade.

Romance do tempo inocente, Praça da Canção, Manuel Alegre










Chegou meio esbaforido. Olhou em redor. O café estava a abarro­tar. Nem uma mesa vaga. Fungou duas vezes e atirou na minha direcção a flecha do olhar. Avançou decidido para esta mesa onde em calma espedaçava a tarde. Sentou-se e disparou:

- Por vezes o drama insinuava-se na nossa vida...

Alargou-se todo num sorriso cretino a ocupar-lhe toda a boca mais dez anos de recordações.

...pois era... e se eu fazia esforços para a compreender. E ela? Divertia-se inventando tudo para me fazer sair de mim. Conduzia toda a minha vida em ciclo. Um drama, muitas promessas, reconci­liação; novo drama, mais promessas, outra reconciliação...

Olhei para ele com aqueles olhos de acabar conversas que tu tantas vezes dizes denotar em mim. O gajo nem deve ter notado que eu tinha olhos. Ou boca. Escolhera-me como ouvinte. Nem pela cabeça lhe passaria a possibilidade da minha recusa a semelhante papel.

... de tal forma que muitas vezes, esperando o passar da noite, pensava que poderia agarrar na nossa vida e fazer dela uma história capaz de ultrapassar esses romeus e julietas que por aí se contam. Não se ponha a pensar que entre nós não havia amor. Bem... pelo menos pela minha parte havia e muito. Da parte dela parecia-me haver correspondência. Agora ter a certeza... vá lá a gente saber. Como adivinhar o que se esconde no mais íntimo de alguém? Ou mesmo se os actos correspondem à sua aparência. Não lhe parece que estamos sempre encurralados? Acreditamos e corre-se o risco de sermos enganados. Não o cremos, logo a solidão nos toma de emboscada. Como eu detesto a solidão! Seria capaz de fazer qualquer coisa para não estar um só momento solitário na vida...,

Desesperado, mando o olhar à procura de outra mesa no café. Nem esperanças. Chamei o empregado para pagar a despesa e zarpar. Mirou-me, com os olhos a abarrotar de ruído e fumo, com o desprezo de quem tem ainda pela frente três longas horas de trabalho duro e não percebe a pressa de alguém que só tem que estar com o rabo repimpado na cadeira e, olimpicamente, ignorou-me. Fiquei, assim, completamente à mercê da história daquele manjerico.

... você, acha que tenho ou não razão para detestar a solidão?...

Pronto! Agora que me dás a deixa vou despachar-te em grande velocidade!

... livre-se dessa peste, amigo. Livre-se dela. Onde é que eu ia? Ah! O acaso... o mesmo acaso que me fez sentar nesta mesa,
consigo, que não conheço de nenhum lado, fez-me encontrar Terília. O acaso é assim. O café cheio. O amigo sozinho nesta mesa vê-se mesmo cheio de vontade de conversar e eu, que nunca o vi, a descobrir-lhe a minha vida. Sabe que mais? O acaso é o destino. Não é que eu seja fatalista ou supersticioso mas lá que Terília entrou na minha vida por acaso...

Se eu por acaso espetasse uma lambada no trombil deste chato o que é que dirias? Teria sido bruto? Incivilizado? Ou apenas que a paciência é material que se esgota com celeridade? Põe-te no meu lugar. Que farias? Ao menos um berro no ouvido...?

...Recordo-me perfeitamente. Numa festa em casa de amigos. Ricos, pois claro! Ricos até criar bicho. Só o salão dava para duas famílias habitarem. Com piscina e tudo... pensa que estou a exagerar? Qual seria o gozo de lhe mentir. Não o conheço. Provavelmente nunca mais o verei...

Ainda bem, pensei, tentando fazer-me ouvir. Tu bem me disseras que o meu horóscopo me era desfavorável esta semana. Desculpa-me o riso de incredulidade. A tua revista é que tinha razão. Este
gajo não me larga e o empregado já passou por aqui mais de vinte vezes e continua a não atender aos meus chamamentos. Nem sequer vaga uma mesa para eu zarpar daqui.

... uma bela festa, digo-lhe eu. Terília estava lá. Linda de se ficar sem fala. A sala brilhava de iluminada e ela era ainda mais brilhante do que a sala. Trazia um vestido azul claro... não... creme... bem, trazia um vestido que lhe caía lindamente... disso tenho eu a certeza. O amigo já me está a imaginar, como nos filmes, a avançar para ela, os outros a afastarem-se para me dar lugar, pegar-lhe pela cintura e avançar, ao som da valsa final, para um recanto do jardim. Imaginação sua. Imaginação... Ela nem deve ter chegado a reparar em mim. Rodeavam-na admiradores e amigos. Tantos que nem me consegui aproximar. Também não sou exigente. Bastou-me contemplá-la de longe. Sou muito tímido...

Tímido. Tímido o marmanjo. Olha-me bem para este. Dá vontade de rir. O tipo vem de onde não se sabe, senta-se na minha mesa. Nem sequer me pede licença e sem me ter visto algum dia mais gordo desata a contar-me a história da via dele e diz-me que é tímido.

... de qualquer maneira um homem não é de pau. Nessa noite ador­meci com uma telha dos diabos. Bem gostaria de ser um desses bonitões que nem precisam de assobiar e já elas estão a cair-lhes nos braços. Cá comigo nunca é assim. Desunho-me todo para me fazer notado por uma fulana e se consigo despertar-lhe a atenção é certo e sabido... ou é coxa ou anda no psiquiatra. Tenho cá um destes azares!

E eu, o que é que eu tenho? Se calhar isto é sorte. O meu pai, como tu sabes, era um preconceituoso de merda, barrava-me todos os dias os ouvidos com as etiquetas sociais. Calcula que nunca me deixaria assentar arraiais na mesa de qualquer fabiano sem lhe pedir licença e sem que lá me demorasse o mínimo tempo possível. Parece-me que começo a dar razão ao velho.

... fiquei por isso muito admirado quando num dia tempestuoso, a fui encontrar, numa reunião clandestina, na mesa que dirigia os trabalhos, e CÉUS, ela reconheceu-me! Não fez mais que uma piscadela de olhos e a sombra de um sorriso, mas, meus Deus, eu estremeci todo por dentro. Ora veja, ela não só me reconhecia como me distinguia com um sinal especial. Distinguia-me, a MIM, percebe?

Então não percebo. A tua sorte foi ela só te conhecer de vista. Soubesse ela a chaga que tu és punha-te a milhas em dois segundos.

Não sei se o amigo se lembra como eram as coisas naquela época. Refiro-me à situação política. Como é evidente, os problemas nas relações homem/mulher era coisa que ela tinha há muito ultrapassado. Frequentara a Universidade e viajara muito. Além de ser um cérebro conhecia, de viver, uma data de países. Convivera com muita gente importante. Era raro falar de um nome, mesmo de estrangeiros, que ela não tivesse conhecido...

Bem, pensei eu, um chato e uma mentirosa com pretensões. Deviam fazer um lindo par. Ainda por cima este fulano está convencido de ter feito sozinho a resistência ao fascismo. A propósito, se tu aqui estivesses irias franzir o nariz e com o teu ar solene e pedagógico começarias a dissertar sobre a importância de delimitar as fronteiras entre os regimes políticos. Dir-me-ias que o Estado Novo se salientaria pela vertente corporativista, pondo a tónica sobre a conjugação de interesses das classes, o que, em análise, se diferenciava bastante das doutrinas dos "fascios" e nacional-socialista, que em intensidade e extensão dos efeitos ultrapassavam de longe a, mesmo aí medíocre, perspectiva do totalitarismo nacional. Claro que terias de contar com a minha oposição. A vida não é um exercício académico e para os que perderam a vida, de forma literal ou em oportunidades, por divergirem do pensamento dominante, essas subtilezas não farão, no mínimo, grande sentido.

O amigo, concerteza, está a pensar que eu exagero. Pois está enganado. Quando depois da queda da ditadura o país foi invadido por uma quantidade de gente de quem nós ouviamos apenas falar, eu tirei a prova da verdade dos seus conhecimentos. Olhe, em nossa casa esteve mesmo hospedado o Jean-Livoir. Não acredita? Pois posso provar-lho. Só precisa de ir até minha casa. Além das fotografias havia de ver todos os seus livros assinados.

Pois sim, interessa-me mesmo quem é que dormiu ou não em tua casa. A única coisa que verdadeiramente me interessaria era que fosses para lá agora. Ou fosses pentear macacos.

Foi por causa de um romance do Jean-Livoir que as coisas entre nós aconteceram. Lembro-me ainda bem. Era Inverno e tinha acabado de chover. Estava na porta do café pensando se entraria ou aproveitava o escampado do tempo e dava uma corrida até ao emprego. Foi quando ela chegou e ao ver-me disse:

"Então a ler um livro do Jean..."

...falou dele com um conhecimento de matéria e pessoa que me deixou deslumbrado. _

Deslumbrado é que tu me pareces de todo e desde início. Deslumbra-te a mulher, deslumbra-te a sua escolha política, deslumbram-te os seus conhecidos e deslumbra-te o seu saber. _Ó, meu filho, a continuares assim não vais longe.

"No entanto - prosseguia ela - não é na literatura que poderá encontrar o verdadeiro Livoir. Esse só mesmo na matéria de reflexão. Pensador como esse não encontra outro. Foi capaz de ir aos clássicos, e olhe que me não refiro aos gregos mas àqueles de que se não pode falar sem perigo de que ouvidos indiscretos se interessem logo em demasia, e transpor para o absurdo do estar vivos os seus ensinamentos. Para viver, diz ele, é preciso meter as mãos na merda até aos cotovelos. E sem culpas, que isso é matéria para titis de catedral."

Culpa tenho eu em não correr contigo daqui. A tua história não me interessa nem um bocadinho. Além do mais, nada tem de original. Até agora eu poderia contar coisas muito parecidas com essa. Bastaria mudar os nomes porque as situações, em si, parecem ser bastante reduzidas. Tenho a sensação de que alguém com pouca imaginação, ou com pouco tempo para perder com a obra, ordenou a vida de molde a que o deve-haver não se dispersasse demasiado, e tornasse fácil o ajuste final de contas. Ademais , apesar de plausível, a história cheira-me a forjada. Basta pensar no nome da mulher. Terília... isto é lá nome de gente real...

Eu ouvia-a e parecia que ela tomava a minha voz para dizer coisas que há muito pensava e não conseguia transmitir. Aliás, sempre assim aconteceu durante toda a nossa relação. Mas, nesse dia, quando nos sentámos no café por nada deste mundo a interromperia. Penso que fiz mal e que essa passividade marcou desde logo o ritmo das nossas andanças. Se lhe disser que desde aí foi sempre ela a tomar iniciativas não lhe minto nem um bocadinho. Tinha a esquisita sensação, quando lhe propunha alguma coisa, que eu era transparente.

Ora aí está um campo onde eu te percebo. Só que aqui sou eu o transparente. Ou aprendeste bem a lição ou temos uma relação onde aproveitas o não me conheceres para inverteres a polaridade. Se eu fosse mal intencionado pensaria que como nada esperas de mim podes, à-vontade, dar azo a tudo o que te apetece pensar e despejar. Se com ela não o fazias, é lógico que esperavas dela qualquer benefício. Vês meu menino como o interesse gera dependência? Com que então querias apoderar-te dos seus estatutos sem pagar o preço? Começo a perceber-te meu pequeno. E, francamente, o que percebo agrada-me.

Imagine que uma noite me aparece toda vestida de negro, botas e calças justas, camisola de gola alta e um casacão por cima de tudo isto e sem mais aquelas me diz: - Despacha-te que hoje vamos fazer umas colagens de cartazes...Colagem de cartazes?! A mulher é doida, pensei. Decidi logo ali por as coisas claras. Aquilo era já passar das marcas. Então estava a pôr-me a liberdade em perigo e nem sequer me perguntava se estava de acordo? Francamente, isto era ser mais fascista que os ditos. Enchi-me portanto de coragem e disse-lhe:

Está bem, onde é que vamos?

Que grande gargalhada dei nessa altura. Não fazes ideia do prazer que senti. Mas o gajo também tinha uma certa coragem, tive que admitir. Como deves ter percebido, por esta altura já tinha desistido de tentar correr com ele ou sequer meter-me na conversa. Creio bem que o que ele precisava era da aparência de um auditor. No fundo falava apenas para si...

Ainda hoje não consigo recordar-me bem de tudo quanto aconteceu nessa noite. Inicialmente dirigimo-nos a casa de um amigo de que, por hábito antigo, não direi o nome. Mesmo se lho dissesse você não ia acreditar. Sim, é bem conhecido. Só que virou. Virou mesmo e deixou de morar em Campolide. Onde mora agora? Isso não lhe digo. Dou-lhe uma pista. Se correr os três sítios mais caros de Lisboa vai com certeza encontrá-lo num deles. E chega..

Olha-me só para isto. Dialoga comigo como se eu fosse ele. Ou ao contrário, dialoga consigo como se ele fosse eu. Diz-me o que lhe passa pela cabeça como se eu lho perguntasse. Amigo, a si, não me apetece perguntar-lhe nada. Por outra, apetecer-me-ia sim, perguntar-lhe quando é que me desampara a loja e me deixa ler o meu jornal em paz.

Na casa desse tal amigo, que você está cheio de curiosidade de saber quem é, entregaram-nos uma braçada de cartazes um balde de cola com pincéis e pediram-nos para decorarmos um número de telefone onde, para o que desse e viesse, estava um advogado e um médico da cor. Palavra que me arrepiei quando nos falaram nisto. Se até ali estivera pouco à-vontade, mas ainda um pouco descrente de que me estivesse a meter numa alhada daquelas, o número de telefone foi como um murro no peito. Você sabe, uma coisa é a gente ter cá dentro aquela indignação sufocada que nos faz chamar uns nomes à governança e outra, bem diferente, é começar a fazer coisas que os chateiem à grande. Olhe que isto de andar de noite a colar cartazes contra o governo tem que se lhe diga.

Ai não que não tem. Bem o sei porque me calhou em sorte... em sorte, heim??; puta de língua esta que até ao azar chama sorte e sem ser por ironia. Está aqui este tipo retroactivamente cagado por uma coisinha de nada. Se eu fosse de contar as encrencas por onde andei o gajo ficava verde. Bem, a verdade é que tu também de pouco sabes. São coisas que se fizeram. Na realidade já não contam. Deixam de contar logo que feitas produzem efeitos. É por isso que me lixam os politicozecos de agarrar tachos que andam sempre com o passado hasteado. O passado só conta para mandar abaixo. Quando se quer fazer qualquer coisa é o presente que interessa. De nada vale o que fiz se o que estou a fazer não presta. Olha que este pensamento não é meu. Também não o apanhei a flutuar no ar. Foi no decorrer de uma conversa com o Floral que ele o afirmou. Eu gostei e utilizo. Sim, também me sirvo, de vez em quando, de outros pensamentos de outros amigos. Sem citar a fonte, pois claro. Eu sei lá quando é que um pensamento entra no domínio público. Assim, utilizo-os quando me convém. Ponto final.

A noite estava preta de negra. De início tudo correu bem. Só que em certa altura a Terília deu em armar em parva. Primeiro começou aos gritos: "abaixo o fascismo", "viva o comunismo", "proletários de todo o mundo, uni-vos" e nunca mais se calava apesar de toda a gente do grupo a tentar fazer calar. Depois, foi colar um cartaz num enorme Mercedes preto que estava estacionado na rua. Estava ela a meio da manobra quando o condutor apareceu e começou aos berros: - Comunista de merda, andas a cagar-me a viatura e eu é que me lixo a limpá-la. Se calhar pensas que amanhã é o meu patrão que vai estoirar o canastro a tirar a porcaria da cola de cima do carro?

A malta que estava nas tascas ao ouvir estes gritos saiu toda e desatou a perseguir-nos. Corríamos a bom correr e Terília ainda gritava "Uni-vos proletários" enquanto, entre duas golfadas de ar me dizia: - São todos da PIDE, disfarçam-se para se misturarem com o povo...

Pois é . Além do medo aprendeste alguma coisa de útil sobre o folclore revolucionário. Também eu aprendi com muitas dessas. Na altura usávamos uma palavra que hoje me soa esquisita para classificar os companheiros de luta. Dizia-se aquele tipo é um gajo válido. Válido, estranho, não é? É como se nós, que apregoávamos a igualdade, estivéssemos de imediato a classificar as gentes em dois grupos. Os bons e os maus. Depois, com razão em tudo quanto era sítio revoltávamo-nos contra os "fachos" por dividirem o pessoal entre os bons e os maus...portugueses.

Porra, disse-lhe eu, quando conseguimos parar. Fazer trabalho político é uma coisa. Provocar sarilhos é outra. Riu-se, iluminou a noite, passou o braço esquerdo sobre o meu ombro esticando-se um bocadinho e de mamas encostadas ás minhas costas, olhou-me um pouco admirada:

"- Também sabes discordar? Já ganhei a noite."

Não disse mais nada e nada me deixou dizer. Calou-me a boca torcendo-me o pescoço e pondo-me na boca um beijo tamanho da noite e maior do que o susto.

Pronto, pensei eu, cá está mais um com a teoria de que o que elas querem é um durão que as contrarie. Lembras-te como eu os classificava? Eram os da porrada erótica. Primeiro murro nos cornos, depois reconciliação na cama. Tu, como sempre avessa à crueza da linguagem, ias pondo açúcares nas expressões e emendavas suavemente para "relação conflitual". Sempre achei graça a essa tua maneira de encarares a realidade. Dava-me a impressão que ao mudares o registo da linguagem pensavas alterar a dureza do real. Sim, que este mundo é bem filho de puta.

Dormi nessa noite com ela e continuei pelas noites seguintes. A casa onde morava não era muito grande. A bem dizer era um estudiozinho com um quarto e uma sala comum. Não lhe vou contar o que se passou porque detesto esses relatos minuciosos sobre as intimidades de cada um. São coisas para se guardarem e não para se exporem à curiosidade colectiva. Não, não queira insistir nesse ponto que eu não lhe vou contar nada. Apenas lhe digo que foi uma experiência Única. ÚNICA, ouviu? Por muito que você esforce a imaginação nunca se aproximará da verdade. Nem mesmo eu que a vivi. Quando hoje rememoro apenas consigo ter uma representação por demais pálida do que me aconteceu. _

Se eu pudesse interromper-lhe a incontinência verbal ter-lhe-ia dito que de nada me interessava a sua experiência emocional, ou erótica, ou pornográfica ou fosse lá ela o que tivesse sido. Já me bastam as minhas e nem de todas elas me orgulho. Além do mais não considero o sexo nem como uma função meramente reprodutora, nem sequer como uma experiência religiosa ou mística. O sexo é o sexo. Como a palavra, permite estabelecer a comunicação ou a confusão. É tudo uma questão de interlocutores e do que eles têm para dar um ao outro. Enfim, sou pela teoria da troca.

Como lhe disse comecei a viver no seu apartamento. Digo bem, no seu apartamento. Não pense que estou a fazer qualquer figura de estilo. Provavelmente esperaria que dissesse que ficara a viver com ela. Isso também eu queria! Mas quem é que pode agarrar o vento? Logo nessa manhã, quando acordei, tinha o seu lugar vazio. Procurei-a na casa de banho e só a humidade quente dos restos de um banho diziam da sua passagem por ali. Voltei ao quarto, sentei-me na cama e fiz a minha primeira grande e profunda meditação sobre que tipo de relacionamento seria o nosso ou se, eventualmente, haveria relacionamento ou só uma passagem episódica. Devo confessar-lhe que não sendo exactamente o modelo ideal de um bom pai de família, tão pouco tenho ganas de desenfreado libertino. À escaldante sensação da paixão, se bem que a não desconsidere de quando em vez e com brevidade na minha vida, prefiro antes a tepidez de uma relação segura.

Pois, segura. Não querias mais nada. Andas a rolar pelos espaços a uma velocidade tremenda, num grão de poeira que a qualquer momento pode chocar com outro e querias segurança! Não te apercebeste, meu parvo, que somos bolas de bilhar numa mesa cósmica e que nunca sabemos onde a tacada conduzirá a bola em que nos alojámos? Querias então uma relação segura. Queres dizer, estável, parada, imutável, onde o tempo deixou de existir, eterna! Meu parolo, quase me fazes ter compaixão de ti. Definitivamente és um ingénuo. Ainda não percebeste a trama onde te moves.

Esperei-a até à uma da tarde. Nesse tempo, acossado pela fome, desesperança e raiva, fui-me embora. Tive um sarilho dos diabos no emprego para explicar o atraso, o que contribuiu para o mau humor que levava quando, sem me querer confessar, fui ao café pensando poder encontrá-la. Com medo que ela pudesse aparecer e eu não estivesse lá, nem jantei. Esperei, esperei e ela não apareceu. Já muito tarde passei-lhe pela rua. Não havia luz nas janelas e tive medo de que se tocasse à porta reagisse mal e me tomasse por parvo. Sabe, na altura defendia-se muito, embora eu creia que fosse mais teoria que real, a relação descomprometida. O amigo, que é da minha idade sabe bem como era. Um encontro casual, uma noite bem passada e sem saudade ou remorsos cada um para o seu cantinho. Já vê, se ela estava numa dessas e eu lhe aparecia feito dinossauro romântico que triste figura faria.

O sacana não deixa de ter razão. Também me aconteceram algumas assim. Mas era a moda. Era preciso ter aquele ar de não me ralo, de viver o presente, de vestir de negro o corpo e o futuro. Havia mesmo quem acusasse o Jean-Livoir de levar ao suicídio por desesperança muitos adolescentes. Lá que havia suicídios em barda, não há dúvida, mas se olhar para o presente não vejo grandes melhoras...

Só passados três dias a voltei a encontrar. Zangadíssima comigo. "Que não aparecia, onde é que me metera, o que pensava dela, julgava que era mulher de se entregar sem mais aquelas, etc... etc.etc." e eu tão parvo que nem me lembrei de dizer-lhe que me podia ter telefonado para o emprego, que a esperei, que percorri a sua rua na esperança de a encontrar e que fora ela que me deixara sozinho e sem um pequeno recado que fosse a dizer-me: -

Amo-te. Volto já.

...também, para ser sincero, não vejo que as coisas piorem. Mudam, isso sim. Nós ao que parece é que nos vamos esquecendo de como as coisas eram e as vamos pintando de novo. Como as que agora se passam nos correm sempre ao lado, parecem-nos então menos interessantes que as que vivemos. Ilusões! Formas de reagirmos contra o tempo e a vida que tão bem passa sem a nossa indispensável presença. E os outros, os que nos amam, já que este palerma parece que queria uma declaração formal. Esses, por muito sinceros que sejam e falta que lhe façamos, seguem a lei da vida. Estamos, contam connosco, vamo-nos, duas lágrimas de dor e , de novo o tempo cicatriza a ferida e ala que se faz tarde, continuemos a passar a vida e esquecendo quem partiu. Que se há-de fazer? É assim mesmo e, penso que seria bem pior se fosse de outro modo.

Fui de novo com ela, está mesmo a ver. Se calhar o amigo já está pensar pois claro, porque é que este tipo, que é um palerma inveterado, havia de não ir? Se ele até bebe o ar por ela, que remédio tem senão o de aceitar o jogo. Pois está enganado. Só me deixei vencer ao fim de uma longa discussão. Disse-lhe tudo o que pensava do comportamento dela, das indecisões em que me fizera cair, da pouca importância que me parecera ter na sua vida. Ela, senhores, ouviu-me sempre em silêncio, com um ar muito sério e no fim, larga uma gargalhada que fez parar todo o café, agarrou-me na mão:

-"Anda criança.. Vou ver se te faço crescer."

Arrastou-me de novo para casa e fiquei lá definitivamente. Quer dizer, fiquei até ao dia...

Claro, em que ela correu contigo. Fartou-se das tuas imbecilidades, das inseguranças contínuas e pôs-te a milhas. Tinha concerteza coisas mais interessantes em que ocupasse o tempo. Tu sabes que uma relação entre dois adultos não é nada fácil. Duas personalidades que evoluem em direcções próprias, com a sua pessoalíssima visão do mundo, ocuparem o mesmo espaço e fazerem coincidir, dia após dia, continuadamente, as suas vontades é obra. Não é para qualquer um. Quantas noites passamos nós discutindo por coisas que ao alvorecer pareciam sem importância mas que se as deixássemos cavalgar-nos a noite seriam, por essa mesma manhã, um tremendo obstáculo ou um perigosíssimo recalcamento?

...em que ela, sem mais aquelas, chegou-se a mim deu-me um beijo demorado nos lábios e disse-me, pela primeira vez:

" - Amo-te, desesperadamente. Tanto que te vou deixar. Não quero perder as nossas vidas numa relação cujo futuro é o embranquecimento das cinzas. Vou amanhã para Paris com o Cirondo."

E foi.

Sobre a, estupefacção que me invadiu nem lhe falo. Depois, tudo aquilo me parecia inverosímil. Dizer que me amava para logo em seguida me comunicar que me abandonava era coisa que não entrava na minha lógica. A seguir invadiu-me uma revolta e uma angústia que misturadas se anulavam e apenas me permitia ficar num aparvalhamento total. Engoli as palavras várias vezes antes de conseguir dizer-lhe: - ai vais? Então boa viagem. Desandei escadas abaixo para que ela não me visse chorar. Até agora nunca mais deu notícias. Nada soube dela durante anos e, de repente, como se nenhum tempo houvesse passado, como se não me tivesse trocado por outro quando, nada me faria esperar tal coisa, sem mais aquelas, mandou-me um telegrama, seco, imperativo comunicando-me que chega hoje de tarde no avião de Paris e que a fosse esperar. Por esta razão, porque me encontro numa tremenda dúvida é que me sentei na sua mesa e lhe contei esta história. Dê-me o seu conselho. Devo ir ao aeroporto esperá-la ou devo ignorar a sua mensagem e riscar o seu nome da minha vida?

..................................................

Os passos soavam nervosos e nítidos, batidos no mármore do chão do café deserto. Dirigiram-se para o local onde isolado, um homem rabiscava sobre a toalha linhas que se cortavam, seguiam paralelas durante um breve espaço e de seguida se afastavam definitivamente no entrecruzado da trama tecida. Lá chegados dispararam de cima de si um extenso rol de razões

: - sempre a mesma coisa a escrava que se amole que ande todo o dia numa fona vê lá se te interessa saber que o Deco tem que meter um aparelho nos dentes que a Italina está com problemas na escola e que já fomos chamados ao director de turma ainda está por pagar a conta da electricidade ninguém se lembrou de que era preciso ir ao supermercado a escrava que vá que ande numa roda viva dê de comer a horas certas e não se esqueça de nada porque senão ainda lhe caem todos em cima a criticar ai senhor que mal fiz eu para merecer tudo isto grande pecadora devo ser para merecer tanta raiva dos céus que Deus me perdoe mas este homem dá comigo em doida todo o santo dia metido neste antro sem fazer nada só com os olhos a olhar para ontem e a riscar a toalha da mesa se eu fosse o dono do café punha-te mas era na rua podia ser que assim me ajudasses e ele não perdia nada porque fregueses de gosma como tu são de querer longe da porta quem me mandou ser parva e casar contigo um inútil em sem serventia para nada enquanto as outras anda de cu tremido nos seus automóveis eu aguento que nem uma burra com o trabalho da casa as compras os filhos e esta porcaria de homem que não tem ponta por onde se lhe pegue


Com um amor cuidadoso e lento dobrei o meu drama e recolhi-o dentro de mim. Amanhã, se o tempo o permitir, estarei aqui de novo para construindo a vida me afastar desta coisa diária e insidiosa que me corrói. Até amanhã sonho. Até, amanhã vida...

novembro 08, 2005

A Presidência é um folhetim?

Que pode o poeta contra a barbárie? Que pode a poesia contra a violência a injustiça? Exprimir, pelo ritmo da escrita e das diversas falas, as energias sufocadas.

Diversas são as falas, Arte de Marear, Manuel Alegre





Não sei se já repararam mas eu ando a ficar muito interrogativo. Assim um pouco para o perplexo. Tenho alguma dificuldade em perceber as pessoas que não conseguem separar convenientemente as preferências pessoais do seu trabalho. Vem isto a propósito da entrevista de Manuel Alegre, ontem, na TVI, conduzida por Constança Cunha e Sá.

Quando um profissional de jornalismo entrevista um candidato à Presidência espero que os temas versados sejam do interesse geral, relacionados com o programa do candidato, perspectivando a diferença que o mesmo pretende ou poderá acrescentar ao panorama político-social existente, ou que propostas o distinguem dos restantes. Sobretudo se o candidato em questão apresentou, recentemente, um manifesto distante da habitual retórica oca e de circunstância, com propostas fundamentais e fundamentadas, visando a resolução de problemas graves que afectam a sociedade portuguesa.

Requer-se um posicionamento sério para um assunto sério.

Sério não quer dizer que não seja a conversa perpassada pelo humor – essa voz da inteligência – e que toda a gente tenha de envergar um ar de quinta-feira santa. Mas também não é certamente a procura pequenina e torpe de desaguisados pessoais, da pequena ocorrência, da bisbilhotice de comadre, da tentativa espertóide de entalar o outro, escarafunchando no insignificante para dar um espectáculo de basbaque.

Depois, sabem, ai de mim ingénuo!, ainda espero comportamentos deontológicos sãos, respeito por si próprio, pelo outro e pela inteligência do espectador.

E o que me dão?

O entrevistado a tentar apresentar o seu programa e as suas razões. A demonstrar que a política também são afectos e impulsos a permearem a racionalidade das coisas e a entrevistadora a teimar nas relações pessoais entre dois candidatos, a tecer pequenas insidias, a demonstrar uma intenção maculante e a escorregar nas suas armadilhas, virando o feitiço contra o feiticeiro e em vez de apertar o interlocutor, a perder o pé, a ter de explicar o seu posicionamento e intenções. Não me parece isto comportamento exemplar.

Eu sei que cabe ao noivo gabar a noiva e, disso não me coibirei sempre que para tal tenha azo. Mas neste caso, sinceramente, vocês me dirão se o meu posicionamento se deve a cegueira sectária ou à justa indignação de ver um mau trabalho jornalístico e um precioso tempo de esclarecimento a esbarrondar-se na tentativa de, no lugar de uma entrevista, colocar um folhetim.

novembro 07, 2005

Paris já está a arder?

Não tem sede de aventura
nem quis a terra distante.
A vida o fez viajante.
Se busca terras de França
é que a sorte lhe foi dura
e um homem também se cansa.

Trova do Emigrante, Praça da Canção, Manuel Alegre






Parei de escrever nestes dias, não por falta de motivos a comentar, mas pelo seu excesso. Entre todos dois chamavam, sobretudo, a minha atenção. O manifesto da candidatura de Manuel Alegre, que apoio desde que o mesmo se declarou candidato, e os acontecimentos em França.

Descobri depois, que estes dois temas tinham algo em comum e que mereciam, ainda que breve e superficial, uma análise àquilo que os liga.

O mal-estar que, nos arredores de, Paris produziu os confrontos e incêndios, já não é novo. Muitos casos dispersos, com maior ou menor cobertura dos “media”, foram acontecendo ao longo dos anos. Os sociólogos, desde os anos sessenta, chamam a atenção – com pouco entendimento por parte do poder – para o erro urbanístico e social, que foi/é a concentração de populações de semelhante dominância étnica ou social, em espaços delimitados, com escassos recursos em equipamento e rotulados – e rotulando – negativamente pela sua localização e composição.

O desprezo pelas chamadas de atenção concretiza-se agora nos actos de revolta cega, contra pessoas, instituições e objectos próximos, visando alcançar os inatingíveis e distantes poderes. São dolorosos e doloridos recados.

Agora que a onda rebentou e que a insegurança das pessoas clama por mais polícia nas ruas, a maior parte das gentes está disposta a ceder a sua liberdade por um pouco menos de medo. Não é grande a troca mas é o que se sente no ar.

Dos actos desesperados de uma juventude igualmente desesperada poderão advir consequências trágicas e contrárias, em tudo, aos motivos que os levaram à revolta.

Em primeiro lugar a justificação, plenamente aceite, da redução de direitos e garantias dos cidadãos, em segundo lugar o ainda maior isolamento das populações emigrantes, em terceiro lugar, por reacção, o crescimento contínuo dos partidos de extrema-direita, como o do Sr. LePen, e a possibilidade de, cada vez mais, influenciarem as políticas de emigração e de integração, senão mesmo de ascenderem, de vez, ao poder de Estado.

Tem, neste momento, pouco efeito o discurso de compreensão sobre as causas da revolta juvenil. Esse discurso é apenas realizável antecipadamente ou a longo prazo. A curto prazo as políticas repressivas serão as únicas actuantes e creio bem, já estarão a ser, não estudadas, mas implementadas, com consequências nefastas, para a França, para o Mundo e para os migrantes que se acumulam às portas da Europa.

E onde entra neste cenário a candidatura de Manuel Alegre?

Ouvi, ontem, no comentário semanal do Prof. Marcelo Rebelo de Sousa o seu discurso de tranquilidade em relação ao possível contágio destes actos no espaço nacional.

Acho que está rotundamente enganado!

Se em alguma coisa este movimento de rebeldia tem semelhanças com o Maio de 68, é nas possibilidades de contágio, por vivências semelhantes, noutros países da Europa, o nosso compreendido. Para os distraídos chamo a atenção para os bairros degradados das nossas maiores cidades e para a sua cintura industrial, onde as existem todas as condições que levaram aos distúrbios em França, esperando apenas a faúlha que as faça eclodir. O efeito mimético não será , certamente, a menor …

Já disse atrás que os remédios, para fazer efeito, têm de ser administrados em tempo certo. Não sei, ainda nem já, qual é o tempo que nos resta. O que sei é que com as políticas escolares, sociais e económicas que continuamos a alardear apenas conseguimos aceleradores para a desgraça.

Sabendo, embora, que os poderes presidenciais não se confundem com os executivos, muito profundamente creio, que medidas apontadas pelo nosso candidato no seu Manifesto, podem reequilibrar os termos da equação social em que nos vamos mexendo.

A continuar deste jeito, pensando que somos diferente, que aqui, porventura graças à Senhora, as mesmas causas sociais produzirão efeitos atenuados ou diferentes, é olhar para a onda e esperar, sem aprender a nadar, que ela não nos submerja.

O programa para a presidência, de Manuel Alegre é, entre os presentes, o que melhor poderá, através da assumpção de valores éticos, influenciadores de políticas sócios-económicas redistribuidoras, constituir-se em travão para o deslizamento caótico desta sociedade de tão injustas in/diferenças.

Se continuarmos pelo caminho que estamos a trilhar, não se admirem depois, se de súbito, numa destas noites, o vosso bairro acordar no meio do clarão do vosso carro a arder…

Não me venham depois chamar Cassandra ou profeta da desgraça.

novembro 02, 2005

(h) a via romântica

E a Maria do Brás que ficou sempre menina
Dentro de mim em Águeda há vinte anos.

Correio, O Canto e as armas, Manuel Alegre


(h) a via romântica


o amor romântico é uma inovação
tardia da civilização ocidental



I - meditação de inês
em janeiro de 1355

nunca desconfiei que o peso do tempo caísse
como vento no local da voz
olho o meu corpo
investigo os passos do silêncio
crescendo na planura do vestido

através das águas sobe o murmúrio dos prados
e sobre o nó do corpo fitam-se
os limites da crisálida

acode-me o instante transparente de todos os caminhos

II - início dos anos 60
em évora

nasceu em 1944
de pai bêbedo e desempregado crónico

a mãe
que nascera morta
continuou a morrer
até que muito nova concretizou
definitivamente
o seu estado

cresceu solto e descalço
entre janeiro e agosto saltavam-lhe
os pés
no fogo aberto das pedras

quando fez 14 anos foi dar
serventia a pedreiros e ficou
tal como o trabalho
duro e rapace

por vezes
no largo de s. mamede provocava a zanga
e batia nos estudantes mais fracos
era a raiva dirigida ao acaso
de quem não percebe a coacção
das regras sociais

nele

nada suscitava a hipótese
de um amor romântico



III - fala de pedro
e do futuro

é na pedra que preservarás a máscara
arcadas e volutas de vento uivarão a garganta
e nos olhos trarás choros de punhais

"que amor mate os matadores
na justiça dos silêncios sepulcrais"

cruel te chamarão por teu serviço
provocar a dor e o dia em que teu dia ressurgir
seja o de ouvir tremenda a tua voz

"é na pedra que pedro pensará a morte
e que amor mate os matadores
na justiça dos silêncios sepulcrais"

IV - continuação da narrativa
em évora

também ela se apaixonou por ele
pomba e gavião
voando
escandalosamente juntos

pessoas

certamente bem-intencionadas
levaram o recado ao pai
acelerando mais ainda a roda da paixão

negou-lhe então a cidade o seu abrigo
voara mais alto que a sua condição

V - de novo medita inês
em 1355

sei que em algum dia e por alguma coisa fui
e sempre d'esse ser me investi
no apartar das águas que sem nome
trazem o pássaro de vento e neve
onde se obscurece tudo

quanto se poderia abrir a oriente
no exercício de morte que soletro
fronteira proibida há que cumpri-la com rigor
e ser precisa nos gestos que ao tempo
outro tempo seguirá

VI - rápida mudança de évora
para lisboa

ela acabou por casar com um
engenheiro agrónomo que foi tratar
das propriedades do pai e montou casa
em lisboa

ele acreditando ainda que o amor era possível
foi-lhe na esteira e um dia
encontrou-a na baixa com algumas
novas amizades

ela fez que o não viu

VII - pedro diz

eu hei-de cantar sob os choupais
uma outra lua que agonia não mereça
em cada pedra selarei a flor de um mosteiro
feito de fuga e arco

quem se atreverá a abater o vulto que sustento
enquanto a vida vai

a ti meu pai lançarei as vísceras de todos
quantos não convenceram choros e armado
por quanto disse e vivo
abro a lura onde o lobo se constrói

eu matarei um dia
já que matar-se não pôde a minha voz

VIII - complemento da passagem

por isso ao olhar para si
compreendeu as margens
e viu
que de seu braço só partiam rios
de separar

então
em 7 de janeiro de 1967
612 anos precisos após a morte
de inês de castro
o meu amigo sentou-se no
banco do hospital de s. josé
e
por desesperado amor
assassinou-se

se ele se chamasse pedro
estaria paga a morte de inês

outubro 31, 2005

Ninguém está inocente???!!!

Há tiros em pontos diferentes da cidade, isto não é um filme, é um golpe.

Rafael, Manuel Alegre






Olho para o extenso libelo que o público publica hoje sobre a dama de Felgueiras e fico estarrecido. As redes de cumplicidade, os alquevas de lama, o cheiro nauseabundo que sai de todo este “affaire” são, mesmo para pituitárias portuguesas, demasiado.

Então quem é que não está implicado? Pelos vistos quase ninguém entre os circunstantes deste processo social de sacos azuis, compras de automóveis, fugas para o Brasil e combinações estranhas com as polícias.

Não havia a senhora de ostentar aqueles ares de grande dama acima de qualquer suspeita e muito acima da lei que obriga os “vulguérrimos” indígenas. Pois se, pelas cumplicidade, protecções e conluios ela estava mesmo muito acima dessas torpes preocupações.

Acho que vou deixar de fazer reparos ao comportamento da senhora e vou mesmo defender que, entre muitas outras coisas que fez e não fez, ela nunca fugiu para o Brasil. É que, pelo andar da carruagem, além de possivelmente vir a ser ilibada dos 23 crimes de que está acusada, ainda acabo eu, no banco dos réus, por ter afirmado que as malfeitorias cometidas, sendo degradantes para qualquer um e do domínio público, não parecem ter qualquer efeito na contínua notoriedade e ascensão da personagem Fátima.

Creio que começo a correr o risco de reconhecer a verdade de uma máxima dos velhos inquisidores: ninguém é inocente; todos são culpados de algo, que mais não seja do pecado original!


Com excepção da D. Fátima, é claro!

outubro 29, 2005

Formação do Núcleo do Barreiro de apoio à Candidatura de Manuel Alegre

Uma coisa me perturbou: foi quando o jornalista Rui Rocha, do Expresso, num excelente texto que escreveu sobre este livro, destacou as duas primeiras letras de Manuel e Alegre. Vai-se a ver e dá MA e AL. Lê-se ao contrário e é ALMA.

Alma, Arte de Marear, Manuel Alegre





Há já muitos anos que não sentia a alegria de estar a lutar por uma causa.

A gente sabe, a institucionalização da Democracia, um bem em si mesmo, não deixa de nos “empantufar” um pouco o entusiasmo participativo.

Começamos a pensar que já fizemos a nossa parte, que os partidos estão cá mesmo para isso, que o voto é participação bastante e passamos procuração para que outros se preocupem com o estado da Nação.

Um pouco como se contratando um empregado para tomar conta da manutenção da nossa casa, acabássemos por nos convencer, e a ele também, que já nada tínhamos a dizer ou que não aceitaríamos qualquer preocupação a respeito da casa, porque isso seria meramente função desse empregado.

Parece absurdo mas é assim que nos vamos comportando em política.

Ou, pelo menos, íamos.

A candidatura de Manuel Alegre à Presidência e as suas circunstâncias vieram acordar muitas das consciências, que como a minha, lá iam andando no ramerrão quotidiano da participação cívica. Isto é, opinávamos, indignávamo-nos, mas continuávamos a pensar que aquilo não era connosco. Os outros, os lá da política, que resolvessem as coisas.

Só que os outros da política somos nós todos. É a este conjunto, formado neste território que é a Pátria, que pertence a soberania. Disto nos veio, com o seu gesto político de rebeldia poética, recordar Manuel Alegre.

É certo que ele veio para incomodar e parece estar a incomodar muita gente.

Por outro lado, como já se não via desde o caso de Timor, as pessoas estão a falar-se, a contactar-se, a organizar-se para suprirem a estrutura de apoio que a Manuel Alegre foi negada de forma muito pouco ética.

Não quero retirar aos partidos o direito de apoiarem seja quem for, mas não deixarei, e espero que não deixemos, que os partidos nos queiram tirar a nós esse direito.

Como qualquer democrata não sou nem posso ser anti-partidos, mas não aceito que pretendam monopolizar toda a acção política. A visão dos aparelhos pode não coincidir com os desejos das populações, como no presente caso se demonstra e o tempo virá, certamente, a consolidar esta percepção.

É pois chegado o tempo de passarmos à acção organizada. Peço a todos os interessados, na Cidade do Barreiro, que queiram fazer parte do núcleo de apoio nesta cidade que, através deste Blogue, me contactem.

Juntos descobriremos o tempo e o modo da acção a desempenhar para levarmos à mais alta instância do Poder o cidadão Manuel Alegre, a pessoa e a voz que as circunstâncias pedem.

outubro 27, 2005

A minha mulher anda cinzentinha

Duvidar e agir, agir e perguntar, eis o meu lema. Na vida e na escrita.

Duvidar e Agir, Arte de Marear, Manuel Alegre





Ando a ficar basto desconfortável. Por causa da cor da minha mulher.
Eu conto. Sempre foi radiosa e brilhante. Inteligente e activa não parava um momento. Gostava do seu trabalho e entregava-se a ele com devoção diária e sem ligar a tempos nem horários.

Achava que mais que uma profissão tinha uma missão. Por isso preteriu propostas de emprego mais bem remuneradas e aparentemente mais prestigiosas. Mas não! Era aquilo que ela queria e nada mais a motivava.

Por vezes, pensava eu, e ainda penso, era de mais! No meu materialismo rasteiro não compreendia a sua entrega total a um trabalho tão mal pago e com tantas e tantas horas doadas, nem sequer reconhecidas como tal. Mas ela não se importava, continuava a pensar que o seu trabalho era importante e dele dependeria, de alguma forma, o futuro de todos nós.

Todos os anos fazíamos projectos de fins-de-semana magníficos. Todos os anos, em quase todos os fins de semana, adiávamos para o fim-de-semana seguinte o magnífico projecto, porque um trabalho, uma pesquisa, uma actualização ou uma proposta nova – entre tantas outras coisas – vinha impossibilitar a realização do programa desejado.

Então projectava-se uma mais comezinha ida ao cinema, a um concerto, ao teatro e… não íamos porque algo se tinha complicado e era preciso mais tempo, mais estudo, mais trabalho.

E o dinheiro gasto em livros para actualização? E o tempo para pesquisar em bibliotecas e livrarias?

Incontáveis, meus senhores! Tudo a suas expensas em horas e dinheiros!!...

Mas, apesar disso, a minha mulher continuava luminosa e activa a destilar espírito de missão.

Só que, há uns tempos para trás, começou a acinzentar. Arrasta-se, parece deprimida e olha para as coisas, que tanto a entusiasmaram, com um “olhar distanciado” entre o baço e o displicente.

Cheio de desespero e de frustração perguntei-lhe se a podia ajudar? De que sofria? Respondeu-me, desalentadamente, que a não poderia auxiliar e pensava mesmo que ninguém, a curto prazo, o poderia fazer.

Sofre, confessou-me com alguma vergonha, de ser professora do ensino secundário!

Dei-lhe toda a razão! Este mal, nestes tempos, não tem mesmo remédio nenhum.

outubro 25, 2005

Há patinhos no Barreiro

Mensageiros andaram de aldeia em aldeia.
Algo de estranho se deve passar
se de novo convocam a Assembleia.

Um barco para Ítaca, Manuel Alegre







O Parque da Cidade virá, com o tempo e o crescer das árvores, a ser um local belo e aprazível nesta cidade que, em beleza, não é muito pródiga.

O espaço é amplo, os relvados extensos, a água faz parte da arquitectura e casa-se bem com o ambiente.

Nos logradouros aquáticos, que poderiam estar mais limpos e menos verde-pântano, transitam submersos cágados ou tartarugas e por todos os hectares do terreno – com ou sem água – uma variegada onda de patos, de muitas e desvairadas cores e raças, convivem fraternamente com a população, sobretudo com as crianças maravilhadas por alimentar à mão tão interessantes criaturas.

Para o jovem urbano é de facto um gárrulo convívio com a natureza.

Pois é! Tudo isto seria formidável se não fosse esta inquietante gripe aviária, que ameaça por aí transformar os “pessarinhos” mais ornamentais ou comestíveis em sérios agentes de guerra biológica, não estando livres de conseguirem esta condição o inumeráveis patinhos, livres e voadores, que habitam o parque.

Não sou zoólogo, nem biólogo e muito menos ornitólogo – que é uma palavra esquisita para em relação a ela se ser – portanto não sei quais serão os comportamentos dominantes destas simpáticas aves residentes. Sei, no entanto, que os seus primos são inveterados viajantes e que aqui existe um enorme sapal que pode ou não estar inscrito nas rotas turísticas destes palmípedes, possibilitando-lhes zonas de escusa promiscuidade.

Não me querendo imiscuir na moral dos patos fiquei porém algo preocupado com a possibilidade de contactos não autorizados e pela excessiva liberdade dos nosso incautos patinhos, que no pior dos casos os pode levar a uma morte prematura.

Então, corri à Web página da Câmara do Barreiro e, pelo e-mail do munícipe, disparei aos nossos edis a minha preocupação.

Tempo passou e autárquicas também, pelo que, câmara a mudar, ninguém me ligou nenhuma.

Não é que eu me julgue um cidadão acima de qualquer outro mas penso que quando alguém se dirige à Câmara, para apresentar reclamações ou sugestões, por uma mera questão de decência, deverá, ao menos, ver acusada a recepção da sua missiva. Ou estarei errado?

Como nada disto aconteceu, fui, no Domingo passado, verificar se tinha havido alguma alteração na vigilância ou restrição de movimentos dos nossos grasnadores. Qual quê! Até parece que a aves me conheciam e sabedoras da minha denúncia faziam gala em seguir-me, por todos os caminhos, evitando apenas pousar-me em cima por não terem a certeza de estarem mais a meu gosto em plena natureza ou num arroz de forno.

A minha vingança, em relação a elas e à Câmara, é que nunca saberão!

outubro 23, 2005

A Estrada - Poema

E há duzentos quilómetros de morte
Em duzentos quilómetros de terra. (…)
Metralhadoras cantam a canção da guerra.

Metralhadoras cantam, Praça da Canção, Manuel Alegre



a estrada

a estrada é velha, poeirenta, gasta
a estrada que aqui fica e se afasta

a estrada que tem morte e tem tristeza
em cada metro atraiçoa a natureza
a estrada que o é e nada mais
por ser tudo e mesmo ais

a coluna partiu às sete horas
- era para partir às seis
mas há sempre estas demoras

em cada carro os olhos esbraseiam
em cada curva os medos incendeiam
os homens olham, os homens sonham, os homens morrem
há os que choram, os que gritam, os que correm

foi tudo tão súbito como o inesperado
um tiro que partiu, o zé ensanguentado

porra! jesus! Uma blasfémia e uma oração
filhos da puta! se os apanho! não! não!! não!!!

socorrei-me senhor! ave maria!
que mal fiz eu?! - entretanto o zé morria
a pensar na mãe, na maria e naquela noite de amor-
ao seu lado, um incógnito manuel, que fora professor
é um anjo louco a distribuir morte

que se lixe! aqui, o que é preciso é sorte
e cospe para o lado e pensa na paz

há pouco caiu também o vaz
tem a cara desfeita e um braço fora
que interessa, chegara a sua hora

o lopes chora de medo encostado a uma palmeira
bateram duas balas mesmo ali, à sua beira
e nem sequer se mexeu
( nunca se mexe e ainda não morreu )

cuidado! aí vem a morteirada

( três segundos de incerteza...
... e não foi nada )

olhe furriel! está um naquela palmeira
vá abaixo! tratem-lhe da pasmaceira

e três espingardas mal-intencionadas
vão deixar a pele negra, avermelhada

este foi um recontro à hora do sol-pôr
- à hora a que dantes fazíamos amor
a quatro mil quilómetros de distância
a mais de uma centena de horas d’ânsia -
no dia sem amanhã, sem até logo, eternidade
do dia sempre igual e sem idade

à hora do sol sentir a dor que é minha
a estrada lá está e lá caminha

que a morte tem mil cheiros
sob a fronde verdosa dos mangueiros