Creative Commons License
This work is licensed under a Creative Commons Attribution-Noncommercial-No Derivative Works 2.5 Portugal License.

novembro 19, 2005

Viagens de Mário Soares(?)

Tenho recebido, de vários correspondentes, esta listagem. Não sei se todas estas viagens foram feitas, não tenho forma de me certificar de tal, e também desconheço se, do ponto de vista político, foram necessárias e importantes ou se apenas reflectem o irrequieto desejo de mudar de sítio.

Viajar é bom, mas quanto custa uma viagem presidencial e qual será o resultado, a todos os níveis, de uma análise custo/benefício?

Como não sei responder decidi publicar esta lista, tal como me foi mandada, neste blogue. Como no entanto sai fora do tipo de publicação que é a minha regra, não farei, como de início nenhuma citação de Manuel Alegre para que não haja qualquer confusão. Nem o candidato tem como princípio falar mal dos opositores, nem, de igual forma o autor deste blogue tem por princípio a baixa política e o ataque soez a ninguém.

No entanto, partindo do princípio da veracidade dos elementos constantes na lista, tendo em conta o perfil do candidato Mário Soares e o estado da Nação, a possibilidade de repetição de tais andanças não deixa de me preocupar.

Por isso decidi postá-la aqui à atenção dos vossos comentários.






1986

11 a 13 de Maio - Grã-Bretanha
06 a 09 de Julho - França
12 a 14 de Setembro - Espanha
17 a 25 de Outubro - Grã-Bretanha e França
28 de Outubro - Moçambique
05 a 08 de Dezembro - São Tomé e Príncipe
08 a 11 de Dezembro - Cabo Verde

1987

15 a 18 de Janeiro - Espanha
24 de Março a 05 de Abril - Brasil
16 a 26 de Maio - Estados Unidos
13 a 16 de Junho - França e Suíça
16 a 20 de Outubro - França
22 a 29 de Novembro - Rússia
14 a 19 de Dezembro - Espanha

1988

18 a 23 de Abril - Alemanha
16 a 18 de Maio - Luxemburgo
18 a 21 de Maio - Suíça
31 de Maio a 05 de Junho - Filipinas
05 a 08 de Junho - Estados Unidos0
8 a 13 de Agosto - Equador
13 a 15 de Outubro - Alemanha
15 a 18 de Outubro - Itália
05 a 10 de Novembro - França
12 a 17 de Dezembro - Grécia

1989

19 a 21 de Janeiro - Alemanha
31 de Janeiro a 05 de Fevereiro - Venezuela
21 a 27 de Fevereiro - Japão
27 de Fevereiro a 05 de Março - Hong-Kong e Macau
5 a 12 de Março - Itália
24 de Junho a 02 de Julho - Estados Unidos
12 a 16 de Julho - Estados Unidos
17 a 19 de Julho - Espanha
27 de Setembro a 02 de Outubro - Hungria
02 a 04 de Outubro - Holanda
16 a 24 de Outubro - França
20 a 24 de Novembro - Guiné-Bissau
24 a 26 de Novembro - Costa do Marfim
26 a 30 de Novembro - Zaire
27 a 30 de Dezembro - República Checa

1990

15 a 20 de Fevereiro - Itália
10 a 21 de Março - Chile e Brasil
26 a 29 de Abril - Itália
05 a 06 de Maio - Espanha
15 a 20 de Maio - Marrocos
09 a 11 de Outubro - Suécia
27 a 28 de Outubro - Espanha
11 a 12 de Novembro - Japão

1991

29 a 31 de Janeiro - Noruega
21 a 23 de Março - Cabo Verde
02 a 04 de Abril - São Tomé e Príncipe
05 a 09 de Abril - Itália
17 a 23 de Maio - Rússia
08 a 11 de Julho - Espanha
16 a 23 de Julho - México
27 de Agosto a 01 de Setembro - Espanha
14 a 19 de Setembro - França e Bélgica
08 a 10 de Outubro - Bélgica
22 a 24 de Novembro - França
08 a 12 de Dezembro - Bélgica e França

1992

10 a 14 de Janeiro - Estados Unidos
23 de Janeiro a 04 de Fevereiro - Índia
09 a 11 de Março - França
13 a 14 de Março - Espanha
25 a 29 de Abril - Espanha
04 a 06 de Maio - Suíça
06 a 09 de Maio - Dinamarca
26 a 28 de Maio - Alemanha
30 a 31 de Maio - Espanha
01 a 07 de Junho - Brasil
11 a 13 de Junho - Espanha
13 a 15 de Junho - Alemanha
19 a 21 de Junho - Itália
14 a 16 de Outubro - França
16 a 19 de Outubro - Alemanha
19 a 21 de Outubro - Áustria
21 a 27 de Outubro - Turquia
01 a 03 de Novembro - Espanha
17 a 19 de Novembro - França
26 a 28 de Novembro - Espanha
13 a 16 de Dezembro - França

1993

17 a 21 de Fevereiro - França
14 a 16 de Março - Bélgica
06 a 07 de Abril - Espanha
18 a 20 de Abril - Alemanha
21 a 23 de Abril - Estados Unidos
27 de Abril a 02 de Maio - Grã-Bretanha e Escócia
14 a 16 de Maio - Espanha
17 a 19 de Maio - França
22 a 23 de Maio - Espanha
01 a 04 de Junho - Irlanda
04 a 06 de Junho - Islândia
05 a 06 de Julho - Espanha
09 a 14 de Julho - Chile
14 a 21 de Julho - Brasil
24 a 26 de Julho - Espanha
06 a 07 de Agosto - Bélgica
07 a 08 de Setembro - Espanha
14 a 17 de de Outubro - Coreia do Norte
18 a 27 de Outubro - Japão
28 a 31 de Outubro - Hong-Kong e Macau

1994

02 a 05 de Fevereiro - França
27 de Fevereiro a 03 de Março - Espanha (incluindo Canárias)
18 a 26 de Março - Brasil
08 a 12 de Maio - África do Sul (Tomada de posse de Mandela)
22 a 27 de Maio - Itália
27 a 31 de Maio - África do Sul
06 a 07 de Junho - Espanha
12 a 20 de Junho - Colômbia
05 a 06 de Julho - França
10 a 13 de Setembro - Itália
13 a 16 de Setembro - Bulgária
16 a 18 de Setembro - - França
28 a 30 de Setembro - Guiné-Bissau
09 a 11 de Outubro - Malta
11 a 16 de Outubro - Egipto
17 a 18 de Outubro - Letónia
18 a 20 de Outubro - Polónia
09 a 10 de Novembro - Grã-Bretanha
15 a 17 de Novembro - República Checa
17 a 19 de Novembro - Suíça
27 a 28 de Novembro - Marrocos
07 a 12 de Dezembro - Moçambique
30 de Dezembro a 09 de Janeiro 1995 - Brasil

1995

31 de Janeiro a 02 de Fevereiro - França
12 a 13 de Fevereiro - Espanha
07 a 08 de Março - Tunísia
06 a 10 de Abril - Macau
10 a 17 de Abril - China
17 a 19 de Abril - Paquistão
07 a 09 de Maio - França
21 de Setembro - Espanha
23 a 28 de Setembro - Turquia
14 a 19 de Outubro - Argentina e Uruguai
20 a 23 de Outubro - EstadosUnidos
27 de Outubro - Espanha
31 de Outubro a 04 de Novembro - Israel
04 e 05 de Novembro Faixa de Gaza e Cisjordânia
05 e 06 de Novembro - Cidade de Jerusalém
15 a 16 de Novembro - França
17 a 24 de Novembro - África do Sul
24 a 28 de Novembro - Ilhas Seychelles
04 a 05 de Dezembro - Costa do Marfim
06 a 10 de Dezembro - Macau
11 a 16 de Dezembro - Japão

1996

08 a 11 de Janeiro - Angola

Durante os anos que ocupou o Palácio de Belém, Soares visitou 57 países (alguns várias vezes como por exemplo Espanha que visitou 24 vezes e a França 21 vezes), percorrendo no total 992.809 KMS o quecorresponde a 22vezes a volta ao mundo.

novembro 18, 2005

neutral-neutrão (poema)

Como Ulisses te busco e desespero
como Ulisses confio e desconfio
e como para o mar se vai um rio
para ti vou. Só não me canta Homero
.

Os dois sonetos de amor de Ulisses, Praça da Canção, Manuel Alegre






I

sob o sobrolho da paisagem
a sombra do campo das anémonas
habita
a súbita tristeza das oliveiras
nos espaços do suor
nas ausências a partir dos hábitos
onde alquímico me ressuscito e transconheço

está por inventar a água
por dentro das cidades

II

neste tempo somam-se as antíteses

os profetas das novas divindades
dormem nos mundos luminosos
anónimos inextinguíveis como
estas sociedades da fartura
onde cada vez mais temos
um pouco de tudo a menos

seguramente desaprendemos
a forma de alçar voo
quando se espera o lume da invenção
e morremos esmagados à sombra
das novas catedrais
e sempre mais rotos e compatíveis
somos mais consumo que satisfação
mais imagem que real

somos
o sumo do consumo social
ou
mais ou menos um
na rota da neura catalogável e consumível
conforme o esgotamento nervoso do stock
a propaganda da pastilha
descoberta do mais curto caminho
para o marítimo reino das solicitações intempestivas

III

chama-se solitude à marcha para a divindade
onda que não molha carril parado
que une o sexo dos campos
ao umbigo das cidades

é preciso que a onda se encontre com a terra
para a vaga ter sentido e ser fusão
velocidade aumentada até à fuga
navalha virada contra o vento
misteriosa irmã do apagar de luzes
contra-espera de mães acenando sóis

por essas manhãs nocturnas
balançavam fantasmas provisórios
em ecos de aprendizagem da vida
nas formas absolutas e mágicas
em que nada ainda foi posto em causa
que tudo é pretexto para a maravilha
de compreender todas as coisas
intuitiva e desregradamente
como fome pura e sensual

IV

o mundo está atravancado por pessoas que são coisas
e receiam ser pessoas

nem que seja numa carta a receber por estes dias
dizendo das saudades que me trazes
de como te espero em cada primavera
impercebendo quotidianamente a diferença
entre o asfalto e o sangue dos grilos
mártires esmagados por convicções

nossa senhora dos aviões nacionais
proteja as empresas com capital do estado
jesus cristo redentor vele pelos impérios privados
e ponha um bom gestor no papado
são marx do capital nos salve dos leninistas
e que o tio sam o magnífico retire da cartola
um céu azul e vermelho com milionários e vedetas
e aumente a venda dos bebés proveta e
deixe os homens aspirarem ao grande trombo nuclear
à maravilhosa explosão que nos irá redimir
por todos os séculos dos séculos neutrão

V

uma hora
uma hora após
uma hora após não havia nada
uma hora após não havia nada para dizer
nem boca para falar ou mal-estar a sentir
ou vestígios de confrontação
nem espaço onde ficar ou mesmo solidão

havia só o espaço sem fronteiras
da última das bebedeiras

novembro 15, 2005

Dormir descansado

Por isso a ironia em relação à mudança do seu próprio estatuto: de ex-exilado a Presidente da Republica, ontem mais ou menos tolerado, agora convidado de honra do Presidente da França. Não, o Hotel de Saint-Pierre não estava diferente, a História é que tinha dado uma volta. E ele? E eu? Permaneceríamos idênticos?

Arte da política ou retrato de Mário enquanto Mário, Arte da Marear, Manuel Alegre





1 – Ena! O que para aí vai de confusão. Desde o candidato Jerónimo de Sousa, passando pelos jornais e com grande estadão em muitos blogues, há um mar encrespado de críticas a Manuel Alegre porque, calculem, perguntado sobre o que se passaria se Cavaco Silva ganhasse as eleições ele teve a ousadia de dizer que “dormiria descansado”.

Como, por muito que a hipótese de tal vitória me desagrade e contrarie, eu, pensando também que não iria recorrer a soporíferos para conciliar o meu merecido descanso de cada noite (nos dai hoje), embasbaquei!

Talvez por Manuel Alegre ser um escritor, faltando aos oponentes argumentos para atacar o melhor dos manifestos de candidatura presidencial apresentados, muita gente decidiu enveredar pela descoberta de duvidosos sentidos em algumas palavras usadas pelo candidato. Temos assim a perplexidade pelo uso aberto e sem timidez da palavra Pátria, e mais recentemente o “dormir descansado”.

Que me perdoem se estou enganado mas, parece-me, existir uma constituição que, cumpridas algumas condições, permite a qualquer cidadão candidatar-se a Presidente da Republica para que os eleitores, todos nós, através do voto, avaliem a aceitação e bondade de cada candidatura, concedendo-lhe, ou negando-lhe, o direito ao lugar pretendido. O regime em que vivemos consente também uma grande liberdade na apresentação de ideologias e propostas. Assim sendo, se os eleitores preferirem o Dr. Cavaco a qualquer outro candidato, poderá ficar em causa a minha perspectiva política e o meu projecto – que, evidentemente, eu considero os melhores – mas não estarão em causa valores essenciais da democracia.

Como já afirmei não sou adepto da visão sociopolítica do candidato da direita mas, não vou por isso considerar que a eleição dessa pessoa é um perigoso para a democracia, tal como não o seria a vitória de qualquer outro legitimo candidato, considerando apenas que o projecto que defendo não conseguiu passar a sua mensagem convenientemente, ou que, tão-somente, no momento, não seria o preferido pela maioria dos eleitores.

Simples mentalidade democrática…

Considero, pois, que ao fazer a afirmação que fez, o Dr. Manuel Alegre, apresentou uma profissão de fé nos valores democráticos, por si defendidos longo da vida, o que só o enobrece e me diz estar certo no candidato porque, tendo como natural objectivo alcançar a vitória, reconhece os direitos dos outros e mesmo contra si os defende.

Assim todos procedessem com ele.

2 – Depois do debate de ontem na RTP1 - Prós e Contras – os portugueses podem dormir mais descansados. A nossa proverbial e consabida diferença, em termos de aceitação do outro, vai proteger-nos contra os males da xenofobia e da não integração de imigrantes. Não importa que vivam em bairros degradados, sem condições de vida condignas, despossuídos de trabalho e perspectivas, porque, o nosso génio nacional, a nossa proverbial lhaneza de sentimentos cá estarão, a sobrepor-se aos factos sociais e económicos, com acrescidas vantagens.
Ainda bem que é assim… No entanto, porque é que eu não fico sossegado? Porque é que me inquieta a tão grande desigualdade existente na nossa sociedade? Porque é que me parece que não há evidentes elementos integradores a securizar a vida das nossas cidades?

Se calhar é porque, não há muitos anos ainda, quando frequentava um mestrado com estudantes dos PALOP, falando com um deles sobre a existência de racismo declarado na sociedade portuguesa, ele, que era um falante escorreito de português, dizia-me que sempre que tentava alugar um quarto – pelo telefone – estava tudo bem, mas, quando chegava às casas e os alugadores viam o seu tom de pele, o quarto já estava sempre ocupado…

…e ontem no citado programa – que confesso não vi de início e não sei se foi dada alguma explicação para o facto – para tratar de assuntos relacionados com migrantes, ao contrário do habitual, não vi na mesa de debate, nem nos interpelados da plateia, nenhum membro, ou representante, dessas minorias nem das suas associações. E vi e ouvi, isso sim, quando um dos intervenientes, exemplificando, usou a expressão “vão para as vossas terras” um salva de palmas e um sussurro de aprovação vindo da plateia.

Por isto, é que não posso dormir descansado.

novembro 12, 2005

Por vezes o drama (conto)

Era um tempo com barcos nos minutos.
Havia o mar. Raparigas da terra da saudade
e os grandes gestos belos e gratuitos
no tempo em que não tínhamos idade.

Romance do tempo inocente, Praça da Canção, Manuel Alegre










Chegou meio esbaforido. Olhou em redor. O café estava a abarro­tar. Nem uma mesa vaga. Fungou duas vezes e atirou na minha direcção a flecha do olhar. Avançou decidido para esta mesa onde em calma espedaçava a tarde. Sentou-se e disparou:

- Por vezes o drama insinuava-se na nossa vida...

Alargou-se todo num sorriso cretino a ocupar-lhe toda a boca mais dez anos de recordações.

...pois era... e se eu fazia esforços para a compreender. E ela? Divertia-se inventando tudo para me fazer sair de mim. Conduzia toda a minha vida em ciclo. Um drama, muitas promessas, reconci­liação; novo drama, mais promessas, outra reconciliação...

Olhei para ele com aqueles olhos de acabar conversas que tu tantas vezes dizes denotar em mim. O gajo nem deve ter notado que eu tinha olhos. Ou boca. Escolhera-me como ouvinte. Nem pela cabeça lhe passaria a possibilidade da minha recusa a semelhante papel.

... de tal forma que muitas vezes, esperando o passar da noite, pensava que poderia agarrar na nossa vida e fazer dela uma história capaz de ultrapassar esses romeus e julietas que por aí se contam. Não se ponha a pensar que entre nós não havia amor. Bem... pelo menos pela minha parte havia e muito. Da parte dela parecia-me haver correspondência. Agora ter a certeza... vá lá a gente saber. Como adivinhar o que se esconde no mais íntimo de alguém? Ou mesmo se os actos correspondem à sua aparência. Não lhe parece que estamos sempre encurralados? Acreditamos e corre-se o risco de sermos enganados. Não o cremos, logo a solidão nos toma de emboscada. Como eu detesto a solidão! Seria capaz de fazer qualquer coisa para não estar um só momento solitário na vida...,

Desesperado, mando o olhar à procura de outra mesa no café. Nem esperanças. Chamei o empregado para pagar a despesa e zarpar. Mirou-me, com os olhos a abarrotar de ruído e fumo, com o desprezo de quem tem ainda pela frente três longas horas de trabalho duro e não percebe a pressa de alguém que só tem que estar com o rabo repimpado na cadeira e, olimpicamente, ignorou-me. Fiquei, assim, completamente à mercê da história daquele manjerico.

... você, acha que tenho ou não razão para detestar a solidão?...

Pronto! Agora que me dás a deixa vou despachar-te em grande velocidade!

... livre-se dessa peste, amigo. Livre-se dela. Onde é que eu ia? Ah! O acaso... o mesmo acaso que me fez sentar nesta mesa,
consigo, que não conheço de nenhum lado, fez-me encontrar Terília. O acaso é assim. O café cheio. O amigo sozinho nesta mesa vê-se mesmo cheio de vontade de conversar e eu, que nunca o vi, a descobrir-lhe a minha vida. Sabe que mais? O acaso é o destino. Não é que eu seja fatalista ou supersticioso mas lá que Terília entrou na minha vida por acaso...

Se eu por acaso espetasse uma lambada no trombil deste chato o que é que dirias? Teria sido bruto? Incivilizado? Ou apenas que a paciência é material que se esgota com celeridade? Põe-te no meu lugar. Que farias? Ao menos um berro no ouvido...?

...Recordo-me perfeitamente. Numa festa em casa de amigos. Ricos, pois claro! Ricos até criar bicho. Só o salão dava para duas famílias habitarem. Com piscina e tudo... pensa que estou a exagerar? Qual seria o gozo de lhe mentir. Não o conheço. Provavelmente nunca mais o verei...

Ainda bem, pensei, tentando fazer-me ouvir. Tu bem me disseras que o meu horóscopo me era desfavorável esta semana. Desculpa-me o riso de incredulidade. A tua revista é que tinha razão. Este
gajo não me larga e o empregado já passou por aqui mais de vinte vezes e continua a não atender aos meus chamamentos. Nem sequer vaga uma mesa para eu zarpar daqui.

... uma bela festa, digo-lhe eu. Terília estava lá. Linda de se ficar sem fala. A sala brilhava de iluminada e ela era ainda mais brilhante do que a sala. Trazia um vestido azul claro... não... creme... bem, trazia um vestido que lhe caía lindamente... disso tenho eu a certeza. O amigo já me está a imaginar, como nos filmes, a avançar para ela, os outros a afastarem-se para me dar lugar, pegar-lhe pela cintura e avançar, ao som da valsa final, para um recanto do jardim. Imaginação sua. Imaginação... Ela nem deve ter chegado a reparar em mim. Rodeavam-na admiradores e amigos. Tantos que nem me consegui aproximar. Também não sou exigente. Bastou-me contemplá-la de longe. Sou muito tímido...

Tímido. Tímido o marmanjo. Olha-me bem para este. Dá vontade de rir. O tipo vem de onde não se sabe, senta-se na minha mesa. Nem sequer me pede licença e sem me ter visto algum dia mais gordo desata a contar-me a história da via dele e diz-me que é tímido.

... de qualquer maneira um homem não é de pau. Nessa noite ador­meci com uma telha dos diabos. Bem gostaria de ser um desses bonitões que nem precisam de assobiar e já elas estão a cair-lhes nos braços. Cá comigo nunca é assim. Desunho-me todo para me fazer notado por uma fulana e se consigo despertar-lhe a atenção é certo e sabido... ou é coxa ou anda no psiquiatra. Tenho cá um destes azares!

E eu, o que é que eu tenho? Se calhar isto é sorte. O meu pai, como tu sabes, era um preconceituoso de merda, barrava-me todos os dias os ouvidos com as etiquetas sociais. Calcula que nunca me deixaria assentar arraiais na mesa de qualquer fabiano sem lhe pedir licença e sem que lá me demorasse o mínimo tempo possível. Parece-me que começo a dar razão ao velho.

... fiquei por isso muito admirado quando num dia tempestuoso, a fui encontrar, numa reunião clandestina, na mesa que dirigia os trabalhos, e CÉUS, ela reconheceu-me! Não fez mais que uma piscadela de olhos e a sombra de um sorriso, mas, meus Deus, eu estremeci todo por dentro. Ora veja, ela não só me reconhecia como me distinguia com um sinal especial. Distinguia-me, a MIM, percebe?

Então não percebo. A tua sorte foi ela só te conhecer de vista. Soubesse ela a chaga que tu és punha-te a milhas em dois segundos.

Não sei se o amigo se lembra como eram as coisas naquela época. Refiro-me à situação política. Como é evidente, os problemas nas relações homem/mulher era coisa que ela tinha há muito ultrapassado. Frequentara a Universidade e viajara muito. Além de ser um cérebro conhecia, de viver, uma data de países. Convivera com muita gente importante. Era raro falar de um nome, mesmo de estrangeiros, que ela não tivesse conhecido...

Bem, pensei eu, um chato e uma mentirosa com pretensões. Deviam fazer um lindo par. Ainda por cima este fulano está convencido de ter feito sozinho a resistência ao fascismo. A propósito, se tu aqui estivesses irias franzir o nariz e com o teu ar solene e pedagógico começarias a dissertar sobre a importância de delimitar as fronteiras entre os regimes políticos. Dir-me-ias que o Estado Novo se salientaria pela vertente corporativista, pondo a tónica sobre a conjugação de interesses das classes, o que, em análise, se diferenciava bastante das doutrinas dos "fascios" e nacional-socialista, que em intensidade e extensão dos efeitos ultrapassavam de longe a, mesmo aí medíocre, perspectiva do totalitarismo nacional. Claro que terias de contar com a minha oposição. A vida não é um exercício académico e para os que perderam a vida, de forma literal ou em oportunidades, por divergirem do pensamento dominante, essas subtilezas não farão, no mínimo, grande sentido.

O amigo, concerteza, está a pensar que eu exagero. Pois está enganado. Quando depois da queda da ditadura o país foi invadido por uma quantidade de gente de quem nós ouviamos apenas falar, eu tirei a prova da verdade dos seus conhecimentos. Olhe, em nossa casa esteve mesmo hospedado o Jean-Livoir. Não acredita? Pois posso provar-lho. Só precisa de ir até minha casa. Além das fotografias havia de ver todos os seus livros assinados.

Pois sim, interessa-me mesmo quem é que dormiu ou não em tua casa. A única coisa que verdadeiramente me interessaria era que fosses para lá agora. Ou fosses pentear macacos.

Foi por causa de um romance do Jean-Livoir que as coisas entre nós aconteceram. Lembro-me ainda bem. Era Inverno e tinha acabado de chover. Estava na porta do café pensando se entraria ou aproveitava o escampado do tempo e dava uma corrida até ao emprego. Foi quando ela chegou e ao ver-me disse:

"Então a ler um livro do Jean..."

...falou dele com um conhecimento de matéria e pessoa que me deixou deslumbrado. _

Deslumbrado é que tu me pareces de todo e desde início. Deslumbra-te a mulher, deslumbra-te a sua escolha política, deslumbram-te os seus conhecidos e deslumbra-te o seu saber. _Ó, meu filho, a continuares assim não vais longe.

"No entanto - prosseguia ela - não é na literatura que poderá encontrar o verdadeiro Livoir. Esse só mesmo na matéria de reflexão. Pensador como esse não encontra outro. Foi capaz de ir aos clássicos, e olhe que me não refiro aos gregos mas àqueles de que se não pode falar sem perigo de que ouvidos indiscretos se interessem logo em demasia, e transpor para o absurdo do estar vivos os seus ensinamentos. Para viver, diz ele, é preciso meter as mãos na merda até aos cotovelos. E sem culpas, que isso é matéria para titis de catedral."

Culpa tenho eu em não correr contigo daqui. A tua história não me interessa nem um bocadinho. Além do mais, nada tem de original. Até agora eu poderia contar coisas muito parecidas com essa. Bastaria mudar os nomes porque as situações, em si, parecem ser bastante reduzidas. Tenho a sensação de que alguém com pouca imaginação, ou com pouco tempo para perder com a obra, ordenou a vida de molde a que o deve-haver não se dispersasse demasiado, e tornasse fácil o ajuste final de contas. Ademais , apesar de plausível, a história cheira-me a forjada. Basta pensar no nome da mulher. Terília... isto é lá nome de gente real...

Eu ouvia-a e parecia que ela tomava a minha voz para dizer coisas que há muito pensava e não conseguia transmitir. Aliás, sempre assim aconteceu durante toda a nossa relação. Mas, nesse dia, quando nos sentámos no café por nada deste mundo a interromperia. Penso que fiz mal e que essa passividade marcou desde logo o ritmo das nossas andanças. Se lhe disser que desde aí foi sempre ela a tomar iniciativas não lhe minto nem um bocadinho. Tinha a esquisita sensação, quando lhe propunha alguma coisa, que eu era transparente.

Ora aí está um campo onde eu te percebo. Só que aqui sou eu o transparente. Ou aprendeste bem a lição ou temos uma relação onde aproveitas o não me conheceres para inverteres a polaridade. Se eu fosse mal intencionado pensaria que como nada esperas de mim podes, à-vontade, dar azo a tudo o que te apetece pensar e despejar. Se com ela não o fazias, é lógico que esperavas dela qualquer benefício. Vês meu menino como o interesse gera dependência? Com que então querias apoderar-te dos seus estatutos sem pagar o preço? Começo a perceber-te meu pequeno. E, francamente, o que percebo agrada-me.

Imagine que uma noite me aparece toda vestida de negro, botas e calças justas, camisola de gola alta e um casacão por cima de tudo isto e sem mais aquelas me diz: - Despacha-te que hoje vamos fazer umas colagens de cartazes...Colagem de cartazes?! A mulher é doida, pensei. Decidi logo ali por as coisas claras. Aquilo era já passar das marcas. Então estava a pôr-me a liberdade em perigo e nem sequer me perguntava se estava de acordo? Francamente, isto era ser mais fascista que os ditos. Enchi-me portanto de coragem e disse-lhe:

Está bem, onde é que vamos?

Que grande gargalhada dei nessa altura. Não fazes ideia do prazer que senti. Mas o gajo também tinha uma certa coragem, tive que admitir. Como deves ter percebido, por esta altura já tinha desistido de tentar correr com ele ou sequer meter-me na conversa. Creio bem que o que ele precisava era da aparência de um auditor. No fundo falava apenas para si...

Ainda hoje não consigo recordar-me bem de tudo quanto aconteceu nessa noite. Inicialmente dirigimo-nos a casa de um amigo de que, por hábito antigo, não direi o nome. Mesmo se lho dissesse você não ia acreditar. Sim, é bem conhecido. Só que virou. Virou mesmo e deixou de morar em Campolide. Onde mora agora? Isso não lhe digo. Dou-lhe uma pista. Se correr os três sítios mais caros de Lisboa vai com certeza encontrá-lo num deles. E chega..

Olha-me só para isto. Dialoga comigo como se eu fosse ele. Ou ao contrário, dialoga consigo como se ele fosse eu. Diz-me o que lhe passa pela cabeça como se eu lho perguntasse. Amigo, a si, não me apetece perguntar-lhe nada. Por outra, apetecer-me-ia sim, perguntar-lhe quando é que me desampara a loja e me deixa ler o meu jornal em paz.

Na casa desse tal amigo, que você está cheio de curiosidade de saber quem é, entregaram-nos uma braçada de cartazes um balde de cola com pincéis e pediram-nos para decorarmos um número de telefone onde, para o que desse e viesse, estava um advogado e um médico da cor. Palavra que me arrepiei quando nos falaram nisto. Se até ali estivera pouco à-vontade, mas ainda um pouco descrente de que me estivesse a meter numa alhada daquelas, o número de telefone foi como um murro no peito. Você sabe, uma coisa é a gente ter cá dentro aquela indignação sufocada que nos faz chamar uns nomes à governança e outra, bem diferente, é começar a fazer coisas que os chateiem à grande. Olhe que isto de andar de noite a colar cartazes contra o governo tem que se lhe diga.

Ai não que não tem. Bem o sei porque me calhou em sorte... em sorte, heim??; puta de língua esta que até ao azar chama sorte e sem ser por ironia. Está aqui este tipo retroactivamente cagado por uma coisinha de nada. Se eu fosse de contar as encrencas por onde andei o gajo ficava verde. Bem, a verdade é que tu também de pouco sabes. São coisas que se fizeram. Na realidade já não contam. Deixam de contar logo que feitas produzem efeitos. É por isso que me lixam os politicozecos de agarrar tachos que andam sempre com o passado hasteado. O passado só conta para mandar abaixo. Quando se quer fazer qualquer coisa é o presente que interessa. De nada vale o que fiz se o que estou a fazer não presta. Olha que este pensamento não é meu. Também não o apanhei a flutuar no ar. Foi no decorrer de uma conversa com o Floral que ele o afirmou. Eu gostei e utilizo. Sim, também me sirvo, de vez em quando, de outros pensamentos de outros amigos. Sem citar a fonte, pois claro. Eu sei lá quando é que um pensamento entra no domínio público. Assim, utilizo-os quando me convém. Ponto final.

A noite estava preta de negra. De início tudo correu bem. Só que em certa altura a Terília deu em armar em parva. Primeiro começou aos gritos: "abaixo o fascismo", "viva o comunismo", "proletários de todo o mundo, uni-vos" e nunca mais se calava apesar de toda a gente do grupo a tentar fazer calar. Depois, foi colar um cartaz num enorme Mercedes preto que estava estacionado na rua. Estava ela a meio da manobra quando o condutor apareceu e começou aos berros: - Comunista de merda, andas a cagar-me a viatura e eu é que me lixo a limpá-la. Se calhar pensas que amanhã é o meu patrão que vai estoirar o canastro a tirar a porcaria da cola de cima do carro?

A malta que estava nas tascas ao ouvir estes gritos saiu toda e desatou a perseguir-nos. Corríamos a bom correr e Terília ainda gritava "Uni-vos proletários" enquanto, entre duas golfadas de ar me dizia: - São todos da PIDE, disfarçam-se para se misturarem com o povo...

Pois é . Além do medo aprendeste alguma coisa de útil sobre o folclore revolucionário. Também eu aprendi com muitas dessas. Na altura usávamos uma palavra que hoje me soa esquisita para classificar os companheiros de luta. Dizia-se aquele tipo é um gajo válido. Válido, estranho, não é? É como se nós, que apregoávamos a igualdade, estivéssemos de imediato a classificar as gentes em dois grupos. Os bons e os maus. Depois, com razão em tudo quanto era sítio revoltávamo-nos contra os "fachos" por dividirem o pessoal entre os bons e os maus...portugueses.

Porra, disse-lhe eu, quando conseguimos parar. Fazer trabalho político é uma coisa. Provocar sarilhos é outra. Riu-se, iluminou a noite, passou o braço esquerdo sobre o meu ombro esticando-se um bocadinho e de mamas encostadas ás minhas costas, olhou-me um pouco admirada:

"- Também sabes discordar? Já ganhei a noite."

Não disse mais nada e nada me deixou dizer. Calou-me a boca torcendo-me o pescoço e pondo-me na boca um beijo tamanho da noite e maior do que o susto.

Pronto, pensei eu, cá está mais um com a teoria de que o que elas querem é um durão que as contrarie. Lembras-te como eu os classificava? Eram os da porrada erótica. Primeiro murro nos cornos, depois reconciliação na cama. Tu, como sempre avessa à crueza da linguagem, ias pondo açúcares nas expressões e emendavas suavemente para "relação conflitual". Sempre achei graça a essa tua maneira de encarares a realidade. Dava-me a impressão que ao mudares o registo da linguagem pensavas alterar a dureza do real. Sim, que este mundo é bem filho de puta.

Dormi nessa noite com ela e continuei pelas noites seguintes. A casa onde morava não era muito grande. A bem dizer era um estudiozinho com um quarto e uma sala comum. Não lhe vou contar o que se passou porque detesto esses relatos minuciosos sobre as intimidades de cada um. São coisas para se guardarem e não para se exporem à curiosidade colectiva. Não, não queira insistir nesse ponto que eu não lhe vou contar nada. Apenas lhe digo que foi uma experiência Única. ÚNICA, ouviu? Por muito que você esforce a imaginação nunca se aproximará da verdade. Nem mesmo eu que a vivi. Quando hoje rememoro apenas consigo ter uma representação por demais pálida do que me aconteceu. _

Se eu pudesse interromper-lhe a incontinência verbal ter-lhe-ia dito que de nada me interessava a sua experiência emocional, ou erótica, ou pornográfica ou fosse lá ela o que tivesse sido. Já me bastam as minhas e nem de todas elas me orgulho. Além do mais não considero o sexo nem como uma função meramente reprodutora, nem sequer como uma experiência religiosa ou mística. O sexo é o sexo. Como a palavra, permite estabelecer a comunicação ou a confusão. É tudo uma questão de interlocutores e do que eles têm para dar um ao outro. Enfim, sou pela teoria da troca.

Como lhe disse comecei a viver no seu apartamento. Digo bem, no seu apartamento. Não pense que estou a fazer qualquer figura de estilo. Provavelmente esperaria que dissesse que ficara a viver com ela. Isso também eu queria! Mas quem é que pode agarrar o vento? Logo nessa manhã, quando acordei, tinha o seu lugar vazio. Procurei-a na casa de banho e só a humidade quente dos restos de um banho diziam da sua passagem por ali. Voltei ao quarto, sentei-me na cama e fiz a minha primeira grande e profunda meditação sobre que tipo de relacionamento seria o nosso ou se, eventualmente, haveria relacionamento ou só uma passagem episódica. Devo confessar-lhe que não sendo exactamente o modelo ideal de um bom pai de família, tão pouco tenho ganas de desenfreado libertino. À escaldante sensação da paixão, se bem que a não desconsidere de quando em vez e com brevidade na minha vida, prefiro antes a tepidez de uma relação segura.

Pois, segura. Não querias mais nada. Andas a rolar pelos espaços a uma velocidade tremenda, num grão de poeira que a qualquer momento pode chocar com outro e querias segurança! Não te apercebeste, meu parvo, que somos bolas de bilhar numa mesa cósmica e que nunca sabemos onde a tacada conduzirá a bola em que nos alojámos? Querias então uma relação segura. Queres dizer, estável, parada, imutável, onde o tempo deixou de existir, eterna! Meu parolo, quase me fazes ter compaixão de ti. Definitivamente és um ingénuo. Ainda não percebeste a trama onde te moves.

Esperei-a até à uma da tarde. Nesse tempo, acossado pela fome, desesperança e raiva, fui-me embora. Tive um sarilho dos diabos no emprego para explicar o atraso, o que contribuiu para o mau humor que levava quando, sem me querer confessar, fui ao café pensando poder encontrá-la. Com medo que ela pudesse aparecer e eu não estivesse lá, nem jantei. Esperei, esperei e ela não apareceu. Já muito tarde passei-lhe pela rua. Não havia luz nas janelas e tive medo de que se tocasse à porta reagisse mal e me tomasse por parvo. Sabe, na altura defendia-se muito, embora eu creia que fosse mais teoria que real, a relação descomprometida. O amigo, que é da minha idade sabe bem como era. Um encontro casual, uma noite bem passada e sem saudade ou remorsos cada um para o seu cantinho. Já vê, se ela estava numa dessas e eu lhe aparecia feito dinossauro romântico que triste figura faria.

O sacana não deixa de ter razão. Também me aconteceram algumas assim. Mas era a moda. Era preciso ter aquele ar de não me ralo, de viver o presente, de vestir de negro o corpo e o futuro. Havia mesmo quem acusasse o Jean-Livoir de levar ao suicídio por desesperança muitos adolescentes. Lá que havia suicídios em barda, não há dúvida, mas se olhar para o presente não vejo grandes melhoras...

Só passados três dias a voltei a encontrar. Zangadíssima comigo. "Que não aparecia, onde é que me metera, o que pensava dela, julgava que era mulher de se entregar sem mais aquelas, etc... etc.etc." e eu tão parvo que nem me lembrei de dizer-lhe que me podia ter telefonado para o emprego, que a esperei, que percorri a sua rua na esperança de a encontrar e que fora ela que me deixara sozinho e sem um pequeno recado que fosse a dizer-me: -

Amo-te. Volto já.

...também, para ser sincero, não vejo que as coisas piorem. Mudam, isso sim. Nós ao que parece é que nos vamos esquecendo de como as coisas eram e as vamos pintando de novo. Como as que agora se passam nos correm sempre ao lado, parecem-nos então menos interessantes que as que vivemos. Ilusões! Formas de reagirmos contra o tempo e a vida que tão bem passa sem a nossa indispensável presença. E os outros, os que nos amam, já que este palerma parece que queria uma declaração formal. Esses, por muito sinceros que sejam e falta que lhe façamos, seguem a lei da vida. Estamos, contam connosco, vamo-nos, duas lágrimas de dor e , de novo o tempo cicatriza a ferida e ala que se faz tarde, continuemos a passar a vida e esquecendo quem partiu. Que se há-de fazer? É assim mesmo e, penso que seria bem pior se fosse de outro modo.

Fui de novo com ela, está mesmo a ver. Se calhar o amigo já está pensar pois claro, porque é que este tipo, que é um palerma inveterado, havia de não ir? Se ele até bebe o ar por ela, que remédio tem senão o de aceitar o jogo. Pois está enganado. Só me deixei vencer ao fim de uma longa discussão. Disse-lhe tudo o que pensava do comportamento dela, das indecisões em que me fizera cair, da pouca importância que me parecera ter na sua vida. Ela, senhores, ouviu-me sempre em silêncio, com um ar muito sério e no fim, larga uma gargalhada que fez parar todo o café, agarrou-me na mão:

-"Anda criança.. Vou ver se te faço crescer."

Arrastou-me de novo para casa e fiquei lá definitivamente. Quer dizer, fiquei até ao dia...

Claro, em que ela correu contigo. Fartou-se das tuas imbecilidades, das inseguranças contínuas e pôs-te a milhas. Tinha concerteza coisas mais interessantes em que ocupasse o tempo. Tu sabes que uma relação entre dois adultos não é nada fácil. Duas personalidades que evoluem em direcções próprias, com a sua pessoalíssima visão do mundo, ocuparem o mesmo espaço e fazerem coincidir, dia após dia, continuadamente, as suas vontades é obra. Não é para qualquer um. Quantas noites passamos nós discutindo por coisas que ao alvorecer pareciam sem importância mas que se as deixássemos cavalgar-nos a noite seriam, por essa mesma manhã, um tremendo obstáculo ou um perigosíssimo recalcamento?

...em que ela, sem mais aquelas, chegou-se a mim deu-me um beijo demorado nos lábios e disse-me, pela primeira vez:

" - Amo-te, desesperadamente. Tanto que te vou deixar. Não quero perder as nossas vidas numa relação cujo futuro é o embranquecimento das cinzas. Vou amanhã para Paris com o Cirondo."

E foi.

Sobre a, estupefacção que me invadiu nem lhe falo. Depois, tudo aquilo me parecia inverosímil. Dizer que me amava para logo em seguida me comunicar que me abandonava era coisa que não entrava na minha lógica. A seguir invadiu-me uma revolta e uma angústia que misturadas se anulavam e apenas me permitia ficar num aparvalhamento total. Engoli as palavras várias vezes antes de conseguir dizer-lhe: - ai vais? Então boa viagem. Desandei escadas abaixo para que ela não me visse chorar. Até agora nunca mais deu notícias. Nada soube dela durante anos e, de repente, como se nenhum tempo houvesse passado, como se não me tivesse trocado por outro quando, nada me faria esperar tal coisa, sem mais aquelas, mandou-me um telegrama, seco, imperativo comunicando-me que chega hoje de tarde no avião de Paris e que a fosse esperar. Por esta razão, porque me encontro numa tremenda dúvida é que me sentei na sua mesa e lhe contei esta história. Dê-me o seu conselho. Devo ir ao aeroporto esperá-la ou devo ignorar a sua mensagem e riscar o seu nome da minha vida?

..................................................

Os passos soavam nervosos e nítidos, batidos no mármore do chão do café deserto. Dirigiram-se para o local onde isolado, um homem rabiscava sobre a toalha linhas que se cortavam, seguiam paralelas durante um breve espaço e de seguida se afastavam definitivamente no entrecruzado da trama tecida. Lá chegados dispararam de cima de si um extenso rol de razões

: - sempre a mesma coisa a escrava que se amole que ande todo o dia numa fona vê lá se te interessa saber que o Deco tem que meter um aparelho nos dentes que a Italina está com problemas na escola e que já fomos chamados ao director de turma ainda está por pagar a conta da electricidade ninguém se lembrou de que era preciso ir ao supermercado a escrava que vá que ande numa roda viva dê de comer a horas certas e não se esqueça de nada porque senão ainda lhe caem todos em cima a criticar ai senhor que mal fiz eu para merecer tudo isto grande pecadora devo ser para merecer tanta raiva dos céus que Deus me perdoe mas este homem dá comigo em doida todo o santo dia metido neste antro sem fazer nada só com os olhos a olhar para ontem e a riscar a toalha da mesa se eu fosse o dono do café punha-te mas era na rua podia ser que assim me ajudasses e ele não perdia nada porque fregueses de gosma como tu são de querer longe da porta quem me mandou ser parva e casar contigo um inútil em sem serventia para nada enquanto as outras anda de cu tremido nos seus automóveis eu aguento que nem uma burra com o trabalho da casa as compras os filhos e esta porcaria de homem que não tem ponta por onde se lhe pegue


Com um amor cuidadoso e lento dobrei o meu drama e recolhi-o dentro de mim. Amanhã, se o tempo o permitir, estarei aqui de novo para construindo a vida me afastar desta coisa diária e insidiosa que me corrói. Até amanhã sonho. Até, amanhã vida...

novembro 08, 2005

A Presidência é um folhetim?

Que pode o poeta contra a barbárie? Que pode a poesia contra a violência a injustiça? Exprimir, pelo ritmo da escrita e das diversas falas, as energias sufocadas.

Diversas são as falas, Arte de Marear, Manuel Alegre





Não sei se já repararam mas eu ando a ficar muito interrogativo. Assim um pouco para o perplexo. Tenho alguma dificuldade em perceber as pessoas que não conseguem separar convenientemente as preferências pessoais do seu trabalho. Vem isto a propósito da entrevista de Manuel Alegre, ontem, na TVI, conduzida por Constança Cunha e Sá.

Quando um profissional de jornalismo entrevista um candidato à Presidência espero que os temas versados sejam do interesse geral, relacionados com o programa do candidato, perspectivando a diferença que o mesmo pretende ou poderá acrescentar ao panorama político-social existente, ou que propostas o distinguem dos restantes. Sobretudo se o candidato em questão apresentou, recentemente, um manifesto distante da habitual retórica oca e de circunstância, com propostas fundamentais e fundamentadas, visando a resolução de problemas graves que afectam a sociedade portuguesa.

Requer-se um posicionamento sério para um assunto sério.

Sério não quer dizer que não seja a conversa perpassada pelo humor – essa voz da inteligência – e que toda a gente tenha de envergar um ar de quinta-feira santa. Mas também não é certamente a procura pequenina e torpe de desaguisados pessoais, da pequena ocorrência, da bisbilhotice de comadre, da tentativa espertóide de entalar o outro, escarafunchando no insignificante para dar um espectáculo de basbaque.

Depois, sabem, ai de mim ingénuo!, ainda espero comportamentos deontológicos sãos, respeito por si próprio, pelo outro e pela inteligência do espectador.

E o que me dão?

O entrevistado a tentar apresentar o seu programa e as suas razões. A demonstrar que a política também são afectos e impulsos a permearem a racionalidade das coisas e a entrevistadora a teimar nas relações pessoais entre dois candidatos, a tecer pequenas insidias, a demonstrar uma intenção maculante e a escorregar nas suas armadilhas, virando o feitiço contra o feiticeiro e em vez de apertar o interlocutor, a perder o pé, a ter de explicar o seu posicionamento e intenções. Não me parece isto comportamento exemplar.

Eu sei que cabe ao noivo gabar a noiva e, disso não me coibirei sempre que para tal tenha azo. Mas neste caso, sinceramente, vocês me dirão se o meu posicionamento se deve a cegueira sectária ou à justa indignação de ver um mau trabalho jornalístico e um precioso tempo de esclarecimento a esbarrondar-se na tentativa de, no lugar de uma entrevista, colocar um folhetim.

novembro 07, 2005

Paris já está a arder?

Não tem sede de aventura
nem quis a terra distante.
A vida o fez viajante.
Se busca terras de França
é que a sorte lhe foi dura
e um homem também se cansa.

Trova do Emigrante, Praça da Canção, Manuel Alegre






Parei de escrever nestes dias, não por falta de motivos a comentar, mas pelo seu excesso. Entre todos dois chamavam, sobretudo, a minha atenção. O manifesto da candidatura de Manuel Alegre, que apoio desde que o mesmo se declarou candidato, e os acontecimentos em França.

Descobri depois, que estes dois temas tinham algo em comum e que mereciam, ainda que breve e superficial, uma análise àquilo que os liga.

O mal-estar que, nos arredores de, Paris produziu os confrontos e incêndios, já não é novo. Muitos casos dispersos, com maior ou menor cobertura dos “media”, foram acontecendo ao longo dos anos. Os sociólogos, desde os anos sessenta, chamam a atenção – com pouco entendimento por parte do poder – para o erro urbanístico e social, que foi/é a concentração de populações de semelhante dominância étnica ou social, em espaços delimitados, com escassos recursos em equipamento e rotulados – e rotulando – negativamente pela sua localização e composição.

O desprezo pelas chamadas de atenção concretiza-se agora nos actos de revolta cega, contra pessoas, instituições e objectos próximos, visando alcançar os inatingíveis e distantes poderes. São dolorosos e doloridos recados.

Agora que a onda rebentou e que a insegurança das pessoas clama por mais polícia nas ruas, a maior parte das gentes está disposta a ceder a sua liberdade por um pouco menos de medo. Não é grande a troca mas é o que se sente no ar.

Dos actos desesperados de uma juventude igualmente desesperada poderão advir consequências trágicas e contrárias, em tudo, aos motivos que os levaram à revolta.

Em primeiro lugar a justificação, plenamente aceite, da redução de direitos e garantias dos cidadãos, em segundo lugar o ainda maior isolamento das populações emigrantes, em terceiro lugar, por reacção, o crescimento contínuo dos partidos de extrema-direita, como o do Sr. LePen, e a possibilidade de, cada vez mais, influenciarem as políticas de emigração e de integração, senão mesmo de ascenderem, de vez, ao poder de Estado.

Tem, neste momento, pouco efeito o discurso de compreensão sobre as causas da revolta juvenil. Esse discurso é apenas realizável antecipadamente ou a longo prazo. A curto prazo as políticas repressivas serão as únicas actuantes e creio bem, já estarão a ser, não estudadas, mas implementadas, com consequências nefastas, para a França, para o Mundo e para os migrantes que se acumulam às portas da Europa.

E onde entra neste cenário a candidatura de Manuel Alegre?

Ouvi, ontem, no comentário semanal do Prof. Marcelo Rebelo de Sousa o seu discurso de tranquilidade em relação ao possível contágio destes actos no espaço nacional.

Acho que está rotundamente enganado!

Se em alguma coisa este movimento de rebeldia tem semelhanças com o Maio de 68, é nas possibilidades de contágio, por vivências semelhantes, noutros países da Europa, o nosso compreendido. Para os distraídos chamo a atenção para os bairros degradados das nossas maiores cidades e para a sua cintura industrial, onde as existem todas as condições que levaram aos distúrbios em França, esperando apenas a faúlha que as faça eclodir. O efeito mimético não será , certamente, a menor …

Já disse atrás que os remédios, para fazer efeito, têm de ser administrados em tempo certo. Não sei, ainda nem já, qual é o tempo que nos resta. O que sei é que com as políticas escolares, sociais e económicas que continuamos a alardear apenas conseguimos aceleradores para a desgraça.

Sabendo, embora, que os poderes presidenciais não se confundem com os executivos, muito profundamente creio, que medidas apontadas pelo nosso candidato no seu Manifesto, podem reequilibrar os termos da equação social em que nos vamos mexendo.

A continuar deste jeito, pensando que somos diferente, que aqui, porventura graças à Senhora, as mesmas causas sociais produzirão efeitos atenuados ou diferentes, é olhar para a onda e esperar, sem aprender a nadar, que ela não nos submerja.

O programa para a presidência, de Manuel Alegre é, entre os presentes, o que melhor poderá, através da assumpção de valores éticos, influenciadores de políticas sócios-económicas redistribuidoras, constituir-se em travão para o deslizamento caótico desta sociedade de tão injustas in/diferenças.

Se continuarmos pelo caminho que estamos a trilhar, não se admirem depois, se de súbito, numa destas noites, o vosso bairro acordar no meio do clarão do vosso carro a arder…

Não me venham depois chamar Cassandra ou profeta da desgraça.

novembro 02, 2005

(h) a via romântica

E a Maria do Brás que ficou sempre menina
Dentro de mim em Águeda há vinte anos.

Correio, O Canto e as armas, Manuel Alegre


(h) a via romântica


o amor romântico é uma inovação
tardia da civilização ocidental



I - meditação de inês
em janeiro de 1355

nunca desconfiei que o peso do tempo caísse
como vento no local da voz
olho o meu corpo
investigo os passos do silêncio
crescendo na planura do vestido

através das águas sobe o murmúrio dos prados
e sobre o nó do corpo fitam-se
os limites da crisálida

acode-me o instante transparente de todos os caminhos

II - início dos anos 60
em évora

nasceu em 1944
de pai bêbedo e desempregado crónico

a mãe
que nascera morta
continuou a morrer
até que muito nova concretizou
definitivamente
o seu estado

cresceu solto e descalço
entre janeiro e agosto saltavam-lhe
os pés
no fogo aberto das pedras

quando fez 14 anos foi dar
serventia a pedreiros e ficou
tal como o trabalho
duro e rapace

por vezes
no largo de s. mamede provocava a zanga
e batia nos estudantes mais fracos
era a raiva dirigida ao acaso
de quem não percebe a coacção
das regras sociais

nele

nada suscitava a hipótese
de um amor romântico



III - fala de pedro
e do futuro

é na pedra que preservarás a máscara
arcadas e volutas de vento uivarão a garganta
e nos olhos trarás choros de punhais

"que amor mate os matadores
na justiça dos silêncios sepulcrais"

cruel te chamarão por teu serviço
provocar a dor e o dia em que teu dia ressurgir
seja o de ouvir tremenda a tua voz

"é na pedra que pedro pensará a morte
e que amor mate os matadores
na justiça dos silêncios sepulcrais"

IV - continuação da narrativa
em évora

também ela se apaixonou por ele
pomba e gavião
voando
escandalosamente juntos

pessoas

certamente bem-intencionadas
levaram o recado ao pai
acelerando mais ainda a roda da paixão

negou-lhe então a cidade o seu abrigo
voara mais alto que a sua condição

V - de novo medita inês
em 1355

sei que em algum dia e por alguma coisa fui
e sempre d'esse ser me investi
no apartar das águas que sem nome
trazem o pássaro de vento e neve
onde se obscurece tudo

quanto se poderia abrir a oriente
no exercício de morte que soletro
fronteira proibida há que cumpri-la com rigor
e ser precisa nos gestos que ao tempo
outro tempo seguirá

VI - rápida mudança de évora
para lisboa

ela acabou por casar com um
engenheiro agrónomo que foi tratar
das propriedades do pai e montou casa
em lisboa

ele acreditando ainda que o amor era possível
foi-lhe na esteira e um dia
encontrou-a na baixa com algumas
novas amizades

ela fez que o não viu

VII - pedro diz

eu hei-de cantar sob os choupais
uma outra lua que agonia não mereça
em cada pedra selarei a flor de um mosteiro
feito de fuga e arco

quem se atreverá a abater o vulto que sustento
enquanto a vida vai

a ti meu pai lançarei as vísceras de todos
quantos não convenceram choros e armado
por quanto disse e vivo
abro a lura onde o lobo se constrói

eu matarei um dia
já que matar-se não pôde a minha voz

VIII - complemento da passagem

por isso ao olhar para si
compreendeu as margens
e viu
que de seu braço só partiam rios
de separar

então
em 7 de janeiro de 1967
612 anos precisos após a morte
de inês de castro
o meu amigo sentou-se no
banco do hospital de s. josé
e
por desesperado amor
assassinou-se

se ele se chamasse pedro
estaria paga a morte de inês

outubro 31, 2005

Ninguém está inocente???!!!

Há tiros em pontos diferentes da cidade, isto não é um filme, é um golpe.

Rafael, Manuel Alegre






Olho para o extenso libelo que o público publica hoje sobre a dama de Felgueiras e fico estarrecido. As redes de cumplicidade, os alquevas de lama, o cheiro nauseabundo que sai de todo este “affaire” são, mesmo para pituitárias portuguesas, demasiado.

Então quem é que não está implicado? Pelos vistos quase ninguém entre os circunstantes deste processo social de sacos azuis, compras de automóveis, fugas para o Brasil e combinações estranhas com as polícias.

Não havia a senhora de ostentar aqueles ares de grande dama acima de qualquer suspeita e muito acima da lei que obriga os “vulguérrimos” indígenas. Pois se, pelas cumplicidade, protecções e conluios ela estava mesmo muito acima dessas torpes preocupações.

Acho que vou deixar de fazer reparos ao comportamento da senhora e vou mesmo defender que, entre muitas outras coisas que fez e não fez, ela nunca fugiu para o Brasil. É que, pelo andar da carruagem, além de possivelmente vir a ser ilibada dos 23 crimes de que está acusada, ainda acabo eu, no banco dos réus, por ter afirmado que as malfeitorias cometidas, sendo degradantes para qualquer um e do domínio público, não parecem ter qualquer efeito na contínua notoriedade e ascensão da personagem Fátima.

Creio que começo a correr o risco de reconhecer a verdade de uma máxima dos velhos inquisidores: ninguém é inocente; todos são culpados de algo, que mais não seja do pecado original!


Com excepção da D. Fátima, é claro!

outubro 29, 2005

Formação do Núcleo do Barreiro de apoio à Candidatura de Manuel Alegre

Uma coisa me perturbou: foi quando o jornalista Rui Rocha, do Expresso, num excelente texto que escreveu sobre este livro, destacou as duas primeiras letras de Manuel e Alegre. Vai-se a ver e dá MA e AL. Lê-se ao contrário e é ALMA.

Alma, Arte de Marear, Manuel Alegre





Há já muitos anos que não sentia a alegria de estar a lutar por uma causa.

A gente sabe, a institucionalização da Democracia, um bem em si mesmo, não deixa de nos “empantufar” um pouco o entusiasmo participativo.

Começamos a pensar que já fizemos a nossa parte, que os partidos estão cá mesmo para isso, que o voto é participação bastante e passamos procuração para que outros se preocupem com o estado da Nação.

Um pouco como se contratando um empregado para tomar conta da manutenção da nossa casa, acabássemos por nos convencer, e a ele também, que já nada tínhamos a dizer ou que não aceitaríamos qualquer preocupação a respeito da casa, porque isso seria meramente função desse empregado.

Parece absurdo mas é assim que nos vamos comportando em política.

Ou, pelo menos, íamos.

A candidatura de Manuel Alegre à Presidência e as suas circunstâncias vieram acordar muitas das consciências, que como a minha, lá iam andando no ramerrão quotidiano da participação cívica. Isto é, opinávamos, indignávamo-nos, mas continuávamos a pensar que aquilo não era connosco. Os outros, os lá da política, que resolvessem as coisas.

Só que os outros da política somos nós todos. É a este conjunto, formado neste território que é a Pátria, que pertence a soberania. Disto nos veio, com o seu gesto político de rebeldia poética, recordar Manuel Alegre.

É certo que ele veio para incomodar e parece estar a incomodar muita gente.

Por outro lado, como já se não via desde o caso de Timor, as pessoas estão a falar-se, a contactar-se, a organizar-se para suprirem a estrutura de apoio que a Manuel Alegre foi negada de forma muito pouco ética.

Não quero retirar aos partidos o direito de apoiarem seja quem for, mas não deixarei, e espero que não deixemos, que os partidos nos queiram tirar a nós esse direito.

Como qualquer democrata não sou nem posso ser anti-partidos, mas não aceito que pretendam monopolizar toda a acção política. A visão dos aparelhos pode não coincidir com os desejos das populações, como no presente caso se demonstra e o tempo virá, certamente, a consolidar esta percepção.

É pois chegado o tempo de passarmos à acção organizada. Peço a todos os interessados, na Cidade do Barreiro, que queiram fazer parte do núcleo de apoio nesta cidade que, através deste Blogue, me contactem.

Juntos descobriremos o tempo e o modo da acção a desempenhar para levarmos à mais alta instância do Poder o cidadão Manuel Alegre, a pessoa e a voz que as circunstâncias pedem.

outubro 27, 2005

A minha mulher anda cinzentinha

Duvidar e agir, agir e perguntar, eis o meu lema. Na vida e na escrita.

Duvidar e Agir, Arte de Marear, Manuel Alegre





Ando a ficar basto desconfortável. Por causa da cor da minha mulher.
Eu conto. Sempre foi radiosa e brilhante. Inteligente e activa não parava um momento. Gostava do seu trabalho e entregava-se a ele com devoção diária e sem ligar a tempos nem horários.

Achava que mais que uma profissão tinha uma missão. Por isso preteriu propostas de emprego mais bem remuneradas e aparentemente mais prestigiosas. Mas não! Era aquilo que ela queria e nada mais a motivava.

Por vezes, pensava eu, e ainda penso, era de mais! No meu materialismo rasteiro não compreendia a sua entrega total a um trabalho tão mal pago e com tantas e tantas horas doadas, nem sequer reconhecidas como tal. Mas ela não se importava, continuava a pensar que o seu trabalho era importante e dele dependeria, de alguma forma, o futuro de todos nós.

Todos os anos fazíamos projectos de fins-de-semana magníficos. Todos os anos, em quase todos os fins de semana, adiávamos para o fim-de-semana seguinte o magnífico projecto, porque um trabalho, uma pesquisa, uma actualização ou uma proposta nova – entre tantas outras coisas – vinha impossibilitar a realização do programa desejado.

Então projectava-se uma mais comezinha ida ao cinema, a um concerto, ao teatro e… não íamos porque algo se tinha complicado e era preciso mais tempo, mais estudo, mais trabalho.

E o dinheiro gasto em livros para actualização? E o tempo para pesquisar em bibliotecas e livrarias?

Incontáveis, meus senhores! Tudo a suas expensas em horas e dinheiros!!...

Mas, apesar disso, a minha mulher continuava luminosa e activa a destilar espírito de missão.

Só que, há uns tempos para trás, começou a acinzentar. Arrasta-se, parece deprimida e olha para as coisas, que tanto a entusiasmaram, com um “olhar distanciado” entre o baço e o displicente.

Cheio de desespero e de frustração perguntei-lhe se a podia ajudar? De que sofria? Respondeu-me, desalentadamente, que a não poderia auxiliar e pensava mesmo que ninguém, a curto prazo, o poderia fazer.

Sofre, confessou-me com alguma vergonha, de ser professora do ensino secundário!

Dei-lhe toda a razão! Este mal, nestes tempos, não tem mesmo remédio nenhum.

outubro 25, 2005

Há patinhos no Barreiro

Mensageiros andaram de aldeia em aldeia.
Algo de estranho se deve passar
se de novo convocam a Assembleia.

Um barco para Ítaca, Manuel Alegre







O Parque da Cidade virá, com o tempo e o crescer das árvores, a ser um local belo e aprazível nesta cidade que, em beleza, não é muito pródiga.

O espaço é amplo, os relvados extensos, a água faz parte da arquitectura e casa-se bem com o ambiente.

Nos logradouros aquáticos, que poderiam estar mais limpos e menos verde-pântano, transitam submersos cágados ou tartarugas e por todos os hectares do terreno – com ou sem água – uma variegada onda de patos, de muitas e desvairadas cores e raças, convivem fraternamente com a população, sobretudo com as crianças maravilhadas por alimentar à mão tão interessantes criaturas.

Para o jovem urbano é de facto um gárrulo convívio com a natureza.

Pois é! Tudo isto seria formidável se não fosse esta inquietante gripe aviária, que ameaça por aí transformar os “pessarinhos” mais ornamentais ou comestíveis em sérios agentes de guerra biológica, não estando livres de conseguirem esta condição o inumeráveis patinhos, livres e voadores, que habitam o parque.

Não sou zoólogo, nem biólogo e muito menos ornitólogo – que é uma palavra esquisita para em relação a ela se ser – portanto não sei quais serão os comportamentos dominantes destas simpáticas aves residentes. Sei, no entanto, que os seus primos são inveterados viajantes e que aqui existe um enorme sapal que pode ou não estar inscrito nas rotas turísticas destes palmípedes, possibilitando-lhes zonas de escusa promiscuidade.

Não me querendo imiscuir na moral dos patos fiquei porém algo preocupado com a possibilidade de contactos não autorizados e pela excessiva liberdade dos nosso incautos patinhos, que no pior dos casos os pode levar a uma morte prematura.

Então, corri à Web página da Câmara do Barreiro e, pelo e-mail do munícipe, disparei aos nossos edis a minha preocupação.

Tempo passou e autárquicas também, pelo que, câmara a mudar, ninguém me ligou nenhuma.

Não é que eu me julgue um cidadão acima de qualquer outro mas penso que quando alguém se dirige à Câmara, para apresentar reclamações ou sugestões, por uma mera questão de decência, deverá, ao menos, ver acusada a recepção da sua missiva. Ou estarei errado?

Como nada disto aconteceu, fui, no Domingo passado, verificar se tinha havido alguma alteração na vigilância ou restrição de movimentos dos nossos grasnadores. Qual quê! Até parece que a aves me conheciam e sabedoras da minha denúncia faziam gala em seguir-me, por todos os caminhos, evitando apenas pousar-me em cima por não terem a certeza de estarem mais a meu gosto em plena natureza ou num arroz de forno.

A minha vingança, em relação a elas e à Câmara, é que nunca saberão!

outubro 23, 2005

A Estrada - Poema

E há duzentos quilómetros de morte
Em duzentos quilómetros de terra. (…)
Metralhadoras cantam a canção da guerra.

Metralhadoras cantam, Praça da Canção, Manuel Alegre



a estrada

a estrada é velha, poeirenta, gasta
a estrada que aqui fica e se afasta

a estrada que tem morte e tem tristeza
em cada metro atraiçoa a natureza
a estrada que o é e nada mais
por ser tudo e mesmo ais

a coluna partiu às sete horas
- era para partir às seis
mas há sempre estas demoras

em cada carro os olhos esbraseiam
em cada curva os medos incendeiam
os homens olham, os homens sonham, os homens morrem
há os que choram, os que gritam, os que correm

foi tudo tão súbito como o inesperado
um tiro que partiu, o zé ensanguentado

porra! jesus! Uma blasfémia e uma oração
filhos da puta! se os apanho! não! não!! não!!!

socorrei-me senhor! ave maria!
que mal fiz eu?! - entretanto o zé morria
a pensar na mãe, na maria e naquela noite de amor-
ao seu lado, um incógnito manuel, que fora professor
é um anjo louco a distribuir morte

que se lixe! aqui, o que é preciso é sorte
e cospe para o lado e pensa na paz

há pouco caiu também o vaz
tem a cara desfeita e um braço fora
que interessa, chegara a sua hora

o lopes chora de medo encostado a uma palmeira
bateram duas balas mesmo ali, à sua beira
e nem sequer se mexeu
( nunca se mexe e ainda não morreu )

cuidado! aí vem a morteirada

( três segundos de incerteza...
... e não foi nada )

olhe furriel! está um naquela palmeira
vá abaixo! tratem-lhe da pasmaceira

e três espingardas mal-intencionadas
vão deixar a pele negra, avermelhada

este foi um recontro à hora do sol-pôr
- à hora a que dantes fazíamos amor
a quatro mil quilómetros de distância
a mais de uma centena de horas d’ânsia -
no dia sem amanhã, sem até logo, eternidade
do dia sempre igual e sem idade

à hora do sol sentir a dor que é minha
a estrada lá está e lá caminha

que a morte tem mil cheiros
sob a fronde verdosa dos mangueiros

outubro 21, 2005

Despenalização do Aborto

E havia laranjas. Havia um país de leite e de limão.

Um Barco para Ítaca, Manuel Alegre







Andam por aí, aflitas, vozes da direita, com receio de que o PS prescinda do Referendo sobre a despenalização do aborto e avance com a alteração da Lei na Assembleia da Republica.

O interessante é que usam um argumento ético para pressionar o Primeiro-Ministro. O argumento é nem mais nem menos que esta foi uma promessa eleitoral!

Como não estamos habituados a que o Governo quebre promessas eleitorais a nossa alma pasma.

E, no entanto, o PS tem todo o direito em encarar a possibilidade de excluir o referendo e avançar com a actualização da Lei.

Primeiro porque forças contrárias tem usado todos os meios para, se não inviabilizar, pelos menos retardar essa consulta popular. Veja-se, como agora, com uma discussão bizantina sobre se se está na mesma legislatura – após as novas eleições - ou se estamos numa nova, estão a tentar novo adiamento, para as calendas e, se possível, quando o panorama político lhe possa vir a ser mais favorável.

Dir-me-ão que isso é parte do combate político e que cada um tenta fazer prevalecer a sua ideia e procurará o melhor momento para as fazer vingar.

Embora concordando com estas posições, em termos genérico, tenho de ressalvar que não estamos, no caso do aborto, numa posição equitativa.

Enquanto os antiaborto pretendem obrigar, universalmente, toda a gente a comungar de posicionamentos e valores próprios e paroquiais, os defensores da despenalização apenas querem uma lei que não criminalize quem tenha que recorrer à interrupção da gravidez, a qual não obrigará ninguém, que a não aceite, a faze-la.

Isto faz alguma diferença, não faz?

outubro 19, 2005

P(M)S - Partido do Mário Soares

Sinto um peso no coração, disse Jerónimo que de Argel telefonou para Paris.

Rafael, Manuel Alegre








Pelas notícias que ouvi hoje, estamos a assistir a uma refundação do PS – Partido Socialista para P(M)S – Partido do Mário Soares.

A questão é a seguinte: o Dr. Jorge Coelho e outras autorizadas vozes, vieram à ribalta informar os socialistas apoiantes da candidatura de Manuel Alegre que:

- não deveriam utilizar os meios técnicos do Partido socialista e;

- embora legitimamente eleitos em Assembleia para cargos partidários desaconselhavam-nos de participar nos mesmos.

Ora este tremenda lógica pressupões que

a) – os apoiantes de Manuel Alegre quereriam utilizar os meios técnicos do partido a favor do seu candidato, esquecendo que, ao anunciar a sua candidatura, o Dr. Manuel Alegre informou de que não disponha de estruturas de apoio e que as mesmas teriam que ser formadas pelos apoiantes. A conclusão a que mais uma vez sou obrigado a chegar é que, para as bandas do aparelho socialista, não se sabe o valor da palavra ética nem o que significa um mínimo de boa educação;

b) – alguns membros influentes dos órgãos partidários se sentem com maior legitimidade que o congresso para determinar quem deve ou não tomar assento nas assembleias decisórias;

c) – apesar da candidatura para a Presidência de Republica não ser da responsabilidade dos Partidos mas sim dos candidatos; apesar de Mário Soares não se cansar de repetir não ser candidato do PS mas sim um candidato apoiado pelo PS, este partido, mais papista que o papa, acha por bem começar um movimento de expurgo dos dirigentes –e a seguir, possivelmente, militantes – que tenham a coragem de escolher outro candidato.

Parece-me que tenho de ir ao dicionário ver o significado das palavras desvergonha e prepotência, bem como habituar-me a ver na Republica um partido de índole unipessoal, pouco republicano, nada socialista e quanto a laicidade a deixar muito a desejar.

outubro 14, 2005

rostos

Meu amigo cantava. Dizem que cantava.
E de repente
quebram-se nas veias os relógios (...)
A Segunda Canção com Lágrimas, Praça da Canção, Manuel Alegre
rostos



para o adriano correia de oliveira


I

pelos interstícios da razão
vislumbra-se a paixão do raciocínio

o horizonte fundido sobre a rota dos barcos
escapa dentro do texto que se julga
sempre a caminho do mar

a neblina colcha de torrente
comanda-me a voz
em prosas no olhar

pela altura da vaga
mede-se a esperança

à janela do tempo
acrescento qualidades
às minhas sensações

um homem
com os dias azulinos sobre o mar
traça o curso das querenas

II

eram tão poucos os rostos
franjados de presságios
para os árduos barcos
que o sonho requeria

entre enganos e dias
restolhavam vozes
cobertas de noite
onde o silêncio
começava a existir

mas eram tão poucos
a mondar nos trigos dos critérios
o gorgulho dos prantos

ausentes da revolta
agora vamos sozinhos

os deuses são abismos do futuro

III

alguns barcos encalham e apodrecem
dentro dos rios crescem as barragens
balanço de metáforas transformação de cidades

nas máscaras do grito espia-se o grito
neste país de fronteiras sem vizinhos as borboletas das noites de agosto
turbilhonam sentidos que não sabemos

perguntado ao rio qual o caminho
o bafo das neves sem repouso
remete ao local sonolento dos princípios

a voz a pedra a tensão do futuro
contra o tempo

ícaro promete despertar

outubro 13, 2005

Independentes? Qual é o mal

A cidade invisível dentro da cidade visível. Procuro nas pedras,
procuro nas sombras.

Rafael, Manuel Alegre





Lá foram as autárquicas e, do bando dos quatro, apenas um deu com os burrinhos na água. Democraticamente aceitamos, embora fiquemos eticamente horripilados.

Já foram feitos inúmeros comentários sobre este assunto pelo que passo adiante e fico-me com algo que me anda a incomodar. Eu explico.

Utilizando o pretexto de que os atrás citados senhores (e senhora) eram independentes, comentadores e partidários começaram a alvitrar que haveria alguns inconvenientes na candidatura de independentes às autárquicas. Estão a topar??!!

A mim, por ser ingénuo, pareceu-me que não só estavam a desviar-se do assunto, como estariam a mandar barro à parede. É que, segundo me parece, não há nem houve qualquer problema pelo facto de cidadãos, com ou sem filiação partidária, decidirem concorrer, fora do guarda-chuva do partido, às eleições onde o possam legalmente fazer.

O problema do bando dos quatro não é o de serem independentes, mas o de terem processos pendentes na justiça, por indícios criminais, que se prendem com a sua gestão autárquica. Ou estarei equivocado?

Assim vamos lá a ter juízo e contenção e não queiram, por todos os meios, criar oligopólios políticos.

Independentes de todo o mundo, mostrai-vos!!! (onde é que eu já ouvi isto?)

outubro 08, 2005

Um caso de polícia...

Estás enganado (…) o importante é o resto, o que vem a seguir, por isso
é que temos de fazer um Pacto, vamos ser incómodos para muita gente.

Rafael, Manuel Alegre





Tenho uma amiga que não se chama Épsilon e que vive num lugar recatado, com alguma base arquitectural e uma envolvência bastante calma.

Ou isto é o que ela pensava…

Pois é! Numa destas madrugadas acordou subitamente – e presumo que como grande parte do bairro – com ruídos de potentes motores a toda a brida, chiar de pneus, tiros e estarrecedores sons de embates de/em viaturas.

Sobressaltou-se, como é de esperar que aconteça a quem vive em lugares onde não se esperam acontecimentos, e veio à janela que dá para a praceta dos eventos.

E viu – valha-a Deus – a GNR, em grande velocidade, em perseguição de malfeitores que, na melhor tradição dos filmes americanos, rodavam em poderoso “Jipe”, fugindo aos guardas, ao tiros e sem o mínimo respeito pelos tranquilos e estacionados carros de todos os dias de trabalho, os iam amolgando na precipitada passagem.

Azar dos portugueses, dirão… é sim senhor mas, sobretudo para a minha amiga que não se chama Épsilon, acordado pelo ruído e para o desespero de ver a sua viatura vitimada inocentemente pelas circunstâncias.

Não seria pouco se a coisa ficasse por aqui…

Então, os meliantes fizeram a guarda gastar pólvora e gasolina e…escaparam! Calculo que os guardas hão-de ter ficado frustrados. É humano, que diabo…nem sempre se pode apanhar quem tem um carro mais veloz e, mesmo havendo comunicação com outras patrulhas um “jipe” pode andar por caminhos de cabras e escapar aos agentes.

Quem não escapa com certeza é a minha amiga e os restantes proprietários de veículos amassados.

Não conseguindo agarrar quem de direito, esmeraram-se, na madrugada, a interrogatórios cerrados e exaustivos às ensonadas vítimas, como se elas fossem culpadas do seu desaire e dos prejuízos que elas próprias sofreram nos seus móveis – ali quedos e mais ou menos estropiados – pertences, só as deixando quando a sua autoridade se esvanecia com o passar da noite.

Se pensam que a aventura dos suspeitos moradores da pacata urbe termina aqui é porque não conhecem a proficiência e respeito pelo cidadão dos guardadores da nossa tranquilidade. Na noite seguinte, já passada a meia-noite, voltou a minha amiga a ser “contactada”, desta vez pelo telefone, pela simpática autoridade que queria confirmar alguns dados sobre a viatura e que não achara melhor forma e tempo de actuação que aquela…

aproveitando para informar que para ser ressarcida dos prejuízos havidos teria que levantar o auto do acontecimento – pagando-o – e que fazer um depósito, salvo erro para o Fundo de Garantia Automóvel, de cerca de sessenta contos, o qual a seu tempo decidiria de pagava ou não o arranjo do carro.

Encantadora esta estória e demonstrativa quer do respeito da “autoridade” pelos direitos e garantias dos cidadãos quer da eficiência demonstrada, neste caso, a todos os níveis.

A viatura da minha amiga lá está, amarrotada e infeliz, sem saber bem o que lhe aconteceu, à espera que ela a mande para a oficina, pague a conta e continue a aturar toda a burocracia autoritária que se segue, pagando todos os gastos e prejuízos do seu bolso, na esperança de um dia, um qualquer instituto se lembrar que existe para suprir faltas de seguro ou incidentes deste género, de molde a que o cidadão agredido, na sua pessoa ou nos seus bens, seja facilmente ressarcida e não tenha que aguentar sempre com este azar de ter nascido em Portugal.

outubro 04, 2005

O que sei de Abril em nós





Eu canto para ti Lisboa à tua espera
teu nome escrito com ternura sobre as águas
e o teu retrato em cada rua onde não passas
trazendo no sorriso a flor do mês de Maio

Praça da Canção, Canção com Lágrimas e Sol, Manuel Alegre





o que sei de abril em nós


I

não há razões perfeitas nem este é um mundo completo
desconheço amor onde o afecto igualmente se mantenha
nem sei de horários sempre desejáveis

o que sei é um saber de coisas por saber lançadas na minha
descoberta

por isso hoje em abril na escola alfredo da silva
com a arma das palavras e o sentido da cantiga
recordo o tempo em que esperava ver surgir esta nação

II

viemos expor-nos nas palavras e traçar o quadro do percurso
meteoritos descendo sobre a terra e produzindo rápida claridade
viemos de passagem falámos da viagem

nem todas as fontes iniciam rios mas todos os rios nascem de uma
fonte
importante é que deixem no seu rasto de águas renovadas
o caminho vegetal da alegria

assim em abril as coisas acontecem além das intenções e
pensar que é possível parar o movimento é como
tapar com panos pretos as janelas
para cortar o dia

que a revolução é sentimento de mudança
há muito arquitectada no coração das gentes
mais que um corpo é paixão
mais descoberta que sempre

quero dizer
fazer a revolução é diferente de criar uma liturgia

que em abril semente de actos novos em campos de imprevisto
não se admitem tréguas nem hipóteses
mas um corpo de mulher por sobre as ondas
para o qual as nossas vidas tendem

III

suponhamos que num acaso que nada deve ao acaso
se abriam nas janelas rasgos de verdades e deslumbrados
nos olhos surgia uma cidade que sendo a mesma outra transparecia

pensemos um dia em que por cima do sorriso
os homens prolongassem em festa a primavera que andava recolhida
e súbita rebentasse em seiva de flores
por sobre os aços

imaginemos o momento de tudo ser possível
mesmo a bandeira do vento no rubro da paixão
então

era uma vez um povo com um rio carregado de tristeza
era uma vez uma pátria de marinheiros e sem navios
que plantara uma praia inteirinha de viúvas com olhos de gaivotas
e coração de rocha

era uma vez um povo com a noite sobre a nuca
era uma vez um frio

IV

não há razões perfeitas nem este é um mundo completo
e estamos de passagem
só o povo flui constantemente se conserva e é diferente
nós somos uma parte da viagem
um porto a encontrar

juntos aqui em abril tentemos
o novo passo a dar

outubro 03, 2005

Alberto João

Estar aqui dói-me. E eu estou aqui
Há novecentos anos. Não cresci nem mudei.
Apodreci.
Doem-me as próprias raízes que criei.


Canto Peninsular, O Canto e as Armas, Manuel Alegre


-------O-------



Nunca tive grande simpatia pelo Jorge Coelho. Nem sequer gostei daquela sua frase “quem se mete com o PS leva”, a lembrar putos no recreio da primária. Nunca tive, de facto, grande simpatia pelo Jorge Coelho.

Até ontem!!!!

Regra geral, quando vejo a carantonha do inefável Jardim (Alberto João) de seu nome, sinto uma irresistível punção no dedo especializado em “zapping” e parto velozmente para fora da poluição.

No entanto ontem, e que quem me possa perdoar me perdoe, fiquei, estático, estarrecido, perante um chorrilho de asneiras que o Presidente Alberto, ao que parece sem ter vindo de nenhuma degustação vinícola, vomitava para um mais que inocente microfone.

Dizia ele que não tinha medo nenhum do Dr. Coelho, nem sequer físico, e desafiava-o para ir à Madeira para aprender o que é democracia.

Eu sei que as palavras são “por vezes fontes de mal-entendidos”- (Saint-Exupéry)- mas nem a boca lhe estalou ao proferir semelhante impropério. É que parece que, mais uma vez volto à primária, o Presidente da Madeira usou os meios de comunicação públicos para desafiar o Dr. Coelho para lhe por “cuspinho atrás da orelha”. (Era assim que no meu tempo de criança se fazia ao adversário para mostrar que se lhe era fisicamente superior). É de homem!!!!!

E depois, sabendo que o Dr. Alberto João avisou os municípios, onde o PSD-Madeira não ganhasse, sobre as futuras dificuldades de apoio por parte do poder regional; que é hábil a calar a imprensa local e entra em histeria por não ter o mesmo poder para a imprensa continental; ficamos estupefactos pela sua pretensão de ser formador ou exemplo em matéria de democracia.

O homem não se enxerga mesmo!

Sabendo embora que a ignorância sempre foi arrogante espanta-me que, com tanto desaforo que o senhor já produziu, a Republica assobie para o lado a fazer sempre de contas que não foi nada, de que nada ouviu.

Irra, é de mais. Então não se pode calar a verrina?!

setembro 28, 2005

Lágrimas -(um conto a despropósito...)

Agora sei que nada é fixo. Há sempre um por fazer
há sempre outro partir depois de cada chegar.
Agora sei que para saber
é preciso rasgar as mãos. E procurar.

Episódio I, Na ilha de Calipso, Um barco para Ítaca, Manuel Alegre

-------o------


Pretensiosamente pretendi chamar a esta história o meu barbeiro. Meditando um pouco perante o ecrã vazio - onde vai o desespero da folha de papel branco à espera da escrita e dos furiosos riscos que inutilizavam início e papel - tive de chegar à conclusão que:

a) não tinha, nem nunca tive um barbeiro fixo, coisa que passarei a explicar mais para diante (se me apetecer ou se o decorrer do conto não me levar por outros caminhos) e,

b) era demasiada pretensão chamar de minha a qualquer pessoa, ainda que fosse um barbeiro pobre, de revolta suave e a atingir o raiar das lágrimas.

Assim, vai a estória chamar-se lágrimas, não porque as houvesse na conversa, mas porque, de forma vária, estavam subentendidas numa vida de esforço sem glória nem perspectivas. Há, no entanto, para ajuntar que a culpa desta conversa é da Câmara Municipal, que por acaso é socialista, partido onde votou o meu barbeiro e que agora, com desespero, se arrenega dizendo que nunca mais votará em ninguém.

É claro que esta prosa corre o risco de se transformar numa lamúria fora de moda, tipo fado do desgraçadinho, coisa muito em voga nas escrevinhações que por cá fazemos. Desenganadamente o portuga escrevente – e será só ele? - desforra-se na escrita da sua consciência infeliz, enforma-a de confissão e procura nela ultrapassar problemas que, por inépcia ou falta de oportunidade, não consegue resolver de outro modo.

Dizia o barbeiro, dentro de e voltado para um amplo estaleiro de obras em funcionamento pleno, que a Câmara lhe estava a rebentar com a vida. E ao seu patrão também. Estranha esta preocupação do servente com o dono do estabelecimento. Marx não havia de gostar desta aproximação de classes, embora, se passasse pela barbearia e ao cortar o desgrenhado cabelo, ou a aparar a furiosa barba, ouvindo a estória que eu ouvi, pudesse pensar em alterar qualquer coisita na sua obra monumental. Ou quem sabe, talvez não mudasse nada porque uma coisa é a mudança encarada do ponto de vista sociológico, outra bem diferente é o drama do indivíduo apanhado nas teias dos volte-faces sociais.

Pois é verdade, o patrão da barbearia ficou estarrecido quando numa Segunda-feira vai para abrir o seu estabelecimento e verifica que todo o largo tinha sido, durante o fim-de-semana, cercado por imponente paliçada, cheia de anúncios de empresas de construção pedindo desculpas pelo incómodo, clamando que iriam ser breves, que trabalhavam para o bem-estar de todos e ali, do seu esforço e engenho, iria nascer um magnífico parque subterrâneo para automóveis para, de vez, resolver todos os problemas de trânsito daquela muito importante zona da cidade. No entanto, o problema para o dono da barbearia é que não só não tinha qualquer acesso à sua loja, como nem sequer a avistava, tapada que estava com protecções e andaimes e, sobretudo como em desespero dizia:

- ... mas nunca me disseram nada...

e ao pretender entrar teve que dar uma enorme volta para descobrir uma porta, onde foi esbarrar num serventuário negro, interposto à sua frente, mal falante do português, o qual, obstrutivo e repetidor, dizia: -sinhor non. Empresa e Câmara não querer ninguém dentro...

Estupefacção transformada em raiva. O sentimento de impotência a subir pelo corpo todo, começando nas mãos, estendendo-se pelos braços, ocupando o peito e um berro a sair e a explodir dentro do coração. Tudo vermelho por fora e por dentro como a ambulância onde o transportaram para o hospital, com um ataque cardíaco, conquistado naquele preciso momento e local.

Dizia-me o barbeiro que ao tomar conhecimento deste triste evento a Câmara fora companheira e impecável. Acorreu em peso em visita ao hospital, acompanhada dos órgãos de informação, para pedir desculpas ao patrão, que por acaso não tinha morrido, apenas ficando tolhido dos braços - o que não é de somenos para um barbeiro - e prometendo-lhe passagem livre, quando quisesse, para a sua loja, desde que, evidentemente, o estaleiro estivesse aberto, porque como sabe, por causa do ruído não se pode trabalhar à noite, e as máquinas existentes, de valiosas, não poderem ficar abandonadas ao sabor das malquerenças de algum energúmeno, além do perigo acrescido que representa atravessar um local de obras para alguém que não esteja habituado a tais andanças. O senhor bem sabe como são estas coisas dos acidentes na Construção Civil…

…O que se tinha passado é que todos os Bancos e Empresas da zona tinham sido avisadas com tempo e a Câmara, que não é descuidada, tivera mesmo reuniões com representantes dessas firmas e quantos problemas -meu Deus!! - não foram resolvidos. Só a questão da garagem do Banco Enfisema fora uma dor de cabeça...mas felizmente tudo se resolvera. Agora, a questão é que no meio de tanto afã, passou despercebida a questão da barbearia. Também o senhor sabe é só você e o seu empregado, aquilo está para ali esquecido a um canto, tem pouco movimento, vocês não se actualizaram e assim, não é que sirva de desculpa, ninguém se lembrou de vos avisar desta coisa...

Mas como é que eu vou viver? tartamudeou em espanto o patrão.

Pois é, é complicado, disse o Sr. Presidente. Agora não temos solução nenhuma. As coisas estão muito em cima do acontecimento. Teremos que estudar o caso. Mas não se preocupe, dê tempo ao tempo,...alguma coisa se há-de conseguir...

E conseguiu mesmo. Logo ali o patrão teve uma recaída - também quem é que espera que um patrão tenha um tão delicado coração - o que obrigou à rápida evacuação dos meios de comunicação social, para não perturbar o doente. Uma câmara de uma televisão independente, que cirandava atrás do presidente e que se tinha dado ao desplante de filmar despudoradamente todo o incidente, teve o azar de chocar de frente com um homem da segurança que ia a correr chamar o médico - que já estava à cabeceira do doente - e ficou toda partidinha no chão. No entanto, como o segurança era homem de boa índole, parou de imediato para ajudar o operador a levantar-se e a recuperar a câmara. O que o desgraçado nunca recuperou foi a cassete que se sumiu ninguém sabe para onde. Coisas....

Assim o meu barbeiro reflectia em voz alta, dando curso à sua mansa indignação e utilizando-me para a sua psicoterapia.

Pois é - dizia ele - por causa destas obras vou agora de férias. O senhor já viu o que é ir de férias no pico do Inverno?

Tentando amenizar as coisas lá lhe fui dizendo que férias de Inverno têm os seus encantos e méritos. Por exemplo, não se perdia tempo a esperar por um lugar nos restaurantes, era-se mais bem tratado nos hotéis e, para quem gostasse de neve, umas férias na montanha era o que era.

Pois sim, ripostou-me. Para mim férias são sempre no mesmo local. Em casa! Como é que quer que eu passe férias noutro lado? Repare, ganho menos de sessenta contos líquidos, fora as gorjetas, evidentemente,

-Já te percebi meu marau.- pensei eu! Está-te a fazer ao piso...

e com isso tenho que pagar a renda do barraco, os remédios da mulher que é doente como o caraças, os transportes, a alimentação e a pouca roupa que vestimos.

A raiva desta situação infeliz fez-se sentir na minha nuca. Zás! A navalha a entrar fina e dolorosamente na minha carne.

-Cuidado homem! Ainda me tira um bife do pescoço.

- Peço-lhe desculpas...mas quando penso na minha vida dá-me cá uma raiva!

Não é que eu não percebesse a razão da sua fúria. Com sessenta anos, sem dinheiro, sem nunca ter sabido o que era um gozo real de férias, dava para rebentar com todo. No entanto eu não tinha, objectivamente culpa nenhuma desta situação e a navalha, quase tão velha como ele, já tinha com certeza cortado centenas de pescoços (à superfície, é claro) e, valha-me Deus, se algum pertencesse a alguém contaminado com sida? Estremeci e, solícito, pergunta-me o barbeiro:

- Tem frio? Eu fecho já a porta. Como isto está nem se tem ganho para comprar uma garrafa de gás para o esquentador, quanto mais para o aquecedor.

Isso já tinha notado. Levara um duche de água fria ao lavar da cabeça. Como sou pacato e não gosto de levantar questões nem disse nada. Pensei que o esquentador não tivesse ainda aquecido, no entanto disse-lhe:

-Podia ter-me avisado antes. Assim evitaria o frio que passei.

Pois é, objectou, o serviço já é tão pouco! Se eu avisar o cliente ele não lava a cabeça. E é uma quinhentola que se vai à vida. A verdade fica muito cara. Não me posso dar ao luxo de ser verdadeiro. Se agora lhe falo nisto é porque já lavou a cabeça e é o meu último cliente. Quando acabar este cabelo vou fechar as portas, entro de férias e já não volto. Não tenho dinheiro para ser patrão, o dono da barbearia nunca voltará ao ofício e eu consegui uma reforma por causa da artrite. O dinheiro não é muito. Mas com as economias em transportes e roupas, mais umas cabeças que arranje lá pelo bairro, cá me hei-de governar.

Chegado o serviço ao fim escovou-me as costas, recebeu o dinheiro e a gorjeta, fez-me um sorriso e mal eu saí, fechou, para sempre, as portas da barbearia.


Vivia-se ao tempo a euforia construtiva do Sr. Presidente. Pelo sorriso permanente, de alvos dentes em riste, pela mania de mandar azulejar de branco tudo quanto fosse de retretes a estações de metro ou comboios tinha sido Sua Excelência apodado - claro, pela oposição - de Brancolejo.

Dizia-se que as sessões na Câmara eram tumultuosas e inúteis. Discutisse-se o que quer se discutisse, tomassem-se quais decisões fossem, era certo e sabido que apenas vingariam aquelas que o Sr. Presidente já trouxesse encasquetadas no bestunto. Era um homem de grande inteireza - diziam os apoiantes - era um burro teimoso - contestavam os outros. O certo porém é que o seu mandato lá ia de vento em popa, assim, como de vento e pompa foi o dia da inauguração do parqueamento.

O que parecia não ter remédio era a desgraçada barbearia. Para além da disfunção obtida pelo patrão, da compelida reforma do empregado, erguera-se agora, comemorativamente, mesmo em frente da sua portada, um imponente monumento, que a ocultava completamente, destruindo qualquer possibilidade do patrão obter algum trespasse que merecesse a pena. Saído do hospital e confrontada a Câmara com a possibilidade de um processo em tribunal, a cair mesmo em cheio no período eleitoral, foram convocados sábios consultantes.

Que arranjassem uma solução – clamou o Sr. Presidente.

E foi assim que no dia da inauguração, entre bombeiros de retoque e desfile, meninas de flor e beijinho, fitas cortadas, discursos como o deveriam ser, todo ao jeito do antigo regime só que com mais populares na corrida, o patrão - agora tetraplégico, de cadeirinha de rodas empurrada por zeloso funcionário da Câmara -, engrossava a fila de convidados importantes e, pasmem, ele que nunca tivera carro, nem poderia agora pretender conduzir, receberia, de modo estatutário, o direito a um lugar de parqueamento vitalício e não endossável…

Mas, dir-me-ão que foi feito do empregado?

E perguntam bem porquanto, como todos somos iguais e detentores dos mesmos direitos, não poderemos cometer o feio pecado de falar de presidentes, de bancos e mesmo de barbearias e deixar, como coisa que não interessa, o destino desse anónimo fazedor das coisas reais.

Pois bem, não deixem de ter em conta que falamos de um município, de presidência consabidamente democrática e socialista, onde o povo miúdo é sempre tido na devida conta. Foi assim que no dia da inauguração, impante, garbosamente fardado, dentro de um cubículo de vidro, o meu barbeiro recebera a importante missão de cobrar os pagamentos e passar talões aos utentes do novíssimo parque.

E a estória poderia por aqui ficar, com honra, glória e proveito para todos se, no meio da felicidade do meu barbeiro, não caísse a dúvida cruel de um futuro ameaçado. É que, não nos podemos esquecer, vivemos numa época de grandes e progressivas mudanças e o nosso presidente é dinâmico, homem de larga visão do futuro e sobretudo muito viajado. Assim, dissertando sobre melhorias e desenvolvimento, por mero descuido próximo ao recém reciclado barbeiro, comentou, para a sua comitiva, que um parque assim tão moderno, dentro de todas as convenções das normas europeias, não ficaria completo sem um actualizado sistema de cobranças e controlos automáticos. Era assim que se fazia lá fora...

Vocês bem vêem, isto de ter uns velhotes caquécticos nas portagens de instalações tão modernas não dá lá muito bom aspecto...

Por isto ter ouvido é que o meu barbeiro, quando lhe fui dar os parabéns pela resolução dos seus problemas de emprego, esboçou um esforçado sorriso e disse:

Não sei bem... não sei bem...

...deixando que duas pequeninas lágrimas ensombrassem a luz daquele grande dia.