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outubro 31, 2005

Ninguém está inocente???!!!

Há tiros em pontos diferentes da cidade, isto não é um filme, é um golpe.

Rafael, Manuel Alegre






Olho para o extenso libelo que o público publica hoje sobre a dama de Felgueiras e fico estarrecido. As redes de cumplicidade, os alquevas de lama, o cheiro nauseabundo que sai de todo este “affaire” são, mesmo para pituitárias portuguesas, demasiado.

Então quem é que não está implicado? Pelos vistos quase ninguém entre os circunstantes deste processo social de sacos azuis, compras de automóveis, fugas para o Brasil e combinações estranhas com as polícias.

Não havia a senhora de ostentar aqueles ares de grande dama acima de qualquer suspeita e muito acima da lei que obriga os “vulguérrimos” indígenas. Pois se, pelas cumplicidade, protecções e conluios ela estava mesmo muito acima dessas torpes preocupações.

Acho que vou deixar de fazer reparos ao comportamento da senhora e vou mesmo defender que, entre muitas outras coisas que fez e não fez, ela nunca fugiu para o Brasil. É que, pelo andar da carruagem, além de possivelmente vir a ser ilibada dos 23 crimes de que está acusada, ainda acabo eu, no banco dos réus, por ter afirmado que as malfeitorias cometidas, sendo degradantes para qualquer um e do domínio público, não parecem ter qualquer efeito na contínua notoriedade e ascensão da personagem Fátima.

Creio que começo a correr o risco de reconhecer a verdade de uma máxima dos velhos inquisidores: ninguém é inocente; todos são culpados de algo, que mais não seja do pecado original!


Com excepção da D. Fátima, é claro!

outubro 29, 2005

Formação do Núcleo do Barreiro de apoio à Candidatura de Manuel Alegre

Uma coisa me perturbou: foi quando o jornalista Rui Rocha, do Expresso, num excelente texto que escreveu sobre este livro, destacou as duas primeiras letras de Manuel e Alegre. Vai-se a ver e dá MA e AL. Lê-se ao contrário e é ALMA.

Alma, Arte de Marear, Manuel Alegre





Há já muitos anos que não sentia a alegria de estar a lutar por uma causa.

A gente sabe, a institucionalização da Democracia, um bem em si mesmo, não deixa de nos “empantufar” um pouco o entusiasmo participativo.

Começamos a pensar que já fizemos a nossa parte, que os partidos estão cá mesmo para isso, que o voto é participação bastante e passamos procuração para que outros se preocupem com o estado da Nação.

Um pouco como se contratando um empregado para tomar conta da manutenção da nossa casa, acabássemos por nos convencer, e a ele também, que já nada tínhamos a dizer ou que não aceitaríamos qualquer preocupação a respeito da casa, porque isso seria meramente função desse empregado.

Parece absurdo mas é assim que nos vamos comportando em política.

Ou, pelo menos, íamos.

A candidatura de Manuel Alegre à Presidência e as suas circunstâncias vieram acordar muitas das consciências, que como a minha, lá iam andando no ramerrão quotidiano da participação cívica. Isto é, opinávamos, indignávamo-nos, mas continuávamos a pensar que aquilo não era connosco. Os outros, os lá da política, que resolvessem as coisas.

Só que os outros da política somos nós todos. É a este conjunto, formado neste território que é a Pátria, que pertence a soberania. Disto nos veio, com o seu gesto político de rebeldia poética, recordar Manuel Alegre.

É certo que ele veio para incomodar e parece estar a incomodar muita gente.

Por outro lado, como já se não via desde o caso de Timor, as pessoas estão a falar-se, a contactar-se, a organizar-se para suprirem a estrutura de apoio que a Manuel Alegre foi negada de forma muito pouco ética.

Não quero retirar aos partidos o direito de apoiarem seja quem for, mas não deixarei, e espero que não deixemos, que os partidos nos queiram tirar a nós esse direito.

Como qualquer democrata não sou nem posso ser anti-partidos, mas não aceito que pretendam monopolizar toda a acção política. A visão dos aparelhos pode não coincidir com os desejos das populações, como no presente caso se demonstra e o tempo virá, certamente, a consolidar esta percepção.

É pois chegado o tempo de passarmos à acção organizada. Peço a todos os interessados, na Cidade do Barreiro, que queiram fazer parte do núcleo de apoio nesta cidade que, através deste Blogue, me contactem.

Juntos descobriremos o tempo e o modo da acção a desempenhar para levarmos à mais alta instância do Poder o cidadão Manuel Alegre, a pessoa e a voz que as circunstâncias pedem.

outubro 27, 2005

A minha mulher anda cinzentinha

Duvidar e agir, agir e perguntar, eis o meu lema. Na vida e na escrita.

Duvidar e Agir, Arte de Marear, Manuel Alegre





Ando a ficar basto desconfortável. Por causa da cor da minha mulher.
Eu conto. Sempre foi radiosa e brilhante. Inteligente e activa não parava um momento. Gostava do seu trabalho e entregava-se a ele com devoção diária e sem ligar a tempos nem horários.

Achava que mais que uma profissão tinha uma missão. Por isso preteriu propostas de emprego mais bem remuneradas e aparentemente mais prestigiosas. Mas não! Era aquilo que ela queria e nada mais a motivava.

Por vezes, pensava eu, e ainda penso, era de mais! No meu materialismo rasteiro não compreendia a sua entrega total a um trabalho tão mal pago e com tantas e tantas horas doadas, nem sequer reconhecidas como tal. Mas ela não se importava, continuava a pensar que o seu trabalho era importante e dele dependeria, de alguma forma, o futuro de todos nós.

Todos os anos fazíamos projectos de fins-de-semana magníficos. Todos os anos, em quase todos os fins de semana, adiávamos para o fim-de-semana seguinte o magnífico projecto, porque um trabalho, uma pesquisa, uma actualização ou uma proposta nova – entre tantas outras coisas – vinha impossibilitar a realização do programa desejado.

Então projectava-se uma mais comezinha ida ao cinema, a um concerto, ao teatro e… não íamos porque algo se tinha complicado e era preciso mais tempo, mais estudo, mais trabalho.

E o dinheiro gasto em livros para actualização? E o tempo para pesquisar em bibliotecas e livrarias?

Incontáveis, meus senhores! Tudo a suas expensas em horas e dinheiros!!...

Mas, apesar disso, a minha mulher continuava luminosa e activa a destilar espírito de missão.

Só que, há uns tempos para trás, começou a acinzentar. Arrasta-se, parece deprimida e olha para as coisas, que tanto a entusiasmaram, com um “olhar distanciado” entre o baço e o displicente.

Cheio de desespero e de frustração perguntei-lhe se a podia ajudar? De que sofria? Respondeu-me, desalentadamente, que a não poderia auxiliar e pensava mesmo que ninguém, a curto prazo, o poderia fazer.

Sofre, confessou-me com alguma vergonha, de ser professora do ensino secundário!

Dei-lhe toda a razão! Este mal, nestes tempos, não tem mesmo remédio nenhum.

outubro 25, 2005

Há patinhos no Barreiro

Mensageiros andaram de aldeia em aldeia.
Algo de estranho se deve passar
se de novo convocam a Assembleia.

Um barco para Ítaca, Manuel Alegre







O Parque da Cidade virá, com o tempo e o crescer das árvores, a ser um local belo e aprazível nesta cidade que, em beleza, não é muito pródiga.

O espaço é amplo, os relvados extensos, a água faz parte da arquitectura e casa-se bem com o ambiente.

Nos logradouros aquáticos, que poderiam estar mais limpos e menos verde-pântano, transitam submersos cágados ou tartarugas e por todos os hectares do terreno – com ou sem água – uma variegada onda de patos, de muitas e desvairadas cores e raças, convivem fraternamente com a população, sobretudo com as crianças maravilhadas por alimentar à mão tão interessantes criaturas.

Para o jovem urbano é de facto um gárrulo convívio com a natureza.

Pois é! Tudo isto seria formidável se não fosse esta inquietante gripe aviária, que ameaça por aí transformar os “pessarinhos” mais ornamentais ou comestíveis em sérios agentes de guerra biológica, não estando livres de conseguirem esta condição o inumeráveis patinhos, livres e voadores, que habitam o parque.

Não sou zoólogo, nem biólogo e muito menos ornitólogo – que é uma palavra esquisita para em relação a ela se ser – portanto não sei quais serão os comportamentos dominantes destas simpáticas aves residentes. Sei, no entanto, que os seus primos são inveterados viajantes e que aqui existe um enorme sapal que pode ou não estar inscrito nas rotas turísticas destes palmípedes, possibilitando-lhes zonas de escusa promiscuidade.

Não me querendo imiscuir na moral dos patos fiquei porém algo preocupado com a possibilidade de contactos não autorizados e pela excessiva liberdade dos nosso incautos patinhos, que no pior dos casos os pode levar a uma morte prematura.

Então, corri à Web página da Câmara do Barreiro e, pelo e-mail do munícipe, disparei aos nossos edis a minha preocupação.

Tempo passou e autárquicas também, pelo que, câmara a mudar, ninguém me ligou nenhuma.

Não é que eu me julgue um cidadão acima de qualquer outro mas penso que quando alguém se dirige à Câmara, para apresentar reclamações ou sugestões, por uma mera questão de decência, deverá, ao menos, ver acusada a recepção da sua missiva. Ou estarei errado?

Como nada disto aconteceu, fui, no Domingo passado, verificar se tinha havido alguma alteração na vigilância ou restrição de movimentos dos nossos grasnadores. Qual quê! Até parece que a aves me conheciam e sabedoras da minha denúncia faziam gala em seguir-me, por todos os caminhos, evitando apenas pousar-me em cima por não terem a certeza de estarem mais a meu gosto em plena natureza ou num arroz de forno.

A minha vingança, em relação a elas e à Câmara, é que nunca saberão!

outubro 23, 2005

A Estrada - Poema

E há duzentos quilómetros de morte
Em duzentos quilómetros de terra. (…)
Metralhadoras cantam a canção da guerra.

Metralhadoras cantam, Praça da Canção, Manuel Alegre



a estrada

a estrada é velha, poeirenta, gasta
a estrada que aqui fica e se afasta

a estrada que tem morte e tem tristeza
em cada metro atraiçoa a natureza
a estrada que o é e nada mais
por ser tudo e mesmo ais

a coluna partiu às sete horas
- era para partir às seis
mas há sempre estas demoras

em cada carro os olhos esbraseiam
em cada curva os medos incendeiam
os homens olham, os homens sonham, os homens morrem
há os que choram, os que gritam, os que correm

foi tudo tão súbito como o inesperado
um tiro que partiu, o zé ensanguentado

porra! jesus! Uma blasfémia e uma oração
filhos da puta! se os apanho! não! não!! não!!!

socorrei-me senhor! ave maria!
que mal fiz eu?! - entretanto o zé morria
a pensar na mãe, na maria e naquela noite de amor-
ao seu lado, um incógnito manuel, que fora professor
é um anjo louco a distribuir morte

que se lixe! aqui, o que é preciso é sorte
e cospe para o lado e pensa na paz

há pouco caiu também o vaz
tem a cara desfeita e um braço fora
que interessa, chegara a sua hora

o lopes chora de medo encostado a uma palmeira
bateram duas balas mesmo ali, à sua beira
e nem sequer se mexeu
( nunca se mexe e ainda não morreu )

cuidado! aí vem a morteirada

( três segundos de incerteza...
... e não foi nada )

olhe furriel! está um naquela palmeira
vá abaixo! tratem-lhe da pasmaceira

e três espingardas mal-intencionadas
vão deixar a pele negra, avermelhada

este foi um recontro à hora do sol-pôr
- à hora a que dantes fazíamos amor
a quatro mil quilómetros de distância
a mais de uma centena de horas d’ânsia -
no dia sem amanhã, sem até logo, eternidade
do dia sempre igual e sem idade

à hora do sol sentir a dor que é minha
a estrada lá está e lá caminha

que a morte tem mil cheiros
sob a fronde verdosa dos mangueiros

outubro 21, 2005

Despenalização do Aborto

E havia laranjas. Havia um país de leite e de limão.

Um Barco para Ítaca, Manuel Alegre







Andam por aí, aflitas, vozes da direita, com receio de que o PS prescinda do Referendo sobre a despenalização do aborto e avance com a alteração da Lei na Assembleia da Republica.

O interessante é que usam um argumento ético para pressionar o Primeiro-Ministro. O argumento é nem mais nem menos que esta foi uma promessa eleitoral!

Como não estamos habituados a que o Governo quebre promessas eleitorais a nossa alma pasma.

E, no entanto, o PS tem todo o direito em encarar a possibilidade de excluir o referendo e avançar com a actualização da Lei.

Primeiro porque forças contrárias tem usado todos os meios para, se não inviabilizar, pelos menos retardar essa consulta popular. Veja-se, como agora, com uma discussão bizantina sobre se se está na mesma legislatura – após as novas eleições - ou se estamos numa nova, estão a tentar novo adiamento, para as calendas e, se possível, quando o panorama político lhe possa vir a ser mais favorável.

Dir-me-ão que isso é parte do combate político e que cada um tenta fazer prevalecer a sua ideia e procurará o melhor momento para as fazer vingar.

Embora concordando com estas posições, em termos genérico, tenho de ressalvar que não estamos, no caso do aborto, numa posição equitativa.

Enquanto os antiaborto pretendem obrigar, universalmente, toda a gente a comungar de posicionamentos e valores próprios e paroquiais, os defensores da despenalização apenas querem uma lei que não criminalize quem tenha que recorrer à interrupção da gravidez, a qual não obrigará ninguém, que a não aceite, a faze-la.

Isto faz alguma diferença, não faz?

outubro 19, 2005

P(M)S - Partido do Mário Soares

Sinto um peso no coração, disse Jerónimo que de Argel telefonou para Paris.

Rafael, Manuel Alegre








Pelas notícias que ouvi hoje, estamos a assistir a uma refundação do PS – Partido Socialista para P(M)S – Partido do Mário Soares.

A questão é a seguinte: o Dr. Jorge Coelho e outras autorizadas vozes, vieram à ribalta informar os socialistas apoiantes da candidatura de Manuel Alegre que:

- não deveriam utilizar os meios técnicos do Partido socialista e;

- embora legitimamente eleitos em Assembleia para cargos partidários desaconselhavam-nos de participar nos mesmos.

Ora este tremenda lógica pressupões que

a) – os apoiantes de Manuel Alegre quereriam utilizar os meios técnicos do partido a favor do seu candidato, esquecendo que, ao anunciar a sua candidatura, o Dr. Manuel Alegre informou de que não disponha de estruturas de apoio e que as mesmas teriam que ser formadas pelos apoiantes. A conclusão a que mais uma vez sou obrigado a chegar é que, para as bandas do aparelho socialista, não se sabe o valor da palavra ética nem o que significa um mínimo de boa educação;

b) – alguns membros influentes dos órgãos partidários se sentem com maior legitimidade que o congresso para determinar quem deve ou não tomar assento nas assembleias decisórias;

c) – apesar da candidatura para a Presidência de Republica não ser da responsabilidade dos Partidos mas sim dos candidatos; apesar de Mário Soares não se cansar de repetir não ser candidato do PS mas sim um candidato apoiado pelo PS, este partido, mais papista que o papa, acha por bem começar um movimento de expurgo dos dirigentes –e a seguir, possivelmente, militantes – que tenham a coragem de escolher outro candidato.

Parece-me que tenho de ir ao dicionário ver o significado das palavras desvergonha e prepotência, bem como habituar-me a ver na Republica um partido de índole unipessoal, pouco republicano, nada socialista e quanto a laicidade a deixar muito a desejar.

outubro 14, 2005

rostos

Meu amigo cantava. Dizem que cantava.
E de repente
quebram-se nas veias os relógios (...)
A Segunda Canção com Lágrimas, Praça da Canção, Manuel Alegre
rostos



para o adriano correia de oliveira


I

pelos interstícios da razão
vislumbra-se a paixão do raciocínio

o horizonte fundido sobre a rota dos barcos
escapa dentro do texto que se julga
sempre a caminho do mar

a neblina colcha de torrente
comanda-me a voz
em prosas no olhar

pela altura da vaga
mede-se a esperança

à janela do tempo
acrescento qualidades
às minhas sensações

um homem
com os dias azulinos sobre o mar
traça o curso das querenas

II

eram tão poucos os rostos
franjados de presságios
para os árduos barcos
que o sonho requeria

entre enganos e dias
restolhavam vozes
cobertas de noite
onde o silêncio
começava a existir

mas eram tão poucos
a mondar nos trigos dos critérios
o gorgulho dos prantos

ausentes da revolta
agora vamos sozinhos

os deuses são abismos do futuro

III

alguns barcos encalham e apodrecem
dentro dos rios crescem as barragens
balanço de metáforas transformação de cidades

nas máscaras do grito espia-se o grito
neste país de fronteiras sem vizinhos as borboletas das noites de agosto
turbilhonam sentidos que não sabemos

perguntado ao rio qual o caminho
o bafo das neves sem repouso
remete ao local sonolento dos princípios

a voz a pedra a tensão do futuro
contra o tempo

ícaro promete despertar

outubro 13, 2005

Independentes? Qual é o mal

A cidade invisível dentro da cidade visível. Procuro nas pedras,
procuro nas sombras.

Rafael, Manuel Alegre





Lá foram as autárquicas e, do bando dos quatro, apenas um deu com os burrinhos na água. Democraticamente aceitamos, embora fiquemos eticamente horripilados.

Já foram feitos inúmeros comentários sobre este assunto pelo que passo adiante e fico-me com algo que me anda a incomodar. Eu explico.

Utilizando o pretexto de que os atrás citados senhores (e senhora) eram independentes, comentadores e partidários começaram a alvitrar que haveria alguns inconvenientes na candidatura de independentes às autárquicas. Estão a topar??!!

A mim, por ser ingénuo, pareceu-me que não só estavam a desviar-se do assunto, como estariam a mandar barro à parede. É que, segundo me parece, não há nem houve qualquer problema pelo facto de cidadãos, com ou sem filiação partidária, decidirem concorrer, fora do guarda-chuva do partido, às eleições onde o possam legalmente fazer.

O problema do bando dos quatro não é o de serem independentes, mas o de terem processos pendentes na justiça, por indícios criminais, que se prendem com a sua gestão autárquica. Ou estarei equivocado?

Assim vamos lá a ter juízo e contenção e não queiram, por todos os meios, criar oligopólios políticos.

Independentes de todo o mundo, mostrai-vos!!! (onde é que eu já ouvi isto?)

outubro 08, 2005

Um caso de polícia...

Estás enganado (…) o importante é o resto, o que vem a seguir, por isso
é que temos de fazer um Pacto, vamos ser incómodos para muita gente.

Rafael, Manuel Alegre





Tenho uma amiga que não se chama Épsilon e que vive num lugar recatado, com alguma base arquitectural e uma envolvência bastante calma.

Ou isto é o que ela pensava…

Pois é! Numa destas madrugadas acordou subitamente – e presumo que como grande parte do bairro – com ruídos de potentes motores a toda a brida, chiar de pneus, tiros e estarrecedores sons de embates de/em viaturas.

Sobressaltou-se, como é de esperar que aconteça a quem vive em lugares onde não se esperam acontecimentos, e veio à janela que dá para a praceta dos eventos.

E viu – valha-a Deus – a GNR, em grande velocidade, em perseguição de malfeitores que, na melhor tradição dos filmes americanos, rodavam em poderoso “Jipe”, fugindo aos guardas, ao tiros e sem o mínimo respeito pelos tranquilos e estacionados carros de todos os dias de trabalho, os iam amolgando na precipitada passagem.

Azar dos portugueses, dirão… é sim senhor mas, sobretudo para a minha amiga que não se chama Épsilon, acordado pelo ruído e para o desespero de ver a sua viatura vitimada inocentemente pelas circunstâncias.

Não seria pouco se a coisa ficasse por aqui…

Então, os meliantes fizeram a guarda gastar pólvora e gasolina e…escaparam! Calculo que os guardas hão-de ter ficado frustrados. É humano, que diabo…nem sempre se pode apanhar quem tem um carro mais veloz e, mesmo havendo comunicação com outras patrulhas um “jipe” pode andar por caminhos de cabras e escapar aos agentes.

Quem não escapa com certeza é a minha amiga e os restantes proprietários de veículos amassados.

Não conseguindo agarrar quem de direito, esmeraram-se, na madrugada, a interrogatórios cerrados e exaustivos às ensonadas vítimas, como se elas fossem culpadas do seu desaire e dos prejuízos que elas próprias sofreram nos seus móveis – ali quedos e mais ou menos estropiados – pertences, só as deixando quando a sua autoridade se esvanecia com o passar da noite.

Se pensam que a aventura dos suspeitos moradores da pacata urbe termina aqui é porque não conhecem a proficiência e respeito pelo cidadão dos guardadores da nossa tranquilidade. Na noite seguinte, já passada a meia-noite, voltou a minha amiga a ser “contactada”, desta vez pelo telefone, pela simpática autoridade que queria confirmar alguns dados sobre a viatura e que não achara melhor forma e tempo de actuação que aquela…

aproveitando para informar que para ser ressarcida dos prejuízos havidos teria que levantar o auto do acontecimento – pagando-o – e que fazer um depósito, salvo erro para o Fundo de Garantia Automóvel, de cerca de sessenta contos, o qual a seu tempo decidiria de pagava ou não o arranjo do carro.

Encantadora esta estória e demonstrativa quer do respeito da “autoridade” pelos direitos e garantias dos cidadãos quer da eficiência demonstrada, neste caso, a todos os níveis.

A viatura da minha amiga lá está, amarrotada e infeliz, sem saber bem o que lhe aconteceu, à espera que ela a mande para a oficina, pague a conta e continue a aturar toda a burocracia autoritária que se segue, pagando todos os gastos e prejuízos do seu bolso, na esperança de um dia, um qualquer instituto se lembrar que existe para suprir faltas de seguro ou incidentes deste género, de molde a que o cidadão agredido, na sua pessoa ou nos seus bens, seja facilmente ressarcida e não tenha que aguentar sempre com este azar de ter nascido em Portugal.

outubro 04, 2005

O que sei de Abril em nós





Eu canto para ti Lisboa à tua espera
teu nome escrito com ternura sobre as águas
e o teu retrato em cada rua onde não passas
trazendo no sorriso a flor do mês de Maio

Praça da Canção, Canção com Lágrimas e Sol, Manuel Alegre





o que sei de abril em nós


I

não há razões perfeitas nem este é um mundo completo
desconheço amor onde o afecto igualmente se mantenha
nem sei de horários sempre desejáveis

o que sei é um saber de coisas por saber lançadas na minha
descoberta

por isso hoje em abril na escola alfredo da silva
com a arma das palavras e o sentido da cantiga
recordo o tempo em que esperava ver surgir esta nação

II

viemos expor-nos nas palavras e traçar o quadro do percurso
meteoritos descendo sobre a terra e produzindo rápida claridade
viemos de passagem falámos da viagem

nem todas as fontes iniciam rios mas todos os rios nascem de uma
fonte
importante é que deixem no seu rasto de águas renovadas
o caminho vegetal da alegria

assim em abril as coisas acontecem além das intenções e
pensar que é possível parar o movimento é como
tapar com panos pretos as janelas
para cortar o dia

que a revolução é sentimento de mudança
há muito arquitectada no coração das gentes
mais que um corpo é paixão
mais descoberta que sempre

quero dizer
fazer a revolução é diferente de criar uma liturgia

que em abril semente de actos novos em campos de imprevisto
não se admitem tréguas nem hipóteses
mas um corpo de mulher por sobre as ondas
para o qual as nossas vidas tendem

III

suponhamos que num acaso que nada deve ao acaso
se abriam nas janelas rasgos de verdades e deslumbrados
nos olhos surgia uma cidade que sendo a mesma outra transparecia

pensemos um dia em que por cima do sorriso
os homens prolongassem em festa a primavera que andava recolhida
e súbita rebentasse em seiva de flores
por sobre os aços

imaginemos o momento de tudo ser possível
mesmo a bandeira do vento no rubro da paixão
então

era uma vez um povo com um rio carregado de tristeza
era uma vez uma pátria de marinheiros e sem navios
que plantara uma praia inteirinha de viúvas com olhos de gaivotas
e coração de rocha

era uma vez um povo com a noite sobre a nuca
era uma vez um frio

IV

não há razões perfeitas nem este é um mundo completo
e estamos de passagem
só o povo flui constantemente se conserva e é diferente
nós somos uma parte da viagem
um porto a encontrar

juntos aqui em abril tentemos
o novo passo a dar

outubro 03, 2005

Alberto João

Estar aqui dói-me. E eu estou aqui
Há novecentos anos. Não cresci nem mudei.
Apodreci.
Doem-me as próprias raízes que criei.


Canto Peninsular, O Canto e as Armas, Manuel Alegre


-------O-------



Nunca tive grande simpatia pelo Jorge Coelho. Nem sequer gostei daquela sua frase “quem se mete com o PS leva”, a lembrar putos no recreio da primária. Nunca tive, de facto, grande simpatia pelo Jorge Coelho.

Até ontem!!!!

Regra geral, quando vejo a carantonha do inefável Jardim (Alberto João) de seu nome, sinto uma irresistível punção no dedo especializado em “zapping” e parto velozmente para fora da poluição.

No entanto ontem, e que quem me possa perdoar me perdoe, fiquei, estático, estarrecido, perante um chorrilho de asneiras que o Presidente Alberto, ao que parece sem ter vindo de nenhuma degustação vinícola, vomitava para um mais que inocente microfone.

Dizia ele que não tinha medo nenhum do Dr. Coelho, nem sequer físico, e desafiava-o para ir à Madeira para aprender o que é democracia.

Eu sei que as palavras são “por vezes fontes de mal-entendidos”- (Saint-Exupéry)- mas nem a boca lhe estalou ao proferir semelhante impropério. É que parece que, mais uma vez volto à primária, o Presidente da Madeira usou os meios de comunicação públicos para desafiar o Dr. Coelho para lhe por “cuspinho atrás da orelha”. (Era assim que no meu tempo de criança se fazia ao adversário para mostrar que se lhe era fisicamente superior). É de homem!!!!!

E depois, sabendo que o Dr. Alberto João avisou os municípios, onde o PSD-Madeira não ganhasse, sobre as futuras dificuldades de apoio por parte do poder regional; que é hábil a calar a imprensa local e entra em histeria por não ter o mesmo poder para a imprensa continental; ficamos estupefactos pela sua pretensão de ser formador ou exemplo em matéria de democracia.

O homem não se enxerga mesmo!

Sabendo embora que a ignorância sempre foi arrogante espanta-me que, com tanto desaforo que o senhor já produziu, a Republica assobie para o lado a fazer sempre de contas que não foi nada, de que nada ouviu.

Irra, é de mais. Então não se pode calar a verrina?!

setembro 28, 2005

Lágrimas -(um conto a despropósito...)

Agora sei que nada é fixo. Há sempre um por fazer
há sempre outro partir depois de cada chegar.
Agora sei que para saber
é preciso rasgar as mãos. E procurar.

Episódio I, Na ilha de Calipso, Um barco para Ítaca, Manuel Alegre

-------o------


Pretensiosamente pretendi chamar a esta história o meu barbeiro. Meditando um pouco perante o ecrã vazio - onde vai o desespero da folha de papel branco à espera da escrita e dos furiosos riscos que inutilizavam início e papel - tive de chegar à conclusão que:

a) não tinha, nem nunca tive um barbeiro fixo, coisa que passarei a explicar mais para diante (se me apetecer ou se o decorrer do conto não me levar por outros caminhos) e,

b) era demasiada pretensão chamar de minha a qualquer pessoa, ainda que fosse um barbeiro pobre, de revolta suave e a atingir o raiar das lágrimas.

Assim, vai a estória chamar-se lágrimas, não porque as houvesse na conversa, mas porque, de forma vária, estavam subentendidas numa vida de esforço sem glória nem perspectivas. Há, no entanto, para ajuntar que a culpa desta conversa é da Câmara Municipal, que por acaso é socialista, partido onde votou o meu barbeiro e que agora, com desespero, se arrenega dizendo que nunca mais votará em ninguém.

É claro que esta prosa corre o risco de se transformar numa lamúria fora de moda, tipo fado do desgraçadinho, coisa muito em voga nas escrevinhações que por cá fazemos. Desenganadamente o portuga escrevente – e será só ele? - desforra-se na escrita da sua consciência infeliz, enforma-a de confissão e procura nela ultrapassar problemas que, por inépcia ou falta de oportunidade, não consegue resolver de outro modo.

Dizia o barbeiro, dentro de e voltado para um amplo estaleiro de obras em funcionamento pleno, que a Câmara lhe estava a rebentar com a vida. E ao seu patrão também. Estranha esta preocupação do servente com o dono do estabelecimento. Marx não havia de gostar desta aproximação de classes, embora, se passasse pela barbearia e ao cortar o desgrenhado cabelo, ou a aparar a furiosa barba, ouvindo a estória que eu ouvi, pudesse pensar em alterar qualquer coisita na sua obra monumental. Ou quem sabe, talvez não mudasse nada porque uma coisa é a mudança encarada do ponto de vista sociológico, outra bem diferente é o drama do indivíduo apanhado nas teias dos volte-faces sociais.

Pois é verdade, o patrão da barbearia ficou estarrecido quando numa Segunda-feira vai para abrir o seu estabelecimento e verifica que todo o largo tinha sido, durante o fim-de-semana, cercado por imponente paliçada, cheia de anúncios de empresas de construção pedindo desculpas pelo incómodo, clamando que iriam ser breves, que trabalhavam para o bem-estar de todos e ali, do seu esforço e engenho, iria nascer um magnífico parque subterrâneo para automóveis para, de vez, resolver todos os problemas de trânsito daquela muito importante zona da cidade. No entanto, o problema para o dono da barbearia é que não só não tinha qualquer acesso à sua loja, como nem sequer a avistava, tapada que estava com protecções e andaimes e, sobretudo como em desespero dizia:

- ... mas nunca me disseram nada...

e ao pretender entrar teve que dar uma enorme volta para descobrir uma porta, onde foi esbarrar num serventuário negro, interposto à sua frente, mal falante do português, o qual, obstrutivo e repetidor, dizia: -sinhor non. Empresa e Câmara não querer ninguém dentro...

Estupefacção transformada em raiva. O sentimento de impotência a subir pelo corpo todo, começando nas mãos, estendendo-se pelos braços, ocupando o peito e um berro a sair e a explodir dentro do coração. Tudo vermelho por fora e por dentro como a ambulância onde o transportaram para o hospital, com um ataque cardíaco, conquistado naquele preciso momento e local.

Dizia-me o barbeiro que ao tomar conhecimento deste triste evento a Câmara fora companheira e impecável. Acorreu em peso em visita ao hospital, acompanhada dos órgãos de informação, para pedir desculpas ao patrão, que por acaso não tinha morrido, apenas ficando tolhido dos braços - o que não é de somenos para um barbeiro - e prometendo-lhe passagem livre, quando quisesse, para a sua loja, desde que, evidentemente, o estaleiro estivesse aberto, porque como sabe, por causa do ruído não se pode trabalhar à noite, e as máquinas existentes, de valiosas, não poderem ficar abandonadas ao sabor das malquerenças de algum energúmeno, além do perigo acrescido que representa atravessar um local de obras para alguém que não esteja habituado a tais andanças. O senhor bem sabe como são estas coisas dos acidentes na Construção Civil…

…O que se tinha passado é que todos os Bancos e Empresas da zona tinham sido avisadas com tempo e a Câmara, que não é descuidada, tivera mesmo reuniões com representantes dessas firmas e quantos problemas -meu Deus!! - não foram resolvidos. Só a questão da garagem do Banco Enfisema fora uma dor de cabeça...mas felizmente tudo se resolvera. Agora, a questão é que no meio de tanto afã, passou despercebida a questão da barbearia. Também o senhor sabe é só você e o seu empregado, aquilo está para ali esquecido a um canto, tem pouco movimento, vocês não se actualizaram e assim, não é que sirva de desculpa, ninguém se lembrou de vos avisar desta coisa...

Mas como é que eu vou viver? tartamudeou em espanto o patrão.

Pois é, é complicado, disse o Sr. Presidente. Agora não temos solução nenhuma. As coisas estão muito em cima do acontecimento. Teremos que estudar o caso. Mas não se preocupe, dê tempo ao tempo,...alguma coisa se há-de conseguir...

E conseguiu mesmo. Logo ali o patrão teve uma recaída - também quem é que espera que um patrão tenha um tão delicado coração - o que obrigou à rápida evacuação dos meios de comunicação social, para não perturbar o doente. Uma câmara de uma televisão independente, que cirandava atrás do presidente e que se tinha dado ao desplante de filmar despudoradamente todo o incidente, teve o azar de chocar de frente com um homem da segurança que ia a correr chamar o médico - que já estava à cabeceira do doente - e ficou toda partidinha no chão. No entanto, como o segurança era homem de boa índole, parou de imediato para ajudar o operador a levantar-se e a recuperar a câmara. O que o desgraçado nunca recuperou foi a cassete que se sumiu ninguém sabe para onde. Coisas....

Assim o meu barbeiro reflectia em voz alta, dando curso à sua mansa indignação e utilizando-me para a sua psicoterapia.

Pois é - dizia ele - por causa destas obras vou agora de férias. O senhor já viu o que é ir de férias no pico do Inverno?

Tentando amenizar as coisas lá lhe fui dizendo que férias de Inverno têm os seus encantos e méritos. Por exemplo, não se perdia tempo a esperar por um lugar nos restaurantes, era-se mais bem tratado nos hotéis e, para quem gostasse de neve, umas férias na montanha era o que era.

Pois sim, ripostou-me. Para mim férias são sempre no mesmo local. Em casa! Como é que quer que eu passe férias noutro lado? Repare, ganho menos de sessenta contos líquidos, fora as gorjetas, evidentemente,

-Já te percebi meu marau.- pensei eu! Está-te a fazer ao piso...

e com isso tenho que pagar a renda do barraco, os remédios da mulher que é doente como o caraças, os transportes, a alimentação e a pouca roupa que vestimos.

A raiva desta situação infeliz fez-se sentir na minha nuca. Zás! A navalha a entrar fina e dolorosamente na minha carne.

-Cuidado homem! Ainda me tira um bife do pescoço.

- Peço-lhe desculpas...mas quando penso na minha vida dá-me cá uma raiva!

Não é que eu não percebesse a razão da sua fúria. Com sessenta anos, sem dinheiro, sem nunca ter sabido o que era um gozo real de férias, dava para rebentar com todo. No entanto eu não tinha, objectivamente culpa nenhuma desta situação e a navalha, quase tão velha como ele, já tinha com certeza cortado centenas de pescoços (à superfície, é claro) e, valha-me Deus, se algum pertencesse a alguém contaminado com sida? Estremeci e, solícito, pergunta-me o barbeiro:

- Tem frio? Eu fecho já a porta. Como isto está nem se tem ganho para comprar uma garrafa de gás para o esquentador, quanto mais para o aquecedor.

Isso já tinha notado. Levara um duche de água fria ao lavar da cabeça. Como sou pacato e não gosto de levantar questões nem disse nada. Pensei que o esquentador não tivesse ainda aquecido, no entanto disse-lhe:

-Podia ter-me avisado antes. Assim evitaria o frio que passei.

Pois é, objectou, o serviço já é tão pouco! Se eu avisar o cliente ele não lava a cabeça. E é uma quinhentola que se vai à vida. A verdade fica muito cara. Não me posso dar ao luxo de ser verdadeiro. Se agora lhe falo nisto é porque já lavou a cabeça e é o meu último cliente. Quando acabar este cabelo vou fechar as portas, entro de férias e já não volto. Não tenho dinheiro para ser patrão, o dono da barbearia nunca voltará ao ofício e eu consegui uma reforma por causa da artrite. O dinheiro não é muito. Mas com as economias em transportes e roupas, mais umas cabeças que arranje lá pelo bairro, cá me hei-de governar.

Chegado o serviço ao fim escovou-me as costas, recebeu o dinheiro e a gorjeta, fez-me um sorriso e mal eu saí, fechou, para sempre, as portas da barbearia.


Vivia-se ao tempo a euforia construtiva do Sr. Presidente. Pelo sorriso permanente, de alvos dentes em riste, pela mania de mandar azulejar de branco tudo quanto fosse de retretes a estações de metro ou comboios tinha sido Sua Excelência apodado - claro, pela oposição - de Brancolejo.

Dizia-se que as sessões na Câmara eram tumultuosas e inúteis. Discutisse-se o que quer se discutisse, tomassem-se quais decisões fossem, era certo e sabido que apenas vingariam aquelas que o Sr. Presidente já trouxesse encasquetadas no bestunto. Era um homem de grande inteireza - diziam os apoiantes - era um burro teimoso - contestavam os outros. O certo porém é que o seu mandato lá ia de vento em popa, assim, como de vento e pompa foi o dia da inauguração do parqueamento.

O que parecia não ter remédio era a desgraçada barbearia. Para além da disfunção obtida pelo patrão, da compelida reforma do empregado, erguera-se agora, comemorativamente, mesmo em frente da sua portada, um imponente monumento, que a ocultava completamente, destruindo qualquer possibilidade do patrão obter algum trespasse que merecesse a pena. Saído do hospital e confrontada a Câmara com a possibilidade de um processo em tribunal, a cair mesmo em cheio no período eleitoral, foram convocados sábios consultantes.

Que arranjassem uma solução – clamou o Sr. Presidente.

E foi assim que no dia da inauguração, entre bombeiros de retoque e desfile, meninas de flor e beijinho, fitas cortadas, discursos como o deveriam ser, todo ao jeito do antigo regime só que com mais populares na corrida, o patrão - agora tetraplégico, de cadeirinha de rodas empurrada por zeloso funcionário da Câmara -, engrossava a fila de convidados importantes e, pasmem, ele que nunca tivera carro, nem poderia agora pretender conduzir, receberia, de modo estatutário, o direito a um lugar de parqueamento vitalício e não endossável…

Mas, dir-me-ão que foi feito do empregado?

E perguntam bem porquanto, como todos somos iguais e detentores dos mesmos direitos, não poderemos cometer o feio pecado de falar de presidentes, de bancos e mesmo de barbearias e deixar, como coisa que não interessa, o destino desse anónimo fazedor das coisas reais.

Pois bem, não deixem de ter em conta que falamos de um município, de presidência consabidamente democrática e socialista, onde o povo miúdo é sempre tido na devida conta. Foi assim que no dia da inauguração, impante, garbosamente fardado, dentro de um cubículo de vidro, o meu barbeiro recebera a importante missão de cobrar os pagamentos e passar talões aos utentes do novíssimo parque.

E a estória poderia por aqui ficar, com honra, glória e proveito para todos se, no meio da felicidade do meu barbeiro, não caísse a dúvida cruel de um futuro ameaçado. É que, não nos podemos esquecer, vivemos numa época de grandes e progressivas mudanças e o nosso presidente é dinâmico, homem de larga visão do futuro e sobretudo muito viajado. Assim, dissertando sobre melhorias e desenvolvimento, por mero descuido próximo ao recém reciclado barbeiro, comentou, para a sua comitiva, que um parque assim tão moderno, dentro de todas as convenções das normas europeias, não ficaria completo sem um actualizado sistema de cobranças e controlos automáticos. Era assim que se fazia lá fora...

Vocês bem vêem, isto de ter uns velhotes caquécticos nas portagens de instalações tão modernas não dá lá muito bom aspecto...

Por isto ter ouvido é que o meu barbeiro, quando lhe fui dar os parabéns pela resolução dos seus problemas de emprego, esboçou um esforçado sorriso e disse:

Não sei bem... não sei bem...

...deixando que duas pequeninas lágrimas ensombrassem a luz daquele grande dia.

À mulher de César

Ponderação me pedem. Exigem que me cale
mas bebem do meu vinho meus campos devastam
à resignação chamam virtude juventude à indignação
com seus conselhos me enfastiam com seus prémios me castigam
Se digo não me dizem sim se digo sim me dizem não
calar-me é doloroso mais ainda me é falar
pois o silêncio é uma traição….

Episódio II, Em Ítaca: Telémaco e os seus jovens companheiros, Um barco para Ítaca, Manuel Alegre




Publica hoje o Público um interessante dossier de três páginas sobre o caso da inefável dama de Felgueiras.

Na página 2, quase ao fim do artigo, referindo-se ao acréscimo de 75% sobre o preço inicial de adjudicação, da obra de um aterro sanitário, e perante reticências do Tribunal de Contas em aceitar tal aumento, diz a Redacção citando um responsável da empresa adjudicatária: “”A reformulação da proposta só foi possível com autorização ministerial”, mas “a aceitação dessa situação e a dispensa de novo concurso suscitou reservas ao Tribunal de Contas, tendo esta sido sanada com a intervenção do Ministério do Ambiente (através do Secretário de Estado José Sócrates), que justificou o novo valor dos trabalhos com a necessidade de aplicação da nova legislação em matéria ambiental””.

Voltamos à mulher de César…

setembro 26, 2005

Eu venho incomodar

Eu venho incomodar.
Trago palavras como bofetadas
E é inútil mandarem-me calar
Porque a minha canção não fica no papel.

Apresentação, O Canto e as Armas, Manuel Alegre



1 – O nome do Blog


Se eu for com o meu primo ao laranjal e só, no mais alto da mais alta árvore, houver uma laranja e se sozinho a não a puder alcançar, pedirei ao meu primo que me ajude.

Feito o esforço, porque o meu primo me coadjuvou, é meu familiar, lhe estou agradecido e sou sentimental, dar-lhe-ei metade da laranja. Mas como sou sacana, dou-lhe a parte mais pequena.

Assim me vejo e nos vejo como colectivo. Não sou fundamentalista neste raciocínio e penso que poderemos chegar ao dia em que a laranja possa ser equitativamente dividida.


2 – Esclarecimento a Henrique Jorge

Não sei se terá muito interesse aprofundar as circunstâncias em que o poema foi escrito. No início do "post" refiro-me à data dos acontecimentos (1977), tempo ainda muito quente em termos de ideologia, em que as posições se extremavam e tudo se vivia em cima do momento e da emoção.

Aquilo que me parece mais interessante será esclarecer, porque numa página que se quer de apoio, publico um texto que parece ser o seu contrário.

Ora bem, se apoio algo ou alguém terei de ter motivos para o fazer. No entanto, sendo do conhecimento dos meus amigos qual a minha posição sobre o Manuel Alegre, quem me não conhecesse e acedesse a este Blog, teria o direito de pensar “aqui está mais um a promover-se à conta do Manuel Alegre e das presidenciais”, ou pensar que estava perante obra encomendada, ficando deste modo deturpada a minha posição e fragilizada a mensagem que se quer transmitir.

Ao mostrar o profundo desacordo em que estive, contrastando com posição que agora tomo, deixo claro que para tudo há um tempo e um percurso. A grande coerência é transformar-se quando as situações exigem que a mudança se faça e o objectivo seja moralmente pertinente.

Que não se confunda tal posição com abandono de valores ou excessivo pragmatismo (mal este de que sofrem alguns partidos), mas sim com a natural mutação dos tempos e das circunstâncias, bem como das respostas que tais factos requerem.

O meu apoio ao Manuel Alegre significa que, em relação à coisa política actual, cheguei ao ponto da náusea. As posições e o discurso que o Manuel Alegre tem vindo a produzir, tão politicamente incorrectos, sugerem a possibilidade de algumas alterações neste panorama.

Por isso o aplaudo e me apetece estar com ele nesta caminhada tão política, como ética e onde cada acto surge dimensionado pela rudeza das palavras necessárias.




3 – Posição da Petição do Movimento Cívico

Pelas 16,45 horas existiam 2.063 assinaturas na Petição. De ontem para hoje o incremento foi de cerca de 500 assinaturas.

setembro 25, 2005

Manuel Alegre - Reconciliação...

Escrever para depois não sei escrever.
Meu tempo é hoje. Tudo o mais é não ser.
Correio - O Canto e as Armas (1967) Manuel Alegre
1 - Lembrar
Nos idos anos sessenta Portugal era um país carregado de tristeza. Por essa altura, em Évora, um pequeno mas heterogeneo grupo reunia-se, pelas caladas noites, em casa da Guida. Falávamos, pondo o rádio junto à janela não fosse um bufo da PIDE estar de esculca armada, e sonhávamos, em conjunto, com um país onde o sol brilhasse na efectiva liberdade de todos.
Com fundado receio aproveitávamos esses encontros para conseguir alguma esperança. Era o tempo de se ouvir, clandestinamente,as vozes que a transportavam: Zeca Afonso, Adriano Correia de Oliveira e sobretudo o Manuel Alegre e a sua Praça da Canção e O Canto e as Armas.
Assim fomos estando, resistindo e acordámos, subitamente, numa manhã de Abril.
A liberdade chegou e nós esfomeados e ingénuos utilizámo-la da maneira que sabíamos e podíamos. Cometemos erros e excessos. Pensámos ser inimigos quem apenas discordava. Era o insconciente fascista a trabalhar dentro de nós, mesmo daqueles que mais se pretendiam da libertários.
Assim chegámos a 1977 com a luta acérrima pelo domínio da sociedade e da comunicação social.
Aí separei-me do meu ídolo Manuel Alegre e amargamente publiquei o poema que abaixo trancrevo:
carta a manel


I
houve um tempo em que estavas longe
e mesmo ao pé da mão cantavas
eis senão
quando trocas a canção da cotovia
pelo ondular do pássaro secretário

é uma pena e um fadário
dos políticos desta terra quem desterra
é desterrado e desta feita
quando roda a roda da fortuna
é possível que o poeta venha a ser
contemplado com um ministério
ou um secretariado

no entanto houvera a praça da canção
um desembarque no rossio há muito prometido
o correio
e a maria do brás sempre menina em ti
houvera o sena e um bairro clandestino
e guitarras a tocar nas aldeias com amigos dentro

mas houve nambuangongos que tu não viste
quando da poesia te serviste usurário
para chegares a poeta secretário ourives da
palavra e construtor de frases preciosas

mas daquela triste e leda madrugada
já nem resta uma mão a acenar
nem o comboio que em frança te deixou
tão longe da partida

II

pobre manel-poeta-secretário com modos de ministro
pobre poeta-doente-marcial
com a poesia embrulhada como um quisto
em papel de jornal
estás feito em oito ouvistes
estás feito em vinte
estás feito em mil
mas já não és o cantor da nossa terra
alegre-secretário
nem deves ler os poemas do manel-poeta
o manel-otário

o que dava a voz pela justiça
e tinha uma arma carregada de poemas
sendo a seu modo próprio guerrilheiro

senão como seria ao encontrares
à esquina das palavras
o rosto velho velho desse desconhecido

talvez lhe instaurasses um processo
por ser subversivo ou melhor
através de subsídio comprovado
o levasses a poeta-oficial

pois é a vida custa caro
e comer em restaurantes conhecidos
não está ao alcance de qualquer poesia

mas do magistral soneto
de torneada frase
de sempre belo efeito
saída dum poeta
que faça a preceito
rima ministerial

como estás mudado alegre
que se fez triste e tão triste não resiste e é
manel-contente manel-parente
manel sempre presente
à recepção na embaixada americana
num requintado gosto socialeiro
já foste manel sério manel pantomineiro


III

é uma desgraça que as mulheres
do teu país te hajam conhecido
assim enfatuado
como peru para a matança
desesperado por não entrar na dança
que agitava a populaça
e ameaçava os teus louros no alto da carcaça
que o tempo há-de comer
e a estátua conservar
se não manel
onde é que os pombos da
edilidade irão cagar

IV

ai esta carta já vai tão longa
como a desilusão que nos deixaste
quando repentinamente te mudaste

não foi por mal a gente sabe
só querias ser governo
não eras oposição mas desespero
de te não deixarem subir
para o poleiro

por isso manel não perdoo
teres traído a praça da canção
e nos cavalos do vento que perdeste
voarei ao coração de cada português
a implantar a semente da bandeira
que camões de todo cego tu não vês

é o fim manel a minha despedida
só para te lembrar que não há ministério
que dure toda a vida
2 - E hoje?

Não sei se serei um português, como tantos outros, desiludido. O mundo sócio-politico apodreceu. São as felgueiras, os "majores", os avelinos, esta sociedade que se perde em mentiras e descrenças e me deixa de novo com a necessidade de arejar os trapos da casa.

Não sendo já nenhum crédulo na bondade intrínseca das pessoas ou dos sistemas, revoltou-me tudo quanto venho a ver sobre as movimentações políticas, autárquicas e presidenciais, sobretudo nas designações, activas ou previsíveis, para as candidaturas à presidência da República.

Confesso que não levei, de inicío, muito a sério a candidatura de Manuel Alegre. Mas depois do que vi, desejo ardentemente que essa candidatura avance. No mínimo para arejar o pântano.

Manuel Alegre disse estar preparado para avançar e confessou que não tinha aparelho que o apoiasse. E de facto não o terá se nós não decidirmos o contrário.

Podemos organizar-nos em comissões de rua, bairro ou cidade. Podemos contactar uns com os outros e promover acções de apoio, propaganda e recolha de fundos. Podemos dizer assim que o país também é nosso e que estamos a ficar fartos da sopa que nos dão a comer.

Isto é connosco. Ou ficamos quietos e merecemos tudo o que venha a acontecer, ou dizemos basta e metemos mão à obra.

Eu estou pronto! Apareçam por cá!

Manuel Alegre - Lista de Apoio

Sobre o título "Movimento Cívico de Apoio à Candidatura de Manuel Alegre" corre na Internet uma listagem que procura atingir as 15.ooo assinaturas.
Companheiros/as saiam da inactividade e vamos dizer que o país não pertence à minoria que o dirige, mas a todos nós.

Eu Apoio Manuel Alegre

Criei este Blog para apoiar a candidatura de Manuel Alegre à Presidência da Républica. Este texto é um mero ensaio.

Voltarei brevemente.